quarta-feira, 9 de agosto de 2017

REDESENHANDO A VIDA


Edson Negromonte

para o meu neto Dimitri


O desenho me acompanha desde a mais antiga lembrança de minha infância, por volta dos três anos de idade ou até menos. Desenhar era, para mim, vital, minha arma, um Colt.45 contra o mundo. Foi o modo que encontrei, intuitivamente, de não me desesperar com as longas noites da insônia que me acometeu durante toda a infância e parte da adolescência. Ainda posso ver, com muita nitidez, o menino debruçado sobre um caderno pautado, enchendo-o com garatujas, e a figura da mãe, encostada no umbral da porta, de camisola branca, a cabeça inclinada, penalizada com a insônia do filho. Ainda tenho nítida a mesa enorme,de tampo escuro, as oito cadeiras sonolentas e incomodadas com a claridade do lustre de cristal; mesa que, com o passar dos anos, foi ficando cada vez maior, tomando conta de toda a sala de jantar, dos outros cômodos, do solar onde morávamos, em Blumenau. Ainda guardo carinhosamente na memória o gabarito do contorno de um cavalinho, presente do meu avô materno, com o qual cobri, uns sobre os outros, folhas e mais folhas, preenchendo o contorno ao bel-prazer do meu traço infantil. Além dos cadernos, eu preenchia também as cadernetas de receita de minha mãe; uma dessas cadernetas, de capa preta, ainda rolava pelas gavetas de sua casa há alguns anos atrás.

Depois, em Niterói, para onde nos mudamos, no início da década de 1960, lembro-me de uma passagem com o quitandeiro da esquina, a uma quadra do prédio onde fôramos morar, no bairro de Icaraí, à avenida Vital Brasil. Para aplacar a minha fome insaciável de histórias em quadrinhos (nessa época, as bancas eram abarrotadas por gibis para todos os gostos, e eu queria comprar todos, desde os de faroeste, os meus prediletos, até os infantis), eu vendia vidro para o garrafeiro, que passava gritando o seu pregão pelas ruas do bairro, e as revistas semanais e jornais para o homem da quitanda, o qual pagava um preço melhor. Assim, uma revista Manchete, cuja capa estampava o general, então presidente da República, Castelo Branco, foi parar na quitanda. Folheando a revista, o quitandeiro encontrou um desenho que eu fizera da carantonha do general, o qual ele colou na parede que ficava às suas costas. Devia estar bem feito, pois, quando lhe perguntavam quem o tinha feito, ele respondia, todo orgulhoso e sorridente: “Eu mesmo”. Calhou de minha mãe estar presente em uma dessas ocasiões. Ela, prontamente, disse a ele: “O senhor está mentindo, esse desenho é do meu filho!”. E calhou também de eu, enquanto ela fazia as compras, estar folheando as novidades na banca ao lado. Ela, de imediato, me chamou: “Esse desenho é seu ou não é?”. Entre envergonhado e penalizado, resmunguei: Mãe, deixa o homem dizer que é dele. “Não deixo não, o que é certo é certo, e a verdade deve ser dita”. Fazer o que diante de tal argumento? Nunca esquecerei da cara de tacho do quitandeiro, por trás do vasto bigodão.

Também em Niterói, na saída da escola, eu costumava gastar um bom tempo na banca do meu amigo Bill, um adulto que conversava comigo de igual para igual. Lógico que a conversa só poderia girar sobre quadrinhos. Bill pedia sempre para ver os meus desenhos. Ele dizia que eu desenhava muito bem, e vindo de quem vinha o elogio, do Bill!, o dono de uma banca de aço, na esquina da escola, (Nossa!, esse era o meu ideal de vida: ser dono de uma banca todinha minha!), é claro que isso me deixava muito contente. Um dia, fui surpreendido com a proposta de que eu fizesse, no muro, ao lado da sua banca, o desenho de vários heróis, um mural. Bill garantiu que providenciaria o material necessário e que eu poderia desenhar os heróis que quisesse, desde que eu incluísse, entre eles, o Fantasma, o seu favorito. Sem problema, Bill! Assim, preenchi aquela parede, traçando com giz branco (depois, Bill faria o contorno e preencheria com tinta, em um autêntico trabalho de equipe), com as figuras do Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Texas Kid, Águia Negra, Mandrake, Black Diamond, Buck Jones, Ferdinando, Tarzan e, evidentemente, o Espírito que Anda ou Fantasma Voador, como também era conhecido o Sr. Walker.

Uma outra passagem da minha infância, de que gosto muito, é a que envolve a madre superiora da escola em que minha tia lecionava. A freira, conhecedora dos meus dotes artísticos, pediu que eu desenhasse uma história em quadrinhos, a qual ela deixaria exposta na escola. Na época, eu estava proibido de desenhar faroestes, o meu tema favorito, no qual eu me esmerava, caprichando nas cenas de duelo, nos tiroteios, enforcamento etc. Convencido pelos amigos e parentes, “preocupados” com a minha educação (uma outra tia chegou a vaticinar que eu seria um débil mental, de tanto ler gibis), meu pai tinha me proibido a leitura de histórias violentas. Logo as minhas favoritas. Sorte que não proibiu de assistir na TV as séries de faroeste, como Bat Masterson, Paladino do Oeste, O Homem do Rifle, Bonanza, nas quais morria gente a torto e a direito. Então, a pedido da bondosa freira, engendrei a mais violenta e inescrupulosa história com o pato Donald e seus sobrinhos, com tiroteio e pancadaria, que culmina com a expulsão, a pontapés, do tio Patinhas da sua caixa-forte, pelos sobrinhos, os quais se apropriam da fortuna do velho sovina. O último quadro mostra os sobrinhos tomando um merecido banho na piscina de moedinhas douradas. Então, ao perceber que, sem saber, eu estava enveredando, intuitivamente, pelo perigoso caminho do comunismo, meu pai suspendeu a proibição, acabando por me presentear no Natal, com vários pacotes, contendo todos os almanaques de férias que conseguira encontrar; e isso, naquela época, não era pouca coisa.

Outra passagem que gosto muito é a do caderno de Religião. A primeira folha deveria ser deixada em branco, onde poderíamos fazer um desenho, aqueles que soubessem desenhar (que merda! Eu sinceramente acredito que todos sabem desenhar, basta ter confiança em si mesmo e premeditar o traço seguinte, como o golpe de um samurai), ou colar uma decalcomania. Evidente que eu me esmerei no meu desenho, como todo moleque eu ansiava pelo aplauso dos mais velhos. O professor levou o meu caderno para o diretor, o diretor chamou o meu pai (ele exigiu que fosse o meu pai). Quando o diretor pediu a presença do macho da casa, eu já comecei a perceber que tinha cometido uma cagada qualquer na ilustração da primeira página do meu caderno de Religião. O resultado da conversa entre meu pai e o diretor foi a minha transferência para outro colégio. Inusitadamente, para um colégio de freiras. Ah, a ilustração? Tudo isso por causa de um desenho que mostrava um simples cemitério, com uma única lápide de pedra, na qual constava a inscrição “Aqui jaz Búfalo Bill”.

E, por ora, é só! Depois, eu conto mais.

6 comentários:

  1. Que legal!! Coitado do quitandeiro...que ideia mais louca!! Puxa, muito bacana esta Historia nesse tom confessional....parece que nós estamos lá na época, vendo as grandes bancas de revistas! Abraços!!

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  2. Seus comentários são sempre um presente, Jeff! Abraço!

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  3. Toda vez que leio seus textos me vem a mente "Em busca do tempo perdido", de Proust. Nunca tive o hábito de ler gibis. Gostava dos traços e estilos de cada autos. Uma menção honrosa para as revistinhas pornôs das fêmeas fatais, de Carlos Zéfiro.

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    1. "Em Busca do Tempo Perdido" é uma honrosa lembrança. Sim, o traço é um dos grandes trunfos dos quadrinhos, mas os roteiros de Al Capp, do "Ferdinando", são excelentes. Abraço!

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  4. Luiz tem razão...seus textos são proustianos! você já leu as memórias de Pedro Nava?

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  5. Li "Baú de Ossos", há muito tempo, e achei genial. Pedro Nava escreveu muito pouco, mas é imprescindível para a literatura memorialística do país.

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