terça-feira, 31 de março de 2015

DA NECESSIDADE DE ESCREVER

Edson Negromonte

Conheci o hoje laureado escritor Andrés de Lucca lá pelos anos 70, em Hangares, um vilarejo no litoral do Paraná, para onde os hippies da época desciam em peso, em busca dos ideais de uma vida mais próxima à natureza, segundo as ideias revolucionárias de Jean-Jacques Rousseau. Tínhamos quase a mesma idade, com uma pequena diferença de dois anos,sôfregos adolescentes também em busca de ideologias. Dentro da efervescência cultural e política da época, participamos do mesmo grupo teatral, capitaneado por Siegfried Vuh, um maluco visionário que pregava a paz e o amor livre muitos anos antes de isso virar moda. Vuh, como o chamávamos, filho de um industrial da construção naval e uma cantora de ópera, resolvera abandonar a burguesia e levar a vida como bem entendesse, isso ainda no início dos anos 50, lapidando o hábito de comer apenas uma vez ao dia uma ração de aveia com leite de cabra. Na falta, usava mesmo o leite em pó, Glória ou Ninho. Era uma figura estranha: magérrimo, esmaecidos olhos acinzentados, a barba negra chegando ao peito quase sempre nu, desgrenhados os poucos cabelos, eternamente descalço e de calção de futebol, embora fosse um perna-de-pau. Vuh era respeitado no meio teatral paranaense, apesar de afirmar que jamais faria parte das panelinhas do Guaíra. Com ele, levamos a peça “A Família do Acrobata e o Arminho de Estimação” ao conceituado festival de Arara Roxa, cidadezinha do quadrilátero morcegal de Pernambuco, a qual contava a história de um espião brasileiro a serviço do nazismo. Estranhos para os dias atuais, os silêncios intermináveis e os ruídos pré-gravados, a mímica e a gesticulação extravagante, de insinuação sexual, atores rasgando com os próprios corpos paredes de papel-arroz, com gritos, gemidos e sussurros, eram entendidos pela plateia, como um código passível de decifração, uma espécie de “Finnegans Wake” da ditadura militar. Para Arara Roxa, viajamos durante seis dias num ônibus caindo aos pedaços, numa fedentina só, depois que Juca Bandido e Paulinho Perereca, dois atores do mesmo grupo, entupiram a privada. Apesar do nojo, a fome era de roer as entranhas, dividíamos o pouco que tínhamos, que leváramos de casa, irmanamente. Ah, aqueles abacaxis da beira da estrada foram providenciais. De tão famintos, só faltava comermos a coroa (não, não estou me referindo à mulher de Vuh. Ela seguia com o marido no conforto de uma caminhonete, à frente do nosso ônibus). Nunca mais comi abacaxis tão doces, tão saborosos. Na peça, eu fazia o papel do espião menino, contracenando com Valquíria, a filha bastarda de Vuh, enquanto o tímido Andrés escondia-se por trás de sacos de estopa, no papel de rocha, erguendo os braços ao ser açoitado pelos vagalhões de um mar tempestuoso, representado por Vuh, que fazia também o espião adulto, o acrobata aposentado e o arminho. Acho, não tenho certeza, que Andrés também ajudava Chispito na iluminação. Foi esta a minha única incursão pelos palcos; ao voltar de Arara Roxa, achei melhor me dedicar a coisas mais urgentes, como roubar canoas para ir remando até as Pedras Brancas, em busca dos melhores siris. Andrés continuou morando com a família de Vuh, o qual ele tinha tomado como uma espécie de guru.

Na casa de Vuh, a sede do grupo, Andrés já aprontava das suas: a novela “Aletria Elétrica”, lida em voz alta ou passada de mão em mão em cópias datilografadas em carbono, na qual ele ridicularizava os colegas. Ríamos muito dessas traquinagens, das quais ele poupava somente Siegfried Vuh. Era sábio o garoto prodígio, o embrião do grande escritor que um dia viria a ser sabia que a sua vida estava nas mãos do improvisado mestre. Naquele tempo, para ganhar um troco para o cigarro, ele costumava fazer traduções do inglês para a carteira de câmbio da agência local do Banco do Brasil. Como a casa de meus pais fazia fundos com a casa de Vuh, tendo inclusive um portão de acesso, uma passagem de servidão, era natural que, volta e meia, Andrés fosse filar um, dois, três pedaços dos gostosos bolos que minha mãe fazia. O seu favorito era nega maluca. De vez em quando, sentava-se para almoçar conosco. Apesar da fome nos olhos, era capaz de manter a educação e comer pouco, de acordo com a boa educação que recebera em casa. Minha mãe, apiedada, preparava-lhe um gordo farnel, como se o rapaz fosse viajar para longe. Várias vezes o vi deliciando-se com um bife frio ou um naco de carne de panela, sentado sob a mangueira secular que ficava na divisa dos dois terrenos, lambendo os beiços às escondidas. Lembro bem, como se fosse hoje, do enfant terrible na janela do meu quarto mostrando-me uma tela, onde reproduzira à perfeição (assim pensava eu, na minha prepotente ignorância) um quadro de Modigliani, o “Nu Sentado”. Como eu também pintava e desenhava, ele fazia questão da minha opinião, apesar de eu ser mais novo. Surpreso, pois até aquele momento eu sequer suspeitara do seu interesse pelas artes pictóricas, disse-lhe que estava muito bom. E realmente estava, dentro dos meus parcos conhecimentos da técnica da pintura; tinha eu somente 16 anos, era um intuitivo (ainda não ingressara na Belas Artes, da Emiliano Perneta, o que acabou tolhendo toda a minha criatividade, transformando-me em professor ao invés de artista). Mais surpreso ainda fiquei com a sua perspectiva de se profissionalizar como falsário dos grandes mestres. Será que ele falava sério, apesar da gargalhada? Alguns anos depois, reconheci a mesma gargalhada no Coringa, do Batman. Ou estaria o meu amigo sob a influência da mente distorcida de Vuh? Às vezes, as ideias do guru, no afã de estar sempre na contramão, de ser marginal a qualquer custo, podiam ser bem nefastas a uma alma em formação.

Ao me mudar para São Paulo, passei a acompanhar de longe a trajetória de Andrés, desde a publicação de alguns capítulos de “Aletria Elétrica”, na extinta revista Escrita. Com a publicação de “Monges Trapistas”, prefaciado pelo único poeta que conseguiu ultrapassar as fronteiras do Estado, teve início a sua tão almejada fama, embora ele em entrevistas recentes faça questão de dizer que nunca correu atrás dela. Agora, ele ocupa todas as prateleiras das livrarias com o best-seller “Os Saqueadores da Santa Ceia”, premiadíssimo, tanto aqui quanto lá fora. É sobre este livro que pretendo fazer alguns esclarecimentos. Primeiro, não tenho nada contra o uso que o autor faz do próprio pai como personagem, ridicularizando-o em praça pública. É comum em literatura o recurso à nossa própria vivência; nem só de ficção se faz um romance. Se Andrés de Lucca não quis mudar o nome do pai, isso é problema dele, e só a ele compete. Mas quando o autor relembra a primeira paixão, não correspondida, a adolescente Leonora Schiele, isto passa a ser da minha alçada. Conhecemos a garota quase ao mesmo tempo, com a diferença de um ano talvez, na ilha das Gralhas, quando ela contava entre 13 e 14 anos. Ora, Andrés, por que você, no livro, denigre a imagem da família Schiele? Essa família foi um marco para todos aqueles que privaram da sua intimidade. Você, certamente, não se perguntou se algumas dessas pessoas ainda estavam vivas, com filhos, netos, bisnetos, tendo que esclarecê-los sobre o diz-que-diz malicioso dos conhecidos a respeito da morte da matriarca Astra. As filhas de Leonora foram perguntar à mãe se era mesmo verdade o que está impresso na página 103: Mãe, o que é isso que estão dizendo sobre a minha vó? Não, Andrés, Astra não morreu de um coquetel de cocaína, ácido e uísque, como você fantasiou; sua já aguardada morte, embora não querida, ocorreu prosaicamente por problemas decorrentes da idade avançada, segundo os médicos. Ou a sua ficção quer ser mais real que a medicina? Outra coisa: a casa dos Schiele não era o antro que você pinta, à página 325, com portas caindo, incapazes de serem fechadas, ou sofás capengas, com molas saltadas que beliscavam a sua bunda, e nem mesmo brutamontes jogando pôquer a dinheiro e xingando em um dialeto estranho. Não, Andrés, Gustav, o marido de Astra, não era alemão, mas austríaco, natural de Viena. Sabe você que ele era tão querido que ao seu funeral compareceu toda a cidade de Hangares? Parecia até o enterro de um ídolo pop, como Francisco Alves ou Orlando Silva. Todos choraram a perda de Gustav, até mesmo os que discordavam das suas ideias políticas, as quais ele defendia com tanto ardor que chegava a emocionar os adversários. Gente dessa estirpe vem pouco à Terra, gente dessa natureza pertence a esferas mais sutis, são os governantes invisíveis do mundo. Até hoje, passados mais de 30 anos, Gustav ainda é lembrado com carinho. Quem pode se dar a tal luxo no nosso corrido mundo moderno, onde as pessoas, não contentes em atropelar as outras, atropelam a si mesmas? Sabe você que Bertoldo e Linda, os filhos mais novos do casal, também já faleceram? Portanto, não podem mais manifestar pesar pelas inverdades do seu livro. O guardamento de Linda foi comovente: um coral improvisado de mendigos, surgidos sabe-se lá de onde, cantou a “Ave Maria”, de Gounod. Mesmo desafinados, não houve quem não derramasse uma lágrima. Depois, tomaram um gole de café e se foram. Se estivessem vivos, Bertoldo e Linda teriam ido à sua casa só para lhe dar umas boas porradas. E Ferdinand (lembra dele, de apelido Mosquito), o mais velho, ficou muito sentido com o que leu. Como ele pode escrever essas mentiras? Sabe, não se deve brincar com a memória de uma família. Sei que vão dizer que à literatura tudo é permitido, mas em consideração à menina Leonora, que você descreve “linda como uma xícara de porcelana chinesa”, você poderia ter se valido do artifício do nome fictício. E, por falar em nomes, por que o do nosso amigo que morreu de complicações em decorrência da Aids foi omitido, se todos nós sabemos de quem se trata? Quanto cuidado! Ah, a família dele é influente aí na capital? E eu, como sei de tudo isso? É que, depois de dar várias cabeçadas na vida, acabei encontrando uma ocupação condizente: jardineiro na ilha das Gralhas. Pois é, eu não vendi a minha alma (conforme o nosso pacto. Lembra disso?), e, por mais incrível que pareça, ainda conservo os ideais rousseaunianos. Sou mesmo uma coisa ultrapassada, um bicho-da-concha.

quarta-feira, 25 de março de 2015

SEU NASCIMENTO

Edson Negromonte

Naqueles tempos difíceis, contava-se uma piada que exemplifica muito bem o medo que a população sentia dos militares, fossem do exército, marinha, aeronáutica ou da polícia. Tinha-se medo até de cobrador de ônibus, se estivesse fardado. Eu, pelo menos, sentia; e muito. Tenho certeza de que outros também sentiam, mas hoje em dia não fica bem falar assim sobre coisas de uma época que fazemos questão de esquecer. Muitos arrogam-se valentes, mas heróis mesmo foram Carlos Lamarca, Frei Beto, Bacuri e Herzog. Desculpe, não acredito em herói vivo. Pois bem, não precisa ficar irritado, vamos à piada: estava um cidadão, sozinho, no elevador, quando entra um senhor, de terno e gravata, e displicentemente pisa no sapato do cidadão. Este olha timidamente para o outro, que, sem se dar conta, continua calcando o bico do sapato do coitado, cuja unha do dedão está encravada. Não suportando mais a dor lancinante, educadamente, olha de soslaio, evitando olhar direto nos olhos, que isso podia ser sinal de enfrentamento, o pobre homem pergunta:

– O senhor é militar?

– Não!

– É parente de militar?

– Não!

– É amigo de militar?

– Não!

– Então, faz o favor de tirar o pé de cima do meu, seu filha da puta!

Um dos personagens emblemáticos dessa época, mais espirituoso e menos grosseiro, é Ubaldo, o paranoico, uma criação do cartunista Henfil, publicado semanalmente na última página da revista Isto É. Numa ensolarada quinta-feira, fomos brindados, através do inconfundível traço caligráfico, com a seguinte tira: tendo que passar entre dois PMs e não podendo desviar para a outra calçada, pois isso seria uma atitude demasiado suspeita, logo, uma mais que evidente confissão de culpa (éramos todos culpados; pelo menos nos sentíamos assim, tal a brutalidade da ditadura), Ubaldo decide que o melhor é mesmo enfrentar a paúra que sente dos brutamontes. Assim, sem sair da calçada, ele passa "inocentemente", porém trêmulo, em meio aos representantes da lei e da ordem. No último quadrinho, depois do corajoso feito, Ubaldo aparece olhando envergonhado para o leitor, pois aos seus pés há uma denunciadora poça de xixi. A revista passa de mão em mão, provocando risinhos, ainda tímidos, depois risadas e, supremo gozo, desafiadoras gargalhadas, quando então olhávamos para os lados, em busca de possíveis espiões, infiltrados entre nós ou observando-nos, encostados no único semáforo da cidade, instalado no cruzamento da rua Dr. Carlos Gomes da Costa com a Conselheiro Alves de Araújo.

A sanha dos militares em busca de comunistas ou coisa que os valha era tão encarniçada, que, certa vez, policiais do Doi-Codi, a terrível facção da polícia política do Exército, desceu de Curitiba à esquecida Antonina, para averiguar a denúncia anônima de que um simpático velhinho, gozando de merecida aposentadoria, conhecido por todos como seu Nascimento, tinha na biblioteca de sua casa livros proibidos, como o "Manifesto Comunista", o tão falado e pouco lido "O Capital", de Karl Marx, vários volumes de Trótski, de Lênin, Engels e, entre tantos outros, o temido "Guerra de Guerrilhas", de Carlos Marighela, perigosíssimo manual de guerrilha urbana, adotado mais tarde pelos terroristas alemães do Baader-Meinhoff.

Como num conto de Kafka, sem nem sequer um mísero mandado, com a costumeira truculência, na calada da madrugada, arrombando a porta, os esbirros da ditadura invadiram a casa de seu Nascimento, que já estava tranquilamente dormindo. Tiraram o casal de velhos da cama, empurrando-os, dando porradas e chutes, pescoções, pontapés, esfregando na cara da mulher o negro cassetete como um falo disposto a violentá-la, enquanto encostavam na cabeça do marido o cano frio da metralhadora. Como se divertiam os homens da lei ao perceber o suor frio do velho encharcando-lhe a testa, como davam risadas infantis ante a dificuldade da mulher para pronunciar qualquer coisa, alegar inocência talvez, trêmulos os lábios finos.

Animais sedentos de sangue, os mantenedores da ordem revistaram a casa toda, cada canto, debaixo da cama, em cima dos armários, gaveta por gaveta, até dentro do fogão olharam, deixando tudo em desordem, um pandemônio, em busca de material de propaganda comunista ou até, quem sabe, um daqueles malditos guerrilheiros do Araguaia que buscavam refúgio nas casas de cidadãos aparentemente apáticos, quando depararam, na biblioteca do pequeno escritório, com uma denunciadora estante... repleta de autores russos.

Em meio a ameaças, cascudos, coronhadas, o cano do revólver na boca de seu Nascimento, o sangue escorrendo pelo pijama do velho, os olhos arregalados da mulher, o choro, o riso, eles confiscaram os "perigosíssimos" livros: a obra completa, em papel bíblia, do czarista Dostoiévski, mais edições raras, algumas até autografadas, do cristão Tolstói, que foram encontrados alguns dias depois pelos escoteiros, abandonados numa das curvas da Estrada da Graciosa. Praticando a boa ação diária, os orgulhosos meninos os devolveram ao dono. Agradecido, seu Nascimento foi pacienciosamente amontoando livro sobre livro na calçada em frente à casa e, sem mais nem menos, ateou-lhes fogo, sob a vista da incrédula população que amava os livros, embora não os lesse.

quarta-feira, 18 de março de 2015

CARLOTA

Edson Negromonte

Sozinha em casa, Carlota viu-se num local que há muito tempo não explorava, desde a morte do pai; dia nublado, propício à introspecção. Aliás, pensando bem, desde os tempos de menina ela não ficava remexendo os tesouros esquecidos do sótão. Apesar da meia-idade, Carlota mantinha um irritante comportamento infantil que desnorteava as pessoas que dela se aproximavam, apesar das pequenas rugas em sua face. Após subir os degraus, parada na porta, ela foi aos poucos acostumando os olhos à escuridão. Displicente, esfregou-os com as costas das mãos. O cheiro forte do pai ainda impregnava o ambiente. Durante os últimos anos, o sótão se tornara o refúgio do homem que ela mais amara durante toda a vida. Por que então associava o mofo com o suor do pai? As pessoas têm um cheiro característico, mas esse cheiro só se torna evidente após a morte, quando encontra o seu correspondente numa fruta, uma sonata ou num momento de solidão: o odor característico do pai remetia a bolor. Não que isso seja ruim, é somente a constatação do cheiro do ser amado, sempre envolvido com livros que adquiriam o cheiro de húmus depois de lidos. Principalmente os de segunda mão, de papel jornal, da década de 40. Esses livros, facilmente encontráveis nos sebos, possuem uma facilidade bem maior de se impregnar do cheiro das últimas pessoas que os leram, como mata-borrões ou vampiros ou as paredes porosas de um lupanar.

Cerimoniosa, como se pedisse licença ao fantasma do pai, Carlota sentou-se na poltrona gasta, forrada de um tecido estampado de flores que, um dia, tinham sido vermelhas, exalando um outro cheiro associado ao pai, o qual estava para sempre ligado às férias na praia, as infindáveis tardes de sal grosso que o vento impiedoso insistia em trazer de volta às narinas de Carlota. Doído, porém irresistível. Ligou a luminária; incrível que a lâmpada ainda acendesse após tanto tempo. Dias, meses que tinham se transformado em pouco mais de um ano. A claridade afastou as sombras incômodas de outros fantasmas para o lado, empurrando-as abruptamente para as paredes do pequeno cômodo, apesar de se parecerem com as outras sombras dançarinas que o pai projetara durante a sua passagem pela terra. Na mesinha de centro, com desenhos geométricos em vermelho e preto sobre o tampo branco (resquícios de um modernismo tardio), Carlota percebeu um livro, um único livro, ali, solitário, cada vez mais evidente, como se o pai tivesse esquecido propositadamente de guardá-lo na estante, junto aos outros, depois de lidos e anotados a lápis. Era um conhecido volume de poesia... Emily Brontë. Carlota sabia que as irmãs escritoras tinham sido a inspiração para o pai dar às filhas os seus nomes, devidamente aportuguesados. Emília falecera antes dos quinze anos, de um mal que nenhum médico soube diagnosticar, a doença lhe corroera os ossos em questão de meses, enquanto Ana, a mais moça, tinha fugido de casa para casar com o vagabundo do filho do vizinho. Nunca mais Ana botaria os pés na casa, nem na cidade. Ana não compareceu ao enterro do velho, sequer telefonou. Emília era a favorita do pai, Carlota tinha certeza; nos últimos momentos, ele chamara baixinho por ela: Emi, Emi... A enfermeira disse que certamente ele estava vendo os seus mortos, que vinham lhe dar as boas-vindas, segundo a crença popular. Somente Carlota ficara fadada à charneca da casa paterna. Sabia disso, tinha certeza, mas não se amargurou jamais. Como todos os parentes diziam: Carlota era infantil, incapaz de se irritar por muito tempo com as palavras mais ásperas das tias, tudo em Carlota era momentâneo, até o amor, nunca uma paixão arrebatadora. Somente ao pai ela foi capaz de amar durante toda a vida, sem restrições, nada exigindo, a não ser que exalasse diariamente o odor característico pela casa, inebriando a sala, os quartos, deixando um rastro que Carlota, empinando levemente o nariz, acompanhava sem sair do lugar.

Os nossos mortos nos acompanharão sempre, pois através deles somos capazes de medir os mínimos gestos, os mais cotidianos, os quais são imensuráveis enquanto os mortos futuros ainda estão aparentemente vivos. Mas, contra tudo e contra todos, contra si mesma, Carlota sabia que precisava se livrar daquele fardo, do esquife que a arrastava ao abismo, a tampa entreaberta, o olho bom do pai observando-a, fixo. Sentia-se incapaz de pisar nos ovos de barata de uma alma sequiosa de carinhos. De repente, Carlota percebe a língua branca de uma papeleta, de entre as páginas do livro, estendendo-se, movimentando-se em sua direção, como um réptil. Num gesto impensado, confiante, infantil, Carlota apanha o pequeno volume encadernado, abre-o no ponto marcado e lê, na inconfundível caligrafia paterna, a reveladora frase de toda uma vida de silêncios: “Eu sou o homem-baiacu”.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O CINEMA


Edson Negromonte

No Cine Ópera, o qual atualmente voltou a atender pelo antigo nome de Theatro Municipal, depois de uma reforma que lhe devolveu as linhas arquitetônicas originais, os jovens se encontravam para assistir a filmes muitas vezes com o prazo de validade vencido, cheios de emendas, remendos e cortes, mas principalmente para namorar, fora do alcance dos olhos dos pais. Minha primeira lembrança dessa casa de espetáculos, onde, na década de 30, se apresentavam muitos cantores operísticos, alguns até de renome internacional, como dona Carmen do Alentejo, vem justamente do dia da minha chegada à cidade, no último ano da década de 1960, quando minha família instalou-se no segundo andar de um sobrado, situado na rua principal, defronte ao cinema. Um pouco antes de começar a sessão das oito, os alto-falantes berravam algumas músicas, como ainda hoje é comum nos parques de diversões instalados temporariamente nos mais perdidos rincões do interior. Em minha primeira noite na cidade, entre velhas pérolas do cancioneiro popular, como "Índia" e "Meu Primeiro Amor", nas vozes de Cascatinha e Inhana, ao gosto do gerente, eis que subitamente o ar se enche de um familiar fraseado de contrabaixo e, então, os Beatles gritam:

Don't let me down!

Para deleite meu e de minha irmã, que adorávamos os quatro cabeludos de Liverpool, eles insistem:

Don't let me down! Nobody ever loved me like she does...

Logo em seguida, vinha "Pra Frente Brasil", o hino da seleção que disputaria a Copa do México, de onde sairíamos consagrados com o tricampeonato mundial de futebol, com craques da pelota, como Tostão, Pelé, Jairzinho e Rivelino, para alegria geral da nação, mas principalmente de Garrastazu Médici, o general-presidente:

Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil, Brasil
Salve a Seleção
De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil, Brasil
Salve a Seleção

Era o sinal tácito de que a sessão ia finalmente ter início, com trailers de filmes, que terminavam sempre com o indefectível Breve Neste Cinema, os quais não eram exibidos nunca, ou quase nunca, apesar dos cartazes permanentemente expostos no saguão. Seguia-se então o Jornal da Tela (o nome do produtor Primo Carbonari nos era familiar, como se fosse um parente próximo, mas do qual nunca víramos sequer o bigode), com as últimas notícias, principalmente as do campeonato nacional. Daí, geralmente, vinham dois desenhos animados, de no máximo sete minutos de duração, variando entre Tom & Jerry, Popeye e Pernalonga, mais um curta-metragem, que podia ser Chaplin ou o Gordo e o Magro, para ser exibido finalmente o longa anunciado no cartaz. Nos sábados à tarde, nas matinês, a molecada era brindada com uma sessão dupla, onde se podia assistir a velhos bangue-bangues, com caubóis do tempo do onça, mas que ainda causavam furor, mais episódios de séries produzidas para a TV americana, como Rin-Tin-Tin ou Lone Ranger, chamado indevidamente, no Brasil, de Zorro. Na porta do cinema, trocavam-se figurinhas e gibis. Quantas vezes dei dois, três gibis do Cavaleiro Negro ou do Flecha Ligeira em troca de um do Risko ou Antar. Após a sessão das oito, as pessoas iam passear na praça Coronel Macedo, em volta do chafariz e do coreto, onde a banda recebia os namorados com o bolero "Besame Mucho", a valsa "Sobre as Ondas" e o apaixonante hino da Marinha: "Cisne Branco".

Quantas vezes, junto com meu amigo Nico, fui expulso do cinema, em meio à sessão, por jogar do alto do balcão ovos de jatutá sobre a plateia entretida com o longa da semana ou as carícias amorosas. Então, o inevitável facho do lanterninha apontava em nossa direção e ficávamos terminantemente proibidos de entrar no cinema, coisa que burlávamos facilmente, na semana seguinte, pois éramos amigos da bilheteira que, aproveitando-se da ausência do gerente, deixava-nos entrar, sob a promessa de que nos comportássemos. Jatutá, vocábulo que não consta dos dicionários, é um caramujo, de porte médio, do qual colhíamos os pequenos ovos no Morro da Cruz e os deixávamos apodrecer, no quintal, durante os dias da semana, lentamente, sob a ação de um tímido sol de inverno, úmido, típico do litoral paranaense, para então transportá-los cuidadosamente nos bolsos do casaco e, no momento combinado, arremessá-los na plateia. Era gente gritando, xingando, quase vomitando, devido ao mau cheiro dos pequenos ovos devidamente preparados, quer dizer, apodrecidos.

Assisti, no saudoso Cine Ópera, durante todos os dias da semana, a "Sem Destino", o mais clássico filme de estrada de todos os tempos, o qual tinha no elenco Peter Fonda e Dennis Hopper, cavalgando cobiçadas Harley-Davidson, na tradição americana dos caubóis solitários, mas principalmente o iniciante Jack Nicholson, no papel do advogado bêbado. Primorosa a trilha sonora, com a guitarra pujante de Jimi Hendrix, a voz psicodélica de Grace Slick, do Jefferson Airplane e, é claro, o Steppenwolf, com a matadora "Born to be Wild". É um filme que traz, até hoje, às minhas nostálgicas narinas, como um cão doméstico farejando o passado em busca do lobo que outrora fora, a fragrância da adolescência, da descoberta da vida, do sexo, da droga, enfim, do arrombamento das portas da percepção. Na iniciática sala escura, também vi "O Exorcista", que me fez ir para casa às carreiras, desabalado pela deserta e infindável Avenida Matarazzo, à meia-noite, em busca da segurança do lar, onde eu achava que meus pais enfrentariam o Diabo por mim. Mas os filmes de terror que chamavam mesmo a minha atenção eram os do Zé do Caixão. Item obrigatório para os meninos; as meninas, esses seres sensíveis, se recusavam a entrar no cinema, enojadas de ver aranhas caranguejeiras, negras e peludas, andando calmamente pelo rosto da estarrecida atriz, de olhos esbugalhados, o medo genuíno. Ao escrever essas linhas, lembro-me agora do meu primeiro encontro com Mojica, em São Paulo, quando andando ao seu lado senti, em meio a uma animada conversação, o cheiro característico, guardado durante tanto tempo no baú da memória, talvez de carne em putrefação, quem sabe, o mesmo cheiro acre que associo hoje aos velhos celuloides, em preto e branco, capazes de combustão espontânea, ou, ainda, às figuras esquálidas de um circo mambembe, à luz que emana ininterrupta da sala de projeção de um velho cinema. Nem a carne tenra de Regan queimando, efervescendo, como um Sonrisal, sob a ação da água benta, foi capaz de produzir tal efeito em minha educação sentimental. Havia também os faroestes italianos, onde pontificavam Django e Sartana, além da inesquecível dupla de cômicos, também italianos, Ciccio Ingrassia e Franco Franchi, mas o que mais atraía a atenção dos jovens, levando-os a desembolsar os parcos caraminguás, eram certamente as pornochanchadas, típico produto nacional da época, com nomes de peso do nosso humorismo, como Grande Otelo, Costinha e Wilza Carla. No pequeno palco do Cine Ópera, apresentou-se, um dia, em carne e osso, o cômico Rony Cócegas, que levou a plateia ao delírio ao cantar "Upa, Negunho", em versão alterada para 78rpm, numa pândega imitação de Elis Regina. Prometemos que jamais esqueceríamos da breve passagem do grande humorista pela cidade. Mas a verdade é que esquecemos, e nem sequer lamentamos a sua morte, muitos anos depois.

A sétima arte tornou-se parte da minha vida, pois, até essa época, a minha única lembrança de uma sala de cinema era de quando, aos cinco anos, fui levado pelos meus pais para assistir a "A Dama e o Vagabundo", de Walt Disney, em Blumenau, cujo hall de entrada em tudo se assemelhava, pelo menos em minha memória construída, à do Radio City Music Hall, de "A Era do Rádio", o melhor filme de Woody Allen. Sim, eu também fiz o álbum de figurinhas, grudadas com goma de araruta, preparada no fogão da cozinha, pois ainda não tinha sido inventada a cola Tenaz. Quando esse clássico da animação passou em Antonina, no final da minha adolescência, eu afanei justamente o lobby card da cena mais brega de todos os tempos: os dois cachorros saboreando romanticamente o mesmo fio de espaguete, à mesa da cantina italiana. Guardei-o durante muitos anos; e, num surto nostálgico, preguei-o na parede do escritório, mas o tempo encarregou-se de transformá-lo em quase nada, em pó de pirâmide, a matéria-prima dos desertos, ou, melhor, em pretexto para este raconto.

quarta-feira, 4 de março de 2015

O SEBO


Edson Negromonte

Quatorze anos passei atrás do balcão de um sebo, onde, além de livros e revistas usados, eu vendia, comprava e trocava também discos de vinil. Esses estabelecimentos comerciais, as primeiras livrarias permitidas em terras brasileiras, entraram em minha vida quando eu morava em Antonina e carecendo de grana para ir ao show "Atrás do Porto Tem uma Cidade", de Rita Lee e Lúcia Turnbull, subi a Curitiba para me desfazer de uma coleção de Tecnirama, a qual não me era mais útil. Eu a ganhara de um primo, numa aposta; ele duvidou que eu fosse capaz de pular do segundo andar de um prédio, em cima de um monte de areia. Passei, então, a frequentar com assiduidade os sebos, em busca de preços acessíveis, para em seguida descobrir as obras raras, fora de catálogo, e tornar-me, adulto, o feliz proprietário de um, ao qual dei o original nome, assim eu pensava, de O Alfarrábio, inspirado por Jorge Luis Borges, durante uma palestra no auditório do MASP, no exato momento em que o grande escritor argentino proferiu a sugestiva frase en los viejos alfarrabios de mi padre. Ao voltar para casa, corri ao Aurélio e deparei com o significado: livro antigo ou velho e de pouco préstimo, ou valioso por ser antigo. Mais tarde, descobri que alguns Estados, como Minas e Pernambuco, também tinham os seus tão originais Alfarrábios. Nessa época, o velho escritor já estava cego, sendo carinhosamente levado pelo braço pela secretária Maria Kodama.

Para minha surpresa, o meu Alfarrábio era o primeiro sebo de toda a história de uma operária cidade paulista, que os urubus de plantão asseguraram que jamais daria certo, “operário não lê”. Orgulhosamente, mostrei a todos o contrário: operários e filhos de operários leem sim, assim como os meninos de rua, guardadores de carro, os quais iam se divertir com as revistas de histórias em quadrinhos do Batman, Capitão América e Super-homem, inclusive as prostitutas que faziam ponto na praça em frente à livraria, nos fundos da igreja matriz. Ao sebo, elas iam, nas horas de folga, em busca das histórias de amor das revistas Sabrina, Júlia e Bianca. Curiosamente, poucas se interessavam pelas histórias de príncipes e princesas de Barbara Cartland. Algumas dessas mulheres da vida, cansadas da leitura água com açúcar, pediam-me que lhes indicasse um livro para passar as horas entre um cliente e outro. Inevitavelmente, indicava-lhes "Horizonte Perdido", de James Hilton. Todas eram unânimes em dizer que tinham adorado o livro. Assim, eu ia pondo em prática a teoria de que todo ser humano, independente da classe social, almeja a atividade intelectual, precisando somente ser despertado para tal.

O proprietário de um sebo, geralmente um amante dos livros, precisa ser muito cauteloso, pois pode acontecer de consumir o estoque, como é comum entre os alcoólatras que resolvem abrir um bar. E, para amantes de livros, não basta somente lê-los, é preciso possuir o objeto de desejo. Então, eu os levava para casa durante um tempo, para depois devolvê-los, quando o dinheiro minguava (alguns, nem todos), para as prateleiras do sebo. Com os discos acontecia a mesma coisa. Apesar do desprendimento quase obrigatório, cheguei a ter em minha coleção mais de cinco mil elepês e uma infinidade de livros, que ocupavam as paredes de casa. Os de poesia concreta eram os meus preferidos, a menina-dos-meus-olhos. Tanto, que dei ao meu filho mais novo o nome de Augusto, uma homenagem ao grande poeta-inventor.

O colecionismo é uma prática, ou doença, como queiram, que me concedeu algumas alegrias. Uma delas, ser citado numa matéria do jornal O Estado de S. Paulo, no caderno de variedades, como um dos maiores colecionadores do país de séries de TV. Com o advento do videocassete e, mais tarde, da TV a cabo, e com a enorme gama de opções, principalmente dos canais dedicados à nostalgia, passei a dormir somente duas, três horas por dia. Cheguei ao cúmulo de colocar o despertador dentro de uma lata de Neston, um improvisado amplificador, para despertar entre uma atração e outra, a fim de gravar de madrugada todas as velharias da minha infância, como Lassie, Missão Impossível, A Família Dó Ré Mi, Os Monkees, Flipper, Speed Racer, Os Monstros, Família Addams, e tantas outras mais. Um dia, tive lamentavelmente que me desfazer de todo o meu acervo, ao mudar para o Estado do Rio, em busca da segurança da casa paterna, depois de um casamento desfeito. Certamente, conservei algumas coisas, poucas, raras, caras, queridas, que me acompanham até hoje.

No pouco espaço que restava das paredes do sebo, fiz questão de pendurar alguns retratos, emoldurados, dos meus favoritos. Os fregueses podiam, assim, admirar o jovem Jack Kerouac, segurando uma velha mala de papelão, pronto para botar o pé na estrada; um Pedro Kilkerry, de terno e gravata, o qual me fora cedido pelo poeta e editor Cléber Teixeira; a belíssima Hilda Hilst, quando ela ainda frequentava a alta sociedade; a foto da única reunião dos quatro grandes do terror: Vincent Price, Christopher Lee, John Carradine e Basil Rathbone; uma gravura de Walt Whitman, de mangas arregaçadas e grosseiro chapéu de feltro, à época da primeira edição de "Folhas de Relva"; John Fante, de olhar lânguido, tal e qual um artista hollywoodiano dos anos 50. A galeria completava-se com as fotos, lado a lado, de Edgar Alan Poe e James Joyce, mais um postal, com a vista da rua principal de Antonina, ainda com o canteiro central, onde escrevi a nanquim no rodapé, parafraseando Drummond, no poema "Confidência do Itabirano": Antonina é apenas uma fotografia na parede, mas como dói. Houve um tempo que arranjei espaço para afixar também um pequeno quadro de feltro, onde as pessoas podiam ler as notas publicadas na imprensa diária sobre as barbaridades da vida pregressa de Fernando Collor, então candidato à presidência da República. Petista, partidário de Lula, eu dava descontos a quem declarasse voto favorável ao líder operário. Quase fui preso pela brincadeira: no ar, através do seu programa, um radialista local, partidário do Collor, exigiu a minha prisão.

Um sebo sempre proporciona ao seu dono histórias interessantes, além dos chatos que abusam da boa vontade alheia, vangloriando-se por terem lido meia dúzia de livros. Esta história é uma das que mais me marcaram: uma manhã, por volta das nove horas, como era de costume, devido ao pouco movimento, estava eu entretido com as páginas de um bom livro, quando adentra a livraria uma negra vistosa, num vestido azul celeste, de babados, o que só vinha a realçar ainda mais a sua beleza madura. Pousa no balcão a bolsa e pergunta-me suavemente, num cicio, se eu tinha "O Livro de São Cipriano", de capa preta. Coincidentemente, no final do expediente do dia anterior, eu comprara um lote de ocultismo. Entre eles, viera um exemplar do tal livro, de cantoneiras prateadas e capa nigérrima.

– Esse é o verdadeiro São Cipriano? – perguntou.

– Sim... – respondi.

Folheava o volume encadernado, o qual ia tornando-se cada vez mais negro, resplandecente. Folheava à cata de um capítulo, uma página, um parágrafo, o qual ela sabia muito bem onde encontrar. Leu atentamente, quase em voz alta, os olhos acompanhando o dedo indicador da mão direita.

– Isso funciona? – perguntou à queima-roupa.

– Funciona! – respondi, buscando convicção sabe-se lá de onde. Das entranhas, talvez. Eu precisava vender; tinha contas acumuladas, de água e luz, que precisavam ser pagas, além do mais tinha uma família para sustentar, essas coisas que os fracos alegam quando querem se desculpar ou culpar a outrem por suas próprias faltas.

– Funciona mesmo? – insistiu.

– Funciona!

Meu Deus, como eu precisava vender! Fazia parte do meu procedimento comercial que o primeiro cliente saísse do sebo com um livro debaixo do braço, mesmo que o desconto fosse maior que o lucro, mesmo que eu perdesse, porque o cliente satisfeito deixa no estabelecimento uma aura de felicidade, aura essa que no decorrer do dia atrai mais clientes. E essa mulher era justamente a primeira pessoa a entrar no sebo naquela fatídica manhã.

– Porque se não funcionar, eu volto aqui – disse ela, com perceptível tom de ameaça na voz quente e levemente rouca, vinda dos lábios pintados de carmim.

Estremeci, subiu-me o sangue às faces, minhas mãos esfriaram, as pontas dos dedos formigavam, mas nada disso deixei transparecer. No comércio, aprende-se a dominar os sentimentos.

– Eu preciso matar a mulher do meu amante...

Quase desfaleci; a vista toldada, eu via somente uma nuvem negra, de dentro da qual o próprio Cipriano me espreitava, de sorriso escarninho. A mulher levou o livro, sem que eu precisasse fazer o mínimo desconto. Trêmulo, embrulhei-o. Ela, com um sorriso, guardou-o na bolsa (que agora me parecia bem maior) e foi-se, rebolando, deixando o rastro de um perfume adocicado que ainda me vem às minhas enquanto escrevo essas linhas. Devo acrescentar que precisei sentar para me recompor, para assentar as ideias. Com o decorrer do dia, a calma de meu coração disparado foi se restabelecendo. A chegada das pessoas foi diminuindo os efeitos da visita inesperada.

No domingo seguinte, ao passar em frente à TV, o sorridente Silvio Santos anunciava uma das maiores jogadoras de búzios de todos os tempos. Como sou morbidamente atraído por charlatões, essa gente capaz de se aproveitar da credulidade alheia, como se as artes divinatórias fossem ciências exatas, parei para ver as patacoadas que a vidente diria a respeito da economia mundial, da morte do Papa ou do andamento da eleição do novo Presidente. E quem surge na telinha? Sim, a minha cliente, a mulher que comprara o “Livro de São Cipriano”, de capa preta e cantoneiras prateadas. Saí para a rua, preocupado. A mulher era mais poderosa do que eu supunha. Abri a loja na segunda-feira, à espera de que, de uma hora para outra, ela entrasse e atirasse o São Cipriano na minha cara. E eu merecia mesmo! Ela estaria coberta de razão e eu aprenderia a não me aproveitar da credulidade alheia. Veio a terça-feira e nada da mulher aparecer. Quarta, quinta, sexta e, finalmente, o sábado. Meu coração apaziguou-se, com o bálsamo que é um dia após o outro. Passaram-se meses, ou nem tanto, o que sei é que tudo voltara ao normal. Eu nem lembrava mais do ocorrido, quando, certo dia, pela manhã, ei-la que surge vestida toda de branco, caminhando decidida em minha direção, para na minha frente, encarando-me com olhos negros e brilhantes. Então, a senhora dos búzios abre um belo e alvo sorriso e diz:

– Funcionou!