quarta-feira, 6 de abril de 2016

A GAROTA ESCARLATE



por Edson Negromonte

Apesar do nome, a Garota Escarlate jamais quis ser heroína de quadrinhos. O que ela sempre quis, apesar da lonjura do ermo em que nascera, foi cantar em uma banda de rock e fazer tudo o que lhe desse na veneta, no palco e fora dele. Queria quebrar banheiros de hotéis e jogar aparelhos de TV do alto da suíte presidencial ou, num paroxismo de amor, afagar e afogar o guitarrista, o verdadeiro cérebro por trás de todo o marketing da banda, na piscina da sua mansão nouveau riche. Tudo isso ela fez. Tudo isso a deixava momentaneamente muito realizada, até descobrir sobressaltada, em uma rebordosa, que o mundo do rock é muito previsível. E quem suportaria, todas as noites, tirar num par ou ímpar consigo mesma se engravidaria de Marc Bolan ou de Jobriath. Nem sofreu, ou fez de conta, quando teve que abortar das entranhas o bebê diabo de um travesti chamado Alice Cooper. Cansada do mundo mesquinho das celebridades do rock’n’roll, achou que se sentiria mais feliz se fizesse o vocal de apoio de uma big band dos anos 30. Não mediu esforços para ser a melhor backing vocal de todas as backing vocals do planeta, chamando a atenção de um famoso band leader, que lhe prometeu o vocal principal. Dito e feito, mas logo ela, que jamais sonhara em atingir tão alto posto, só queria fazer um backinzinho, viu-se, de repente, de um momento para outro, tentada a voos mais altos que o de crooner de uma brilhante orquestra de baile. Estava pronta para a carreira solo, pensou, com a confiança e a ambição desmedida que uma carreira de cocaína desperta no mais pacato cordeiro. Tomou, então, de papel e caneta e começou a redigir a própria biografia, cheia de impropriedades, na grande maioria, fictícias. Assim, contou, em meio a sentidas lágrimas de crocodilo que fora violentada dos nove aos dezesseis anos pelo padrasto, com o consentimento da mãe. Contou também que abandonara tudo aquilo que conhecia como lar e pegara “um ita no Norte, para vir no Rio morar”. Desembarcara na então capital federal, entre atônita e maravilhada. Ah, a Cidade Maravilhosa, o porto fervilhante de vida. Ali mesmo, tomou a decisão de vencer na vida a qualquer custo. Ergueu a cabeça, arrebitou o nariz e imaginou-se de salto agulha, apesar de estar de alpargatas. Não, não foi fácil. E quem tinha dito que seria? Permaneceu no Rio, uma breve estadia, até compreender que as coisas legais estavam acontecendo mesmo era em São Paulo. Tocou-se para o bairro da Pompeia. Tornou-se uma superstar local, bem local. E quem podia ombrear com Rita Lee? Uma noite, quando tudo parecia bem, no banheiro, sentada na privada, enxugando a periquita, o tédio a tomou de assalto, apontou o tresoitão para a cabeça e rosnou: – A bolsa ou a vida! Jocosa, disse para si mesma, imitando o paroxístico poeta Torquato Neto: – Para mim, chega! It’s only rock’n’roll, e eu quero é mais, o que eu quero é rosetar! Voltou imediatamente para o Rio, botou uma papoula no cabelo, um vestido vermelho, de alcinhas, cheirou uma carreirinha, sopesou os seios e foi pedir emprego na famosa Orquestra Tabajara, de Severino Araújo; apesar de não jogar bilhar, tinha confiança no taco. Conseguiu ser aceita na Românticos de Cuba, o que, afinal, vem a ser a mesma coisa. Às vezes, cantava também na Metais em Brasa, que também vinha a ser a Tabajara com outro nome. Nesse exato momento, deveria ter início a lenda da Garota Escarlate, aquela que a todos amou e nunca foi amada, mas não, a vida segue caminhos muito tortos, os mais tortos. Chamou a atenção dos executivos das grandes gravadoras, que lhe ofereciam mundos e fundos se com eles se deitasse. A todos dizia, debochada: – Não, esse corpitcho só a mim pertence! Resultado: teve que esperar o advento do disco independente. Gravou o seu, com produção de Arrigo Barnabé. Vociferava o enfant terrible, eufórico, dedo em riste na cara de todos, que a Garota Escarlate era, seria, é a porta-voz do movimento musical que fervilhava nos porões paulistanos. Azar dos azares, fado dos fados, quis o Destino, esse moleque brincalhão e inconsequente, que, justo na noite em que a gravadora fizera a entrega do primeiro disco da Garota Escarlate, uma chuva diluviana inundasse o teatro Lira Paulistana. Recuperados os vinis, apesar de as capas terem virado mingau, nenhum deles tocava nada além de um ruído dodecafônico que atravessava todos os dois lados, tanto o A como o B. Alguns juraram, e juram até hoje, mas já sem muita convicção, que se pode, com muita atenção, ouvir um obstinado “Paul is dead”; outros, um contínuo “eu vou botar pra foder”. E, para contribuir ainda mais com o mistério que cerca o único disco da Garota Escarlate, uma comissão de colecionadores de vinis raros, vinda direto do Japão, comprou, a peso de ouro toda a prensagem e o máster. Não se sabe, até hoje, com que finalidade. Rola uma história evidentemente apócrifa que os discos estão todos guardados, a sete chaves, em uma sala secreta na biblioteca do Vaticano, à qual nem o papa Francisco tem acesso. E a Garota Escarlate? Continua viva e bem, conforme permite a idade de alguém que se consentiu todos os vícios e desregramentos da época. Bem de saúde física, que é o que importa. Depois de tudo isso, a cabeça da coitadinha deu um nó cego que nem Nossa Senhora Desatadora dos Nós desfaz. A todos os curiosos que a procuram, que dela ainda se lembram, invariavelmente responde: – I want to be Stallone!, achando-se a Greta Garbo de Irará. Sim, de Irará, porque ela mora no mesmo prédio de Tom Zé. São, inclusive, vizinhos de porta. Nas noites de lua prenha, pode-se ver o músico levando-a, a eterna Garota Escarlate, para passear, empurrando sua cadeira de rodas; os dois cantarolando "Minha menina Jesus, minha menina Jesus, valei-me". E se alguém deles se aproxima, um fã ou algo que o valha, os dois começam a rosnar e desaparecem em meio às árvores do passeio público, deixando no ar um odor fétido e maligno de butilmercaptana.

quarta-feira, 30 de março de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - final



por Edson Negromonte

Hoje, passados mais de 30 anos, é véspera de Natal. Estou em minha casa, ansioso, após receber um e-mail, avisando-me da sua chegada repentina, mas não inesperada. À mesa da cozinha, minha mãe aperta carinhosamente minha mão inquieta e diz-me para ter calma, cantarolando com sua voz doce e pequena:

O que tiver de ser, será, será; o que tiver de vir, virá, virá...

quarta-feira, 16 de março de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - parte 5



por Edson Negromonte

Eu e ela passeávamos pela cidade, pela mata ao redor, pelos céus de diamante, de mãos dadas, sempre juntos, dedos entrelaçados. Sob a garoa, cantávamos alto. Sob a chuva, bem mais alto. Nas tempestades, gritávamos em uníssono com a trovoada. Daí, então, nos calávamos; eram tempos de perseguição política, gente desaparecendo sem mas nem porquê, casas invadidas à luz do dia. E, mesmo assim cantávamos despreocupados, inocentes, aparentemente indiferentes (a felicidade é a mais subversiva das armas). A amantes irresponsáveis, nada aflige, quase nada lhes pode afligir. E como não ser irresponsável na adolescência?

– Sejam felizes, por favor, sejam felizes! – pedia, suplicava, implorava o sol às folhas da relva.

Ela era a minha parceira, cúmplice, amiga, era ao mesmo tempo pai, mãe, irmã. Decidimos que voltaríamos à ilha, lecionar para os filhos dos pescadores, numa escola que construiríamos com as próprias mãos, o suor misturado à massa. A paga do nosso trabalho viria em peixe, arroz, farinha, banana. Não precisávamos mais! As famílias, assustadas com a súbita resolução, uniram-se para nos dissuadir da brincadeira que estávamos levando demais a sério.

Naquela manhã, acordei e fui à sua casa, como de costume. A sua mãe e os irmãos olharam-me apreensivos e deram a entender, em meias-palavras, que ela tinha fugido. Eu não quis acreditar, procurei em todos os cômodos da casa, como se fosse uma brincadeira, uma brincadeira de mau gosto, até que um choro convulsivo acabou por tomar conta da minha alma e, finalmente, do meu corpo. Fôra abandonado! Disseram-me que ela tinha se ido, escondida no bagageiro de uma caminhonete. Como eu poderia viver sem a razão da minha existência? Na terra, são poucos os privilegiados que privam da convivência com um anjo, mais eu quis mais do que me fora oferecido e o Céu achou por bem tomá-la de mim. Levou-a durante a madrugada, enquanto eu dormia, tal e qual um desafortunado Rip Van Winkle. Ela sofria dentro de seu invólucro carnal; pois aos anjos é permitido voar e, como sempre dizia, ela queria voltar a ser somente uma luzinha lilás a saracotear entre as estrelas brilhantes. Passado já um mês, ouvi às minhas costas o familiar tilintar dos guizos. Era ela! Abraçou-me. Nesse momento exato, senti que o anjo tinha horrivelmente se transformado em um ser comum, de carne, sangue e ossos. Não retribuí, não pude retribuir o abraço; eu era feito da argila que, um dia, transformou-se também em carne, sangue e ossos. Ali, justamente ali nos separamos para sempre, embora eu soubesse, através de conhecidos, de quase todos os seus passos, que se mudara para a capital, casara, engravidara, que cantava numa banda de rock, descasara, que tinha uma escola de música... até que a vida, veloz como sempre, foi empurrando-me aos trambolhões em outras direções, afastando-me para sempre da sua presença.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - parte 4


por Edson Negromonte

No domingo, enquanto todos levantavam acampamento, eu só pensava em ficar vivendo naquela ilha, na ilha de São Bravo, no Arquipélago dos Atobás, com aquela família, para poder então ouvir todas as suas histórias, à beira do fogo, à beira da água, na areia noturna da praia enluarada. Roguei a Deus que os barcos naufragassem e que só eu sobrevivesse, que a maré me levasse de volta àquela praia, mas infelizmente a viagem de volta à realidade transcorreu com ventos favoráveis, velas infladas, a todo pano, enfunada a bujarrona. Sem o ser amado, eu não encontrei mais sentido, nem os livros conseguiam mais aplacar a minha ansiedade. Cheguei a imaginar que houvera sonhado, pois anjos não andam assim por aí, de cabelos ao vento e pés descalços. Mas a vida insiste em nos jogar de encontro aos rochedos da realidade. Confortou-me ler o poema de Goethe sobre o arco-íris branco, que o deixara quase cego. Assim, reconfortou-me saber que um anjo me dera a mão, conversara comigo e isso era uma das maneiras de Deus mostrar-me que a vida não é só aqui. Anjos não podem ser vistos quando bem entendemos; quando surgem à nossa frente, querem significar algo. E humanos não podem namorar anjos impunemente. Em seguida, alguém soprou-me ao ouvido sobre as visões angelicais de William Blake na infância, as quais sua mãe curou com uma boa sova. “É melhor que deixes os anjos em paz”. O medo do desconhecido afasta-nos da felicidade; há várias pontes a serem transpostas, mas a aparente precariedade faz que permaneçamos do lado que conhecemos e não cheguemos jamais ao outro lado do abismo.

Passaram-se os dias, as noites, semanas, o mês... mas a imagem diáfana não se despregava das paredes brancas do meu cérebro. Eu, pecador, quis aquele anjo para mim, para abraçá-lo, beijá-lo, mas tinha comigo a certeza dos malditos de que se voltasse a São Bravo não o reencontraria. A alegria foi voltando aos poucos, de quando em quando a imagem querubínica vinha-me à mente. Uma noite, sem esperar, deparei com ela sob uma frondosa mangueira que havia no fundo do quintal. O coração aos pulos estava pregando-me uma peça? Em dúvida, fui caminhando lentamente em sua direção e, num sorriso, seus braços abriram-se para me receber em seu seio. Beijei-a inicialmente na face, para em seguida colar meus lábios aos seus, sem a preocupação de que fosse uma entidade de mundos outros. Palavras quiseram vir à boca, mas nossos lábios uniram-se novamente. Contou-me, então, que a família estava se mudando para a cidade, a mãe decidira que os meninos voltariam a estudar.

Alguns dias depois, a família instalou-se numa casa próxima à minha, com um quintal em frente onde a menina cantava, a plenos pulmões, para as flores brancas da laranjeira, para os pardais, às formigas, para as lagartixas, canções como "Rita Jeep" e "Eleanor Rigby". De vez em quando erguia a cabeça para o céu e entregava a sua dança, ao tilintar de guizos, amarrados nos pulsos e tornozelos, às nuvens, ao azul, às sílfides, às fadas e duendes, a Deus, ao plano de onde ela emigrara. Era perceptível toda a banda do Sargento Pimenta, completa, acompanhando-a com guitarras, cornetas, bumbos e tambores. Um dia, até o flautista de Hamelin veio acompanhar a parada. De outra vez, o Chapeleiro Louco promoveu um chá das cinco especialmente para ela. Ou seria um chá das seis? (Era horário de verão!) Todos riram à larga quando o Ratão do Banhado saiu de dentro da chaleira. Éramos inseparáveis, passávamos juntos toda a possibilidade das horas. Ela levava-me pela mão para ver um pequeno cogumelo que crescera num tronco podre, após uma chuva torrencial. Com um sorriso maroto, mostrava a joaninha no dorso da mão, segredando-me que dela ouvira uma história, a qual só me contaria se lhe desse um beijo. Os dias passavam rápidos; do tempo, tínhamos noção somente quando o Coelho Branco atravessava o nosso caminho, esbaforido, a gritar:

– É tarde, é tarde!

quarta-feira, 2 de março de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - parte 3


por Edson Negromonte

Ela tomou-me, então, com naturalidade pela mão e foi conduzindo-me à casa, pela estrada de terra, de cascas de ostra, de mariscos, de esqueletos de peixes ancestrais. Deixei-me levar pela menina dos meus sonhos, como se há muito tempo aguardasse esse momento de pura epifania. A cabeça girando, os galhos das árvores me recebiam de braços abertos; minha alma estava tranquila, como nunca antes estivera. Ela era tudo o que a vida inteira eu ideara. Nesse momento sublime, febril, opiáceo, quinceyano, lembro-me perfeitamente, eu tive certeza de que aquele era o ser que eu buscava, o ser que eu aflito buscara, de que não era mais a prosa da literatura, era tão somente a arte da poesia, em sua forma pura e ainda não grafada. Sei que tudo isso pode parecer estranho, por contar tão pouca idade, mas não há nada que possa contradizer um coração apaixonado a vida inteira pela metade perdida da sua catedral, sem a qual vaga-se pelas ruas com a via-sacra exposta, sangrando a cada passo, o corredor da nave sem tapete vermelho e a abóbada destelhada.

O chão da sala da casa era de pequenos seixos, com uma grande mesa central. Um tronco de embaúba vinha do teto, atravessava o tampo e terminava num pequeno fosso, mais baixo que o nível do chão. À guisa de banco, quatro troncos laterais com os lugares escavados. Meus olhos perscrutadores não perderam um único detalhe, apesar de inebriado com a doce fragrância que aquele ser exalava a cada leve movimento do corpo. Havia ainda, no térreo, dois quartos laterais e uma pequena cozinha, de onde vinha o cheiro do café recém-coado em fogão a lenha. Uma escada de degraus de costaneira levava ao andar de cima, onde ela sentou-se na cama, a qual fazia a vez de sofá, em posição de flor de lótus, dando um sorriso tão terno que dois sóis acendiam-se em seus olhos, comprovando as palavras do poeta, “são os olhos as janelas da alma”. Neste segundo pavimento, além da grande sala circular, havia quatro quartos; os da frente, as janelas abriam para o mar, os de trás, para a mata. Nas paredes, as estantes exibiam, com volúpia, livros em profusão, com todos os tipos de encadernação, de couro, industriais, brochuras.

Embevecido com a beleza da menina, eu a ouvia falar sobre leituras à luz de vela, durante as madrugadas, sobre as brincadeiras com os irmãos, as pescarias com o pai, o qual ia vê-los em alguns finais de semana, sobre o trabalho das aranhas, a tessitura das teias, pássaros azuis que vinham em sonho para resgatá-la, para levá-la a passear em suas asas enormes, sobre as longas conversas com os pescadores, o aprendizado com os guaiamuns, as casas de bambu que Arael construía, a cobertura de folhas de bananeira, as músicas que ela ouvia no rádio, as tempestades, o vento que soprava do mar para a terra, da terra para o mar, da falação noturna das almas nas pedras... Eu, muito mais ouvindo do que falando, a tudo assentia com a cabeça, com medo de que ela se calasse. Sua fala perfeitamente incompreensível levava-me de imediato aos mares do Sul, onde um nativo sopra, desde tempos imemoriais, conchas de vários tamanhos e formatos para entrar em contato com os deuses de seus avós, bisavós. Era, ao mesmo tempo, a algaravia do rouxinol do imperador, rios a correr livres nos leitos de pedra, cachoeiras despencando do alto das rochas, banhando o primeiro homem, astros em rotas determinadas desde a Criação e o descanso dos dias sétimos.

De lábios carnudos, pele alva de cetim, ela era feita da matéria das nuvens, onde os anjos do Senhor sentam-se e entoam canções que nós, humanos, traduzimos como orvalho, essas partículas da natureza tão caras aos alquimistas. Por favor, leitor, não estou delirando; se você assim pensa é porque nunca deparou com um ser enviado à terra para ser aquilo que o livro sagrado chama de maná, alimento espiritual que consola a alma, nunca saboreou o vinho das eras cantado e decantado por Omar Khayyam. Ouso dizer que deparar com alguém assim é sentir-se, num lampejo, o guerreiro Arjuna, cujo carro de guerra está suspenso entre os dois exércitos inimigos. Assim como Shelley, os poetas buscam esse ser iluminado a vida toda e, quando o encontram, querem tocá-lo, possuí-lo, insatisfeitos em somente admirá-lo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - parte 2



por Edson Negromonte


Para melhor compreensão, devo contar esta história do início, quando aportei à ilha de São Bravo, no Arquipélago dos Atobás, a bordo do veleiro Antares, após duas horas de mar, trazendo na bagagem as leituras recentes de “Robinson Crusoé” e “As Viagens de Gulliver”, mas principalmente de “Dois Anos de Férias”, de Júlio Verne. Sentia-me o grande navegador de mares nunca dantes. Vínhamos numa comitiva que, além do veleiro branco, contava com um pequeno barco de cabine e a negra baleeira, de propriedade de Sven Andersen, de longa barba grisalha e pele curtida de sol, parecendo mais que um homem: um pergaminho. Era um velho marinheiro que, após a aposentadoria compulsória, devido a uma queda na casa de máquinas, passara a escrever relatos fantásticos sobre as suas perambulações marítimas pelo mundo. Por insistência dele, deixei de passar o final de semana envolto nas páginas brumosas de mais um romance juvenil e fora viver, sem o saber, a minha própria aventura. Devo acrescentar neste parágrafo que estava até contrariado com a viagem, pois não havia nada mais interessante para mim, naquela época, que o apaixonante mundo livresco, onde eu era capaz de descortinar novos horizontes e gente muito mais interessante e vívida que as pessoas do mundo real, ao meu redor, de vidas comezinhas e sem graça. Gente como o pirata Long John Silver ou o corcunda Quasímodo ou o Dr. Moreau... Quantas vezes deixamos de viver a nossa verdadeira saga para nos refugiarmos nas páginas seguras de um volume, o qual podemos egoisticamente fechar quando os olhos cansam e retomá-lo quando bem nos apraz. “A vida não é assim, a vida não é bem assim, ela vai nos empurrando, queiramos ou não, e muitas vezes não temos nem o direito de fechar os olhos para descansar um segundo. A vida nos mostrará, independente da nossa vontade, os personagens reais no grande palco giratório, com as máscaras prontas a cair a qualquer momento”. Para me convencer, Sven disse que na ilha moravam dois irmãos, com idades próximas à minha, mas deixara de propósito, creio, de contar que eles tinham uma irmã.

Ao adentrar a pequena enseada, pulei na água que hoje percebo cristalina, apesar de ser na realidade de fundo lodoso, como toda aquela região litorânea. Ou, quem sabe, eu já a tivesse como cristalina. Era janeiro e o sol, esse pai amantíssimo de todas as criaturas da Terra, vegetais e animais, mostrava-se em toda plenitude. Ancoradas as embarcações, aproveitando a maré, descarregamos as tralhas, pois passaríamos ali o sábado e o domingo. Via-se a casa no alto de um promontório. Logo, os moradores vieram nos receber: a mãe Concepción, nascida no Chile, em Antofagasta, e os dois filhos Arael e Camael, de negros cabelos encaracolados, que em tudo lembravam uma gravura, anjos de Botticelli. Foi quando vi, então, descendo a estreita e sinuosa estrada que conduzia à praia arenosa, de shorts, camiseta, pés descalços e longos cabelos castanhos ao vento, aquela que há tanto tempo habitara as minhas noites insones, aquela que eu tentara em vão desenhar, seja rabiscando cavalos em movimento ou seres os mais diáfanos, os quais, por incompetência, eu rabiscava, rabiscava até transformá-los repentinamente em monstros abissais, gigantes terríveis das profundezas oceânicas. Meus olhos não conseguiam se despregar da imagem, não havia para mim mais nada nem ninguém ao redor, nem barcos, árvores ou cachorros, âmbulas voadoras ou pássaros santos. Era a primeira vez, em minha existência, uma longa vivência de apenas 17 anos, que meu coração batia descompassado por alguém. Como asseguram os poetas românticos, era o amor que se avizinhava, batendo com as forças de um mendigo esfaimado às portas da minha alma sequiosa.

Tinha ela, então, 13 anos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A MENINA DA ILHA DE SÃO BRAVO - parte 1



por Edson Negromonte

Acordei pela manhã, lembrando-me do retrato dela, em branco e preto, colado na porta do meu quarto, ao lado de um pôster gigante de Che Guevara, onde lia-se no rodapé "criar dois, três, vários Vietnãs". Amargo até hoje a perda desse retrato, muito mais que o pôster do líder guerrilheiro. Andei perdendo muitas coisas pela vida afora, como revistas, livros, muitos, discos, muitíssimos, casas, que acabaram ficando para os verdadeiros donos, carretéis, pipas, bilboquês, cabelos, quase todos, o que durante algum tempo causou-me constrangimento, mas depois acabei me acostumando, como acostuma-se a tudo, até com a infalível partida dos entes queridos, acostuma-se até com a dolorosa e jamais preenchida lacuna que eles deixam, como nos acostumamos com uma nevralgia, com uma cicatriz que entreabre de vez em quando a pálpebra rósea. Mas com a falta da foto dela nunca me acostumei, como no samba "Praça Clóvis”. Tentei recompô-la; consegui, no máximo, a pose displicente, a mão na cintura, o riso. Ah, o riso! Não era o da Mona Lisa, de freira, e muito menos do gato de Cheshire; escancarado, era o sorriso maroto de alguém que acaba de entrar na adolescência. Carreguei a ausência dessa foto durante todos os dias de minha atribulada vida, mas nunca jamais acordara com tão horrível sensação: de perda. Esse sentimento vinha-me no transcorrer do dia, ao ouvir o fragmento de uma canção, vindo de uma estação de rádio perdida no dial da memória, ou uma brincadeira da velha Haqub, a destrambelhada, num outdoor na esquina mais movimentada da Paulista, ou os sentimentos despertados pela chuva miúda na areia da praia, entrevista pela vidraça. Às vezes, um filme que nunca víramos juntos trazia-me um gosto inexplicável de chocolates não compartilhados (armadilhas que a memória prega, de quando em quando, para que possamos enfrentar o dia a dia de maneira mais leve: as intermináveis filas de ônibus, a mulher que não mais amamos, o emprego que não queríamos, a cidade que detestamos, o ar empesteado de óleo diesel, a água fétida de cloro...). Outras vezes, a cena de um filhote de gato brincando despreocupado com uma réstia de sol levava-me ao calor daqueles dias quando não compartilhamos a delicada cena, somente para que eu beijasse a testa de cada filho, ajeitasse o nó da gravata e saísse à rua para enfrentar os clientes do banco onde trabalhava... Ou Jorge Luis Borges a recitar um curto e terrível poema nunca escrito ou o vocal barroco de Milton Nascimento numa missa imaginária, acompanhado de saltérios, ou, numa noite fria, quando os pingos da chuva, rolando do telhado, percutiam as latas na calçada, como em um noturno de Chopin. Todas essas coisas pequenas, aparentemente miseráveis, traziam-me à lembrança a imagem difusa daquela que foi, um dia, a minha primeira namorada.