quarta-feira, 9 de agosto de 2017

REDESENHANDO A VIDA


Edson Negromonte

para o meu neto Dimitri


O desenho me acompanha desde a mais antiga lembrança de minha infância, por volta dos três anos de idade ou até menos. Desenhar era, para mim, vital, minha arma, um Colt.45 contra o mundo. Foi o modo que encontrei, intuitivamente, de não me desesperar com as longas noites da insônia que me acometeu durante toda a infância e parte da adolescência. Ainda posso ver, com muita nitidez, o menino debruçado sobre um caderno pautado, enchendo-o com garatujas, e a figura da mãe, encostada no umbral da porta, de camisola branca, a cabeça inclinada, penalizada com a insônia do filho. Ainda tenho nítida a mesa enorme,de tampo escuro, as oito cadeiras sonolentas e incomodadas com a claridade do lustre de cristal; mesa que, com o passar dos anos, foi ficando cada vez maior, tomando conta de toda a sala de jantar, dos outros cômodos, do solar onde morávamos, em Blumenau. Ainda guardo carinhosamente na memória o gabarito do contorno de um cavalinho, presente do meu avô materno, com o qual cobri, uns sobre os outros, folhas e mais folhas, preenchendo o contorno ao bel-prazer do meu traço infantil. Além dos cadernos, eu preenchia também as cadernetas de receita de minha mãe; uma dessas cadernetas, de capa preta, ainda rolava pelas gavetas de sua casa há alguns anos atrás.

Depois, em Niterói, para onde nos mudamos, no início da década de 1960, lembro-me de uma passagem com o quitandeiro da esquina, a uma quadra do prédio onde fôramos morar, no bairro de Icaraí, à avenida Vital Brasil. Para aplacar a minha fome insaciável de histórias em quadrinhos (nessa época, as bancas eram abarrotadas por gibis para todos os gostos, e eu queria comprar todos, desde os de faroeste, os meus prediletos, até os infantis), eu vendia vidro para o garrafeiro, que passava gritando o seu pregão pelas ruas do bairro, e as revistas semanais e jornais para o homem da quitanda, o qual pagava um preço melhor. Assim, uma revista Manchete, cuja capa estampava o general, então presidente da República, Castelo Branco, foi parar na quitanda. Folheando a revista, o quitandeiro encontrou um desenho que eu fizera da carantonha do general, o qual ele colou na parede que ficava às suas costas. Devia estar bem feito, pois, quando lhe perguntavam quem o tinha feito, ele respondia, todo orgulhoso e sorridente: “Eu mesmo”. Calhou de minha mãe estar presente em uma dessas ocasiões. Ela, prontamente, disse a ele: “O senhor está mentindo, esse desenho é do meu filho!”. E calhou também de eu, enquanto ela fazia as compras, estar folheando as novidades na banca ao lado. Ela, de imediato, me chamou: “Esse desenho é seu ou não é?”. Entre envergonhado e penalizado, resmunguei: Mãe, deixa o homem dizer que é dele. “Não deixo não, o que é certo é certo, e a verdade deve ser dita”. Fazer o que diante de tal argumento? Nunca esquecerei da cara de tacho do quitandeiro, por trás do vasto bigodão.

Também em Niterói, na saída da escola, eu costumava gastar um bom tempo na banca do meu amigo Bill, um adulto que conversava comigo de igual para igual. Lógico que a conversa só poderia girar sobre quadrinhos. Bill pedia sempre para ver os meus desenhos. Ele dizia que eu desenhava muito bem, e vindo de quem vinha o elogio, do Bill!, o dono de uma banca de aço, na esquina da escola, (Nossa!, esse era o meu ideal de vida: ser dono de uma banca todinha minha!), é claro que isso me deixava muito contente. Um dia, fui surpreendido com a proposta de que eu fizesse, no muro, ao lado da sua banca, o desenho de vários heróis, um mural. Bill garantiu que providenciaria o material necessário e que eu poderia desenhar os heróis que quisesse, desde que eu incluísse, entre eles, o Fantasma, o seu favorito. Sem problema, Bill! Assim, preenchi aquela parede, traçando com giz branco (depois, Bill faria o contorno e preencheria com tinta, em um autêntico trabalho de equipe), com as figuras do Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Texas Kid, Águia Negra, Mandrake, Black Diamond, Buck Jones, Ferdinando, Tarzan e, evidentemente, o Espírito que Anda ou Fantasma Voador, como também era conhecido o Sr. Walker.

Uma outra passagem da minha infância, de que gosto muito, é a que envolve a madre superiora da escola em que minha tia lecionava. A freira, conhecedora dos meus dotes artísticos, pediu que eu desenhasse uma história em quadrinhos, a qual ela deixaria exposta na escola. Na época, eu estava proibido de desenhar faroestes, o meu tema favorito, no qual eu me esmerava, caprichando nas cenas de duelo, nos tiroteios, enforcamento etc. Convencido pelos amigos e parentes, “preocupados” com a minha educação (uma outra tia chegou a vaticinar que eu seria um débil mental, de tanto ler gibis), meu pai tinha me proibido a leitura de histórias violentas. Logo as minhas favoritas. Sorte que não proibiu de assistir na TV as séries de faroeste, como Bat Masterson, Paladino do Oeste, O Homem do Rifle, Bonanza, nas quais morria gente a torto e a direito. Então, a pedido da bondosa freira, engendrei a mais violenta e inescrupulosa história com o pato Donald e seus sobrinhos, com tiroteio e pancadaria, que culmina com a expulsão, a pontapés, do tio Patinhas da sua caixa-forte, pelos sobrinhos, os quais se apropriam da fortuna do velho sovina. O último quadro mostra os sobrinhos tomando um merecido banho na piscina de moedinhas douradas. Então, ao perceber que, sem saber, eu estava enveredando, intuitivamente, pelo perigoso caminho do comunismo, meu pai suspendeu a proibição, acabando por me presentear no Natal, com vários pacotes, contendo todos os almanaques de férias que conseguira encontrar; e isso, naquela época, não era pouca coisa.

Outra passagem que gosto muito é a do caderno de Religião. A primeira folha deveria ser deixada em branco, onde poderíamos fazer um desenho, aqueles que soubessem desenhar (que merda! Eu sinceramente acredito que todos sabem desenhar, basta ter confiança em si mesmo e premeditar o traço seguinte, como o golpe de um samurai), ou colar uma decalcomania. Evidente que eu me esmerei no meu desenho, como todo moleque eu ansiava pelo aplauso dos mais velhos. O professor levou o meu caderno para o diretor, o diretor chamou o meu pai (ele exigiu que fosse o meu pai). Quando o diretor pediu a presença do macho da casa, eu já comecei a perceber que tinha cometido uma cagada qualquer na ilustração da primeira página do meu caderno de Religião. O resultado da conversa entre meu pai e o diretor foi a minha transferência para outro colégio. Inusitadamente, para um colégio de freiras. Ah, a ilustração? Tudo isso por causa de um desenho que mostrava um simples cemitério, com uma única lápide de pedra, na qual constava a inscrição “Aqui jaz Búfalo Bill”.

E, por ora, é só! Depois, eu conto mais.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

NO BAZAR CHAHRIAR


Edson Negromonte


Nesta cidade, surgem bazares do nada. E também desaparecem num passe de mágica. Estão ali um dia e, no seguinte, hocus pocus, ninguém sabe dizer onde foram parar. Assim, adentrei em um que eu nunca tinha visto. Sim, em bazares se adentra, não se entra simplesmente, embrenha-se. O bazar será sempre um local mágico, de sombras, digno das mil e uma noites da rainha persa Xerazade, um lugar ao qual se vai, não em busca de algo específico, mas esperando ser surpreendido por algum objeto que sua imaginação, por mais inventiva ou destrambelhada, jamais ousaria supor que encontraria ali, em meio a toda sorte de insignificâncias. Geralmente, são coisas pequenas, tão pequenas, quase diminutas, que somente a você mesmo dizem respeito. Ontem, tão importantes para alguém, que provavelmente já morreu, tornam-se invisíveis de um momento para outro, até que despertem o interesse de alguém capaz de vê-las: as pessoas de alma sensível às delicadezas da vida.

Assim, adentrei o Bazar Chahriar; por uma porta mais estreita que o geral das portas das casas de comércio deste lado do mercado, as quais já são de sobejo exíguas. Foi, então, que pude perceber o mais amplo salão, impossível de imaginar quando se está do lado de fora. Já outras pessoas estavam ali, conversando, trocando ideias, enfim, tagarelando, mulheres e crianças; o único homem no ambiente, munido de um plectro, feito de escama de peixe, tocava o saz, um tipo de alaúde turco, alheio a tudo, entretido com as sonoridades de si mesmo. A um bazar, as mulheres geralmente vão em busca de roupas, tecidos, utensílios de cozinha, peças de adorno, enquanto às crianças tudo interessa, tudo é novidade. Elas, as crianças, assim como eu, também se extasiam com os objetos que, anteriormente, dormiam nos desvãos das escadas das casas, esquecidos. Por isso, evito olhar diretamente para os olhos dessas crianças nos bazares, temos interesses comuns; elas são perigosas. Depois de andar pelo salão, fazendo-me de indiferente, sem nada ter chamado ou despertado minha atenção (sinto-me pesaroso quando isso acontece, é como ter ido a Istambul e não ter erguido os olhos para o céu e, por isso, e somente por isso, não ter avistado os altos minaretes da Mesquita Azul), eu estava pronto para sair quando o interior de uma cristaleira envidraçada chamou minha atenção. Dirigindo-me à cristaleira, magnetizado por algo que ali entrevi, abri primeiro uma das portas, a da direita, delicadamente, como abrisse o portão enferrujado de Firdous, o paraíso no Alcorão, evitando assim chamar a atenção de algum infante infiel. Deve-se proceder assim em bazares, e tome isto como um conselho valioso para o dia em que sua alma o surpreender com o desejo incontrolável de se aventurar nesse meandro de mistérios. Se eu houvesse aberto as duas portas do móvel ao mesmo tempo, elas certamente fariam um ruído característico, algo como um muezim cego anunciando do alto do minarete a prece diária (Alá é grande!), que poderia soar como convite a que alguém compartilhasse comigo daquilo que eu mesmo ainda não compreendia. Portanto, o melhor a fazer, nesse caso, é não chamar a atenção de ninguém para aquilo que pode vir a ser a revelação: o chamamento para a primeira prece da manhã, estritamente pessoal, entoado pelo escravo da Abissínia, Bilal ibn Ribah, aquele que vem a ser o primeiro muezim do Islã.

Vi, então, na estante, alguns discos de vinil. E,neles encostado, um pequeno volume que continha uma velha caderneta, de capa de couro marrom, com as beiradas gastas, além de algumas folhas à parte, enfeixadas por uma fita de gorgurão. Puxei os discos, para examiná-los e, para meu espanto, eram todos iguais. Ou melhor, quase todos. Um deles chamou minha atenção pela aparência, podendo-se dizer pela “versão original” Os outros eram reedições tardias e baratas daquele. O original tinha a capa um pouco maior, questão de centímetros (detalhe perceptível para os aficionados), de papelão mais encorpado e cores mais vivas (berrantes? Não, não chegavam a tal extremo), o amarelo tomava grande parte da superfície da capa. O disco em questão era a trilha sonora de um filme, sobre o qual eu nunca ouvira falar, e a ilustração da capa oscilava, com volúpia, entre um close de Judy Garland e uma saltitante Julie Andrews. Enquanto os outros discos exibiam o preço de dez reais, este tinha o absurdo valor de mil e quatrocentos e quarenta somonis, anotado na beirada interna da capa. De que país seria essa moeda? Mesmo intrigado com o somoni, separei o disco. Sem saber o valor em moeda corrente do país, eu me vi temeroso de pechinchar, apesar de ser o costume nos bazares: o comerciante sente-se ofendido se o cliente não regateia. Com certeza, era um disco muito raro (eu nunca tinha ouvido falar nada sobre ele, nem mesmo podia ser considerado “mosca branca”, pois não havia uma única linha, por mais vaga que fosse sobre tal preciosidade nos melhores catálogos oscilantes de trilhas sonoras do cinema americano). Mas não barganhar, deixaria o vendedor de orelha em pé. Enquanto admirava a capa, que continuava, como um pêndulo, indefinida, alternando-se, ora era “O Mágico de Oz”, ora “A Noviça Rebelde”, um 78rpm escorregou de dentro dela, direto para a minha mão. O velho disco de carvão continha a música-tema do filme (disso, não sei dizer como, eu tinha certeza, embora o selo tivesse sido borrado de propósito). Mais tarde, pude verificar que a letra fora vertida para o português, e era cantada divinamente por Francisco Alves, mas essa gravação apócrifa também não consta de nenhuma biografia do cantor. Junto com o 78rpm, veio, além do convite para a avant-première, que ocorreria dali a sete dias no Cine Ópera, uma filipeta, na qual estava escrito, em impecável caligrafia feminina, a seguinte advertência: “Aquele que esta chave encontrar, deve também levar consigo o meu diário e as notas esparsas, coletadas durante toda uma vida, para a compreensão do grande enigma do que pode vir a ser o ser humano, a partir da compreensão do que é um ser humano”. Evidentemente, verifique novamente, com muita atenção, todos os outros discos. Agora, as capas eram de um colorido tão esmaecido que não se podia definir sequer a ilustração e, muito menos, o título. E nada, absolutamente nada de extraordinário, continham. Eram simulacros, representações grosseiras do original, para confundir os falsos buscadores do vinil sagrado.

Fui até o balcão, pronto para a pechincha do dia, levando comigo disco e diário. A senhora que me atendeu, de maquiagem pesada e perfume extremamente doce, enjoativo, inebriante, de rosa musgosa do Tajiquistão, fez-me sinal de silêncio. E, tirando o dedo indicador dos lábios, disse:

– Este disco e o pacote que o acompanha pertenceram à dona Izildinha, e não se pode levar um sem o outro. Portanto...
– Eu...
– Ouça, somente ouça. O preço exorbitante é somente um artifício para afastar aquele que não fosse o iniciado, prestes a galgar mais um degrau na escada da fraternidade.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

MARIA AMÁLIA DURANT



Edson Negromonte


Vá querer entender as pessoas ao seu redor e você acaba escrevendo um conto. Ou uma crônica, sei lá. O que importa é deixar isso registrado, mesmo que não sirva para nada, mesmo que o tempo, esse devorador voraz de papéis, se encarregue de devolver a sua narrativa ao seu devido lugar. Ao limbo? Ao nada! E, justamente por isso, escreverei hoje sobre a poetisa Maria Amália Durant, tio Mario e meu pai, sem a mínima garantia de sobrevivência.

Se você vasculhar as enciclopédias e a internet, encontrará muito pouco sobre Maria Amália Durant, levando-se em conta o que ela significou para mim. Antes de sabê-la escritora, eu a vira a primeira vez no apartamento de cobertura de seu pai, o marechal Heliodoro, em Copacabana. E foi o que bastou para nunca mais tirá-la da cabeça. Ela era de uma beleza estonteante! Isto pode ser comprovado no anúncio dos cigarros Capri, publicado na quarta capa das revistas de maior circulação da época, incluindo a Realidade. Pode-se saber também que ela estreou com o livro de poemas “Embaúba”, de 1974, comentado por João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, seguido por “Canção do Motim”, de contos, publicado no ano seguinte, e que lhe rendeu o prêmio Jabuti. Após um hiato de quase dez anos, vêm a lume “Tigres na Varanda” e “Sob a Chuva, em Damasco”, ambos de 1984. Sabe-se ainda que participou da coletânea de contos eróticos femininos “Clitoridianas”. Maria Amália exerceu a diplomacia nos Estados Unidos, França e Angola, além de Carlo Domenico dedicar a ela o poema “Rubai Impaciente”.

Maria Amália era uma prima distante, em terceiro ou quarto grau, que fazia-se presente, sempre que podia, nas reuniões familiares. Todos a amavam, principalmente os homens; onde estivesse, podia-se contar como certa uma roda de cavalheiros ao seu redor, os quais riam muito das suas historinhas, por mais insignificantes que fossem. Ela magnetizava as atenções, e isso despertava a inveja das outras mulheres, principalmente a de minha tia Doralice, irmã mais nova de minha mãe. O rancor de tia Doralice chegava ás raias de desmerecer o seu livro “Embaúba”; o qual ela enviara, com dedicatória carinhosa, para os meus avós. Surpreendi-me com os comentários de que aquilo não era poesia, que era uma mixórdia de palavras sem nexo, querendo parecer inteligente, de que ela jamais vivera entre os gigantes krenakarore etc. Minha personalidade ressente-se da falha de se interessar por aquilo que os ditos bem pensantes insistem em ridicularizar. E qual não foi a minha surpresa ao deparar com uma poesia de alta voltagem, disposta em versos mallarmaicos. Ali, exatamente naquele momento de epifania, eu me apaixonei perdidamente por Maria Amália. Na ignorância dos quinze anos, eu desconhecia outras mulheres que escrevessem poesia. E a bela foto de Maria Amália, na orelha do livro, era um convite aberto aos devaneios de um coração juvenil, aflito pelo amor das mulheres um pouco mais velhas; a minha mais nova musa contava então 34 anos. E o que seria da poesia se as musas fossem possíveis?

Eu só pensava em Maria Amália. E eu que, depois da morte de tio Mario, me achava o único gauche restante na família, tinha agora companhia. E que companhia! Quando tio Mario, o meu exemplo de insegurança, era vivo, passávamos as manhãs conversando sobre poesia e poetas e livros. E sobre amores não correspondidos. Eu nunca soube que tio Mario tivesse escrito um único verso, mas ele era um leitor costumaz de poesia, capaz de recitar poemas longos de memória.

Minha cabeça girava à mais leve lembrança de Maria Amália, seu corpo esguio, o cabelo curto e loiro, o cigarro entre os dedos... Foi, então, que mamãe resolveu me contar sobre o romance de Maria Amália e papai. Meu pai era bancário, eterno auxiliar de escrita, era assim que ele ganhava a vida, era assim que ele abastecia a geladeira, mas o que lhe dava prazer mesmo era escrever novelas de rádio. Era assim, e somente assim, que ele sentia-se realizado, mesmo que seu nome não fosse pronunciado na abertura; papai era um ghost writer, e, mais que tudo, papai era um indivíduo canhestro, foi dele que provavelmente herdei essa inaptidão para a vida prática. Dele e de tio Mario, seu irmão mais novo. O banco não permitia que os seus funcionários tivessem outra ocupação profissional. E papai, conforme contaram seus colegas, além de engendrar as tramas mais aventurescas, dignas das melhores novelas cubanas, ainda fazia as vezes de sonoplasta, ou contrarregra, como era chamado na época esse profissional.

Papai era capaz de criar um temporal esfregando, próximo ao microfone, uma folha de papel celofane, ou um rio que corresse tranquilo em seu leito, agitando levemente as mãos em um balde cheio de água, ou um incêndio crepitante e devastador, amassando ritmicamente uma folha de papel sulfite, ou o tiquetaquear de um antigo relógio de parede, simplesmente batendo o lápis contra a aliança, para ilustrar a passagem do tempo. O grande sucesso de papai, na Rádio Clube Torres do Pilar, foi a novela de aventura “O Avantesma”, uma mistura bem-sucedida de dois heróis americanos, o Fantasma e o Sombra, com mais de 400 capítulos, que eletrizavam os ouvintes, com índices de audiência superiores aos da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Assim foi que Maria Amália caiu de amores pela sua figura esquelética e carismática. Assim foi que ele a ensinou a dirigir no seu Ford Prefect, o carrinho inglês pelo qual ele tinha o maior zelo. Não que papai fosse bonito, não era, mas era, como se dizia naquele tempo: um tipo. Maria Amália era uma adepta do existencialismo, era mulher de um tempo em que as mulheres apaixonavam-se pelo intelecto de um homem. Se não, como explicar Simone de Beauvoir e Sartre, e Jane Birkin e Serge Gainsbourg. E assim ela, que acreditava convictamente no amor livre, despediu-se de papai e mamãe, toda sorridente, sem culpa nenhuma, com ares de menina levada.

E, passados tantos anos, nesta manhã de inverno, de sol tímido, filtrado através de colossais folhas de bananeira, ainda posso ver tio Mario, quietinho, sentado em uma cadeira no quintal, aquecendo o corpo franzino, como se ainda estivesse no quintal da casa em Arequipa, no Peru, alheio a tudo, assuntando o carreiro das formigas. Percebendo-me, faz um sinal, pedindo que me aproxime. Então, segreda em meu ouvido, em tom confessional, como fazia quando queria comigo compartilhar, e somente comigo, uma das suas sublimes descobertas, uma das suas pequenas iluminações:

– O amor, como o conhecemos, como o conhece o homem moderno ocidental, é ficção, é uma invenção de Arnaut Daniel.

E isso, felizmente, me redime de todos os amores, correspondidos ou não. E a última vez que eu soube de Maria Amália, ela estava morando na vila grega de Oia, na ilha de Santorini.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

ADAM WEST ou O MENINO QUE TINHA MEDO DO BATMAN




Edson Negromonte

Agora que os órfãos de Adam West já o prantearam, tecendo-lhe as merecidas loas, é chegada a minha hora de chorar a sua morte. Sou assim mesmo, prefiro não reagir no primeiro momento. Tenho de deglutir, assimilar, para não falar ou escrever bobagens, sob o impacto da notícia; quando a recebi, através da TV, disse somente: – Ah, não!

Adam West foi uma personalidade, ou personagem?, tão importante na vida dos meninos ocidentais de meados da década de 1960, e da década seguinte, que jamais pude supor a sua morte, mesmo tendo a única certeza de que todos morreremos um dia, sejamos cidadãos comuns (e ninguém é um cidadão comum ou somos todos cidadãos comuns) ou heróis, sejam eles de papel ou televisivos, sejam eles históricos e reais. Sim, você sabe, estou falando do, para mim, ainda definitivo Batman. Os meninos dos anos 80 foram brindados com o espetacular filme de Tim Burton, baseado na versão de Frank Miller, no qual o homem-morcego recebe o título de “cavaleiro das trevas”, dando-lhe novo fôlego e ressuscitando o combatente do crime para uma nova geração, a qual, acostumada a atores marombados, tipo Schwarzenegger (Conan) e Stallone (Rambo), fazia pouco caso do físico de Adam West, referindo-se a ele como “aquele Batman barrigudo”.

A falta de informação dos meninos de 1980 não lhes dava a visão histórica de que, antigamente, os heróis não precisavam ser abrutalhados ou musculosamente deformados; à custa de esteroides. Basta lembrar que o Super-homem, o homem mais forte do mundo, em uma série clássica dos 1950, era vivido por George Reeves, que não era nenhum ser fora do normal, nem excessivamente espadaúdo. Mesmo o audacioso capitão Kirk, da série “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), aquele que ousou ir onde nenhum homem jamais esteve, tinha uma pequena protuberância abdominal. Outro personagem que me vem de imediato à mente é Jim das Selvas, vivido por um Johnny Weissmuller já maduro, com uma certa pancinha. Mas mesmo nos filmes em que o jovem Weissmuller vive Tarzan, o homem-macaco criado por Edgar Rice Burroughs, ele não era nenhum amontoado de bíceps e tríceps. Curiosamente, Johnny Weissmuller tinha síndrome de Down, a qual foi amenizada, por orientação médica, com exercícios de natação; ele chegou a ganhar cinco medalhas de ouro como campeão olímpico. Somente o incrível Hulk tinha permissão para ser grotescamente musculoso, interpretado por Lou Ferrigno, o Míster Universo de 1973 e 1974, fazendo valer a máxima “muito músculo, pouco cérebro”.

E o que um brasileiro contaria de novo sobre Adam West que os livros e sites americanos já não tenham contado e recontado à exaustão, e com muito mais propriedade? Que o menino Adam, aliás, William, este era o seu verdadeiro nome, por volta dos dez, doze anos de idade, ganhou do vizinho uma caixa cheia de revistas e que aquela que mais lhe chamou a atenção foi justamente o gibi de número 27, da série Detective Comics, cuja capa estampava o Batman em ação? Que, adolescente, Adam flagrou sua mãe na cama com o pastor da igreja local? Que o jovem Adam, em início de carreira, no programa infantil The Kini Popo Show, era o sidekick da estrela principal, um macaco? Que Adam West chamou a atenção dos produtores da ABC, quando o viram interpretando o sagaz capitão Q, em um comercial do Quick? Dito isto, a minha contribuição, como brasileiro, deve ser registrar, quase etnologicamente, como o personagem trafega no corrente cultural do País. E, também, nas minhas lembranças.

E, assim, na lembrança dos brasileiros, porque acredito, neste caso, que só falando de mim mesmo é que estarei falando do outro. Em 1969, no IV Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, o compositor Jards Macalé aterroriza a plateia com a música “Gotham City”, a cidade natal de Bruce Wayne, o alter ego de Batman, arranjada pelo provocador maestro Rogério Duprat, cuja letra de Capinam alerta “Há um morcego na porta principal’, uma metáfora para o horror que a ditadura militar, então no poder, infligia aos brasileiros, prendendo, torturando e matando aqueles que se insurgiam contra ela. A ideia inicial era soltar um morcego em direção à plateia, durante o refrão, mas, devido aos tempos bicudos em que vivíamos, com a polícia prendendo e espancando ao seu bel-prazer, acharam melhor não cutucar a onça com vara curta; teriam antecipado Ozzy Osbourne em pouco mais de uma década. Na literatura, o escritor Roberto Drummond , no livro “A morte de D.J. em Paris”, de 1971, se apropria do personagem pra escrever o conto “A sete palmos do paraíso”.

Meu primeiro contato com Batman foi, como não podia deixar de ser, aterrorizante: em um domingo de sol ,em Copacabana, o vento folheava, desvairado, uma revista do encapuzado, abandonada na calçada. Eu, menino apaixonado por quadrinhos, quando fui pegá-la, sou surpreendido pela figura do morcego, o logotipo do Batman, na abertura de uma das histórias. Temeroso das coisas do Além, tomei um baita susto com a criatura sugadora de sangue (e isso me remete oportunamente a “Nosferato no Brasil”, de Ivan Cardoso”. Onde se vê dia,veja-se noite), coisa que me fez arredio ao homem-morcego durante um bom tempo. Mas o espírito galhofeiro da série camp (eu nunca a vi assim, talvez porque a alma brasileira seja, em sua essência, legitimamente brega), me fez rever os meus conceitos sobre o personagem e o infundado horror que o Batman provocava em minha alma medrosa, até que, em um final de tarde, me atrevi a comprar o meu primeiro exemplar da sua revista na banca. Apaixonei-me para sempre pelo Batman. Tanto, que cheguei a trocar um álbum de 78rpm, da Aracy de Almeida, cantando somente músicas de Noel Rosa, por uma miniatura, da Husky, de 1966, do batmóvel, a qual está avaliada em aproximadamente mil reais. Tanto, que costumo atender o telefone de casa com a frase “Batcaverna, boa noite!”. A série também despertou meu amor platônico por Julie Newmar, a Mulher-gato mais bem-acabada e bem torneada de todas; incluindo Michelle Pfeiffer, e que, apesar de ter gravado todos os 120 episódios da série, cheguei ao cúmulo de gravar, com som original, aqueles em que ela atuava, só para ouvir a hora que bem entendesse a voz sensual da gatíssima Julie Newmar, ronronando: Purrrfect!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

AUTO DA FUGA PARA O EGITO




Edson Negromonte
ilustração: Candido Portinari


Na fuga para o Egito, José e Maria viram-se, então, na pequenina aldeia de Antonina, aos pés da Serra do Mar, banhada pelas águas do oceano Atlântico. De repente, o céu mostrou-se excessivamente escuro àquela hora do dia, prenunciando um aguaceiro daqueles. Ao entrarem na praça principal, as altivas palmeiras imperiais, seguidas pelos súditos tamarindeiros, se curvaram à sua passagem. Em frente ao coreto, José avistou uma bica. Matou a sede e, com as mãos em concha, levou um pouco de água para Maria; a travessia do deserto tinha sido árdua, expostos à sanha dos ladrões e ás feras.

– Que água boa, José! Com água tão boa e refrescante, o povo daqui há de ser hospitaleiro.

E Maria pediu um pouco mais de água para José. E José, sempre solícito com sua amada esposa, levou-lhe mais um pouco de água, em suas mãos em concha.

– Agora, vamos, mulher, em busca de abrigo para a noite que já está aí. Tens de dormir sob um teto hoje, para não põr a tua saúde e a do pequeno em risco, que ainda temos chão pela frente.

Assim foi que seguiram, José puxando o burro, e Maria montada no burro. E bateram à porta de um suntuoso palacete, situado na esquina da praça principal, no qual morava, nessa época, um poderoso conde.

A pesada porta foi prontamente aberta por um corcunda muito feio. O fâmulo, de aparência terrível, e que era uma corcova só, olhou os viajantes de lado, com o único olho são e remelento que lhe restava, e indagou:

– O que querem vocês à porta do meu amo?
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois eis que se aproxima um terrível temporal – respondeu José.

Antes que o grotesco serviçal destratasse novamente o casal, ouviu-se uma tosse cavernosa e a figura esguia e sinistra do conde surgiu à imensa porta do palacete. Ao avistar Maria, montada no burro, o conde, que não era bobo nem nada, respeitosamente lhe perguntou:

– O que levas aí, neste embrulho que trazes tão junto ao seio? E com tanto zelo?
– É o meu menino – ela respondeu.

O conde, então, disfarçou um leve enternecimento, aliás, estremecimento.

Ao ouvir tal resposta, o conde, que não era bobo nem nada, disse melífluo a Maria;

– Mil desculpas, mas não posso lhes dar abrigo. Sei que bem sabeis que me conhecem e conhecerão como Drácula, o conde Drácula, assim como bem sabeis que meu coração não é dos piores, mil perdões, mas o que alegaria eu ao meu mestre, o Senhor das Profundas, se vos desse acolhimento? Por certo que bem me compreendeis.

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite, o cheiro de terra molhada já se fazia presente no ar.

Assim foi que bateram à porta da casa paroquial, a qual ficava em uma outra esquina da praça principal, ao lado da igreja matriz.

Foram atendidos pelo coroinha, que chamou o sacristão, que chamou o padre, que chamou o bispo, que chamou o Papa.

– O que querem vocês à porta do nosso Amo? – inquiriu impaciente o chefe supremo da Santa Madre Igreja.
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois se aproxima um baita temporal, e minha esposa... – ia respondendo José, quando foi bruscamente interrompido pelo Santo Padre.

– Não, não e não, chega de caridade por hoje, nossa cota já se esgotou. Quem sabe, talvez amanhã!

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite.

Assim foi que bateram à porta de uma residência muito elegante, feericamente iluminada.

Foram atendidos por um mordomo elegantemente trajado.

– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?
– Eu sou... – ia dizendo José, quando um soldado raso botou a cabeça à porta, fazendo-lhe a mesma pergunta.
– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?

Ao que José começava a dar resposta, iam surgindo à porta, cada uma à sua vez, as cabeças do cabo, do sargento, do tenente, e assim por diante, conforme a patente mais alta, até que finalmente surgiu a cabeça imponente da esposa de um general de cinco estrelas, a qual, por sua vez, os interpelou:

– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois se aproxima um violento temporal... – respondeu José.
– Será possível que não vês que a casa está toda ocupada e não tem lugar para mais ninguém? Quem sabe, talvez amanhã!

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite.

Assim foi que bateram à porta do banqueiro, do prefeito, do vereador, do funcionário público, mas estes não se encontravam em casa, pois estavam na festa em comemoração à independência do País, na qual estavam também os deputados, tanto estaduais quanto federais, os senadores, o vice-presidente, menos o presidente, porque não havia mesmo presidente, o País era governado por generais de cinco estrelas, os quais se revezavam e raramente apareciam em público, eles tinham horror mortal a cheiro de povo.

E José e Maria foram seguindo caminho, em busca de pouso para aquela noite, José puxando o burrico, e Maria montada no burrico, até que, no final de uma estrada que beirava o mangue, deram com uma humilde choupana.

José, então, bateu à porta da choupana.

Um homem atendeu à porta. Era moreno, atarracado e visivelmente embriagado. Sob efeito do álcool, para ver melhor, o homem apertou os olhinhos vermelhos. E, antes que José abrisse a boca, o pinguço foi logo dizendo:

– Entrem, entrem, que um chuvaréu se aproxima, e ninguém deve ficar exposto a um tempo desses. Muito menos o Menino!

O Menino? Ele disse o “Menino”. Foi isso mesmo que eu entendi?

E, assim, José, Maria e o antes menino, mas agora e para sempre Menino, e também o burrinho, entraram e encontraram pouso e abrigo na choupana do torrado. E, antes que José perguntasse, o bom homem foi logo se apresentando.

– Me chamam Tube e digo que minha casa seja a sua casa. Não é muito, mas é o que tenho.

Comovidos, José e Maria agradeceram calados, com uma inclinação de cabeça, que dizia muito mais que mil palavras. E Tube, que sóbrio já era falante, sob efeito da mardita, ficava loquaz e facundo.

– Como eu ia dizendo, a casa é humilde, mas que meu chateau seja o vosso chateau. A cama estreita é muito mais um catre que uma cama, e esse colchão velho é já uma enxerga, mas vocês podem nele repousar, que não há pior deserto na terra que o deserto dos corações humanos. E que o Menino durma sossegado nesse cocho de madeira, o seu bercinho improvisado. E que o burro procure também descansar, que é cansativa e fatigante a jornada ao Egito, pois, como bom e inveterado pudim de cana que tudo adivinha, sei também que vocês estão a fazer o caminho mais longo...

José mostrou-se, então, apreensivo com a língua solta de Tube; a viagem à cidade de Heliópolis, no Egito, era secreta, conforme ordenara o anjo Uriel, o encarregado do orbe do Sol. Mas nem o olhar de José para Maria e, em seguida, novamente para Tube, foi capaz de deter a verbosidade do pequeno hospedeiro.

– ... que passa por Hebrom e Bersabé, atravessa o deserto de Idumesa e entra no Sinai, passando por Antonina, em vez de margear o Mediterrâneo e atravessar a cidade de Gaza, a rota mais fácil, porém a mais perigosa, tomada pelos espiões de Herodes, o Grande.

José olhou incrédulo para Maria, em seguida para o burro e, novamente, para Tube.

– Eu tudo isso compreendi quando, ontem, borracho, como de costume, avistei pros lados do Faisqueira a estrela do Oriente. Agora, meus queridos, durmam em paz que eu vou ficar aqui guardando o fogo, para ficar quentinho para o Menino e para a mãe do Menino.

Vencido pelo cansaço, José deitou-se naquela cama pobre de dar dó, aconchegando-se em Maria, confiante de que estavam, sim, bem guardados pelo torto guardião. Então, pôde a chuva cair, como realmente caiu, sem dó nem piedade.

Depois da madrugada encharcada e enxaguada, o dia amanheceu radiante, de um sol esplendoroso. Mas ainda, nessa mesma noite, aproveitando que o burro acordara (como vocês devem saber, os burros dormem muito pouco, precisam de umas poucas horas de sono para aliviar o cansaço de um dia estafante de trabalho), Tube pediu-lhe que tomasse conta do fogo, que ele ia resolver um assunto e já voltava. Foi assim, então, que Tube roubou, pela segunda vez, o galo de Acrísio, o seu vizinho, e o preparou ensopado para que José e Maria tivessem o que comer durante a penosa viagem ao Egito.

– E tu sabes cozinhar, Tube?
– Tanto e tão bem que, no tempo em que morei em Santos, eu tinha a fama de ser o melhor confeiteiro da cidade!

Quando todos estavam se despedindo, um cachorro e um gato gaiatos apontaram na estrada. Chegando perto, os dois se apresentaram, com mesuras e salamaleques, como “a mais famosa dupla sertaneja da atualidade”.

– Gato e Cão, ao seu dispor! – ronronou o bichano.
– Cão e Gato, ao vosso dispor! - rosnou o cachorro.

Para comprovar os dotes musicais, sem que ninguém pedisse ou deles duvidasse, mais por exibicionismo, os dois foram logo entoando uma velha balada caipira. Entusiasmado, o burro entrou na melodia e fez um belo vocal que deu novo colorido à canção. Nesse mesmo instante, arrebatados pelas palmas de Maria, José e Tube, os três animais resolveram formar um trio. Mas o burro impôs uma condição somente: antes teria que levar José, Maria e o Menino, sãos e salvos, ao seu destino. O cachorro e o gato concordaram prontamente.

– Vamos juntos, todos juntos cantando, que é cantando que se leva a vida, e a viagem, assim, parecerá mais curta e menos árdua. Tudo que gente precisa é amor, e amor é tudo que a gente precisa!
– Assim é, se lhes parece! – disse um besourinho que estava pousado no chapéu de Tube e, calado, como testemunha dessa história, a tudo assistia, para poder contá-la às novas gerações.
– Posso dar um nome um tanto sugestivo, original e curioso ao grupo? Os Músicos de Bremen! Que tal? – disse Tube, com um sorriso.
– Ué, os Músicos de Bremen não eram em quatro? – perguntou-se, então, o leitor atento e perspicaz.
– E você ainda vai querer coerência nessa história? – respondeu o autor, perplexo.

Só mais uma coisinha, à guisa de explicação, para finalizar esse auto: o galo que Tube roubou do Acrísio, pela segunda vez, e cozinhou para a viagem de José e Maria ao Egito, era um galo mágico que, ao final da jornada, ressuscita pela segunda vez. Missão cumprida, o cachorro, o gato, o galo e o burro se reúnem e formam, afinal, o quarteto Os Músicos de Bremen e passam à história com os nomes definitivos de John, Paul, George e Ringo, que, muitos anos depois, passariam à tradição como o fabuloso quarteto de Liverpool. E a letra, prenhe de saudosismo, de sua música de maior sucesso, e que até hoje toca na Rádio Antoninense, diz assim: “When I find myself in times of trouble / Mother Mary comes to me / Speaking words of wisdom, let it be”.

E para arrematar de verdade essa tramoia toda, corroborando a sabedoria popular de que os anjos cuidam das crianças e dos bêbados, o arcanjo Uriel mandou gravar a fogo na porta da humilde choupana, na pequenina aldeia aos pés da Serra do Mar, banhada pelo oceano Atlântico, a estrela de Davi. E tendo dito como disse, afirmo, testifico e dou fé.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

JOEL BARONESA




por Edson Negromonte


Nos acontecimentos da cidade, ele era figura fácil. Esteve presente na apresentação do cômico Rony Cócegas no palco do Cine Ópera; esteve no julgamento do bandido Sete Facadas, que causou tanto burburinho e trouxe até a imprensa internacional ao nosso pequeno tribunal; assim como estava à frente da multidão curiosa que foi ver o círculo de pasto queimado que a nave alienígena deixara na propriedade de Edgar Withers. Ele próprio, Joel, era um evento por si só: quando os dias se arrastavam preguiçosamente na modorra típica do nosso cotidiano, Joel fazia de tudo para amenizá-la. Por isso, lembrar e falar de Joel é necessário. Vale a pena começar pelo apelido que o marcaria por toda vida, desde a adolescência: Baronesa. Não se dizia simplesmente Joel, mas invariavelmente Joel Baronesa. A origem do apelido vem de sua irmã mais velha ter se casado com um barão russo, que aportou na cidade, vindo da Rússia czarista, para explorar o ferro-gusa. Tão logo o barão André de Ludinghausen Wolff, anteriormente casado com a princesa russa Xênia Shcherbatoff-Strogonov, parenta do inventor do estrogonofe, chegou, e entre as beldades da cidade, tomou-se de amores por ela, a belíssima e radiante Ieda, a qual, com o casamento, tornou-se baronesa consorte. Seria para sempre e para todos Ieda Baronesa. Do título de nobreza da irmã, mas principalmente do costume de surrupiar da casa dela pequenos objetos, como um belíssimo baralho árabe ou minúsculos bibelôs de cristal vermelho de Muhlbeck, para revendê-los, é que Joel seria para sempre e por todos conhecido como Joel Baronesa.

Joel, de baixa estatura e belos e inquietantes olhos verdes, tinha uma voz belíssima, com a qual fazia malabarismos vocais que o faziam perder o tom, prejudicando a performance; adorava dar uma canja nos clubes com música ao vivo. Sua canção favorita, na qual ele se superava como crooner, era “Castigo”, de Dolores Duran, à qual ele emprestava, no trecho final, um balanço típico do rock, à imitação de Os Incríveis, somente com muito mais molho, algo na linha do Simonal, e emendava os versos "I love you, baby/And if it's quiet all right/I need you, baby/To warm the lonely nights/I love you, baby/Trust in me when I say", de "Cam't Take My Eyes Off You", a clássica balada de Frankie Valli and the Four Seasons.

Lembrar de Joel é trazer à tona as suas peripécias, as quais deveriam pelo inusitado fazer parte dos anais da cidade, dignas de serem contadas à volta da mesa, nas noites geladas de inverno, quando um fogo arde no chão e os moradores das casas tornam-se, em sua grande maioria, contadores de casos, os quais os aproximam, aquecendo seus corpos e corações. Assim que cheguei à cidade, a primeira história de Joel que ouvi foi sobre o acidente recente com o Volkswagen do seu padrasto, a quem ele tratava por Padrinho. Sem o que fazer, em uma das tardes típicas da cidade, sonolentas, Joel e alguns amigos resolveram roubar o fusca do velho para “dar um ferro”, gíria usada à época que significava andar a toda, perigosamente, com os infalíveis cavalos de pau. Com a derrapagem em alta velocidade, capotar é uma possibilidade nada remota. E foi justamente o que aconteceu com o fusca do seu Nonô, apinhado de rapazes e moças, naturalmente ávidos por viver perigosamente. Alguns foram parar no hospital. Um dos que saíram ilesos do acidente, Johnny Saci, fazia questão de contar a todos que, quando conseguiu sair do meio das ferragens retorcidas do carro, Joel olhou desconsolado para o guarda-chuva escangalhado do padrasto e disse: – Olha o guarda-chuva de padrinho, o que eu vou dizer em casa?

Uma noite, a comoção foi geral: o Vasquinho, a única viatura policial da cidade, era motivo da aglomeração em frente à casa de Joel Baronesa, ao lado do cinema, ao final da sessão, por volta das 10. Os ladrões tinham entrado na casa dos seus pais, para roubar, contava Joel para os dois policiais e para a turba de curiosos, e, como ele houvera reagido, os patifes lanharam o seu peito com uma faca de ponta, a qual se encontrava sobre a pia da cozinha. Enquanto um dos policiais levava Joel ao pronto-socorro, o outro examinava a cena do crime. Balançando a cabeça, o sargento tomou da faca, examinado-a demoradamente, com ar investigativo, coisa que aprendera assistindo filmes noir, de detetive. Após o silêncio que se instaurou no ambiente, depois de revirar o punhal nas mãos, sem nenhum cuidado técnico com a prova do crime, o sagaz sargento Pé de Galinha deu a sua opinião, que era muito mais um veredito que qualquer outra coisa, devido à sua indiscutível autoridade:

– Ladrão coisa nenhuma, foi ele mesmo que se cortou. Com que intenção, é o que vamos descobrir.

Em uma tarde de brincadeiras no morro, estavam os rapazes, em puro exibicionismo para as moças presentes, a se balançar para lá e para cá em um longo cipó. Lá em baixo, a aproximadamente dez metros de altura, os trilhos do trem. Na vez de Joel, um gaiato gritou maldosamente:

– Joel, duvido que você solte o cipó!

Ato contínuo, Joel estatelou-se nos trilhos. Resultado: à tarde, Joel desfilava, todo orgulhoso, pelas ruas centrais, exibindo os dois braços engessados. Joel sentia-se amado quando as pessoas lhe davam atenção, condoíam-se dele, sua carência afetiva era enorme, do tamanho do seu ego.

Joel era doido por carros, mas principalmente pela velocidade que essas máquinas diabólicas representam; a adrenalina foi sua companheira mais constante. Parecia que, nas suas mãos, um carro atingia velocidades inimagináveis, transformando-se em um bólido flamejante, muito próximo da explosão. Certa feita, Joel estava ao volante do Gordini de Reinaldo Cara de Chuva, que, de tão bêbado, estava incapacitado para dirigir; iam os dois pela estrada Morretes-Antonina. Cara de Chuva, então, apertado para urinar, olhou pela janela e, devido ao alto teor etílico, supôs que o carro estivesse parado. Abriu a porta do Gordini, que estava a quase 100 por hora, rolando feito um pacote pelo asfalto. Mas como Deus protege os insensatos, incluindo na lista os bêbados, ele sobreviveria para contar o incidente, arrancando risadas dos presentes.

A melhor história de Joel tem como coadjuvante o comerciante libanês conhecido como Jorge Bigode; era ele de uma educação à toda prova, nada era capaz de tirá-lo do sério, nem mesmo quando as pessoas referiam-se a ele como turco. Uma noite, Jorge e Joel foram à zona de meretrício no Km 4, somente para tomar umas cervejas e dançar com as putas, como era de praxe entre os jovens da cidade. Já calibrados, resolveram parar no Clube Primavera, no bairro do Batel, para tomar mais umas brejas. Joel, aproveitando-se do estado alterado de Jorge, pediu-lhe emprestado a chave do carro, alegando que esquecera alguma coisa na zona. O que Joel queria mesmo era dar vazão ao seu amor pela velocidade. E pelo perigo, evidentemente. Assim, começou a correr pelo asfalto molhado, dando os mais perfeitos cavalos de pau, chegando a atingir um giro perfeito de 360 graus. Mas como o Capeta está sempre atento ao menor vacilo do ser humano, numa dessas Joel evidentemente capotou. Imediatamente, Jorge Bigode foi avisado que Joel estava estendido no asfalto, esvaindo-se em sangue. A bebedeira de Jorge passou no mesmo instante, e ele correu em socorro do amigo, encontrando-o ainda desmaiado, ao lado do seu carrinho capotado, comprado a duras penas. Nem ligou para o carro, acenou para um táxi que ia passando e levou o amigo direto para o hospital, que ficava próximo dali. Depois que deixou Joel sob cuidados médicos e de providenciar que o carro fosse guinchado para o posto de gasolina mais próximo, como não tivesse mais nada para fazer à noite, Jorge achou por bem voltar ao clube e retomar a conversa com uma moça que ele vinha cortejando há algum tempo. Ao subir ao salão, quem Jorge encontra dançando com a sua pretendida, como se nada tivesse acontecido? Sim, Joel! Desta vez, o turco perdeu as estribeiras, avançou sobre Joel e, sem se preocupar com curativos e ataduras, passou a esmurrá-lo sem dó nem piedade.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A GAROTA ESCARLATE



por Edson Negromonte

Apesar do nome, a Garota Escarlate jamais quis ser heroína de quadrinhos. O que ela sempre quis, apesar da lonjura do ermo em que nascera, foi cantar em uma banda de rock e fazer tudo o que lhe desse na veneta, no palco e fora dele. Queria quebrar banheiros de hotéis e jogar aparelhos de TV do alto da suíte presidencial ou, num paroxismo de amor, afagar e afogar o guitarrista, o verdadeiro cérebro por trás de todo o marketing da banda, na piscina da sua mansão nouveau riche. Tudo isso ela fez. Tudo isso a deixava momentaneamente muito realizada, até descobrir sobressaltada, em uma rebordosa, que o mundo do rock é muito previsível. E quem suportaria, todas as noites, tirar num par ou ímpar consigo mesma se engravidaria de Marc Bolan ou de Jobriath. Nem sofreu, ou fez de conta, quando teve que abortar das entranhas o bebê diabo de um travesti chamado Alice Cooper. Cansada do mundo mesquinho das celebridades do rock’n’roll, achou que se sentiria mais feliz se fizesse o vocal de apoio de uma big band dos anos 30. Não mediu esforços para ser a melhor backing vocal de todas as backing vocals do planeta, chamando a atenção de um famoso band leader, que lhe prometeu o vocal principal. Dito e feito, mas logo ela, que jamais sonhara em atingir tão alto posto, só queria fazer um backinzinho, viu-se, de repente, de um momento para outro, tentada a voos mais altos que o de crooner de uma brilhante orquestra de baile. Estava pronta para a carreira solo, pensou, com a confiança e a ambição desmedida que uma carreira de cocaína desperta no mais pacato cordeiro. Tomou, então, de papel e caneta e começou a redigir a própria biografia, cheia de impropriedades, na grande maioria, fictícias. Assim, contou, em meio a sentidas lágrimas de crocodilo que fora violentada dos nove aos dezesseis anos pelo padrasto, com o consentimento da mãe. Contou também que abandonara tudo aquilo que conhecia como lar e pegara “um ita no Norte, para vir no Rio morar”. Desembarcara na então capital federal, entre atônita e maravilhada. Ah, a Cidade Maravilhosa, o porto fervilhante de vida. Ali mesmo, tomou a decisão de vencer na vida a qualquer custo. Ergueu a cabeça, arrebitou o nariz e imaginou-se de salto agulha, apesar de estar de alpargatas. Não, não foi fácil. E quem tinha dito que seria? Permaneceu no Rio, uma breve estadia, até compreender que as coisas legais estavam acontecendo mesmo era em São Paulo. Tocou-se para o bairro da Pompeia. Tornou-se uma superstar local, bem local. E quem podia ombrear com Rita Lee? Uma noite, quando tudo parecia bem, no banheiro, sentada na privada, enxugando a periquita, o tédio a tomou de assalto, apontou o tresoitão para a cabeça e rosnou: – A bolsa ou a vida! Jocosa, disse para si mesma, imitando o paroxístico poeta Torquato Neto: – Para mim, chega! It’s only rock’n’roll, e eu quero é mais, o que eu quero é rosetar! Voltou imediatamente para o Rio, botou uma papoula no cabelo, um vestido vermelho, de alcinhas, cheirou uma carreirinha, sopesou os seios e foi pedir emprego na famosa Orquestra Tabajara, de Severino Araújo; apesar de não jogar bilhar, tinha confiança no taco. Conseguiu ser aceita na Românticos de Cuba, o que, afinal, vem a ser a mesma coisa. Às vezes, cantava também na Metais em Brasa, que também vinha a ser a Tabajara com outro nome. Nesse exato momento, deveria ter início a lenda da Garota Escarlate, aquela que a todos amou e nunca foi amada, mas não, a vida segue caminhos muito tortos, os mais tortos. Chamou a atenção dos executivos das grandes gravadoras, que lhe ofereciam mundos e fundos se com eles se deitasse. A todos dizia, debochada: – Não, esse corpitcho só a mim pertence! Resultado: teve que esperar o advento do disco independente. Gravou o seu, com produção de Arrigo Barnabé. Vociferava o enfant terrible, eufórico, dedo em riste na cara de todos, que a Garota Escarlate era, seria, é a porta-voz do movimento musical que fervilhava nos porões paulistanos. Azar dos azares, fado dos fados, quis o Destino, esse moleque brincalhão e inconsequente, que, justo na noite em que a gravadora fizera a entrega do primeiro disco da Garota Escarlate, uma chuva diluviana inundasse o teatro Lira Paulistana. Recuperados os vinis, apesar de as capas terem virado mingau, nenhum deles tocava nada além de um ruído dodecafônico que atravessava todos os dois lados, tanto o A como o B. Alguns juraram, e juram até hoje, mas já sem muita convicção, que se pode, com muita atenção, ouvir um obstinado “Paul is dead”; outros, um contínuo “eu vou botar pra foder”. E, para contribuir ainda mais com o mistério que cerca o único disco da Garota Escarlate, uma comissão de colecionadores de vinis raros, vinda direto do Japão, comprou, a peso de ouro toda a prensagem e o máster. Não se sabe, até hoje, com que finalidade. Rola uma história evidentemente apócrifa que os discos estão todos guardados, a sete chaves, em uma sala secreta na biblioteca do Vaticano, à qual nem o papa Francisco tem acesso. E a Garota Escarlate? Continua viva e bem, conforme permite a idade de alguém que se consentiu todos os vícios e desregramentos da época. Bem de saúde física, que é o que importa. Depois de tudo isso, a cabeça da coitadinha deu um nó cego que nem Nossa Senhora Desatadora dos Nós desfaz. A todos os curiosos que a procuram, que dela ainda se lembram, invariavelmente responde: – I want to be Stallone!, achando-se a Greta Garbo de Irará. Sim, de Irará, porque ela mora no mesmo prédio de Tom Zé. São, inclusive, vizinhos de porta. Nas noites de lua prenha, pode-se ver o músico levando-a, a eterna Garota Escarlate, para passear, empurrando sua cadeira de rodas; os dois cantarolando "Minha menina Jesus, minha menina Jesus, valei-me". E se alguém deles se aproxima, um fã ou algo que o valha, os dois começam a rosnar e desaparecem em meio às árvores do passeio público, deixando no ar um odor fétido e maligno de butilmercaptana.