quinta-feira, 27 de julho de 2017

MARIA AMÁLIA DURANT



Edson Negromonte


Vá querer entender as pessoas ao seu redor e você acaba escrevendo um conto. Ou uma crônica, sei lá. O que importa é deixar isso registrado, mesmo que não sirva para nada, mesmo que o tempo, esse devorador voraz de papéis, se encarregue de devolver a sua narrativa ao seu devido lugar. Ao limbo? Ao nada! E, justamente por isso, escreverei hoje sobre a poetisa Maria Amália Durant, tio Mario e meu pai, sem a mínima garantia de sobrevivência.

Se você vasculhar as enciclopédias e a internet, encontrará muito pouco sobre Maria Amália Durant, levando-se em conta o que ela significou para mim. Antes de sabê-la escritora, eu a vira a primeira vez no apartamento de cobertura de seu pai, o marechal Heliodoro, em Copacabana. E foi o que bastou para nunca mais tirá-la da cabeça. Ela era de uma beleza estonteante! Isto pode ser comprovado no anúncio dos cigarros Capri, publicado na quarta capa das revistas de maior circulação da época, incluindo a Realidade. Pode-se saber também que ela estreou com o livro de poemas “Embaúba”, de 1974, comentado por João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, seguido por “Canção do Motim”, de contos, publicado no ano seguinte, e que lhe rendeu o prêmio Jabuti. Após um hiato de quase dez anos, vêm a lume “Tigres na Varanda” e “Sob a Chuva, em Damasco”, ambos de 1984. Sabe-se ainda que participou da coletânea de contos eróticos femininos “Clitoridianas”. Maria Amália exerceu a diplomacia nos Estados Unidos, França e Angola, além de Carlo Domenico dedicar a ela o poema “Rubai Impaciente”.

Maria Amália era uma prima distante, em terceiro ou quarto grau, que fazia-se presente, sempre que podia, nas reuniões familiares. Todos a amavam, principalmente os homens; onde estivesse, podia-se contar como certa uma roda de cavalheiros ao seu redor, os quais riam muito das suas historinhas, por mais insignificantes que fossem. Ela magnetizava as atenções, e isso despertava a inveja das outras mulheres, principalmente a de minha tia Doralice, irmã mais nova de minha mãe. O rancor de tia Doralice chegava ás raias de desmerecer o seu livro “Embaúba”; o qual ela enviara, com dedicatória carinhosa, para os meus avós. Surpreendi-me com os comentários de que aquilo não era poesia, que era uma mixórdia de palavras sem nexo, querendo parecer inteligente, de que ela jamais vivera entre os gigantes krenakarore etc. Minha personalidade ressente-se da falha de se interessar por aquilo que os ditos bem pensantes insistem em ridicularizar. E qual não foi a minha surpresa ao deparar com uma poesia de alta voltagem, disposta em versos mallarmaicos. Ali, exatamente naquele momento de epifania, eu me apaixonei perdidamente por Maria Amália. Na ignorância dos quinze anos, eu desconhecia outras mulheres que escrevessem poesia. E a bela foto de Maria Amália, na orelha do livro, era um convite aberto aos devaneios de um coração juvenil, aflito pelo amor das mulheres um pouco mais velhas; a minha mais nova musa contava então 34 anos. E o que seria da poesia se as musas fossem possíveis?

Eu só pensava em Maria Amália. E eu que, depois da morte de tio Mario, me achava o único gauche restante na família, tinha agora companhia. E que companhia! Quando tio Mario, o meu exemplo de insegurança, era vivo, passávamos as manhãs conversando sobre poesia e poetas e livros. E sobre amores não correspondidos. Eu nunca soube que tio Mario tivesse escrito um único verso, mas ele era um leitor costumaz de poesia, capaz de recitar poemas longos de memória.

Minha cabeça girava à mais leve lembrança de Maria Amália, seu corpo esguio, o cabelo curto e loiro, o cigarro entre os dedos... Foi, então, que mamãe resolveu me contar sobre o romance de Maria Amália e papai. Meu pai era bancário, eterno auxiliar de escrita, era assim que ele ganhava a vida, era assim que ele abastecia a geladeira, mas o que lhe dava prazer mesmo era escrever novelas de rádio. Era assim, e somente assim, que ele sentia-se realizado, mesmo que seu nome não fosse pronunciado na abertura; papai era um ghost writer, e, mais que tudo, papai era um indivíduo canhestro, foi dele que provavelmente herdei essa inaptidão para a vida prática. Dele e de tio Mario, seu irmão mais novo. O banco não permitia que os seus funcionários tivessem outra ocupação profissional. E papai, conforme contaram seus colegas, além de engendrar as tramas mais aventurescas, dignas das melhores novelas cubanas, ainda fazia as vezes de sonoplasta, ou contrarregra, como era chamado na época esse profissional.

Papai era capaz de criar um temporal esfregando, próximo ao microfone, uma folha de papel celofane, ou um rio que corresse tranquilo em seu leito, agitando levemente as mãos em um balde cheio de água, ou um incêndio crepitante e devastador, amassando ritmicamente uma folha de papel sulfite, ou o tiquetaquear de um antigo relógio de parede, simplesmente batendo o lápis contra a aliança, para ilustrar a passagem do tempo. O grande sucesso de papai, na Rádio Clube Torres do Pilar, foi a novela de aventura “O Avantesma”, uma mistura bem-sucedida de dois heróis americanos, o Fantasma e o Sombra, com mais de 400 capítulos, que eletrizavam os ouvintes, com índices de audiência superiores aos da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Assim foi que Maria Amália caiu de amores pela sua figura esquelética e carismática. Assim foi que ele a ensinou a dirigir no seu Ford Prefect, o carrinho inglês pelo qual ele tinha o maior zelo. Não que papai fosse bonito, não era, mas era, como se dizia naquele tempo: um tipo. Maria Amália era uma adepta do existencialismo, era mulher de um tempo em que as mulheres apaixonavam-se pelo intelecto de um homem. Se não, como explicar Simone de Beauvoir e Sartre, e Jane Birkin e Serge Gainsbourg. E assim ela, que acreditava convictamente no amor livre, despediu-se de papai e mamãe, toda sorridente, sem culpa nenhuma, com ares de menina levada.

E, passados tantos anos, nesta manhã de inverno, de sol tímido, filtrado através de colossais folhas de bananeira, ainda posso ver tio Mario, quietinho, sentado em uma cadeira no quintal, aquecendo o corpo franzino, como se ainda estivesse no quintal da casa em Arequipa, no Peru, alheio a tudo, assuntando o carreiro das formigas. Percebendo-me, faz um sinal, pedindo que me aproxime. Então, segreda em meu ouvido, em tom confessional, como fazia quando queria comigo compartilhar, e somente comigo, uma das suas sublimes descobertas, uma das suas pequenas iluminações:

– O amor, como o conhecemos, como o conhece o homem moderno ocidental, é ficção, é uma invenção de Arnaut Daniel.

E isso, felizmente, me redime de todos os amores, correspondidos ou não. E a última vez que eu soube de Maria Amália, ela estava morando na vila grega de Oia, na ilha de Santorini.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

ADAM WEST ou O MENINO QUE TINHA MEDO DO BATMAN




Edson Negromonte

Agora que os órfãos de Adam West já o prantearam, tecendo-lhe as merecidas loas, é chegada a minha hora de chorar a sua morte. Sou assim mesmo, prefiro não reagir no primeiro momento. Tenho de deglutir, assimilar, para não falar ou escrever bobagens, sob o impacto da notícia; quando a recebi, através da TV, disse somente: – Ah, não!

Adam West foi uma personalidade, ou personagem?, tão importante na vida dos meninos ocidentais de meados da década de 1960, e da década seguinte, que jamais pude supor a sua morte, mesmo tendo a única certeza de que todos morreremos um dia, sejamos cidadãos comuns (e ninguém é um cidadão comum ou somos todos cidadãos comuns) ou heróis, sejam eles de papel ou televisivos, sejam eles históricos e reais. Sim, você sabe, estou falando do, para mim, ainda definitivo Batman. Os meninos dos anos 80 foram brindados com o espetacular filme de Tim Burton, baseado na versão de Frank Miller, no qual o homem-morcego recebe o título de “cavaleiro das trevas”, dando-lhe novo fôlego e ressuscitando o combatente do crime para uma nova geração, a qual, acostumada a atores marombados, tipo Schwarzenegger (Conan) e Stallone (Rambo), fazia pouco caso do físico de Adam West, referindo-se a ele como “aquele Batman barrigudo”.

A falta de informação dos meninos de 1980 não lhes dava a visão histórica de que, antigamente, os heróis não precisavam ser abrutalhados ou musculosamente deformados; à custa de esteroides. Basta lembrar que o Super-homem, o homem mais forte do mundo, em uma série clássica dos 1950, era vivido por George Reeves, que não era nenhum ser fora do normal, nem excessivamente espadaúdo. Mesmo o audacioso capitão Kirk, da série “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), aquele que ousou ir onde nenhum homem jamais esteve, tinha uma pequena protuberância abdominal. Outro personagem que me vem de imediato à mente é Jim das Selvas, vivido por um Johnny Weissmuller já maduro, com uma certa pancinha. Mas mesmo nos filmes em que o jovem Weissmuller vive Tarzan, o homem-macaco criado por Edgar Rice Burroughs, ele não era nenhum amontoado de bíceps e tríceps. Curiosamente, Johnny Weissmuller tinha síndrome de Down, a qual foi amenizada, por orientação médica, com exercícios de natação; ele chegou a ganhar cinco medalhas de ouro como campeão olímpico. Somente o incrível Hulk tinha permissão para ser grotescamente musculoso, interpretado por Lou Ferrigno, o Míster Universo de 1973 e 1974, fazendo valer a máxima “muito músculo, pouco cérebro”.

E o que um brasileiro contaria de novo sobre Adam West que os livros e sites americanos já não tenham contado e recontado à exaustão, e com muito mais propriedade? Que o menino Adam, aliás, William, este era o seu verdadeiro nome, por volta dos dez, doze anos de idade, ganhou do vizinho uma caixa cheia de revistas e que aquela que mais lhe chamou a atenção foi justamente o gibi de número 27, da série Detective Comics, cuja capa estampava o Batman em ação? Que, adolescente, Adam flagrou sua mãe na cama com o pastor da igreja local? Que o jovem Adam, em início de carreira, no programa infantil The Kini Popo Show, era o sidekick da estrela principal, um macaco? Que Adam West chamou a atenção dos produtores da ABC, quando o viram interpretando o sagaz capitão Q, em um comercial do Quick? Dito isto, a minha contribuição, como brasileiro, deve ser registrar, quase etnologicamente, como o personagem trafega no corrente cultural do País. E, também, nas minhas lembranças.

E, assim, na lembrança dos brasileiros, porque acredito, neste caso, que só falando de mim mesmo é que estarei falando do outro. Em 1969, no IV Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, o compositor Jards Macalé aterroriza a plateia com a música “Gotham City”, a cidade natal de Bruce Wayne, o alter ego de Batman, arranjada pelo provocador maestro Rogério Duprat, cuja letra de Capinam alerta “Há um morcego na porta principal’, uma metáfora para o horror que a ditadura militar, então no poder, infligia aos brasileiros, prendendo, torturando e matando aqueles que se insurgiam contra ela. A ideia inicial era soltar um morcego em direção à plateia, durante o refrão, mas, devido aos tempos bicudos em que vivíamos, com a polícia prendendo e espancando ao seu bel-prazer, acharam melhor não cutucar a onça com vara curta; teriam antecipado Ozzy Osbourne em pouco mais de uma década. Na literatura, o escritor Roberto Drummond , no livro “A morte de D.J. em Paris”, de 1971, se apropria do personagem pra escrever o conto “A sete palmos do paraíso”.

Meu primeiro contato com Batman foi, como não podia deixar de ser, aterrorizante: em um domingo de sol ,em Copacabana, o vento folheava, desvairado, uma revista do encapuzado, abandonada na calçada. Eu, menino apaixonado por quadrinhos, quando fui pegá-la, sou surpreendido pela figura do morcego, o logotipo do Batman, na abertura de uma das histórias. Temeroso das coisas do Além, tomei um baita susto com a criatura sugadora de sangue (e isso me remete oportunamente a “Nosferato no Brasil”, de Ivan Cardoso”. Onde se vê dia,veja-se noite), coisa que me fez arredio ao homem-morcego durante um bom tempo. Mas o espírito galhofeiro da série camp (eu nunca a vi assim, talvez porque a alma brasileira seja, em sua essência, legitimamente brega), me fez rever os meus conceitos sobre o personagem e o infundado horror que o Batman provocava em minha alma medrosa, até que, em um final de tarde, me atrevi a comprar o meu primeiro exemplar da sua revista na banca. Apaixonei-me para sempre pelo Batman. Tanto, que cheguei a trocar um álbum de 78rpm, da Aracy de Almeida, cantando somente músicas de Noel Rosa, por uma miniatura, da Husky, de 1966, do batmóvel, a qual está avaliada em aproximadamente mil reais. Tanto, que costumo atender o telefone de casa com a frase “Batcaverna, boa noite!”. A série também despertou meu amor platônico por Julie Newmar, a Mulher-gato mais bem-acabada e bem torneada de todas; incluindo Michelle Pfeiffer, e que, apesar de ter gravado todos os 120 episódios da série, cheguei ao cúmulo de gravar, com som original, aqueles em que ela atuava, só para ouvir a hora que bem entendesse a voz sensual da gatíssima Julie Newmar, ronronando: Purrrfect!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

AUTO DA FUGA PARA O EGITO




Edson Negromonte
ilustração: Candido Portinari


Na fuga para o Egito, José e Maria viram-se, então, na pequenina aldeia de Antonina, aos pés da Serra do Mar, banhada pelas águas do oceano Atlântico. De repente, o céu mostrou-se excessivamente escuro àquela hora do dia, prenunciando um aguaceiro daqueles. Ao entrarem na praça principal, as altivas palmeiras imperiais, seguidas pelos súditos tamarindeiros, se curvaram à sua passagem. Em frente ao coreto, José avistou uma bica. Matou a sede e, com as mãos em concha, levou um pouco de água para Maria; a travessia do deserto tinha sido árdua, expostos à sanha dos ladrões e ás feras.

– Que água boa, José! Com água tão boa e refrescante, o povo daqui há de ser hospitaleiro.

E Maria pediu um pouco mais de água para José. E José, sempre solícito com sua amada esposa, levou-lhe mais um pouco de água, em suas mãos em concha.

– Agora, vamos, mulher, em busca de abrigo para a noite que já está aí. Tens de dormir sob um teto hoje, para não põr a tua saúde e a do pequeno em risco, que ainda temos chão pela frente.

Assim foi que seguiram, José puxando o burro, e Maria montada no burro. E bateram à porta de um suntuoso palacete, situado na esquina da praça principal, no qual morava, nessa época, um poderoso conde.

A pesada porta foi prontamente aberta por um corcunda muito feio. O fâmulo, de aparência terrível, e que era uma corcova só, olhou os viajantes de lado, com o único olho são e remelento que lhe restava, e indagou:

– O que querem vocês à porta do meu amo?
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois eis que se aproxima um terrível temporal – respondeu José.

Antes que o grotesco serviçal destratasse novamente o casal, ouviu-se uma tosse cavernosa e a figura esguia e sinistra do conde surgiu à imensa porta do palacete. Ao avistar Maria, montada no burro, o conde, que não era bobo nem nada, respeitosamente lhe perguntou:

– O que levas aí, neste embrulho que trazes tão junto ao seio? E com tanto zelo?
– É o meu menino – ela respondeu.

O conde, então, disfarçou um leve enternecimento, aliás, estremecimento.

Ao ouvir tal resposta, o conde, que não era bobo nem nada, disse melífluo a Maria;

– Mil desculpas, mas não posso lhes dar abrigo. Sei que bem sabeis que me conhecem e conhecerão como Drácula, o conde Drácula, assim como bem sabeis que meu coração não é dos piores, mil perdões, mas o que alegaria eu ao meu mestre, o Senhor das Profundas, se vos desse acolhimento? Por certo que bem me compreendeis.

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite, o cheiro de terra molhada já se fazia presente no ar.

Assim foi que bateram à porta da casa paroquial, a qual ficava em uma outra esquina da praça principal, ao lado da igreja matriz.

Foram atendidos pelo coroinha, que chamou o sacristão, que chamou o padre, que chamou o bispo, que chamou o Papa.

– O que querem vocês à porta do nosso Amo? – inquiriu impaciente o chefe supremo da Santa Madre Igreja.
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois se aproxima um baita temporal, e minha esposa... – ia respondendo José, quando foi bruscamente interrompido pelo Santo Padre.

– Não, não e não, chega de caridade por hoje, nossa cota já se esgotou. Quem sabe, talvez amanhã!

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite.

Assim foi que bateram à porta de uma residência muito elegante, feericamente iluminada.

Foram atendidos por um mordomo elegantemente trajado.

– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?
– Eu sou... – ia dizendo José, quando um soldado raso botou a cabeça à porta, fazendo-lhe a mesma pergunta.
– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?

Ao que José começava a dar resposta, iam surgindo à porta, cada uma à sua vez, as cabeças do cabo, do sargento, do tenente, e assim por diante, conforme a patente mais alta, até que finalmente surgiu a cabeça imponente da esposa de um general de cinco estrelas, a qual, por sua vez, os interpelou:

– Quem sois vós, tão maltrapilhos, que vindes empanar o brilho de tão bela festa em comemoração à independência do País?
– Pedimos abrigo somente para esta noite, pois se aproxima um violento temporal... – respondeu José.
– Será possível que não vês que a casa está toda ocupada e não tem lugar para mais ninguém? Quem sabe, talvez amanhã!

E José e Maria seguiram caminho, em busca de pouso para aquela noite.

Assim foi que bateram à porta do banqueiro, do prefeito, do vereador, do funcionário público, mas estes não se encontravam em casa, pois estavam na festa em comemoração à independência do País, na qual estavam também os deputados, tanto estaduais quanto federais, os senadores, o vice-presidente, menos o presidente, porque não havia mesmo presidente, o País era governado por generais de cinco estrelas, os quais se revezavam e raramente apareciam em público, eles tinham horror mortal a cheiro de povo.

E José e Maria foram seguindo caminho, em busca de pouso para aquela noite, José puxando o burrico, e Maria montada no burrico, até que, no final de uma estrada que beirava o mangue, deram com uma humilde choupana.

José, então, bateu à porta da choupana.

Um homem atendeu à porta. Era moreno, atarracado e visivelmente embriagado. Sob efeito do álcool, para ver melhor, o homem apertou os olhinhos vermelhos. E, antes que José abrisse a boca, o pinguço foi logo dizendo:

– Entrem, entrem, que um chuvaréu se aproxima, e ninguém deve ficar exposto a um tempo desses. Muito menos o Menino!

O Menino? Ele disse o “Menino”. Foi isso mesmo que eu entendi?

E, assim, José, Maria e o antes menino, mas agora e para sempre Menino, e também o burrinho, entraram e encontraram pouso e abrigo na choupana do torrado. E, antes que José perguntasse, o bom homem foi logo se apresentando.

– Me chamam Tube e digo que minha casa seja a sua casa. Não é muito, mas é o que tenho.

Comovidos, José e Maria agradeceram calados, com uma inclinação de cabeça, que dizia muito mais que mil palavras. E Tube, que sóbrio já era falante, sob efeito da mardita, ficava loquaz e facundo.

– Como eu ia dizendo, a casa é humilde, mas que meu chateau seja o vosso chateau. A cama estreita é muito mais um catre que uma cama, e esse colchão velho é já uma enxerga, mas vocês podem nele repousar, que não há pior deserto na terra que o deserto dos corações humanos. E que o Menino durma sossegado nesse cocho de madeira, o seu bercinho improvisado. E que o burro procure também descansar, que é cansativa e fatigante a jornada ao Egito, pois, como bom e inveterado pudim de cana que tudo adivinha, sei também que vocês estão a fazer o caminho mais longo...

José mostrou-se, então, apreensivo com a língua solta de Tube; a viagem à cidade de Heliópolis, no Egito, era secreta, conforme ordenara o anjo Uriel, o encarregado do orbe do Sol. Mas nem o olhar de José para Maria e, em seguida, novamente para Tube, foi capaz de deter a verbosidade do pequeno hospedeiro.

– ... que passa por Hebrom e Bersabé, atravessa o deserto de Idumesa e entra no Sinai, passando por Antonina, em vez de margear o Mediterrâneo e atravessar a cidade de Gaza, a rota mais fácil, porém a mais perigosa, tomada pelos espiões de Herodes, o Grande.

José olhou incrédulo para Maria, em seguida para o burro e, novamente, para Tube.

– Eu tudo isso compreendi quando, ontem, borracho, como de costume, avistei pros lados do Faisqueira a estrela do Oriente. Agora, meus queridos, durmam em paz que eu vou ficar aqui guardando o fogo, para ficar quentinho para o Menino e para a mãe do Menino.

Vencido pelo cansaço, José deitou-se naquela cama pobre de dar dó, aconchegando-se em Maria, confiante de que estavam, sim, bem guardados pelo torto guardião. Então, pôde a chuva cair, como realmente caiu, sem dó nem piedade.

Depois da madrugada encharcada e enxaguada, o dia amanheceu radiante, de um sol esplendoroso. Mas ainda, nessa mesma noite, aproveitando que o burro acordara (como vocês devem saber, os burros dormem muito pouco, precisam de umas poucas horas de sono para aliviar o cansaço de um dia estafante de trabalho), Tube pediu-lhe que tomasse conta do fogo, que ele ia resolver um assunto e já voltava. Foi assim, então, que Tube roubou, pela segunda vez, o galo de Acrísio, o seu vizinho, e o preparou ensopado para que José e Maria tivessem o que comer durante a penosa viagem ao Egito.

– E tu sabes cozinhar, Tube?
– Tanto e tão bem que, no tempo em que morei em Santos, eu tinha a fama de ser o melhor confeiteiro da cidade!

Quando todos estavam se despedindo, um cachorro e um gato gaiatos apontaram na estrada. Chegando perto, os dois se apresentaram, com mesuras e salamaleques, como “a mais famosa dupla sertaneja da atualidade”.

– Gato e Cão, ao seu dispor! – ronronou o bichano.
– Cão e Gato, ao vosso dispor! - rosnou o cachorro.

Para comprovar os dotes musicais, sem que ninguém pedisse ou deles duvidasse, mais por exibicionismo, os dois foram logo entoando uma velha balada caipira. Entusiasmado, o burro entrou na melodia e fez um belo vocal que deu novo colorido à canção. Nesse mesmo instante, arrebatados pelas palmas de Maria, José e Tube, os três animais resolveram formar um trio. Mas o burro impôs uma condição somente: antes teria que levar José, Maria e o Menino, sãos e salvos, ao seu destino. O cachorro e o gato concordaram prontamente.

– Vamos juntos, todos juntos cantando, que é cantando que se leva a vida, e a viagem, assim, parecerá mais curta e menos árdua. Tudo que gente precisa é amor, e amor é tudo que a gente precisa!
– Assim é, se lhes parece! – disse um besourinho que estava pousado no chapéu de Tube e, calado, como testemunha dessa história, a tudo assistia, para poder contá-la às novas gerações.
– Posso dar um nome um tanto sugestivo, original e curioso ao grupo? Os Músicos de Bremen! Que tal? – disse Tube, com um sorriso.
– Ué, os Músicos de Bremen não eram em quatro? – perguntou-se, então, o leitor atento e perspicaz.
– E você ainda vai querer coerência nessa história? – respondeu o autor, perplexo.

Só mais uma coisinha, à guisa de explicação, para finalizar esse auto: o galo que Tube roubou do Acrísio, pela segunda vez, e cozinhou para a viagem de José e Maria ao Egito, era um galo mágico que, ao final da jornada, ressuscita pela segunda vez. Missão cumprida, o cachorro, o gato, o galo e o burro se reúnem e formam, afinal, o quarteto Os Músicos de Bremen e passam à história com os nomes definitivos de John, Paul, George e Ringo, que, muitos anos depois, passariam à tradição como o fabuloso quarteto de Liverpool. E a letra, prenhe de saudosismo, de sua música de maior sucesso, e que até hoje toca na Rádio Antoninense, diz assim: “When I find myself in times of trouble / Mother Mary comes to me / Speaking words of wisdom, let it be”.

E para arrematar de verdade essa tramoia toda, corroborando a sabedoria popular de que os anjos cuidam das crianças e dos bêbados, o arcanjo Uriel mandou gravar a fogo na porta da humilde choupana, na pequenina aldeia aos pés da Serra do Mar, banhada pelo oceano Atlântico, a estrela de Davi. E tendo dito como disse, afirmo, testifico e dou fé.