sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CORPO POÉTICO




Edson Negromonte

Toda vez que um adolescente descobre, enlevado, que o poeta Shelley foi imolado em uma fogueira, erguida por Byron, às margens do oceano, a poesia inaugura-se, uma vez mais, nova em folha. Quando toma conhecimento do gran finale do poeta divino, ele passa vários dias inebriado pelo cheiro característico do corpo poético, a carne humana, queimando, ardendo em chamas. E descobre-se, pelo olfato, tal qual um lobo faminto, permanentemente à beira do mar, em uma praia próxima de Viareggio. O mar deixa-se, por isso, encapelar indefinidamente, somente para o seu gozo. É aí, então, que o adolescente pode perceber, pela primeira vez, a poesia que se desprende das labaredas dançarinas, sedutoras línguas de fogo. jamais poderá anotá-la, a essa poesia que do fogo emana, e que esta seja a sinistra sina de todo aquele que se aventura pela bruma da poesia. Tudo o que, a partir da noite eternal, escreverá, será em decorrência desse encontro momentâneo, e no entanto definitivo, ao qual foi levado por mãos invisíveis, que ainda o conduzirão a um plano em que as cenas fundamentais, necessárias à confecção da poesia, são temperadas na forja do ferreiro cósmico. Após esse plano sublime, o adolescente será, em seguida, conduzido ao jardim circular das dores de amor dos amantes não correspondidos. É somente nessa idade, quando se é capaz de construir catedrais na instabilidade das nuvens, que a poesia o julgará digno para se instalar em seu coração de neófito. Sonhar-se-á, assim, o mesmo poema de amor que, de tão original, bilhões e bilhões de outros poetas na imensidão do inescrutável universo já o sonhariam. E tentaram, tentariam, tentarão, então, escrevê-lo. E esse poeta ora e para sempre adolescente, tão ingênuo, tão inaugurador, torna-se mais uma vez, enfim, o responsável pela harmonia dos planetas de inumeráveis sistemas. Esse sofredor, irmão dos amores vãos, se é que algum amor na vida pode ser vão, como todos os poetas a ele anteriores, assim como todos os poetas do porvir, tornar-se-á, sem perceber, o principal auxiliar do inominável artífice, o responsável pela formação de novos poetas para as novas gerações, todos eles sob a influência do cheiro característico da carne ardente em fogo de Shelley. Posto que poesia é, como o amor, coisa volúvel, portanto, louvável, este será o segredo daqueles que, após a breve idade transitória, insistirão ainda na tessitura de poemas, atividade com a qual o mundo adulto das certezas não pode arcar e nem mesmo suportar. Porque poesia é mergulhar de cabeça na escuridão de um precipício marítimo desconhecido. Ouvir-se-á, desse modo, o estrépito do intrépido mergulhador, até o momento ignorante da máquina do mundo. Esse eterno amante amantíssimo, o fazedor de poesia, o fazedor da vida, detém a única e íntima certeza em um mundo de incertezas: a poesia só terá início novamente quando mais um adolescente desavisado reconhecer, em êxtase, o odor agridoce do corpo franzino de Shelley, em chamas, à beira do oceano, enquanto Mary Shelley, no desassossego do lar, em Chester Square, ainda acariciará o coração vivo, pulsante, do amado poeta.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

ENROLANDO O ROCK - Parte 7: MEU OFÍCIO É O ROCK'N'ROLL



Edson Negromonte

O rock pesado é coisa que agrada sobremaneira aos machos da espécie e quando começa de firulas passa a ser chamado pejorativamente de progressivo, diria um velho roqueiro empedernido. Não é bem assim e a história está aí para quem quiser comprovar. Principalmente, no rock brasileiro, onde os gêneros flertam entre si, da forma mais salutar. Assim, a nossa primeira banda pesada é paulistana e atende pelo provocativo e, ao mesmo tempo, ufanista nome de Made in Brazil, formada, no final dos anos 60, pelos irmãos Celso e Oswaldo Vecchione, tendo como vocalista o andrógino e briguento Cornélius Lúcifer, substituído no segundo disco por Percy Weiss, de vocal mais condizente com todo o peso instrumental da banda. Também na terra da garoa ácida teve origem, na década de 70, época de efervescência roqueira, embora garageira, outra banda que fez história, a Casa das Máquinas. Com um começo indefinido, acabou mostrando no segundo disco todo o seu potencial com "Casa de Rock", hit da época e um dos hinos roqueiros, tendo como líder o baterista Netinho, aquele que foi o "namoradinho brasileiro" da roqueira italiana Rita Pavone, vindo da banda de jovem guarda Os Incríveis. A banda teve um fim trágico quando, em 18 de setembro de 1977, a masculinidade do vocalista Simbas foi questionada por um funcionário da TV Record, devido às suas roupas extravagantes, o que levou-o, junto com o guitarrista Pisca, a espancar violentamente o motorista, o qual veio a morrer 24 horas depois. Julgado, Simbas foi condenado a um ano de prisão.

Surgida em 1976 e adepta dos riffs de guitarras, a também paulistana Patrulha do Espaço surgiu como a banda na qual o mutante Arnaldo Baptista, desacreditado por todos os colegas, daria vazão às suas idéias musicais, inicialmente sem estrelismos, mas não tardou que viesse a se chamar Arnaldo e a Patrulha do Espaço, gerando brigas internas que motivaram a sua saída. Os outros integrantes assumiram o comando, tornando-se, assim, um dos principais nomes da história do rock pesado brasileiro, com John Flavin na guitarra, Cokinho no baixo e Júnior detonando na bateria, comprovando que São Paulo é mesmo o túmulo do samba, como bem a definiu o poeta e letrista Vinícius de Moraes, mas, por outro lado, será para sempre o berço do rock'n'roll.

De outras plagas, viriam outros nomes importantes, como a inicialmente denominada The Bubbles, do Rio de Janeiro, que depois de voltar do festival da Ilha de Wight, adota o nome A Bolha, gravando em 1973 o progressivo "Um Passo à Frente", em que já há insinuações do hard rock que faria em "É Proibido Fumar", de 1977. Com formação inconstante, o único membro fixo foi o guitarrista e vocalista Renato Ladeira. A banda era tão barulhenta que foi despedida pela então roqueira Gal Costa durante a gravação de um compacto duplo, no qual toca as versões arrasadoras de "Zoilógico" e o hino bicho-grilo "Vapor Barato", numa descaralhante versão de estúdio, em 1971, muito superior a versão oficial, ao vivo, em "Gal Fa-tal - A Todo Vapor". No mesmo ano gravariam um compacto simples e conceitual com "Sem Nada" e "Os Hemadecons Cantavam em Coro Chôôôô", além de tocar em todas as faixas do disco proibido "Vida e Obra de Johnny McCartney", do cantor Leno, da dupla de ié-ié-ié Leno e Lílian, em carreira solo e com produção de Raul Seixas. Curiosamente, a banda, ainda como The Bubbles, está na trilha sonora do filme "Salário Mínimo", do diretor Adhemar Gonzaga, de 1970, com a atriz e vedete Renata Fronzi, mãe do guitarrista, o qual viria a fazer muito sucesso nos anos 80 com o grupo Herva Doce e a sua versão "Erva Venenosa", para "Poison Ivy", além de ser parceiro de Cazuza em "Faz Parte do Meu Show" e a inesquecível "O Universo Precisa de Vocês (Power Rangers)" com a dupla mirim Sandy e Júnior.

Do Rio Grande do Sul, veio a pesadíssima Bixo da Seda, anteriormente chamada Liverpool, de pegada stoneana, referência obrigatória no cenário da época e cultuada até os dias de hoje, principalmente pela presença do guitarrista Mimi Lessa e do vocalista Fughetti Luz, de grande importância para o atual movimento roqueiro gaúcho. Note-se que a formação do seu disco homônimo, conta com a presença de Renato Ladeira na banda. Do Paraná, dando início a toda a movimentação roqueira do estado, vem A Chave (foto), anteriormente Os Jetsons, com origem na cidade de Palmeira. Após a mudança do guitarrista Paulo Teixeira para Curitiba, sua principal formação tem, também, Carlos Gaertner no baixo, Orlando Azevedo na bateria e Ivo Rodrigues no vocal, o qual, após o fim da banda, foi cantar na Blindagem, outro nome importante do rock paranaense. Recentemente, A Chave viu, sem saber como, obscuras sessões de ensaio virem à tona num autêntico bootleg digital, o que levou-a a piratear seu próprio disco pirata para vendê-lo no show de 25 anos do término da banda.

Mas o grande nome do hard rock brasileiro é, com certeza, a banda Peso, com origem em Fortaleza, quando a dupla Luiz Carlos Porto e Antonio Fernando classificaram no VII Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, a música "Pente", evidente alusão ao ato de se fechar um baseado com o artefato de marca Flamengo. Seu único LP, "Em Busca do Tempo Perdido", de 1975, tem o vocal de Luiz Carlos, o qual gravou, posteriormente, um disco solo, e a excelente guitarra do americano Gabriel O'Meara, que faria canções de sucesso para Tim Maia e produziria, depois, cantores de samba. Deste disco, a música "Não Fique Triste" tocou exaustivamente nas rádios. O'Meara ainda participa do disco "1990 - Projeto Salva Terra!", de Erasmo Carlos, em 1974, do qual consta a música "Cachaça Mecânica", bem humorada alusão caipira ao filme de Stanley Kubrick, "Laranja Mecânica".

Finalizando, em meados da década de 80, o hard paulistano demonstraria sua pujança com o Golpe de Estado e seu insano vocalista Catalau, o qual começou compondo, aos 16 anos, para a Casa das Máquinas e, hoje, cansado das drogas e da vida desregrada, tornou-se pastor evangélico da igreja Bola de Neve, pregando a palavra do Senhor através de muito... rock'n'roll.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 6: AS TRAPALHADAS DO ROCK'N'ROLL



Edson Negromonte

Muito antes dos megafestivais, na década de 80, o Brasil, valendo-se da sua tradição festivalesca, já tivera vários woodstocks, sonho de qualquer jovem daquele tempo, depois de 1969. A primeiríssima tentativa, em fevereiro de 1971, foi o Festival de Verão de Guarapari, no Espírito Santo, sem infra-estrutura nenhuma e organizado por Antônio Alaerte e Rubinho Gomes. Foi neste festival que, enquanto cantava o sucesso "BR-3", aconteceu o desastrado stage dive de Toni Tornado, que aterrissou sobre uma fã, deixando-a paralítica da cintura para baixo. No mesmo festival, convidado por Carlos Imperial, estava o aparentemente "estranho no ninho" Luiz Gonzaga, sanfoneiro que, na ausência dos roqueiros convidados, deu uma canja.

No Teatro João Caetano, na região central do Rio de Janeiro, aconteceria o show Abertura da Temporada de Verão, com várias bandas, em 31 de outubro de 1974. Entre elas, com performances sem hora para acabar, a nata do progressivo nacional: Veludo, Terço, Vímana e Mutantes.

No ano seguinte, em janeiro de 1975, aconteceria o primeiro Festival de Águas Claras, em Iacanga, na fazenda Santa Virgínia, propriedade de um hippie woodstockiano conhecido, na região, como Leivinha. As bandas revezavam-se, com shows tidos como memoráveis: Terço, Som Nosso de Cada Dia e Moto Perpétuo (banda progressiva de Guilherme Arantes), entre muitos outros. Sucederam-se outras edições, nos anos 80, contando com a presença, inclusive, do bossa novista João Gilberto, quase sempre avesso às multidões, um Raul Seixas bêbado, vomitando atrás dos amplificadores, a banda curitibana Blindagem e uma vaiada Tetê Espíndola, caracterizando muito bem a intolerância da juventude em relação ao novo. Nos três últimos dias de maio e primeiro de junho desse ano, São Paulo veria, no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, o Banana Progressiva, com certa organização, realizado em local fechado, muito mais um show com várias bandas que propriamente um festival, com apresentações de A Bolha, Veludo, A Barca do Sol, Som Nosso de Cada Dia, Terreno Baldio, Vímana e Erasmo Carlos. Ainda, entre tantos outros, a figura inusitada do inqualificável Hermeto Paschoal e suas experimentações sonoras. Eram tempos de abertura, palavra tão em voga àquela época, quando os militares tornaram-se, aparentemente, maleáveis em relação a uma juventude aparentemente apolítica, que queria deixar o cabelo crescer, fumar maconha em paz e fazer música, muita música, a mais libertária possível, como um ato político muito mais abrangente e libertador. Evidentemente, muito antenada com o que se fazia lá fora. Ainda neste ano, outro evento importante foi o primeiro Hollywood Rock, de Nelson Motta, no campo do Botafogo, patrocinado pela companhia de cigarros Souza Cruz e ao qual a empresa do tabaco jamais se refere, retirando o patrocínio, em decorrência de um traficante, preso naqueles dias, "entregar" que venderia todos os seus singelos e inofensivos ácidos lisérgicos no dito festival. Apesar de todos os contratempos, chuva, queima de equipamento, transferência de local, é um marco na história do rock brasileiro, com um falso disco ao vivo "Hollywood Rock" e o filme "Ritmo Alucinante", além das presenças de Raul Seixas, Rita Lee e o Tutti-frutti, Veludo, Peso, Vímana, Cely Campello (a nossa primeira Rainha do Rock) e o tremendão Erasmo Carlos, com a recém-formada Companhia Paulista de Rock, banda que contava com o baixista Liminha e o baterista Dinho, dois ex-Mutantes cansados das firulas do rock progressivo.

Endividado até o pescoço com o fracassado show "Feiticeira", da sua mulher Marília Pera, o compositor e produtor Nelson Motta promove, em 1976, o desastrado festival Som, Sol e Surf, em um pequeno estádio de futebol em Saquarema, no estado do Rio de Janeiro, na esperança de ganhar algum para se ver livre dos credores. A ideia surgiu quando ele se encontrou, em Búzios, com um músico doidão chamado Flávio Spiritu Santo, que o convenceu das facilidades de realizar um festival de música naquela região tão aprazível. Na verdade, o dito estádio era apenas um campinho de futebol, murado. Ali estavam, então, os principais nomes da época: a obrigatória Rita Lee, Tutti-frutti, Raul Seixas, Vímana (com um baterista de 16 anos: João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão), o paulistano Made in Brazil, com o crítico Ezequiel Neves assumindo a persona de Zeca Jagger, fazendo backing vocal, o pesadíssimo gaúcho Bixo da Seda, um Ney Matogrosso solo, já sem o Secos e Molhados, e a estreante bluseira Ângela Ro-Rô, aos 26 anos, acompanhada por uma banda que tinha, entre outros, o lendário Zé da Gaita, do grupo Flamboyant, e ex-integrantes do Peso, em performance ensandecida de "Meu Mal é a Birita". Além de Flávio Spiritu Santo, é claro! Na ideia original cabiam um disco e um filme, que registrariam mais uma peripécia roqueira de Nelson Motta, que, segundo ele mesmo, não chegaram a público por causa das grandes estrelas terem tido uma atuação morna, não condizente com o que se espera de apresentações ao ar livre (o canal Brasil anuncia para breve a exibição do filme). Com previsão para dois dias, em decorrência das tempestades de verão, ficou reduzido a um único dia de lama, bebedeira e ácido. Além da música! Muita música! Na última hora, os portões foram franqueados ao público, quando verificou-se que a lotação do "estádio" não chegara à metade, em uma tentativa desesperada de atrair público para, pelo menos, salvar o filme. Ledo engano, a população local, por nada deste mundo, sairia de casa para prestigiar um festival de rock, justamente no horário do popularíssimo programa da TV: Os Trapalhões.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

ENROLANDO O ROCK- Parte 5: E A MANHÃ TROPICAL SE INICIA



Edson Negromonte

O ano de 1968 daria a público três discos importantíssimos para a compreensão da Tropicália, nome pelo qual seria conhecido o psicodelismo no País, com inspiração na obra conceitual "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles: os LPs de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e o manifesto sonoro "Tropicália ou Panis et Circensis", com capa do artista plástico Rubens Gerchman, onde acontece a tão propalada mistura, às vezes mal resolvida, mas instigante, de tradição e modernidade, sob a batuta do maestro Rogério Duprat, envolvido com o rock desde 1963, quando arranjou a canção de Albert Pavão "Vigésimo Andar", versão de "20 Flight Rock" (Eddie Cochran e Ned Fairchild), sucesso dos Quarrymen. Duprat faria, ainda em 1966, outra incursão roqueira: o compacto do sexteto O'Seis, embrião do trio Os Mutantes. O conceito tropicalista de deglutição cultural deriva, principalmente, das experiências modernistas do poeta Oswald de Andrade, que defendia a importância do canibalismo cultural desde que os silvícolas brasileiros comeram o bispo Sardinha, e, também, das experiências plásticas do designer gráfico Rogério Duarte e do artista conceitual Hélio Oiticica, ambos criadores da palavra “tropicália" para designar uma instalação penetrável.

Em 1967, com um tanto de insatisfação, outro de provocação, Caetano e Gil participaram do III Festival.da Música Popular Brasileira, pela TV Record, incorporando a guitarra elétrica às suas canções, "Alegria, Alegria" e "Domingo no Parque", através do acompanhamento de duas bandas de rock, a argentina Beat Boys e a paulistana Os Mutantes, recebendo quarto e segundo lugares, respectivamente. Gil vinha de gravações de música tradicional, com vários compactos, por um selo local baiano, e o LP "Louvação", onde consta a antevisora "Lunik 9", além de parcerias com o poeta e jornalista Torquato Neto, figura importantíssima para o movimento, com uma coluna comportamental no Jornal do Brasil, a Geléia Geral, também título de uma canção dele com Gil. O baiano Caetano, crítico de cinema e dublê de pintor, gravara com a conterrãnea Maria da Graça, a depois famosa Gal Costa, o LP bossa novista "Domingo", na prática um comportadíssimo tributo a João Gilberto, além de ter sua "Pra Chatear" gravada por Ronnie Von, esta figura singular do rock brasileiro, de um mundo próprio, com formação erudita, principalmente música barroca, que faria dois discos clássicos da psicodelia brasileira, "Ronnie Von" e "A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais", com um dos títulos mais longos para uma canção popular: "De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-me de Volta a Alfa do Centauro, Meu Verdadeiro Lar". Em seus quatro primeiros discos, Gal Costa é uma autêntica roqueira psicodélica, escorada pela guitarra endiabrada de Lanny Gordin, transformando a mais simples canção em um hino ao instrumento. Este nosso primeiro guitar hero, ao se exilar em Londres, deslumbrou-se com as possibilidades do ácido lisérgico, usando e abusando da droga, até que desgraçadamente desaprendeu a tocar. Também os Mutantes, com sua irreverência adolescente, são vitais para o movimento, principalmente com a gravação iconoclasta de uma joia intocável da seresta parnasiana, "Chão de Estrelas", de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, com um arranjo literalmente arrasador, com peidos, aviões e gargalhadas, do enfant terrible Duprat. Outros maestros, como Júlio Medaglia, Damiano Cozzella e o sempre esquecido Sandino Hohagen, alunos de Pierre Boulez e Stockhausen, e discípulos de Anton Webern e John Cage, também deram sua contribuição. Fundamental foi o encontro dos músicos com a Poesia Concreta, dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que daria uma cara altamente intelectualizada à Tropicália, tornando-a única em toda a psicodelia internacional. Seguramente, poucos são os países em que o movimento, além de flertar com a cultura folclórica local, ainda se deu ao luxo de letras que remetem aos grandes poetas nacionais e à grande poesia internacional, através de traduções de altíssimo nível.

Naquele tempo de efervescência cultural, onde até os mais velhos reviam seus conceitos de certo e errado, surgiram várias artistas e bandas com propostas radicais para uma nova arte e musicalidade. Muitas experimentações ficaram esquecidas, como o único disco de Os Brazões, com versões interessantes para composições de Gilberto Gil, como "Pega a Voga, Cabeludo" e "Volkswagen Blues", além de um arranjo soberbo para a metafórica "Gotham City", na qual a cidade do homem-morcego é a representação do próprio País, com caça às bruxas e morcegos na porta principal, de Jards Macalé, violonista erudito que aderiu ao movimento, e do poeta baiano Capinam, o segundo letrista em importância para a Tropicália. Uma linguagem cifrada que os ouvintes da época sabiam muito bem decodificar. A banda ressente-se das diatribes de um Duprat, figura fundamental para se compreender a riqueza do Tropicalismo. O maestro era a eminência parda, alguém que atuava nas sombras, e só recentemente teve o seu verdadeiro valor reconhecido, alguém que mudou-se para um sítio no interior do estado de São Paulo, em decorrência da pobreza musical da atualidade. O grande poeta Torquato, letrista de várias canções-manifesto, depois de ser internado em um hospício pela própria família, vendo-se abandonado pelos amigos e parceiros musicais, suicidou-se deixando um bilhete que termina com a lapidar frase "Pra mim, chega!".

Enquanto isso, a ditadura comia solta, com prisões, torturas à luz do dia e corpos que até hoje clamam por justiça. Não tardaria para que os militares instituíssem o Ato Institucional No. 5, calando, de vez, as bocas do País, exilando, em 1969, Caetano e Gil, vistos como os cabeças de um movimento pernicioso, de amplitude não só política, mas comportamental, de curtíssima duração, e fundamental para a geração seguinte, aquela que se aventurou a fazer música nos Anos de Chumbo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 4: A TURMA DA TIJUCA



Edson Negromonte


No Brasil, o rock já rolava à toda. Vários jovens, nos seus bairros, formavam grupos e agiam como rockers, embora não entendessem muito bem o significado disso. Sabiam, e isso estava muito claro em suas cabeças, que os velhos, ou melhor, a música dos velhos não estava com nada. Assim, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, alguns desses garotos da época reuniam-se para trocar informações, aprender novos acordes e ouvir discos. Entre eles, estava o futuro Rei do Rock, Roberto Carlos, seu eterno parceiro e o mais fiel e digno roqueiro brasileiro, o tremendão Erasmo Carlos, e alguém que despontaria anos mais tarde e criaria a soul music brasileira, Tim Maia. Ah, mas havia uma figura de suprema importância, não só para o rock, mas para a música brasileira em geral. Ou melhor, para a música universal. Era Jorge Ben, hoje Jorge Benjor, às vezes, Ben Jor, e nascido Jorge Duílio Lima Menezes, gravado por José Feliciano, Herp Albert, escandalosamente surripiado por Rod Stewart.

O garoto Jorge vivia para a música desde a mais tenra idade, ouvindo discos de jazz e blues trazidos por um primo marinheiro e tentando tirar, de ouvido, aqueles acordes complicados e intrincados da bossa nova, sem deixar de estar atento à música jovem da época, o rock'n'roll. Tanto, que ganhou o apelido de Babulina, devido a sua paixão pelo sucesso de 1958 "Bop-A-Lena", do americano Ronnie Self, o Little Richard branco.

Em 1961, aos 19 anos, ele podia ser visto tocando pandeiro no jazzístico Copa Trio, do Beco das Garrafas, cantando rock na boate Plaza, assim como músicas próprias. Forjava, assim, a revolução permanente da sua arte, referência obrigatória para todas as gerações.

Em 1963, suas músicas "Mas que Nada" e "Por Causa de Você, Menina" são cantadas por ele mesmo em um disco do Copa Cinco, o qual contava com o lendário baterista Dom Um Romão. Neste mesmo ano, além das duas músicas serem lançadas num 78rpm, gravaria seu primeiro LP, "Samba Esquema Novo". Conforme o título deixa explícito, ele rompia com o samba, seja tradicional ou bossa novista, através das letras inovadoras mas, principalmente, através de uma batida de violão que não tinha nada a ver com o instrumento acústico, mas com a guitarra do rock, ou melhor, com o toque da palheta nas cordas de aço da guitarra elétrica. Para acompanhá-lo nas gravações, chamou os colegas de jazz do Beco das Garrafas, já que os músicos de estúdio, afeitos ao regional e ao quadradinho do rock, não entendiam aquelas harmonias novas e complicadas, muito menos aquelas divisões estranhas aos ouvidos desavisados. Mais tarde, eletrificaria de vez o samba, mormente em "O Bidu - Silêncio no Brooklin", de 1967, quando chama o conjunto The Fevers para acompanhá-lo na faixa "Jovem Samba".

Inqualificável, Jorge Ben tinha liberdade plena e transitava entre os vários programas musicais da época, inimigos figadais entre si. Quem fosse ao Fino da Bossa, sob as ordens da bossa novista Elis Regina e do sambista Jair Rodrigues, não poderia, em hipótese alguma, participar do Jovem Guarda, comandado pelos rockers Roberto e Erasmo Carlos e a ternurinha Wanderléa. Ele ainda podia ser visto em O Pequeno Mundo de Ronnie Von, ao lado dos Mutantes, os quais gravaram dele, em seu primeiro disco, "Minha Menina". Paradoxalmente, Ben não está na letra de "Festa de Arromba", o quem é quem do rock, do seu amigo Erasmo, muito menos em "Arrombou a Festa", da mutante Rita Lee. Como um estranho no ninho, incapaz de ser rotulado, o filho do seu Augusto, pandeirista do bloco Cometa do Bispo, e da etíope Silvia Saint Ben Lima, será de capital importância para o movimento tropicalista, com misturas inusitadas de tradição e modernidade.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 3: JOVENS TARDES DE DOMINGO SEM FUTEBOL




Edson Negromonte

É sintomático que, em 1962, quando o fenômeno do rock inglês começa a tomar conta das paradas mundiais, com "Love Me Do", dos Beatles, os pioneiros do rock brasileiro já estivessem saindo de cena. Celly, a Namoradinha do Brasil, que chegou a comandar com o irmão Tony um programa de TV, o Crush em Hi-Fi, deixara seu curto reinado para casar com o namorado de escola, indo viver em Campinas, como uma pacata dona de casa. E Tony Campello, roqueiro de boa cepa, ao perceber a perda da inocência inicial, passa a atuar nos bastidores, como produtor musical, por não compactuar com aqueles garotos de terninhos bem cortados. Tony ainda faria algum sucesso, cantando um novo e passageiro ritmo, na sacolejante "Vamos Dançar o Twist", além da versão "Boogie do Bebê", para o sucesso “Baby Sittin’ Boogie”, de Buzz Clifford.

Uma nova geração mais cínica em relação ao mercado insinuava-se. No ano de 1963, Roberto Carlos lançaria, com grande sucesso, "Splish Splash", versão de Erasmo para o hit de Bobby Darin. Em 1964, aconteceu o golpe militar que levaria os generais ao poder durante os próximos 20 anos. Enquanto isso, os jovens esbaldavam-se com o verdadeiro hino do rock brasileiro: "Rua Augusta", composição do cinquentão Hervé Cordovil, na voz do filho Ronnie Cord, nascido Ronald Cordovil, sobre a paixão juvenil por máquinas velozes e furiosas. Singelamente, em contraposição à transviada e perversa “Rua Augusta”, Roberto Carlos grava "Calhambeque", doce versão de Erasmo para o sucesso "Road Hog", de John Loudermilk, mantendo da letra original, sobre os típicos rachas de carro, somente o beep beep. A canção foi lançada, no Brasil, em um flexi disc promocional da caneta Sheaffer. Em 1965, os publicitários da agência Magaldi & Maia Publicidade, de São Paulo, viram no movimento emergente a chance de aproveitar o horário ocioso das tardes de domingo, na TV Record, impossibilitada de transmitir os tradicionais jogos de futebol, para evitar os estádios vazios. Assim, em uma jogada de marketing, criou-se o programa Jovem Guarda, nome advindo da vanguarda comunista russa, patrocinado pela Shell, para aglutinar os jovens telespectadores da época e, consequentemente, vender os produtos da nova marca Calhambeque: roupas, bonés, botinhas, bonecos etc. Era a ascensão de um novo rei: Roberto Carlos (alguém que, na verdade, queria ser, apenas, João Gilberto, o papa da bossa nova), da rainha Wanderléa, acompanhados pelo valete Erasmo Carlos. Iniciava-se, assim, para o grande público, a idolatria de uma juventude aparentemente sadia. Mas, nos bastidores, enquanto o Rei ficava com as filhas, o valete Tremendão comia as mamães. E a droga rolava solta, principalmente no apartamento do produtor Carlos Imperial, em festas que chegaram a ser noticiadas pelos jornais como “orgiásticas”. O eterno bad boy Erasmo, hoje setentão, grava, neste ano de 1965, o seu primeiro long play "A Pescaria", onde consta o sucesso do ano anterior "Festa de Arromba", o who’s who do rock brasileiro da época, além da curiosa "Beatlemania", composição dele e Renato Barros, guitarrista e vocalista do conjunto Renato e Seus Blue Caps, na qual eles prometem acabar com os quatro cabeludos de Liverpool na porrada.

Muitas foram as publicações “especializadas”, inclusive uma Revista do Rock. Vários programas pipocaram nas rádios e televisões, muitos de curtíssima duração; assim, os artistas da primeira leva, antes rivais, agora desempregados, iam fazer parte do séquito da Jovem Guarda, engrossando o cast do bem-sucedido programa, “rendendo-se ao encanto natural” do líder, de jeitinho doce e matreiro. Assim, muitos cantores de segundo escalão, como Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, experimentaram o gostinho do sucesso. Programas de outros gêneros, principalmente de Bossa Nova e MPB, viam-se como uma resistência ao rock e àqueles cabeludos descerebrados. À imitação da reacionária Marcha da Família com Deus pela Liberdade, série de passeatas contra o comunismo que se insinuava no País, músicos emepebistas e bossanovistas, sentindo-se ameaçados, fizeram a nefasta Passeata Contra a Guitarra Elétrica, para, logo depois, envergonhadamente, capitular ante a irresistível beleza sonora do instrumento musical inventado pelo Capeta.

sábado, 21 de julho de 2018

ENROLANDO O ROCK - Parte 2 ou FAZER ROCK NÃO É CONTAR PIADA



Edson Negromonte


Como a indústria fonográfica americana, no final dos anos 1950, ainda não estendera seus longos tentáculos na América do Sul e as novidades importadas demoravam certo tempo para chegar ao País, vários artistas brasileiros, uns com pseudônimos, outros desavergonhadamente com os próprios nomes, gravam o ritmo do momento, na língua original. Principalmente as baladas, muitas vezes com arranjos próximos à nossa cultura, que soam como marchinha ou samba-canção e, até mesmo, bolero. Vai sendo criado, assim, através do processo de aculturação, muito próximo ao ocorrido com a valsa brasileira, cujo grande nome é Zequinha de Abreu, e o tango brasileiro, representado pelo genial Ernesto Nazareth, algo que, muitos anos depois, virá a ser conhecido como um produto único e identificável, o rock brasileiro.

Então, várias gravações nacionais vão surgindo para suprir a necessidade do público jovem, ávido por rock’n’roll. Assim, a excelente cantora Lana Bittencourt espertamente "tempera" seus 78rpm, com o ritmo que os sábios da época rotulam como “modismo passageiro”: sua gravação de "Little Darlin'", rotulado como rumba (não se sabia ainda o que era esse tal de rock’n’roll), sucesso do grupo vocal The Diamonds, em outubro de 1957, tem do outro lado a oportunista "Feliz Natal". Na segunda edição, passadas as festas natalinas, consta o baião "Zezé", de grande sucesso. No ano seguinte, Lana grava "Alone", sucesso de Pat Boone, tendo no outro lado a bossa nova "Se Todos Fossem Iguais a Você". Com a receita infalível, “acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”, Lana grava mais dois bolachões: "With All My Heart" (no lado B "Quero Ir à Bahia"), e "Just Young" (na outra face "Amor Sem Repetição", de 1959). A título de curiosidade, o grupo vocal The Playings, inventado pelo produtor José Scatena, nada mais é que o sexteto vocal e instrumental Titulares do Ritmo; todos os componentes são cegos. Excelente negócio: seis Ray Charles pelo preço de um. Até o Conjunto Farroupilha, da tradicional música gaúcha, vê-se gravando, em 1957, "Mr. Lee", sucesso do quinteto feminino The Bobbettes. De grande sucesso é o lançamento de "Não Pise no Sapato" e "Skirock, Skirock", a cargo de Os Cometas, conjunto sob nítida inspiração de Bill Haley e que, estranhamente, esclarece no selo do próprio disco tratar-se de Louis Oliveira and Friends. Um dos integrantes dos Cometas é Adilson Ramos, que vem a fazer sucesso na década de 60 com "Sonhar Contigo" e "Turbilhão.

Uma das figuras lendárias do rock brasileiro é o rotundo dançarino e saxofonista Bolão, com os seus Rockettes, que regrava "Short Shorts", hit do grupo The Royal Teens, tendo no lado B "Big Guitar", clássico do rhythm'n'blues. (Bolão era um músico de jazz que prestou bons serviços ao rock'n'roll, era conhecido como excelente dançarino de twist: gênero criado para substituir o rock, quando se acreditou necessário criar outro modismo para suprir as “fúteis necessidades da juventude”). Até Hebe Camargo, que começara imitando as Andrew Sisters, tira uma casquinha do rock, com o original "Serafim". No ano seguinte, em 1959, o cantor e comediante Moacyr Franco, assume a identidade de Billy Fontana, acompanhado pelos Rockmakers, e grava um 78rpm com "Baby Rock", o qual não vinga. Sintomaticamente, ele grava, no mesmo ano, com grande sucesso, a marchinha "Me Dá um Dinheiro Aí", e, no ano seguinte, "Rock do Mendigo", aparentemente encerrando a sua curtíssima fase roqueira. (Em 2003, ainda aproveitando-se do rock’n’roll, Moacyr Franco vê a sua recente composição “Tudo Vira Bosta” fazer grande sucesso na voz de Rita Lee). Também o humorista Paulo Silvino, sob o pseudônimo de Dixon Savanah, integrante de Os Terríveis (a formação deste grupo conta com o bossa-novista Carlinhos Lyra, além de Carlos Imperial e Roberto Carlos), grava "Let's Rock Together", em parceria com Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em 1960. Vocês querem rock’n’roll?

Apesar da precária tecnologia dos instrumentos nacionais fabricados pela Giannini e Del Vecchio (guitarras, contrabaixo e amplificadores), o rock instrumental de qualidade fazia-se presente com o grupo The Avalons e os sucessos "Baby Talk" e "China Rock", entre outros, em 1959, cuja formação contava com Solano Ribeiro, criador dos festivais de música popular e da sigla MPB. Outros grupos instrumentais que surgiram antes de The Avalons, mas gravaram somente no início da próxima década: The Fellows, com "I'm Gonna Get Married", em 60, The Jordans, com "Boudah", em 61, e The Jet Black's, com "The Jet", em 1962, todos sob nítida influência da surf music emergente de The Ventures e The Shadows.

O grande acontecimento do final da década, perceptível somente algum tempo depois, é a estréia em disco de um grupo vocal, formado por três irmãos e um primo, chamado The Golden Boys, inspirado nos conjuntos de do wop e nas levadas soul de Roy Hamilton, com "Wake Up Little Susie", sucesso dos Everly Brothers. No lado B, a canção 'Meu Romance com Laura", número musical dos Golden Boys na chanchada "Cala a Boca, Etelvina", estrelada por Dercy Gonçalves. Quando os Golden Boys passam a cantar somente em português, serão de máxima importância para a Jovem Guarda e a MPB, assim como para o que se convencionou chamar, anos depois, samba rock, apesar do termo já aparecer, em 1958, como título de uma gravação do grupo vocal Os Cariocas.

E a história continua.

quinta-feira, 22 de março de 2018

UM CASO DE FAMÍLIA


Edson Negromonte

Papai não admitia espelhos em casa; quando queríamos nos ver, olhávamos no fundo embaciado de uma bandeja de prata. Papai queria, com isso, nos livrar do narcisismo, pela simples razão de que éramos provavelmente muito bonitos. Até certo ponto, conseguiu seu intento. Quando demos conta da nossa beleza, ele já tinha ido embora, deixando-nos o legado da genética. E nós jamais nos miramos em espelhos, em obediência a Papai. Raramente saímos de casa, então, isso nos facilita a observância. Nós, eu e minha irmã, apesar de belíssimos, éramos as crianças que ninguém queria, os enjeitados, aqueles que os próprios parentes fazem questão de esquecer, fazem de conta que não existiríamos. Assim, aprendemos a tomar conta de nós mesmos, a nos protegermos. De Mamãe, sabemos muito pouco. Talvez o que eu e minha irmã sabemos dela seja fruto da nossa própria criação, da nossa imaginação de delfins à beira do tabuleiro de xadrez, defronte à lareira, nos dias gelados, artimanhas de criança para não nos sentirmos tão órfãos... que ela nos deixou, a mim e a minha irmã, e também a Papai, para ir se juntar aos guerrilheiros no Araguaia. Também que ela não morreu em uma troca de tiros com as forças do exército, como quiseram fazer crer na época. Quando a luta interior acabou e ela sentiu-se recuperada, com forças para novamente enfrentar a vida, ela resolveu abandonar tudo que lembrasse as existências anteriores e seguiu para o norte do País; chegando no Acre, embarcou em um avião, em Santa Rosa do Purus, que levou-a para um paradeiro até hoje ignorado. Para mim, a história de minha mãe termina aí, e me conforta imaginá-la ascendendo aos céus, com asas de avião, uma espécie de anjo, metade carne, metade ferro. Minha irmã, a surpreendo, algumas vezes, chorando, umedecendo o bordado com as lágrimas, nas noites de lua cheia, quando as mulheres tornam-se mais emotivas e, então, choram pérolas. Papai esteve sempre presente, apesar das idas e vindas, em meio aos frequentes desaparecimentos. Reaparecia, sempre à noite, rejuvenescido, parecia voltar alguns anos no tempo. E contava-nos, a mim e a minha irmã, as histórias mais inverossímeis, como a de que lhe tinham extirpado os testículos com alicate, os torturadores da inquisição. Ou de como os ferozes cães de guarda de uma mansão lhe tinham arrancado os testículos, com os dentes afiados e muito brancos, quando, nu, em fuga, escalava o muro da casa de uma famosa atriz do cinema nacional. Todas as explicações sobre a sua ausência terminavam sempre com a inevitável extirpação dos testículos. Eu e minha irmã, dentro da madrugada, aplaudíamos e íamos dormir felizes. Papai, então, permanecia conosco por mais alguns dias, e tínhamos, assim, desse modo, a proteção que nos confortaria, à sombra gigantesca do seu próximo desaparecimento. A última vez que vimos Papai, ele nos encheu de conselhos, beijando nossas faces, como nunca antes o fizera. Chorando, advertiu-nos de que este seria o nosso último encontro e, consequentemente, o penúltimo adeus; ele estava embarcando em uma longa jornada, rumo a Calecute, na esquadra de Vasco da Gama.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A CASA AMARELA DA RUA XV



por Edson Negromonte

A primeira vez que entrei na casa amarela da rua XV foi um atordoamento, antes mesmo de ultrapassar o portal. O velho sobrado de três andares era assim chamado não somente pela cor característica e discordante (o restante do casario alternava entre azul e rosa, com detalhes em branco, como se houvesse um acordo tácito entre proprietários), apesar de esmaecida pela ação do tempo, mas também devido ao despeito e maledicência dos moradores da principal rua pela imponência da vetusta construção de inícios do século 18. Eu tinha jurado à minha mãe que nunca entraria naquela casa, a qual era associada a bruxarias e ritos satânicos, e desvios sexuais da pior espécie. (Minha mãe, todas as vezes em que se tocava no assunto “casa amarela da rua XV”, fazia questão de contar, como advertência, sem esquecer do pelo-sinal, a história do doutor Wellington, que viu-se obrigado a mudar para Torres do Pilar, uma cidade próxima, depois que a sua esposa Cinira teve um ataque histérico, ao presenciar os preparativos para um sabá, sob direção do próprio Senhor dos Infernos, com bruxas da mais alta patente, chegando aos montes, montadas em vassouras. O idoso casal era vizinho de frente da casa amarela da rua XV). Mas não pude, não pude mesmo, recusar o convite da minha colega de classe, aliás, mais do que isso, irmã da minha eterna paixão, a melancólica Carmila, das belas sobrancelhas espessas, que contava, naquele tempo, treze anos de idade. Eu era já um rapazola de dezessete anos. À primeira vista, olhada de fora, a casa amarela da rua XV parecia-se arquitetonicamente com todas as outras casas da rua, todas da época de fausto da cidade. Mas um olhar acurado seria capaz de perceber a gárgula cinzenta, corroída, miúda, que gorgolejava prazenteiramente em dias de chuva intensa, horrivelmente disfarçada no alto do telhado, na cumeeira, como a fiel depositária dos segredos inconfessáveis da família em cuja casa tinha pousado.

A possibilidade de encontrar Carmila fez com que eu esquecesse as promessas à minha mãe e entrasse na casa, não galgando de um só pulo os cinco degraus que davam para a sala ampla, como eu gostaria de relatar, para demonstrar minha intrepidez, mas, sim, em meio à perturbação e à embriaguez titubeante dos sentidos. Podia-se ver de imediato, apesar do ambiente ensombrecido, um sofá e duas poltronas, comuns, mais uma inusitada otomana, de uma época impossível de datar pelo excesso de rococós e grotescos arabescos, a qual afetava certa frivolidade dos moradores. Em uma cadeira de balanço, de madeira maciça, repousava a visão de um gato branco, incrivelmente peludo, a qual me deixou menos intranquilo: bruxas ou feiticeiras costumam ter gatos pretos: os assistentes dos seus sortilégios, os quais tornam-se fogosos amantes após a meia-noite. Havia ainda na sala um aparelho televisor, que chamou de imediato minha atenção, era muito grande, como eu jamais havia sonhado, tomando boa parte da parede. Imaginei quão maravilhoso seria assistir Ultraseven naquela geringonça. A bola de pelos abriu preguiçosamente os olhos e, ao ver-me, deu um grunhido e desapareceu em direção à cozinha, o esconderijo favorito desses felinos domésticos, sejam suas donas feiticeiras ou madames.

Antes que me recuperasse do susto, algo que, a princípio, parecia uma grande almofada, se mexeu e emitiu um resmungo a um canto mais escuro do cômodo, ao lado de uma das poltronas.

– ... tio Arquibaldo!

Uma coisa amorfa, como um polvo tratado com esteroides, ergueu a cabeça e olhou-me com os olhos mais aparvalhados com que já fui olhado, um olhar terrível que transportou-me imediatamente ao mito de Cthulhu, essa entidade grotesca que me atormenta desde a leitura do conto amedrontador de Lovecraft. Elizabeth segredou-me que o tio passava os dias em frente à TV, sem som. Foi só, então, que notei o mutismo do aparelho.

Elizabeth e Carmila eram as primeiras da família, depois de muito tempo, uma geração talvez, a conviver socialmente, elas iam à escola, e tão somente à escola, e a isso se resumia o seu convívio em sociedade. Aceitei o convite de minha colega de classe, pela possibilidade de ver sua irmã mais nova, Carmila, mas já começava a me arrepender. Elas, as duas irmãs, uma mais bela que a outra, descendiam diretamente do coronel Anibal Días-Fuentes, militar que, para não ser preso e enfrentar um julgamento de cartas marcadas, por traição, durante a Guerra do Paraguai, desertara e dera com os costados em nossa pequena cidade. Aqui, se estabeleceu, sob proteção do Exército Brasileiro, chegando a receber uma condecoração por bravura militar, provavelmente espionagem, em festividade municipal, das mãos eternamente ensanguentadas do Duque de Caxias, responsável pelo genocídio do povo paraguaio.

Foi, então, ao conseguir despregar os olhos do homem-polvo, que tomei consciência de um vulto esbranquiçado em um dos desvãos mais escuros da sala. Fui chegando mais perto daquele corpo imóvel para me certificar se era aquilo mesmo que meus olhos estavam adivinhando. Sim, era um belo animal. Ou melhor, fora um belo animal. Minha razão insistia em sua soberania, mas os temores faziam-me de idiota, lançando-me em um mundo de obscuridades, no qual é impossível aquilatar o que é verdade e o que é fantasia.

– É o cavalo do coronel... – sussurrou Elizabeth, como se sua voz de miasmas, delicada, como se pudesse despertar o equino do sono. – Está empalhado.
– Empalhado e fedido – retruquei.

Elizabeth sorriu amarelo, como se o cavalo do coronel Días-Fuentes (ou mesmo o coronel, há muito falecido) pudesse se ofender com a inoportuna observação. Aliás, poderia dizer maldosamente que a casa toda fedia, apesar de não ter ainda visitado outros cômodos. O cavalo havia sido colocado, como um guardião, à porta de um compartimento contíguo à sala, que identifiquei como uma biblioteca, e, diga-se, uma vasta biblioteca, que rescendia a papel velho e úmido, livros que há muito tempo ninguém manuseava, e um grande atrativo para o meu espírito sequioso de leitura. A entrada da biblioteca era encimada pela inscrição “O tempora, o mores”, que vim a descobrir, mais tarde, folheando um dicionário de citações latinas, ser uma exortação do grande orador Marco Túlio Cícero, contra a depravação dos seus contemporâneos, na Primeira Catlinária, e que vem a significar “Ó tempos, ó costumes”. Aproximei-me, curioso, da porta da biblioteca, quando ouvi um rangido de assoalho, alguém se afastando, escondendo-se, um roçagar de saias. Em meio ao cheiro de mofo que tudo em volta exalava, pude perceber o perfume, o cheiro característico de Carmila, o qual já tivera oportunidade de sentir, lavanda, algo que o valha, que é como a virgem Astreia deve cheirar.

– Vem, Léo! – a voz de Elizabeth despertou-me da imaginação quimérica.

Ao passar por uma porta fechada, Elizabeth segredou-me, baixinho:

– Esse é o quarto da tia Sissi... você sabe, né?

Sim, eu sabia, e quem não sabia?, do escândalo que estarrecera a cidade e arredores. Durante muito tempo, o caso foi comentado. Ainda hoje é. Dona Cisarina, a Síssi, quando mocinha, ficara com uma garrafa de Coca-cola entalada na vagina; seus pais tiveram que levá-la, às pressas, em um carro de praça, que é como os táxis eram chamados ao tempo desse acontecimento, para o hospital. Desse dia em diante, a tão elegante e bem conceituada família Días-Fuentes fechou-se, morta de vergonha, em casa e nunca mais saiu à rua, nem mais abriu janelas. O único contato dos Días-Fuentes com o mundo exterior era através de uma governanta analfabeta e muda, uma apalermada índia guarani, a qual fazia as compras e pagava as contas do mês. A partir de então, muitas histórias maledicentes envolveram a desgraçada família; a maledicência do povo assevera que as irmãs Elizabeth e Carmila são filhas do incesto de dona Alzira com o capiroto, o qual vem a ser, na realidade, o verdadeiro pai das duas meninas.

– Trancou-se por dentro e nunca mais se soube dela, eu escuto uns barulhos de noite, minha irmã diz que são ratos, eu não sei, não sei mesmo, nem quero saber. Quando eu era bem pequena, tinha medo, mas me acostumei. A gente acostuma, né? Nem cheiro ruim vem de lá de dentro. Acho que tia Síssi ainda vive, mas se alimenta de quê? De ratos? – casquinou Elizabeth, com ar de troça.

– Vem, Leo, vem conhecer o meu quarto...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A SUSTENTÁVEL LEVEZA DOS BATRÁQUIOS (reprise)



por Edson Negromonte

Quando menina, ela colecionava sapos. Dava-lhes nomes: Pintado, Bolinha, Tigresa, Néfer, Sapopemba, Dalva, Saponáceo, Rubem, Bufo, Hermeto... Este último fora sugerido pelo pai, enquanto admiravam, num dia de chuva, aquele sapo velho, de costas largas, rugosas, a coaxar sem parar, irreverente, aboletado na varanda da casa, em Visconde de Mauá. O pai incentivava o interesse da menina pelos batráquios, presenteando-a com os mais diversos livros sobre o assunto, de ficção, fábulas, alguns recortes de velhas enciclopédias e até uma obra técnica encontrada num sebo. A menina aproveitava qualquer ocasião, principalmente nas reuniões de família, para conversar sobre os sapos, invariavelmente. Desistira de contar sobre a sua paixão para as amiguinhas da escola; elas torciam o nariz, faziam cara de nojo. Como a menina não era de engolir sapos, aproveitava para encerrar a conversa com chave de ouro, contando-lhes como os meninos americanos brincam de esconder sapos dentro da boca.

Sabia que somente o pai era capaz de compreendê-la. Com ele, assistiu na TV à pajelança, promovida pelos índios Raoni e Sapaim, para curar o naturalista Augusto Ruschi, envenenado por um sapo, da espécie dendrobata. O pai, que se tornara aos poucos um expert no assunto, aproveitou mais essa ocasião para esclarecer a filha: o tal naturalista, desavisado, teria beijado uma sapa venenosa, na boca, em busca da sua princesa encantada. Assim, foi a menina crescendo, colecionando conhecimento sobre a vida desses seres aparentemente repulsivos. Descobriu, levada pelo pai, que a literatura e os homens são useiros e vezeiros em associar os pobres sapinhos, assim como outros bichos, principalmente os gatos, com a magia negra; e que nem mesmo os contos de fada têm muito apreço por eles. E que, não os tendo em boa conta, mostra-os invariavelmente como príncipes que precisam do beijo apaixonado de uma doce princesa para quebrar a maldição lançada por uma bruxa malvada. Em sua santa inocência, ela não entendia por que as princesas não podiam simplesmente casar com sapos.

A mais remota lembrança da menina, em relação aos sapos, estava associada à cadeira alta, o pai contando as mais fabulosas histórias do mundo dos batráquios para fazê-la comer a papinha. A mais apreciada de todas era uma história verídica, dos seus tempos de menino, quando ele mesmo fora transformado num sapo-boi por uma velha feiticeira, que morava na floresta próxima à sua casa. A cada vez que era contada, esta história ia se transformando, se desenvolvendo, burilada, tomando caminhos insuspeitados, aproveitando-se das passagens clássicas de outros contos, tiradas dos livros, e outras, corriqueiras, inspiradas no dia-a-dia. O ponto alto era quando o pai, então menino, retornava dias depois para casa, na forma de um, pode-se dizer, sem licença poética, descomunal sapo-boi. Era sempre assim, quando a menina, na cadeira alta, com a boca cheia, o prato quase vazio, estivesse então com lágrimas nos olhos, o pai, com a voz suave, dava início ao já conhecido desfecho, tantas vezes contado e recontado: de como a sua mãezinha, a doce vovozinha da menina, apiedada da sina do filho, curou-o com benzimento e orações, mais chazinhos de erva-doce pela manhã, losna à tarde e boldo-do-chile à noite, e de como ele prometera, dali para a frente, ser um bom menino, não passar mais nem perto da floresta encantada.

– Ah, mas aquela casinha era toda feita de doces, portas de chocolate, janelas de açúcar cândi e telhados de doce de abóbora, uma tentação para as crianças da região.

A menina enxugava os olhos, com o dorso da mãozinha, a boca cheia, o prato vazio, raspado. O pai, então, arrematava a história, contando-lhe que, graças aos cuidados e simpatias da pobre mãezinha, ele fora aos poucos se curando, voltando ao normal, embora às vezes ainda coaxasse durante o sono e que, ainda hoje, mesmo adulto, a visão de um belo banhado lhe dá certa nostalgia.

Descida da cadeira, a menina rodeia o pai, ergue a camiseta dele, passa levemente o dedinho frio pelas suas costas. Fica, por alguns segundos, intrigada, examinando a ponta do dedinho.

– É, papai, você ainda tem as costas meio verdes.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

NANÁ (reprise)



por Edson Negromonte

Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.

Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.

A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.

Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.

Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.

Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes também na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.

Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.

Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.

Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se a bebida oferecida: vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até no corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.

Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.

O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

UM VEÍCULO, SIMPLESMENTE UM VEÍCULO


Edson Negromonte

A velhice concede aos velhos, somente aos velhos-velhos, um insuspeitado conceito de tempo, o qual leva à fruição sem culpa dos dias do passado. Assim, depois do sono da tarde, enquanto me acostumava novamente com os pequenos ruídos exteriores, vi desfilar uma parte da galeria de personagens que frequentava o sebo do qual eu tirei, durante muitos anos, o sustento da minha família: o poetastro local ainda olha-me, disfarçada e rancorosamente, por entre as páginas do seu livro de versos, ‘Florilégio”, indignado com o baixo preço que eu colocara em sua antologia; o guri que mocozava entre os seus gibis de super-heróis, com os quais ele entrara, outros gibis de valor mais alto, como se eu não percebesse (fez isso algumas vezes, até que tive de educadamente lhe chamar a atenção. Depois disso, ele tornou-se meu amigo); as prostitutas que faziam ponto na pequena praça em frente e, entre um cliente e outro, iam em busca das revistas populares de histórias românticas (uma delas pediu-me, certo dia, que lhe indicasse um bom livro, estava cansada da xaropada de Sabrinas e Biancas, com a única condição de que, se ela não gostasse do livro, o atiraria na minha cara. Indiquei-lhe “Horizonte Perdido”, temeroso. Tornou-se uma leitora voraz de livros, até que, um dia, comprou o calhamaço “Ulisses”, de James Joyce, por sua conta e risco, e nunca mais a vi); o adolescente tímido que chegou, segurando no braço da mãe, e sem dizer uma única palavra, apontou para o disco raro, de vinil, que estava no expositor, atrás de mim (era “Rocka Rolla”, do Judas Priest, importado. Depois disso, em uma terça-feira chuvosa, ele surgiu sozinho, tirou de baixo do agasalho uma sacola de supermercado, na qual trazia duas fitas VHS, com filmes de Roy Rogers. A partir desse dia, tornamo-nos amigos); a bela lolita, de fartos cabelos negros, e olhos ainda mais negros, que recitava poemas eróticos de Goethe, com um sorriso travesso brincando nos lábios; o comerciante de livros, que os comprava e revendia para clientes seletos, ao qual eu dava um bom desconto, para que ele tivesse uma substanciosa margem de lucro, pagando sempre em dia. Até que me aplicou um golpe de certa monta, utilizando cheque roubado. Encontrei-o mais tarde, na capital, vivendo como mendigo na Praça da Sé; completamente bêbado, não me reconheceu. Consternado, rezei por ele); também aqueles que leram meia dúzia de livros, gabando-se disso, como se houvessem cometido uma proeza intelectual; o físico de renome mundial que ninguém conhecia em sua cidade natal; sua humildade chegava a ser constrangedora. Presenteava-me semanalmente com vários volumes, os mais diversos assuntos, em várias línguas, inglês, alemão, francês; entrava quieto, saía calado, jamais disse uma palavra; o colunista social, com programa na TV Manchete, que ia todos os sábados, à cata de edições antigas de Bolinha e Luluzinha, cuja filha colecionava matérias sobre o pai, em início de carreira, em revistas antigas; os moleques guardadores de carro, de olhos vermelhos de cheirar cola de sapateiro, aos quais eu dava toda segunda-feira uma revista de super-herói, à escolha deles (Capitão América e Hulk eram os favoritos); a cliente que predisse que eu sofreria de Mal de Parkinson, de tanto ficar com a cabeça inclinada para a frente, absorto nas páginas de um livro; o rapazola, em busca dos seus pares, que mal sabia pronunciar o nome de Edgar Allan Poe,e que ficou ruborizado quando o corrigi (tornou-se, desde então, meu melhor amigo); o larápio, de mãos tão leves e rápidas, que enganou-me, durante o troco, levando com ele o seu dinheiro e o meu (levei muito tempo para perdoá-lo); o travesti que trabalhava no Banco do Brasil e que, justamente nos dias em que eu necessitava pagar as contas da livraria, não tendo de onde tirar, ele aparecia, como por encanto, e comprava um lote de discos de rock, de blues e soul, salvando o dia; o advogado que, arrependido, voltou ao sebo para reaver o livro que houvera anteriormente vendido e assustou-se com o alto preço que eu lhe pedira (como explicar a ele que eu comprara o lote todo somente por causa daquele livro e que o restante era legislação obsoleta, em desuso, sem valor nenhum?); o radialista que pediu a minha prisão no ar; o colecionador que me entregou um volumoso pacote, contendo vários exemplares da revista Tico-tico, em perfeito estado, com medo que a esposa os vendesse ao ferro-velho, após a sua morte; o jovem policial civil que a mim atribuía a sua escolha profissional por lhe ter fornecido os livros de bolso, com histórias de detetive, as quais ele devorava; o tímido técnico em eletrônica que contou-me, radiante, que estava construindo um aparelho para entrar em contato com os extraterrestres; a família agradecida por ter vendido ao filho mais velho um livro que ensinava a construir um abrigo nuclear (garantiram que tinha nele um lugar reservado para mim); aqueles que perambulavam por ali, folheando alheadamente os livros, indo embora sem nada comprar, de peito estufado, cabeça erguida, satisfeitos com a sensação de cultura adquirida, somente por respirarem o pó dos séculos que todo sebo detém; e tantos outros mais.

Mas o personagem que mais me tocou, em tudo isso, foi o menino que chegou, um dia, pela manhã, pedindo-me dinheiro para comprar uma coxinha, na padaria ao lado. Disse que não lhe daria o dinheiro, mas que lhe pagaria o salgadinho. Agradeceu e saiu lambendo os beiços, deliciando-se com a coxinha. No dia seguinte, quase no mesmo horário, o menino apareceu novamente. E no seguinte, também. Então, olhei bem para ele e, inspirado pela bondade cósmica, disse:

– Se você continuar assim, pedindo, você vai virar um mendigo, alguém que vive do que os outros rejeitam, você vai viver do resto dos outros. Você quer ser mendigo?

Ele virou as costas, entristecido, e foi embora.

Alguns dias depois, ele reaparece, todo sorridente, com um tabuleiro, pendendo do pescoço, com vários saquinhos de amendoim torrado.

– Quem comprar minduim, senhor?
– Viva, tá trabalhando!
– Eu falei pro meu pai o que o senhor me falou, ele fez três tabuleiros, um pra mim, um pro meu irmão e outro pra ele. Agora, nós tamo vendendo minduim.

Todas as vezes que ele foi me vender amendoim, fiz questão de comprar. Levava os pacotinhos, em forma de cone, feitos de papel de embrulho, para casa, no final do expediente. Meus filhos ficavam contentes com o amendoim salgado e torrado, depois da janta.

Alguns anos depois, saía com as crianças do cinema, onde fomos assistir “Indiana Jones e a Última Cruzada”, e entramos na fila para comprar pipoca, quando vejo o rapaz do carrinho de pipoca chamando-me com um aceno de mão. Fui até ele e vi que aquele rapaz era o menino que vendia minduim no tabuleiro. Não é a raposa que diz ao Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”? Pois, foi justamente essa frase que veio à minha mente naquele momento.

– Tá vendendo pipoca agora?
– Sim, esse carrinho é meu e aquele – disse, apontando para um outro carrinho que estava um pouco mais adiante – é do meu pai.

Quanta satisfação ao perceber que as minhas palavras, como sementes, tinham caído em terreno fértil. E isso aquece meu coração de velho todas as vezes que relembro essa história na qual eu fui um veículo para o Cósmico, simplesmente um instrumento. Depois, reencontrei-o em uma quermesse, no pátio da igrejinha de Mato Dentro, durante a festa da padroeira, quando fomos, eu, a mulher e as crianças, comprar amendoim salgado, em uma barraquinha, e uma voz, muito minha conhecida, vinda do carrinho de pipoca, gritou para o molecote que nos atendia:

– Põe os maiores pra ele!

domingo, 3 de setembro de 2017

UMA FABULAÇÃO DO SÉCULO PASSADO



Edson Negromonte

para a minha neta Ayana


Ela era tão pequenina que podíamos chamá-la de menininha, achávamos que ela jamais cresceria. Sofria muito no inverno, quando tinha de ir para a escola, pela manhã, pisando no chão quebradiço, congelado pela geada. Mas, mesmo com todo o frio que fazia, ela não parava um instante. Saracoteava o tempo todo. Nem quando a avó a chamava para limpar o nariz. Então, a vovozinha a fazia assoar em uma das suas anáguas. A avó vestia sempre várias anáguas, umas sobre as outras, como era costume naquela região fria, o sul do país. A menininha chamava carinhosamente a avó de Mãe Velhinha, era a mãe do seu pai, um tropeiro de boa cepa, duro como o cerne de um pinheiro solitário. Mãe Velhinha estava sempre atenta ás peraltices da menina, que gostava de se encarapitar na ameixeira. E, lá do alto, saboreando os frutos amarelos e suculentos, ela cantava bem alto “O Ébrio”, de Vicente Celestino, uma canção popular deveras triste para a pouca idade da menininha, mas era isso que tocava seu coração. Assim, encarapitada no alto da ameixeira, ela também gostava de ouvir as notícias da Segunda Guerra, no rádio ou da boca dos mais velhos, à roda do fogo, à roda do chimarrão. Ela e os irmãos brincavam de combater os adversários da liberdade. Um era o Churchill, outro o Stalin. À menininha, os irmãos impunham o papel do Tojo, o primeiro-ministro do Japão, só porque ela era a menorzinha e usava óculos de aro redondo, e eles precisavam de um inimigo. Seu herói favorito era o príncipe Namor, que combatia o nazismo nas páginas do Gibi Mensal. Ela era tão pequenina que, todas as vezes, precisava mostrar a certidão de nascimento à entrada do cinema, para poder assistir o capítulo semanal do seriado em cartaz. Depois, ela passava a semana com um cliffhanger na boca do estômago, embora não soubesse ainda o significado desta palavra. Ela gostava muito também do Capitão Marvel. E toda a família Marvel! A menininha nunca teve uma boneca. – Por que nunca lhe deram uma boneca? Então, ela dava um jeito: cantava cantigas de ninar para uma abóbora, a qual ela levava ao colo, enrolada em uma manta de tricô. Ela sonhava, talvez ainda sonhe, com um realejo, mas um realejo que fosse somente dela, com as notas metálicas de uma valsa vienense que jamais tem fim, com um macaquinho amestrado, de colete vermelho, de detalhes dourados. Vendo a tristeza da menina, tio João recortou para ela, de uma revista, importada da França, um realejo. E a menina andava para cima e para baixo com aquele realejo maravilhoso, de papel, sonhando a sorte de todos aqueles que a sonhavam. A menininha queria porque queria ir ao circo com seus pais, mas eles não queriam levá-la à sessão da noite. Então, ela enfiou um grão de feijão em cada buraco do nariz. Em vez do circo, foram todos parar no consultório médico, para a retirada dos grãos de feijão do narizinho da menina. Todas as vezes que a reencontro, ela aproveita a ocasião para recitar, cheia de graça, um reclame que se ouvia no rádio de então: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”.

domingo, 27 de agosto de 2017

O ESPORTE MAIS POPULAR DO MUNDO


Edson Negromonte

Tenho horror a futebol, horror à bola. E isso no país do futebol é uma aberração. Portanto,admito, devo admitir, sou um freak. Além do mais, coisa estranha, tenho o mesmo nome do Rei do Futebol. Não entendo por que, coincidentemente, meu pai deu-me o mesmo nome de Pelé, dois anos antes de ele estrear na Seleção. Logo eu, incapaz de simplesmente chutar uma bola. Pode parecer algo simples dar uma bicuda em uma bola, mas não é. Creiam, não é. Bem que o padre advertiu meus pais, na pia batismal: – Isso não é nome de cristão! Nome de cristão é José, Paulo, João!
O horror ao futebol, ou até o horror à bola, a qualquer esporte ou brincadeira que envolva esse corpo esférico conhecido como bola, pode ser algo mais profundo, pois causa-me, hoje, no mínimo, apreensão, mas na infância e, principalmente, na adolescência, causava-me aversão, repugnância. Tanta, a tal ponto, que sou incapaz de distinguir de imediato o que é, na TV, uma partida de vôlei ou basquete, sem antes raciocinar e recorrer à palavra basket, que, em inglês, significa cesta, cesto. Mas esse horror não me impedia, mesmo na infância, de saborear certas histórias relacionadas com o futebol, a mim contadas por meu pai, como a da origem do nome do chocolate Diamante Negro, assim batizado em homenagem a um craque do seu tempo, Leônidas, o criador do gol de bicicleta, uma proeza futebolística. Ou aquela que um amigo, sabedor do meu horror à bola, contou-me sobre a criação do basquete, que este esporte havia sido criado pelos vikings, os quais arremessavam, em vez de bolas, patos ao rochedo, que derivou para pato ao cesto, para vir a se tornar modernamente o basketball. Mas, infelizmente, acabei verificando que a história, apesar de bem engendrada, era mentirosa. A curiosidade sempre me conduziu aos mais diversos assuntos, mesmo ao futebol, em menor grau, é claro, muito embora jocosamente afirme que não consigo, em um álbum de figurinhas, distinguir entre Garrincha e Ademir da Guia.

A minha primeira lembrança, talvez a mais antiga, sobre futebol, é a de um Natal, em que eu devia ter no máximo oito anos de idade. Meu pai presenteou-me com uma bola de capotão, a qual meus amigos, cobiçosos, asseguravam ser linda. Indignado com o presente de mau-gosto, a minha reação imediata, na área de recreação, em frente ao prédio, onde os meninos se reuniam para exibir os presentes que o bom velhinho lhes trouxera, foi dar uma bicuda (por incrível que pareça, a raiva me fez conseguir essa façanha) em direção aos enormes cáctus do jardim, direto aos pontiagudos espinhos. Pressuroso, o zelador do prédio resgatou a tal bola de capotão do meio do espinheiro:

– Desse jeito, você vai acabar furando a bola!
– Quer pra você? É sua! – respondi.

Onde meu pai estava com a cabeça para me presentear com aquela bola de couro tão cara? Quantos gibis eu poderia ter comprado! Logo ele, que me abarrotava com todos os almanaques de fim de ano!

Nas aulas de Educação Física, as quais, naquele tempo, eram obrigatórias, o professor já chegava apitando o início de uma partida, para alegria dos meus colegas, que, antes disso, já tinham ajeitado os times. Eu dava graças a Deus por nunca ser escolhido e mofar, não no banco dos reservas, mas no dos enjeitados, até que, um fatídico dia, o professor apiedou-se de mim e forçou um dos times a me escalar. Em campo, eu fugia da bola, como se aquilo fosse um corpo incandescente, um meteoro. Mas a bola, aparentemente também apiedada, resolveu me conceder a chance de brilhar em campo, diante de todos ali presentes, o professor, os colegas, as garotas. E ela, a bola, veio em minha direção, apaixonada, entregue, e os meninos gritaram: “Chuta!”. E eu, sem entender direito o que estava acontecendo, chutei.

– Gol! – gritaram todos.

Sim, eu fizera um gol, eu estufara a rede! Mas, azar dos azares, tinha sido contra. Sim, um gol contra! Retirei-me do campo, da quadra, sob aplauso de uns e vaia de outros. O professor exigiu que eu voltasse e, se não o obedecesse imediatamente, iria enfrentar, no final da aula, o corredor polonês. “Corredor polonês, que merda é essa?” Qualquer coisa era preferível ao maldito futebol. Dolorosamente, descobri que o tal corredor polonês, também chamado de corredor da morte, era uma formação de duas fileiras, uma de frente para a outra, pelas quais se tinha que passar, recebendo socos, cascudos e chutes. Ao chegar em casa, cheio de hematomas e escoriações, meu pai levou-me à direção da escola, exigindo explicação para aquela barbaridade. Como tudo na vida tem os lados positivo e negativo, nunca mais fui obrigado a jogar bola nas aulas de Educação Física. Na Grécia Antiga, eu seria filósofo, que, presumo, fossem atletas fracassados.

A ojeriza pela bola só foi aumentando; bastava eu estar passando próximo de um campinho, onde meninos normais se divertiam batendo uma bolinha, uma pelada, para que a desgraçada percebesse a minha presença e viesse rolando em minha direção. Chegava a cair aos meus pés, toda oferecida. E, quando os meninos gritavam:”Chuta!”, eu olhava para eles com a boca aberta e ar de retardado, sem compreender o que queriam de mim. Às vezes, chegava a fazer-me todo torto, um aleijão, imitando Lon Chaney, em “O Corcunda de Notre-Dame”. Enquanto tranquilamente me afastava, na minha melhor imitação de Quasimodo, no meu íntimo, eu apostava que nenhum daqueles meninos sequer supunha quem era Alex Raymond. Ou Hal Foster. Ou Ray Davis. Ou Ziraldo. Ou Benício. Ou Walmir, os craques da minha Seleção

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

REDESENHANDO A VIDA


Edson Negromonte

para o meu neto Dimitri


O desenho me acompanha desde a mais antiga lembrança de minha infância, por volta dos três anos de idade ou até menos. Desenhar era, para mim, vital, minha arma, um Colt.45 contra o mundo. Foi o modo que encontrei, intuitivamente, de não me desesperar com as longas noites da insônia que me acometeu durante toda a infância e parte da adolescência. Ainda posso ver, com muita nitidez, o menino debruçado sobre um caderno pautado, enchendo-o com garatujas, e a figura da mãe, encostada no umbral da porta, de camisola branca, a cabeça inclinada, penalizada com a insônia do filho. Ainda tenho nítida a mesa enorme,de tampo escuro, as oito cadeiras sonolentas e incomodadas com a claridade do lustre de cristal; mesa que, com o passar dos anos, foi ficando cada vez maior, tomando conta de toda a sala de jantar, dos outros cômodos, do solar onde morávamos, em Blumenau. Ainda guardo carinhosamente na memória o gabarito do contorno de um cavalinho, presente do meu avô materno, com o qual cobri, uns sobre os outros, folhas e mais folhas, preenchendo o contorno ao bel-prazer do meu traço infantil. Além dos cadernos, eu preenchia também as cadernetas de receita de minha mãe; uma dessas cadernetas, de capa preta, ainda rolava pelas gavetas de sua casa há alguns anos atrás.

Depois, em Niterói, para onde nos mudamos, no início da década de 1960, lembro-me de uma passagem com o quitandeiro da esquina, a uma quadra do prédio onde fôramos morar, no bairro de Icaraí, à avenida Vital Brasil. Para aplacar a minha fome insaciável de histórias em quadrinhos (nessa época, as bancas eram abarrotadas por gibis para todos os gostos, e eu queria comprar todos, desde os de faroeste, os meus prediletos, até os infantis), eu vendia vidro para o garrafeiro, que passava gritando o seu pregão pelas ruas do bairro, e as revistas semanais e jornais para o homem da quitanda, o qual pagava um preço melhor. Assim, uma revista Manchete, cuja capa estampava o general, então presidente da República, Castelo Branco, foi parar na quitanda. Folheando a revista, o quitandeiro encontrou um desenho que eu fizera da carantonha do general, o qual ele colou na parede que ficava às suas costas. Devia estar bem feito, pois, quando lhe perguntavam quem o tinha feito, ele respondia, todo orgulhoso e sorridente: “Eu mesmo”. Calhou de minha mãe estar presente em uma dessas ocasiões. Ela, prontamente, disse a ele: “O senhor está mentindo, esse desenho é do meu filho!”. E calhou também de eu, enquanto ela fazia as compras, estar folheando as novidades na banca ao lado. Ela, de imediato, me chamou: “Esse desenho é seu ou não é?”. Entre envergonhado e penalizado, resmunguei: Mãe, deixa o homem dizer que é dele. “Não deixo não, o que é certo é certo, e a verdade deve ser dita”. Fazer o que diante de tal argumento? Nunca esquecerei da cara de tacho do quitandeiro, por trás do vasto bigodão.

Também em Niterói, na saída da escola, eu costumava gastar um bom tempo na banca do meu amigo Bill, um adulto que conversava comigo de igual para igual. Lógico que a conversa só poderia girar sobre quadrinhos. Bill pedia sempre para ver os meus desenhos. Ele dizia que eu desenhava muito bem, e vindo de quem vinha o elogio, do Bill!, o dono de uma banca de aço, na esquina da escola, (Nossa!, esse era o meu ideal de vida: ser dono de uma banca todinha minha!), é claro que isso me deixava muito contente. Um dia, fui surpreendido com a proposta de que eu fizesse, no muro, ao lado da sua banca, o desenho de vários heróis, um mural. Bill garantiu que providenciaria o material necessário e que eu poderia desenhar os heróis que quisesse, desde que eu incluísse, entre eles, o Fantasma, o seu favorito. Sem problema, Bill! Assim, preenchi aquela parede, traçando com giz branco (depois, Bill faria o contorno e preencheria com tinta, em um autêntico trabalho de equipe), com as figuras do Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Texas Kid, Águia Negra, Mandrake, Black Diamond, Buck Jones, Ferdinando, Tarzan e, evidentemente, o Espírito que Anda ou Fantasma Voador, como também era conhecido o Sr. Walker.

Uma outra passagem da minha infância, de que gosto muito, é a que envolve a madre superiora da escola em que minha tia lecionava. A freira, conhecedora dos meus dotes artísticos, pediu que eu desenhasse uma história em quadrinhos, a qual ela deixaria exposta na escola. Na época, eu estava proibido de desenhar faroestes, o meu tema favorito, no qual eu me esmerava, caprichando nas cenas de duelo, nos tiroteios, enforcamento etc. Convencido pelos amigos e parentes, “preocupados” com a minha educação (uma outra tia chegou a vaticinar que eu seria um débil mental, de tanto ler gibis), meu pai tinha me proibido a leitura de histórias violentas. Logo as minhas favoritas. Sorte que não proibiu de assistir na TV as séries de faroeste, como Bat Masterson, Paladino do Oeste, O Homem do Rifle, Bonanza, nas quais morria gente a torto e a direito. Então, a pedido da bondosa freira, engendrei a mais violenta e inescrupulosa história com o pato Donald e seus sobrinhos, com tiroteio e pancadaria, que culmina com a expulsão, a pontapés, do tio Patinhas da sua caixa-forte, pelos sobrinhos, os quais se apropriam da fortuna do velho sovina. O último quadro mostra os sobrinhos tomando um merecido banho na piscina de moedinhas douradas. Então, ao perceber que, sem saber, eu estava enveredando, intuitivamente, pelo perigoso caminho do comunismo, meu pai suspendeu a proibição, acabando por me presentear no Natal, com vários pacotes, contendo todos os almanaques de férias que conseguira encontrar; e isso, naquela época, não era pouca coisa.

Outra passagem que gosto muito é a do caderno de Religião. A primeira folha deveria ser deixada em branco, onde poderíamos fazer um desenho, aqueles que soubessem desenhar (que merda! Eu sinceramente acredito que todos sabem desenhar, basta ter confiança em si mesmo e premeditar o traço seguinte, como o golpe de um samurai), ou colar uma decalcomania. Evidente que eu me esmerei no meu desenho, como todo moleque eu ansiava pelo aplauso dos mais velhos. O professor levou o meu caderno para o diretor, o diretor chamou o meu pai (ele exigiu que fosse o meu pai). Quando o diretor pediu a presença do macho da casa, eu já comecei a perceber que tinha cometido uma cagada qualquer na ilustração da primeira página do meu caderno de Religião. O resultado da conversa entre meu pai e o diretor foi a minha transferência para outro colégio. Inusitadamente, para um colégio de freiras. Ah, a ilustração? Tudo isso por causa de um desenho que mostrava um simples cemitério, com uma única lápide de pedra, na qual constava a inscrição “Aqui jaz Búfalo Bill”.

E, por ora, é só! Depois, eu conto mais.