quarta-feira, 3 de março de 2010

ANTHONY QUINN EM ANTONINA


por Edson Negromonte

A figura corpulenta de Anthony Quinn estará para sempre colada nas paredes da memória, principalmente pelos filmes “Sede de Viver” e “Zorba, o Grego”. Neste, Quinn vive o personagem principal de maneira tão soberba que levou-me, curioso, a ler o livro homônimo de Nikos Kazantzakis, enquanto “Sede de Viver”, assistido na TV, no qual interpreta à perfeição o pintor pré-expressionista Gauguin, plantou nas células de minha incipiente educação sentimental o gosto pela vagabundagem e a pretensão às artes plásticas. “Sede de Viver” teve também o dom de despertar a busca pelo livro no qual tinha sido inspirado. Encontrei-o em Curitiba, sob o título “A Vida Trágica de Van Gogh”, ajudado pelo paciente balconista de uma pequena livraria, resquício de um tempo em que os atendentes desses estabelecimentos comerciais ainda tinham disposição para servir um cliente à procura de algo que nem ele mesmo sabia muito bem o que era. Devo ainda acrescentar que Van Gogh era vivido por Kirk Douglas, já que o holandês é o personagem principal, tanto no filme de Vincente Minnelli quanto do romance de Irving Stone, mas também não se pode dizer que Gauguin tenha sido mero coadjuvante. Outros bons filmes foram feitos sobre Gauguin, como “A Mente Selvagem”, com David Carradine, e “Um Lobo Atrás da Porta”, com Donald Sutherland. Também memorável é a atuação de Martin Scorsese, como Van Gogh, em “Sonhos”, de Akira Kurosawa. A perfeita transposição dos quadros para a magia quase tridimensional do cinema, principalmente “Trigal com Corvos”, é de deixar qualquer um de queixo caído. Como esses filmes e livros estão intimamente ligados a minha vida na cidade de Antonina, é justo que eu descreva agora a breve passagem de Anthony Quinn pela pequena aldeia litorânea, distante uns 80 quilômetros da capital paranaense.
Em julho de 1998, o diretor Ricardo Bravo viu a cidadezinha de Antonina como a locação ideal para o longa-metragem “Oriundi”, no qual Quinn interpreta o patriarca Giuseppe Padovani. No Brasil, este filme receberia o sugestivo subtítulo de “O Verdadeiro Amor é Eterno”. No elenco nacional, os nomes de Paulo Autran, Letícia Spiller e Paulo Betti. Mas o velho ator recusou-se peremptoriamente a botar os pés no lodo que há muito tempo se instalou na baía antoninense. A aparência atual das nossas águas negras é de meter medo até mesmo em quem, na juventude despreocupada, costumava nelas mergulhar, saltando do trapiche do mercado. Tanto a estrela bateu o delicado pezinho que a equipe se transferiu de mala e câmeras para o Pontal do Paraná, onde as águas eram aparentemente limpas, onde ocorreu o conhecido encontro de Quinn com a menina Maria Rosa, de 11 anos, que ele cismou de ser a reencarnação de um grande amor de uma de suas vidas passadas. Nós, os orgulhosos antoninenses, demos de ombros para a recusa de Quinn; já tínhamos no currículo urbano a presença esplendorosa de Irene Stefânia, mais Regina Duarte e Reginaldo Faria, em “Lance Maior”, sob a direção de Sylvio Back, exibido em 1968 (o mesmo ano da estreia nacional), no Cine Ópera, atual Theatro Municipal, o mesmíssimo prédio onde Back, ainda menino, despertou para a sétima arte, nos anos 40. Sem nenhum despeito, perguntávamos então um ao outro, em tom de galhofa: Antônio quem?
E para quem disser que a passagem de Anthony Quinn por Antonina é mais uma invencionice, basta ir ao Albatroz, para boquiaberto admirar uma foto na parede. Nela, pode-se ver o grande ator ao lado de Leônidas, vulgo Tata, o proprietário do restaurante no qual ele deve ter se deliciado com casquinhas de siri e bolinhos de camarão. Agora, com licença, que vou à caça de outro tesouro esquecido que os cronistas da cidade deixaram de registrar: a visita de Jackie Onassis à terrinha.

Um comentário:

  1. Muito bom!!
    Então Zorba ficou com medo do mangue?
    que maravilha
    muito bom seu blog, vou virar fregues...
    abraços

    Jeff Picanço

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