sexta-feira, 22 de setembro de 2017

UM VEÍCULO, SIMPLESMENTE UM VEÍCULO


Edson Negromonte

A velhice concede aos velhos, somente aos velhos-velhos, um insuspeitado conceito de tempo, o qual leva à fruição sem culpa dos dias do passado. Assim, depois do sono da tarde, enquanto me acostumava novamente com os pequenos ruídos exteriores, vi desfilar uma parte da galeria de personagens que frequentava o sebo do qual eu tirei, durante muitos anos, o sustento da minha família: o poetastro local ainda olha-me, disfarçada e rancorosamente, por entre as páginas do seu livro de versos, ‘Florilégio”, indignado com o baixo preço que eu colocara em sua antologia; o guri que mocozava entre os seus gibis de super-heróis, com os quais ele entrara, outros gibis de valor mais alto, como se eu não percebesse (fez isso algumas vezes, até que tive de educadamente lhe chamar a atenção. Depois disso, ele tornou-se meu amigo); as prostitutas que faziam ponto na pequena praça em frente e, entre um cliente e outro, iam em busca das revistas populares de histórias românticas (uma delas pediu-me, certo dia, que lhe indicasse um bom livro, estava cansada da xaropada de Sabrinas e Biancas, com a única condição de que, se ela não gostasse do livro, o atiraria na minha cara. Indiquei-lhe “Horizonte Perdido”, temeroso. Tornou-se uma leitora voraz de livros, até que, um dia, comprou o calhamaço “Ulisses”, de James Joyce, por sua conta e risco, e nunca mais a vi); o adolescente tímido que chegou, segurando no braço da mãe, e sem dizer uma única palavra, apontou para o disco raro, de vinil, que estava no expositor, atrás de mim (era “Rocka Rolla”, do Judas Priest, importado. Depois disso, em uma terça-feira chuvosa, ele surgiu sozinho, tirou de baixo do agasalho uma sacola de supermercado, na qual trazia duas fitas VHS, com filmes de Roy Rogers. A partir desse dia, tornamo-nos amigos); a bela lolita, de fartos cabelos negros, e olhos ainda mais negros, que recitava poemas eróticos de Goethe, com um sorriso travesso brincando nos lábios; o comerciante de livros, que os comprava e revendia para clientes seletos, ao qual eu dava um bom desconto, para que ele tivesse uma substanciosa margem de lucro, pagando sempre em dia. Até que me aplicou um golpe de certa monta, utilizando cheque roubado. Encontrei-o mais tarde, na capital, vivendo como mendigo na Praça da Sé; completamente bêbado, não me reconheceu. Consternado, rezei por ele); também aqueles que leram meia dúzia de livros, gabando-se disso, como se houvessem cometido uma proeza intelectual; o físico de renome mundial que ninguém conhecia em sua cidade natal; sua humildade chegava a ser constrangedora. Presenteava-me semanalmente com vários volumes, os mais diversos assuntos, em várias línguas, inglês, alemão, francês; entrava quieto, saía calado, jamais disse uma palavra; o colunista social, com programa na TV Manchete, que ia todos os sábados, à cata de edições antigas de Bolinha e Luluzinha, cuja filha colecionava matérias sobre o pai, em início de carreira, em revistas antigas; os moleques guardadores de carro, de olhos vermelhos de cheirar cola de sapateiro, aos quais eu dava toda segunda-feira uma revista de super-herói, à escolha deles (Capitão América e Hulk eram os favoritos); a cliente que predisse que eu sofreria de Mal de Parkinson, de tanto ficar com a cabeça inclinada para a frente, absorto nas páginas de um livro; o rapazola, em busca dos seus pares, que mal sabia pronunciar o nome de Edgar Allan Poe,e que ficou ruborizado quando o corrigi (tornou-se, desde então, meu melhor amigo); o larápio, de mãos tão leves e rápidas, que enganou-me, durante o troco, levando com ele o seu dinheiro e o meu (levei muito tempo para perdoá-lo); o travesti que trabalhava no Banco do Brasil e que, justamente nos dias em que eu necessitava pagar as contas da livraria, não tendo de onde tirar, ele aparecia, como por encanto, e comprava um lote de discos de rock, de blues e soul, salvando o dia; o advogado que, arrependido, voltou ao sebo para reaver o livro que houvera anteriormente vendido e assustou-se com o alto preço que eu lhe pedira (como explicar a ele que eu comprara o lote todo somente por causa daquele livro e que o restante era legislação obsoleta, em desuso, sem valor nenhum?); o radialista que pediu a minha prisão no ar; o colecionador que me entregou um volumoso pacote, contendo vários exemplares da revista Tico-tico, em perfeito estado, com medo que a esposa os vendesse ao ferro-velho, após a sua morte; o jovem policial civil que a mim atribuía a sua escolha profissional por lhe ter fornecido os livros de bolso, com histórias de detetive, as quais ele devorava; o tímido técnico em eletrônica que contou-me, radiante, que estava construindo um aparelho para entrar em contato com os extraterrestres; a família agradecida por ter vendido ao filho mais velho um livro que ensinava a construir um abrigo nuclear (garantiram que tinha nele um lugar reservado para mim); aqueles que perambulavam por ali, folheando alheadamente os livros, indo embora sem nada comprar, de peito estufado, cabeça erguida, satisfeitos com a sensação de cultura adquirida, somente por respirarem o pó dos séculos que todo sebo detém; e tantos outros mais.

Mas o personagem que mais me tocou, em tudo isso, foi o menino que chegou, um dia, pela manhã, pedindo-me dinheiro para comprar uma coxinha, na padaria ao lado. Disse que não lhe daria o dinheiro, mas que lhe pagaria o salgadinho. Agradeceu e saiu lambendo os beiços, deliciando-se com a coxinha. No dia seguinte, quase no mesmo horário, o menino apareceu novamente. E no seguinte, também. Então, olhei bem para ele e, inspirado pela bondade cósmica, disse:

– Se você continuar assim, pedindo, você vai virar um mendigo, alguém que vive do que os outros rejeitam, você vai viver do resto dos outros. Você quer ser mendigo?

Ele virou as costas, entristecido, e foi embora.

Alguns dias depois, ele reaparece, todo sorridente, com um tabuleiro, pendendo do pescoço, com vários saquinhos de amendoim torrado.

– Quem comprar minduim, senhor?
– Viva, tá trabalhando!
– Eu falei pro meu pai o que o senhor me falou, ele fez três tabuleiros, um pra mim, um pro meu irmão e outro pra ele. Agora, nós tamo vendendo minduim.

Todas as vezes que ele foi me vender amendoim, fiz questão de comprar. Levava os pacotinhos, em forma de cone, feitos de papel de embrulho, para casa, no final do expediente. Meus filhos ficavam contentes com o amendoim salgado e torrado, depois da janta.

Alguns anos depois, saía com as crianças do cinema, onde fomos assistir “Indiana Jones e a Última Cruzada”, e entramos na fila para comprar pipoca, quando vejo o rapaz do carrinho de pipoca chamando-me com um aceno de mão. Fui até ele e vi que aquele rapaz era o menino que vendia minduim no tabuleiro. Não é a raposa que diz ao Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”? Pois, foi justamente essa frase que veio à minha mente naquele momento.

– Tá vendendo pipoca agora?
– Sim, esse carrinho é meu e aquele – disse, apontando para um outro carrinho que estava um pouco mais adiante – é do meu pai.

Quanta satisfação ao perceber que as minhas palavras, como sementes, tinham caído em terreno fértil. E isso aquece meu coração de velho todas as vezes que relembro essa história na qual eu fui um veículo para o Cósmico, simplesmente um instrumento. Depois, reencontrei-o em uma quermesse, no pátio da igrejinha de Mato Dentro, durante a festa da padroeira, quando fomos, eu, a mulher e as crianças, comprar amendoim salgado, em uma barraquinha, e uma voz, muito minha conhecida, vinda do carrinho de pipoca, gritou para o molecote que nos atendia:

– Põe os maiores pra ele!

domingo, 3 de setembro de 2017

UMA FABULAÇÃO DO SÉCULO PASSADO



Edson Negromonte

para a minha neta Ayana


Ela era tão pequenina que podíamos chamá-la de menininha, achávamos que ela jamais cresceria. Sofria muito no inverno, quando tinha de ir para a escola, pela manhã, pisando no chão quebradiço, congelado pela geada. Mas, mesmo com todo o frio que fazia, ela não parava um instante. Saracoteava o tempo todo. Nem quando a avó a chamava para limpar o nariz. Então, a vovozinha a fazia assoar em uma das suas anáguas. A avó vestia sempre várias anáguas, umas sobre as outras, como era costume naquela região fria, o sul do país. A menininha chamava carinhosamente a avó de Mãe Velhinha, era a mãe do seu pai, um tropeiro de boa cepa, duro como o cerne de um pinheiro solitário. Mãe Velhinha estava sempre atenta ás peraltices da menina, que gostava de se encarapitar na ameixeira. E, lá do alto, saboreando os frutos amarelos e suculentos, ela cantava bem alto “O Ébrio”, de Vicente Celestino, uma canção popular deveras triste para a pouca idade da menininha, mas era isso que tocava seu coração. Assim, encarapitada no alto da ameixeira, ela também gostava de ouvir as notícias da Segunda Guerra, no rádio ou da boca dos mais velhos, à roda do fogo, à roda do chimarrão. Ela e os irmãos brincavam de combater os adversários da liberdade. Um era o Churchill, outro o Stalin. À menininha, os irmãos impunham o papel do Tojo, o primeiro-ministro do Japão, só porque ela era a menorzinha e usava óculos de aro redondo, e eles precisavam de um inimigo. Seu herói favorito era o príncipe Namor, que combatia o nazismo nas páginas do Gibi Mensal. Ela era tão pequenina que, todas as vezes, precisava mostrar a certidão de nascimento à entrada do cinema, para poder assistir o capítulo semanal do seriado em cartaz. Depois, ela passava a semana com um cliffhanger na boca do estômago, embora não soubesse ainda o significado desta palavra. Ela gostava muito também do Capitão Marvel. E toda a família Marvel! A menininha nunca teve uma boneca. – Por que nunca lhe deram uma boneca? Então, ela dava um jeito: cantava cantigas de ninar para uma abóbora, a qual ela levava ao colo, enrolada em uma manta de tricô. Ela sonhava, talvez ainda sonhe, com um realejo, mas um realejo que fosse somente dela, com as notas metálicas de uma valsa vienense que jamais tem fim, com um macaquinho amestrado, de colete vermelho, de detalhes dourados. Vendo a tristeza da menina, tio João recortou para ela, de uma revista, importada da França, um realejo. E a menina andava para cima e para baixo com aquele realejo maravilhoso, de papel, sonhando a sorte de todos aqueles que a sonhavam. A menininha queria porque queria ir ao circo com seus pais, mas eles não queriam levá-la à sessão da noite. Então, ela enfiou um grão de feijão em cada buraco do nariz. Em vez do circo, foram todos parar no consultório médico, para a retirada dos grãos de feijão do narizinho da menina. Todas as vezes que a reencontro, ela aproveita a ocasião para recitar, cheia de graça, um reclame que se ouvia no rádio de então: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”.

domingo, 27 de agosto de 2017

O ESPORTE MAIS POPULAR DO MUNDO


Edson Negromonte

Tenho horror a futebol, horror à bola. E isso no país do futebol é uma aberração. Portanto,admito, devo admitir, sou um freak. Além do mais, coisa estranha, tenho o mesmo nome do Rei do Futebol. Não entendo por que, coincidentemente, meu pai deu-me o mesmo nome de Pelé, dois anos antes de ele estrear na Seleção. Logo eu, incapaz de simplesmente chutar uma bola. Pode parecer algo simples dar uma bicuda em uma bola, mas não é. Creiam, não é. Bem que o padre advertiu meus pais, na pia batismal: – Isso não é nome de cristão! Nome de cristão é José, Paulo, João!
O horror ao futebol, ou até o horror à bola, a qualquer esporte ou brincadeira que envolva esse corpo esférico conhecido como bola, pode ser algo mais profundo, pois causa-me, hoje, no mínimo, apreensão, mas na infância e, principalmente, na adolescência, causava-me aversão, repugnância. Tanta, a tal ponto, que sou incapaz de distinguir de imediato o que é, na TV, uma partida de vôlei ou basquete, sem antes raciocinar e recorrer à palavra basket, que, em inglês, significa cesta, cesto. Mas esse horror não me impedia, mesmo na infância, de saborear certas histórias relacionadas com o futebol, a mim contadas por meu pai, como a da origem do nome do chocolate Diamante Negro, assim batizado em homenagem a um craque do seu tempo, Leônidas, o criador do gol de bicicleta, uma proeza futebolística. Ou aquela que um amigo, sabedor do meu horror à bola, contou-me sobre a criação do basquete, que este esporte havia sido criado pelos vikings, os quais arremessavam, em vez de bolas, patos ao rochedo, que derivou para pato ao cesto, para vir a se tornar modernamente o basketball. Mas, infelizmente, acabei verificando que a história, apesar de bem engendrada, era mentirosa. A curiosidade sempre me conduziu aos mais diversos assuntos, mesmo ao futebol, em menor grau, é claro, muito embora jocosamente afirme que não consigo, em um álbum de figurinhas, distinguir entre Garrincha e Ademir da Guia.

A minha primeira lembrança, talvez a mais antiga, sobre futebol, é a de um Natal, em que eu devia ter no máximo oito anos de idade. Meu pai presenteou-me com uma bola de capotão, a qual meus amigos, cobiçosos, asseguravam ser linda. Indignado com o presente de mau-gosto, a minha reação imediata, na área de recreação, em frente ao prédio, onde os meninos se reuniam para exibir os presentes que o bom velhinho lhes trouxera, foi dar uma bicuda (por incrível que pareça, a raiva me fez conseguir essa façanha) em direção aos enormes cáctus do jardim, direto aos pontiagudos espinhos. Pressuroso, o zelador do prédio resgatou a tal bola de capotão do meio do espinheiro:

– Desse jeito, você vai acabar furando a bola!
– Quer pra você? É sua! – respondi.

Onde meu pai estava com a cabeça para me presentear com aquela bola de couro tão cara? Quantos gibis eu poderia ter comprado! Logo ele, que me abarrotava com todos os almanaques de fim de ano!

Nas aulas de Educação Física, as quais, naquele tempo, eram obrigatórias, o professor já chegava apitando o início de uma partida, para alegria dos meus colegas, que, antes disso, já tinham ajeitado os times. Eu dava graças a Deus por nunca ser escolhido e mofar, não no banco dos reservas, mas no dos enjeitados, até que, um fatídico dia, o professor apiedou-se de mim e forçou um dos times a me escalar. Em campo, eu fugia da bola, como se aquilo fosse um corpo incandescente, um meteoro. Mas a bola, aparentemente também apiedada, resolveu me conceder a chance de brilhar em campo, diante de todos ali presentes, o professor, os colegas, as garotas. E ela, a bola, veio em minha direção, apaixonada, entregue, e os meninos gritaram: “Chuta!”. E eu, sem entender direito o que estava acontecendo, chutei.

– Gol! – gritaram todos.

Sim, eu fizera um gol, eu estufara a rede! Mas, azar dos azares, tinha sido contra. Sim, um gol contra! Retirei-me do campo, da quadra, sob aplauso de uns e vaia de outros. O professor exigiu que eu voltasse e, se não o obedecesse imediatamente, iria enfrentar, no final da aula, o corredor polonês. “Corredor polonês, que merda é essa?” Qualquer coisa era preferível ao maldito futebol. Dolorosamente, descobri que o tal corredor polonês, também chamado de corredor da morte, era uma formação de duas fileiras, uma de frente para a outra, pelas quais se tinha que passar, recebendo socos, cascudos e chutes. Ao chegar em casa, cheio de hematomas e escoriações, meu pai levou-me à direção da escola, exigindo explicação para aquela barbaridade. Como tudo na vida tem os lados positivo e negativo, nunca mais fui obrigado a jogar bola nas aulas de Educação Física. Na Grécia Antiga, eu seria filósofo, que, presumo, fossem atletas fracassados.

A ojeriza pela bola só foi aumentando; bastava eu estar passando próximo de um campinho, onde meninos normais se divertiam batendo uma bolinha, uma pelada, para que a desgraçada percebesse a minha presença e viesse rolando em minha direção. Chegava a cair aos meus pés, toda oferecida. E, quando os meninos gritavam:”Chuta!”, eu olhava para eles com a boca aberta e ar de retardado, sem compreender o que queriam de mim. Às vezes, chegava a fazer-me todo torto, um aleijão, imitando Lon Chaney, em “O Corcunda de Notre-Dame”. Enquanto tranquilamente me afastava, na minha melhor imitação de Quasimodo, no meu íntimo, eu apostava que nenhum daqueles meninos sequer supunha quem era Alex Raymond. Ou Hal Foster. Ou Ray Davis. Ou Ziraldo. Ou Benício. Ou Walmir, os craques da minha Seleção

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

REDESENHANDO A VIDA


Edson Negromonte

para o meu neto Dimitri


O desenho me acompanha desde a mais antiga lembrança de minha infância, por volta dos três anos de idade ou até menos. Desenhar era, para mim, vital, minha arma, um Colt.45 contra o mundo. Foi o modo que encontrei, intuitivamente, de não me desesperar com as longas noites da insônia que me acometeu durante toda a infância e parte da adolescência. Ainda posso ver, com muita nitidez, o menino debruçado sobre um caderno pautado, enchendo-o com garatujas, e a figura da mãe, encostada no umbral da porta, de camisola branca, a cabeça inclinada, penalizada com a insônia do filho. Ainda tenho nítida a mesa enorme,de tampo escuro, as oito cadeiras sonolentas e incomodadas com a claridade do lustre de cristal; mesa que, com o passar dos anos, foi ficando cada vez maior, tomando conta de toda a sala de jantar, dos outros cômodos, do solar onde morávamos, em Blumenau. Ainda guardo carinhosamente na memória o gabarito do contorno de um cavalinho, presente do meu avô materno, com o qual cobri, uns sobre os outros, folhas e mais folhas, preenchendo o contorno ao bel-prazer do meu traço infantil. Além dos cadernos, eu preenchia também as cadernetas de receita de minha mãe; uma dessas cadernetas, de capa preta, ainda rolava pelas gavetas de sua casa há alguns anos atrás.

Depois, em Niterói, para onde nos mudamos, no início da década de 1960, lembro-me de uma passagem com o quitandeiro da esquina, a uma quadra do prédio onde fôramos morar, no bairro de Icaraí, à avenida Vital Brasil. Para aplacar a minha fome insaciável de histórias em quadrinhos (nessa época, as bancas eram abarrotadas por gibis para todos os gostos, e eu queria comprar todos, desde os de faroeste, os meus prediletos, até os infantis), eu vendia vidro para o garrafeiro, que passava gritando o seu pregão pelas ruas do bairro, e as revistas semanais e jornais para o homem da quitanda, o qual pagava um preço melhor. Assim, uma revista Manchete, cuja capa estampava o general, então presidente da República, Castelo Branco, foi parar na quitanda. Folheando a revista, o quitandeiro encontrou um desenho que eu fizera da carantonha do general, o qual ele colou na parede que ficava às suas costas. Devia estar bem feito, pois, quando lhe perguntavam quem o tinha feito, ele respondia, todo orgulhoso e sorridente: “Eu mesmo”. Calhou de minha mãe estar presente em uma dessas ocasiões. Ela, prontamente, disse a ele: “O senhor está mentindo, esse desenho é do meu filho!”. E calhou também de eu, enquanto ela fazia as compras, estar folheando as novidades na banca ao lado. Ela, de imediato, me chamou: “Esse desenho é seu ou não é?”. Entre envergonhado e penalizado, resmunguei: Mãe, deixa o homem dizer que é dele. “Não deixo não, o que é certo é certo, e a verdade deve ser dita”. Fazer o que diante de tal argumento? Nunca esquecerei da cara de tacho do quitandeiro, por trás do vasto bigodão.

Também em Niterói, na saída da escola, eu costumava gastar um bom tempo na banca do meu amigo Bill, um adulto que conversava comigo de igual para igual. Lógico que a conversa só poderia girar sobre quadrinhos. Bill pedia sempre para ver os meus desenhos. Ele dizia que eu desenhava muito bem, e vindo de quem vinha o elogio, do Bill!, o dono de uma banca de aço, na esquina da escola, (Nossa!, esse era o meu ideal de vida: ser dono de uma banca todinha minha!), é claro que isso me deixava muito contente. Um dia, fui surpreendido com a proposta de que eu fizesse, no muro, ao lado da sua banca, o desenho de vários heróis, um mural. Bill garantiu que providenciaria o material necessário e que eu poderia desenhar os heróis que quisesse, desde que eu incluísse, entre eles, o Fantasma, o seu favorito. Sem problema, Bill! Assim, preenchi aquela parede, traçando com giz branco (depois, Bill faria o contorno e preencheria com tinta, em um autêntico trabalho de equipe), com as figuras do Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Texas Kid, Águia Negra, Mandrake, Black Diamond, Buck Jones, Ferdinando, Tarzan e, evidentemente, o Espírito que Anda ou Fantasma Voador, como também era conhecido o Sr. Walker.

Uma outra passagem da minha infância, de que gosto muito, é a que envolve a madre superiora da escola em que minha tia lecionava. A freira, conhecedora dos meus dotes artísticos, pediu que eu desenhasse uma história em quadrinhos, a qual ela deixaria exposta na escola. Na época, eu estava proibido de desenhar faroestes, o meu tema favorito, no qual eu me esmerava, caprichando nas cenas de duelo, nos tiroteios, enforcamento etc. Convencido pelos amigos e parentes, “preocupados” com a minha educação (uma outra tia chegou a vaticinar que eu seria um débil mental, de tanto ler gibis), meu pai tinha me proibido a leitura de histórias violentas. Logo as minhas favoritas. Sorte que não proibiu de assistir na TV as séries de faroeste, como Bat Masterson, Paladino do Oeste, O Homem do Rifle, Bonanza, nas quais morria gente a torto e a direito. Então, a pedido da bondosa freira, engendrei a mais violenta e inescrupulosa história com o pato Donald e seus sobrinhos, com tiroteio e pancadaria, que culmina com a expulsão, a pontapés, do tio Patinhas da sua caixa-forte, pelos sobrinhos, os quais se apropriam da fortuna do velho sovina. O último quadro mostra os sobrinhos tomando um merecido banho na piscina de moedinhas douradas. Então, ao perceber que, sem saber, eu estava enveredando, intuitivamente, pelo perigoso caminho do comunismo, meu pai suspendeu a proibição, acabando por me presentear no Natal, com vários pacotes, contendo todos os almanaques de férias que conseguira encontrar; e isso, naquela época, não era pouca coisa.

Outra passagem que gosto muito é a do caderno de Religião. A primeira folha deveria ser deixada em branco, onde poderíamos fazer um desenho, aqueles que soubessem desenhar (que merda! Eu sinceramente acredito que todos sabem desenhar, basta ter confiança em si mesmo e premeditar o traço seguinte, como o golpe de um samurai), ou colar uma decalcomania. Evidente que eu me esmerei no meu desenho, como todo moleque eu ansiava pelo aplauso dos mais velhos. O professor levou o meu caderno para o diretor, o diretor chamou o meu pai (ele exigiu que fosse o meu pai). Quando o diretor pediu a presença do macho da casa, eu já comecei a perceber que tinha cometido uma cagada qualquer na ilustração da primeira página do meu caderno de Religião. O resultado da conversa entre meu pai e o diretor foi a minha transferência para outro colégio. Inusitadamente, para um colégio de freiras. Ah, a ilustração? Tudo isso por causa de um desenho que mostrava um simples cemitério, com uma única lápide de pedra, na qual constava a inscrição “Aqui jaz Búfalo Bill”.

E, por ora, é só! Depois, eu conto mais.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

NO BAZAR CHAHRIAR


Edson Negromonte


Nesta cidade, surgem bazares do nada. E também desaparecem num passe de mágica. Estão ali um dia e, no seguinte, hocus pocus, ninguém sabe dizer onde foram parar. Assim, adentrei em um que eu nunca tinha visto. Sim, em bazares se adentra, não se entra simplesmente, embrenha-se. O bazar será sempre um local mágico, de sombras, digno das mil e uma noites da rainha persa Xerazade, um lugar ao qual se vai, não em busca de algo específico, mas esperando ser surpreendido por algum objeto que sua imaginação, por mais inventiva ou destrambelhada, jamais ousaria supor que encontraria ali, em meio a toda sorte de insignificâncias. Geralmente, são coisas pequenas, tão pequenas, quase diminutas, que somente a você mesmo dizem respeito. Ontem, tão importantes para alguém, que provavelmente já morreu, tornam-se invisíveis de um momento para outro, até que despertem o interesse de alguém capaz de vê-las: as pessoas de alma sensível às delicadezas da vida.

Assim, adentrei o Bazar Chahriar; por uma porta mais estreita que o geral das portas das casas de comércio deste lado do mercado, as quais já são de sobejo exíguas. Foi, então, que pude perceber o mais amplo salão, impossível de imaginar quando se está do lado de fora. Já outras pessoas estavam ali, conversando, trocando ideias, enfim, tagarelando, mulheres e crianças; o único homem no ambiente, munido de um plectro, feito de escama de peixe, tocava o saz, um tipo de alaúde turco, alheio a tudo, entretido com as sonoridades de si mesmo. A um bazar, as mulheres geralmente vão em busca de roupas, tecidos, utensílios de cozinha, peças de adorno, enquanto às crianças tudo interessa, tudo é novidade. Elas, as crianças, assim como eu, também se extasiam com os objetos que, anteriormente, dormiam nos desvãos das escadas das casas, esquecidos. Por isso, evito olhar diretamente para os olhos dessas crianças nos bazares, temos interesses comuns; elas são perigosas. Depois de andar pelo salão, fazendo-me de indiferente, sem nada ter chamado ou despertado minha atenção (sinto-me pesaroso quando isso acontece, é como ter ido a Istambul e não ter erguido os olhos para o céu e, por isso, e somente por isso, não ter avistado os altos minaretes da Mesquita Azul), eu estava pronto para sair quando o interior de uma cristaleira envidraçada chamou minha atenção. Dirigindo-me à cristaleira, magnetizado por algo que ali entrevi, abri primeiro uma das portas, a da direita, delicadamente, como abrisse o portão enferrujado de Firdous, o paraíso no Alcorão, evitando assim chamar a atenção de algum infante infiel. Deve-se proceder assim em bazares, e tome isto como um conselho valioso para o dia em que sua alma o surpreender com o desejo incontrolável de se aventurar nesse meandro de mistérios. Se eu houvesse aberto as duas portas do móvel ao mesmo tempo, elas certamente fariam um ruído característico, algo como um muezim cego anunciando do alto do minarete a prece diária (Alá é grande!), que poderia soar como convite a que alguém compartilhasse comigo daquilo que eu mesmo ainda não compreendia. Portanto, o melhor a fazer, nesse caso, é não chamar a atenção de ninguém para aquilo que pode vir a ser a revelação: o chamamento para a primeira prece da manhã, estritamente pessoal, entoado pelo escravo da Abissínia, Bilal ibn Ribah, aquele que vem a ser o primeiro muezim do Islã.

Vi, então, na estante, alguns discos de vinil. E,neles encostado, um pequeno volume que continha uma velha caderneta, de capa de couro marrom, com as beiradas gastas, além de algumas folhas à parte, enfeixadas por uma fita de gorgurão. Puxei os discos, para examiná-los e, para meu espanto, eram todos iguais. Ou melhor, quase todos. Um deles chamou minha atenção pela aparência, podendo-se dizer pela “versão original” Os outros eram reedições tardias e baratas daquele. O original tinha a capa um pouco maior, questão de centímetros (detalhe perceptível para os aficionados), de papelão mais encorpado e cores mais vivas (berrantes? Não, não chegavam a tal extremo), o amarelo tomava grande parte da superfície da capa. O disco em questão era a trilha sonora de um filme, sobre o qual eu nunca ouvira falar, e a ilustração da capa oscilava, com volúpia, entre um close de Judy Garland e uma saltitante Julie Andrews. Enquanto os outros discos exibiam o preço de dez reais, este tinha o absurdo valor de mil e quatrocentos e quarenta somonis, anotado na beirada interna da capa. De que país seria essa moeda? Mesmo intrigado com o somoni, separei o disco. Sem saber o valor em moeda corrente do país, eu me vi temeroso de pechinchar, apesar de ser o costume nos bazares: o comerciante sente-se ofendido se o cliente não regateia. Com certeza, era um disco muito raro (eu nunca tinha ouvido falar nada sobre ele, nem mesmo podia ser considerado “mosca branca”, pois não havia uma única linha, por mais vaga que fosse sobre tal preciosidade nos melhores catálogos oscilantes de trilhas sonoras do cinema americano). Mas não barganhar, deixaria o vendedor de orelha em pé. Enquanto admirava a capa, que continuava, como um pêndulo, indefinida, alternando-se, ora era “O Mágico de Oz”, ora “A Noviça Rebelde”, um 78rpm escorregou de dentro dela, direto para a minha mão. O velho disco de carvão continha a música-tema do filme (disso, não sei dizer como, eu tinha certeza, embora o selo tivesse sido borrado de propósito). Mais tarde, pude verificar que a letra fora vertida para o português, e era cantada divinamente por Francisco Alves, mas essa gravação apócrifa também não consta de nenhuma biografia do cantor. Junto com o 78rpm, veio, além do convite para a avant-première, que ocorreria dali a sete dias no Cine Ópera, uma filipeta, na qual estava escrito, em impecável caligrafia feminina, a seguinte advertência: “Aquele que esta chave encontrar, deve também levar consigo o meu diário e as notas esparsas, coletadas durante toda uma vida, para a compreensão do grande enigma do que pode vir a ser o ser humano, a partir da compreensão do que é um ser humano”. Evidentemente, verifique novamente, com muita atenção, todos os outros discos. Agora, as capas eram de um colorido tão esmaecido que não se podia definir sequer a ilustração e, muito menos, o título. E nada, absolutamente nada de extraordinário, continham. Eram simulacros, representações grosseiras do original, para confundir os falsos buscadores do vinil sagrado.

Fui até o balcão, pronto para a pechincha do dia, levando comigo disco e diário. A senhora que me atendeu, de maquiagem pesada e perfume extremamente doce, enjoativo, inebriante, de rosa musgosa do Tajiquistão, fez-me sinal de silêncio. E, tirando o dedo indicador dos lábios, disse:

– Este disco e o pacote que o acompanha pertenceram à dona Izildinha, e não se pode levar um sem o outro. Portanto...
– Eu...
– Ouça, somente ouça. O preço exorbitante é somente um artifício para afastar aquele que não fosse o iniciado, prestes a galgar mais um degrau na escada da fraternidade.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

MARIA AMÁLIA DURANT



Edson Negromonte


Vá querer entender as pessoas ao seu redor e você acaba escrevendo um conto. Ou uma crônica, sei lá. O que importa é deixar isso registrado, mesmo que não sirva para nada, mesmo que o tempo, esse devorador voraz de papéis, se encarregue de devolver a sua narrativa ao seu devido lugar. Ao limbo? Ao nada! E, justamente por isso, escreverei hoje sobre a poetisa Maria Amália Durant, tio Mario e meu pai, sem a mínima garantia de sobrevivência.

Se você vasculhar as enciclopédias e a internet, encontrará muito pouco sobre Maria Amália Durant, levando-se em conta o que ela significou para mim. Antes de sabê-la escritora, eu a vira a primeira vez no apartamento de cobertura de seu pai, o marechal Heliodoro, em Copacabana. E foi o que bastou para nunca mais tirá-la da cabeça. Ela era de uma beleza estonteante! Isto pode ser comprovado no anúncio dos cigarros Capri, publicado na quarta capa das revistas de maior circulação da época, incluindo a Realidade. Pode-se saber também que ela estreou com o livro de poemas “Embaúba”, de 1974, comentado por João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, seguido por “Canção do Motim”, de contos, publicado no ano seguinte, e que lhe rendeu o prêmio Jabuti. Após um hiato de quase dez anos, vêm a lume “Tigres na Varanda” e “Sob a Chuva, em Damasco”, ambos de 1984. Sabe-se ainda que participou da coletânea de contos eróticos femininos “Clitoridianas”. Maria Amália exerceu a diplomacia nos Estados Unidos, França e Angola, além de Carlo Domenico dedicar a ela o poema “Rubai Impaciente”.

Maria Amália era uma prima distante, em terceiro ou quarto grau, que fazia-se presente, sempre que podia, nas reuniões familiares. Todos a amavam, principalmente os homens; onde estivesse, podia-se contar como certa uma roda de cavalheiros ao seu redor, os quais riam muito das suas historinhas, por mais insignificantes que fossem. Ela magnetizava as atenções, e isso despertava a inveja das outras mulheres, principalmente a de minha tia Doralice, irmã mais nova de minha mãe. O rancor de tia Doralice chegava ás raias de desmerecer o seu livro “Embaúba”; o qual ela enviara, com dedicatória carinhosa, para os meus avós. Surpreendi-me com os comentários de que aquilo não era poesia, que era uma mixórdia de palavras sem nexo, querendo parecer inteligente, de que ela jamais vivera entre os gigantes krenakarore etc. Minha personalidade ressente-se da falha de se interessar por aquilo que os ditos bem pensantes insistem em ridicularizar. E qual não foi a minha surpresa ao deparar com uma poesia de alta voltagem, disposta em versos mallarmaicos. Ali, exatamente naquele momento de epifania, eu me apaixonei perdidamente por Maria Amália. Na ignorância dos quinze anos, eu desconhecia outras mulheres que escrevessem poesia. E a bela foto de Maria Amália, na orelha do livro, era um convite aberto aos devaneios de um coração juvenil, aflito pelo amor das mulheres um pouco mais velhas; a minha mais nova musa contava então 34 anos. E o que seria da poesia se as musas fossem possíveis?

Eu só pensava em Maria Amália. E eu que, depois da morte de tio Mario, me achava o único gauche restante na família, tinha agora companhia. E que companhia! Quando tio Mario, o meu exemplo de insegurança, era vivo, passávamos as manhãs conversando sobre poesia e poetas e livros. E sobre amores não correspondidos. Eu nunca soube que tio Mario tivesse escrito um único verso, mas ele era um leitor costumaz de poesia, capaz de recitar poemas longos de memória.

Minha cabeça girava à mais leve lembrança de Maria Amália, seu corpo esguio, o cabelo curto e loiro, o cigarro entre os dedos... Foi, então, que mamãe resolveu me contar sobre o romance de Maria Amália e papai. Meu pai era bancário, eterno auxiliar de escrita, era assim que ele ganhava a vida, era assim que ele abastecia a geladeira, mas o que lhe dava prazer mesmo era escrever novelas de rádio. Era assim, e somente assim, que ele sentia-se realizado, mesmo que seu nome não fosse pronunciado na abertura; papai era um ghost writer, e, mais que tudo, papai era um indivíduo canhestro, foi dele que provavelmente herdei essa inaptidão para a vida prática. Dele e de tio Mario, seu irmão mais novo. O banco não permitia que os seus funcionários tivessem outra ocupação profissional. E papai, conforme contaram seus colegas, além de engendrar as tramas mais aventurescas, dignas das melhores novelas cubanas, ainda fazia as vezes de sonoplasta, ou contrarregra, como era chamado na época esse profissional.

Papai era capaz de criar um temporal esfregando, próximo ao microfone, uma folha de papel celofane, ou um rio que corresse tranquilo em seu leito, agitando levemente as mãos em um balde cheio de água, ou um incêndio crepitante e devastador, amassando ritmicamente uma folha de papel sulfite, ou o tiquetaquear de um antigo relógio de parede, simplesmente batendo o lápis contra a aliança, para ilustrar a passagem do tempo. O grande sucesso de papai, na Rádio Clube Torres do Pilar, foi a novela de aventura “O Avantesma”, uma mistura bem-sucedida de dois heróis americanos, o Fantasma e o Sombra, com mais de 400 capítulos, que eletrizavam os ouvintes, com índices de audiência superiores aos da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Assim foi que Maria Amália caiu de amores pela sua figura esquelética e carismática. Assim foi que ele a ensinou a dirigir no seu Ford Prefect, o carrinho inglês pelo qual ele tinha o maior zelo. Não que papai fosse bonito, não era, mas era, como se dizia naquele tempo: um tipo. Maria Amália era uma adepta do existencialismo, era mulher de um tempo em que as mulheres apaixonavam-se pelo intelecto de um homem. Se não, como explicar Simone de Beauvoir e Sartre, e Jane Birkin e Serge Gainsbourg. E assim ela, que acreditava convictamente no amor livre, despediu-se de papai e mamãe, toda sorridente, sem culpa nenhuma, com ares de menina levada.

E, passados tantos anos, nesta manhã de inverno, de sol tímido, filtrado através de colossais folhas de bananeira, ainda posso ver tio Mario, quietinho, sentado em uma cadeira no quintal, aquecendo o corpo franzino, como se ainda estivesse no quintal da casa em Arequipa, no Peru, alheio a tudo, assuntando o carreiro das formigas. Percebendo-me, faz um sinal, pedindo que me aproxime. Então, segreda em meu ouvido, em tom confessional, como fazia quando queria comigo compartilhar, e somente comigo, uma das suas sublimes descobertas, uma das suas pequenas iluminações:

– O amor, como o conhecemos, como o conhece o homem moderno ocidental, é ficção, é uma invenção de Arnaut Daniel.

E isso, felizmente, me redime de todos os amores, correspondidos ou não. E a última vez que eu soube de Maria Amália, ela estava morando na vila grega de Oia, na ilha de Santorini.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

ADAM WEST ou O MENINO QUE TINHA MEDO DO BATMAN




Edson Negromonte

Agora que os órfãos de Adam West já o prantearam, tecendo-lhe as merecidas loas, é chegada a minha hora de chorar a sua morte. Sou assim mesmo, prefiro não reagir no primeiro momento. Tenho de deglutir, assimilar, para não falar ou escrever bobagens, sob o impacto da notícia; quando a recebi, através da TV, disse somente: – Ah, não!

Adam West foi uma personalidade, ou personagem?, tão importante na vida dos meninos ocidentais de meados da década de 1960, e da década seguinte, que jamais pude supor a sua morte, mesmo tendo a única certeza de que todos morreremos um dia, sejamos cidadãos comuns (e ninguém é um cidadão comum ou somos todos cidadãos comuns) ou heróis, sejam eles de papel ou televisivos, sejam eles históricos e reais. Sim, você sabe, estou falando do, para mim, ainda definitivo Batman. Os meninos dos anos 80 foram brindados com o espetacular filme de Tim Burton, baseado na versão de Frank Miller, no qual o homem-morcego recebe o título de “cavaleiro das trevas”, dando-lhe novo fôlego e ressuscitando o combatente do crime para uma nova geração, a qual, acostumada a atores marombados, tipo Schwarzenegger (Conan) e Stallone (Rambo), fazia pouco caso do físico de Adam West, referindo-se a ele como “aquele Batman barrigudo”.

A falta de informação dos meninos de 1980 não lhes dava a visão histórica de que, antigamente, os heróis não precisavam ser abrutalhados ou musculosamente deformados; à custa de esteroides. Basta lembrar que o Super-homem, o homem mais forte do mundo, em uma série clássica dos 1950, era vivido por George Reeves, que não era nenhum ser fora do normal, nem excessivamente espadaúdo. Mesmo o audacioso capitão Kirk, da série “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), aquele que ousou ir onde nenhum homem jamais esteve, tinha uma pequena protuberância abdominal. Outro personagem que me vem de imediato à mente é Jim das Selvas, vivido por um Johnny Weissmuller já maduro, com uma certa pancinha. Mas mesmo nos filmes em que o jovem Weissmuller vive Tarzan, o homem-macaco criado por Edgar Rice Burroughs, ele não era nenhum amontoado de bíceps e tríceps. Curiosamente, Johnny Weissmuller tinha síndrome de Down, a qual foi amenizada, por orientação médica, com exercícios de natação; ele chegou a ganhar cinco medalhas de ouro como campeão olímpico. Somente o incrível Hulk tinha permissão para ser grotescamente musculoso, interpretado por Lou Ferrigno, o Míster Universo de 1973 e 1974, fazendo valer a máxima “muito músculo, pouco cérebro”.

E o que um brasileiro contaria de novo sobre Adam West que os livros e sites americanos já não tenham contado e recontado à exaustão, e com muito mais propriedade? Que o menino Adam, aliás, William, este era o seu verdadeiro nome, por volta dos dez, doze anos de idade, ganhou do vizinho uma caixa cheia de revistas e que aquela que mais lhe chamou a atenção foi justamente o gibi de número 27, da série Detective Comics, cuja capa estampava o Batman em ação? Que, adolescente, Adam flagrou sua mãe na cama com o pastor da igreja local? Que o jovem Adam, em início de carreira, no programa infantil The Kini Popo Show, era o sidekick da estrela principal, um macaco? Que Adam West chamou a atenção dos produtores da ABC, quando o viram interpretando o sagaz capitão Q, em um comercial do Quick? Dito isto, a minha contribuição, como brasileiro, deve ser registrar, quase etnologicamente, como o personagem trafega no corrente cultural do País. E, também, nas minhas lembranças.

E, assim, na lembrança dos brasileiros, porque acredito, neste caso, que só falando de mim mesmo é que estarei falando do outro. Em 1969, no IV Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, o compositor Jards Macalé aterroriza a plateia com a música “Gotham City”, a cidade natal de Bruce Wayne, o alter ego de Batman, arranjada pelo provocador maestro Rogério Duprat, cuja letra de Capinam alerta “Há um morcego na porta principal’, uma metáfora para o horror que a ditadura militar, então no poder, infligia aos brasileiros, prendendo, torturando e matando aqueles que se insurgiam contra ela. A ideia inicial era soltar um morcego em direção à plateia, durante o refrão, mas, devido aos tempos bicudos em que vivíamos, com a polícia prendendo e espancando ao seu bel-prazer, acharam melhor não cutucar a onça com vara curta; teriam antecipado Ozzy Osbourne em pouco mais de uma década. Na literatura, o escritor Roberto Drummond , no livro “A morte de D.J. em Paris”, de 1971, se apropria do personagem pra escrever o conto “A sete palmos do paraíso”.

Meu primeiro contato com Batman foi, como não podia deixar de ser, aterrorizante: em um domingo de sol ,em Copacabana, o vento folheava, desvairado, uma revista do encapuzado, abandonada na calçada. Eu, menino apaixonado por quadrinhos, quando fui pegá-la, sou surpreendido pela figura do morcego, o logotipo do Batman, na abertura de uma das histórias. Temeroso das coisas do Além, tomei um baita susto com a criatura sugadora de sangue (e isso me remete oportunamente a “Nosferato no Brasil”, de Ivan Cardoso”. Onde se vê dia,veja-se noite), coisa que me fez arredio ao homem-morcego durante um bom tempo. Mas o espírito galhofeiro da série camp (eu nunca a vi assim, talvez porque a alma brasileira seja, em sua essência, legitimamente brega), me fez rever os meus conceitos sobre o personagem e o infundado horror que o Batman provocava em minha alma medrosa, até que, em um final de tarde, me atrevi a comprar o meu primeiro exemplar da sua revista na banca. Apaixonei-me para sempre pelo Batman. Tanto, que cheguei a trocar um álbum de 78rpm, da Aracy de Almeida, cantando somente músicas de Noel Rosa, por uma miniatura, da Husky, de 1966, do batmóvel, a qual está avaliada em aproximadamente mil reais. Tanto, que costumo atender o telefone de casa com a frase “Batcaverna, boa noite!”. A série também despertou meu amor platônico por Julie Newmar, a Mulher-gato mais bem-acabada e bem torneada de todas; incluindo Michelle Pfeiffer, e que, apesar de ter gravado todos os 120 episódios da série, cheguei ao cúmulo de gravar, com som original, aqueles em que ela atuava, só para ouvir a hora que bem entendesse a voz sensual da gatíssima Julie Newmar, ronronando: Purrrfect!