terça-feira, 7 de agosto de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 3: JOVENS TARDES DE DOMINGO




Edson Negromonte

É sintomático que, em 1962, quando o fenômeno do rock inglês começa a tomar conta das paradas mundiais, com "Love Me Do", dos Beatles, os pioneiros do rock brasileiro já estivessem saindo de cena. Celly, a Namoradinha do Brasil, que chegou a comandar com o irmão Tony um programa de TV, o Crush em Hi-Fi, deixara seu curto reinado para casar com o namorado de escola, indo viver em Campinas, como uma pacata dona de casa. E Tony Campello, roqueiro de boa cepa, ao perceber a perda da inocência inicial, passa a atuar nos bastidores, como produtor musical, por não compactuar com aqueles garotos de terninhos bem cortados. Tony ainda faria algum sucesso, cantando um novo e passageiro ritmo, na sacolejante "Vamos Dançar o Twist", além da versão "Boogie do Bebê", para o sucesso “Baby Sittin’ Boogie”, de Buzz Clifford.

Uma nova geração mais cínica em relação ao mercado insinuava-se. No ano de 1963, Roberto Carlos lançaria, com grande sucesso, "Splish Splash", versão de Erasmo para o hit de Bobby Darin. Em 1964, aconteceu o golpe militar que levaria os generais ao poder durante os próximos 20 anos. Enquanto isso, os jovens esbaldavam-se com o verdadeiro hino do rock brasileiro: "Rua Augusta", composição do cinquentão Hervé Cordovil, na voz do filho Ronnie Cord, nascido Ronald Cordovil, sobre a paixão juvenil por máquinas velozes e furiosas. Singelamente, em contraposição à transviada e perversa “Rua Augusta”, Roberto Carlos grava "Calhambeque", doce versão de Erasmo para o sucesso "Road Hog", de John Loudermilk, mantendo da letra original, sobre os típicos rachas de carro, somente o beep beep. A canção foi lançada, no Brasil, em um flexi disc promocional da caneta Sheaffer. Em 1965, os publicitários da agência Magaldi & Maia Publicidade, de São Paulo, viram no movimento emergente a chance de aproveitar o horário ocioso das tardes de domingo, na TV Record, impossibilitada de transmitir os tradicionais jogos de futebol, para evitar os estádios vazios. Assim, em uma jogada de marketing, criou-se o programa Jovem Guarda, nome advindo da vanguarda comunista russa, patrocinado pela Shell, para aglutinar os jovens telespectadores da época e, consequentemente, vender os produtos da nova marca Calhambeque: roupas, bonés, botinhas, bonecos etc. Era a ascensão de um novo rei: Roberto Carlos (alguém que, na verdade, queria ser, apenas, João Gilberto, o papa da bossa nova), da rainha Wanderléa, acompanhados pelo valete Erasmo Carlos. Iniciava-se, assim, para o grande público, a idolatria de uma juventude aparentemente sadia. Mas, nos bastidores, enquanto o Rei ficava com as filhas, o valete Tremendão comia as mamães. E a droga rolava solta, principalmente no apartamento do produtor Carlos Imperial, em festas que chegaram a ser noticiadas pelos jornais como “orgiásticas”. O eterno bad boy Erasmo, hoje setentão, grava, neste ano de 1965, o seu primeiro long play "A Pescaria", onde consta o sucesso do ano anterior "Festa de Arromba", o who’s who do rock brasileiro da época, além da curiosa "Beatlemania", composição dele e Renato Barros, guitarrista e vocalista do conjunto Renato e Seus Blue Caps, na qual eles prometem acabar com os quatro cabeludos de Liverpool na porrada.

Muitas foram as publicações “especializadas”, inclusive uma Revista do Rock. Vários programas pipocaram nas rádios e televisões, muitos de curtíssima duração; assim, os artistas da primeira leva, antes rivais, agora desempregados, iam fazer parte do séquito da Jovem Guarda, engrossando o cast do bem-sucedido programa, “rendendo-se ao encanto natural” do líder, de jeitinho doce e matreiro. Assim, muitos cantores de segundo escalão, como Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, experimentaram o gostinho do sucesso. Programas de outros gêneros, principalmente de Bossa Nova e MPB, viam-se como uma resistência ao rock e àqueles cabeludos descerebrados. À imitação da reacionária Marcha da Família com Deus pela Liberdade, série de passeatas contra o comunismo que se insinuava no País, músicos emepebistas e bossanovistas, sentindo-se ameaçados, fizeram a nefasta Passeata Contra a Guitarra Elétrica, para, logo depois, envergonhadamente, capitular ante a irresistível beleza sonora do instrumento musical inventado pelo Capeta.

sábado, 21 de julho de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 2 ou FAZER ROCK NÃO É CONTAR PIADA



Edson Negromonte


Como a indústria fonográfica americana, no final dos anos 1950, ainda não estendera seus longos tentáculos na América do Sul e as novidades importadas demoravam certo tempo para chegar ao País, vários artistas brasileiros, uns com pseudônimos, outros desavergonhadamente com os próprios nomes, gravam o ritmo do momento, na língua original. Principalmente as baladas, muitas vezes com arranjos próximos à nossa cultura, que soam como marchinha ou samba-canção e, até mesmo, bolero. Vai sendo criado, assim, através do processo de aculturação, muito próximo ao ocorrido com a valsa brasileira, cujo grande nome é Zequinha de Abreu, e o tango brasileiro, representado pelo genial Ernesto Nazareth, algo que, muitos anos depois, virá a ser conhecido como um produto único e identificável, o rock brasileiro.

Então, várias gravações nacionais vão surgindo para suprir a necessidade do público jovem, ávido por rock’n’roll. Assim, a excelente cantora Lana Bittencourt espertamente "tempera" seus 78rpm, com o ritmo que os sábios da época rotulam como “modismo passageiro”: sua gravação de "Little Darlin'", rotulado como rumba (não se sabia ainda o que era esse tal de rock’n’roll), sucesso do grupo vocal The Diamonds, em outubro de 1957, tem do outro lado a oportunista "Feliz Natal". Na segunda edição, passadas as festas natalinas, consta o baião "Zezé", de grande sucesso. No ano seguinte, Lana grava "Alone", sucesso de Pat Boone, tendo no outro lado a bossa nova "Se Todos Fossem Iguais a Você". Com a receita infalível, “acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”, Lana grava mais dois bolachões: "With All My Heart" (no lado B "Quero Ir à Bahia"), e "Just Young" (na outra face "Amor Sem Repetição", de 1959). A título de curiosidade, o grupo vocal The Playings, inventado pelo produtor José Scatena, nada mais é que o sexteto vocal e instrumental Titulares do Ritmo; todos os componentes são cegos. Excelente negócio: seis Ray Charles pelo preço de um. Até o Conjunto Farroupilha, da tradicional música gaúcha, vê-se gravando, em 1957, "Mr. Lee", sucesso do quinteto feminino The Bobbettes. De grande sucesso é o lançamento de "Não Pise no Sapato" e "Skirock, Skirock", a cargo de Os Cometas, conjunto sob nítida inspiração de Bill Haley e que, estranhamente, esclarece no selo do próprio disco tratar-se de Louis Oliveira and Friends. Um dos integrantes dos Cometas é Adilson Ramos, que vem a fazer sucesso na década de 60 com "Sonhar Contigo" e "Turbilhão.

Uma das figuras lendárias do rock brasileiro é o rotundo dançarino e saxofonista Bolão, com os seus Rockettes, que regrava "Short Shorts", hit do grupo The Royal Teens, tendo no lado B "Big Guitar", clássico do rhythm'n'blues. (Bolão era um músico de jazz que prestou bons serviços ao rock'n'roll, era conhecido como excelente dançarino de twist: gênero criado para substituir o rock, quando se acreditou necessário criar outro modismo para suprir as “fúteis necessidades da juventude”). Até Hebe Camargo, que começara imitando as Andrew Sisters, tira uma casquinha do rock, com o original "Serafim". No ano seguinte, em 1959, o cantor e comediante Moacyr Franco, assume a identidade de Billy Fontana, acompanhado pelos Rockmakers, e grava um 78rpm com "Baby Rock", o qual não vinga. Sintomaticamente, ele grava, no mesmo ano, com grande sucesso, a marchinha "Me Dá um Dinheiro Aí", e, no ano seguinte, "Rock do Mendigo", aparentemente encerrando a sua curtíssima fase roqueira. (Em 2003, ainda aproveitando-se do rock’n’roll, Moacyr Franco vê a sua recente composição “Tudo Vira Bosta” fazer grande sucesso na voz de Rita Lee). Também o humorista Paulo Silvino, sob o pseudônimo de Dixon Savanah, integrante de Os Terríveis (a formação deste grupo conta com o bossa-novista Carlinhos Lyra, além de Carlos Imperial e Roberto Carlos), grava "Let's Rock Together", em parceria com Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em 1960. Vocês querem rock’n’roll?

Apesar da precária tecnologia dos instrumentos nacionais fabricados pela Giannini e Del Vecchio (guitarras, contrabaixo e amplificadores), o rock instrumental de qualidade fazia-se presente com o grupo The Avalons e os sucessos "Baby Talk" e "China Rock", entre outros, em 1959, cuja formação contava com Solano Ribeiro, criador dos festivais de música popular e da sigla MPB. Outros grupos instrumentais que surgiram antes de The Avalons, mas gravaram somente no início da próxima década: The Fellows, com "I'm Gonna Get Married", em 60, The Jordans, com "Boudah", em 61, e The Jet Black's, com "The Jet", em 1962, todos sob nítida influência da surf music emergente de The Ventures e The Shadows.

O grande acontecimento do final da década, perceptível somente algum tempo depois, é a estréia em disco de um grupo vocal, formado por três irmãos e um primo, chamado The Golden Boys, inspirado nos conjuntos de do wop e nas levadas soul de Roy Hamilton, com "Wake Up Little Susie", sucesso dos Everly Brothers. No lado B, a canção 'Meu Romance com Laura", número musical dos Golden Boys na chanchada "Cala a Boca, Etelvina", estrelada por Dercy Gonçalves. Quando os Golden Boys passam a cantar somente em português, serão de máxima importância para a Jovem Guarda e a MPB, assim como para o que se convencionou chamar, anos depois, samba rock, apesar do termo já aparecer, em 1958, como título de uma gravação do grupo vocal Os Cariocas.

E a história continua.

quinta-feira, 22 de março de 2018

UM CASO DE FAMÍLIA


Edson Negromonte

Papai não admitia espelhos em casa; quando queríamos nos ver, olhávamos no fundo embaciado de uma bandeja de prata. Papai queria, com isso, nos livrar do narcisismo, pela simples razão de que éramos provavelmente muito bonitos. Até certo ponto, conseguiu seu intento. Quando demos conta da nossa beleza, ele já tinha ido embora, deixando-nos o legado da genética. E nós jamais nos miramos em espelhos, em obediência a Papai. Raramente saímos de casa, então, isso nos facilita a observância. Nós, eu e minha irmã, apesar de belíssimos, éramos as crianças que ninguém queria, os enjeitados, aqueles que os próprios parentes fazem questão de esquecer, fazem de conta que não existiríamos. Assim, aprendemos a tomar conta de nós mesmos, a nos protegermos. De Mamãe, sabemos muito pouco. Talvez o que eu e minha irmã sabemos dela seja fruto da nossa própria criação, da nossa imaginação de delfins à beira do tabuleiro de xadrez, defronte à lareira, nos dias gelados, artimanhas de criança para não nos sentirmos tão órfãos... que ela nos deixou, a mim e a minha irmã, e também a Papai, para ir se juntar aos guerrilheiros no Araguaia. Também que ela não morreu em uma troca de tiros com as forças do exército, como quiseram fazer crer na época. Quando a luta interior acabou e ela sentiu-se recuperada, com forças para novamente enfrentar a vida, ela resolveu abandonar tudo que lembrasse as existências anteriores e seguiu para o norte do País; chegando no Acre, embarcou em um avião, em Santa Rosa do Purus, que levou-a para um paradeiro até hoje ignorado. Para mim, a história de minha mãe termina aí, e me conforta imaginá-la ascendendo aos céus, com asas de avião, uma espécie de anjo, metade carne, metade ferro. Minha irmã, a surpreendo, algumas vezes, chorando, umedecendo o bordado com as lágrimas, nas noites de lua cheia, quando as mulheres tornam-se mais emotivas e, então, choram pérolas. Papai esteve sempre presente, apesar das idas e vindas, em meio aos frequentes desaparecimentos. Reaparecia, sempre à noite, rejuvenescido, parecia voltar alguns anos no tempo. E contava-nos, a mim e a minha irmã, as histórias mais inverossímeis, como a de que lhe tinham extirpado os testículos com alicate, os torturadores da inquisição. Ou de como os ferozes cães de guarda de uma mansão lhe tinham arrancado os testículos, com os dentes afiados e muito brancos, quando, nu, em fuga, escalava o muro da casa de uma famosa atriz do cinema nacional. Todas as explicações sobre a sua ausência terminavam sempre com a inevitável extirpação dos testículos. Eu e minha irmã, dentro da madrugada, aplaudíamos e íamos dormir felizes. Papai, então, permanecia conosco por mais alguns dias, e tínhamos, assim, desse modo, a proteção que nos confortaria, à sombra gigantesca do seu próximo desaparecimento. A última vez que vimos Papai, ele nos encheu de conselhos, beijando nossas faces, como nunca antes o fizera. Chorando, advertiu-nos de que este seria o nosso último encontro e, consequentemente, o penúltimo adeus; ele estava embarcando em uma longa jornada, rumo a Calecute, na esquadra de Vasco da Gama.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A CASA AMARELA DA RUA XV



por Edson Negromonte

A primeira vez que entrei na casa amarela da rua XV foi um atordoamento, antes mesmo de ultrapassar o portal. O velho sobrado de três andares era assim chamado não somente pela cor característica e discordante (o restante do casario alternava entre azul e rosa, com detalhes em branco, como se houvesse um acordo tácito entre proprietários), apesar de esmaecida pela ação do tempo, mas também devido ao despeito e maledicência dos moradores da principal rua pela imponência da vetusta construção de inícios do século 18. Eu tinha jurado à minha mãe que nunca entraria naquela casa, a qual era associada a bruxarias e ritos satânicos, e desvios sexuais da pior espécie. (Minha mãe, todas as vezes em que se tocava no assunto “casa amarela da rua XV”, fazia questão de contar, como advertência, sem esquecer do pelo-sinal, a história do doutor Wellington, que viu-se obrigado a mudar para Torres do Pilar, uma cidade próxima, depois que a sua esposa Cinira teve um ataque histérico, ao presenciar os preparativos para um sabá, sob direção do próprio Senhor dos Infernos, com bruxas da mais alta patente, chegando aos montes, montadas em vassouras. O idoso casal era vizinho de frente da casa amarela da rua XV). Mas não pude, não pude mesmo, recusar o convite da minha colega de classe, aliás, mais do que isso, irmã da minha eterna paixão, a melancólica Carmila, das belas sobrancelhas espessas, que contava, naquele tempo, treze anos de idade. Eu era já um rapazola de dezessete anos. À primeira vista, olhada de fora, a casa amarela da rua XV parecia-se arquitetonicamente com todas as outras casas da rua, todas da época de fausto da cidade. Mas um olhar acurado seria capaz de perceber a gárgula cinzenta, corroída, miúda, que gorgolejava prazenteiramente em dias de chuva intensa, horrivelmente disfarçada no alto do telhado, na cumeeira, como a fiel depositária dos segredos inconfessáveis da família em cuja casa tinha pousado.

A possibilidade de encontrar Carmila fez com que eu esquecesse as promessas à minha mãe e entrasse na casa, não galgando de um só pulo os cinco degraus que davam para a sala ampla, como eu gostaria de relatar, para demonstrar minha intrepidez, mas, sim, em meio à perturbação e à embriaguez titubeante dos sentidos. Podia-se ver de imediato, apesar do ambiente ensombrecido, um sofá e duas poltronas, comuns, mais uma inusitada otomana, de uma época impossível de datar pelo excesso de rococós e grotescos arabescos, a qual afetava certa frivolidade dos moradores. Em uma cadeira de balanço, de madeira maciça, repousava a visão de um gato branco, incrivelmente peludo, a qual me deixou menos intranquilo: bruxas ou feiticeiras costumam ter gatos pretos: os assistentes dos seus sortilégios, os quais tornam-se fogosos amantes após a meia-noite. Havia ainda na sala um aparelho televisor, que chamou de imediato minha atenção, era muito grande, como eu jamais havia sonhado, tomando boa parte da parede. Imaginei quão maravilhoso seria assistir Ultraseven naquela geringonça. A bola de pelos abriu preguiçosamente os olhos e, ao ver-me, deu um grunhido e desapareceu em direção à cozinha, o esconderijo favorito desses felinos domésticos, sejam suas donas feiticeiras ou madames.

Antes que me recuperasse do susto, algo que, a princípio, parecia uma grande almofada, se mexeu e emitiu um resmungo a um canto mais escuro do cômodo, ao lado de uma das poltronas.

– ... tio Arquibaldo!

Uma coisa amorfa, como um polvo tratado com esteroides, ergueu a cabeça e olhou-me com os olhos mais aparvalhados com que já fui olhado, um olhar terrível que transportou-me imediatamente ao mito de Cthulhu, essa entidade grotesca que me atormenta desde a leitura do conto amedrontador de Lovecraft. Elizabeth segredou-me que o tio passava os dias em frente à TV, sem som. Foi só, então, que notei o mutismo do aparelho.

Elizabeth e Carmila eram as primeiras da família, depois de muito tempo, uma geração talvez, a conviver socialmente, elas iam à escola, e tão somente à escola, e a isso se resumia o seu convívio em sociedade. Aceitei o convite de minha colega de classe, pela possibilidade de ver sua irmã mais nova, Carmila, mas já começava a me arrepender. Elas, as duas irmãs, uma mais bela que a outra, descendiam diretamente do coronel Anibal Días-Fuentes, militar que, para não ser preso e enfrentar um julgamento de cartas marcadas, por traição, durante a Guerra do Paraguai, desertara e dera com os costados em nossa pequena cidade. Aqui, se estabeleceu, sob proteção do Exército Brasileiro, chegando a receber uma condecoração por bravura militar, provavelmente espionagem, em festividade municipal, das mãos eternamente ensanguentadas do Duque de Caxias, responsável pelo genocídio do povo paraguaio.

Foi, então, ao conseguir despregar os olhos do homem-polvo, que tomei consciência de um vulto esbranquiçado em um dos desvãos mais escuros da sala. Fui chegando mais perto daquele corpo imóvel para me certificar se era aquilo mesmo que meus olhos estavam adivinhando. Sim, era um belo animal. Ou melhor, fora um belo animal. Minha razão insistia em sua soberania, mas os temores faziam-me de idiota, lançando-me em um mundo de obscuridades, no qual é impossível aquilatar o que é verdade e o que é fantasia.

– É o cavalo do coronel... – sussurrou Elizabeth, como se sua voz de miasmas, delicada, como se pudesse despertar o equino do sono. – Está empalhado.
– Empalhado e fedido – retruquei.

Elizabeth sorriu amarelo, como se o cavalo do coronel Días-Fuentes (ou mesmo o coronel, há muito falecido) pudesse se ofender com a inoportuna observação. Aliás, poderia dizer maldosamente que a casa toda fedia, apesar de não ter ainda visitado outros cômodos. O cavalo havia sido colocado, como um guardião, à porta de um compartimento contíguo à sala, que identifiquei como uma biblioteca, e, diga-se, uma vasta biblioteca, que rescendia a papel velho e úmido, livros que há muito tempo ninguém manuseava, e um grande atrativo para o meu espírito sequioso de leitura. A entrada da biblioteca era encimada pela inscrição “O tempora, o mores”, que vim a descobrir, mais tarde, folheando um dicionário de citações latinas, ser uma exortação do grande orador Marco Túlio Cícero, contra a depravação dos seus contemporâneos, na Primeira Catlinária, e que vem a significar “Ó tempos, ó costumes”. Aproximei-me, curioso, da porta da biblioteca, quando ouvi um rangido de assoalho, alguém se afastando, escondendo-se, um roçagar de saias. Em meio ao cheiro de mofo que tudo em volta exalava, pude perceber o perfume, o cheiro característico de Carmila, o qual já tivera oportunidade de sentir, lavanda, algo que o valha, que é como a virgem Astreia deve cheirar.

– Vem, Léo! – a voz de Elizabeth despertou-me da imaginação quimérica.

Ao passar por uma porta fechada, Elizabeth segredou-me, baixinho:

– Esse é o quarto da tia Sissi... você sabe, né?

Sim, eu sabia, e quem não sabia?, do escândalo que estarrecera a cidade e arredores. Durante muito tempo, o caso foi comentado. Ainda hoje é. Dona Cisarina, a Síssi, quando mocinha, ficara com uma garrafa de Coca-cola entalada na vagina; seus pais tiveram que levá-la, às pressas, em um carro de praça, que é como os táxis eram chamados ao tempo desse acontecimento, para o hospital. Desse dia em diante, a tão elegante e bem conceituada família Días-Fuentes fechou-se, morta de vergonha, em casa e nunca mais saiu à rua, nem mais abriu janelas. O único contato dos Días-Fuentes com o mundo exterior era através de uma governanta analfabeta e muda, uma apalermada índia guarani, a qual fazia as compras e pagava as contas do mês. A partir de então, muitas histórias maledicentes envolveram a desgraçada família; a maledicência do povo assevera que as irmãs Elizabeth e Carmila são filhas do incesto de dona Alzira com o capiroto, o qual vem a ser, na realidade, o verdadeiro pai das duas meninas.

– Trancou-se por dentro e nunca mais se soube dela, eu escuto uns barulhos de noite, minha irmã diz que são ratos, eu não sei, não sei mesmo, nem quero saber. Quando eu era bem pequena, tinha medo, mas me acostumei. A gente acostuma, né? Nem cheiro ruim vem de lá de dentro. Acho que tia Síssi ainda vive, mas se alimenta de quê? De ratos? – casquinou Elizabeth, com ar de troça.

– Vem, Leo, vem conhecer o meu quarto...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A SUSTENTÁVEL LEVEZA DOS BATRÁQUIOS (reprise)



por Edson Negromonte

Quando menina, ela colecionava sapos. Dava-lhes nomes: Pintado, Bolinha, Tigresa, Néfer, Sapopemba, Dalva, Saponáceo, Rubem, Bufo, Hermeto... Este último fora sugerido pelo pai, enquanto admiravam, num dia de chuva, aquele sapo velho, de costas largas, rugosas, a coaxar sem parar, irreverente, aboletado na varanda da casa, em Visconde de Mauá. O pai incentivava o interesse da menina pelos batráquios, presenteando-a com os mais diversos livros sobre o assunto, de ficção, fábulas, alguns recortes de velhas enciclopédias e até uma obra técnica encontrada num sebo. A menina aproveitava qualquer ocasião, principalmente nas reuniões de família, para conversar sobre os sapos, invariavelmente. Desistira de contar sobre a sua paixão para as amiguinhas da escola; elas torciam o nariz, faziam cara de nojo. Como a menina não era de engolir sapos, aproveitava para encerrar a conversa com chave de ouro, contando-lhes como os meninos americanos brincam de esconder sapos dentro da boca.

Sabia que somente o pai era capaz de compreendê-la. Com ele, assistiu na TV à pajelança, promovida pelos índios Raoni e Sapaim, para curar o naturalista Augusto Ruschi, envenenado por um sapo, da espécie dendrobata. O pai, que se tornara aos poucos um expert no assunto, aproveitou mais essa ocasião para esclarecer a filha: o tal naturalista, desavisado, teria beijado uma sapa venenosa, na boca, em busca da sua princesa encantada. Assim, foi a menina crescendo, colecionando conhecimento sobre a vida desses seres aparentemente repulsivos. Descobriu, levada pelo pai, que a literatura e os homens são useiros e vezeiros em associar os pobres sapinhos, assim como outros bichos, principalmente os gatos, com a magia negra; e que nem mesmo os contos de fada têm muito apreço por eles. E que, não os tendo em boa conta, mostra-os invariavelmente como príncipes que precisam do beijo apaixonado de uma doce princesa para quebrar a maldição lançada por uma bruxa malvada. Em sua santa inocência, ela não entendia por que as princesas não podiam simplesmente casar com sapos.

A mais remota lembrança da menina, em relação aos sapos, estava associada à cadeira alta, o pai contando as mais fabulosas histórias do mundo dos batráquios para fazê-la comer a papinha. A mais apreciada de todas era uma história verídica, dos seus tempos de menino, quando ele mesmo fora transformado num sapo-boi por uma velha feiticeira, que morava na floresta próxima à sua casa. A cada vez que era contada, esta história ia se transformando, se desenvolvendo, burilada, tomando caminhos insuspeitados, aproveitando-se das passagens clássicas de outros contos, tiradas dos livros, e outras, corriqueiras, inspiradas no dia-a-dia. O ponto alto era quando o pai, então menino, retornava dias depois para casa, na forma de um, pode-se dizer, sem licença poética, descomunal sapo-boi. Era sempre assim, quando a menina, na cadeira alta, com a boca cheia, o prato quase vazio, estivesse então com lágrimas nos olhos, o pai, com a voz suave, dava início ao já conhecido desfecho, tantas vezes contado e recontado: de como a sua mãezinha, a doce vovozinha da menina, apiedada da sina do filho, curou-o com benzimento e orações, mais chazinhos de erva-doce pela manhã, losna à tarde e boldo-do-chile à noite, e de como ele prometera, dali para a frente, ser um bom menino, não passar mais nem perto da floresta encantada.

– Ah, mas aquela casinha era toda feita de doces, portas de chocolate, janelas de açúcar cândi e telhados de doce de abóbora, uma tentação para as crianças da região.

A menina enxugava os olhos, com o dorso da mãozinha, a boca cheia, o prato vazio, raspado. O pai, então, arrematava a história, contando-lhe que, graças aos cuidados e simpatias da pobre mãezinha, ele fora aos poucos se curando, voltando ao normal, embora às vezes ainda coaxasse durante o sono e que, ainda hoje, mesmo adulto, a visão de um belo banhado lhe dá certa nostalgia.

Descida da cadeira, a menina rodeia o pai, ergue a camiseta dele, passa levemente o dedinho frio pelas suas costas. Fica, por alguns segundos, intrigada, examinando a ponta do dedinho.

– É, papai, você ainda tem as costas meio verdes.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

NANÁ (reprise)



por Edson Negromonte

Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.

Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.

A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.

Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.

Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.

Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes também na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.

Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.

Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.

Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se a bebida oferecida: vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até no corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.

Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.

O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

UM VEÍCULO, SIMPLESMENTE UM VEÍCULO


Edson Negromonte

A velhice concede aos velhos, somente aos velhos-velhos, um insuspeitado conceito de tempo, o qual leva à fruição sem culpa dos dias do passado. Assim, depois do sono da tarde, enquanto me acostumava novamente com os pequenos ruídos exteriores, vi desfilar uma parte da galeria de personagens que frequentava o sebo do qual eu tirei, durante muitos anos, o sustento da minha família: o poetastro local ainda olha-me, disfarçada e rancorosamente, por entre as páginas do seu livro de versos, ‘Florilégio”, indignado com o baixo preço que eu colocara em sua antologia; o guri que mocozava entre os seus gibis de super-heróis, com os quais ele entrara, outros gibis de valor mais alto, como se eu não percebesse (fez isso algumas vezes, até que tive de educadamente lhe chamar a atenção. Depois disso, ele tornou-se meu amigo); as prostitutas que faziam ponto na pequena praça em frente e, entre um cliente e outro, iam em busca das revistas populares de histórias românticas (uma delas pediu-me, certo dia, que lhe indicasse um bom livro, estava cansada da xaropada de Sabrinas e Biancas, com a única condição de que, se ela não gostasse do livro, o atiraria na minha cara. Indiquei-lhe “Horizonte Perdido”, temeroso. Tornou-se uma leitora voraz de livros, até que, um dia, comprou o calhamaço “Ulisses”, de James Joyce, por sua conta e risco, e nunca mais a vi); o adolescente tímido que chegou, segurando no braço da mãe, e sem dizer uma única palavra, apontou para o disco raro, de vinil, que estava no expositor, atrás de mim (era “Rocka Rolla”, do Judas Priest, importado. Depois disso, em uma terça-feira chuvosa, ele surgiu sozinho, tirou de baixo do agasalho uma sacola de supermercado, na qual trazia duas fitas VHS, com filmes de Roy Rogers. A partir desse dia, tornamo-nos amigos); a bela lolita, de fartos cabelos negros, e olhos ainda mais negros, que recitava poemas eróticos de Goethe, com um sorriso travesso brincando nos lábios; o comerciante de livros, que os comprava e revendia para clientes seletos, ao qual eu dava um bom desconto, para que ele tivesse uma substanciosa margem de lucro, pagando sempre em dia. Até que me aplicou um golpe de certa monta, utilizando cheque roubado. Encontrei-o mais tarde, na capital, vivendo como mendigo na Praça da Sé; completamente bêbado, não me reconheceu. Consternado, rezei por ele); também aqueles que leram meia dúzia de livros, gabando-se disso, como se houvessem cometido uma proeza intelectual; o físico de renome mundial que ninguém conhecia em sua cidade natal; sua humildade chegava a ser constrangedora. Presenteava-me semanalmente com vários volumes, os mais diversos assuntos, em várias línguas, inglês, alemão, francês; entrava quieto, saía calado, jamais disse uma palavra; o colunista social, com programa na TV Manchete, que ia todos os sábados, à cata de edições antigas de Bolinha e Luluzinha, cuja filha colecionava matérias sobre o pai, em início de carreira, em revistas antigas; os moleques guardadores de carro, de olhos vermelhos de cheirar cola de sapateiro, aos quais eu dava toda segunda-feira uma revista de super-herói, à escolha deles (Capitão América e Hulk eram os favoritos); a cliente que predisse que eu sofreria de Mal de Parkinson, de tanto ficar com a cabeça inclinada para a frente, absorto nas páginas de um livro; o rapazola, em busca dos seus pares, que mal sabia pronunciar o nome de Edgar Allan Poe,e que ficou ruborizado quando o corrigi (tornou-se, desde então, meu melhor amigo); o larápio, de mãos tão leves e rápidas, que enganou-me, durante o troco, levando com ele o seu dinheiro e o meu (levei muito tempo para perdoá-lo); o travesti que trabalhava no Banco do Brasil e que, justamente nos dias em que eu necessitava pagar as contas da livraria, não tendo de onde tirar, ele aparecia, como por encanto, e comprava um lote de discos de rock, de blues e soul, salvando o dia; o advogado que, arrependido, voltou ao sebo para reaver o livro que houvera anteriormente vendido e assustou-se com o alto preço que eu lhe pedira (como explicar a ele que eu comprara o lote todo somente por causa daquele livro e que o restante era legislação obsoleta, em desuso, sem valor nenhum?); o radialista que pediu a minha prisão no ar; o colecionador que me entregou um volumoso pacote, contendo vários exemplares da revista Tico-tico, em perfeito estado, com medo que a esposa os vendesse ao ferro-velho, após a sua morte; o jovem policial civil que a mim atribuía a sua escolha profissional por lhe ter fornecido os livros de bolso, com histórias de detetive, as quais ele devorava; o tímido técnico em eletrônica que contou-me, radiante, que estava construindo um aparelho para entrar em contato com os extraterrestres; a família agradecida por ter vendido ao filho mais velho um livro que ensinava a construir um abrigo nuclear (garantiram que tinha nele um lugar reservado para mim); aqueles que perambulavam por ali, folheando alheadamente os livros, indo embora sem nada comprar, de peito estufado, cabeça erguida, satisfeitos com a sensação de cultura adquirida, somente por respirarem o pó dos séculos que todo sebo detém; e tantos outros mais.

Mas o personagem que mais me tocou, em tudo isso, foi o menino que chegou, um dia, pela manhã, pedindo-me dinheiro para comprar uma coxinha, na padaria ao lado. Disse que não lhe daria o dinheiro, mas que lhe pagaria o salgadinho. Agradeceu e saiu lambendo os beiços, deliciando-se com a coxinha. No dia seguinte, quase no mesmo horário, o menino apareceu novamente. E no seguinte, também. Então, olhei bem para ele e, inspirado pela bondade cósmica, disse:

– Se você continuar assim, pedindo, você vai virar um mendigo, alguém que vive do que os outros rejeitam, você vai viver do resto dos outros. Você quer ser mendigo?

Ele virou as costas, entristecido, e foi embora.

Alguns dias depois, ele reaparece, todo sorridente, com um tabuleiro, pendendo do pescoço, com vários saquinhos de amendoim torrado.

– Quem comprar minduim, senhor?
– Viva, tá trabalhando!
– Eu falei pro meu pai o que o senhor me falou, ele fez três tabuleiros, um pra mim, um pro meu irmão e outro pra ele. Agora, nós tamo vendendo minduim.

Todas as vezes que ele foi me vender amendoim, fiz questão de comprar. Levava os pacotinhos, em forma de cone, feitos de papel de embrulho, para casa, no final do expediente. Meus filhos ficavam contentes com o amendoim salgado e torrado, depois da janta.

Alguns anos depois, saía com as crianças do cinema, onde fomos assistir “Indiana Jones e a Última Cruzada”, e entramos na fila para comprar pipoca, quando vejo o rapaz do carrinho de pipoca chamando-me com um aceno de mão. Fui até ele e vi que aquele rapaz era o menino que vendia minduim no tabuleiro. Não é a raposa que diz ao Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”? Pois, foi justamente essa frase que veio à minha mente naquele momento.

– Tá vendendo pipoca agora?
– Sim, esse carrinho é meu e aquele – disse, apontando para um outro carrinho que estava um pouco mais adiante – é do meu pai.

Quanta satisfação ao perceber que as minhas palavras, como sementes, tinham caído em terreno fértil. E isso aquece meu coração de velho todas as vezes que relembro essa história na qual eu fui um veículo para o Cósmico, simplesmente um instrumento. Depois, reencontrei-o em uma quermesse, no pátio da igrejinha de Mato Dentro, durante a festa da padroeira, quando fomos, eu, a mulher e as crianças, comprar amendoim salgado, em uma barraquinha, e uma voz, muito minha conhecida, vinda do carrinho de pipoca, gritou para o molecote que nos atendia:

– Põe os maiores pra ele!