quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A MALDIÇÃO DE IXIÃO

por Edson Negromonte
Euritião nascera centauro. Não que isso fosse novidade em sua família ou, melhor, em sua árvore genealógica, onde constam centauros que passaram para a história, como Abby, que pertenceu à trupe de comediantes de Eduardo, o Príncipe Negro, de Gales, no século XIV. Na verdade, Abby era mais que um centauro de estimação, funcionava como uma espécie de conselheiro. E Volon; seu esqueleto é exibido, como uma fraude, na Universidade do Tennessee. Também digna de nota é a cortesã Veronique Vertz, cuja poesia está hoje completamente perdida. Os pais de Euritião eram aparentemente seres comuns, normais, humanos, se assim se pode dizer. Tiveram o filho metade homem e metade cavalo, mas não se alarmaram com isso, já era previsível. Segundo o oráculo, Euritião seria o último dos centauros, mesmo porque a vida hodierna não comporta mais esses seres fantásticos; a imaginação do homem moderno está se tornando, a cada dia, mais árida, solo nada propício ao nascimento de centauros, os quais tiveram a origem terrível na conjunção carnal de Ixião com uma nuvem, enganado por mais uma das artimanhas de Zeus.
Os pais de Euritião, ajudados por uma psicóloga, sempre trataram o filho como uma criança normal, como se outros iguais a ele andassem por aí impunemente, pelo playground, na escolinha, quem sabe, até no mesmo prédio onde moravam. Mas isso não era verdade, Euritião era mesmo o último de uma antiquíssima raça de monstros mitológicos. Durante a infância, brincava com as outras crianças, levando-as na garupa, trotando, galopando, sob os olhares preocupados dos outros pais. Na adolescência, com o despertar do desejo sexual, as coisas se complicariam, mas a psicóloga, que já se tornara amiga da família, ajudou-o a superar as crises. O que importa saber é que Euritião, até onde isso é possível, levou uma vida normal: cursara Direito na PUC, era querido pelos colegas, apesar das piadinhas que faziam às suas costas, mas, assim pensava ele, tudo isso era normal, muito normal; afinal de contas, ele era um centauro, o último dessa espécie de seres, segundo a lenda, imaginários. De posse do diploma, conseguira um emprego no banco onde o pai era gerente; começou como escriturário, foi galgando degraus, um após outro, sem concessões, até chegar a uma chefia de serviço, em outra agência, para evitar falatórios de favorecimento. Depois que o pai morrera, Euritião foi se tornando, a cada dia, mais e mais recolhido. Sem o carinho, a compreensão, as reconfortantes palavras paternas, achou melhor pedir as contas no banco. Com a pensão deixada pelo velho, podia se dedicar em tempo integral às pesquisas sobre a importância do byronismo no Brasil, sempre postergadas. Com o advento do comércio eletrônico, dispunha de uma boa biblioteca sobre o assunto, abarrotada de volumes raros, amealhados pelos sebos do mundo todo. Precisava de todo o tempo disponível para levar a termo a tese. E, muito mais agora, que a sua mãe, Néfele, devido à perda repentina do marido, não saía mais da cama, necessitando de cuidados constantes. Assim, deixando de sair de casa, Euritião abandonara o convívio social, penoso após a morte do pai. No espaçoso apartamento de cobertura, na Avenida Paulista, Euritião podia trotar à vontade, pela manhã e à tarde (exercício necessário para que não se atrofiasse a sua bela musculatura equina), enquanto os vizinhos do andar de baixo estavam fora.
Quis o destino que, naquele início de madrugada, levado por uma insuspeitada insônia, Euritião deixasse a TV ligada, após terminar o jornal da meia-noite. Foi quando, no Programa do Jô, o entrevistador anunciou, com um estardalhaço inusual, a entrevista com uma grande atriz, criatura fabulosa no meio, um monstro do teatro, mas até então um nome desconhecido do centauro.
Tomado de curiosidade, Euritião puxou a cadeira para mais perto da TV. Sem entender bem o porquê, as propagandas, a vinheta, as piadinhas do apresentador lhe pareceram uma eternidade. Finalmente, ela foi chamada ao palco. Atravessou a plateia, desceu a escada, subiu ao palco, as ancas (que ancas!), para lá e para cá, num movimento harmonioso, os adivinhados seios, cobertos por uma faixa quase transparente de seda verde, os olhos negros, profundamente negros, os lábios, vermelhos, carnudos, um belo sorriso, a cabeleira negra, farta, descendo pelas costas desnudas, a pele de pêssego, em flagrante contraste com a pelagem avermelhada, as pernas, principalmente as traseiras, magníficas. Sim, era isso mesmo, seus olhos não o estavam enganando, ele não estava sonhando. Uma centaura, uma fêmea da sua espécie. Pela primeira vez, o auditório não soube como reagir; primeiro, um silêncio constrangedor, para, logo em seguida, explodir em palmas, à imitação do apresentador.
– Que mulher! – exclamou Euritião.
Sem despregar os olhos da tela, buscou na lista telefônica o número da emissora, pediu para entrar em contato com a produção do programa, no dia seguinte solicitou o telefone da centaura, educadamente lhe responderam que não podiam fornecer, ele disse que era também um centauro, que precisava conhecê-la, amor à primeira vista, começou a contar a sua história pessoal, que ele era também um centauro... Do outro lado, a atendente deu uma risada e desligou, achando que era trote.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

POE E O CORVO - Através dos Tempos

Numa madrugada sombria de 1845, o americano Edgar Allan Poe (1809-1849), um homem cansado de tantos problemas financeiros e familiares terminou o poema The Raven, marco da poesia moderna, publicado em janeiro do mesmo ano no jornal Evening Mirror. A partir dessa noite, poetas e escritores do mundo todo jamais seriam os mesmos, estendendo-se a sua influência também às artes futuras, como o cinema e os quadrinhos. No mesmo ano, Poe experimentaria o reconhecimento, por tanto tempo almejado, com leituras e palestras sobre a sua obra, principalmente este poema, tão estranho aos padrões da época. No ano seguinte, em 1846, a poetisa inglesa Elizabeth Barrett Browning, mulher do também poeta Robert Browning, muito famosa na época, escreveria uma carta para Poe, descrevendo-lhe a sensação que o poema causara entre seus amigos literatos: uma mulher, que tinha um busto de Palas, igual ao do poema, sobre a porta, não podia mais olhá-lo, ao entardecer, sem sentir calafrios. O quarto que Poe ocupava, com sua doentia prima e esposa Virginia, de 13 anos, numa casa de cômodos da rua Bloomingdale, fora realmente decorado pelo antigo inquilino como descrito no poema: janelas barulhentas, cortinas sussurrantes, pelo açoite do vento e, além de tudo, um busto de Palas nos umbrais. Ao cenário, Poe acrescentaria apenas a ave agourenta. Talvez o corvo fosse o seu alter ego, o seu duplo, o seu próprio espelho, verso e reverso, recurso tão caro à toda a poética poeana.
Originalmente, o corvo falante era um papagaio, ou talvez uma coruja. São flagrantes os resquícios da idéia inicial, quando Poe pergunta à ave pelo seu antigo dono, concluindo, devido à resposta nuncamais, que este bordão é somente a conversa de mestre infeliz em desesperada desgraça. Talvez, a ave de estimação de um náufrago. Logo, um papagaio, mas há controvérsias. Outros estudiosos vão mais longe e supõem a gênese do inusitado bordão em antigas brincadeiras de roda, que Poe ouvira, durante suas andanças pelos bosques próximos de onde morava. Durante, pelo menos, quatro anos, o poema foi rascunhado, rasurado, refeito, rarefeito, até que o poeta se resolvesse a publicá-lo. A origem de O Corvo encontra-se em outro poema anterior, Lenore, datado de 1831, cujo título remete à amada perdida, incluindo também o bordão never more. Curiosamente, uma vampiresca Lenora já aparecera, em 1773, no livro Lenore, de Bürger, autor alemão hoje esquecido, traduzido para o inglês por Sir Walter Scott, o autor de Ivanhoé. Publicado em 1796, um exemplar pode muito bem ter ido parar nas mãos do antenado Poe, assim como serviu de fonte inspiradora para os ingleses Byron, Polidori, Shelley e Mary Shelley. O merecido reconhecimento de Edgar Allan Poe, como um grande autor, ocorreu justamente entre os europeus. Além de Baudelaire, seu primeiro tradutor, dois outros grandes poetas franceses também se debruçaram sobre a obra de Poe: Stéphane Mallarmé, de Um Lance de Dados, e Paul Valéry, o autor de Cemitério Marinho.
Poe era tido pelos contemporâneos como um autor inspirado, o favorito das musas, coisa que muito o incomodava já que as pessoas não percebiam a matemática que havia por trás daqueles versos soturnos. Daí, escreveu uma obra prima da análise literária, A Filosofia da Composição (The Philosophy of Composition), para calar a boca dos críticos, incapazes de perceber o quanto há de transpiração na inspiração. A poesia de Poe é uma grande armadilha para os tradutores, com o excesso de aliterações e anagramas, além da grande incidência da letra "L", do duplo "L". O ”L” duplo também está presente no sobrenome Allan, herdado do padrasto que ele tanto odiava e que Poe transformava numa aberração dentro da própria assinatura. Além da importância poética, seus contos inauguram o romance policial moderno, sendo referência obrigatória para qualquer autor contemporâneo que se preze. Até Conan Doyle tem o seu débito com Poe, através do personagem Monsieur Dupin, de Os Crimes da Rua Morgue, mais que evidente fonte de inspiração para o detetive Sherlock Holmes.
Em 1912, aconteceu a primeira adaptação de O Corvo para o cinema, com Muriel Ostriche. Três anos depois, o cinema mudo fez outra adaptação do poema para as telas, sob a direção de Charles Brabin, com Henry B. Walthall, no papel de Edgar Allan Poe, e Wanda Howard, em quatro papéis: a prima Virginia, a amada Helen Whitman, a perdida Lenora e um espírito. Esta adaptação do poema é, na verdade, uma biografia de Poe, baseada no romance The Raven - The Love Story of Edgar Allan Poe, de George Cochran. No ano de 1935, o poema seria novamente adaptado para o cinema, com direção de Lew Landers (Louis Friedlander): no elenco de O Corvo (The Raven), o eterno vampiro Bela Lugosi, no papel do médico obsessivo e a eterna múmia Boris Karloff como a sua vítima. Há ainda, nesta adaptação cinematográfica, elementos do conto O Poço e o Pêndulo, também de Edgar Allan Poe. Curiosamente, no ano anterior, Lugosi e Karloff tinham feito O Gato Preto (The Black Cat), baseado em outra história de Poe, que ainda tem no elenco outro grande nome dos filmes de horror, John Carradine, como um organista. Anteriormente, em 1932, Lugosi fizera Os Assassinatos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue).
Roger Corman, diretor apaixonado pela obra poeana, também adaptou O Corvo, com roteiro de Richard Matheson, em 1963, apresentando Vincent Price (Dr. Erasmus Craven), Peter Lorre (Dr. Adolphus Bedlo) e Jack Nicholson (Rexford Bedloe), além de Karloff, como o Dr. Scarabus, e Hazel Court como Lenora. Antes, Corman dirigira O Solar Maldito (House of Usher/Fall of the House of Usher, 60) e A Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, 61), adaptação de contos do volume Histórias Extraordinárias (Tales of the Grotesque and Arabesque). Ainda no cinema, o filme maldito O Corvo (The Crow, 94), de Alex Proyas, que levou Brandon Lee à morte, durante as filmagens, em que tiros de festim se transformaram em balaços de verdade. O músico de rock Eric Draven, que volta do mundo dos mortos para vingar a morte da sua namorada, é inspirado na ave de mau agouro do poema. Para não deixar dúvidas quanto à sua origem, Eric recita o trecho inicial do poema quando vai buscar as alianças roubadas numa loja de penhores. Outra adaptação cinematográfica, digna de nota, da obra de Poe é A Queda da Casa de Usher (La Chute de la Maison Usher), de 1928, sob a direção de John Epstein, cujo assistente é Luis Buñuel. Um primor é Annabel Lee, de George Higham, inspirado no poema homônimo de Poe, todo em stop-motion.
Na televisão, uma grande sacada é o corvo do relógio da série Os Monstros (The Munsters, 64-66) que só crocita: Nunca mais, nunca mais! Na série Galeria do Terror (Night Gallery, 70-73), uma criação de Rod Serling, um dos episódios tem o sugestivo título Disse o Corvo, Mais ou Menos (Quoth the Raven), com o ator Marty Allen no papel de um Edgar Allan Poe gordinho, que atira a pena contra o corvo gozador quando este lhe dá a rima correta para o final de um verso. Até S.O.S. Malibu (Baywatch) tem um episódio com o título Nunca Mais (Nevermore), em que uma figura estranhíssima, misto de múmia egípcia e Darkman, rapta C.J. (Pamela Anderson), chamando-a de Lenora, e fica recitando para ela os versos de Edgar Allan Poe para ela. A boate da série Maldição Eterna (Forever Knight), com o policial vampiro Nick Knight, tem o sugestivo nome de The Raven.
Mesmo o desenho animado têm o seu débito com o intrigante poema de Poe. Começando pelo clássico da Biblioteca de Desenhos Animados, O Corvo Atrás do Médico e o Monstro (The Bookworm Turns), onde ocorre a junção de Poe com Robert Louis Stevenson, autor do romance Dr. Jekyll and Mr. Hyde, que, no Brasil, recebeu o título de O Médico e o Monstro. As séries animadas Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice) e Tiny Toon têm Edgar Allan Poe e seu pássaro de estimação, como personagens, em episódios adaptados do poema. E Os Simpsons dramatizam o poema no seu primeiro episódio de halloween, Dia das Bruxas, com James Earl Jones, a voz de Darth Vader, narrando o poema, em off. Recentemente, surgiu na telinha Lenore, the Cute Little Dead Girl, estrelando uma apaixonante menininha de 10 anos, cercada de seres estranhos e apavorantes, uma criação de Roman Dirge, repleta de humor negro e baseada evidentemente no poema Lenore.
A música popular brasileira também se apropria desse poema ícone. A dupla Conde e Drácula transformou os versos de O Corvo na letra de uma pândega moda de viola, em meio aos arrulhos de uma singela pombinha. Seria a impossibilidade de se encontrar um urubu falante? Elis Regina, na década de 70, pelas ondas do rádio, cantava os versos da canção Como Nossos Pais, uma composição de Belchior: Como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho preto blackbird, o que se faz?/Blackbird me responde: o passado nunca mais.

POE E O CORVO - Uma Introdução

Miserável, o poeta americano Edgar Allan Poe finalizou o poema The Raven, fruto de quatro anos de trabalho, em 1844, pelo qual receberia a bagatela de dez dólares. Com certeza, nem ele, nem o editor sabiam a revolução que causariam aqueles 108 versos, em dezoito estâncias, número ínfimo para a poesia laudatória praticada na época. Já no ano da sua publicação, 1845, a repercussão foi tal que Poe, o quase mendigo que mal podia pagar o aluguel e sustentar a prima e esposa, e a tia, ao mesmo tempo, sogra, era chamado para palestras e recitais nos salões grãfinos do seu tempo, onde o ponto máximo era o momento em que ele recitava, com voz cava, fisionomia encovada, The Raven. Poe, contou, em vida, com admiradores de quilate, como o poeta inglês Robert Browning, além de Charles Baudelaire, o qual traduziu o poema para o francês. Tinha início, então, a saga das transposições do poema para as mais diversas línguas e linguagens. Stéphane Mallarmé também traduziria, em prosa, o soberbo poema para a língua francesa. Tanto Baudelaire como Mallarmé perceberam a importância das aliterações, dos contrários, dos anagramas, na poesia de Poe, buscando as devidas correspondências em sua língua, assim como ecos na língua original, quando never, espelho perfeito de raven, encontra o seu correspondente francês mais apropriado, na estrutura do poema, em rêve: sonho, delírio, devaneio. Outros tantos estudiosos se debruçaram e se debruçam sobre o poema enigma.
No Brasil, o romancista e poeta Machado de Assis, apesar dos parcos conhecimentos da língua inglesa, dedicou-se apaixonadamente a traduzi-lo, ciente da necessidade da sombra corvina no corpo poético nacional. Oscar Mendes e Milton Amado traduziram O Corvo; a grande sacada destes dois tradutores é a substituição da deusa grega Palas por sua correspondente romana Minerva, dando ao leitor brasileiro um anagrama quase perfeito para o nevermore original. O poeta concreto Haroldo de Campos traduziu somente a estância final, de alta voltagem, utilizando-se dos estudos do linguista russo, naturalizado americano, Roman Jacobson sobre o poema espelho, levando em consideração a grande incidência de dissílabos no texto original. No capítulo O Texto-Espelho (Poe, Engenheiro de Avessos), do livro A Operação do Texto, Haroldo expõe a problemática tradutória deste poema emblemático. Em dezembro de 1985, O Corvo ganhou uma tradução iconoclasta em Curitiba, por Antonio Thadeu Wojciechowski, Roberto Prado, Marcos Prado e Edilson Del Grossi, ilustrada pelo artista gráfico Miran, publicada no jornal Raposa. O poeta português Fernando Pessoa é o mais hábil tradutor dos sentimentos poeanos para a língua pátria, ele mesmo a sombra da sua própria sombra. Julio Cortázar, o maior representante do realismo fantástico e tradutor de Poe na Argentina, em Valise de Cronópio, no capítulo Poe: O Poeta, o Narrador e o Crítico, dá um enfoque esclarecedor para a sobrevivência não só da poesia, mas da obra de Poe, quando muitos dos seus contemporâneos já estão esquecidos: é tão profundamente temporal a ponto de viver num contínuo presente, tanto nas vitrinas das livrarias como nas imagens dos pesadelos, na maldade humana e também na busca de certos ideais e de certos sonhos. Na música, entre tantas adaptações, há a óperas inacabadas de Claude Debussy, La Chute de la Maison Usher e Le Diable dans le Belfroi, inspiradas nos contos The Fall of the House Usher e The Devil in tne Belfry. Como um reconhecido ícone pop (está na capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, de 1967, Paul McCartney e John Lennon também o citam na letra de I Am the Walrus, de Magical Mystery Tour, também de 1967, enquanto Lou Reed lhe dedicou, em 2003, o álbum duplo The Raven), Edgar Allan Poe é, hoje, mais que qualquer outro poeta americano, assíduo frequentador da Internet, com vários sites e blogs sobre a sua obra, vida e fofocas. É comercializada em Baltimore, cidade onde o bardo veio a falecer, uma cerveja chamada The Raven. Ave, Poe!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O CORVO

poema de Edgar Allan Poe
tradução de Edson Negromonte


Monotonia da meia-noite; meditava, cansado, a ler
No caro e curioso Volume de Arcana Sabedoria -
Cochilando, quase sono; súbito, de leve batendo,
Alguém gentilmente chamando, chamando à minha porta,
“É visita,” resmunguei, “batendo à minha porta:
Somente isso e nada mais.”

Ah, nitidamente me lembro daquele gélido Dezembro
E as brasas em agonia forjavam fantasmas no assoalho.
Ansioso pela manhã, foi em vão o consolo do canto
Dos livros pra parar o pranto - pranto por lembrar Lenora,
Rara e radiante mulher que os anjos nomeiam Lenora:
Inominável mais e mais.

E o surdo incerto sussurro de seda da cortina púrpura
Estremeceu-me - encheu-me de fantásticos terrores;
Fiz a frase para acalmar as batidas do coração
E repeti: “É um visitante pedindo entrada à minha porta:
Sim, é isso e nada mais.”

Logo minha alma fez-se forte; sem hesitar por muito tempo,
“Senhor,” disse, “ou Senhora, suplico seu perdão, imploro;
Mas, de fato, estava dormindo, você gentilmente batendo,
E assim fracamente chamando, chamando à minha porta,
Difícil, incerto ter ouvido” - aqui, escancarei a porta -
Escuridão, nada mais.

Âmago da escuridão perscrutando, ali sondando,
Sonhando sonhos que nenhum mortal ousou jamais sonhar;
Na quietude que tudo toca, silêncio contínuo inquebrável,
E o único som que se ouviu foi num sussurro “Lenora!”,
Sussurrei, e ecoou num murmúrio e retornou sem cor “Lenora”:
Mera lei e nada mais.

De volta ao quarto retornando, por dentro a alma queimando,
Logo ouvi de novo chamando, pouco mais alto, deve ser.
“Com certeza,” falei, “por certo, há alguma coisa na janela;
Vou ver de que se trata então e o mistério esclarecer -
Deixo o coração sossegar e o mistério esclarecer:
É só o vento e nada mais.”

Com grande tranco destranquei a janela, e, filho da fúria,
Embarafustou-se altivo o Corvo dos dias de outrora.
Nem a menor mesura fez; nem um minuto se deteve;
Porte de senhor ou senhora, empoleirou-se na porta,
Empoleirou-se no busto de Palas no alto da porta:
Justo ali e nada mais.

Um bardo de ébano burlando-me da doce fantasia, e sorrindo
Ante o grave e austero decoro e compostura -
“Apesar da crista raspada rente, tu és seguro e crente,
Horrível, venerável Corvo errante nos ermos da noite:
Diga, então, teu nobre nome é dos ermos de Plutão?”
Grave o Corvo, “Nuncamais.”

Espantou-me a deselegante ave, ao ouvir-lhe replicante,
Apesar de reticente - resposta pouco pertinente;
E há de concordar conivente, nunca nenhum ser vivente
Jamais foi abençoado com pássaro vidente sobre sua porta,
Bardo ou besta sobre o busto esculpido sobre a porta,
Com tal nome “Nuncamais.”

Cavo corvo encravado justo ali no plácido busto,
Toda sua alma nesta palavra, era uma forma de florão.
E nada além disso ele disse, doloroso dorso do riso;
E não mais que num murmúrio - “Amigos, todos se foram;
À aurora ele também irá, assim como todos se foram.”
O bardo bradou, “Nuncamais.”

Assalto ao silêncio por réplica, resposta, de pronta ciência,
“Sem dúvida, o que repete é só a refração de um refrão,
Conversa de mestre infeliz em desesperada desgraça
A vociferar feroz sua breve e brusca canção:
Endecha a irromper em bruna e breve e brusca canção
Nesse ‘Nunca - nuncamais.’”

Foi o corvo burlando-me de toda triste fantasia;
Sorrindo trouxe um coxim e sentei ali em frente ao bardo,
Ao busto, à porta; no veludo afundando, fui religando
Fatos, fantasia, buscando se o ominoso bardo de outrora,
Se o deselegante, lúgubre e ominoso bardo de outrora
Só crocita “Nuncamais.”

Ocupado conjeturando, nenhuma sílaba exprimindo
À ave dos olhos de fogo; no meu peito ainda a queimar;
Assim sentado adivinhando, a cabeça logo reclinando
Na almofada de veludo, à luz do lampião a volutear,
De veludo violeta, à luz do lampião a volutear,
Era ela, ah, nunca mais!

Tocou-me, então, um ar frio e denso, e, um intraduzível incenso,
E um frágil e fresco serafim, acima do assoalho, revoa.
“Desgraçado,” gritei, “por fim, Deus deu-te alento - recebes
Repouso - repouso e nepente às tuas lembranças de Lenora!
Prova, oh prova o doce nepente, e olvida a lívida Lenora!”
Aprovou o Corvo, “Nuncamais.”

“Profeta!”, falei, “ser odiado - ainda profeta, bardo ou diabo!
Que tentador ou tempestade lançaram-te a este lodo,
Desolação que tudo dana, terra deserta de encantos -
Retiro onde ruínas rondam - diga a verdade, imploro:
Há o bálsamo de Galaade? Há? - diga - diga, eu imploro!”
Cortou o Corvo, “Nuncamais.”

“Profeta!” falei, “ser odiado - ainda profeta, bardo ou diabo!
Pelos céus suspensos ao longe, pelo Deus que ambos adoramos,
Fala à minha alma que, sem calma, reclama, lá no distante Éden
Aplacar a saudade daquela que anjos nomeiam Lenora:
Rara e radiante mulher que anjos nomeiam Lenora!”
Cortou o Corvo, “Nuncamais.”

“É uma ordem, signo, vai-te!, vate das profundas!,” estridente,
“Volta à tempestade,” entre dentes, “aos ermos noturnos de Plutão!
Leva os truques que me distraíram, leva o azar de tua asa, só farsa!
Deixa-me à solidão que enlaça! Deixa o busto sobre a porta!”
Cortou o Corvo, “Nuncamais.”

E o Corvo, curvado, nem aflito, está sentado, está sentado
No pálido busto de Palas justo sobre minha porta;
E seus olhos semelhantes aos de um demônio a dormir,
E a luz do lampião tremulando, traduz sua sombra no assoalho:
E minha alma já sem flama, da sombra flutuando no assoalho
Livrar-se-á - nuncamais!

CHAPOLIM COLORADO

Mais ágil que uma tartaruga! Mais forte que um rato! Mais inteligente que um asno! Ele é Chapolim!

Assim começam invariavelmente todos os episódios da série de TV mexicana CHAPOLIM (no original, El Chapulin Colorado), imitando a abertura da série do Super-Homem, dos anos 50, estrelada por George Reeves: Mais rápido que uma bala! Mais poderoso que uma locomotiva! Capaz de transpor altos prédios num pulo só! Olhe lá no céu! É um pássaro? É um avião? É o Super-Homem! Só para os nostálgicos, a abertura da série do Homem de Aço continuava assim: Sim, é o Super-Homem, um estranho visitante de um outro planeta que veio à Terra, com poderes e habilidades muito além das conhecidas pelo homem! O Super-Homem, que pode mudar o curso dos rios caudalosos, vergar o aço com as próprias mãos e que se disfarça em Clark Kent, o melhor repórter de um grande jornal da cidade, enfrenta uma luta infindável pela verdade, justiça e bem-estar de todos.

Chapulin significa gafanhoto, em espanhol; na melhor tradição dos insetos com mania de herói, assim como o Besouro Verde e a Formiga Atômica. Não adianta ninguém espernear, o Chapolim é referência obrigatória no imaginário de várias gerações. Não há ninguém que eu conheça que não tenha assistido, mesmo “sem querer”, a um ou a vários episódios, para não dizer a todos, deste herói de roupa vermelha e amarela (até nas cores, ele imita o Homem de Aço), com um coração estampado no peito, com as iniciais CH. E para completar a indumentária, um par de anteninhas. Vale-se, como arma, de uma marreta biônica, a qual acerta não somente na cabeça dos bandidos, mas na de quem estiver por perto e, muitas vezes, na dele mesmo. Faz uso também das providenciais pílulas de Nanicolina, denominadas, em alguns episódios, de Polegarina, quando é preciso enfrentar malfeitores muito perigosos e em maior número.

Os seus bordões preferidos, lembrados por vários aficionados, depois de umas cervejas, são: Não contavam com minha astúcia!, Eu sempre chego a tempo!, Sigam-me os bons!, Suspeitei desde o princípio!, Meus movimentos são friamente calculados! e Se aproveitam da minha nobreza! E o melhor de todos: Palma, palma, não priemos cânico! Chapolim Colorado está aqui para ajudar no que for necessário!, enquanto se esborracha no chão ou em alguma parede ou em cima daqueles que estão em apuros, que, sem refletir, pronunciaram a senha para o surgimento do herói: E agora, quem poderá nos defender?

A série do Polegar Vermelho, como o Chapolim é conhecido pelos mais íntimos, teve início junto com outra, também famosa, a do CHAVES (El Chavo), em 1969. Ambas foram criadas pelo ator e produtor Chespirito, apelido de Roberto Gomez Bolaños, que interpretou tanto o Chapolim como o Chaves. As duas séries têm o mesmo elenco principal. Na série do Chapolim, ele é o único personagem fixo, em aventuras no faroeste, às voltas com piratas e tesouros, fantasmas, cientistas malucos que inventam o Extrato de Energia Volátil, criminosos empedernidos como o Tripa Seca. Na série do Chaves, além do personagem principal, um órfão que apareceu na vila e vive dentro de um barril, tal e qual um filósofo grego, em quem todos descontam suas frustrações, há a dona Florinda (a atriz Florinda Meza, mulher de Bolaños na vida real), mãe do bochechudo Quico (Carlos Villagran) e apaixonada pelo professor Girafales (Ruben Aguirre). Ela é especialista em deliciosos churros, que fazem a perdição do seu Madruga (Ramon Valdez). Todas as vezes em que dona Florinda e Girafales se encontram, ouve-se o clássico tema musical de “...E o Vento Levou”. Há, ainda, os atores Maria Antonieta de las Nieves (a personagem Chiquinha, filha do seu Madruga) e Edgar Vivar (o seu Barriga, proprietário da vila e o saco de pancadas do Chaves). Em tempo, Quico teve uma série de curta duração, devido à sua morte prematura. O sucesso das séries é tão grande que, aqui, no Brasil, gerou vários objetos de desejo, hoje disputados a tapa pelos colecionadores de tranqueiras, como um álbum de figurinhas, os gibis Chaves & Chapolim, e, Chapolim & Chaves, fantoches, disco, bonequinhos de plástico, sendo o do Chapolim o mais cobiçado de todos.