quarta-feira, 25 de março de 2015

SEU NASCIMENTO

Edson Negromonte

Naqueles tempos difíceis, contava-se uma piada que exemplifica muito bem o medo que a população sentia dos militares, fossem do exército, marinha, aeronáutica ou da polícia. Tinha-se medo até de cobrador de ônibus, se estivesse fardado. Eu, pelo menos, sentia; e muito. Tenho certeza de que outros também sentiam, mas hoje em dia não fica bem falar assim sobre coisas de uma época que fazemos questão de esquecer. Muitos arrogam-se valentes, mas heróis mesmo foram Carlos Lamarca, Frei Beto, Bacuri e Herzog. Desculpe, não acredito em herói vivo. Pois bem, não precisa ficar irritado, vamos à piada: estava um cidadão, sozinho, no elevador, quando entra um senhor, de terno e gravata, e displicentemente pisa no sapato do cidadão. Este olha timidamente para o outro, que, sem se dar conta, continua calcando o bico do sapato do coitado, cuja unha do dedão está encravada. Não suportando mais a dor lancinante, educadamente, olha de soslaio, evitando olhar direto nos olhos, que isso podia ser sinal de enfrentamento, o pobre homem pergunta:

– O senhor é militar?

– Não!

– É parente de militar?

– Não!

– É amigo de militar?

– Não!

– Então, faz o favor de tirar o pé de cima do meu, seu filha da puta!

Um dos personagens emblemáticos dessa época, mais espirituoso e menos grosseiro, é Ubaldo, o paranoico, uma criação do cartunista Henfil, publicado semanalmente na última página da revista Isto É. Numa ensolarada quinta-feira, fomos brindados, através do inconfundível traço caligráfico, com a seguinte tira: tendo que passar entre dois PMs e não podendo desviar para a outra calçada, pois isso seria uma atitude demasiado suspeita, logo, uma mais que evidente confissão de culpa (éramos todos culpados; pelo menos nos sentíamos assim, tal a brutalidade da ditadura), Ubaldo decide que o melhor é mesmo enfrentar a paúra que sente dos brutamontes. Assim, sem sair da calçada, ele passa "inocentemente", porém trêmulo, em meio aos representantes da lei e da ordem. No último quadrinho, depois do corajoso feito, Ubaldo aparece olhando envergonhado para o leitor, pois aos seus pés há uma denunciadora poça de xixi. A revista passa de mão em mão, provocando risinhos, ainda tímidos, depois risadas e, supremo gozo, desafiadoras gargalhadas, quando então olhávamos para os lados, em busca de possíveis espiões, infiltrados entre nós ou observando-nos, encostados no único semáforo da cidade, instalado no cruzamento da rua Dr. Carlos Gomes da Costa com a Conselheiro Alves de Araújo.

A sanha dos militares em busca de comunistas ou coisa que os valha era tão encarniçada, que, certa vez, policiais do Doi-Codi, a terrível facção da polícia política do Exército, desceu de Curitiba à esquecida Antonina, para averiguar a denúncia anônima de que um simpático velhinho, gozando de merecida aposentadoria, conhecido por todos como seu Nascimento, tinha na biblioteca de sua casa livros proibidos, como o "Manifesto Comunista", o tão falado e pouco lido "O Capital", de Karl Marx, vários volumes de Trótski, de Lênin, Engels e, entre tantos outros, o temido "Guerra de Guerrilhas", de Carlos Marighela, perigosíssimo manual de guerrilha urbana, adotado mais tarde pelos terroristas alemães do Baader-Meinhoff.

Como num conto de Kafka, sem nem sequer um mísero mandado, com a costumeira truculência, na calada da madrugada, arrombando a porta, os esbirros da ditadura invadiram a casa de seu Nascimento, que já estava tranquilamente dormindo. Tiraram o casal de velhos da cama, empurrando-os, dando porradas e chutes, pescoções, pontapés, esfregando na cara da mulher o negro cassetete como um falo disposto a violentá-la, enquanto encostavam na cabeça do marido o cano frio da metralhadora. Como se divertiam os homens da lei ao perceber o suor frio do velho encharcando-lhe a testa, como davam risadas infantis ante a dificuldade da mulher para pronunciar qualquer coisa, alegar inocência talvez, trêmulos os lábios finos.

Animais sedentos de sangue, os mantenedores da ordem revistaram a casa toda, cada canto, debaixo da cama, em cima dos armários, gaveta por gaveta, até dentro do fogão olharam, deixando tudo em desordem, um pandemônio, em busca de material de propaganda comunista ou até, quem sabe, um daqueles malditos guerrilheiros do Araguaia que buscavam refúgio nas casas de cidadãos aparentemente apáticos, quando depararam, na biblioteca do pequeno escritório, com uma denunciadora estante... repleta de autores russos.

Em meio a ameaças, cascudos, coronhadas, o cano do revólver na boca de seu Nascimento, o sangue escorrendo pelo pijama do velho, os olhos arregalados da mulher, o choro, o riso, eles confiscaram os "perigosíssimos" livros: a obra completa, em papel bíblia, do czarista Dostoiévski, mais edições raras, algumas até autografadas, do cristão Tolstói, que foram encontrados alguns dias depois pelos escoteiros, abandonados numa das curvas da Estrada da Graciosa. Praticando a boa ação diária, os orgulhosos meninos os devolveram ao dono. Agradecido, seu Nascimento foi pacienciosamente amontoando livro sobre livro na calçada em frente à casa e, sem mais nem menos, ateou-lhes fogo, sob a vista da incrédula população que amava os livros, embora não os lesse.

7 comentários:

  1. As "musas" do passado (os militares) já não inspiram músicas, poesias e crônicas neste mundo globalizado pois a truculência que sensibiliza o mundo cultural abandonou os quartéis e se encontra disseminada na guerra urbana do tráfico de drogas tupiniquim e no distante 'estado islâmico' , fatos que não inspiram mais o "cálice" de 'chico buarque de holanda' de nosso passado recente...

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  2. Belo e pungente depoimento de uma época ruim...muita gente foi perseguida por meras bobagens, pela delação do vizinho enciumado, por motivos os mais inconfessáveis!! E esse foi um tempo muito pouco passado a limpo....

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  3. Esse conto me causou mais horror que os seus contos de horror. Muito bonito, mas muito triste imaginar que isso realmente possa ter acontecido. :(

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  4. Na época dos militares imperando (1967/1970) eu era um simples universitário perdido na imensidão de São Paulo, passando necessidades e, por vezes, até fome..... Lutava pra viver precariamente, 'caçando' algumas aulas de língua portuguesa em colégios particulares.... Morava 'de favor' numa república de estudantes. Dormia no quarto da empregada, com vão de ventilação, sem janela, num sofá velho e esfarrapado.... Quando chovia, a névoa da chuva molhava o meu travesseiro... Fazer o que? Não tinha outro jeito..... Nessa época, o "monstro sagrado" das esquerdas se chamava "JOSÉ DIRCEU", diretor do centro acadêmico da faculdade de letras da USP, na rua MARIA ANTONIA.... quando Ele passava, acreditava-se na presença de um 'ser superior'..... Naquela época, nunca poderia imaginar que aquele homem daria a bela porcaria que a gente conhece agora.....Gente desse tipo traíram o ideal e a alma de quem acreditava na justiça....Minha geração conheceu líderes que hoje são os traidores da probidade e da justiça...... Quando tiveram oportunidade, agiram muito pior do que os governantes daquele tempo (Adhemar de Barros, Paulo Maluf)... Transformaram o anseio de uma geração em oportunidade para escroques, pois hoje são as pessoas mais ricas do Brasil..... Eu não me aposentei como professor, e sim, como Advogado.. Mas o que ganho é dinheiro suado até hoje...... ..

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  5. Identifico-me como Pessoa que sempre leu as suas crônicas, pois testemunham um estilo firme e maduro em que a estética literária é realçada pela harmonia e concatenação lógica de texto.
    Já está na hora de seus escritos praticarem o transbordo, quero dizer, o único 'retrocesso' admitido a todos aqueles que tem competência:- gravar a própria escultura literária em livro e papel. Nesse dia, de meu ponto silencioso de observação, ficarei imensamente satisfeito pois a enciclopédia literária brasileira estará enriquecida..

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    1. Grato pelas palavras, são um grande incentivo. Abraço!

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