quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SESSÃO DE CINEMA


por Edson Negromonte

A movimentação dos atores em “O Gabinete do Dr. Caligari” é mais que uma coreografia, é um balé. Um balé de sombras cubistas. É aí, justamente aí que reside o medo, na perspectiva deformada à qual o homem tem que se adaptar se quiser sobreviver. Este filme expressionista é o retrato fiel e cabal do que se respirava na Alemanha no início do século 20, sob o signo da filosofia trágica de Friedrich Nietzsche: o medo do futuro. Quarenta anos depois, foi essa a conclusão a que o professor Ariovaldo chegou, após assisti-lo na vesperal de um sábado modorrento, no Cine Ópera, no outono de 1964. A partir daí, então, o rapaz dedicou sua vida a desgraçadamente colecionar sombras.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

SERENDIPIDADE ou A ARTE DE LIGAR AS DUAS MARGENS DE UM MESMO ABISMO


por Edson Negromonte

O ipê deita as flores amarelas na parte baixa do telhado da casa, visão digna da palheta de um pintor impressionista. Dando asas à imaginação, deleito-me a imaginar como Monet resolveria a problemática da leveza da cena que, no instante seguinte, pode muito bem ser dissolvida pelo vento sul que se anuncia. E o que faria Renoir, com a mão já trêmula e hesitante, o pincel amarrado aos dedos, uma extensão de si mesmo? Manet lembrar-se-ia, então, do brilho cegante do Rio de Janeiro, o sol integrando os objetos aparentemente separados entre si? Agosto vai a meio; e Debussy como resolveria tal questão em notas musicais? Apesar da beleza, tudo é transitório; sorte nossa que até as pirâmides do Egito se submetem às areias do tempo, corrosivas, lentamente corrosivas. O que restaria ao homem se tudo o que ele criou sobre a terra permanecesse?

E por que, em meio a esse enlevo, vem a Moura Torta à minha mente? Não, não a temo, somente gostaria de saber quando o homem começou a temê-la. Certamente, nos primórdios, ele a encarava com naturalidade, talvez nem mesmo chorasse os filhos que perdia. Talvez, no início do seu processo materialista, quando ele ousou pensar que Deus, ou a natureza, não proveria o dia seguinte, quando o homem ousou duvidar da bondade que impregna o Universo é que passou a temer a morte. Quando digo que não temo a morte, estou me referindo somente à minha própria morte, e não à passagem daqueles que amo. Apesar de acreditar na vida após a morte, ou melhor, não crer em vida nem em morte, lastimo até hoje a perda do cachalote, ele que era ao mesmo tempo meu pai e minha mãe. O vento soprará, como é do seu natural, e desfará a cena do telhado encardido salpicado de flores amarelas, mas a cena permanecerá em minha memória e talvez isso, somente isso, seja a eternidade: um momento de sublimação em que nos percebemos parte integrante da fugacidade da beleza, quando se passa do estado sólido para o gasoso.

E por que, em meio a essas divagações, enquanto caminhava, sou agraciado pela musa inspiradora com uma anedota certamente ficcional sobre um hipotético encontro, no início de 1961, entre Ernest Hemingway e J.D. Salinger, em que o autor de “O Apanhador no Campo de Centeio” saúda o maior escritor americano, com um gracejo que poucos compreenderiam: “Hemingway velho de Guerra”? A anedota só é possível porque, como os gregos antigos, eu acredito nas musas, principalmente Tália, como entidades possíveis de dialogar com os homens. As informações que adquirimos durante a vida, e que não são de uso cotidiano, são guardadas nos “arquivos mortos da mente” e, de uma hora para outra, quando necessárias, sabe-se lá por que razão, por que mecanismo mágico (traquinagem das musas?), são chamadas à cena para desempenhar um papel específico, dando-nos uma alegria fugaz, provocando-nos um sorriso irrevogável e, ao mesmo tempo, perecível, experiência que não conseguimos compartilhar com o outro, por ser uma anedota íntima, muito singular. Não que o outro não possa compreendê-la, mas porque só a nós diz respeito, somente em nós é capaz de provocar o sorriso inteligivelmente celeste, superiormente terrestre, proporcionado pelas musas. Quantas palavras tive de usar para explicar algo tão simples! E garanto que você sequer esboçou um sorriso complacente. Seria muito eu lhe contar que vi a cena: Salinger, com os braços abertos, a saudar Hemingway? Seria muito eu lhe dizer que foi proposital a grafia “Guerra”, com inicial maiúscula, em vez de simplesmente “guerra”, como seria correto? E, se é que você ainda tem paciência comigo, seria demais eu lhe contar que Salinger e Hemingway se encontraram durante a Segunda Guerra Mundial, em pleno campo de batalha? Ou em Paris, no Hotel Ritz? Esses lampejos são satoris, pequenas iluminações, que se ditas em palavras perdem todo o encanto. E não há nada de errado em usar a palavra satori, Salinger tinha interesse no zen-budismo. E Neil Gaiman, no livro “Os Filhos de Anansi”, associa a imagem do Buda a um limão. E se você estiver se perguntando o que isso tudo tem a ver com o ipê amarelo e o telhado da casa, eu responderia, sem cerimônia, sem medo de errar, tudo. E nada, num universo caótico em que tudo está interligado, mesmo que isso pareça só mais um clichê, entre tantos. Entretanto, não há como dizer de outra maneira. E você imediatamente pensa em física quântica, efeito borboleta e outras dimensões mais elásticas! Acertei? Quando o mundo ainda não era o mundo tal qual o conhecemos, se é que o conhecemos (“Não, ninguém conhece as coisas realmente, conhecemos somente as suas atualidades”.), quando o mundo não era nem mesmo o mundo dos tataravós dos nossos tataravós, um homem, um protótipo do homem, recém-saído das águas, sentou-se solitário em uma pedra em frente ao oceano e intuiu toda a sinfonia “La Mer”, que, muitos milênios depois, um compositor aquiliano, ao qual foi outorgado o nome secular de Claude-Achille Debussy, filho de uma nereida, no auge da solidão interior, a anotou nota por nota, a partir dos registros acásicos, aos quais ele teve acesso.

E esse protótipo do homem, sentado na pedra, diante da imensidão de água, que ele não classificou porque no alvorecer da humanidade tudo era um despropósito, esse homem que ainda tinha escamas, esse homem cuja respiração se fazia através de brânquias, ainda não tinha sequer concebido um dos seus mais primitivos arremedos de Deus. Nem de deuses. Esse homem era o seu próprio deus, até que o primeiro trovão ribombou no horizonte e um raio terrível rasgou o céu noturno em dois. E você acha que foi à toa que a uma enorme cratera do planeta Mercúrio foi concedido o nome de Debussy?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

NA TAVERNA DA VELHA HAQUB 3 ou O FILHO DE MARY LYNN


por Edson Negromonte

Apesar de grandalhão, o velho não era nada truculento. Seu coração era ver um coração de moça, se enternecia à simples visão de um bebê sendo amamentado no seio materno. O nariz torto e vermelho dava a sua carantonha a falsa aparência de um pugilista sanguinário. Não que nunca houvesse trocado sopapos, mas isto era para ele o último recurso, do qual só fazia uso como recurso extremo. Fazia de tudo para não ter que ir às últimas consequências, ou seja, surrar alguém. Sim, surrar; com ele, as pessoas sabiam que se começasse só pararia quando o adversário não pudesse mais se erguer do chão, estrebuchando. Os habitantes do vilarejo lhe queriam bem, mas queriam muito mais a si mesmos, às suas caras livres de hematomas. Quem o desafiava eram os incautos que chegavam ao nosso pequeno povoado e não podiam admitir que aquele gigante dócil, de voz quase feminina, não fosse provocado, ridicularizado e desafiado para passar o tempo que se arrastava, como sempre se arrasta o tempo nos ermos do mundo: lesma desfazendo-se em campo de sal.

O velho era o ferreiro de Dw Revhs, fabricava as ferramentas mais duráveis de toda a região, mas não abria mão do acabamento; era preciosista. Suas enxadas, pás e machados eram, sem sombra de dúvida, obras de arte. A lenda em torno dele, muitos anos após a sua morte, contava que tentara por muito tempo forjar uma espada encantada, com a qual ele presentearia o seu amigo pessoal, o comandante Golber, a eminência parda e idealizador do golpe militar que tomou o poder em Nusredmtap, por duas décadas. Contavam ainda que ele, o velho, possuía as anotações pertencentes a Merlin, com as quais o mago pessoalmente temperara a Excalibur do rei Arthur, mas isso é somente mais outra lorota em torno do velho; após a sua morte, eu mesmo vasculhei cada palmo da choupana onde morávamos, em busca dos manuscritos do mago. A ele, ao velho, atribuíam um conhecimento profundo das coisas misteriosas do Universo, que verdadeiramente ele não possuía; no mundo medíocre em que vivíamos, bastava saber um pouco mais que os parvos ou ser um pouco mais lunático que a maioria (e quem, a bem da verdade, não é lunático nesse mundo doido?) para que fosse apontado como sábio. Ou bruxo. Sábio ou bruxo, não importa, mais cedo ou mais tarde todos dois vão para a fogueira. Seu coração, sua capacidade de amar era enorme e faz-se necessário que se conte, para avaliação dos pósteros, essa passagem: na parede da nossa cozinha ele pendurara a foto de uma mulher de calendário, desses que ainda hoje são comuns nas oficinas dos ferreiros. E dos borracheiros. Lia-se no canto esquerdo da foto, o nome impresso de Mary Lynn. Ao perguntar-lhe uma vez quem era Mary Lynn, respondeu-me prontamente:

– É a sua mãe, este é o nome da sua mãe!

Depois de muito tempo analisando o quanto de verdade ou mentira havia nessa afirmação, já adulto, cheguei à conclusão de que aquilo não passava de uma necessidade do velho de preencher o vazio da figura materna que havia em meu coração, um buraco que carregarei pela eternidade. Minha mãe me abandonou aos seus cuidados antes de eu completar dois anos de idade. Durante muito tempo, acreditei que a pin-up Mary Lynn fosse minha mãe; era-me conveniente. Durante a minha infância e parte da juventude, eu pude dizer que minha mãe era uma das mulheres mais lindas do mundo.

Depois de fechar a oficina, com a chegada da noite, o velho fazia-me acompanhá-lo à taverna da velha Haqub, local onde os homens se reuniam para beber e contar histórias, fazer chistes, cantar canções obscenas. “Não há lugar melhor para a educação de um jovem”, asseverava. “Aqui”, ele cochichava em meu ouvido, “você aprenderá sobre os homens, as mulheres, suas grandezas e misérias, o mundo”. Seu sonho era que eu me tornasse o bardo oficial de Dw Revhs, garantindo assim a minha subsistência, depois da sua morte. Ingenuamente, acreditava que os poetas continuariam sendo mantidos e respeitados pela comunidade. Obrigou-me, então, a tomar lições de gramática com o venerável ancião DeKampesh. Desculpem o veneno, mas acho que o chamavam de venerável devido às doenças venéreas que pegara durante a Guerra dos Cento e Setenta e Seis Dias que, na verdade, durou cento e setenta e cinco. Logo, eu sabia mais das artimanhas e armadilhas da língua que o venerável; com o tempo, fui tomando gosto pelo estudo e leria todos os livros que enfeitavam as estantes do improvisado mestre-escola, o qual mais dormia do que ensinava, deixando-me à vontade para vasculhar a sua biblioteca, cujos livros até então tinham servido somente para lhe dar um verniz de respeitabilidade perante os broncos habitantes do lugarejo. Somente a aritmética não teve jeito de entrar na minha cabeça dura, até hoje não sei multiplicar. Dividir me foi sempre mais fácil, desde que eu ficasse com a maior quantidade, o monte maior. A inabilidade para as artes matemáticas foi o entrave para os meus pendores pitagóricos, mas a minha poesia, os versos de que fui capaz, mesmo que de pé-quebrado, ajudou-me a conseguir uma sinecura e, assim, manter o meu sustento, além de me deixar muito tempo livre para percorrer os sebos em busca dos livros que tanto amo.

Na taverna da velha Haqub, o velho deliciava-se com a cerveja farta, produzida a partir da fermentação da cevada-das-lebres. Era capaz, depois da terceira caneca dessa bebida intragável, de deixar rolar livremente uma lágrima sobre a face enegrecida e sulcada ao ouvir a voz aveludada da cantora Eli-zeth X., a qual ele se referia carinhosamente como Enluarada. Eli-zeth tentara, várias vezes, levá-lo para a cama, aproveitando-se da sua bebedeira, mas ele sempre recusou cortesmente os convites, apesar da quantidade de álcool no sangue; dizia que alguma coisa dentro dele se quebraria, um osso, um espelho, a quilha. A ele, bastava ouvi-la cantar. Entendia que não poderia viver sem o encantamento de uma musa: nesses momentos, a alma de poeta, que ele tivera de recalcar, falava mais alto. Eli-zeth tinha o frescor e o imediatismo da juventude, não conseguia entender por que aquele homem a recusava. Logo ela, que todos os machos de Dw Revhs e arredores dariam um braço ou uma perna para manchar de sangue os seus lençóis brancos. O velho jamais dormiu com Eli-zeth e nem permitiu que outros dividissem com ela o seu leito; ele a queria inconspurcada. Ele a queria divina, sem o pus dos homens. Achava que ela perderia a condição de porta-voz da Lua se se deitasse com alguém. Enquanto o velho viveu, tenho certeza de que Eli-zeth manteve a condição virginal. Depois da morte do velho, a sua protegida foi embora e nada mais soubemos dela, nem nos preocupamos em saber, porque quem vai embora do nosso vilarinho é como se morresse para sempre. Mas, outro dia, em um antiquário da cidade-mor, de propriedade do meu amigo Licurgo, encontrei em perfeito estado de conservação dois cilindros musicais, gravados por ela, para a Casa Alba, com as canções “Vem para os braços meus” e “Braços vazios”. Tentei seguir-lhe a pista, mas foram embalde todas as tentativas. Ninguém soube dizer algo concreto sobre a cantora Eli-zeth X., nem mesmo o grande pesquisador musical Ravoq Albinus, o qual compilou a mais completa enciclopédia sobre os rouxinóis da terra.

Até hoje, não consegui me refazer da morte do velho. Morte estúpida! Logo ele que enfrentara destemidamente o terrível inverno que a todos flagelara há tempos atrás para salvar da morte certa as cabras que alimentariam, com o leite amarelo, gorduroso e forte, as crianças do vilarejo. Logo ele que disputara com Porco-sujo uma partida quase interminável de pedras adâmicas, da qual saiu vencedor, evitando assim que o demônio instalasse uma franquia de fast-food em Dw Revhs. Logo ele... morreria de complicações advindas de uma doença que qualquer criança consegue superar, mais inofensiva que caxumba. Seu organismo preparado para enfrentar as mais nefastas adversidades do tempo e da vida, não produzira anticorpos suficientes para debelar uma prosaica febre do pântano.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

(SE EU FOSSE UM CISNE)...


Edson Negromonte

De repente, vi-me de volta à adolescência, quando eu vivia na casa de uma tia solteirona, com quem aprendi várias lições que me acompanharão pela vida toda, lições fundamentais para a idade adulta. Eu podia passar o dia como bem entendesse, ouvindo Pink Floyd, fumando um baseadinho, mas quando ela chegava em casa tudo devia estar em ordem, limpo, a louça lavada, a casa varrida, a mesa posta para o jantar. Depois da refeição, agradecíamos pelo alimento e, daí, ela desatava a falar, tomada por um espírito que tudo soubesse de moral e atitudes éticas, recitando de cor passagens do Velho Testamento, trechos de insuspeitados filósofos gregos, árabes, os quais ela não considerava hereges. Íamos dormir cedo, às oito horas, impreterivelmente. Na verdade, eu ia para a cama a essa hora, mas quem disse que conseguia conciliar o sono? Ficava a remoer as palavras terríveis da minha tia, sibilinas, as quais calavam fundo em meu coração ainda tenro, ficava também assuntando os ruídos dos bichos da noite, dentro e fora de casa, no sótão e na mata. Foi em uma noite dessas, eu estava a tentar discernir os sons de fora da casa, os quais eu julgava virem de uma mangueira centenária, próxima ao curral, mangueira que nunca dera manga, portanto, assombrada, quando fui me apercebendo de um choramingo humano, longínquo. Passei a prestar mais atenção, até ter certeza de que o choro vinha do quarto ao lado do meu. Corri, então, desesperado, ao quarto da minha tia. Ela chorava baixinho, sentada na cama, acesa a luz do abajur. Perguntei-lhe por que chorava, abraçando-a.

– Estou desempregada há várias semanas, tenho saído todos os dias em busca de uma ocupação qualquer para manter a casa... mas quem dá emprego a uma mulher velha? O dinheiro acabou e só nos resta vender o único bem que possuímos, a Mimosa.
– A Mimosa?!
– Sim, amanhã você irá à cidade para vendê-la.

No dia seguinte, rodei a feira, no mercado da praça, à procura de alguém que quisesse comprar a vaca por míseros mil reais, que não dariam nem para passar direito o mês.

– Ora, rapaz, quem vai querer essa vaca velha?
– Quanto você me paga para ficar com ela?
– Acho que eles estão te avacalhando, garoto, hehehe.
– Avacatueté? Hahahaha!

Cansado, amargurado, antes de começar o caminho de volta para casa, sentei-me à beira da estrada. Estava enrolando um cigarrinho do demônio, com o pensamento longe, quando acercou-se de mim um homem bem trajado, com ar de vivaldino, um finório, pode-se dizer. Sua proximidade me causou um arrepio na espinha, senti os cabelos da nuca arrepiarem, o que me fez ficar de sobreaviso.

– Eu venho lhe propor um negócio made in China, meu bom rapazola.

Permaneci em silêncio, segurando fortemente Mimosa pela corda.

– Troco a sua vaca por esses feijões mágicos. Pode pegá-los para se certificar se são mágicos mesmo. Você, de aparência tão inteligente, um ar tão sagaz, sabe certamente ver quando os feijões são feijões comuns, e quando feijões mágicos são verdadeiramente mágicos, não sabe?

– Ah, que essa história é tão velha...

O espertalhão depôs educadamente três grãos de feijão em minha mão. À primeira vista, não eram em nada diferentes dos outros caroços de feijão que eu já vira. Para não parecer mal-educado, olhei-os. Olhei-os mais demoradamente para não parecer ignorante. Palavra que os vi brilhar e rebrilhar ao lusco-fusco da tarde que caía. Logo, minhas convicções foram por água abaixo e a fantasia tomou conta dos meus pensamentos. Num átimo, comecei a me questionar onde começa a verdade e termina a mentira. Ou onde começa a mentira e termina a verdade. Será que o destino estava a sorrir para mim e eu, por superstições tolas, não estava a enxotar a sorte grande da minha vida? E da vida da minha pobre tia. Ela, tão boa comigo, que me tratava como um filho, não merecia que eu, por inépcia, a privasse de uma vida mais farta...

– Rico, você ficará rico com eles! – disse o homem, arrancando-me abruptamente das minhas conjecturas.
– E porque você, então, os está trocando por uma vaca velha, se esses feijões lhe trariam a riqueza? – respondi num assomo de desespero, utilizando-me do tênue fio de sanidade que ainda me ligava ao mundo real.
– Ora, meu rapaz, porque eu já sou rico, milionário. Não vê os meus trajes? É chegada a hora de passar adiante o motivo da minha fortuna, pois é assim que funciona a máquina do mundo. Como queremos manter a riqueza se não a dividimos com os irmãos necessitados que encontramos ao longo do caminho? Longe de mim a mesquinheza. Mas se não lhe apetece uma vida de fausto, luxo e riqueza, podendo ajudar as pessoas que lhe são queridas, devolva-me os meus preciosos feijões que hei de encontrar outro que por eles se interesse.

Foi o que bastou para que eu me decidisse a fechar o negócio, convicto da honestidade do cavalheiro. Não é sempre que encontramos alguém que, já enriquecido, esteja disposto a ajudar o próximo. Voltei para casa, todo contente, radiante, aos pulos. Pela primeira vez, eu tinha feito um negócio, e um bom negócio, excelente, que daria grande alegria para minha tia.

– Rico, finalmente rico! – gritei na estrada, para que todos soubessem. Imediatamente, percebi a grande besteira que tinha feito, os malfeitores estão sempre escondidos no vão das árvores à espera de incautos.

Ao chegar em nossa humilde casa, orgulhoso, um sorriso de orelha à orelha, postei-me diante de titia, a mão espalmada, onde reluziam os três feijões maravilhosos.

– O que significa isso? – perguntou-me a pobre mulher, olhos esbugalhados, a voz esganiçada: a ignorância é capaz de nos deixar aparvalhados diante do desconhecimento, diante da riqueza a espancar a nossa porta, pedindo entrada.
– São feijões mágicos, querida tia! Troquei-os pela Mimosa, com um bondoso...
– Ora, cale a boca, seu estúpido!

Eu nunca tinha visto minha tia tão irada. Deu-me um bofete e, ato contínuo, raivosa, atirou os feijões mágicos pela janela. Depois, surrou-me, como se eu ainda fosse uma criança. Fui dormir com o lombo quente, sem jantar, padecendo uma fome terrível. E eu que pensara muito mais nela que em mim, eu que só queria lhe dar uma vida mais folgada... Coimo é duro ser incompreendido.

No dia seguinte, percebi que não tínhamos realmente nada para comer. Nem mesmo pão duro, o qual titia tinha comido de madrugada, exasperada, sem deixar sequer uma migalha para mim, de propósito. De tão raivosa que estava, fizera questão de ignorar minha fome. Logo ela, que sempre me tratara como a um filho. Mas, conformado, não liguei para isso, meu coração é capaz de, sempre foi, compreender os atos impensados dos seres humanos na hora da raiva.

Lavei o rosto e olhei desconsolado pela janela. Foi quando avistei um enorme pé de feijão que se alongava verticalmente em direção aos céus. Estupefato, esfreguei os olhos e a visão prodigiosa não se desvaneceu. Tornei a esfregar os olhos, agora com mais força. O pé de feijão continuava ali, impassível, colossal. Se eu tivesse tomado um ácido, ainda vá, mas qual o quê. Chamei titia, desesperado, as pernas bambas.

– A senhora está vendo o mesmo que eu? – gritei, apontando para fora, pulando feito um macaco.
– Ora, deixe de sandice, menino! O que significa isso?
– Um pé de feijão que sobe em direção ao céu!
– Sim, isso eu estou vendo, apesar de não acreditar nos meus olhos. Como é que pode?
– Será coisa do Capiroto, minha tia?
– Beócio, não percebeu ainda que os feijões eram mesmo mágicos e que a história de João está se repetindo?
– Ah, então, dê-me o machado que vou cortá-lo porque, como disse Marx, a história só se repete como farsa...
– Estúpido, mil vezes estúpido! Idiota! – ela gritou na minha cara, esbofeteando-me. – É incapaz de perceber quando a sorte grande lhe sorri? Esse pé de feijão conduz certamente ao castelo do gigante, onde ele guarda a galinha dos ovos de ouro. E você vai até lá, para roubar essa maravilha dos contos de fada!
– Mas, titia... – tentei argumentar, usar da razão, como ela fizera comigo na noite anterior, mas ela me ameaçou novamente, agora com o punho fechado, como uma boxeadora. Achei por bem obedecê-la. E lá fui eu escalando aquela planta fantástica, depois de levar uns bons trompaços, para criar coragem, já convicto de que a história se repete, sim, contrariando o equivocado pensador alemão. As tias sempre têm razão, ainda mais quando fazem uso da força bruta.

A subida foi penosa. Cheguei à nuvem mais alta, bem perto do sétimo céu, onde se situa o castelo do gigante, no finalzinho da tarde, com um pouco de luz porque, como vocês devem saber, inteligentes que são, nas nuvens escurece um pouco mais tarde. Embarafustei portão adentro e logo me vi atravessando o salão do castelo, indo em direção à cozinha, seguindo as instruções de minha tia de que esquecesse as moedas e ouro e a harpa dourada, finitas, dando prioridade à “áurea e eterna poedeira”, segundo suas palavras. Ouvi, então, o inconfundível cacarejar de uma galinácea. Mesmo as galinhas que põem ovos de ouro fazem um escândalo dos infernos, nem mais nem menos que as penosas ordinárias. O ninho ficava ao lado do fogão, no qual a mulher do gigante cozinhava uma sopa assaz cheirosa, cujo adivinhado sabor aguçou mais ainda a minha fome de ontem, mas que me corroia como se fosse de anteontem. Como em um desenho animado, atraído pelo cheirinho inebriante do caldo grosso que a giganta preparava, descuidei e, quando dei por mim, estava aos pés da baita mulher.

– Ora, vejam só, o que temos aqui? Mais um dos ratinhos lá de baixo, que o gigante adorar comer fritinhos, os ossinhos torradinhos, croc croc.
– Por favor, não... – comecei a dizer, implorando pela vida.

Ela pegou-me rapidamente pelo fundilho das calças e ergueu-me diante dos olhos, como se eu fosse um camundongo.

– Já sei o que vieste buscar aqui: a galinha dos ovos de ouro. Certo? – disse, com um risinho zombeteiro. – Pelo menos, uma vez, a cada estação do ano, vem um dos teus amiguinhos larápios em busca dessa riqueza, desde que João deu com a língua nos dentes. Todos viraram tira-gosto para o meu marido. Mas você está com sorte, o gigante anda me batendo muito, espanca-me todos os dias, desde que arrumou uma namorada, uma guria mais nova; o trouxa está atravessando a crise dos quatrocentos anos. Ele vem para casa só para comer, a ninfeta não sabe cozinhar. Cansada de tanto apanhar sem nada dever, resolvi me vingar, só não sabia como. A tua chegada me deu uma boa ideia, vou ajudar-te a roubar a galinha encantada, o seu bem maior. Assim, o gigante será penalizado e quero ver que mulher vai querer aquele traste sem dinheiro. Ouça, já vem aí o gigante!

Imediatamente, a giganta enfiou-me decote adentro, escondendo-me entre os seios gordos e fartos.

Ao assomar à porta da cozinha, o brutamontes trovejou:

– Estou sentindo cheiro de menino!
– Ora, deixe de besteira, marido, você já deve ter comido todas as crianças de lá de baixo. Ou bebeu além da conta!
– Pare de tagarelar, mulher, e sirva-me logo esse caldo, que estou morto de cansaço e quero ir logo para a cama, se não quiser levar umas boas bordoadas.

Enquanto isso, eu permanecia ali quietinho, quase sem respirar, sentindo-me como Gulliver, colocado entre os seios suarentos das gigantescas cortesãs de Brobdingnag. Lembrei-me também do aventureiro de Swift cavalgando o bico do seio de uma das damas de companhia da rainha. Veio-me ainda à mente, nesse deleitoso momento de enlevo sensual, a sombra dos seios da giganta de Baudelaire. Foi, então, que, nesse torvelinho de imagens, um arrepio perpassou a minha espinha. Como não evocar os peitos assassinos de Chesty Morgan? Mas como o gigante era um perigo bem maior e certo, achei por bem ficar sem dar piti no meu sufocante esconderijo.

– Continuo sentindo cheiro de pirralho fedorento!
– Vai dormir que você ganha mais, gambazão, não há menino nenhum por aqui.

Logo em seguida, de bucho cheio, o gigante estava resfolegando, roncando que nem um porco capão. Então, a bondosa giganta trouxe-me à luz da vela que bruxuleava na mesa da cozinha.

– Aja com cuidado, aproveite a noite para levar daqui essa galinha; à noite, as galinhas encantadas não cacarejam.
– Dessa, eu não sabia...
– Você é jovem, há muitas coisas que ainda não sabe. Por exemplo, nunca traia uma mulher porque a mulher traída é capaz das maiores atrocidades.
– Mas você não pode ficar aqui, venha comigo! – disse-lhe, cavalheiresco, pois que, aos 17 anos, a intimidade e o calorzinho daqueles seios enormes tinham despertado em mim uma repentina paixão. Imagine que bela figura eu faria, rico e com um mulherão daquele.
– Não, eu devo ficar aqui para assistir a desgraça do gigante quando ele acordar e perceber que não tem mais a sua galinha mágica. Só não esqueça de, quando chegar lá em baixo, cortar o pé de feijão, para que o meu pobre marido não possa ir no seu encalço... Vá, antes que eu me arrependa!

Enfiei a galinha em um saco e despenquei pé de feijão abaixo. Ao chegar ao solo, apanhei o machado e cortei-o pela raiz.

Minha tia, como se pode deduzir, ficou radiante com o meu retorno, são e salvo. “Nossa vida de pobreza está no fim”, gritava ela. Só não acordou toda a vizinhança porque não tínhamos vizinhos, nossa casa era tão distante de tudo e de todos que posso dizer, sem medo de errar, que ficava no cu do mundo. E a vida de miséria acabou-se mesmo. Passamos a fazer quatro refeições por dia, incluindo o lanche da tarde, ou melhor, o chá das cinco, tal e qual nobres ingleses. E a galinha, tratada com a mais cara das rações, balanceada, enriquecida, ômega isso, ômega aquilo, tudo de direito, chegava a botar, algumas vezes, mais de um ovo por dia. Ouro puro, 24 quilates! Logo, estávamos morando em uma mansão na cidade, minha tia ia duas vezes por semana ao salão de beleza, pintar as unhas, o cabelo, fazer peeling, chapinha, academia, essas coisas de gente rica e desocupada. Titia deu um upgrade no visual, siliconizou os seios e o bumbum. Não posso dizer que tenha ficado bonita, mas como dinheiro chama dinheiro, acabou atraindo as atenções de um magnata da soja que por ela se apaixonou. Casaram-se em segredo e foram embora do país, desapareceram até da minha vista. Sabe-se lá para onde foram os dois pombinhos, se Bahamas, Miami, Las Vegas ou coisa parecida. Mas minha tia, precavida como ela só, levou consigo a galinha dos ovos de ouro, sem nem me avisar. Não posso dizer que a tenha roubado de mim, o que sei é que minha tia era de uma sabedoria salomônica: como repartir um ser vivo em dois e não matá-lo? Logo, para que não perdêssemos os dois, ela achou por bem levar a sua parte junto com a minha. Mas a sua bondade e preocupação com o meu futuro fez com que deixasse, para mim, um ovo de ouro, o qual eu soube administrar, vivendo modestamente: voltei à nossa antiga casa de madeira no fim do mundo, voltei a fazer uma única refeição por dia, porém substanciosa. O resto do dia passava comendo guloseimas, como jujuba e paçoquinha, para enganar a larica. Assim, novamente a vida me era risonha, eu não gostava mesmo da vida nababesca e ostentatória que passáramos a levar; o meu ideal de vida era mesmo passar o dia ouvindo Pink Floyd e fumando uma ganja. De minha tia, nunca mais tive a mais breve notícia, espero que esteja feliz, ela merece. Eu, por outro lado, depois que troquei no ourives a última raspinha do ovo de ouro que titia me deixou, tive, mesmo contra os meus princípios, que cavar um ganha-pão. Foi assim que fui parar na Johnston & Johnston. Durante muito tempo, dediquei-me de corpo e alma ao emprego, não cheguei a ganhar o prêmio de operário padrão, mas posso assegurar que estive perto disso.

Apesar da boa posição na multinacional, eu pedi demissão quando soube, através de um colega de trabalho, o qual, fiquei sabendo mais tarde, estava de olho no meu cargo, que o maior fabricante de fraldas descartáveis para bebês é também o principal fabricante de camisas de Vênus. Como pode isso? É, no mínimo, uma incongruência. Sou um errado mesmo nesse mundo de paradoxos. Não admito contradições, tornei-me um homem sério, graças à educação rígida que minha tia me proporcionou. Considero-me um paladino. Resultado: pedi as contas; eu não podia, de forma alguma, compactuar com tamanho absurdo. Estou novamente desempregado, mas acredito na boa-vontade de um amigo, que indicou meu nome para ser pastor na Igreja das Sacras Sementes de Tangerina dos Últimos Dias, uma das poucas instituições religiosas idôneas neste país. Enquanto isso, graças ao salário-desemprego, sigo pitando o meu cigarrinho de maconha e ouvindo Pink Floyd; Deus é pai.

If I were a swan, I’d be gone...

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O MENINO DO CHAPÉU DE SAPO


Edson Negromonte

Esta história que ora contarei é muito antiga, há muito tempo é contada e, durante muito tempo será contada, das mais diversas formas, nas mais variadas línguas e dialetos, por toda a eternidade. Essa história faz parte da natureza intrínseca da humanidade, seja nos primórdios de um tempo em que o homem ainda não tinha dominado o fogo e temia a escuridão da noite, seja em um futuro que nem o mais atilado dos perscrutadores divinatórios jamais alcançará sequer supor. Portanto, não atribuam a mim a sua autoria; eu a entrevi em um relâmpago momentâneo em que a mente diurnal cedeu espaço ao negror subjacente, como outros antes de mim perceberam, e outros mais certamente perceberão e a recontarão com suas próprias e lindas palavras, mais adequadas, mais refinadas, às gerações do porvir.

Esta é a história do Menino do Chapéu de Sapo, que vivia em estreita harmonia com o Universo. E o Universo, por sua vez, sentia-se gratificado por ter o Menino do Chapéu de Sapo em consonância com as forças cósmicas. As crianças, à imitação dos pais, quando o percebiam, aproximavam-se do menino e perguntavam, curiosas:

– Quem é você? De onde você vem?

– Podem me chamar de Menino do Chapéu de Sapo, como toda gente tem me chamado, vem me chamando, desde a aurora dos homens. De onde eu venho? Das brumas dos sonhos, essa região onde tudo pode acontecer e para onde vão as mentes cansadas dos homens depois de um dia extenuante de trabalho ou os corações exauridos de amores não correspondidos, ou talvez eu venha do sofrimento dos artistas incompreendidos que vêm antes do seu tempo para abrir as portas do amanhã para os contemporâneos. Venho da região à qual os homens vão em busca de lenimento para as suas dores. Eu sou aquele que às crianças é dado conhecer, na tenra idade, para que não esqueçam que, em seus momentos de amargura, na idade adulta, elas têm para onde correr, a quem recorrer. Eu ficarei gravado em suas recordações mais íntimas, embora disso não lembrem com nitidez, mas intuitivamente vocês seguirão, como buscadores, na noite escura de suas almas, a estreita estrada que leva ao jardim circular onde incessantemente desabrocham as rosas vermelhas da compreensão da missão de cada homem na terra. É necessário que, agora, brinquemos sem preocupação, pois somente uma única vez as crianças têm acesso a esse momento de folguedo, o qual deve ser e continuará sendo raro, uma única vez ele se manifestará. Mas não pensem que, por ser fugaz, esse momento deixará de ficar gravado em suas mentes: todas as vezes que um adulto desesperançado chegar à beira de um banhado e avistar um sapo, e ouvir o coaxar desse sapo, ele terá um vislumbre do caminho, da senda deveras estreita que o levará à compreensão da sua estada nesse plano terreno, à compreensão do Universo, do seu papel no grande esquema cósmico, se ele não se acovardar diante do espinheiro selvagem que obstrui o caminho ao castelo onde dormem os convivas da grande festa... Então, se esse homem ultrapassar todos os perigos, sendo o maior deles a sua própria descrença, descrença essa gerada pelo medo do desconhecido, ele não mais temerá o misterioso Universo porque ele é e será, como sempre foi, o próprio Universo, com todas as suas leis eternas e imutáveis, amorosas e maravilhosas. Eu, o Menino do Chapéu de Sapo, sou a marca indelével que se fará em seu coração de criança e que as pessoas, no dia a dia, no afã de a todos sujeitar à sua pequenez, farão questão de apequenar, de ridicularizar, até de me apagar, como se fosse possível, seja nas escolas, nos templos ou mesmo no seio familiar. Portanto, continuem brincando como se nada tivesse acontecido, como se eu fosse uma aragem que tivesse passado por seus corpos e, momentaneamente, apenas momentaneamente, os enregelasse. Eu sou a Morte que leva à Vida, à verdadeira Vida, à Vida que todos os homens, mais cedo ou mais tarde, terão de viver.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

EXCERTO DA VIDA DE UM PINTOR CUJO NOME NÃO MAIS INTERESSA


Edson Negromonte

Parecia um bando circense, aquela gente. Não que houvesse, entre eles, deformidades, os inevitáveis freaks, o que evidentemente chama atenção e faz que os associemos à trupe de um circo mambembe, desses que perambulam pelas cidadezinhas do interior. Mais porque aquela gente vestia-se com várias cores, esmeravam-se nas combinações, pareciam saídos do guarda-roupa de um teatro, mesmo o irmão mais velho, o qual era o responsável pela família, depois que o pai foi internado em um asilo, como insano, após atear fogo a um exemplar de O Tico-tico, autografado por Ruy Barbosa, por ordem direta do general-presidente Garrastazu, fã do Águia de Haia. A mãe das crianças era catatônica; as meninas da família eram as encarregadas de vesti-la e lhe dar banho todos os dias. Depois do asseio matinal, a mulher era colocada em frente à TV, permanecendo horas a fio exposta à programação da Globo. Fazia as necessidades ali mesmo, na poltrona, o que emprestava um cheiro nauseabundo de urina fermentada a todo o terceiro andar.

Apesar disso, era uma gente agradável. Pelo menos, para mim. Desde que a minha família mudou-se para o sobrado, depois que papai perdeu “as graças do mar”, eu me enamoraria de uma das meninas, mas o meu encantamento não era tanto pela beleza física de Maria do Rosário, a qual ela tinha de sobra. O que mais me seduzia era muito mais a combinação de cores das roupas que ela vestia. (Não sou hiperestésico, mas o meu senso estético me proíbe de olhar para alguém vestindo uma combinação de verde e azul, chego mesmo a ter ânsias de vômito). Até hoje, sou capaz de sentir prazer quando deparo, em algum momento do dia, seja em um outdoor ou em um desenho infantil, com as combinações primárias de amarelo, azul e vermelho. Um dia, ela vestia camiseta amarela e short vermelho. No outro, a camiseta era azul e o short amarelo. Ah, vermelho-da-China, amarelo-ouro, azuis celestes, em contraste com os cabelos negros de Rosário... E, assim, ela ia, sem disso ter consciência, dando asas à minha ainda incipiente teoria estética. O que mais me dava satisfação é que aquela gente não usava botões. Suas roupas simples dispensavam essas coisas horríveis que os homens primitivos inventaram a partir das singelas conchas do mar: os botões. Odeio botões.

Nosso caso de amor teve fim exatamente no dia em que ela apareceu, radiante, na escada entre o segundo e o terceiro andar, no primeiro dia de carnaval, usando um vestido branco que ela mesma confeccionara, cheio de botões, sem repetir cor nem formato. Botões em profusão pendiam desavergonhadamente, como despudoradas verrugas coloridas. Desse momento em diante, não pude mais sequer olhar para Maria do Rosário. Sou incapaz de precisar o início da minha ojeriza a esse artefato nojento que chamam de, bleargh, botão. A simples ideia de tocar em um deles leva-me à exasperação. A primeira lembrança do horror que os botões me causam leva-me aos três anos de idade, quando um vendedor bateu à nossa porta e, enquanto ele explicava a minha mãe a excelência do seu produto, um eletrodoméstico qualquer, eu não podia despregar os olhos da sua camisa, aliás, dos miúdos botões brancos da sua camisa azul-marinho, os quais se assemelhavam a minúsculos comprimidos que, em mim, provocavam intensa salivação. Comprimidos que eu não conseguia engolir, que se amontoavam em minha garganta, sufocando-me. E ninguém ali me socorria, todos ali ignoravam o meu suplício.

Nunca contei a ninguém sobre essa minha fobia; as pessoas normais são ávidas por levar alguém que, como um corpo estranho, destoa dos padrões aceitáveis para a vida em sociedade. E eu tenho muito medo de psiquiatras; para eles, todo mundo é, no mínimo, bipolar. E, hoje em dia, ser bipolar é quase um xingamento. E o que diriam de alguém que odeia botões? Recentemente, descobri que isso é quase uma doença, à qual deram o pomposo nome grego de koumpounophobia. As estatísticas, se é que se pode confiar nelas, dizem que a cada 75.000 pessoas, uma é koumpounofóbica. Mas esse desequilíbrio interno só veio a público depois que o magnata Steve Jobs, da Apple Inc., declarou, um pouco antes de morrer, em uma entrevista, que ele era portador dessa fobia. Mesmo assim, os koumpounofóbicos não vieram a público, continuaram mocozados. Não são bobos, sabem que só os famosos e bem-sucedidos podem ser excêntricos. Neil Gaiman, o espertinho, se utiliza, em “Coraline”, de sinistros botões pretos no lugar dos olhos para as criaturas do outro lado, a gente de um mundo paralelo. Ouvi dizer também que, em Curitiba, existe um artista performático que coleciona botões. Onde já se viu tamanho despropósito?

Foi assim, por causa dessa incompetência para a vida, o maldito horror a botões, que eu perdi para sempre Maria do Rosário, o grande amor da minha vida. E, o pior de tudo, é que ao lembrá-la, nas longas horas de solidão a que estou exposto, devido à minha ocupação profissional, a imagem que dela me vem à mente é justamente aquela em que ela está de vestido branco, forrado de botões coloridos, de todos os tamanhos e formatos. A minha profissão? Sou faroleiro. Com o tempo à minha disposição, medito muito sobre a estética de Miró, a teoria das cores de Goethe, a cor inexistente de Israel Pedrosa...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

VOCÊ JÁ EXPERIMENTOU?

Edson Negromonte

Na minha pequena cidade, à primeira vista, pode parecer que nada acontece, devido ao ritmo em descompasso com o restante do mundo. Mas isso é somente impressão de gente desavisada, como esses caixeiros-viajantes que só por pernoitarem em um lugarejo qualquer dizem que o conhecem. Para se conhecer uma cidade, por menor que seja, é preciso, no mínimo, uma certa intimidade, um não sei quê de amante. Mas para conhecê-la a fundo faz-se necessário que de tanto amá-la não precise mais nem oferecer flores, mas mesmo assim surpreender a amada com flores as mais singelas, roubadas de um oportuno jardim oculto no caminho. Minha pequena cidade tem um pequeno porto, que é por onde todas as coisas importantes, as coisas dignas de nota, chegavam. Para mim, continuam chegando. Nessa pequena cidade, eu sou eternamente adolescente, perambulo por ela a pé, de bicicleta e, às vezes, até batendo asas. Sim, na minha cidade, eu sei voar. Adejo, faço loopings, acrobacias, dou rasantes no oceano. Piruetas no ar. Sigo esvoaçando, olhando tudo do alto. Às vezes, pairo de leve, deixando-me levar pelas correntes de ar e, como em um desenho animado, desafiando as leis da física, para despeito de todos os outros seres voadores, alados, não só os pássaros, os anjos inclusive, viro de barriga para cima e deixo-me levar; um exibicionista.

Aconteceu que, em um final de tarde, morna, dessa mornidão que só as pequenas cidades à beira do mar sabem ter, eu pousei no atracadouro, na forma de um albatroz que vira em uma ilustração hipercolorida, em uma enciclopédia que já era antiga no tempo dos meus avós. Não, não um simples albatroz, como eu sei que você está imaginando, mas um albatroz-de-sobrancelha, de belo bico amarelo. E ali fiquei, a observar pontos indistintos no horizonte, até que um deles, em especial, chamou minha atenção. Este ponto foi se aproximando cada vez mais, lentamente, até que se deixou reconhecer como um barco, uma embarcação, que foi se aproximando mais e mais, crescendo mais e mais, chegando cada vez mais perto e, então, tornou-se um navio. Portentoso navio negro, de carga e passageiros. Como é costume entre os nativos da minha pequena cidade à beira do mar, eles acorreram ao cais para ver a descida dos passageiros, essa gente enfatuada, enfatiotada e enfastiada, como se fazem parecer os passageiros de um transatlântico aos olhos ingênuos dos observadores, daqueles que, no seu entender, vêm de terras as mais longínquas. Porque, para nós, tudo é distante, muito distante, já que o umbigo do mundo é aqui. Com seus indefectíveis pincenês, esses turistas aproveitavam o tempo ocioso entre o embarque e desembarque de carga, às vezes horas, outras vezes dias, para experimentar os sabores locais, como a bala de banana ou o bolinho de camarão. Ou um delicioso ensopado de bagre. Ou uma casquinha de siri, acompanhada de uma batida de maracujá. Para a noite, sopa de tartaruga.

Foi, então, enquanto eu, irrequieto, estava pousado na boia de sinalização, que vi descer do navio um conhecido, alguém que fazia parte da minha família eleita, alguém a quem só eu reconhecia: um negro de quase dois metros. A altura, a cabeleira despenteada, a imponência e o alheamento lhe emprestavam ares de príncipe africano. Aquela fisionomia... Sim, com certeza, eu já o tinha visto! Sim, nas capas dos discos e nas revistas de música. Com meu passo desengonçado, corri em seu encalço. Chamei-o: Jimi! Jimi Hendrix! Ele virou-se lentamente em minha direção, sem estranhar que um albatroz-de-sobrancelha soubesse o seu nome terreno, e pôs o dedo indicador nos lábios, em sinal de silêncio.

Naquele tempo, eu ainda era livre para o inusitado, álibi que somente a pouca idade nos concede. Como um gângster de filme americano, Hendrix carregava para lá e para cá, por onde ia, sem dele se desgrudar, o estojo de uma guitarra, o qual parecia mais pesado que o usual, como se portasse metralhadoras ou bombardeiros, napalms, gritos de dor, lágrimas, a pele dos inocentes se desgrudando dos corpos em chamas... Eu, em meu tenro desconhecimento da alma humana, perguntava a mim mesmo por que ninguém o percebia. E se o percebiam, percebiam através de um farfalhar diferente das palhas do coqueiro, fingindo ignorar o novo com uma estridente risada interna, silenciosa somente para quem ri. A arma das mentes comezinhas é o riso, mesmo que o riso silencioso, o mais perigoso, o riso covarde, o pouco-caso, assim como até hoje fazem as hienas da obviedade diante de uma tela de Picasso ou ante a fonte de Duchamp. Ou perante “Voodoo Child (Slight Return)”. Como aquela gente trabalhadora, acostumada a dormir cedo, ciosa dos seus princípios materialistas, suportaria a visão do príncipe negro acompanhado por um albatroz-de-sobrancelha? Hoje, com a idade, eu compreendo o mecanismo de defesa dos meus conterrâneos. Muitas vezes a ignorância nos livra do perigo de enxergar além do cotidiano; o cotidiano é confortável, dá segurança. O desconhecido nos lança em direção a mares habitados por seres fantasticamente perigosos. Foi, então, quando o sol começava a se esconder por trás das montanhas e o céu atingia um nível intenso de púrpura, colorindo a água do mar das mais diversas cores e tons, cores ainda inominadas, que ocorreu o milagre: sem emitir sons, Jimi Hendrix chorou. Debruçado na amurada, o príncipe negro chorava. E suas lágrimas, conforme caíam no chão, iam se transformando em morangos silvestres, pequeninos morangos silvestres, luminosos. Embora as crianças da terra não se deem conta disso, quando elas se deliciam com os deliciosos morangos silvestres, cujo sabor jamais se desgarrará das suas memórias de infância, elas estão inocentemente saboreando as lágrimas de Jimi Hendrix.

O que acabo de revelar é uma acontecência de meados dos anos 70 do século passado, quando eu ainda era um adolescente. Mas como (você dirá, fazendo as contas), se Jimi Hendrix morreu no final do ano de 1970, em setembro? E eu lhe direi, então, com toda a segurança de que sou capaz, que ele faleceu, na verdade, em 27 de novembro de 1942. O que vem depois é uma ilusão à qual nos apegamos para continuar uma vida que não é a vida propriamente dita, mas que, sem tal ilusão, morreríamos, se é que a morte realmente existe. Se é que tudo não passa de vida, somente vida, vida manifesta em outras formas de vibração, em planos que não discernimos pela impossibilidade de chorarmos morangos silvestres diante de um pôr do sol. Apesar de ainda longe, chegará o dia que todos seremos capazes de perceber essas nuances, assim como somos hoje capazes de compreender, não ainda de apreender, as sutilezas cambiantes da Nona Sinfonia, de Beethoven, a qual os seus contemporâneos diziam ser impossível executar, que aquelas notas não existiam, eram inalcançáveis, principalmente as do coral, que aquilo só podia ser obra de um surdo... Precisou, então, que a humanidade evoluísse para desfrutar a beleza que, naquela época, só Beethoven percebia.

Hoje, quando eu digo, com toda convicção, aos meus clientes que a minha delicada geleia de morangos silvestres tem origem nas lágrimas psicodélicas de Jimi Hendrix, quando de sua passagem pela pequena cidade de onde nunca saí, eles pensam que, no mínimo, estou fazendo blague ou, então, que sou mais um maluco.

– Mas, então, por que você deu o nome de Ingmar à sua fabriqueta? E não de Hendrix? Ou Jimi? – pergunta uma cliente.
– Bem, isso já é outra história! – respondo, com um sorriso.