quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O TROTE


por Edson Negromonte

Quando estava entrando na adolescência, ele saiu pedalando desabaladamente a bicicleta pela porta da frente da casa onde morava, tomando impulso desde o final do comprido corredor que a dividia em duas alas. Suprema glória, passou voando pelo degrau da entrada, de pedra... Será um pássaro? Um avião? Não, é o Super-homem!... e caiu de boca no para-choque de um caminhão que estava fazendo manobra de ré, justamente naquela hora. Estarrecidos, os vizinhos que conversavam despreocupados em frente às casas viram-no grudado no para-choque de ferro de um antigo caminhão do exército, dando a grotesca impressão de que o menino estava mordendo o veículo. Todos correram em socorro, tirando-o ensanguentado dali, os dentes espalhados pelo chão. Passou meses em recuperação e, em consequência de choque tão violento, uma devastadora piorreia levou o restante dos dentes, deixando-lhe somente os quatro caninos. Essas pontiagudas recordações do que houvera sido a promessa de um belo sorriso pareciam nitidamente um toca-fita, a gaveta aberta, com os pinos à mostra. Desde esse dia, ele passou a ser conhecido por todos pelo maldoso apelido de Toca-fita. Alguns tentaram chamá-lo de Nosferatu, mas não colou. Ele seria para sempre Nico Toca-fita.
Nico, uma das figuras mais engraçadas de Antonina, tornou-se, desde a minha chegada à cidade, um dos meus amigos do peito, daqueles de quem se gosta de graça, mesmo porque a sua personalidade arredia não fazia esforço algum para que se gostasse dele. Mentiroso que só, adorava pregar peças nas pessoas, principalmente nos amigos mais próximos. Uma vez chegou na Praça Coronel Macedo, consternado, contando-nos, pesaroso, que o padre William, nosso querido mestre dos rudimentos da língua inglesa, tinha morrido. De início, nos recusamos a acreditar, por já conhecer de sobejo as suas brincadeiras de mau gosto. Volta e meia, "matava" um, "acidentava" outro, só para se divertir às nossas custas. Acontece que, desta vez, o patife foi muito convincente, demonstrando tanta tristeza, jurando por Deus, que, ao final de alguns minutos, estávamos quase chorando, lembrando saudosos do quanto aquele padre fora bondoso e paciente, ensinando-nos a língua de Shakespeare da maneira mais cativante possível, através das letras de música de Uriah Heep, T.Rex e James Taylor, provocando risadas genuínas ao jogar um toco de giz no chão e gritar nothing, à imitação de Alice Cooper, recordando a sua própria adolescência, de quando fugiu de casa para ir a Nova York assistir a um show de Simon & Garfunkel. Ah, padre William era mesmo um grande camarada! Com a emoção à flor da pele, ouvimos, então, o som familiar de uma buzina. Era o bom padre cumprimentando-nos de dentro do seu fusca, saudável e sorridente, como sempre, enquanto Nico desatava a rir, radiante por ter pregado mais uma peça. Depois de passada a surpresa inicial e a raiva momentânea (tivemos até vontade de quebrá-lo ao meio), rimos todos juntos. Que remédio! O cara não valia nada mesmo, queria somente se divertir.
Esses padres redentoristas atuavam de maneira muito eficaz na pequena comunidade, integrando-se de corpo e alma na vida social de Antonina. Um dos mais agradáveis era o padre Joãozinho, que, uma noite, foi parar na cadeia. Em busca das ovelhas perdidas do rebanho, o religioso foi inadvertidamente levado por Maneco Capeta e Johnny Pererê, dois pândegos inseparáveis em busca da dose diária de diversão, para tomar umas cervejas na Boate, curioso nome pelo qual era conhecida a parte chique da zona de meretrício da cidade, cujo inusitado e inventivo slogan era Good girls, good drinks, good nights. Cerveja vai, cerveja vem, a mesa foi ficando cheia de garrafas vazias, ao som de "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", o grande sucesso de Odair José. Quando padre Joãozinho levantou-se para pagar a conta, meio balão, percebeu que esquecera os documentos e, pior ainda, o dinheiro, no bolso da outra calça, na casa paroquial. De nada adiantou dizer e afirmar e jurar em nome de Deus que era padre; a dona da casa jamais acreditaria em história tão descabida.
– Vagabundo! E ainda vem me dizer que é padre! Além de tudo, mentiroso! Caloteiro! Salafrário! Sacripanta!
A mulher ligou para a delegacia e lá se foram os três companheiros de esbórnia, a bordo do vasquinho, nome pelo qual era conhecido o temido fusquinha preto e branco da Polícia. No dia seguinte, os próprios Pererê e Capeta se encarregaram de espalhar a grande nova pela cidade, o que resultou na transferência de padre Joãozinho para uma paróquia distante, em busca de novas ovelhas desgarradas, mas nem tão distantes do rebanho.
Certa vez, meus pais e minha irmã foram passar um final de semana na praia, deixando-me sozinho em casa, no bairro da Caixa d'Água. No início da tarde, Nico apareceu por lá, trazendo debaixo do braço o último disco do Ten Years After, o qual ouvimos atentamente, outra vez e outras mais até enjoarmos. Depois botamos para rodar Creedence, Rolling Stones, encerrando com Led Zeppelin, no último volume, estremecendo as paredes, com "Whola Lotta Love". Incomodada, a vizinhança botava a cabeça pelas janelas, inconformada com a barulheira infernal. Insatisfeitos e para desafiar de vez a ordem das coisas, botamos para rodar, bem alto, o compacto de Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", canção de protesto proibida pela Censura do governo militar. Curiosamente, ninguém entendeu nada, mas ninguém mandou nos prender.
Com os tímpanos cansados, entupidos de tanto rock'n'roll, resolvemos passar trotes pelo telefone. Ligamos, primeiro, para um ponto de táxi, pedindo um carro para o Lar Infantil, localizado um pouco mais à frente de casa. Demos muitas risadas quando o táxi voltou sem passageiros. Em seguida, ligamos para o outro ponto de táxi, aplicando o mesmo trote. Dera certo novamente, outro carro vazio. Era o máximo! Daí, mais confiantes, começamos a ligar para as casas das pessoas, perguntando se queriam comprar um recém-inventado "carapel".
Quando, do outro lado, indagavam o que vinha a ser o tal "carapel", singelamente respondíamos:
– Ué, um caralho de papel!
Quantas gargalhadas demos com a brincadeira. Meu Deus, como era engraçado! Madrugada adentro, nos divertíamos a valer, telefonando para quase toda a cidade, procurando nomes na lista telefônica.
– Quer comprar um carapel?
Por volta das três da madrugada, ligamos para dona Miralba, professora de Física do colégio, e com voz melíflua perguntamos:
– A senhora deseja comprar um carapel?
– O quê?
– Um carapel!
– O que é isso?
– Ué, carapel é um caralho de papel!
Ao ouvir tal disparate no meio da noite, a mulher desatou a chorar. Imediatamente, o seu marido, o alemão Schirach, pegou o telefone e começou a gritar enfurecido, num português arrevesado:
– O que serr isso? O que serr isso, seus fagabundas?
– Um carapel!
– O quê?
– Um caralho de papel! Hahahaha!
Então, achamos melhor parar com a brincadeira, aquilo já tinha ido longe demais: tínhamos feito chorar a professora. Mesmo assim, o riso era incontrolável. E se descobrissem? Ora, isso era impossível! Hahaha!
Na TV, estava começando um filme que marcaria as nossas vidas para sempre, "A Mosca da Cabeça Branca", com Vincent Price. Quando o filme terminou, resolvemos voltar aos trotes, mas o telefone não dava sinal nenhum, não tinha som, desligávamos o aparelho, tirávamos o fone do gancho, e nada. Silêncio. O que teria acontecido? Seria a maldição da mosca? Isso que dá assistir a filmes de terror, ainda mais de madrugada! Ô, merda! Nico foi para casa, tremendo de medo. A mosca, a mosca da cabeça branca, tínhamos então certeza disso, era o sinal de que pagaríamos caro pela molecagem.
Antes de me deitar, tirei o fone do gancho e fiquei escutando... Silêncio, silêncio sepulcral. Rezei muito, até pegar no sono. Acordei cedo e corri ao telefone. Longe, muito longe, ouvi vozes indistintas, parecia gente conversando, não consegui entender uma única palavra. Fiquei intrigado, com algum medo, pois tinha lido há pouco tempo na revista Planeta sobre as experiências russas que captavam as vozes dos mortos, justamente através de... aparelhos telefônicos.
– Ô, merda!
Comi alguma coisa e fui quase correndo à casa de Nico. Ressabiado, não entrei, chamando Nico para sair. Junto com o amigo, com o cúmplice, fui me sentindo melhor, cada vez mais seguro e, dali a pouco, estávamos despreocupadamente rindo a bandeiras despregadas do que tínhamos aprontado. Mas ao passar em frente às Casas Pernambucanas, ouvimos de dois caixeiros que estavam à porta:
– Ó, os dois que ligaram para a casa da dona Esperança, chamando ela de puta e outras barbaridades.
Não, nós não tínhamos telefonado para a dona Esperança. Ou tínhamos? Mas, certamente, não tínhamos chamado de puta aquela velhinha tão simpática, de cabelos brancos da cor da neve e fazedora de deliciosos doces. Isso não! Nunca! Aliás, seguramente não tínhamos chamado ninguém de puta, somente oferecíamos o singelo carapel. Por onde passávamos, ouvíamos os comentários mais disparatados sobre os trotes, as pessoas inventavam as maiores mentiras sobre aquilo tudo, nos transformando em lendas urbanas. Recorremos, então, desesperados ao pai de Nico, homem sábio que sempre sabia o que fazer em situações difíceis. Ele nos aconselhou a irmos até a casa de dona Miralba e contar tudo, pedir perdão a ela e prometer que não faríamos mais essas brincadeiras de mau gosto, assegurando-nos de que era essa a maneira mais acertada de agir para não piorar a situação. Ainda, conforme o sábio homem explicou, o velho Schirach, seu conhecido, trabalhara com telefonia durante a Segunda Guerra e tinha, assim, conseguido travar a linha, discando algum código numérico, e que ele, mais cedo ou mais tarde, certamente descobriria de onde partira o maldito trote, mesmo que a Telepar se recusasse a fornecer o número. Era só uma questão de tempo para que a notícia chegasse aos ouvidos do alemão, ao som da “Cavalgada das Valquírias”!
– Nós tamo é fudido! – profetizou Nico.
Cheios de aparente coragem, seguimos em direção ao bairro onde morava a professora e seu temível marido. Contavam, à boca pequena, que o velho combatera do lado dos nazistas, durante a Guerra, fato que o agigantava ainda mais aos olhos já arregalados dos dois agora minúsculos amigos. Por uma ação impensada, tínhamos que enfrentar um oficial da SS. Isso era demais para a nossa pouca idade, estávamos apenas começando a vida... Assim, seguimos caminhando pelos trilhos do trem, ensimesmados, caindo, escorregando, retomando o equilíbrio...
Ao divisarmos o portão branco, de madeira, da casa de dona Miralba, a uma pequena distância, titubeamos, pensamos em desistir. Olhamo-nos e, de comum acordo, entramos no boteco da esquina, escuro, fedorento, para tomar o tradicional trago da coragem. Sentados à mesa engordurada, pedimos:
– Uma gasosa Cini, de gengibirra!
Nervosos, rimos do inusitado pedido, éramos capazes de fazer piada da própria desgraça, mesmo seguindo em direção ao matadouro. Após esvaziar a garrafa, seguimos em frente; a situação tinha de ser resolvida.
Batemos palmas no portão e justamente o carrasco alemão veio nos atender.
– Sim?
– A dona Miralba está? – perguntei, com voz trêmula.
– O que focês querrer com Mirralba?
– Nós somos alunos dela...
– Entrra! – ordenou.
Ai, meu Deus, estávamos sendo "convidados" a adentrar as câmaras daquela miniatura de campo de concentração. Como faríamos para nos escafeder dali se o caldo engrossasse?
– Senta, senta! Ela xá fem!
– Mirralba, tem fisita parra focê! – ele gritou para a cozinha.
A professora veio, enxugando as mãos num pano de prato, imaculadamente branco.
– Focê conhecerr essas dois?
– É o irmão de Rute, e esse é o filho do Pedro, meus alunos. O que vocês querem? – perguntou ela, sorridente.
Fomos contando o que tinha acontecido, olhando somente para ela, atropelando as palavras, enquanto sentíamos os incandescentes olhos de fogo do alemão sobre o nosso couro, como ferros em brasa marcando judeus em Sobibor. E não será figura de linguagem se eu disser que podíamos sentir o cheiro de carne assada, queimada... na cozinha. Mas dona Miralba, estarrecida, não correu para salvar o assado, até o cheiro acre, de queimado, inundar a sala; o velho Schirach fechou a porta da cozinha. Eu só queria desaparecer dali, passar pelas frestas do assoalho, virar fumaça e respirar, novamente, o ar puro da rua. Finalmente, tivemos coragem de pedir que ela nos perdoasse, prometendo que jamais faríamos aquilo novamente, que tudo tinha sido um grande erro, que nos arrependíamos amargamente, quase chegando às mais sinceras lágrimas. Então, para nossa surpresa, olhando-nos maternalmente, a mulher disse para o marido:
– Querido, nesta cidade não se tem o que fazer. Aqui, os jovens não têm perspectivas. Você precisa levar esses dois meninos para trabalhar no sítio...
Que susto! "Trabalhar no sítio" só podia ser um código, e significava não voltar mais, deixar nossas famílias para sempre. Em linguagem cifrada, ela certamente estava se referindo a um campo de concentração, ao corredor da morte, às câmaras de gás, às terríveis experiências genéticas... Desesperado, balbuciei uma mentira esfarrapada qualquer.
– Não, eu não posso! Vou começar a trabalhar... em Curitiba... semana que vem...
– Eu também! Eu vou trabalhar com ele! Nós vamos trabalhar juntos, vou ser ajudante dele – emendou Nico.
Fez-se um silêncio sepulcral, enquanto Schirach nos observava, segundos que pareceram uma eternidade. Dirigiu o olhar para a esposa e, em seguida, para os dois garotos ali, encolhidos, suando nas palmas das mãos, à sua mercê.
– Se eu perrdoa focês, focês sai daqui dizendo prra todo mundo: "ah, aquele félho burra".
– Não, seu Schirach! O que é isso? A gente nunca vai dizer uma coisa dessas do senhor!
– A gente vai até rezar pro senhor... – começou Nico, sendo abruptamente interrompido.
– Eu não querro que focês reza prra mim! – gritou o alemão.
A melhor coisa a se fazer era mesmo ficar quieto, e bem quieto. Por uma inesperada ação da mão do Destino, dona Miralba olhou carinhosamente para o marido, na tentativa de enternecer o seu coração petrificado, vendo naqueles dois adolescentes perdidos, encolhidos em seu enorme sofá, os filhos que não tivera, que não pudera ter.
– Tá bom, eu fai retirrar o queixa!
– E destravar o telefone? – perguntei, num fiapo de voz.
– Sim, sim! Mas continuarr achando que os pais de focês defia ser castrado, capado, parra nunca mais botar gente assim na mundo. Agorra, fão emborra! Desaparreçam do minha frrente!
Não precisou pedir duas vezes. Desaparecemos na rua, pegando o trilho de volta para o centro da cidade, inicialmente calados, de cabeças baixas, contando os dormentes, depois sorrindo timidamente um para o outro, rindo um do outro e, finalmente, dando boas gargalhadas. Ah, como a vida era bela! Como valia a pena viver! Como era bom estar no mundo dos vivos outra vez. Por precaução, nos viramos para trás para ter certeza de que não estávamos sendo seguidos por nenhum dobermann. Em seguida, olhamos para frente, confiantes, sorrimos novamente um para o outro e, sem poder conter tanta felicidade, gritamos a plenos pulmões para a tarde, para a vida, para o céu, para os Céus:
– Ô, FÉLHO BURRA!!!