quarta-feira, 26 de setembro de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 6: AS TRAPALHADAS DO ROCK'N'ROLL



Edson Negromonte

Muito antes dos megafestivais, na década de 80, o Brasil, valendo-se da sua tradição festivalesca, já tivera vários woodstocks, sonho de qualquer jovem daquele tempo, depois de 1969. A primeiríssima tentativa, em fevereiro de 1971, foi o Festival de Verão de Guarapari, no Espírito Santo, sem infra-estrutura nenhuma e organizado por Antônio Alaerte e Rubinho Gomes. Foi neste festival que, enquanto cantava o sucesso "BR-3", aconteceu o desastrado stage dive de Toni Tornado, que aterrissou sobre uma fã, deixando-a paralítica da cintura para baixo. No mesmo festival, convidado por Carlos Imperial, estava o aparentemente "estranho no ninho" Luiz Gonzaga, sanfoneiro que, na ausência dos roqueiros convidados, deu uma canja.

No Teatro João Caetano, na região central do Rio de Janeiro, aconteceria o show Abertura da Temporada de Verão, com várias bandas, em 31 de outubro de 1974. Entre elas, com performances sem hora para acabar, a nata do progressivo nacional: Veludo, Terço, Vímana e Mutantes.

No ano seguinte, em janeiro de 1975, aconteceria o primeiro Festival de Águas Claras, em Iacanga, na fazenda Santa Virgínia, propriedade de um hippie woodstockiano conhecido, na região, como Leivinha. As bandas revezavam-se, com shows tidos como memoráveis: Terço, Som Nosso de Cada Dia e Moto Perpétuo (banda progressiva de Guilherme Arantes), entre muitos outros. Sucederam-se outras edições, nos anos 80, contando com a presença, inclusive, do bossa novista João Gilberto, quase sempre avesso às multidões, um Raul Seixas bêbado, vomitando atrás dos amplificadores, a banda curitibana Blindagem e uma vaiada Tetê Espíndola, caracterizando muito bem a intolerância da juventude em relação ao novo. Nos três últimos dias de maio e primeiro de junho desse ano, São Paulo veria, no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, o Banana Progressiva, com certa organização, realizado em local fechado, muito mais um show com várias bandas que propriamente um festival, com apresentações de A Bolha, Veludo, A Barca do Sol, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Vímana e Erasmo Carlos. Ainda, entre tantos outros, a figura inusitada do inqualificável Hermeto Paschoal e suas experimentações sonoras. Eram tempos de abertura, palavra tão em voga àquela época, quando os militares tornaram-se, aparentemente, maleáveis em relação a uma juventude aparentemente apolítica, que queria deixar o cabelo crescer, fumar maconha em paz e fazer música, muita música, a mais libertária possível, como um ato político muito mais abrangente e libertador. Evidentemente, muito antenada com o que se fazia lá fora. Ainda neste ano, outro evento importante foi o primeiro Hollywood Rock, de Nelson Motta, no campo do Botafogo, patrocinado pela companhia de cigarros Souza Cruz e ao qual a empresa do tabaco jamais se refere, retirando o patrocínio, em decorrência de um traficante, preso naqueles dias, "entregar" que venderia todos os seus singelos e inofensivos ácidos lisérgicos no dito festival. Apesar de todos os contratempos, chuva, queima de equipamento, transferência de local, é um marco na história do rock brasileiro, com um falso disco ao vivo "Hollywood Rock" e o filme "Ritmo Alucinante", além das presenças de Raul Seixas, Rita Lee e o Tutti-frutti, Veludo, Peso, Vímana, Cely Campello (a nossa primeira Rainha do Rock) e o tremendão Erasmo Carlos, com a recém-formada Companhia Paulista de Rock, banda que contava com o baixista Liminha e o baterista Dinho, dois ex-Mutantes cansados das firulas do rock progressivo.

Endividado até o pescoço com o fracassado show "Feiticeira", da sua mulher Marília Pera, o compositor e produtor Nelson Motta promove, em 1976, o desastrado festival Som, Sol e Surf, em um pequeno estádio de futebol em Saquarema, no estado do Rio de Janeiro, na esperança de ganhar algum para se ver livre dos credores. A ideia surgiu quando ele se encontrou, em Búzios, com um músico doidão chamado Flávio Spiritu Santo, que o convenceu das facilidades de realizar um festival de música naquela região tão aprazível. Na verdade, o dito estádio era apenas um campinho de futebol, murado. Ali estavam, então, os principais nomes da época: a obrigatória Rita Lee, Tutti-frutti, Raul Seixas, Vímana (com um baterista de 16 anos: João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão), o paulistano Made in Brazil, com o crítico Ezequiel Neves assumindo a persona de Zeca Jagger, fazendo backing vocal, o pesadíssimo gaúcho Bixo da Seda, um Ney Matogrosso solo, já sem o Secos e Molhados, e a estreante bluseira Ângela Ro-Rô, aos 26 anos, acompanhada por uma banda que tinha, entre outros, o lendário Zé da Gaita, do grupo Flamboyant, e ex-integrantes do Peso, em performance ensandecida de "Meu Mal é a Birita". Além de Flávio Spiritu Santo, é claro! Na ideia original cabiam um disco e um filme, que registrariam mais uma peripécia roqueira de Nelson Motta, que, segundo ele mesmo, não chegaram a público por causa das grandes estrelas terem tido uma atuação morna, não condizente com o que se espera de apresentações ao ar livre (o canal Brasil anuncia para breve a exibição do filme). Com previsão para dois dias, em decorrência das tempestades de verão, ficou reduzido a um único dia de lama, bebedeira e ácido. Além da música! Muita música! Na última hora, os portões foram franqueados ao público, quando verificou-se que a lotação do "estádio" não chegara à metade, em uma tentativa desesperada de atrair público para, pelo menos, salvar o filme. Ledo engano, a população local, por nada deste mundo, sairia de casa para prestigiar um festival de rock, justamente no horário do popularíssimo programa da TV: Os Trapalhões.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

ENROLANDO O ROCK- Parte 5: E A MANHÃ TROPICAL SE INICIA



Edson Negromonte

O ano de 1968 daria a público três discos importantíssimos para a compreensão da Tropicália, nome pelo qual seria conhecido o psicodelismo no País, com inspiração na obra conceitual "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles: os LPs de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e o manifesto sonoro "Tropicália ou Panis et Circensis", com capa do artista plástico Rubens Gerchman, onde acontece a tão propalada mistura, às vezes mal resolvida, mas instigante, de tradição e modernidade, sob a batuta do maestro Rogério Duprat, envolvido com o rock desde 1963, quando arranjou a canção de Albert Pavão "Vigésimo Andar", versão de "20 Flight Rock" (Eddie Cochran e Ned Fairchild), sucesso dos Quarrymen. Duprat faria, ainda em 1966, outra incursão roqueira: o compacto do sexteto O'Seis, embrião do trio Os Mutantes. O conceito tropicalista de deglutição cultural deriva, principalmente, das experiências modernistas do poeta Oswald de Andrade, que defendia a importância do canibalismo cultural desde que os silvícolas brasileiros comeram o bispo Sardinha, e, também, das experiências plásticas do designer gráfico Rogério Duarte e do artista conceitual Hélio Oiticica, ambos criadores da palavra “tropicália" para designar uma instalação penetrável.

Em 1967, com um tanto de insatisfação, outro de provocação, Caetano e Gil participaram do III Festival.da Música Popular Brasileira, pela TV Record, incorporando a guitarra elétrica às suas canções, "Alegria, Alegria" e "Domingo no Parque", através do acompanhamento de duas bandas de rock, a argentina Beat Boys e a paulistana Os Mutantes, recebendo quarto e segundo lugares, respectivamente. Gil vinha de gravações de música tradicional, com vários compactos, por um selo local baiano, e o LP "Louvação", onde consta a antevisora "Lunik 9", além de parcerias com o poeta e jornalista Torquato Neto, figura importantíssima para o movimento, com uma coluna comportamental no Jornal do Brasil, a Geléia Geral, também título de uma canção dele com Gil. O baiano Caetano, crítico de cinema e dublê de pintor, gravara com a conterrãnea Maria da Graça, a depois famosa Gal Costa, o LP bossa novista "Domingo", na prática um comportadíssimo tributo a João Gilberto, além de ter sua "Pra Chatear" gravada por Ronnie Von, esta figura singular do rock brasileiro, de um mundo próprio, com formação erudita, principalmente música barroca, que faria dois discos clássicos da psicodelia brasileira, "Ronnie Von" e "A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais", com um dos títulos mais longos para uma canção popular: "De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-me de Volta a Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar". Em seus quatro primeiros discos, Gal Costa é uma autêntica roqueira psicodélica, escorada pela guitarra endiabrada de Lanny Gordin, transformando a mais simples canção em um hino ao instrumento. Este nosso primeiro guitar hero, ao se exilar em Londres, deslumbrou-se com as possibilidades do ácido lisérgico, usando e abusando da droga, até que desgraçadamente desaprendeu a tocar. Também os Mutantes, com sua irreverência adolescente, são vitais para o movimento, principalmente com a gravação iconoclasta de uma joia intocável da seresta parnasiana, "Chão de Estrelas", de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, com um arranjo literalmente arrasador, com peidos, aviões e gargalhadas, do enfant terrible Duprat. Outros maestros, como Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e o sempre esquecido Sandino Hohagen, alunos de Pierre Boulez e Stockhausen, e discípulos de Anton Webern e John Cage, também deram sua contribuição. Fundamental foi o encontro dos músicos com a Poesia Concreta, dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que daria uma cara altamente intelectualizada à Tropicália, tornando-a única em toda a psicodelia internacional. Seguramente, poucos são os países em que o movimento, além de flertar com a cultura folclórica local, ainda se deu ao luxo de letras que remetem aos grandes poetas nacionais e à grande poesia internacional, através de traduções de altíssimo nível.

Naquele tempo de efervescência cultural, onde até os mais velhos reviam seus conceitos de certo e errado, surgiram várias artistas e bandas com propostas radicais para uma nova arte e musicalidade. Muitas experimentações ficaram esquecidas, como o único disco de Os Brazões, com versões interessantes para composições de Gilberto Gil, como "Pega a Voga, Cabeludo" e "Volkswagen Blues", além de um arranjo soberbo para a metafórica "Gotham City", na qual a cidade do homem-morcego é a representação do próprio País, com caça às bruxas e morcegos na porta principal, de Jards Macalé, violonista erudito que aderiu ao movimento, e do poeta baiano Capinam, o segundo letrista em importância para a Tropicália. Uma linguagem cifrada que os ouvintes da época sabiam muito bem decodificar. A banda ressente-se das diatribes de um Duprat, figura fundamental para se compreender a riqueza do Tropicalismo. O maestro era a eminência parda, alguém que atuava nas sombras, e só recentemente teve o seu verdadeiro valor reconhecido, alguém que mudou-se para um sítio no interior do estado de São Paulo, em decorrência da pobreza musical da atualidade. O grande poeta Torquato, letrista de várias canções-manifesto, depois de ser internado em um hospício pela própria família, vendo-se abandonado pelos amigos e parceiros musicais, suicidou-se deixando um bilhete que termina com a lapidar frase "Pra mim, chega!".

Enquanto isso, a ditadura comia solta, com prisões, torturas à luz do dia e corpos que até hoje clamam por justiça. Não tardaria para que os militares instituíssem o Ato Institucional No. 5, calando, de vez, as bocas do País, exilando, em 1969, Caetano e Gil, vistos como os cabeças de um movimento pernicioso, de amplitude não só política, mas comportamental, de curtíssima duração, e fundamental para a geração seguinte, aquela que se aventurou a fazer música nos Anos de Chumbo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 4: A TURMA DA TIJUCA



Edson Negromonte


No Brasil, o rock já rolava à toda. Vários jovens, nos seus bairros, formavam grupos e agiam como rockers, embora não entendessem muito bem o significado disso. Sabiam, e isso estava muito claro em suas cabeças, que os velhos, ou melhor, a música dos velhos não estava com nada. Assim, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, alguns desses garotos da época reuniam-se para trocar informações, aprender novos acordes e ouvir discos. Entre eles, estava o futuro Rei do Rock, Roberto Carlos, seu eterno parceiro e o mais fiel e digno roqueiro brasileiro, o tremendão Erasmo Carlos, e alguém que despontaria anos mais tarde e criaria a soul music brasileira, Tim Maia. Ah, mas havia uma figura de suprema importância, não só para o rock, mas para a música brasileira em geral. Ou melhor, para a música universal. Era Jorge Ben, hoje Jorge Benjor, às vezes, Ben Jor, e nascido Jorge Duílio Lima Menezes, gravado por José Feliciano, Herp Albert, escandalosamente surripiado por Rod Stewart.

O garoto Jorge vivia para a música desde a mais tenra idade, ouvindo discos de jazz e blues trazidos por um primo marinheiro e tentando tirar, de ouvido, aqueles acordes complicados e intrincados da bossa nova, sem deixar de estar atento à música jovem da época, o rock'n'roll. Tanto, que ganhou o apelido de Babulina, devido a sua paixão pelo sucesso de 1958 "Bop-A-Lena", do americano Ronnie Self, o Little Richard branco.

Em 1961, aos 19 anos, ele podia ser visto tocando pandeiro no jazzístico Copa Trio, do Beco das Garrafas, cantando rock na boate Plaza, assim como músicas próprias. Forjava, assim, a revolução permanente da sua arte, referência obrigatória para todas as gerações.

Em 1963, suas músicas "Mas que Nada" e "Por Causa de Você, Menina" são cantadas por ele mesmo em um disco do Copa Cinco, o qual contava com o lendário baterista Dom Um Romão. Neste mesmo ano, além das duas músicas serem lançadas num 78rpm, gravaria seu primeiro LP, "Samba Esquema Novo". Conforme o título deixa explícito, ele rompia com o samba, seja tradicional ou bossa novista, através das letras inovadoras mas, principalmente, através de uma batida de violão que não tinha nada a ver com o instrumento acústico, mas com a guitarra do rock, ou melhor, com o toque da palheta nas cordas de aço da guitarra elétrica. Para acompanhá-lo nas gravações, chamou os colegas de jazz do Beco das Garrafas, já que os músicos de estúdio, afeitos ao regional e ao quadradinho do rock, não entendiam aquelas harmonias novas e complicadas, muito menos aquelas divisões estranhas aos ouvidos desavisados. Mais tarde, eletrificaria de vez o samba, mormente em "O Bidu - Silêncio no Brooklin", de 1967, quando chama o conjunto The Fevers para acompanhá-lo na faixa "Jovem Samba".

Inqualificável, Jorge Ben tinha liberdade plena e transitava entre os vários programas musicais da época, inimigos figadais entre si. Quem fosse ao Fino da Bossa, sob as ordens da bossa novista Elis Regina e do sambista Jair Rodrigues, não poderia, em hipótese alguma, participar do Jovem Guarda, comandado pelos rockers Roberto e Erasmo Carlos e a ternurinha Wanderléa. Ele ainda podia ser visto em O Pequeno Mundo de Ronnie Von, ao lado dos Mutantes, os quais gravaram dele, em seu primeiro disco, "Minha Menina". Paradoxalmente, Ben não está na letra de "Festa de Arromba", o quem é quem do rock, do seu amigo Erasmo, muito menos em "Arrombou a Festa", da mutante Rita Lee. Como um estranho no ninho, incapaz de ser rotulado, o filho do seu Augusto, pandeirista do bloco Cometa do Bispo, e da etíope Silvia Saint Ben Lima, será de capital importância para o movimento tropicalista, com misturas inusitadas de tradição e modernidade.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 3: JOVENS TARDES DE DOMINGO SEM FUTEBOL




Edson Negromonte

É sintomático que, em 1962, quando o fenômeno do rock inglês começa a tomar conta das paradas mundiais, com "Love Me Do", dos Beatles, os pioneiros do rock brasileiro já estivessem saindo de cena. Celly, a Namoradinha do Brasil, que chegou a comandar com o irmão Tony um programa de TV, o Crush em Hi-Fi, deixara seu curto reinado para casar com o namorado de escola, indo viver em Campinas, como uma pacata dona de casa. E Tony Campello, roqueiro de boa cepa, ao perceber a perda da inocência inicial, passa a atuar nos bastidores, como produtor musical, por não compactuar com aqueles garotos de terninhos bem cortados. Tony ainda faria algum sucesso, cantando um novo e passageiro ritmo, na sacolejante "Vamos Dançar o Twist", além da versão "Boogie do Bebê", para o sucesso “Baby Sittin’ Boogie”, de Buzz Clifford.

Uma nova geração mais cínica em relação ao mercado insinuava-se. No ano de 1963, Roberto Carlos lançaria, com grande sucesso, "Splish Splash", versão de Erasmo para o hit de Bobby Darin. Em 1964, aconteceu o golpe militar que levaria os generais ao poder durante os próximos 20 anos. Enquanto isso, os jovens esbaldavam-se com o verdadeiro hino do rock brasileiro: "Rua Augusta", composição do cinquentão Hervé Cordovil, na voz do filho Ronnie Cord, nascido Ronald Cordovil, sobre a paixão juvenil por máquinas velozes e furiosas. Singelamente, em contraposição à transviada e perversa “Rua Augusta”, Roberto Carlos grava "Calhambeque", doce versão de Erasmo para o sucesso "Road Hog", de John Loudermilk, mantendo da letra original, sobre os típicos rachas de carro, somente o beep beep. A canção foi lançada, no Brasil, em um flexi disc promocional da caneta Sheaffer. Em 1965, os publicitários da agência Magaldi & Maia Publicidade, de São Paulo, viram no movimento emergente a chance de aproveitar o horário ocioso das tardes de domingo, na TV Record, impossibilitada de transmitir os tradicionais jogos de futebol, para evitar os estádios vazios. Assim, em uma jogada de marketing, criou-se o programa Jovem Guarda, nome advindo da vanguarda comunista russa, patrocinado pela Shell, para aglutinar os jovens telespectadores da época e, consequentemente, vender os produtos da nova marca Calhambeque: roupas, bonés, botinhas, bonecos etc. Era a ascensão de um novo rei: Roberto Carlos (alguém que, na verdade, queria ser, apenas, João Gilberto, o papa da bossa nova), da rainha Wanderléa, acompanhados pelo valete Erasmo Carlos. Iniciava-se, assim, para o grande público, a idolatria de uma juventude aparentemente sadia. Mas, nos bastidores, enquanto o Rei ficava com as filhas, o valete Tremendão comia as mamães. E a droga rolava solta, principalmente no apartamento do produtor Carlos Imperial, em festas que chegaram a ser noticiadas pelos jornais como “orgiásticas”. O eterno bad boy Erasmo, hoje setentão, grava, neste ano de 1965, o seu primeiro long play "A Pescaria", onde consta o sucesso do ano anterior "Festa de Arromba", o who’s who do rock brasileiro da época, além da curiosa "Beatlemania", composição dele e Renato Barros, guitarrista e vocalista do conjunto Renato e Seus Blue Caps, na qual eles prometem acabar com os quatro cabeludos de Liverpool na porrada.

Muitas foram as publicações “especializadas”, inclusive uma Revista do Rock. Vários programas pipocaram nas rádios e televisões, muitos de curtíssima duração; assim, os artistas da primeira leva, antes rivais, agora desempregados, iam fazer parte do séquito da Jovem Guarda, engrossando o cast do bem-sucedido programa, “rendendo-se ao encanto natural” do líder, de jeitinho doce e matreiro. Assim, muitos cantores de segundo escalão, como Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, experimentaram o gostinho do sucesso. Programas de outros gêneros, principalmente de Bossa Nova e MPB, viam-se como uma resistência ao rock e àqueles cabeludos descerebrados. À imitação da reacionária Marcha da Família com Deus pela Liberdade, série de passeatas contra o comunismo que se insinuava no País, músicos emepebistas e bossanovistas, sentindo-se ameaçados, fizeram a nefasta Passeata Contra a Guitarra Elétrica, para, logo depois, envergonhadamente, capitular ante a irresistível beleza sonora do instrumento musical inventado pelo Capeta.

sábado, 21 de julho de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 2 ou FAZER ROCK NÃO É CONTAR PIADA



Edson Negromonte


Como a indústria fonográfica americana, no final dos anos 1950, ainda não estendera seus longos tentáculos na América do Sul e as novidades importadas demoravam certo tempo para chegar ao País, vários artistas brasileiros, uns com pseudônimos, outros desavergonhadamente com os próprios nomes, gravam o ritmo do momento, na língua original. Principalmente as baladas, muitas vezes com arranjos próximos à nossa cultura, que soam como marchinha ou samba-canção e, até mesmo, bolero. Vai sendo criado, assim, através do processo de aculturação, muito próximo ao ocorrido com a valsa brasileira, cujo grande nome é Zequinha de Abreu, e o tango brasileiro, representado pelo genial Ernesto Nazareth, algo que, muitos anos depois, virá a ser conhecido como um produto único e identificável, o rock brasileiro.

Então, várias gravações nacionais vão surgindo para suprir a necessidade do público jovem, ávido por rock’n’roll. Assim, a excelente cantora Lana Bittencourt espertamente "tempera" seus 78rpm, com o ritmo que os sábios da época rotulam como “modismo passageiro”: sua gravação de "Little Darlin'", rotulado como rumba (não se sabia ainda o que era esse tal de rock’n’roll), sucesso do grupo vocal The Diamonds, em outubro de 1957, tem do outro lado a oportunista "Feliz Natal". Na segunda edição, passadas as festas natalinas, consta o baião "Zezé", de grande sucesso. No ano seguinte, Lana grava "Alone", sucesso de Pat Boone, tendo no outro lado a bossa nova "Se Todos Fossem Iguais a Você". Com a receita infalível, “acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”, Lana grava mais dois bolachões: "With All My Heart" (no lado B "Quero Ir à Bahia"), e "Just Young" (na outra face "Amor Sem Repetição", de 1959). A título de curiosidade, o grupo vocal The Playings, inventado pelo produtor José Scatena, nada mais é que o sexteto vocal e instrumental Titulares do Ritmo; todos os componentes são cegos. Excelente negócio: seis Ray Charles pelo preço de um. Até o Conjunto Farroupilha, da tradicional música gaúcha, vê-se gravando, em 1957, "Mr. Lee", sucesso do quinteto feminino The Bobbettes. De grande sucesso é o lançamento de "Não Pise no Sapato" e "Skirock, Skirock", a cargo de Os Cometas, conjunto sob nítida inspiração de Bill Haley e que, estranhamente, esclarece no selo do próprio disco tratar-se de Louis Oliveira and Friends. Um dos integrantes dos Cometas é Adilson Ramos, que vem a fazer sucesso na década de 60 com "Sonhar Contigo" e "Turbilhão.

Uma das figuras lendárias do rock brasileiro é o rotundo dançarino e saxofonista Bolão, com os seus Rockettes, que regrava "Short Shorts", hit do grupo The Royal Teens, tendo no lado B "Big Guitar", clássico do rhythm'n'blues. (Bolão era um músico de jazz que prestou bons serviços ao rock'n'roll, era conhecido como excelente dançarino de twist: gênero criado para substituir o rock, quando se acreditou necessário criar outro modismo para suprir as “fúteis necessidades da juventude”). Até Hebe Camargo, que começara imitando as Andrew Sisters, tira uma casquinha do rock, com o original "Serafim". No ano seguinte, em 1959, o cantor e comediante Moacyr Franco, assume a identidade de Billy Fontana, acompanhado pelos Rockmakers, e grava um 78rpm com "Baby Rock", o qual não vinga. Sintomaticamente, ele grava, no mesmo ano, com grande sucesso, a marchinha "Me Dá um Dinheiro Aí", e, no ano seguinte, "Rock do Mendigo", aparentemente encerrando a sua curtíssima fase roqueira. (Em 2003, ainda aproveitando-se do rock’n’roll, Moacyr Franco vê a sua recente composição “Tudo Vira Bosta” fazer grande sucesso na voz de Rita Lee). Também o humorista Paulo Silvino, sob o pseudônimo de Dixon Savanah, integrante de Os Terríveis (a formação deste grupo conta com o bossa-novista Carlinhos Lyra, além de Carlos Imperial e Roberto Carlos), grava "Let's Rock Together", em parceria com Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em 1960. Vocês querem rock’n’roll?

Apesar da precária tecnologia dos instrumentos nacionais fabricados pela Giannini e Del Vecchio (guitarras, contrabaixo e amplificadores), o rock instrumental de qualidade fazia-se presente com o grupo The Avalons e os sucessos "Baby Talk" e "China Rock", entre outros, em 1959, cuja formação contava com Solano Ribeiro, criador dos festivais de música popular e da sigla MPB. Outros grupos instrumentais que surgiram antes de The Avalons, mas gravaram somente no início da próxima década: The Fellows, com "I'm Gonna Get Married", em 60, The Jordans, com "Boudah", em 61, e The Jet Black's, com "The Jet", em 1962, todos sob nítida influência da surf music emergente de The Ventures e The Shadows.

O grande acontecimento do final da década, perceptível somente algum tempo depois, é a estréia em disco de um grupo vocal, formado por três irmãos e um primo, chamado The Golden Boys, inspirado nos conjuntos de do wop e nas levadas soul de Roy Hamilton, com "Wake Up Little Susie", sucesso dos Everly Brothers. No lado B, a canção 'Meu Romance com Laura", número musical dos Golden Boys na chanchada "Cala a Boca, Etelvina", estrelada por Dercy Gonçalves. Quando os Golden Boys passam a cantar somente em português, serão de máxima importância para a Jovem Guarda e a MPB, assim como para o que se convencionou chamar, anos depois, samba rock, apesar do termo já aparecer, em 1958, como título de uma gravação do grupo vocal Os Cariocas.

E a história continua.

quinta-feira, 22 de março de 2018

UM CASO DE FAMÍLIA


Edson Negromonte

Papai não admitia espelhos em casa; quando queríamos nos ver, olhávamos no fundo embaciado de uma bandeja de prata. Papai queria, com isso, nos livrar do narcisismo, pela simples razão de que éramos provavelmente muito bonitos. Até certo ponto, conseguiu seu intento. Quando demos conta da nossa beleza, ele já tinha ido embora, deixando-nos o legado da genética. E nós jamais nos miramos em espelhos, em obediência a Papai. Raramente saímos de casa, então, isso nos facilita a observância. Nós, eu e minha irmã, apesar de belíssimos, éramos as crianças que ninguém queria, os enjeitados, aqueles que os próprios parentes fazem questão de esquecer, fazem de conta que não existiríamos. Assim, aprendemos a tomar conta de nós mesmos, a nos protegermos. De Mamãe, sabemos muito pouco. Talvez o que eu e minha irmã sabemos dela seja fruto da nossa própria criação, da nossa imaginação de delfins à beira do tabuleiro de xadrez, defronte à lareira, nos dias gelados, artimanhas de criança para não nos sentirmos tão órfãos... que ela nos deixou, a mim e a minha irmã, e também a Papai, para ir se juntar aos guerrilheiros no Araguaia. Também que ela não morreu em uma troca de tiros com as forças do exército, como quiseram fazer crer na época. Quando a luta interior acabou e ela sentiu-se recuperada, com forças para novamente enfrentar a vida, ela resolveu abandonar tudo que lembrasse as existências anteriores e seguiu para o norte do País; chegando no Acre, embarcou em um avião, em Santa Rosa do Purus, que levou-a para um paradeiro até hoje ignorado. Para mim, a história de minha mãe termina aí, e me conforta imaginá-la ascendendo aos céus, com asas de avião, uma espécie de anjo, metade carne, metade ferro. Minha irmã, a surpreendo, algumas vezes, chorando, umedecendo o bordado com as lágrimas, nas noites de lua cheia, quando as mulheres tornam-se mais emotivas e, então, choram pérolas. Papai esteve sempre presente, apesar das idas e vindas, em meio aos frequentes desaparecimentos. Reaparecia, sempre à noite, rejuvenescido, parecia voltar alguns anos no tempo. E contava-nos, a mim e a minha irmã, as histórias mais inverossímeis, como a de que lhe tinham extirpado os testículos com alicate, os torturadores da inquisição. Ou de como os ferozes cães de guarda de uma mansão lhe tinham arrancado os testículos, com os dentes afiados e muito brancos, quando, nu, em fuga, escalava o muro da casa de uma famosa atriz do cinema nacional. Todas as explicações sobre a sua ausência terminavam sempre com a inevitável extirpação dos testículos. Eu e minha irmã, dentro da madrugada, aplaudíamos e íamos dormir felizes. Papai, então, permanecia conosco por mais alguns dias, e tínhamos, assim, desse modo, a proteção que nos confortaria, à sombra gigantesca do seu próximo desaparecimento. A última vez que vimos Papai, ele nos encheu de conselhos, beijando nossas faces, como nunca antes o fizera. Chorando, advertiu-nos de que este seria o nosso último encontro e, consequentemente, o penúltimo adeus; ele estava embarcando em uma longa jornada, rumo a Calecute, na esquadra de Vasco da Gama.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A CASA AMARELA DA RUA XV



por Edson Negromonte

A primeira vez que entrei na casa amarela da rua XV foi um atordoamento, antes mesmo de ultrapassar o portal. O velho sobrado de três andares era assim chamado não somente pela cor característica e discordante (o restante do casario alternava entre azul e rosa, com detalhes em branco, como se houvesse um acordo tácito entre proprietários), apesar de esmaecida pela ação do tempo, mas também devido ao despeito e maledicência dos moradores da principal rua pela imponência da vetusta construção de inícios do século 18. Eu tinha jurado à minha mãe que nunca entraria naquela casa, a qual era associada a bruxarias e ritos satânicos, e desvios sexuais da pior espécie. (Minha mãe, todas as vezes em que se tocava no assunto “casa amarela da rua XV”, fazia questão de contar, como advertência, sem esquecer do pelo-sinal, a história do doutor Wellington, que viu-se obrigado a mudar para Torres do Pilar, uma cidade próxima, depois que a sua esposa Cinira teve um ataque histérico, ao presenciar os preparativos para um sabá, sob direção do próprio Senhor dos Infernos, com bruxas da mais alta patente, chegando aos montes, montadas em vassouras. O idoso casal era vizinho de frente da casa amarela da rua XV). Mas não pude, não pude mesmo, recusar o convite da minha colega de classe, aliás, mais do que isso, irmã da minha eterna paixão, a melancólica Carmila, das belas sobrancelhas espessas, que contava, naquele tempo, treze anos de idade. Eu era já um rapazola de dezessete anos. À primeira vista, olhada de fora, a casa amarela da rua XV parecia-se arquitetonicamente com todas as outras casas da rua, todas da época de fausto da cidade. Mas um olhar acurado seria capaz de perceber a gárgula cinzenta, corroída, miúda, que gorgolejava prazenteiramente em dias de chuva intensa, horrivelmente disfarçada no alto do telhado, na cumeeira, como a fiel depositária dos segredos inconfessáveis da família em cuja casa tinha pousado.

A possibilidade de encontrar Carmila fez com que eu esquecesse as promessas à minha mãe e entrasse na casa, não galgando de um só pulo os cinco degraus que davam para a sala ampla, como eu gostaria de relatar, para demonstrar minha intrepidez, mas, sim, em meio à perturbação e à embriaguez titubeante dos sentidos. Podia-se ver de imediato, apesar do ambiente ensombrecido, um sofá e duas poltronas, comuns, mais uma inusitada otomana, de uma época impossível de datar pelo excesso de rococós e grotescos arabescos, a qual afetava certa frivolidade dos moradores. Em uma cadeira de balanço, de madeira maciça, repousava a visão de um gato branco, incrivelmente peludo, a qual me deixou menos intranquilo: bruxas ou feiticeiras costumam ter gatos pretos: os assistentes dos seus sortilégios, os quais tornam-se fogosos amantes após a meia-noite. Havia ainda na sala um aparelho televisor, que chamou de imediato minha atenção, era muito grande, como eu jamais havia sonhado, tomando boa parte da parede. Imaginei quão maravilhoso seria assistir Ultraseven naquela geringonça. A bola de pelos abriu preguiçosamente os olhos e, ao ver-me, deu um grunhido e desapareceu em direção à cozinha, o esconderijo favorito desses felinos domésticos, sejam suas donas feiticeiras ou madames.

Antes que me recuperasse do susto, algo que, a princípio, parecia uma grande almofada, se mexeu e emitiu um resmungo a um canto mais escuro do cômodo, ao lado de uma das poltronas.

– ... tio Arquibaldo!

Uma coisa amorfa, como um polvo tratado com esteroides, ergueu a cabeça e olhou-me com os olhos mais aparvalhados com que já fui olhado, um olhar terrível que transportou-me imediatamente ao mito de Cthulhu, essa entidade grotesca que me atormenta desde a leitura do conto amedrontador de Lovecraft. Elizabeth segredou-me que o tio passava os dias em frente à TV, sem som. Foi só, então, que notei o mutismo do aparelho.

Elizabeth e Carmila eram as primeiras da família, depois de muito tempo, uma geração talvez, a conviver socialmente, elas iam à escola, e tão somente à escola, e a isso se resumia o seu convívio em sociedade. Aceitei o convite de minha colega de classe, pela possibilidade de ver sua irmã mais nova, Carmila, mas já começava a me arrepender. Elas, as duas irmãs, uma mais bela que a outra, descendiam diretamente do coronel Anibal Días-Fuentes, militar que, para não ser preso e enfrentar um julgamento de cartas marcadas, por traição, durante a Guerra do Paraguai, desertara e dera com os costados em nossa pequena cidade. Aqui, se estabeleceu, sob proteção do Exército Brasileiro, chegando a receber uma condecoração por bravura militar, provavelmente espionagem, em festividade municipal, das mãos eternamente ensanguentadas do Duque de Caxias, responsável pelo genocídio do povo paraguaio.

Foi, então, ao conseguir despregar os olhos do homem-polvo, que tomei consciência de um vulto esbranquiçado em um dos desvãos mais escuros da sala. Fui chegando mais perto daquele corpo imóvel para me certificar se era aquilo mesmo que meus olhos estavam adivinhando. Sim, era um belo animal. Ou melhor, fora um belo animal. Minha razão insistia em sua soberania, mas os temores faziam-me de idiota, lançando-me em um mundo de obscuridades, no qual é impossível aquilatar o que é verdade e o que é fantasia.

– É o cavalo do coronel... – sussurrou Elizabeth, como se sua voz de miasmas, delicada, como se pudesse despertar o equino do sono. – Está empalhado.
– Empalhado e fedido – retruquei.

Elizabeth sorriu amarelo, como se o cavalo do coronel Días-Fuentes (ou mesmo o coronel, há muito falecido) pudesse se ofender com a inoportuna observação. Aliás, poderia dizer maldosamente que a casa toda fedia, apesar de não ter ainda visitado outros cômodos. O cavalo havia sido colocado, como um guardião, à porta de um compartimento contíguo à sala, que identifiquei como uma biblioteca, e, diga-se, uma vasta biblioteca, que rescendia a papel velho e úmido, livros que há muito tempo ninguém manuseava, e um grande atrativo para o meu espírito sequioso de leitura. A entrada da biblioteca era encimada pela inscrição “O tempora, o mores”, que vim a descobrir, mais tarde, folheando um dicionário de citações latinas, ser uma exortação do grande orador Marco Túlio Cícero, contra a depravação dos seus contemporâneos, na Primeira Catlinária, e que vem a significar “Ó tempos, ó costumes”. Aproximei-me, curioso, da porta da biblioteca, quando ouvi um rangido de assoalho, alguém se afastando, escondendo-se, um roçagar de saias. Em meio ao cheiro de mofo que tudo em volta exalava, pude perceber o perfume, o cheiro característico de Carmila, o qual já tivera oportunidade de sentir, lavanda, algo que o valha, que é como a virgem Astreia deve cheirar.

– Vem, Léo! – a voz de Elizabeth despertou-me da imaginação quimérica.

Ao passar por uma porta fechada, Elizabeth segredou-me, baixinho:

– Esse é o quarto da tia Sissi... você sabe, né?

Sim, eu sabia, e quem não sabia?, do escândalo que estarrecera a cidade e arredores. Durante muito tempo, o caso foi comentado. Ainda hoje é. Dona Cisarina, a Síssi, quando mocinha, ficara com uma garrafa de Coca-cola entalada na vagina; seus pais tiveram que levá-la, às pressas, em um carro de praça, que é como os táxis eram chamados ao tempo desse acontecimento, para o hospital. Desse dia em diante, a tão elegante e bem conceituada família Días-Fuentes fechou-se, morta de vergonha, em casa e nunca mais saiu à rua, nem mais abriu janelas. O único contato dos Días-Fuentes com o mundo exterior era através de uma governanta analfabeta e muda, uma apalermada índia guarani, a qual fazia as compras e pagava as contas do mês. A partir de então, muitas histórias maledicentes envolveram a desgraçada família; a maledicência do povo assevera que as irmãs Elizabeth e Carmila são filhas do incesto de dona Alzira com o capiroto, o qual vem a ser, na realidade, o verdadeiro pai das duas meninas.

– Trancou-se por dentro e nunca mais se soube dela, eu escuto uns barulhos de noite, minha irmã diz que são ratos, eu não sei, não sei mesmo, nem quero saber. Quando eu era bem pequena, tinha medo, mas me acostumei. A gente acostuma, né? Nem cheiro ruim vem de lá de dentro. Acho que tia Síssi ainda vive, mas se alimenta de quê? De ratos? – casquinou Elizabeth, com ar de troça.

– Vem, Leo, vem conhecer o meu quarto...