quinta-feira, 12 de abril de 2012

UMA DUPLA DO BARULHO - Parte 2

por Edson Negromonte

Ao vir para Antonina, Grande Otelo trouxe o diretor de cinema a tiracolo, pois o americano fazia questão de ir a todos os lugares onde o amigo brasileiro ia, sequioso por conhecer muquifos, bordéis e pardieiros, além das "belezas naturais e morenas" do nosso país. A paixão de Otelo pela nossa pequena cidade teve início quando aqui ele aportou em busca do irmão mais novo, Chico, filho ilegítimo de dona Maria Abadia. Evidentemente, a informação equivocada de um improvisado detetive particular não encontrou comprovação, mas a hospitaleira cidade jamais sairia de seu coração. Sempre que a vida atribulada permitia, Otelo surgia perambulando pelas ruas de Antonina, conversando com as pessoas, sentando-se nas praças, tomando um pingado, comendo um pãozinho com manteiga ou um bolinho de banana, no bar de esquina... Então, nessas ocasiões, em determinado momento, quando a roda à sua volta estava repleta de curiosos, ele teatralmente sacava do bolso do paletó umas cigarrilhas cubanas e generosamente as distribuía, para supremo deleite dos presentes. E, quando a noite ia ficando cada vez mais escura, a pequena figura ia desbotando, esvanecendo assim lentamente, tão lentamente, que nem nos dávamos conta. Otelo não dizia adeus, nem até mais, nós também não nos importávamos com essas formalidades, ele simplesmente ia embora, como se não quisesse nos incomodar, como se não quisesse nos magoar, como se tudo não passasse de um sonho, sonho de velhos boêmios a conversar com pelicanos, algaravia compreensível somente às almas inebriadas pelo vinho da folha de palmeira. Um cronista, para mim fidedigno, dos anais antoninenses relata que, sem precisar datas, em decorrência da idade avançada, mas assegurando que ocorreu na década de 80, o grande ator voltou aqui pela última vez para proferir uma palestra intitulada "As Raízes do Teatro e do Cinema Nacionais – Experiência de Ator", com um público de duas mil pessoas, numa manifestação ainda embrionária do que viriam a ser, anos mais tarde, os tradicionais festivais de inverno.
No dia seguinte, pela manhã, nem bem o dia clareava, às seis da manhã, tomorrow, six o'clock!, os dois implausíveis companheiros tomaram um táxi de volta ao Rio de Janeiro, onde o americano estava sendo chamado com urgência, às pressas. Alguém nos contou, algum tempo depois, que Hollywood o despedira, que os donos do poder não tinham mais interesse num filme sobre a América do Sul e, muito menos, sobre o Brasil, que esse ocorrido era um capricho presidencial, que fazia parte do esforço de guerra, a tal política da boa vizinhança, a mando do presidente Roosevelt e patrocinada pelo milionário Nelson Rockfeller, que não queria mais gastar tanto dinheiro num filme que nunca seria exibido e, de mais a mais, o presidente Vargas já tinha convenientemente aberto mão das convicções nazistas, da simpatia por Mussolini e se debandara de mala e cuia de chimarrão para o lado dos Aliados.
– Como? Getúlio Vargas, nazista?! – disse um.
– Aí, agora você já não está mentindo demais, Dodó? – arriscou outro.
Com cara de poucos amigos, quando duvidavam das suas gazopas, Dodó preferia deixar a dúvida no ar e retomar a narrativa.
– Então, a filha mais bonitinha de dona Mariquinha deu à criança...
– Mas que criança, Dodó?! – indagava alguém, tentando provocá-lo.
– Pois é, continuando, ela deu ao recém-nascido, filho do pecado com o gringo, o esdrúxulo nome de Rosebud. Até hoje ninguém sabe o porquê, nem o que isso quer dizer, a sua significância. As velhas faladeiras, maledicentes, insistem que Rosebud é, só pode mesmo ser, coisa do Capeta, cujo nome de família em português é Bode, pois os padres que são tudo entendido nessas artes cabalísticas se recusaram a batizar o pobrezinho.
Para fechar com chave de ouro, à guisa de gran finale, o sábio estivador arrematava que o bastardinho Rosebud de Oliveira Quadros tornara-se, em meados da década de 60, um afamado advogado da Vara de Família, em Curitiba, com escritório montado e tudo. Na parede do escritório, em frente à escrivaninha, podia-se ver, emoldurada, uma fotografia autografada de Welles, com dedicatória feita especialmente para ele, o filho da aventura brasileira. Todos os conhecidos, inclusive a sua avó, a confiável dona Mariquinha, afirmavam unânimes que a tal dedicatória era falsa, coisa forjada pelo próprio Rosebud.
(Minhas incansáveis investigações levaram-me à Guiné-Bissau, onde descobri que Rosebud de Oliveira Quadros desaparecera, aos 31 anos, durante a Revolução dos Cravos. O que ele estaria fazendo naquele distante país? O máximo que consegui levantar sobre as suas atividades africanas é que fora em busca do paradeiro de um exemplar da “Ilíada”, de Homero, cuja folha de rosto continha a assinatura de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. O quê, então, o nosso ilustre conterrâneo tornara-se um apaixonado colecionador de obras raras? Sim, porém equivocado; essa raridade bibliográfica foi realmente encontrada, somente que na Espanha, em 1977).
A noite chegara e os ouvintes, então, iam se levantando preguiçosamente, batiam os pés, os chapéus, como se quisessem espantar o pó imaginário que neles se acumulara durante o longo tempo que ali permaneceram, e despediam-se, alguns com um sorrisinho, erguendo o queixo em direção ao estivador, outros, como eu, iam com a pulga atrás da orelha. Alguns dirigiam-se para os lares, outros para os bares, enquanto Dodó permanecia sentado no degrau da sua humilde casa, à Rua Heitor Soares Gomes, com o olhar distante, ouvindo as marés indo e vindo, batendo no paredão, observando ao longe a luz fugidia do rebocador puxando um navio através do canal. Algumas vezes tudo é verdade, noutras nem tudo é verdade.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

UMA DUPLA DO BARULHO - Parte 1

por Edson Negromonte

Antonina é uma cidadezinha esquecida no litoral do Paraná, aos pés da Serra do Mar, com aproximadamente 17 mil habitantes. Outrora pujante, fundada em 6 de novembro de 1797, embora alguns historiadores defendam a data de 27 de novembro de 1696, foi um dos portos mais importantes do Brasil, no apogeu da erva-mate, mas hoje vive das glórias do passado. Pelas ruas estreitas passaram, em épocas diferentes, o imperador Pedro II, o compositor Noel Rosa, o músico Gilberto Gil, recém-chegado do exílio em Londres, entre tantas outras personalidades importantes do país e do mundo, como o ator Anthony Quinn. Conta-se orgulhosamente que o imperador teria pernoitado onde funciona a Prefeitura, uma construção datada de 1914, e que Noel foi avistado, por um estivador de apelido Dodó, rascunhando a lápis a letra de um samba, que ele jura de pés juntos ser o clássico "Com que Roupa".
Acontece que Dodó é conhecido por todos como um grande mentiroso, desses que as pessoas gostam de ficar ouvindo, ao cair da tarde, embevecidas, quase hipnotizadas, cientes de que estão sendo engambeladas por uma bela e muito bem arquitetada patranha, inventada com o único intuito de distraí-las e afastar, assim, o marasmo da vidinha aparentemente insossa da cidadezinha à beira do mar, de marés tão exatas que através dos seus movimentos de ir e vir pode-se acertar os ponteiros da igreja matriz, a não ser quando, de sete em sete anos, feminilmente o mar desatina e invade as ruas centrais.
Daí, tão rapidamente quanto subiu, o mar bate em retirada, deixa uma grande quantidade de peixes mortos nos quintais, a apodrecer nas ruas, servindo de comida a formigas, ratos, aos urubus que de asas negras e imponentes descem das cumeeiras, indiferentes aos passantes. Depois, então, meninos apanham as espinhas inteiras e brancas dos peixes, como se fossem tambaquitas, e brincam de pentear os grossos cabelos castanhos. Cansados, atiram o que restou das espinhas de volta às águas salgadas e calmas.
– Já viu? Então, ouça: rio é bicho aparentemente quieto, calado, mordido, na moita. Rio, dizem os incautos, por maior que seja, é sempre circunspecto; mar... mar não, mar é alvoroçado por dentro, principalmente quando se encontra com as pedras, fêmeas à espera do arpão de espuma. Mar está sempre à beira do motim, porque quem se rebela não é, na verdade, o marinheiro, é o mar que insufla em seu coração a desgraça; rio... rio é prudente no agir, no falar, até no pensar, mas depois de sabido não se destroca o mar por nada desse mundo, nem do outro.
Uma das melhores relamboias de Dodó é sobre a rápida passagem, em 1942, do cineasta americano Orson Welles, acompanhado de Grande Otelo, pelas centenárias ruas de paralelepípedos, durante a Segunda Guerra Mundial. Como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, a cada vez que contava esse suposto acontecido, o estivador aproveitava para encorpar um pouco mais a narrativa, ora afirmando que ele mesmo preparara o barreado para a dupla, regado a muita caipirinha, que Welles tanto se fartara da iguaria típica do nosso litoral, que dormiu e roncou feito um porco madrugada adentro, ora acrescentando, quando não havia mulheres por perto, que, mesmo assim, bêbado e à beira da congestão (e Dodó afirmava categoricamente, com um sorriso sacana, não saber explicar como), ele conseguira sair da cama e engravidar a sua vizinha, aquela, a mais bonitinha das filhas de dona Mariquinha. E, como se estivesse num programa televisivo de culinária, o matreiro Dodó, sabendo-se senhor da situação, aproveitava para criar suspense, ensinando, cheio de gestos, como se faz o verdadeiro barreado.
– Eu usei bem uns seis quilos de patinho e meio quilo de toucinho fatiado, tudo temperado com muito alho, cominho, cebola, louro, tomate, manjerona, cheiro-verde, salsa, pimenta-do-reino, gengibre, vinagre e... sal a gosto. Deixei dormir tudo junto pra pegar sabor. De manhãzinha, às cinco horas, cortei o toucinho em tiras bem fininhas para forrar o fundo da panela e fui botando uma camada de tempero, uma camada de carne, uma camada de tempero, outra de carne, até chegar a um pouco menos da metade da panela.de barro, da esmaltada, comprada na loja do falecido Nóca, que é quem vendia as melhores panelas de toda a região. Quando começou a ferver, eu experimentei; e aquilo tinha um sabor dos deuses. Ou, quem sabe, dos diabos! – arrematou, com uma risada.
Alguns dos presentes persignaram-se, fazendo o pelo sinal.
– Tava tudo no ponto: sal, vinagre... os temperos... Era mesmo coisa do outro mundo! – disse Dodó, olhando de um por um, bem no fundo dos olhos atentos.
Nesse momento, os ouvintes novamente se benzeram, Dodô deu um sorrisinho de mofa, aproveitando para se benzer também que, pelo sim, pelo não, ninguém é bobo de botar fogo no rabo do Diabo sem se garantir.
– Então, – continuou – cobri a panela com folha de bananeira muito da devidamente sapecada e, com barbante de algodão, amarrei a tampa com firmeza. Depois, barreei com uma massa de cinza peneirada, bem misturada com farinha de mandioca braba. Ah, tem que ser da braba, senão não dá liga! E fui, de pouco em pouco, barreando devagarinho pra evitar que o vapor fugisse pelas frestas; isso durante umas doze horas, em fogo brando, sempre em fogo brando. Às cinco da tarde, a comidanha tava pronta!
– De onde você tirou essa receita de barreado?
– Essa é a receita de Nhô Jubó, meu falecido pai. Que Deus o tenha!
Todos sabiam que o pai do mentiroso tinha sido um dos melhores cozinheiros das redondezas, que até gente de São Paulo vinha experimentar os seus quitutes. E, sempre que questionado, Dodô não tinha dúvida: atribuía a fonte ao seu velho e por todos querido progenitor, ciente de que era a maneira mais eficaz de conseguir imediata credibilidade.
– Mas o mais engraçado, sabem, vejam só, – continuou – ninguém viu nem sombra de câmera nas mãos do gringo. Que diretor de cinema era aquele que não filmava tudo o que via? Ora, cineasta que se preza tem que ser que nem contador de piada, não perde a chance de fazer graça. Sei lá, pelo menos o maluco do Zé Carlos, filho da terra, andava com uma filmadora para lá e para cá, para cima e para baixo, quando inventou de fazer uma fita sobre a nossa gente, depois de assistir "Limite", uma fita, contou-me o meu finado pai, que Deus o tenha, numa sessão no manicômio da capital. Há quem diga que a câmera de Zé Carlos nunca sentiu nem cheiro de filme, mas isso não é nem verdade.
Enquanto Orson Welles roncava ou resfolegava, Grande Otelo perambulava pela zona de meretrício que, pasmem, ainda ficava na Dr. Justino de Mello, rua próxima ao miolo do centro da cidade, dizendo para as mulheres de vida fácil o que elas entendiam como um gracejo qualquer em inglês, torcendo a boca, para ficar mais parecido com o amigo americano:
– Tomorrow, six o'clock!
Reconhecido pelas putas e cafetinas, o grande cômico foi obrigado a visitar cada uma das casas da agitada zona. Em cada uma delas, era-lhe oferecida a melhor bebida, a cerveja preta mais gelada, o uísque mais envelhecido, a melhor comida, a mulher mais bonita ou a mais fogosa. Era assim que aquela gente agradecia as inesquecíveis gargalhadas que Otelo lhes proporcionava em excelentes comédias musicais, como "Céu Azul" e "Laranja da China". Emocionado e incansável, o pequeno Sebastião Bernardes de Souza Prata (este era o "verdadeiro" nome de Grande Otelo) fazia questão de mostrar os dotes musicais, cantando inúmeras vezes o samba "Vou pra Orgia", pelo qual era aplaudido freneticamente, de pé, por todos os presentes, emendava com "Boneca de Piche", imitando a voz e os trejeitos de Carmen Miranda, para finalizar apoteoticamente com "Praça Onze", grande sucesso do ano.
Grande Otelo contava, na época, vinte e cinco anos. Ou seriam vinte e sete? De olhos esbugalhados e lábios sempre prontos para um muxoxo, a característica "boquinha de rosa", parecia mais um menino peralta, devido principalmente à baixa estatura, não media mais de um metro e meio, enquanto o grandalhão Orson Welles, com cara de bebê, media um e oitenta e sete. Quatro anos antes, em 1938, o genial Welles deixara os americanos em polvorosa, provocando acidentes, desespero e até mortes, com a radiofonização da novela "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, a qual ele transpusera para o rádio, com inteira liberdade, como um noticiário em meio à programação normal da emissora, como se os Estados Unidos estivessem sendo invadidos, naquele exato momento, por hordas de terríveis marcianos, acarretando-lhe vários processos, tornando-o assim uma celebridade da noite para o dia. Mas, aqui, no Brasil, ninguém deu muita pelota para isso. Com a sua chegada ao país do futebol, os repórteres dos principais jornais foram ouvir os despreocupados populares:
– Invasão de marcianos?!
– Isso só pode ser coisa de gringo.
– Tenha dó, tenho mais o que fazer.
Nem no Rio de Janeiro, a então capital federal, os grandes intelectuais da Corte deram muita pelota para tamanha sandice. Certamente que alguns por dor de cotovelo, mas a grande maioria por pura ignorância mesmo. Depois, davam-se ares de superioridade, alegando confusos que tinham lido a obra completa de Júlio Verne, não encontrando ali uma única menção sobre os tais marcianos. E se o mestre francês não se dignara a deitar os olhos nas tais criaturas do planeta Marte, isso só podia significar perda de tempo.
– Uma nação inteira levada à histeria por causa de um simples programa de rádio? – argumentou um grande romancista.
– Por causa de homenzinhos verdes de Marte? – completou o nosso maior poeta.
Agora, imagine se os pobres antoninenses, neste fim de mundo, iriam saber quem era Orson Welles. A única guerra de que tinham ciência era a Guerra Mundial, mas mesmo assim era algo que acontecia muito longe daqui, lá no estrangeiro, e somente de vez em quando alguém dessas bandas era recrutado.

Continua na semana seguinte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O TROTE


por Edson Negromonte

Quando estava entrando na adolescência, ele saiu pedalando desabaladamente a bicicleta pela porta da frente da casa onde morava, tomando impulso desde o final do comprido corredor que a dividia em duas alas. Suprema glória, passou voando pelo degrau da entrada, de pedra... Será um pássaro? Um avião? Não, é o Super-homem!... e caiu de boca no para-choque de um caminhão que estava fazendo manobra de ré, justamente naquela hora. Estarrecidos, os vizinhos que conversavam despreocupados em frente às casas viram-no grudado no para-choque de ferro de um antigo caminhão do exército, dando a grotesca impressão de que o menino estava mordendo o veículo. Todos correram em socorro, tirando-o ensanguentado dali, os dentes espalhados pelo chão. Passou meses em recuperação e, em consequência de choque tão violento, uma devastadora piorreia levou o restante dos dentes, deixando-lhe somente os quatro caninos. Essas pontiagudas recordações do que houvera sido a promessa de um belo sorriso pareciam nitidamente um toca-fita, a gaveta aberta, com os pinos à mostra. Desde esse dia, ele passou a ser conhecido por todos pelo maldoso apelido de Toca-fita. Alguns tentaram chamá-lo de Nosferatu, mas não colou. Ele seria para sempre Nico Toca-fita.
Nico, uma das figuras mais engraçadas de Antonina, tornou-se, desde a minha chegada à cidade, um dos meus amigos do peito, daqueles de quem se gosta de graça, mesmo porque a sua personalidade arredia não fazia esforço algum para que se gostasse dele. Mentiroso que só, adorava pregar peças nas pessoas, principalmente nos amigos mais próximos. Uma vez chegou na Praça Coronel Macedo, consternado, contando-nos, pesaroso, que o padre William, nosso querido mestre dos rudimentos da língua inglesa, tinha morrido. De início, nos recusamos a acreditar, por já conhecer de sobejo as suas brincadeiras de mau gosto. Volta e meia, "matava" um, "acidentava" outro, só para se divertir às nossas custas. Acontece que, desta vez, o patife foi muito convincente, demonstrando tanta tristeza, jurando por Deus, que, ao final de alguns minutos, estávamos quase chorando, lembrando saudosos do quanto aquele padre fora bondoso e paciente, ensinando-nos a língua de Shakespeare da maneira mais cativante possível, através das letras de música de Uriah Heep, T.Rex e James Taylor, provocando risadas genuínas ao jogar um toco de giz no chão e gritar nothing, à imitação de Alice Cooper, recordando a sua própria adolescência, de quando fugiu de casa para ir a Nova York assistir a um show de Simon & Garfunkel. Ah, padre William era mesmo um grande camarada! Com a emoção à flor da pele, ouvimos, então, o som familiar de uma buzina. Era o bom padre cumprimentando-nos de dentro do seu fusca, saudável e sorridente, como sempre, enquanto Nico desatava a rir, radiante por ter pregado mais uma peça. Depois de passada a surpresa inicial e a raiva momentânea (tivemos até vontade de quebrá-lo ao meio), rimos todos juntos. Que remédio! O cara não valia nada mesmo, queria somente se divertir.
Esses padres redentoristas atuavam de maneira muito eficaz na pequena comunidade, integrando-se de corpo e alma na vida social de Antonina. Um dos mais agradáveis era o padre Joãozinho, que, uma noite, foi parar na cadeia. Em busca das ovelhas perdidas do rebanho, o religioso foi inadvertidamente levado por Maneco Capeta e Johnny Pererê, dois pândegos inseparáveis em busca da dose diária de diversão, para tomar umas cervejas na Boate, curioso nome pelo qual era conhecida a parte chique da zona de meretrício da cidade, cujo inusitado e inventivo slogan era Good girls, good drinks, good nights. Cerveja vai, cerveja vem, a mesa foi ficando cheia de garrafas vazias, ao som de "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", o grande sucesso de Odair José. Quando padre Joãozinho levantou-se para pagar a conta, meio balão, percebeu que esquecera os documentos e, pior ainda, o dinheiro, no bolso da outra calça, na casa paroquial. De nada adiantou dizer e afirmar e jurar em nome de Deus que era padre; a dona da casa jamais acreditaria em história tão descabida.
– Vagabundo! E ainda vem me dizer que é padre! Além de tudo, mentiroso! Caloteiro! Salafrário! Sacripanta!
A mulher ligou para a delegacia e lá se foram os três companheiros de esbórnia, a bordo do vasquinho, nome pelo qual era conhecido o temido fusquinha preto e branco da Polícia. No dia seguinte, os próprios Pererê e Capeta se encarregaram de espalhar a grande nova pela cidade, o que resultou na transferência de padre Joãozinho para uma paróquia distante, em busca de novas ovelhas desgarradas, mas nem tão distantes do rebanho.
Certa vez, meus pais e minha irmã foram passar um final de semana na praia, deixando-me sozinho em casa, no bairro da Caixa d'Água. No início da tarde, Nico apareceu por lá, trazendo debaixo do braço o último disco do Ten Years After, o qual ouvimos atentamente, outra vez e outras mais até enjoarmos. Depois botamos para rodar Creedence, Rolling Stones, encerrando com Led Zeppelin, no último volume, estremecendo as paredes, com "Whola Lotta Love". Incomodada, a vizinhança botava a cabeça pelas janelas, inconformada com a barulheira infernal. Insatisfeitos e para desafiar de vez a ordem das coisas, botamos para rodar, bem alto, o compacto de Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", canção de protesto proibida pela Censura do governo militar. Curiosamente, ninguém entendeu nada, mas ninguém mandou nos prender.
Com os tímpanos cansados, entupidos de tanto rock'n'roll, resolvemos passar trotes pelo telefone. Ligamos, primeiro, para um ponto de táxi, pedindo um carro para o Lar Infantil, localizado um pouco mais à frente de casa. Demos muitas risadas quando o táxi voltou sem passageiros. Em seguida, ligamos para o outro ponto de táxi, aplicando o mesmo trote. Dera certo novamente, outro carro vazio. Era o máximo! Daí, mais confiantes, começamos a ligar para as casas das pessoas, perguntando se queriam comprar um recém-inventado "carapel".
Quando, do outro lado, indagavam o que vinha a ser o tal "carapel", singelamente respondíamos:
– Ué, um caralho de papel!
Quantas gargalhadas demos com a brincadeira. Meu Deus, como era engraçado! Madrugada adentro, nos divertíamos a valer, telefonando para quase toda a cidade, procurando nomes na lista telefônica.
– Quer comprar um carapel?
Por volta das três da madrugada, ligamos para dona Miralba, professora de Física do colégio, e com voz melíflua perguntamos:
– A senhora deseja comprar um carapel?
– O quê?
– Um carapel!
– O que é isso?
– Ué, carapel é um caralho de papel!
Ao ouvir tal disparate no meio da noite, a mulher desatou a chorar. Imediatamente, o seu marido, o alemão Schirach, pegou o telefone e começou a gritar enfurecido, num português arrevesado:
– O que serr isso? O que serr isso, seus fagabundas?
– Um carapel!
– O quê?
– Um caralho de papel! Hahahaha!
Então, achamos melhor parar com a brincadeira, aquilo já tinha ido longe demais: tínhamos feito chorar a professora. Mesmo assim, o riso era incontrolável. E se descobrissem? Ora, isso era impossível! Hahaha!
Na TV, estava começando um filme que marcaria as nossas vidas para sempre, "A Mosca da Cabeça Branca", com Vincent Price. Quando o filme terminou, resolvemos voltar aos trotes, mas o telefone não dava sinal nenhum, não tinha som, desligávamos o aparelho, tirávamos o fone do gancho, e nada. Silêncio. O que teria acontecido? Seria a maldição da mosca? Isso que dá assistir a filmes de terror, ainda mais de madrugada! Ô, merda! Nico foi para casa, tremendo de medo. A mosca, a mosca da cabeça branca, tínhamos então certeza disso, era o sinal de que pagaríamos caro pela molecagem.
Antes de me deitar, tirei o fone do gancho e fiquei escutando... Silêncio, silêncio sepulcral. Rezei muito, até pegar no sono. Acordei cedo e corri ao telefone. Longe, muito longe, ouvi vozes indistintas, parecia gente conversando, não consegui entender uma única palavra. Fiquei intrigado, com algum medo, pois tinha lido há pouco tempo na revista Planeta sobre as experiências russas que captavam as vozes dos mortos, justamente através de... aparelhos telefônicos.
– Ô, merda!
Comi alguma coisa e fui quase correndo à casa de Nico. Ressabiado, não entrei, chamando Nico para sair. Junto com o amigo, com o cúmplice, fui me sentindo melhor, cada vez mais seguro e, dali a pouco, estávamos despreocupadamente rindo a bandeiras despregadas do que tínhamos aprontado. Mas ao passar em frente às Casas Pernambucanas, ouvimos de dois caixeiros que estavam à porta:
– Ó, os dois que ligaram para a casa da dona Esperança, chamando ela de puta e outras barbaridades.
Não, nós não tínhamos telefonado para a dona Esperança. Ou tínhamos? Mas, certamente, não tínhamos chamado de puta aquela velhinha tão simpática, de cabelos brancos da cor da neve e fazedora de deliciosos doces. Isso não! Nunca! Aliás, seguramente não tínhamos chamado ninguém de puta, somente oferecíamos o singelo carapel. Por onde passávamos, ouvíamos os comentários mais disparatados sobre os trotes, as pessoas inventavam as maiores mentiras sobre aquilo tudo, nos transformando em lendas urbanas. Recorremos, então, desesperados ao pai de Nico, homem sábio que sempre sabia o que fazer em situações difíceis. Ele nos aconselhou a irmos até a casa de dona Miralba e contar tudo, pedir perdão a ela e prometer que não faríamos mais essas brincadeiras de mau gosto, assegurando-nos de que era essa a maneira mais acertada de agir para não piorar a situação. Ainda, conforme o sábio homem explicou, o velho Schirach, seu conhecido, trabalhara com telefonia durante a Segunda Guerra e tinha, assim, conseguido travar a linha, discando algum código numérico, e que ele, mais cedo ou mais tarde, certamente descobriria de onde partira o maldito trote, mesmo que a Telepar se recusasse a fornecer o número. Era só uma questão de tempo para que a notícia chegasse aos ouvidos do alemão, ao som da “Cavalgada das Valquírias”!
– Nós tamo é fudido! – profetizou Nico.
Cheios de aparente coragem, seguimos em direção ao bairro onde morava a professora e seu temível marido. Contavam, à boca pequena, que o velho combatera do lado dos nazistas, durante a Guerra, fato que o agigantava ainda mais aos olhos já arregalados dos dois agora minúsculos amigos. Por uma ação impensada, tínhamos que enfrentar um oficial da SS. Isso era demais para a nossa pouca idade, estávamos apenas começando a vida... Assim, seguimos caminhando pelos trilhos do trem, ensimesmados, caindo, escorregando, retomando o equilíbrio...
Ao divisarmos o portão branco, de madeira, da casa de dona Miralba, a uma pequena distância, titubeamos, pensamos em desistir. Olhamo-nos e, de comum acordo, entramos no boteco da esquina, escuro, fedorento, para tomar o tradicional trago da coragem. Sentados à mesa engordurada, pedimos:
– Uma gasosa Cini, de gengibirra!
Nervosos, rimos do inusitado pedido, éramos capazes de fazer piada da própria desgraça, mesmo seguindo em direção ao matadouro. Após esvaziar a garrafa, seguimos em frente; a situação tinha de ser resolvida.
Batemos palmas no portão e justamente o carrasco alemão veio nos atender.
– Sim?
– A dona Miralba está? – perguntei, com voz trêmula.
– O que focês querrer com Mirralba?
– Nós somos alunos dela...
– Entrra! – ordenou.
Ai, meu Deus, estávamos sendo "convidados" a adentrar as câmaras daquela miniatura de campo de concentração. Como faríamos para nos escafeder dali se o caldo engrossasse?
– Senta, senta! Ela xá fem!
– Mirralba, tem fisita parra focê! – ele gritou para a cozinha.
A professora veio, enxugando as mãos num pano de prato, imaculadamente branco.
– Focê conhecerr essas dois?
– É o irmão de Rute, e esse é o filho do Pedro, meus alunos. O que vocês querem? – perguntou ela, sorridente.
Fomos contando o que tinha acontecido, olhando somente para ela, atropelando as palavras, enquanto sentíamos os incandescentes olhos de fogo do alemão sobre o nosso couro, como ferros em brasa marcando judeus em Sobibor. E não será figura de linguagem se eu disser que podíamos sentir o cheiro de carne assada, queimada... na cozinha. Mas dona Miralba, estarrecida, não correu para salvar o assado, até o cheiro acre, de queimado, inundar a sala; o velho Schirach fechou a porta da cozinha. Eu só queria desaparecer dali, passar pelas frestas do assoalho, virar fumaça e respirar, novamente, o ar puro da rua. Finalmente, tivemos coragem de pedir que ela nos perdoasse, prometendo que jamais faríamos aquilo novamente, que tudo tinha sido um grande erro, que nos arrependíamos amargamente, quase chegando às mais sinceras lágrimas. Então, para nossa surpresa, olhando-nos maternalmente, a mulher disse para o marido:
– Querido, nesta cidade não se tem o que fazer. Aqui, os jovens não têm perspectivas. Você precisa levar esses dois meninos para trabalhar no sítio...
Que susto! "Trabalhar no sítio" só podia ser um código, e significava não voltar mais, deixar nossas famílias para sempre. Em linguagem cifrada, ela certamente estava se referindo a um campo de concentração, ao corredor da morte, às câmaras de gás, às terríveis experiências genéticas... Desesperado, balbuciei uma mentira esfarrapada qualquer.
– Não, eu não posso! Vou começar a trabalhar... em Curitiba... semana que vem...
– Eu também! Eu vou trabalhar com ele! Nós vamos trabalhar juntos, vou ser ajudante dele – emendou Nico.
Fez-se um silêncio sepulcral, enquanto Schirach nos observava, segundos que pareceram uma eternidade. Dirigiu o olhar para a esposa e, em seguida, para os dois garotos ali, encolhidos, suando nas palmas das mãos, à sua mercê.
– Se eu perrdoa focês, focês sai daqui dizendo prra todo mundo: "ah, aquele félho burra".
– Não, seu Schirach! O que é isso? A gente nunca vai dizer uma coisa dessas do senhor!
– A gente vai até rezar pro senhor... – começou Nico, sendo abruptamente interrompido.
– Eu não querro que focês reza prra mim! – gritou o alemão.
A melhor coisa a se fazer era mesmo ficar quieto, e bem quieto. Por uma inesperada ação da mão do Destino, dona Miralba olhou carinhosamente para o marido, na tentativa de enternecer o seu coração petrificado, vendo naqueles dois adolescentes perdidos, encolhidos em seu enorme sofá, os filhos que não tivera, que não pudera ter.
– Tá bom, eu fai retirrar o queixa!
– E destravar o telefone? – perguntei, num fiapo de voz.
– Sim, sim! Mas continuarr achando que os pais de focês defia ser castrado, capado, parra nunca mais botar gente assim na mundo. Agorra, fão emborra! Desaparreçam do minha frrente!
Não precisou pedir duas vezes. Desaparecemos na rua, pegando o trilho de volta para o centro da cidade, inicialmente calados, de cabeças baixas, contando os dormentes, depois sorrindo timidamente um para o outro, rindo um do outro e, finalmente, dando boas gargalhadas. Ah, como a vida era bela! Como valia a pena viver! Como era bom estar no mundo dos vivos outra vez. Por precaução, nos viramos para trás para ter certeza de que não estávamos sendo seguidos por nenhum dobermann. Em seguida, olhamos para frente, confiantes, sorrimos novamente um para o outro e, sem poder conter tanta felicidade, gritamos a plenos pulmões para a tarde, para a vida, para o céu, para os Céus:
– Ô, FÉLHO BURRA!!!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

RUA DO ESTEIRO, 54


por Edson Negromonte

Rodrigo era conhecido por todos como El Cuervo, talvez pelo avantajado nariz aquilino, a pele escura e a silhueta longilínea, ou, quem sabe, pela quantidade de urubus que faziam do seu telhado morada, onde permaneciam horas a fio de asas abertas, após pesada e repentina chuvarada de verão, como insólitos guardiães. O velho Rodrigo dava-se muito bem com essas aves de mau agouro, alimentando-as com as poucas sobras da sua cozinha e com tripas de galinha, divertindo-se com a feroz disputa pela apetitosa iguaria. Ele era mesmo singular, invariavelmente de terno e chapelão pretos, embora não lembrasse em nada, naquela época, para os meus olhos adolescentes, uma figura soturna. Grande contador de histórias as mais fantásticas, às quais seus ouvintes prestavam atenção redobrada, à procura de uma nesga qualquer de inverdade. Mas El Cuervo era hábil em estribar as narrativas em datas longínquas e em paragens as mais exóticas, como é próprio a um marinheiro que singrara mares tão distantes e dera de cara com os monstros fabulosos descritos pelos primeiros navegadores. Para ser honesto, não posso afirmar de sã consciência que ele fosse meu bisavô consanguíneo; talvez um parente distante, aliás, muito distante, pois o seu sobrenome não fora aportuguesado como o nosso houvera sido, desde os tempos do coronel Francisquinho da Gameleira. Rodrigo assinava Nigromonti, a antiga grafia original dos antepassados espanhóis. Recordo-me nitidamente da fachada da sua casa branca, de paredes caiadas, faiscantes sob o sol forte do meio-dia, das duas janelas frontais, a madeira escura, o verniz descascado da porta, lembrando o casco de uma maltratada baleeira.
– Este é Rodrigo, o seu bisavô Rodrigo – disse meu pai, apresentando-o a mim, sem muitas explicações, e com certa inflexão na voz.
Aquele homem trajado de preto, indiferente ao sol, sentado à porta da casa que dava direto para o rés da rua numa cadeira de palha, já despertara anteriormente a minha atenção. Não era essa a primeira vez que eu o via. Apesar do sorriso franco, sem mostrar excessivamente os dentes, e do forte aperto da mão magérrima, fomos nos aproximando aos poucos, como é apropriado às amizades duradouras, que se instalam nos corações lentamente, tal e qual os buracos que vão surgindo nas calçadas, sob a ação contínua das goteiras, chuva após chuva. E como chove em nossa aldeia...
Quando nos demos conta, eu e o velho já éramos companheiros de longa data, de longo curso, quase confidentes. Sentia-me perto dele assim como o magriço Jim Hawkins devia sentir-se em companhia de Long John Silver. Para compensar a falta do papagaio falastrão, tínhamos a companhia de inúmeros urubus a montar guarda silenciosa no telhado. Nos meus devaneios, a sua casa de pé-direito muito alto, sem forro, era sob todos os aspectos a encarnação do albergue Almirante Bembow. Morava com ele uma jovem (não tinha mais de vinte anos) que atendia pelo nome de Flor, a qual vim a saber bem mais tarde ele tirara da zona de meretrício para servi-lo, tanto à cama quanto à mesa. Ela era muito calada e reservada, de olhar sempre baixo. De seios fartos, pele clara, ancas roliças, vestia-se quase sempre de branco, e uma amarelada tiara de osso prendia-lhe os cabelos intensamente negros. Não que fosse carrancuda, talvez algo taciturna, provavelmente a melancolia intrínseca à alma feminina; mas nunca entrevi em seus lábios a mais leve sombra de um sorriso. Nem mesmo quando meu bisavô, num gracejo, agradecia a xícara de cevada que ela, sem que pedíssemos, trazia durante os nossos animados bate-papos.
– Obrigado, minha flor. Agora, pode ir cuidar dos seus afazeres – dizia ele, dando uma piscadela para mim.
As pessoas da nossa família, tendo-o na qualidade de aparentado, não encaravam com bons olhos essa mulher tão jovem na casa do homem velho, vendo-a como uma aventureira, uma golpista. Às vezes, as tias velhas usavam palavras mais pesadas quando se referiam a ela. Devo aqui deixar claro que ela foi sempre muito dedicada a ele, meu bisavô Rodrigo, não sabendo de nada que a desabonasse, desde que os dois passaram a viver sob o mesmo teto. E, após a morte do velho, Flor desapareceu de nossas vistas, da cidade, sem deixar rastros, como se nunca houvesse existido. Nem mesmo a casa ela reclamou, restando hoje da construção somente o paredão frontal, em ruínas. Ele, por sua vez, era muito cortês com ela. Nunca percebi nenhuma palavra rude ou animosidade entre os dois, mesmo no dia em que Flor tropeçou no tapete da sala e encharcou de cevada as páginas de um manual sobre a pesca de baleias, aberto sobre a mesa. Nele (após eu contar-lhe do presente que meu pai trouxera de uma das suas viagens: um belo volume encadernado de “Moby Dick”, a obra máxima de Melville), o velho orientava-me entusiasmado sobre os vários tipos de arpão usados na caça dos gigantescos cetáceos, sem a mínima preocupação com a preservação da natureza, com a vida sobre a Terra, o que inclui a própria vida humana. Outros tempos, quando nos deliciávamos sem culpa com uma saborosa sopa de tartaruga, as quais batiam com frequência à nossa costa. Com o velho homem aprendi a carnear tartarugas, a cortar primeiro a cabeça, separar o casco do peito, o plastrão, aprendi também a cortar a carne em pequenos cubos para a sopa, até o preparo da alfavaca, o tempero ideal. Era um tempo em que os homens eram forjados na violência, na visão do sangue, a morte presente, tempo em que homens de fibra não choravam, ou se choravam era somente na solidão do quarto, longe dos olhos dos outros e, muitas vezes, até de si mesmo, negando as próprias lágrimas. Era um choro surdo, pra dentro. Com o velho aprendi diligente a imitá-lo nos erres bem escandidos e os esses sibilantes, exercitando-os na leitura do jornal semanal, principalmente na seção criminal, quando o movimento intenso do porto trazia a Antonina gente de outros lugares, até de outros estados, gente violenta e afeita à bebida, em busca de trabalho. Ele fazia gosto que o rapazinho que então eu era lhe lesse sobre a chegada e a partida dos navios, tanto os de carga quanto os de passageiros, incluindo os mistos. Dava-me a impressão de que conhecia todos os nomes das embarcações que iam e vinham, os nomes dos comandantes, até os dos passageiros. Ria-se muito do meu embaraço para pronunciar, sem titubear, palavras como laranja e lareira, mas o que realmente o deixava apreensivo era a minha dificuldade com a palavra justiça, da qual eu invariavelmente comia o esse. Até hoje não consigo dizê-la corretamente.
Acostumei-me a ir vê-lo praticamente todos os dias (ele tornara-se, então, o bisavô que eu sempre quis ter). E, tenho certeza, El Cuervo fazia muito gosto nessas visitas. Quando precisava se ausentar, tinha a gentileza de deixar um recado com Flor para que eu regressasse no dia seguinte, para almoçarmos juntos. Sentia-me desorientado com a sua ausência. Até hoje não sei aonde ele ia, visto que não mencionava sequer o motivo das poucas saídas. Percebi também que, desde que comecei a frequentar a casa, os seus poucos amigos foram se distanciando cada vez mais. Durante algum tempo, me senti culpado por isso, até que externei a minha preocupação, coisa à qual ele pôs ponto final dizendo-me que, se isso era mesmo verdade, não eram então amigos dignos, asseverando que preferia muito mais a minha presença naquela casa, e que eu a enchia de vida. E que aqueles chacais, palavras suas, só sabiam falar de doença e dos velhos bons tempos. Ele detestava o chavão “meu tempo”. Para El Cuervo, o tempo de um homem é enquanto ele está vivo, embora se referisse à vida de embarcado como os melhores dias. Contava-me, assim, sobre a sua passagem pelo estreito de Gibraltar, sobre o oceano Índico, o golfo de Bengala, o cabo das Agulhas, as tempestades na ilha de Java, sobre o cabo das Tormentas, o cruel gigante Adamastor, o Bojador, a Tortuga, Madagascar, Port Royal, na Jamaica, como se realmente tivesse vivido tudo isso. E, cá entre nós, sou capaz de jurar que realmente vivera, tal a riqueza de detalhes dos vívidos relatos. Como é comum aos velhos, com o tempo, passou a contar-me quase sempre as mesmíssimas histórias, mas com tantas e tais minúcias, numa profusão de pormenores, às quais acrescentava novos personagens periféricos, mas de vital importância para o enriquecimento da narrativa. Ora conhecera pessoalmente o chefe Kilaeua, da ilha Ni’ihau, no Havaí; de outra feita, visitara o túmulo de Robert Louis Stevenson, em Vailima, nas ilhas Samoa, e que à noite o vira passeando de terno branco e chapéu panamá, ladeado pelos nativos. Ele bem sabia que a simples menção do nome do escritor escocês fazia arregalar os meus olhos de menino e a querer saber muito mais sobre as suas, talvez fictícias (que importa?), aventuras. Tudo isso só fazia-me querer cada vez mais bem ao meu perspicaz amigo. Às vezes, imagino que a sua cultivada arte de narrador tenha contribuído em muito para que eu me dedicasse de corpo e alma à literatura, contando histórias como se eu e o leitor estivéssemos de pé, lado a lado, no convés de um veleiro, entre o mastro grande e o castelo de proa.
Certo dia, ele cuidadosamente pegou da pequena estante, ao lado da única poltrona da sala, uma Bíblia, com a lombada já gasta, esfarrapada e, creia-me, com um cheiro característico. Asseguro-lhe que, naquele momento exato, senti vir do livro sagrado o cheiro dos oceanos, de salitre, homens rudes, ventos os mais diversos, trazendo no bojo o murmurar das lendas marítimas, as escamas dos monstros marinhos, argonautas, odisseus e odisseias.
– Vamos, leia o que está escrito a lápis na folha de rosto – disse-me, estendendo o livro.
Intrigado pela ordem repentina, tomei imediatamente o livro das suas mãos, aberto no local indicado, para encontrar inscrito ali o nome Zulmiro, o que para mim, até então, nada significava. Ergui os olhos interrogativos para o ancião, o meu capitão diante de mim. Ele abriu um leve sorriso, de contentamento; a atitude teatral e estudada de pegar o livro e estendê-lo para mim, o seu improvisado grumete, surtira o efeito desejado.
– Para você que se identifica tanto com o mar, com a vida dos homens do mar, que é capaz de ficar horas a fio sentado no trapiche, admirando o voo das gaivotas e o magnífico mergulho em meio ao cardume de sardinhas, vou contar, então, a verdadeira história de Zulmiro, coisa de um tempo em que eu era também menino, assim como você. Aliás, direi o pouco que sei sobre essa personalidade tão controversa que aportou em nossa baía no ano da graça de 1877, vindo sabe-se lá de onde. A única certeza é a de ele que vinha de muito longe, talvez do Oriente, da Ásia, das Filipinas, quem sabe, da África, em algum navio negreiro, mas de certo somente é que ele não podia mais retornar ao mar, o seu amado lar, o cemitério marítimo onde toda a poesia repousa, e onde Zulmiro gostaria de ter podido descansar. Não que tivesse perdido as graças do mar, como sói acontecer a muitos marinheiros. Não, isso é que não.
Ao ouvir essas palavras, meus olhos brilharam mais ainda, levando-me imediatamente, sem saber bem o porquê, a Joseph Conrad e seu “Lorde Jim”, do qual eu vira tantas vezes o filme no Cine Ópera e, logo em seguida, lera com avidez o livro, na requintada tradução do poeta Mário Quintana.
– Esta Bíblia, em inglês, pertenceu a ele, Zulmiro, o último pirata que a história registrou. Portanto, que fique esclarecido desde já que nem Don Pedro Gilbert e muito menos Benito de Soto, mas, sim, Zulmiro foi o último salteador dos mares. Por não se submeter às ordens da rainha Vitória, de abandonar a pirataria para se tornar corsário, esse homem passou a ser perseguido pelos navios da marinha britânica, com a incumbência de enforcá-lo na primeira ilha que fosse avistada. Aconteceu que o capitão que o encontrou tinha sido seu colega na escola naval e, resolvendo poupar-lhe a vida, abandonou-o na costa do Brasil, com trinta libras de ouro e esta Bíblia, prometendo que se o encontrasse novamente cumpriria com imenso prazer o decreto real. Não sei dizer por que cargas-d’água ele veio bater, no dia 13 de agosto daquele ano, à nossa porta, tarde da noite, a silhueta encoberta por uma gigantesca nuvem negra que momentaneamente encobriu a lua cheia, grávida de mistérios. Pediu-nos abrigo, um quarto, só um pernoite, como se nossa casa fosse algum tipo de pensão. Ou, quem sabe, um tipo de estalagem, pois não havia hotéis em Antonina àquela época. Não sei dizer também por que meus pais se apiedaram daquele homem. Talvez movidos pelo espírito cristão, não puderam negar um quarto e uma refeição àquela criatura que parecia beirar os 80 anos, tal o desgaste que o constante açoite dos vagalhões de água salgada provocara em seu corpo. Acontece, para nossa apreensão, que os dias foram passando e ele foi ficando, instalado no quartinho lá dos fundos. Sim, o mesmo onde hoje guardo as minhas redes, as tralhas de pesca. Talvez, no nosso íntimo, pensássemos em, um dia, botar as mãos no suposto tesouro, embora fôssemos incapazes de admitir tamanha perfídia, tão logo ficamos sabendo através da capitania dos portos tratar-se Zulmiro de um pirata. E, você sabe o que dizem, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. O homem estava acabado, com certeza não duraria muito tempo mais. Assim imaginávamos ou assim queríamos, e simplesmente resolvemos dar tempo ao tempo, em vez de sujar as mãos com ato tão ímpio. Se você o visse não acreditaria: tinha os poucos dentes que lhe restavam todos podres, as gengivas enegrecidas pelo escorbuto, o olho direito descaído, e o esquerduma mistura demoníaca de azul e vermelho, coxo, puxava de uma perna, a pele ressequida do sol, com algumas úlceras na face desnutrida. O hálito era dos piores, parecia vir das entranhas do inferno, tão nojento que me dava náuseas, vontade de vomitar. Seu amado John Silver não lhe parece agora uma singela estampa Eucalol?
Assenti rapidamente com a cabeça, para que o velho retomasse o quanto antes a história de Zulmiro.
– Diz a lenda que ele, antes de bater os costados em nossa cidade, enterrara a sua fabulosa riqueza em Cananeia. Devo admitir, somente para você, meu amigo, que muitas vezes fiquei tentado a revirar os seus pertences pessoais em busca de um mapa, ou coisa que o valha, uma indicação qualquer da localização do tal tesouro, mas a honra ou talvez a covardia tenham me impedido de cometer ato tão vil. Vendo aquele homem alquebrado, apesar de inicialmente repugnante, jamais se poderia admitir que o desgraçado tivesse sido tão sanguinário e violento quanto ficamos sabendo depois, após a sua partida, quando as autoridades marítimas reviraram a nossa casa em busca mais do mapa do tesouro do que propriamente do pirata, o qual, apesar do estado lastimável, ainda inspirava horror aos homens da lei. Ou melhor, a quem quer que o visse. Ele era de origem inglesa, ou irlandesa, sei lá. De certo ou incerto é que seu nome, ou sobrenome, era na verdade Summers, ou Sommers, ou Shulmmers, de onde provavelmente adveio a corruptela Zulmiro. Conviveu ele conosco, partilhando do nosso teto e da nossa boa mesa, o tempo de três meses, sem que tenhamos nos indisposto com ele uma única vez. Nem ele conosco, e isso é o que importa, quando se trata de dar guarida a um pirata. Era, sem dúvida, isso é certo, de origem nobre: formara-se na escola naval de Sua Majestade. Após o jantar, era capaz de ficar horas a fio fumando o cachimbo, com o olhar distante, como se pudesse entrever o mar oceano através da parede branca da sala, sem dizer uma única palavra. Vim a saber, muitos anos depois, já adulto, que o cheiro característico do fumo que ele usava era beladona, uma erva de origem asiática, altamente venenosa. De outras vezes, o homem desatava a falar com meu pai sobre filosofia, religião e outros desvarios da humanidade, mostrando uma erudição digna dos melhores acadêmicos. Meu pai, homem humilde, de parcos conhecimentos, deixava-o falar à vontade, fazendo poucos apartes, algumas poucas perguntas, aprendendo muito mais do que qualquer outra coisa, que tal atitude é de bom alvitre numa conversação com piratas. Lembre-se sempre disso. Um dia, Zulmiro subiu com a sua pouca bagagem em direção a Curitiba e nunca mais entrou em contato conosco, deixando como recordação, ou por esquecimento, por talvez não lhe ser mais de precisão, esta Bíblia, a qual está agora aberta à sua frente. No quartinho lá dos fundos, ele costumava folheá-la todas as noites, à luz de vela. Veja como as páginas estão manuseadas, ensebadas, engorduradas, pelos dedos dele!
Relanceei os olhos pelas páginas da Bíblia, conforme meu bisavô a ia folheando, sem ousar tocá-la, como se estivesse diante de um sortilégio.
– Depois de muito tempo, chegou-nos a notícia de que Zulmiro morrera nas Mercês, num sítio, no tempo em que tudo aquilo lá ainda era mato. Dizem que enterrou o tesouro no Largo de São Francisco, onde existem umas antigas catacumbas. Ultimamente, surgiu entre a gente do mar a notícia de que os tesouros do pirata encontram-se escondidos em Trindade, a ilha mais distante do nosso continente, a 300 léguas da costa do Espírito Santo, entre o Brasil e a África. O que se sabe de certo é que esse tesouro tem levado à desgraça muitos homens, inclusive um certo farmacêutico paulista, bem conhecido dos seus pais. Você sabe muito bem de quem eu estou falando. Então, esse boticário alegava ter encontrado, em meio às páginas de um livro imprestável, num sebo atrás da Catedral da Sé, o documento com a localização exata dos saques de Zulmiro. Conta-se que esse farmacêutico foi acorrentado, sabe-se lá por quem, ou por que forças extraordinárias, ao rochedo solitário da ilha da Trindade, e que as suas vísceras, expostas, são comidas diariamente por cangulos voadores; refazem-se elas às horas mortas da noite para serem impiedosamente devoradas no dia seguinte por esses estranhos peixes.

terça-feira, 3 de maio de 2011

ÁTOMO DE CORAÇÃO MATERNO


por Edson Negromonte

Todas as vezes que deparo com Flash Gordon, seja nas maravilhosas pinceladas de Alex Raymond, seja nas nostálgicas imagens em movimento dos seriados da década de 30 e 40, encarnado pelo campeão olímpico de natação Buster Crabbe, lembro-me dela, a mulher que me pôs no mundo, a qual, muitos anos mais tarde, serviu-me de inspiração para a obra “Ela é Doida por Flash Gordon”, onde reproduzi seu rosto angelical, aos 20 anos (grávida, uma fita de veludo verde amarrando os cabelos loiros, uma blusa de algodão branco, ombros juvenis à mostra), sobre um intenso fundo azul. Ela serviu-me ainda de modelo para o retábulo “Seja Você também um Cadete da Aeronáutica”. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que assisti ao seriado do inesquecível personagem, ao qual os estudiosos afoitos atribuem erroneamente como o primeiro herói espacial dos quadrinhos. Esse privilégio pertence, na verdade, a Buck Rogers, uma criação de Dick Calkins.
O meu primeiro contato com Flash Gordon e a descoberta da televisão aconteceram ao mesmo tempo. Até aquele momento, esta grande novidade, pelo menos para mim, pertencia somente ao mundo da fantasia, da ficção, ou melhor, ao universo dos personagens de Walt Disney, particularmente às tiras de Chiquinho e Francisquinho, os sobrinhos do camundongo Mickey, onde o eletrodoméstico era objeto onipresente na sala de visitas. Deles, é claro.
Ao nos mudarmos da pacata São Francisco do Sul, em Santa Catarina, para a já agitada Niterói, na década de 60, uma das aquisições de meu pai foi o nosso primeiro televisor. À prestação, é claro, pois pertencíamos à classe média; ele era funcionário do Banco do Brasil. Evidente que essa maravilha do mundo moderno também ocupou o lugar mais nobre do apartamento onde morávamos, no bairro de Icaraí, a sala de visitas. As imagens em preto e branco sucediam-se vertiginosamente; tínhamos à disposição cinco canais, com a programação mais variada possível: desenho animado, filmes, séries, musicais, humorísticos e jornalismo, principalmente o Repórter Esso. Extasiados, assistíamos a tudo, indistintamente, inclusive aos comerciais, alguns em película, mas a grande maioria ao vivo. A minha sorte é que eu ia à escola pela manhã e a programação tinha início somente a partir do meio-dia, podendo assim deleitar-me com a variedade das ofertas televisivas, desde a hora em que voltava para casa até a hora de dormir, o que, naquele tempo, era muito cedo: as crianças iam para a cama por volta das sete horas da noite. Nos finais de semana, podíamos ficar até as oito. Quando meus pais iam dormir, eu, pé ante pé, escapulia da cama para assistir a antigas séries policiais americanas, como “Suspense”, “Nos Passos da Lei”, “Os Intocáveis”, “Na Corda Bamba”, “Peter Gunn”, “Cidade Nua”, entre tantas outras consideradas de temática adulta. Após o encerramento da TV Excelsior, à meia-noite, de posse de meu lápis preto, enchia folhas e mais folhas de papel em branco, desenhando as imagens do que vira: gângsteres, tiroteios, homens de sobretudo, mulheres fatais, graças a saudável insônia. Minha mãe conta que, aos três anos de idade, eu já tinha calo no dedo médio da mão direita, que até hoje me acompanha, de tanto rabiscar madrugadas adentro. Lembro-me da imagem dela, entrevista pela porta da sala de jantar, condoída com a minha falta de sono, balançando a cabeça e voltando inconformada ao quarto. Um dia, quando eu tinha 16 anos e já morávamos em Antonina, ela aprendeu uma simpatia, feita com uma folha de alface costurada entre a fronha e o travesseiro, que levou embora para sempre a minha velha companheira noturna, que me inspirava para, além de desenhar, escrever, ler, ouvir as vozes sutis dos fantasmas... Parafraseando o poeta Casimiro de Abreu: Ai, que saudade da insônia da minha vida.
Voltemos aos tempos niteroienses da descoberta da televisão. Havia, também, a TV Continental, a minha favorita, de parcos recursos, que exibia velhos faroestes do cinema, remontados para a televisão, como “Hopalong Cassidy” e “Durango Kid”, que não interessavam mais aos outros canais. Assim, meus olhos puderam despertar tardiamente para a novidade dos filmes mudos, para as esquecidas joias da sétima arte, guardadas no baú do tempo, como “O Fantasma da Ópera” e “O Corcunda de Notre-Dame”, com jogos apaixonantes de rembrandtesco claro-escuro, caras e bocas, olhos arregalados, a atuação característica de uma época em que o cinema ainda estava atrelado ao teatro, de onde viera a grande maioria dos atores. O grande atrativo nesse redemoinho que avassalava o meu ávido coração infantil eram os velhos seriados do cinema, principalmente “Os Perigos de Nyoka”, “Águia Branca” e “A Ilha Misteriosa”, mas foi “Flash Gordon no Planeta Mongo” que tocou profundamente a minha alma.
Como sempre, depois da escola, encontrava-me com o prato de comida sobre as pernas, em frente à TV, quando minha mãe veio da cozinha, enxugando as mãos pequenas no pano branco de prato, sentou-se ao meu lado e hipnotizada pela cena que, naquele momento, emanava do tubo de imagem, segredou:
– Esse é o Flásh Górdon... o imperador Ming, o terrível... a rainha Azura... o príncipe Bárin... a princesa Aura... O doutor Zarcóf... Larri Búster Crábe... eu era apaixonada por ele... não perdia um capítulo... todos os sábados... no cinema... depois, eu passava a semana toda imaginando como ele ia se safar do perigo... eu sonhava com ele.

terça-feira, 29 de março de 2011

O RETRATO DE JACK LONDON

por Edson Negromonte

Da ponta do trapiche, em frente ao Mercado Municipal, avista-se ao longe, em dia de sol claro e intenso, a cidade de Paranaguá, com navios cargueiros ao largo, à espera de um rebocador para conduzi-los através dos canais dragados até o cais. O grande drama de Antonina é essa lama que vai se acumulando na baía, conforme noticiado por Ermelino de Leão, em sua obra imortal, datada de 1918. Portanto, de muito tempo atrás vem a disputa entre as duas cidades portuárias pela riqueza advinda das cargas marítimas. O que é certo é que o desenvolvimento de Paranaguá aconteceu devido à incompetência dos homens públicos de Antonina, os quais, numa jogada política, puseram um parnanguara para administrar o porto, a sua única fonte de subsistência, ou seja, a raposa tomando conta das uvas. É a velha fábula de Esopo transcrita para a atualidade.
Quando aqui cheguei, no final da década de 1960, todos os antoninenses, independente da idade, lamentavam a perda da supremacia marítima, maldizendo os poucos navios, de procedência argentina e dinamarquesa, de baixo calado, que ainda se aventuravam, orientados por um velho rebocador, a enfrentar os canais sem dragagem, unicamente para carregar a madeira das nossas ainda fartas florestas. Várias companhias ainda resistiam heroica e impunemente à iminente ruína, como Sermara, Valente e, principalmente, a Matarazzo, cuja vila chamava a atenção pelos belos sobrados destinados à moradia dos trabalhadores. Foi neste porto que fiz os primeiros contrabandos de calça Lee e uísque escocês, inspirado pela leitura da biografia "A Vida Errante de Jack London", mormente pela passagem de pirataria de ostras. Assim, pensava eu, na inocência da adolescência, estaria cursando, às minhas próprias custas, a melhor escola preparatória para me tornar, na idade adulta, um verdadeiro escritor, imaginando que, em seguida, passaria também a viajar clandestinamente em trens de carga, enfrentando os cruéis guardas ferroviários, participaria de alguma corrida febril em busca de ouro, ouvindo o chamado selvagem, encontrando a filha das neves, sem deixar de me envolver em ferrenhas e incompreensíveis lutas políticas e, num futuro não muito distante, portador de uma invejável bagagem vivencial, estaria pronto a encetar a escritura das minhas rocambolescas aventuras. Assim, quase embarquei num navio dinamarquês, onde fiz amizade com os filhos do capitão, os quais me convidaram a seguir viagem com eles, como taifeiro. Meu pai não pestanejou em me emancipar para que eu pudesse embarcar, pois ele tinha servido a Marinha de Guerra durante dois anos e assegurava ter sido uma das épocas mais felizes de sua vida, conhecendo o Brasil de ponta a ponta, menos o Maranhão, onde não pudera descer por estar preso por insubordinação. Dois dias antes de embarcar, uma dor de estômago terrível tomou conta de mim e minha mãe suplicou que eu não embarcasse, que não a deixasse, ela ficaria muito preocupada em terra, assegurando que a minha saúde nunca houvera sido das melhores. O que sei e lamento até hoje é que o navio levantou âncora sem mim, que fiquei acamado durante um bom tempo, descortinando novas linhas do horizonte através das páginas encardidas de um grosso volume, em espanhol, sobre a cruel caça à baleia, emprestado pelo amigo Sven Andersen, um velho navegador. Nunca mais encontrei os filhos do Capitão Grant, mas recuperado dei continuidade ao tráfico de uísque, fornecendo produto da melhor qualidade para a granfinagem da capital. Como nunca fui bom comerciante, não fiquei rico, mas o lucro deu para comprar muitos livros mais e vários maços do meu cigarro favorito, Kent mentolado, além de poder emprestar dinheiro para os amigos e familiares sem a preocupação de recebê-lo de volta. Foi numa dessas investidas em busca de contrabando, na calada da noite, que travei conhecimento com o imediato sueco Nils, filho de mãe portuguesa, razão pela qual pudemos nos entender perfeitamente. Homem corpulento, de fala pausada e gestos curtos, que, com um sorriso largo, após horas de conversa, presenteou-me com um cachimbo feito por ele mesmo. Artesanalmente, não era grande coisa, pode-se dizer tosco até. Nossa conversa havia nos levado, aos poucos, entre tantos outros assuntos, à literatura, quando Nils, inesperadamente, remexeu no casaco, tirando de um dos bolsos uma surrada carteira de couro, cuidadosamente abriu-a e mostrou-me uma amassada fotografia, esmaecida e, falando mais baixo que o costumeiro, segredou:
– Guardo-a cá comigo, bem junto ao peito.
Olhei-a demoradamente, tentando identificar algo, um rosto conhecido, talvez o próprio imediato, ainda criança, junto à mãe, mas em vão (eram dois adultos, lado a lado, abraçados), quando percebi um misto de contrariedade e decepção no semblante do amigo.
– Quem são? – perguntei, então.
Sem responder à minha pergunta, Nils continuou falando mansamente, mas com vivacidade.
– Encontrei-o já idoso, numa das minhas viagens aos Estados Unidos da América. Este cachimbo que acabei de dá-lo a ti é uma réplica daquele que, na ocasião, ele fumava e que lhe havia sido presenteado por um esquimó.
A quem ele estava se referindo? Ao perceber a interrogação estampada em minha testa, fez um gesto elíptico e largo, tal e qual um vento alísio engordando a bujarrona.
– Jack London, Jack London! Repare bem na sua mão direita; o cachimbo está ali.
Para não faltar com a verdade, devo dizer que, antes de tudo, sou um crente, disposto a acreditar em qualquer patacoada dos homens do mar, matéria-prima das minhas escrituras. Mas, apesar dos esforços, não consegui ver nenhuma fisionomia conhecida, nem de Jack London ou de Nils, nem sequer um cachimbo na mão de alguém. Hoje, em idade avançada, essa passagem da minha adolescência remete-me lucidamente ao quadro de Magritte e, consequentemente, ao livro de Foucault, sobre a obra magritteana, "Isso Não é um Cachimbo".

gatos

por Edson Negromonte

gatos
são seres
de porcelana
às vezes
dão saltos
em direção
à lua,
a casa natal
mas, na maioria
das vezes,
deitam-se
ao sol,
esquecidos
de tebas
gatos
são
resquícios
de deus