por Edson Negromonte
Acordei pensando em Linne... O que terá acontecido com ela? Terá sido adotada por madame Sénégal, a zeladora? Por que eu acordaria preocupado com uma gata mourisca, mesclada de amarelo e branco, que viveu há mais de cem anos? Só porque ela pertencia a Claude Debussy? Bem, sim e não. Alguns dirão que a minha preocupação é apenas uma artimanha, ou quem sabe “pose”, em busca da inspiração que não vem; outros, os de veia literária, me compreenderão, assim espero. Linne presenciou os acontecimentos da posição mais privilegiada, a de voyeuse. Quisera eu ter estado no seu lugar e presenciado todas as cenas de amor entre Claude e Gabrielle Dupin, a doce Gaby, a quase sempre doce Gaby, que surgiu na vida de Claude em um desses acasos que o destino é tão hábil em criar. Antes de Gaby, a única companhia feminina do músico era a gata Linne, resgatada do latão de lixo logo que ele se mudara para o velho prédio, no número 42 da Rue de Londres, próximo à Estação Saint-Lazare, onde alugara o sótão. É claro que, como todas as fêmeas, Linne fez-se notar com um lânguido e cativante miado; Claude, carregado de partituras para transcrição, abraçou-a e, desde esse dia, passou a dividir com ela o seu mísero lar, no segundo andar, cheio de goteiras e nenhuma calefação. Agora, num surto metempsicótico, é melhor deixar que Linne conte a maravilhosa história do tempo que conviveu com Claude Debussy, o mais brilhante e inventivo compositor da música erudita francesa.
“Desde a manhã em que o vi, apaixonei-me por ele, perdidamente, o ar romântico, o andar com a cabeça nas nuvens e, principalmente, as duas suculentas sardinhas que me oferecera logo no primeiro dia. Após essa lauta refeição, eu me enrodilhei na sua cama, ainda desfeita, aliás, sempre desfeita (mesmo após a chegada de Gaby) e ali adormeci, ronronando de felicidade e satisfação. Felicidade por ter encontrado um lar aconchegante, depois de tanto perrengue, e a satisfação da barriga cheia. Ou seria o contrário: a felicidade da barriga cheia e a satisfação de um lar? O que sei é me resolvi a nunca mais sair dali, daquela cama quentinha, do aconchego dos braços de Claude, a segurança de um lar. Sim, a segurança de um lar! Muito embora os poetas apregoem a independência dos gatos, nós também precisamos nos sentir seguros, ter um lugar quentinho para as noites frias de inverno, para nos abrigarmos principalmente da chuva, das nevascas.
“O primeiro Natal que passamos juntos, eu e Claude, fazia um frio terrível, o vento entrava assobiando pelas frestas do sótão, o qual Claude insistia em chamar de mansarda; as goteiras chegavam a congelar, formando, no meio do cômodo, duas horrendas estalactites que mais pareciam os caninos medonhos de um canzarrão. Em meio a isso tudo, reclinado na cama, ao meu lado, Claude musicava uns versos de Paul Verlaine, acho que 'Arietes Oubliées'. Quando o inverno abrandou, Claude pode sair de casa para visitar os editores. Voltou radiante, conseguira vender algumas das suas composições. Como a chegada da primavera deixa as pessoas melhores... Não mais as caras enfezadas do inverno, esse inverno lamacento de Paris. Apesar de prometer a si mesmo que, desta vez, seria previdente, sem torrar em poucos dias o pouco que recebia, chegou em casa, trazendo um vaso com as mais belas tulipas que eu já vi, em vez de comprar um guarda-chuva. Mas quem precisa de guarda-chuva na primavera parisiense? São só uns poucos respingos aqui e ali, uns aguaceiros ocasionais... Era bom, assim as minhas sardinhas matinais estavam garantidas. Um dia, chegou com um chapéu muito estranho, de abas largas, que ninguém, em sã consciência, ousaria usar. Mas não é pedir muito coerência a um gênio? Desde cedo, ainda menino, Claude tinha um gosto extravagante, Enquanto as crianças da sua idade gastavam as economias nos doces mais baratos, guloseimas de baixo preço, ele comprava um bombom finíssimo, de paladar refinado. Assim era Claude; em vez de gastar o que recebera em um aquecedor ou no conserto do telhado, comprava uma caríssima almofada de seda, com motivos japoneses, na qual eu me refestelava, sem nela afiar as unhas, pois, nós, gatos, sabemos muito bem onde podemos ou não nos espreguiçarmos. E numa obra de arte, jamais. Além da arte japonesa, outra paixão de Claude eram os livros; costumava percorrer as barracas às margens do Sena e, evidentemente, gastava nelas o que tinha no bolso. Não sei explicar como, mas as minhas deliciosas sardinhas sempre estiveram garantidas. Às vezes, uma somente, enquanto Claude se alimentava de uma única ração de pão e chá o dia todo. Nessas ocasiões de vacas magras, eu apelava para o coração bondoso de madame Sénégal, que sempre me servia um pratinho de leite. Raras vezes, tive de apelar novamente para as latas de lixo da vizinhança. Mesmo assim, jamais culpei Claude por isso ou aquilo, ou melhor, pelo ronco no estômago. O que ele não podia me dar de comida, prodigalizava em carinho e atenção, contando-me os seus planos. Fomos grandes confidentes. Até o dia em que Gaby se embarafustou sótão adentro, trazendo consigo sua mudança em dois malões e uma arca, abarrotados de roupas finas, enquanto Claude estava fora. Levei um susto daqueles! Então, essa era a causa do sorriso constante do compositor nos últimos dias: uma fêmea da sua espécie. E que fêmea! De início, nos estranhamos quando ela me enxotou de cima de uma das suas caríssimas lingeries, estendidas na cama. E como, apesar do ciúme, desgostar de alguém com o mais belo par de olhos verdes que eu já tinha visto? Sua pele era sedosa como um pêssego maduro. Quando ela me tomou nos braços, tive a intuição de que nos daríamos bem, aliás, muito bem. Se Claude a amava, eu também a amaria, apesar do susto inicial. Pois não é assim com as grandes amizades, com os grandes amores, sempre precedidos de uma aversão inicial? 'Os extremos se tocam', aprendi isso observando um cachorro que mordia o próprio rabo, rodando feito uma carrapeta. Gaby não era como as prostitutas que, vez ou outra, Claude trazia para casa, para a higiene do corpo ou para 'afogar o ganso', como dizem os homens e não os gansos. Não, Gaby era de outra estirpe: uma bela mundana, vinda do interior, à cata de um milionário. Como Paul não tivesse onde cair morto, ela já chegou avisando que permaneceria ali somente três meses, o tempo de seu pretendente rico voltar de uma viagem de negócios. Eu logo percebi que essa estada se prolongaria; esses lampejos repentinos e tão verdadeiros aos quais não damos muita atenção no momento. Como as mulheres se sentem atraídas pelos homens frágeis que não tiveram o carinho materno. E, para elas, Claude era um prato cheio; seus aveludados e intransponíveis olhos negros escondiam o desamparo do gigante, prontos a se apaixonar pela primeira que se enternecesse por ele.
"Como eu bem adivinhara, passaram-se os três meses e nada de Gaby ir embora, de volta ao seu milionário. Se ela admoestava Claude pela falta de senso prático, ela tampouco o tinha também. Em vez de se mudar para a tão almejada vida de luxo e riqueza, ela parecia ter prazer na miséria a que os inventores estão condenados desde o alvorecer da humanidade. Gaby ficava encantada de poder cozinhar para ele, varrer o chão, limpar a fuligem de cima do piano, devido à proximidade da estação ferroviária, lavar as suas roupas, passá-las; uma verdadeira dona de casa, apesar da casa em questão ser um sótão miserável, agora abarrotado com os móveis que ela comprara: dois guarda-roupas para acomodar as suas roupas e uma mesa onde podiam, então, fazer as refeições. Guardadas as proporções, parecia uma família burguesa, com o infalível bichinho de estimação.
“Com a vinda de Gaby, Claude estava agora realmente nas nuvens; nada como a presença feminina em uma casa para torná-la acolhedora, com cortinas e chão encerado, apesar das crateras dos cupins. Nos dias quentes, ela andava pela casa vestindo somente um aventalzinho diminuto, que mal cobria as partes íntimas, para deleite de Claude que, de repente, saía do emaranhado das notas musicais e a atirava na cama. Grande parte da sensualidade da peça 'Prélude à l'après-midi d'un faune', inspirada nos versos de Stéphane Mallarmé, é devida à formosura carnal de Gaby. Claude estava mesmo muito feliz. Gaby usava o arsenal de encantos de que dispõe a mulher não só com Claude, mas nas ocasiões em que fosse necessário. Assim foi com o senhorio, quando este entrou no sótão, apoplético, exigindo receber os aluguéis atrasados. Assim foi também com o alfaiate, que exigia o pagamento imediato dos ternos que tinha feito para Claude. A suavidade da voz de Gaby era capaz de amansar a mais sanguinária das bestas-feras.
'Quando Claude tinha que se ausentar para dar aulas de piano ou visitar os editores, em busca de trabalho, Gaby não sabia o que fazer sozinha dentro de casa. Apanhava uma das suas novelas policiais e tentava ler, indócil, sossegava somente quando distinguia os passos dele na escada. Pulava, então, da cadeira e ia recebê-lo na porta, com beijos e mais beijos, como se tivessem passado um mês sem se ver. Ah, como é lindo o amor! De vez em quando, ela inventava umas idas a Lisieux, para visitar a família. Não sei até que ponto isso era verdade. As fêmeas de qualquer espécie são muito espertas: quando querem trair, traem nas barbas do amante. Isso foi só uma suposição, eu nunca a segui para me certificar. Queria, assim como Claude, tenho certeza, uns dias de paz. Não que viver com Gaby fosse ruim, mas a gente precisa, às vezes, de algum sossego. E a língua de Gaby não dava trégua, onde ela estivesse era uma azáfama, um burburinho, ah, a tagarelice das mulheres. Precisávamos um pouco de paz doméstica. Claude, para compor; eu, para dormir, caçar uns ratos. Com Gaby presente, nada disso era possível. Ao voltar, queria contar tudo o que lhe acontecera, chegava a atropelar as palavras, as faces rosadas, os olhos verdes mais verdes ainda. Claude aproveitara a sua ausência para retomar “Pelléas et Mélisande”, febril, interrompida somente pela visita de Pierre Louÿs, um poeta de boa cepa, grande amigo.
“Foi depois de uma das idas a Lisieux que Gaby começou a se tornar irritadiça, qualquer coisa era motivo para discussão, para brigas. Chegou mesmo a gritar com Claude (como podia alguém erguer a voz com ele?), cobrando-lhe que ganhasse dinheiro com a sua música, que escrevesse canções assobiáveis, que pudessem ser tocadas nos cabarés. Quem ela estava se achando? A mulher dele? Quando Claude voltou de Bruxelas, onde fora visitar o amigo Eugéne Ysaye e levar-lhe alguns exemplares do seu quarteto para cordas, encontrou Gaby arrumando as malas. Sem o seu conhecimento, a louca tinha alugado um apartamento de três quartos, no quinto andar de um prédio à Rue Gustave Doré. Pela primeira vez, vi Claude realmente bravo. Saiu batendo a porta, dizendo que não queria vê-la ali quando voltasse. Depois de uma hora, encontrou-a ainda chorando na cama. Quem resiste às lágrimas de uma mulher, sejam elas falsas ou verdadeiras? Dali a alguns dias, mudaram-se para a casa nova. Eu, como bom felino, dei no pé, desapareci feito fumaça, me escafedi. Foi um tempo muito bom esse que lhes fiz companhia, principalmente a ele, mas algo me dizia que na casa nova eu não seria feliz, perderia a tão prezada liberdade. Daí em diante, soube de Claude somente pelos jornais, mas deixo que outros, com mais propriedade, continuem a história; a minha parte está contada.
“O leitor, atento, deve estar se perguntando por que, nesses anos todos de convivência com Claude, eu nunca o apoquentei com ninhadas de gatinhos. Como todos sabem, os artistas, os de verdade, aqueles que vêm para abalar as estruturas, são seres oriundos das estrelas (e Claude, o maior de todos, viera das mais altas esferas cósmicas) e, sei lá por quê, ele achou que eu era uma fêmea, apesar de ter feito aquele exame constrangedor e desnecessário que os humanos fazem nos gatos, as pernas abertas, para saberem o sexo; bastava ver a quantidade de cores. Se têm três cores, são fêmeas; se forem de duas cores, são machos. Portanto, eu era um belo representante da espécie, apesar de ter passado à história como fêmea”.
Nem sempre, Linne, nem sempre.
(Este conto foi escrito após a leitura de “Clair de Lune”, a biografia romanceada de Claude Debussy, de autoria de Pierre La Mure; Edições Melhoramentos, 1966).
sexta-feira, 25 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
MERAQ
por Edson Negromonte
Ao meu neto Vlad
Seu nome era Meraq, embora eu mesmo não tenha certeza disso. Esta foi a única palavra que ele pronunciou e, justamente por isso, Meraq foi, Meraq continuará sendo. É uma possibilidade que muito me apraz, gosto de pensar assim, porque Meraq é uma das estrelas do setestrelo, a constelação da Ursa Maior. Eu era, então, um rapazola de quatorze anos, com a cabeça cheia de curiosidade e o coração ávido por descobertas bizarras e extravagantes, como todos os garotos da minha idade. É, talvez eu fosse um pouco mais bisbilhoteiro que a média desses garotos. Minha imaginação assaz estapafúrdia, reconheço, levava-me a conclusões que outros jamais chegariam ou, melhor, não a exprimiriam, por medo do ridículo. Na primeira tarde em que me instalei naquele banco de madeira, comprido e pesado, como deviam ser todos os bancos de estação, ele já estava ali, já fazia parte da paisagem ferroviária e ninguém o notava mais. Todas as vezes em que,voltando da escola, eu o via sentado, imóvel, assustava-me a sua figura invulgar. Eu o associava às cabeças de pedra da Ilha de Páscoa, a perscrutar o horizonte longínquo. Ou a uma monstruosa gárgula. Seria mais condizente associar sua imagem à de um troll, ser mitológico que oscila entre a grandeza e a pequenez? Na ida para a escola, eu não podia perceber a sua figura quimérica, não que meus olhos ainda estivessem remelentos, devido à poeira noturna neles soprada pelo Senhor dos Sonhos. Não, o Homem da Areia não mais me atormentava, tinha se debandado para os lados do meu irmão mais novo, que ainda acreditava nas suas maldades. É que eu, sempre atrasado, fazia correndo um caminho mais curto, um atalho perigoso, atravessando os quintais da vizinhança para não perder o horário da primeira aula, pulando cercas e sebes, atraindo com isso os latidos dos cães, o desesperado cacarejar das galinhas e o xingamento dos moradores. Nesse tempo, eu me preocupava em chegar cedo à escola, ao Colégio Valle Porto, apesar de detestar aqueles professores cacetes que se julgavam os senhores absolutos das almas dos pequenos escravos, aos quais chamavam eufemisticamente de alunos, aprendizes ou, pior, “meus filhos”. Só se com isso quisessem dizer “filhos da puta”. Na volta, com todo o tempo do mundo à minha disposição, eu fazia questão de passar pela plataforma da estação, bem devagar, disfarçadamente, como se estivesse a admirar a arquitetura de ferro, vinda diretamente da Inglaterra, a fim de investigar aquele vagabundo, de olhar aparentemente vago, deambulante. Não quero, com o termo “vagabundo”; dizer que Meraq fosse um desocupado ou um ocioso; uso-o não de forma pejorativa, mas como os poetas, um “wanderer”, aquele que perambula, faço questão de deixar bem claro. Eu quase parava em frente a ele, mas algo dentro de mim dizia que ainda não era chegada a hora do primeiro contato, que ele podia se assustar e fugir, ou me atacar, quem sabe. Então, eu me veria na contingência de fugir do perigo, escafedendo-me, ou de enfrentá-lo com toda a garbosidade de um rato encurralado, sem a mínima probabilidade de chegar à toca. Ou com a intrepidez dos incas venusianos, que só atacavam National Kid em bando. Como já deve ter dado para perceber, nessa época eu era dado à leitura de quadrinhos de ficção científica, também não perdia um filme desse gênero, seja na TV ou no Cine Ópera, o único cinema da cidade. Por precaução, talvez porque ainda não dispusesse de uma arma de raios laser, adotei a tática de me aproximar dele, de Meraq, devagar, lentamente, sem impor a minha presença, como bom terráqueo. Ou como um terráqueo bom? Assim, passei semanas, quase dois meses (três?), nesse processo que eu já considerava sem resultado. Pelo menos, sem efeito aparente; ele sequer desviava o olhar quando eu atravessava o feixe luminoso dos seus olhos, nem mesmo piscava.
Um dia, desses em que “estamos para o crime”, como se diz, tomei coragem e sentei-me na outra ponta do banco, bem distante, o mais distante possível, que eu não era bobo nem nada. Fiquei encarando-o, melhor, olhando-o de esguelha, como quem não quer nada, analisando o perfil intrigante. Parecia humano, aliás, humanoide, com aquele olhar irritante, porque intrigante, que não só me ignorava, mas a todos os transeuntes. Mas, como eu aprendera, assistindo trocentas vezes a “Vampiros de Almas”, os extraterrestres são muito espertos e capazes de tomar a forma humana com uma perfeição absoluta. Quase absoluta, que eu bem sabia quem eram os invasores ali. Se ele se achava espero, eu era sagaz. Ousadamente, mexi-me no banco, para chamar sua atenção. Funguei, resmunguei, e nada, necas de pitibiriba, não movia um único músculo da face, tal e qual Klaatu. Comecei, então, a assobiar. De início, baixinho, pode-se dizer um sussurro, desses assobios sorrateiros que não querem incomodar ninguém, como fazem os velhos, relembrando velhas canções da juventude distante, que só a eles dizem respeito. Nada! Nem uma contração. Em seguida, assobiei um pouco mais alto. Nada, nem aí. Ignorava-me totalmente, alheio a tudo. Indignado, tomado de coragem, como os covardes ante a inércia do oponente, botei dois dedos na boca, ajeitei a língua e soltei um silvo daqueles, de assustar defunto, porque, sem querer me gabar, eu sou bom nisso: no guardamento da minha avó, meu pai, descrente, pediu que eu desse um estoura-tímpanos desses, o mais estridente possível, no ouvido da morta, para se certificar de que a sogra tinha mesmo esticado as canelas. Posso dizer que fiz o meu melhor, nem eu me julgava capaz de tamanha façanha, assustando todos os parentes e não-parentes presentes, estarrecidos com o silvo lancinante, desequilibrando-os. Quem estava chorando, passou a rir, de maneira incontrolável, um riso nervoso, e quem ria, começou imediatamente a carpir, feito comadre desesperada, com sentimento de culpa. Se tivesse sido gravado, como prova, eu hoje estaria no Livro dos Recordes. A velha, assim como Meraq, permaneceu impassível, nem bola. Somente depois disso, pôde ser lavrado o atestado de óbito, era a comprovação definitiva da morte da minha vovozinha. Contei isso, não porque meu pai desgostasse da mãe de minha mãe, mas porque em nossa família houve, pelo menos, um caso conhecido de catalepsia, com um tio-avô, irmão de vovó, tio Aloísio: contavam que, quando abriram o caixão, após vinte anos do sepultamento, a tampa estava toda arranhada por dentro. Vó Pérola tinha muito medo que a enterrassem viva, meu pai “compartilhava” do temor da sogra, mas por razões diversas. Ora, por que escrevi isso? Pelo que sei, sogra e genro sempre se deram muito bem; ele costumava dizer que vó Pérola era “uma joia de pessoa”. É, podia estar sendo irônico, querendo dizer uma joia falsa, bijuteria. Por um momento, cheguei a pensar que Meraq talvez fosse um morto-vivo. Como alguém podia não se sensibilizar com a potência do meu assobio? Era fazer muito pouco de mim. Enfurecido, levantei-me de supetão.
– Que fique aí, seu zumbi de bosta! Vou jogar bola que ganho mais.
Mas a atração que eu sentia por Meraq era muito maior que o orgulho ferido. Na tarde seguinte, lá estava eu, sentado na beirada do banco, a olhá-lo, pronto para pôr em prática um plano: trazia comigo, no embornal um delicioso sanduíche de lombo de porco, com pasta de amendoim e folhas de rúcula fresquinhas. Que extraterrestre não sucumbe a essa guloseima terráquea? Como eu sei disso? Ora, qualquer menino, nem precisa ser muito esperto, sabe que os alienígenas são incapazes de resistir a um sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula, a perdição deles. Seria esta a tentativa definitiva para descobrir se Meraq era marciano ou morto-vivo. No caso de morto-vivo, teria que substituir a iguaria caseira por um lanche do McDonald”s; você sabe como essas criaturas são loucas por shoppings, consequentemente por junk food. Daí, seria mais difícil, moro numa cidade pequena, longe da capital. Mas eu daria um jeito, ah, se daria, quando eu quero alguma coisa, vou até o inferno e peço a bênção ao Diabo. Nem tanto, mas é o que diziam de mim lá em casa.
Então, coloquei o sanduíche no banco, entre mim e Meraq. Fiquei olhando para o vazio, imitando-o, fingindo imitá-lo, mas com um olho no peixe e o outro no gato, dando uma de zarolho. Ele, imóvel. Passaram-se horas, até que o trem das oito apitou, chegando à estação, vindo de Curitiba, depois da baldeação em Morretes. Os passageiros desembarcavam apressados, desesperados, loucos para irem para as suas casas, que um temporal diluviano se anunciava, trovões ribombavam, raios serpenteantes rasgavam a cortina negra do céu, ocasião mais que apropriada para aquele frankenstein tomar vida. Isto é, se, por ventura, um desses raios lhe fendesse a cabeça. Mas nada. Nem uma piscadela. O retinir cristalino do velho sino de bronze da estação trouxe-me de volta ao mundo imediatista dos mortais. Receoso (temeroso?) com a tempestade iminente, sem nenhuma vocação para cientista maluco, achei melhor ir para casa; o aconchego do lar quentinho é o lugar ideal dos pesquisadores da vida fora da Terra. Em situações-limite, descubro que sou mesmo é um competente pesquisador de gabinete. No campo, há sempre o perigo de um ataque de formigas-gigantes ou de abelhas assassinas. Acabei esquecendo, não de propósito, mas pelo Providência, creio eu, o sanduíche intocado no banco da estação.
No dia seguinte, gazeei as aulas e fui bem cedo ao encontro de Meraq. Encontrei-o, como sempre, sentado no mesmo banco, no mesmo lugar, na mesmíssima posição. Acomodei-me um pouco mais próximo dele, um palmo, talvez mais, talvez menos; eu já estava um pouquinho mais confiante. Em mim mesmo e nele também, parecia àquela altura tão inofensivo que se eu mijasse no seu pé não teria reação alguma. Mas, apesar de pensar nessa possibilidade, não fiz isso. Não por consideração ou respeito pelos outros, é que eu ainda não era o feliz proprietário de uma arma laser. Lembrei-me, então do sanduíche que havia esquecido no banco da estação. Não estava mais ali! Algum vira-lata o teria comido? Não, porque esse ceticismo todo? Sim, ele o tinha comido! Ele, Meraq, o alien, o tinha saboreado, talvez até devorado, quando ninguém podia observá-lo. Então, definitivamente, Meraq era um e.t. legítimo. Menos mal, detesto zumbis, são uns consumistas nojentos. Zumbis são alienados, não compreendem os fatores políticos, sociais e culturais que os condicionam e os impulsos íntimos que os levam a agir da maneira que agem. Quando pronunciavam essa palavra (zumbi, argh!) perto de mim, ficava imediatamente ouriçado, pensando que não seria nada mal ter uma 45 à mão para detonar essas criaturas infernais que até hoje me causam um asco de revirar as entranhas. Argh novamente! Desse dia em diante, parei de frequentar as aulas, passava o dia todo com o meu mais novo e dileto amigo. Com ele, apesar do seu mutismo, aprendi muito mais do que já houvera aprendido na escola. A única vez que ele abriu a boca foi para pronunciar “Meraq”. Assim, como já disse, deduzi que Meraq era o seu nome. Talvez nem fosse, mais provável que fosse o seu planeta de origem, ou a sua estrela. Ou um arroto: Meraq! Como Charles Atlas, eu precisava somente de um ponto de apoio no espaço para erguer o mundo e, assim, apoiei-me nessa palavra, Meraq. Para um menino sonhador, afeito às fantasias, o solo líquido do pântano é certamente muito mais firme que o asfalto. Acostumei-me a, todos os dias, levar para ele o sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula. Agora, eu já o entregava em suas mãos, éramos amigos, afinal. Sei que éramos amigos íntimos, tenho certeza disso. Logo depois de saborear essa delícia, sem olhar para mim, mas para um ponto indefinível no espaço, o qual, com o tempo, aprendi a localizar, a focalizar, passávamos a conversar mentalmente, uma conversa de hipófise para hipófise, se é que você me compreende, um diálogo espiritual. Como a direção da escola tivesse alertado os meus pais de que eu estava faltando muito às aulas (eles, meus pais, pensavam que eu estivesse indo para o campinho, jogar bola; até um tempo atrás meu sonho era ser jogador de futebol. Por isso, meu pai não se importou muito que eu andasse cabulando aula, sonhava fazer de mim um novo Heleno ou um Garrincha), Meraq me aconselhou a frequentar as aulas durante alguns dias para que não me vigiassem em excesso, senão nossos encontros podiam ir por terra. “Ir por terra”, hahaha, entendeu o calemburgo? Foi, também, por aconselhamento dele que desisti de ser jogador profissional. Cabecear a bola, como eu gostava de fazer, podia afetar a minha glândula hipófise, o único meio de nos comunicarmos. Dei-lhe razão ao constatar a quantidade de débeis mentais que há no futebol, gente incapaz de formar uma frase com início, meio e fim, ou sujeito, verbo e predicado.
Meraq foi o mestre que todos os meninos deveriam ter, seus ensinamentos ampliaram tanto os meus horizontes que se assemelhavam às portas da percepção de William Blake, o poeta inglês que apanhava da mãe por conversar com os anjos. Subentenda-se “anjos” como seres vindos do espaço exterior. Com Meraq, tive as mais incríveis experiências além do meu corpo físico, do meu corpo sideral, comunguei com o Buda interior, penetrei nos recônditos da Terra e fiz contatos de terceiro grau com Júlio Verne e H.G. Wells, aprendi o que é o amor incondicional, meu coração transbordava de amor pela humanidade, embora execrasse o ser humano. Com Meraq, toquei as cordas da harpa celestial. Levou-me também aos reinos inferiores, onde as criaturas choram sem descanso, impediu-me de romper o cordão de prata, mostrou-me as almas envilecidas dos criminosos, levou-me a Cuiabá para conhecer o coronel Fawcett, o qual vive até hoje disfarçado de vivandeiro; apresentou-me a Christopher Marlowe, que me garantiu que jamais tinha existido, a não ser na mente do seu criador, Francis Bacon, acompanhei-o a Nuremberg, para velar o corpo ainda em decomposição de Kaspar Hauser... Meraq jamais admitiu que eu o chamasse de mestre, advertindo-me de que cada homem é o mestre de si mesmo, bastando ouvir a voz silente, quase imperceptível, mas firme, da consciência do Universo. Por muito tempo, eu associei essa voz à de Charlton Heston.
Mas como nada é eterno nessa terra (ou nesta Terra? Ainda hei de desvendar este mistério), um dia, pela manhã, cedinho, não encontrei o camarada Meraq no costumeiro banco. Desesperei-me, sim, sucumbi ao choro da criança que ainda reside em mim, em meu coração eternamente infantil, pois chegara repentinamente o momento, por ele previsto, sem que eu me sentisse preparado, em que eu deveria andar pelas próprias pernas, em que o aprendiz, tendo alcançado o degrau da escada do conhecimento a que o mestre não está preparado para galgar, assim como vem acontecendo com Dante e Virgílio durante séculos, a cada nova leitura, a cada novo leitor, da “Divina Comédia”, vê-se só, sem ninguém a quem recorrer, sem uma mão compassiva, contando somente consigo mesmo, momento crucial em que tantos se acovardam e desistem. Sentei-me desconsolado no velho banco, justamente no lugar que Meraq ocupara, chorando as lágrimas mais sentidas de toda a minha existência. Foi quando o guarda da estação, tocou-me no ombro, com um leve aperto fraternal:
– O seu amigo foi preso, ontem de madrugada...
– O que você tá dizendo?!
– Que ele foi preso ontem de madrugada, a polícia veio aqui e o levou, acusando-o de ter violentado a professorinha Naná...
– Mas isso não é verdade!
– Eu bem que disse à polícia que ele não saía daqui, dia e noite, mas me mandaram calar a boca. Disseram ainda que ele era um merda de um guerrilheiro do Araguaia, matou doze, pode?, que era viviado em crack, traficante, essas coisas...
Todas as minhas tentativas de falar com Meraq, na cadeia, foram inúteis; não lhe era permitido receber visita, foi-lhe negado advogado, nem a banho de sol teve direito. Soube, sete dias depois, pelo soldado Edmur, que deve ser boa gente, apesar de servir às forças de repressão, o qual deve ter se condoído do meu desespero ou, quem sabe, para aumentar o meu sofrimento (há seres das trevas que se alimentam disso, da dor alheia), que Meraq tinha se enforcado na cela, depois de barbarizado em uma sessão de tortura, comandada pelo delegado Fleury em pessoa. Morreu como heroi, sem abrir o bico, sem entregar ninguém. Seu corpo jamais foi reclamado. Contou-me, ainda, o soldado Edmur que Meraq rabiscara, na parede da cela, as palavras MERAQ IZT FRE. Eu sei o que isso significa e jamais revelarei a ninguém, é uma questão de lealdade.
Ao meu neto Vlad
Seu nome era Meraq, embora eu mesmo não tenha certeza disso. Esta foi a única palavra que ele pronunciou e, justamente por isso, Meraq foi, Meraq continuará sendo. É uma possibilidade que muito me apraz, gosto de pensar assim, porque Meraq é uma das estrelas do setestrelo, a constelação da Ursa Maior. Eu era, então, um rapazola de quatorze anos, com a cabeça cheia de curiosidade e o coração ávido por descobertas bizarras e extravagantes, como todos os garotos da minha idade. É, talvez eu fosse um pouco mais bisbilhoteiro que a média desses garotos. Minha imaginação assaz estapafúrdia, reconheço, levava-me a conclusões que outros jamais chegariam ou, melhor, não a exprimiriam, por medo do ridículo. Na primeira tarde em que me instalei naquele banco de madeira, comprido e pesado, como deviam ser todos os bancos de estação, ele já estava ali, já fazia parte da paisagem ferroviária e ninguém o notava mais. Todas as vezes em que,voltando da escola, eu o via sentado, imóvel, assustava-me a sua figura invulgar. Eu o associava às cabeças de pedra da Ilha de Páscoa, a perscrutar o horizonte longínquo. Ou a uma monstruosa gárgula. Seria mais condizente associar sua imagem à de um troll, ser mitológico que oscila entre a grandeza e a pequenez? Na ida para a escola, eu não podia perceber a sua figura quimérica, não que meus olhos ainda estivessem remelentos, devido à poeira noturna neles soprada pelo Senhor dos Sonhos. Não, o Homem da Areia não mais me atormentava, tinha se debandado para os lados do meu irmão mais novo, que ainda acreditava nas suas maldades. É que eu, sempre atrasado, fazia correndo um caminho mais curto, um atalho perigoso, atravessando os quintais da vizinhança para não perder o horário da primeira aula, pulando cercas e sebes, atraindo com isso os latidos dos cães, o desesperado cacarejar das galinhas e o xingamento dos moradores. Nesse tempo, eu me preocupava em chegar cedo à escola, ao Colégio Valle Porto, apesar de detestar aqueles professores cacetes que se julgavam os senhores absolutos das almas dos pequenos escravos, aos quais chamavam eufemisticamente de alunos, aprendizes ou, pior, “meus filhos”. Só se com isso quisessem dizer “filhos da puta”. Na volta, com todo o tempo do mundo à minha disposição, eu fazia questão de passar pela plataforma da estação, bem devagar, disfarçadamente, como se estivesse a admirar a arquitetura de ferro, vinda diretamente da Inglaterra, a fim de investigar aquele vagabundo, de olhar aparentemente vago, deambulante. Não quero, com o termo “vagabundo”; dizer que Meraq fosse um desocupado ou um ocioso; uso-o não de forma pejorativa, mas como os poetas, um “wanderer”, aquele que perambula, faço questão de deixar bem claro. Eu quase parava em frente a ele, mas algo dentro de mim dizia que ainda não era chegada a hora do primeiro contato, que ele podia se assustar e fugir, ou me atacar, quem sabe. Então, eu me veria na contingência de fugir do perigo, escafedendo-me, ou de enfrentá-lo com toda a garbosidade de um rato encurralado, sem a mínima probabilidade de chegar à toca. Ou com a intrepidez dos incas venusianos, que só atacavam National Kid em bando. Como já deve ter dado para perceber, nessa época eu era dado à leitura de quadrinhos de ficção científica, também não perdia um filme desse gênero, seja na TV ou no Cine Ópera, o único cinema da cidade. Por precaução, talvez porque ainda não dispusesse de uma arma de raios laser, adotei a tática de me aproximar dele, de Meraq, devagar, lentamente, sem impor a minha presença, como bom terráqueo. Ou como um terráqueo bom? Assim, passei semanas, quase dois meses (três?), nesse processo que eu já considerava sem resultado. Pelo menos, sem efeito aparente; ele sequer desviava o olhar quando eu atravessava o feixe luminoso dos seus olhos, nem mesmo piscava.
Um dia, desses em que “estamos para o crime”, como se diz, tomei coragem e sentei-me na outra ponta do banco, bem distante, o mais distante possível, que eu não era bobo nem nada. Fiquei encarando-o, melhor, olhando-o de esguelha, como quem não quer nada, analisando o perfil intrigante. Parecia humano, aliás, humanoide, com aquele olhar irritante, porque intrigante, que não só me ignorava, mas a todos os transeuntes. Mas, como eu aprendera, assistindo trocentas vezes a “Vampiros de Almas”, os extraterrestres são muito espertos e capazes de tomar a forma humana com uma perfeição absoluta. Quase absoluta, que eu bem sabia quem eram os invasores ali. Se ele se achava espero, eu era sagaz. Ousadamente, mexi-me no banco, para chamar sua atenção. Funguei, resmunguei, e nada, necas de pitibiriba, não movia um único músculo da face, tal e qual Klaatu. Comecei, então, a assobiar. De início, baixinho, pode-se dizer um sussurro, desses assobios sorrateiros que não querem incomodar ninguém, como fazem os velhos, relembrando velhas canções da juventude distante, que só a eles dizem respeito. Nada! Nem uma contração. Em seguida, assobiei um pouco mais alto. Nada, nem aí. Ignorava-me totalmente, alheio a tudo. Indignado, tomado de coragem, como os covardes ante a inércia do oponente, botei dois dedos na boca, ajeitei a língua e soltei um silvo daqueles, de assustar defunto, porque, sem querer me gabar, eu sou bom nisso: no guardamento da minha avó, meu pai, descrente, pediu que eu desse um estoura-tímpanos desses, o mais estridente possível, no ouvido da morta, para se certificar de que a sogra tinha mesmo esticado as canelas. Posso dizer que fiz o meu melhor, nem eu me julgava capaz de tamanha façanha, assustando todos os parentes e não-parentes presentes, estarrecidos com o silvo lancinante, desequilibrando-os. Quem estava chorando, passou a rir, de maneira incontrolável, um riso nervoso, e quem ria, começou imediatamente a carpir, feito comadre desesperada, com sentimento de culpa. Se tivesse sido gravado, como prova, eu hoje estaria no Livro dos Recordes. A velha, assim como Meraq, permaneceu impassível, nem bola. Somente depois disso, pôde ser lavrado o atestado de óbito, era a comprovação definitiva da morte da minha vovozinha. Contei isso, não porque meu pai desgostasse da mãe de minha mãe, mas porque em nossa família houve, pelo menos, um caso conhecido de catalepsia, com um tio-avô, irmão de vovó, tio Aloísio: contavam que, quando abriram o caixão, após vinte anos do sepultamento, a tampa estava toda arranhada por dentro. Vó Pérola tinha muito medo que a enterrassem viva, meu pai “compartilhava” do temor da sogra, mas por razões diversas. Ora, por que escrevi isso? Pelo que sei, sogra e genro sempre se deram muito bem; ele costumava dizer que vó Pérola era “uma joia de pessoa”. É, podia estar sendo irônico, querendo dizer uma joia falsa, bijuteria. Por um momento, cheguei a pensar que Meraq talvez fosse um morto-vivo. Como alguém podia não se sensibilizar com a potência do meu assobio? Era fazer muito pouco de mim. Enfurecido, levantei-me de supetão.
– Que fique aí, seu zumbi de bosta! Vou jogar bola que ganho mais.
Mas a atração que eu sentia por Meraq era muito maior que o orgulho ferido. Na tarde seguinte, lá estava eu, sentado na beirada do banco, a olhá-lo, pronto para pôr em prática um plano: trazia comigo, no embornal um delicioso sanduíche de lombo de porco, com pasta de amendoim e folhas de rúcula fresquinhas. Que extraterrestre não sucumbe a essa guloseima terráquea? Como eu sei disso? Ora, qualquer menino, nem precisa ser muito esperto, sabe que os alienígenas são incapazes de resistir a um sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula, a perdição deles. Seria esta a tentativa definitiva para descobrir se Meraq era marciano ou morto-vivo. No caso de morto-vivo, teria que substituir a iguaria caseira por um lanche do McDonald”s; você sabe como essas criaturas são loucas por shoppings, consequentemente por junk food. Daí, seria mais difícil, moro numa cidade pequena, longe da capital. Mas eu daria um jeito, ah, se daria, quando eu quero alguma coisa, vou até o inferno e peço a bênção ao Diabo. Nem tanto, mas é o que diziam de mim lá em casa.
Então, coloquei o sanduíche no banco, entre mim e Meraq. Fiquei olhando para o vazio, imitando-o, fingindo imitá-lo, mas com um olho no peixe e o outro no gato, dando uma de zarolho. Ele, imóvel. Passaram-se horas, até que o trem das oito apitou, chegando à estação, vindo de Curitiba, depois da baldeação em Morretes. Os passageiros desembarcavam apressados, desesperados, loucos para irem para as suas casas, que um temporal diluviano se anunciava, trovões ribombavam, raios serpenteantes rasgavam a cortina negra do céu, ocasião mais que apropriada para aquele frankenstein tomar vida. Isto é, se, por ventura, um desses raios lhe fendesse a cabeça. Mas nada. Nem uma piscadela. O retinir cristalino do velho sino de bronze da estação trouxe-me de volta ao mundo imediatista dos mortais. Receoso (temeroso?) com a tempestade iminente, sem nenhuma vocação para cientista maluco, achei melhor ir para casa; o aconchego do lar quentinho é o lugar ideal dos pesquisadores da vida fora da Terra. Em situações-limite, descubro que sou mesmo é um competente pesquisador de gabinete. No campo, há sempre o perigo de um ataque de formigas-gigantes ou de abelhas assassinas. Acabei esquecendo, não de propósito, mas pelo Providência, creio eu, o sanduíche intocado no banco da estação.
No dia seguinte, gazeei as aulas e fui bem cedo ao encontro de Meraq. Encontrei-o, como sempre, sentado no mesmo banco, no mesmo lugar, na mesmíssima posição. Acomodei-me um pouco mais próximo dele, um palmo, talvez mais, talvez menos; eu já estava um pouquinho mais confiante. Em mim mesmo e nele também, parecia àquela altura tão inofensivo que se eu mijasse no seu pé não teria reação alguma. Mas, apesar de pensar nessa possibilidade, não fiz isso. Não por consideração ou respeito pelos outros, é que eu ainda não era o feliz proprietário de uma arma laser. Lembrei-me, então do sanduíche que havia esquecido no banco da estação. Não estava mais ali! Algum vira-lata o teria comido? Não, porque esse ceticismo todo? Sim, ele o tinha comido! Ele, Meraq, o alien, o tinha saboreado, talvez até devorado, quando ninguém podia observá-lo. Então, definitivamente, Meraq era um e.t. legítimo. Menos mal, detesto zumbis, são uns consumistas nojentos. Zumbis são alienados, não compreendem os fatores políticos, sociais e culturais que os condicionam e os impulsos íntimos que os levam a agir da maneira que agem. Quando pronunciavam essa palavra (zumbi, argh!) perto de mim, ficava imediatamente ouriçado, pensando que não seria nada mal ter uma 45 à mão para detonar essas criaturas infernais que até hoje me causam um asco de revirar as entranhas. Argh novamente! Desse dia em diante, parei de frequentar as aulas, passava o dia todo com o meu mais novo e dileto amigo. Com ele, apesar do seu mutismo, aprendi muito mais do que já houvera aprendido na escola. A única vez que ele abriu a boca foi para pronunciar “Meraq”. Assim, como já disse, deduzi que Meraq era o seu nome. Talvez nem fosse, mais provável que fosse o seu planeta de origem, ou a sua estrela. Ou um arroto: Meraq! Como Charles Atlas, eu precisava somente de um ponto de apoio no espaço para erguer o mundo e, assim, apoiei-me nessa palavra, Meraq. Para um menino sonhador, afeito às fantasias, o solo líquido do pântano é certamente muito mais firme que o asfalto. Acostumei-me a, todos os dias, levar para ele o sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula. Agora, eu já o entregava em suas mãos, éramos amigos, afinal. Sei que éramos amigos íntimos, tenho certeza disso. Logo depois de saborear essa delícia, sem olhar para mim, mas para um ponto indefinível no espaço, o qual, com o tempo, aprendi a localizar, a focalizar, passávamos a conversar mentalmente, uma conversa de hipófise para hipófise, se é que você me compreende, um diálogo espiritual. Como a direção da escola tivesse alertado os meus pais de que eu estava faltando muito às aulas (eles, meus pais, pensavam que eu estivesse indo para o campinho, jogar bola; até um tempo atrás meu sonho era ser jogador de futebol. Por isso, meu pai não se importou muito que eu andasse cabulando aula, sonhava fazer de mim um novo Heleno ou um Garrincha), Meraq me aconselhou a frequentar as aulas durante alguns dias para que não me vigiassem em excesso, senão nossos encontros podiam ir por terra. “Ir por terra”, hahaha, entendeu o calemburgo? Foi, também, por aconselhamento dele que desisti de ser jogador profissional. Cabecear a bola, como eu gostava de fazer, podia afetar a minha glândula hipófise, o único meio de nos comunicarmos. Dei-lhe razão ao constatar a quantidade de débeis mentais que há no futebol, gente incapaz de formar uma frase com início, meio e fim, ou sujeito, verbo e predicado.
Meraq foi o mestre que todos os meninos deveriam ter, seus ensinamentos ampliaram tanto os meus horizontes que se assemelhavam às portas da percepção de William Blake, o poeta inglês que apanhava da mãe por conversar com os anjos. Subentenda-se “anjos” como seres vindos do espaço exterior. Com Meraq, tive as mais incríveis experiências além do meu corpo físico, do meu corpo sideral, comunguei com o Buda interior, penetrei nos recônditos da Terra e fiz contatos de terceiro grau com Júlio Verne e H.G. Wells, aprendi o que é o amor incondicional, meu coração transbordava de amor pela humanidade, embora execrasse o ser humano. Com Meraq, toquei as cordas da harpa celestial. Levou-me também aos reinos inferiores, onde as criaturas choram sem descanso, impediu-me de romper o cordão de prata, mostrou-me as almas envilecidas dos criminosos, levou-me a Cuiabá para conhecer o coronel Fawcett, o qual vive até hoje disfarçado de vivandeiro; apresentou-me a Christopher Marlowe, que me garantiu que jamais tinha existido, a não ser na mente do seu criador, Francis Bacon, acompanhei-o a Nuremberg, para velar o corpo ainda em decomposição de Kaspar Hauser... Meraq jamais admitiu que eu o chamasse de mestre, advertindo-me de que cada homem é o mestre de si mesmo, bastando ouvir a voz silente, quase imperceptível, mas firme, da consciência do Universo. Por muito tempo, eu associei essa voz à de Charlton Heston.
Mas como nada é eterno nessa terra (ou nesta Terra? Ainda hei de desvendar este mistério), um dia, pela manhã, cedinho, não encontrei o camarada Meraq no costumeiro banco. Desesperei-me, sim, sucumbi ao choro da criança que ainda reside em mim, em meu coração eternamente infantil, pois chegara repentinamente o momento, por ele previsto, sem que eu me sentisse preparado, em que eu deveria andar pelas próprias pernas, em que o aprendiz, tendo alcançado o degrau da escada do conhecimento a que o mestre não está preparado para galgar, assim como vem acontecendo com Dante e Virgílio durante séculos, a cada nova leitura, a cada novo leitor, da “Divina Comédia”, vê-se só, sem ninguém a quem recorrer, sem uma mão compassiva, contando somente consigo mesmo, momento crucial em que tantos se acovardam e desistem. Sentei-me desconsolado no velho banco, justamente no lugar que Meraq ocupara, chorando as lágrimas mais sentidas de toda a minha existência. Foi quando o guarda da estação, tocou-me no ombro, com um leve aperto fraternal:
– O seu amigo foi preso, ontem de madrugada...
– O que você tá dizendo?!
– Que ele foi preso ontem de madrugada, a polícia veio aqui e o levou, acusando-o de ter violentado a professorinha Naná...
– Mas isso não é verdade!
– Eu bem que disse à polícia que ele não saía daqui, dia e noite, mas me mandaram calar a boca. Disseram ainda que ele era um merda de um guerrilheiro do Araguaia, matou doze, pode?, que era viviado em crack, traficante, essas coisas...
Todas as minhas tentativas de falar com Meraq, na cadeia, foram inúteis; não lhe era permitido receber visita, foi-lhe negado advogado, nem a banho de sol teve direito. Soube, sete dias depois, pelo soldado Edmur, que deve ser boa gente, apesar de servir às forças de repressão, o qual deve ter se condoído do meu desespero ou, quem sabe, para aumentar o meu sofrimento (há seres das trevas que se alimentam disso, da dor alheia), que Meraq tinha se enforcado na cela, depois de barbarizado em uma sessão de tortura, comandada pelo delegado Fleury em pessoa. Morreu como heroi, sem abrir o bico, sem entregar ninguém. Seu corpo jamais foi reclamado. Contou-me, ainda, o soldado Edmur que Meraq rabiscara, na parede da cela, as palavras MERAQ IZT FRE. Eu sei o que isso significa e jamais revelarei a ninguém, é uma questão de lealdade.
terça-feira, 8 de julho de 2014
A LOISLEINE DA RUA XV
por Edson Negromonte
Como não concordar com os caras da turma? Nunca houve Lois Lane mais bonita que a Loisleine da Rua XV. Não dava bola para a gente, sabia que, um dia, seria repórter de A Gazeta do Povo, onde encontraria o Super-homem, disfarçado de Carlos Quente, por trás dos óculos de aro de tartaruga. Com ele, viveria as mais românticas aventuras, dignas dos quadrinhos que lia, sentada na poltrona em frente à TV, os pezinhos delicados, de gueixa, para cima. A Loisleine da Rua XV não fazia nem de longe o tipo submisso, apesar de frequentemente se envolver com os piores vilões do espaço sideral, os quais, a gente sabe, não admitem mulheres de pensamento independente, que sabem manejar com destreza o sabre das ideias. Descendente de imigrantes poloneses, Loisleine era a queridinha do papai Rajmund, mas quem não tirava os olhos de cima da menina era o tio Roman, um mestre do nanquim, que a desenhou nas mais diversas poses, fazendo carinhas e boquinhas. Às vezes, tio Roman aumentava um pouco os atributos físicos da sobrinha, o que não lhe ficava mal. Papai Rajmund escrevia poesia de ficção científica, sob o título genérico de “Metrópolis: “Metrópolis 1”, “Metrópolis 2”, “Metrópolis 18”... uma saga criptoniana, que atingiu o número atômico 36 multiplicado por 10. Quando chegou ao número fluorescente, ele deu início à série “Liebling”, a qual não completou. Nunca foram publicadas, sequer no pasquim local, mas isso não o impedia de continuar a escrevê-las, aos montes, aos magotes. Rajmund e Roman viviam às turras. Somente num ponto os dois estavam de acordo: a beleza inquestionável de Rosalind Russell, uma antiga atriz do cinema americano, que morreu em 28 de novembro de 1976, em Beverly Hills, de um câncer no seio, e nunca soube da existência de papai Rajmund e do tio Roman. “Chamam a isto amor”.
Como não concordar com os caras da turma? Nunca houve Lois Lane mais bonita que a Loisleine da Rua XV. Não dava bola para a gente, sabia que, um dia, seria repórter de A Gazeta do Povo, onde encontraria o Super-homem, disfarçado de Carlos Quente, por trás dos óculos de aro de tartaruga. Com ele, viveria as mais românticas aventuras, dignas dos quadrinhos que lia, sentada na poltrona em frente à TV, os pezinhos delicados, de gueixa, para cima. A Loisleine da Rua XV não fazia nem de longe o tipo submisso, apesar de frequentemente se envolver com os piores vilões do espaço sideral, os quais, a gente sabe, não admitem mulheres de pensamento independente, que sabem manejar com destreza o sabre das ideias. Descendente de imigrantes poloneses, Loisleine era a queridinha do papai Rajmund, mas quem não tirava os olhos de cima da menina era o tio Roman, um mestre do nanquim, que a desenhou nas mais diversas poses, fazendo carinhas e boquinhas. Às vezes, tio Roman aumentava um pouco os atributos físicos da sobrinha, o que não lhe ficava mal. Papai Rajmund escrevia poesia de ficção científica, sob o título genérico de “Metrópolis: “Metrópolis 1”, “Metrópolis 2”, “Metrópolis 18”... uma saga criptoniana, que atingiu o número atômico 36 multiplicado por 10. Quando chegou ao número fluorescente, ele deu início à série “Liebling”, a qual não completou. Nunca foram publicadas, sequer no pasquim local, mas isso não o impedia de continuar a escrevê-las, aos montes, aos magotes. Rajmund e Roman viviam às turras. Somente num ponto os dois estavam de acordo: a beleza inquestionável de Rosalind Russell, uma antiga atriz do cinema americano, que morreu em 28 de novembro de 1976, em Beverly Hills, de um câncer no seio, e nunca soube da existência de papai Rajmund e do tio Roman. “Chamam a isto amor”.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
NANÁ
por Edson Negromonte
Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.
Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.
A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.
Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.
Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.
Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.
Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.
Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.
Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se se a bebida oferecida era vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até em seu corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.
Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.
O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.
Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.
Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.
A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.
Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.
Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.
Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.
Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.
Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.
Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se se a bebida oferecida era vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até em seu corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.
Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.
O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
UMA DUPLA DO BARULHO - Parte 2
por Edson Negromonte
Ao vir para Antonina, Grande Otelo trouxe o diretor de cinema a tiracolo, pois o americano fazia questão de ir a todos os lugares onde o amigo brasileiro ia, sequioso por conhecer muquifos, bordéis e pardieiros, além das "belezas naturais e morenas" do nosso país. A paixão de Otelo pela nossa pequena cidade teve início quando aqui ele aportou em busca do irmão mais novo, Chico, filho ilegítimo de dona Maria Abadia. Evidentemente, a informação equivocada de um improvisado detetive particular não encontrou comprovação, mas a hospitaleira cidade jamais sairia de seu coração. Sempre que a vida atribulada permitia, Otelo surgia perambulando pelas ruas de Antonina, conversando com as pessoas, sentando-se nas praças, tomando um pingado, comendo um pãozinho com manteiga ou um bolinho de banana, no bar de esquina... Então, nessas ocasiões, em determinado momento, quando a roda à sua volta estava repleta de curiosos, ele teatralmente sacava do bolso do paletó umas cigarrilhas cubanas e generosamente as distribuía, para supremo deleite dos presentes. E, quando a noite ia ficando cada vez mais escura, a pequena figura ia desbotando, esvanecendo assim lentamente, tão lentamente, que nem nos dávamos conta. Otelo não dizia adeus, nem até mais, nós também não nos importávamos com essas formalidades, ele simplesmente ia embora, como se não quisesse nos incomodar, como se não quisesse nos magoar, como se tudo não passasse de um sonho, sonho de velhos boêmios a conversar com pelicanos, algaravia compreensível somente às almas inebriadas pelo vinho da folha de palmeira. Um cronista, para mim fidedigno, dos anais antoninenses relata que, sem precisar datas, em decorrência da idade avançada, mas assegurando que ocorreu na década de 80, o grande ator voltou aqui pela última vez para proferir uma palestra intitulada "As Raízes do Teatro e do Cinema Nacionais – Experiência de Ator", com um público de duas mil pessoas, numa manifestação ainda embrionária do que viriam a ser, anos mais tarde, os tradicionais festivais de inverno.
No dia seguinte, pela manhã, nem bem o dia clareava, às seis da manhã, tomorrow, six o'clock!, os dois implausíveis companheiros tomaram um táxi de volta ao Rio de Janeiro, onde o americano estava sendo chamado com urgência, às pressas. Alguém nos contou, algum tempo depois, que Hollywood o despedira, que os donos do poder não tinham mais interesse num filme sobre a América do Sul e, muito menos, sobre o Brasil, que esse ocorrido era um capricho presidencial, que fazia parte do esforço de guerra, a tal política da boa vizinhança, a mando do presidente Roosevelt e patrocinada pelo milionário Nelson Rockfeller, que não queria mais gastar tanto dinheiro num filme que nunca seria exibido e, de mais a mais, o presidente Vargas já tinha convenientemente aberto mão das convicções nazistas, da simpatia por Mussolini e se debandara de mala e cuia de chimarrão para o lado dos Aliados.
– Como? Getúlio Vargas, nazista?! – disse um.
– Aí, agora você já não está mentindo demais, Dodó? – arriscou outro.
Com cara de poucos amigos, quando duvidavam das suas gazopas, Dodó preferia deixar a dúvida no ar e retomar a narrativa.
– Então, a filha mais bonitinha de dona Mariquinha deu à criança...
– Mas que criança, Dodó?! – indagava alguém, tentando provocá-lo.
– Pois é, continuando, ela deu ao recém-nascido, filho do pecado com o gringo, o esdrúxulo nome de Rosebud. Até hoje ninguém sabe o porquê, nem o que isso quer dizer, a sua significância. As velhas faladeiras, maledicentes, insistem que Rosebud é, só pode mesmo ser, coisa do Capeta, cujo nome de família em português é Bode, pois os padres que são tudo entendido nessas artes cabalísticas se recusaram a batizar o pobrezinho.
Para fechar com chave de ouro, à guisa de gran finale, o sábio estivador arrematava que o bastardinho Rosebud de Oliveira Quadros tornara-se, em meados da década de 60, um afamado advogado da Vara de Família, em Curitiba, com escritório montado e tudo. Na parede do escritório, em frente à escrivaninha, podia-se ver, emoldurada, uma fotografia autografada de Welles, com dedicatória feita especialmente para ele, o filho da aventura brasileira. Todos os conhecidos, inclusive a sua avó, a confiável dona Mariquinha, afirmavam unânimes que a tal dedicatória era falsa, coisa forjada pelo próprio Rosebud.
(Minhas incansáveis investigações levaram-me à Guiné-Bissau, onde descobri que Rosebud de Oliveira Quadros desaparecera, aos 31 anos, durante a Revolução dos Cravos. O que ele estaria fazendo naquele distante país? O máximo que consegui levantar sobre as suas atividades africanas é que fora em busca do paradeiro de um exemplar da “Ilíada”, de Homero, cuja folha de rosto continha a assinatura de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. O quê, então, o nosso ilustre conterrâneo tornara-se um apaixonado colecionador de obras raras? Sim, porém equivocado; essa raridade bibliográfica foi realmente encontrada, somente que na Espanha, em 1977).
A noite chegara e os ouvintes, então, iam se levantando preguiçosamente, batiam os pés, os chapéus, como se quisessem espantar o pó imaginário que neles se acumulara durante o longo tempo que ali permaneceram, e despediam-se, alguns com um sorrisinho, erguendo o queixo em direção ao estivador, outros, como eu, iam com a pulga atrás da orelha. Alguns dirigiam-se para os lares, outros para os bares, enquanto Dodó permanecia sentado no degrau da sua humilde casa, à Rua Heitor Soares Gomes, com o olhar distante, ouvindo as marés indo e vindo, batendo no paredão, observando ao longe a luz fugidia do rebocador puxando um navio através do canal. Algumas vezes tudo é verdade, noutras nem tudo é verdade.
Ao vir para Antonina, Grande Otelo trouxe o diretor de cinema a tiracolo, pois o americano fazia questão de ir a todos os lugares onde o amigo brasileiro ia, sequioso por conhecer muquifos, bordéis e pardieiros, além das "belezas naturais e morenas" do nosso país. A paixão de Otelo pela nossa pequena cidade teve início quando aqui ele aportou em busca do irmão mais novo, Chico, filho ilegítimo de dona Maria Abadia. Evidentemente, a informação equivocada de um improvisado detetive particular não encontrou comprovação, mas a hospitaleira cidade jamais sairia de seu coração. Sempre que a vida atribulada permitia, Otelo surgia perambulando pelas ruas de Antonina, conversando com as pessoas, sentando-se nas praças, tomando um pingado, comendo um pãozinho com manteiga ou um bolinho de banana, no bar de esquina... Então, nessas ocasiões, em determinado momento, quando a roda à sua volta estava repleta de curiosos, ele teatralmente sacava do bolso do paletó umas cigarrilhas cubanas e generosamente as distribuía, para supremo deleite dos presentes. E, quando a noite ia ficando cada vez mais escura, a pequena figura ia desbotando, esvanecendo assim lentamente, tão lentamente, que nem nos dávamos conta. Otelo não dizia adeus, nem até mais, nós também não nos importávamos com essas formalidades, ele simplesmente ia embora, como se não quisesse nos incomodar, como se não quisesse nos magoar, como se tudo não passasse de um sonho, sonho de velhos boêmios a conversar com pelicanos, algaravia compreensível somente às almas inebriadas pelo vinho da folha de palmeira. Um cronista, para mim fidedigno, dos anais antoninenses relata que, sem precisar datas, em decorrência da idade avançada, mas assegurando que ocorreu na década de 80, o grande ator voltou aqui pela última vez para proferir uma palestra intitulada "As Raízes do Teatro e do Cinema Nacionais – Experiência de Ator", com um público de duas mil pessoas, numa manifestação ainda embrionária do que viriam a ser, anos mais tarde, os tradicionais festivais de inverno.
No dia seguinte, pela manhã, nem bem o dia clareava, às seis da manhã, tomorrow, six o'clock!, os dois implausíveis companheiros tomaram um táxi de volta ao Rio de Janeiro, onde o americano estava sendo chamado com urgência, às pressas. Alguém nos contou, algum tempo depois, que Hollywood o despedira, que os donos do poder não tinham mais interesse num filme sobre a América do Sul e, muito menos, sobre o Brasil, que esse ocorrido era um capricho presidencial, que fazia parte do esforço de guerra, a tal política da boa vizinhança, a mando do presidente Roosevelt e patrocinada pelo milionário Nelson Rockfeller, que não queria mais gastar tanto dinheiro num filme que nunca seria exibido e, de mais a mais, o presidente Vargas já tinha convenientemente aberto mão das convicções nazistas, da simpatia por Mussolini e se debandara de mala e cuia de chimarrão para o lado dos Aliados.
– Como? Getúlio Vargas, nazista?! – disse um.
– Aí, agora você já não está mentindo demais, Dodó? – arriscou outro.
Com cara de poucos amigos, quando duvidavam das suas gazopas, Dodó preferia deixar a dúvida no ar e retomar a narrativa.
– Então, a filha mais bonitinha de dona Mariquinha deu à criança...
– Mas que criança, Dodó?! – indagava alguém, tentando provocá-lo.
– Pois é, continuando, ela deu ao recém-nascido, filho do pecado com o gringo, o esdrúxulo nome de Rosebud. Até hoje ninguém sabe o porquê, nem o que isso quer dizer, a sua significância. As velhas faladeiras, maledicentes, insistem que Rosebud é, só pode mesmo ser, coisa do Capeta, cujo nome de família em português é Bode, pois os padres que são tudo entendido nessas artes cabalísticas se recusaram a batizar o pobrezinho.
Para fechar com chave de ouro, à guisa de gran finale, o sábio estivador arrematava que o bastardinho Rosebud de Oliveira Quadros tornara-se, em meados da década de 60, um afamado advogado da Vara de Família, em Curitiba, com escritório montado e tudo. Na parede do escritório, em frente à escrivaninha, podia-se ver, emoldurada, uma fotografia autografada de Welles, com dedicatória feita especialmente para ele, o filho da aventura brasileira. Todos os conhecidos, inclusive a sua avó, a confiável dona Mariquinha, afirmavam unânimes que a tal dedicatória era falsa, coisa forjada pelo próprio Rosebud.
(Minhas incansáveis investigações levaram-me à Guiné-Bissau, onde descobri que Rosebud de Oliveira Quadros desaparecera, aos 31 anos, durante a Revolução dos Cravos. O que ele estaria fazendo naquele distante país? O máximo que consegui levantar sobre as suas atividades africanas é que fora em busca do paradeiro de um exemplar da “Ilíada”, de Homero, cuja folha de rosto continha a assinatura de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. O quê, então, o nosso ilustre conterrâneo tornara-se um apaixonado colecionador de obras raras? Sim, porém equivocado; essa raridade bibliográfica foi realmente encontrada, somente que na Espanha, em 1977).
A noite chegara e os ouvintes, então, iam se levantando preguiçosamente, batiam os pés, os chapéus, como se quisessem espantar o pó imaginário que neles se acumulara durante o longo tempo que ali permaneceram, e despediam-se, alguns com um sorrisinho, erguendo o queixo em direção ao estivador, outros, como eu, iam com a pulga atrás da orelha. Alguns dirigiam-se para os lares, outros para os bares, enquanto Dodó permanecia sentado no degrau da sua humilde casa, à Rua Heitor Soares Gomes, com o olhar distante, ouvindo as marés indo e vindo, batendo no paredão, observando ao longe a luz fugidia do rebocador puxando um navio através do canal. Algumas vezes tudo é verdade, noutras nem tudo é verdade.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
UMA DUPLA DO BARULHO - Parte 1
por Edson Negromonte
Antonina é uma cidadezinha esquecida no litoral do Paraná, aos pés da Serra do Mar, com aproximadamente 17 mil habitantes. Outrora pujante, fundada em 6 de novembro de 1797, embora alguns historiadores defendam a data de 27 de novembro de 1696, foi um dos portos mais importantes do Brasil, no apogeu da erva-mate, mas hoje vive das glórias do passado. Pelas ruas estreitas passaram, em épocas diferentes, o imperador Pedro II, o compositor Noel Rosa, o músico Gilberto Gil, recém-chegado do exílio em Londres, entre tantas outras personalidades importantes do país e do mundo, como o ator Anthony Quinn. Conta-se orgulhosamente que o imperador teria pernoitado onde funciona a Prefeitura, uma construção datada de 1914, e que Noel foi avistado, por um estivador de apelido Dodó, rascunhando a lápis a letra de um samba, que ele jura de pés juntos ser o clássico "Com que Roupa".
Acontece que Dodó é conhecido por todos como um grande mentiroso, desses que as pessoas gostam de ficar ouvindo, ao cair da tarde, embevecidas, quase hipnotizadas, cientes de que estão sendo engambeladas por uma bela e muito bem arquitetada patranha, inventada com o único intuito de distraí-las e afastar, assim, o marasmo da vidinha aparentemente insossa da cidadezinha à beira do mar, de marés tão exatas que através dos seus movimentos de ir e vir pode-se acertar os ponteiros da igreja matriz, a não ser quando, de sete em sete anos, feminilmente o mar desatina e invade as ruas centrais.
Daí, tão rapidamente quanto subiu, o mar bate em retirada, deixa uma grande quantidade de peixes mortos nos quintais, a apodrecer nas ruas, servindo de comida a formigas, ratos, aos urubus que de asas negras e imponentes descem das cumeeiras, indiferentes aos passantes. Depois, então, meninos apanham as espinhas inteiras e brancas dos peixes, como se fossem tambaquitas, e brincam de pentear os grossos cabelos castanhos. Cansados, atiram o que restou das espinhas de volta às águas salgadas e calmas.
– Já viu? Então, ouça: rio é bicho aparentemente quieto, calado, mordido, na moita. Rio, dizem os incautos, por maior que seja, é sempre circunspecto; mar... mar não, mar é alvoroçado por dentro, principalmente quando se encontra com as pedras, fêmeas à espera do arpão de espuma. Mar está sempre à beira do motim, porque quem se rebela não é, na verdade, o marinheiro, é o mar que insufla em seu coração a desgraça; rio... rio é prudente no agir, no falar, até no pensar, mas depois de sabido não se destroca o mar por nada desse mundo, nem do outro.
Uma das melhores relamboias de Dodó é sobre a rápida passagem, em 1942, do cineasta americano Orson Welles, acompanhado de Grande Otelo, pelas centenárias ruas de paralelepípedos, durante a Segunda Guerra Mundial. Como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, a cada vez que contava esse suposto acontecido, o estivador aproveitava para encorpar um pouco mais a narrativa, ora afirmando que ele mesmo preparara o barreado para a dupla, regado a muita caipirinha, que Welles tanto se fartara da iguaria típica do nosso litoral, que dormiu e roncou feito um porco madrugada adentro, ora acrescentando, quando não havia mulheres por perto, que, mesmo assim, bêbado e à beira da congestão (e Dodó afirmava categoricamente, com um sorriso sacana, não saber explicar como), ele conseguira sair da cama e engravidar a sua vizinha, aquela, a mais bonitinha das filhas de dona Mariquinha. E, como se estivesse num programa televisivo de culinária, o matreiro Dodó, sabendo-se senhor da situação, aproveitava para criar suspense, ensinando, cheio de gestos, como se faz o verdadeiro barreado.
– Eu usei bem uns seis quilos de patinho e meio quilo de toucinho fatiado, tudo temperado com muito alho, cominho, cebola, louro, tomate, manjerona, cheiro-verde, salsa, pimenta-do-reino, gengibre, vinagre e... sal a gosto. Deixei dormir tudo junto pra pegar sabor. De manhãzinha, às cinco horas, cortei o toucinho em tiras bem fininhas para forrar o fundo da panela e fui botando uma camada de tempero, uma camada de carne, uma camada de tempero, outra de carne, até chegar a um pouco menos da metade da panela.de barro, da esmaltada, comprada na loja do falecido Nóca, que é quem vendia as melhores panelas de toda a região. Quando começou a ferver, eu experimentei; e aquilo tinha um sabor dos deuses. Ou, quem sabe, dos diabos! – arrematou, com uma risada.
Alguns dos presentes persignaram-se, fazendo o pelo sinal.
– Tava tudo no ponto: sal, vinagre... os temperos... Era mesmo coisa do outro mundo! – disse Dodó, olhando de um por um, bem no fundo dos olhos atentos.
Nesse momento, os ouvintes novamente se benzeram, Dodô deu um sorrisinho de mofa, aproveitando para se benzer também que, pelo sim, pelo não, ninguém é bobo de botar fogo no rabo do Diabo sem se garantir.
– Então, – continuou – cobri a panela com folha de bananeira muito da devidamente sapecada e, com barbante de algodão, amarrei a tampa com firmeza. Depois, barreei com uma massa de cinza peneirada, bem misturada com farinha de mandioca braba. Ah, tem que ser da braba, senão não dá liga! E fui, de pouco em pouco, barreando devagarinho pra evitar que o vapor fugisse pelas frestas; isso durante umas doze horas, em fogo brando, sempre em fogo brando. Às cinco da tarde, a comidanha tava pronta!
– De onde você tirou essa receita de barreado?
– Essa é a receita de Nhô Jubó, meu falecido pai. Que Deus o tenha!
Todos sabiam que o pai do mentiroso tinha sido um dos melhores cozinheiros das redondezas, que até gente de São Paulo vinha experimentar os seus quitutes. E, sempre que questionado, Dodô não tinha dúvida: atribuía a fonte ao seu velho e por todos querido progenitor, ciente de que era a maneira mais eficaz de conseguir imediata credibilidade.
– Mas o mais engraçado, sabem, vejam só, – continuou – ninguém viu nem sombra de câmera nas mãos do gringo. Que diretor de cinema era aquele que não filmava tudo o que via? Ora, cineasta que se preza tem que ser que nem contador de piada, não perde a chance de fazer graça. Sei lá, pelo menos o maluco do Zé Carlos, filho da terra, andava com uma filmadora para lá e para cá, para cima e para baixo, quando inventou de fazer uma fita sobre a nossa gente, depois de assistir "Limite", uma fita, contou-me o meu finado pai, que Deus o tenha, numa sessão no manicômio da capital. Há quem diga que a câmera de Zé Carlos nunca sentiu nem cheiro de filme, mas isso não é nem verdade.
Enquanto Orson Welles roncava ou resfolegava, Grande Otelo perambulava pela zona de meretrício que, pasmem, ainda ficava na Dr. Justino de Mello, rua próxima ao miolo do centro da cidade, dizendo para as mulheres de vida fácil o que elas entendiam como um gracejo qualquer em inglês, torcendo a boca, para ficar mais parecido com o amigo americano:
– Tomorrow, six o'clock!
Reconhecido pelas putas e cafetinas, o grande cômico foi obrigado a visitar cada uma das casas da agitada zona. Em cada uma delas, era-lhe oferecida a melhor bebida, a cerveja preta mais gelada, o uísque mais envelhecido, a melhor comida, a mulher mais bonita ou a mais fogosa. Era assim que aquela gente agradecia as inesquecíveis gargalhadas que Otelo lhes proporcionava em excelentes comédias musicais, como "Céu Azul" e "Laranja da China". Emocionado e incansável, o pequeno Sebastião Bernardes de Souza Prata (este era o "verdadeiro" nome de Grande Otelo) fazia questão de mostrar os dotes musicais, cantando inúmeras vezes o samba "Vou pra Orgia", pelo qual era aplaudido freneticamente, de pé, por todos os presentes, emendava com "Boneca de Piche", imitando a voz e os trejeitos de Carmen Miranda, para finalizar apoteoticamente com "Praça Onze", grande sucesso do ano.
Grande Otelo contava, na época, vinte e cinco anos. Ou seriam vinte e sete? De olhos esbugalhados e lábios sempre prontos para um muxoxo, a característica "boquinha de rosa", parecia mais um menino peralta, devido principalmente à baixa estatura, não media mais de um metro e meio, enquanto o grandalhão Orson Welles, com cara de bebê, media um e oitenta e sete. Quatro anos antes, em 1938, o genial Welles deixara os americanos em polvorosa, provocando acidentes, desespero e até mortes, com a radiofonização da novela "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, a qual ele transpusera para o rádio, com inteira liberdade, como um noticiário em meio à programação normal da emissora, como se os Estados Unidos estivessem sendo invadidos, naquele exato momento, por hordas de terríveis marcianos, acarretando-lhe vários processos, tornando-o assim uma celebridade da noite para o dia. Mas, aqui, no Brasil, ninguém deu muita pelota para isso. Com a sua chegada ao país do futebol, os repórteres dos principais jornais foram ouvir os despreocupados populares:
– Invasão de marcianos?!
– Isso só pode ser coisa de gringo.
– Tenha dó, tenho mais o que fazer.
Nem no Rio de Janeiro, a então capital federal, os grandes intelectuais da Corte deram muita pelota para tamanha sandice. Certamente que alguns por dor de cotovelo, mas a grande maioria por pura ignorância mesmo. Depois, davam-se ares de superioridade, alegando confusos que tinham lido a obra completa de Júlio Verne, não encontrando ali uma única menção sobre os tais marcianos. E se o mestre francês não se dignara a deitar os olhos nas tais criaturas do planeta Marte, isso só podia significar perda de tempo.
– Uma nação inteira levada à histeria por causa de um simples programa de rádio? – argumentou um grande romancista.
– Por causa de homenzinhos verdes de Marte? – completou o nosso maior poeta.
Agora, imagine se os pobres antoninenses, neste fim de mundo, iriam saber quem era Orson Welles. A única guerra de que tinham ciência era a Guerra Mundial, mas mesmo assim era algo que acontecia muito longe daqui, lá no estrangeiro, e somente de vez em quando alguém dessas bandas era recrutado.
Continua na semana seguinte.
Antonina é uma cidadezinha esquecida no litoral do Paraná, aos pés da Serra do Mar, com aproximadamente 17 mil habitantes. Outrora pujante, fundada em 6 de novembro de 1797, embora alguns historiadores defendam a data de 27 de novembro de 1696, foi um dos portos mais importantes do Brasil, no apogeu da erva-mate, mas hoje vive das glórias do passado. Pelas ruas estreitas passaram, em épocas diferentes, o imperador Pedro II, o compositor Noel Rosa, o músico Gilberto Gil, recém-chegado do exílio em Londres, entre tantas outras personalidades importantes do país e do mundo, como o ator Anthony Quinn. Conta-se orgulhosamente que o imperador teria pernoitado onde funciona a Prefeitura, uma construção datada de 1914, e que Noel foi avistado, por um estivador de apelido Dodó, rascunhando a lápis a letra de um samba, que ele jura de pés juntos ser o clássico "Com que Roupa".
Acontece que Dodó é conhecido por todos como um grande mentiroso, desses que as pessoas gostam de ficar ouvindo, ao cair da tarde, embevecidas, quase hipnotizadas, cientes de que estão sendo engambeladas por uma bela e muito bem arquitetada patranha, inventada com o único intuito de distraí-las e afastar, assim, o marasmo da vidinha aparentemente insossa da cidadezinha à beira do mar, de marés tão exatas que através dos seus movimentos de ir e vir pode-se acertar os ponteiros da igreja matriz, a não ser quando, de sete em sete anos, feminilmente o mar desatina e invade as ruas centrais.
Daí, tão rapidamente quanto subiu, o mar bate em retirada, deixa uma grande quantidade de peixes mortos nos quintais, a apodrecer nas ruas, servindo de comida a formigas, ratos, aos urubus que de asas negras e imponentes descem das cumeeiras, indiferentes aos passantes. Depois, então, meninos apanham as espinhas inteiras e brancas dos peixes, como se fossem tambaquitas, e brincam de pentear os grossos cabelos castanhos. Cansados, atiram o que restou das espinhas de volta às águas salgadas e calmas.
– Já viu? Então, ouça: rio é bicho aparentemente quieto, calado, mordido, na moita. Rio, dizem os incautos, por maior que seja, é sempre circunspecto; mar... mar não, mar é alvoroçado por dentro, principalmente quando se encontra com as pedras, fêmeas à espera do arpão de espuma. Mar está sempre à beira do motim, porque quem se rebela não é, na verdade, o marinheiro, é o mar que insufla em seu coração a desgraça; rio... rio é prudente no agir, no falar, até no pensar, mas depois de sabido não se destroca o mar por nada desse mundo, nem do outro.
Uma das melhores relamboias de Dodó é sobre a rápida passagem, em 1942, do cineasta americano Orson Welles, acompanhado de Grande Otelo, pelas centenárias ruas de paralelepípedos, durante a Segunda Guerra Mundial. Como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, a cada vez que contava esse suposto acontecido, o estivador aproveitava para encorpar um pouco mais a narrativa, ora afirmando que ele mesmo preparara o barreado para a dupla, regado a muita caipirinha, que Welles tanto se fartara da iguaria típica do nosso litoral, que dormiu e roncou feito um porco madrugada adentro, ora acrescentando, quando não havia mulheres por perto, que, mesmo assim, bêbado e à beira da congestão (e Dodó afirmava categoricamente, com um sorriso sacana, não saber explicar como), ele conseguira sair da cama e engravidar a sua vizinha, aquela, a mais bonitinha das filhas de dona Mariquinha. E, como se estivesse num programa televisivo de culinária, o matreiro Dodó, sabendo-se senhor da situação, aproveitava para criar suspense, ensinando, cheio de gestos, como se faz o verdadeiro barreado.
– Eu usei bem uns seis quilos de patinho e meio quilo de toucinho fatiado, tudo temperado com muito alho, cominho, cebola, louro, tomate, manjerona, cheiro-verde, salsa, pimenta-do-reino, gengibre, vinagre e... sal a gosto. Deixei dormir tudo junto pra pegar sabor. De manhãzinha, às cinco horas, cortei o toucinho em tiras bem fininhas para forrar o fundo da panela e fui botando uma camada de tempero, uma camada de carne, uma camada de tempero, outra de carne, até chegar a um pouco menos da metade da panela.de barro, da esmaltada, comprada na loja do falecido Nóca, que é quem vendia as melhores panelas de toda a região. Quando começou a ferver, eu experimentei; e aquilo tinha um sabor dos deuses. Ou, quem sabe, dos diabos! – arrematou, com uma risada.
Alguns dos presentes persignaram-se, fazendo o pelo sinal.
– Tava tudo no ponto: sal, vinagre... os temperos... Era mesmo coisa do outro mundo! – disse Dodó, olhando de um por um, bem no fundo dos olhos atentos.
Nesse momento, os ouvintes novamente se benzeram, Dodô deu um sorrisinho de mofa, aproveitando para se benzer também que, pelo sim, pelo não, ninguém é bobo de botar fogo no rabo do Diabo sem se garantir.
– Então, – continuou – cobri a panela com folha de bananeira muito da devidamente sapecada e, com barbante de algodão, amarrei a tampa com firmeza. Depois, barreei com uma massa de cinza peneirada, bem misturada com farinha de mandioca braba. Ah, tem que ser da braba, senão não dá liga! E fui, de pouco em pouco, barreando devagarinho pra evitar que o vapor fugisse pelas frestas; isso durante umas doze horas, em fogo brando, sempre em fogo brando. Às cinco da tarde, a comidanha tava pronta!
– De onde você tirou essa receita de barreado?
– Essa é a receita de Nhô Jubó, meu falecido pai. Que Deus o tenha!
Todos sabiam que o pai do mentiroso tinha sido um dos melhores cozinheiros das redondezas, que até gente de São Paulo vinha experimentar os seus quitutes. E, sempre que questionado, Dodô não tinha dúvida: atribuía a fonte ao seu velho e por todos querido progenitor, ciente de que era a maneira mais eficaz de conseguir imediata credibilidade.
– Mas o mais engraçado, sabem, vejam só, – continuou – ninguém viu nem sombra de câmera nas mãos do gringo. Que diretor de cinema era aquele que não filmava tudo o que via? Ora, cineasta que se preza tem que ser que nem contador de piada, não perde a chance de fazer graça. Sei lá, pelo menos o maluco do Zé Carlos, filho da terra, andava com uma filmadora para lá e para cá, para cima e para baixo, quando inventou de fazer uma fita sobre a nossa gente, depois de assistir "Limite", uma fita, contou-me o meu finado pai, que Deus o tenha, numa sessão no manicômio da capital. Há quem diga que a câmera de Zé Carlos nunca sentiu nem cheiro de filme, mas isso não é nem verdade.
Enquanto Orson Welles roncava ou resfolegava, Grande Otelo perambulava pela zona de meretrício que, pasmem, ainda ficava na Dr. Justino de Mello, rua próxima ao miolo do centro da cidade, dizendo para as mulheres de vida fácil o que elas entendiam como um gracejo qualquer em inglês, torcendo a boca, para ficar mais parecido com o amigo americano:
– Tomorrow, six o'clock!
Reconhecido pelas putas e cafetinas, o grande cômico foi obrigado a visitar cada uma das casas da agitada zona. Em cada uma delas, era-lhe oferecida a melhor bebida, a cerveja preta mais gelada, o uísque mais envelhecido, a melhor comida, a mulher mais bonita ou a mais fogosa. Era assim que aquela gente agradecia as inesquecíveis gargalhadas que Otelo lhes proporcionava em excelentes comédias musicais, como "Céu Azul" e "Laranja da China". Emocionado e incansável, o pequeno Sebastião Bernardes de Souza Prata (este era o "verdadeiro" nome de Grande Otelo) fazia questão de mostrar os dotes musicais, cantando inúmeras vezes o samba "Vou pra Orgia", pelo qual era aplaudido freneticamente, de pé, por todos os presentes, emendava com "Boneca de Piche", imitando a voz e os trejeitos de Carmen Miranda, para finalizar apoteoticamente com "Praça Onze", grande sucesso do ano.
Grande Otelo contava, na época, vinte e cinco anos. Ou seriam vinte e sete? De olhos esbugalhados e lábios sempre prontos para um muxoxo, a característica "boquinha de rosa", parecia mais um menino peralta, devido principalmente à baixa estatura, não media mais de um metro e meio, enquanto o grandalhão Orson Welles, com cara de bebê, media um e oitenta e sete. Quatro anos antes, em 1938, o genial Welles deixara os americanos em polvorosa, provocando acidentes, desespero e até mortes, com a radiofonização da novela "A Guerra dos Mundos", de H.G. Wells, a qual ele transpusera para o rádio, com inteira liberdade, como um noticiário em meio à programação normal da emissora, como se os Estados Unidos estivessem sendo invadidos, naquele exato momento, por hordas de terríveis marcianos, acarretando-lhe vários processos, tornando-o assim uma celebridade da noite para o dia. Mas, aqui, no Brasil, ninguém deu muita pelota para isso. Com a sua chegada ao país do futebol, os repórteres dos principais jornais foram ouvir os despreocupados populares:
– Invasão de marcianos?!
– Isso só pode ser coisa de gringo.
– Tenha dó, tenho mais o que fazer.
Nem no Rio de Janeiro, a então capital federal, os grandes intelectuais da Corte deram muita pelota para tamanha sandice. Certamente que alguns por dor de cotovelo, mas a grande maioria por pura ignorância mesmo. Depois, davam-se ares de superioridade, alegando confusos que tinham lido a obra completa de Júlio Verne, não encontrando ali uma única menção sobre os tais marcianos. E se o mestre francês não se dignara a deitar os olhos nas tais criaturas do planeta Marte, isso só podia significar perda de tempo.
– Uma nação inteira levada à histeria por causa de um simples programa de rádio? – argumentou um grande romancista.
– Por causa de homenzinhos verdes de Marte? – completou o nosso maior poeta.
Agora, imagine se os pobres antoninenses, neste fim de mundo, iriam saber quem era Orson Welles. A única guerra de que tinham ciência era a Guerra Mundial, mas mesmo assim era algo que acontecia muito longe daqui, lá no estrangeiro, e somente de vez em quando alguém dessas bandas era recrutado.
Continua na semana seguinte.
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
O TROTE

por Edson Negromonte
Quando estava entrando na adolescência, ele saiu pedalando desabaladamente a bicicleta pela porta da frente da casa onde morava, tomando impulso desde o final do comprido corredor que a dividia em duas alas. Suprema glória, passou voando pelo degrau da entrada, de pedra... Será um pássaro? Um avião? Não, é o Super-homem!... e caiu de boca no para-choque de um caminhão que estava fazendo manobra de ré, justamente naquela hora. Estarrecidos, os vizinhos que conversavam despreocupados em frente às casas viram-no grudado no para-choque de ferro de um antigo caminhão do exército, dando a grotesca impressão de que o menino estava mordendo o veículo. Todos correram em socorro, tirando-o ensanguentado dali, os dentes espalhados pelo chão. Passou meses em recuperação e, em consequência de choque tão violento, uma devastadora piorreia levou o restante dos dentes, deixando-lhe somente os quatro caninos. Essas pontiagudas recordações do que houvera sido a promessa de um belo sorriso pareciam nitidamente um toca-fita, a gaveta aberta, com os pinos à mostra. Desde esse dia, ele passou a ser conhecido por todos pelo maldoso apelido de Toca-fita. Alguns tentaram chamá-lo de Nosferatu, mas não colou. Ele seria para sempre Nico Toca-fita.
Nico, uma das figuras mais engraçadas de Antonina, tornou-se, desde a minha chegada à cidade, um dos meus amigos do peito, daqueles de quem se gosta de graça, mesmo porque a sua personalidade arredia não fazia esforço algum para que se gostasse dele. Mentiroso que só, adorava pregar peças nas pessoas, principalmente nos amigos mais próximos. Uma vez chegou na Praça Coronel Macedo, consternado, contando-nos, pesaroso, que o padre William, nosso querido mestre dos rudimentos da língua inglesa, tinha morrido. De início, nos recusamos a acreditar, por já conhecer de sobejo as suas brincadeiras de mau gosto. Volta e meia, "matava" um, "acidentava" outro, só para se divertir às nossas custas. Acontece que, desta vez, o patife foi muito convincente, demonstrando tanta tristeza, jurando por Deus, que, ao final de alguns minutos, estávamos quase chorando, lembrando saudosos do quanto aquele padre fora bondoso e paciente, ensinando-nos a língua de Shakespeare da maneira mais cativante possível, através das letras de música de Uriah Heep, T.Rex e James Taylor, provocando risadas genuínas ao jogar um toco de giz no chão e gritar nothing, à imitação de Alice Cooper, recordando a sua própria adolescência, de quando fugiu de casa para ir a Nova York assistir a um show de Simon & Garfunkel. Ah, padre William era mesmo um grande camarada! Com a emoção à flor da pele, ouvimos, então, o som familiar de uma buzina. Era o bom padre cumprimentando-nos de dentro do seu fusca, saudável e sorridente, como sempre, enquanto Nico desatava a rir, radiante por ter pregado mais uma peça. Depois de passada a surpresa inicial e a raiva momentânea (tivemos até vontade de quebrá-lo ao meio), rimos todos juntos. Que remédio! O cara não valia nada mesmo, queria somente se divertir.
Esses padres redentoristas atuavam de maneira muito eficaz na pequena comunidade, integrando-se de corpo e alma na vida social de Antonina. Um dos mais agradáveis era o padre Joãozinho, que, uma noite, foi parar na cadeia. Em busca das ovelhas perdidas do rebanho, o religioso foi inadvertidamente levado por Maneco Capeta e Johnny Pererê, dois pândegos inseparáveis em busca da dose diária de diversão, para tomar umas cervejas na Boate, curioso nome pelo qual era conhecida a parte chique da zona de meretrício da cidade, cujo inusitado e inventivo slogan era Good girls, good drinks, good nights. Cerveja vai, cerveja vem, a mesa foi ficando cheia de garrafas vazias, ao som de "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", o grande sucesso de Odair José. Quando padre Joãozinho levantou-se para pagar a conta, meio balão, percebeu que esquecera os documentos e, pior ainda, o dinheiro, no bolso da outra calça, na casa paroquial. De nada adiantou dizer e afirmar e jurar em nome de Deus que era padre; a dona da casa jamais acreditaria em história tão descabida.
– Vagabundo! E ainda vem me dizer que é padre! Além de tudo, mentiroso! Caloteiro! Salafrário! Sacripanta!
A mulher ligou para a delegacia e lá se foram os três companheiros de esbórnia, a bordo do vasquinho, nome pelo qual era conhecido o temido fusquinha preto e branco da Polícia. No dia seguinte, os próprios Pererê e Capeta se encarregaram de espalhar a grande nova pela cidade, o que resultou na transferência de padre Joãozinho para uma paróquia distante, em busca de novas ovelhas desgarradas, mas nem tão distantes do rebanho.
Certa vez, meus pais e minha irmã foram passar um final de semana na praia, deixando-me sozinho em casa, no bairro da Caixa d'Água. No início da tarde, Nico apareceu por lá, trazendo debaixo do braço o último disco do Ten Years After, o qual ouvimos atentamente, outra vez e outras mais até enjoarmos. Depois botamos para rodar Creedence, Rolling Stones, encerrando com Led Zeppelin, no último volume, estremecendo as paredes, com "Whola Lotta Love". Incomodada, a vizinhança botava a cabeça pelas janelas, inconformada com a barulheira infernal. Insatisfeitos e para desafiar de vez a ordem das coisas, botamos para rodar, bem alto, o compacto de Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", canção de protesto proibida pela Censura do governo militar. Curiosamente, ninguém entendeu nada, mas ninguém mandou nos prender.
Com os tímpanos cansados, entupidos de tanto rock'n'roll, resolvemos passar trotes pelo telefone. Ligamos, primeiro, para um ponto de táxi, pedindo um carro para o Lar Infantil, localizado um pouco mais à frente de casa. Demos muitas risadas quando o táxi voltou sem passageiros. Em seguida, ligamos para o outro ponto de táxi, aplicando o mesmo trote. Dera certo novamente, outro carro vazio. Era o máximo! Daí, mais confiantes, começamos a ligar para as casas das pessoas, perguntando se queriam comprar um recém-inventado "carapel".
Quando, do outro lado, indagavam o que vinha a ser o tal "carapel", singelamente respondíamos:
– Ué, um caralho de papel!
Quantas gargalhadas demos com a brincadeira. Meu Deus, como era engraçado! Madrugada adentro, nos divertíamos a valer, telefonando para quase toda a cidade, procurando nomes na lista telefônica.
– Quer comprar um carapel?
Por volta das três da madrugada, ligamos para dona Miralba, professora de Física do colégio, e com voz melíflua perguntamos:
– A senhora deseja comprar um carapel?
– O quê?
– Um carapel!
– O que é isso?
– Ué, carapel é um caralho de papel!
Ao ouvir tal disparate no meio da noite, a mulher desatou a chorar. Imediatamente, o seu marido, o alemão Schirach, pegou o telefone e começou a gritar enfurecido, num português arrevesado:
– O que serr isso? O que serr isso, seus fagabundas?
– Um carapel!
– O quê?
– Um caralho de papel! Hahahaha!
Então, achamos melhor parar com a brincadeira, aquilo já tinha ido longe demais: tínhamos feito chorar a professora. Mesmo assim, o riso era incontrolável. E se descobrissem? Ora, isso era impossível! Hahaha!
Na TV, estava começando um filme que marcaria as nossas vidas para sempre, "A Mosca da Cabeça Branca", com Vincent Price. Quando o filme terminou, resolvemos voltar aos trotes, mas o telefone não dava sinal nenhum, não tinha som, desligávamos o aparelho, tirávamos o fone do gancho, e nada. Silêncio. O que teria acontecido? Seria a maldição da mosca? Isso que dá assistir a filmes de terror, ainda mais de madrugada! Ô, merda! Nico foi para casa, tremendo de medo. A mosca, a mosca da cabeça branca, tínhamos então certeza disso, era o sinal de que pagaríamos caro pela molecagem.
Antes de me deitar, tirei o fone do gancho e fiquei escutando... Silêncio, silêncio sepulcral. Rezei muito, até pegar no sono. Acordei cedo e corri ao telefone. Longe, muito longe, ouvi vozes indistintas, parecia gente conversando, não consegui entender uma única palavra. Fiquei intrigado, com algum medo, pois tinha lido há pouco tempo na revista Planeta sobre as experiências russas que captavam as vozes dos mortos, justamente através de... aparelhos telefônicos.
– Ô, merda!
Comi alguma coisa e fui quase correndo à casa de Nico. Ressabiado, não entrei, chamando Nico para sair. Junto com o amigo, com o cúmplice, fui me sentindo melhor, cada vez mais seguro e, dali a pouco, estávamos despreocupadamente rindo a bandeiras despregadas do que tínhamos aprontado. Mas ao passar em frente às Casas Pernambucanas, ouvimos de dois caixeiros que estavam à porta:
– Ó, os dois que ligaram para a casa da dona Esperança, chamando ela de puta e outras barbaridades.
Não, nós não tínhamos telefonado para a dona Esperança. Ou tínhamos? Mas, certamente, não tínhamos chamado de puta aquela velhinha tão simpática, de cabelos brancos da cor da neve e fazedora de deliciosos doces. Isso não! Nunca! Aliás, seguramente não tínhamos chamado ninguém de puta, somente oferecíamos o singelo carapel. Por onde passávamos, ouvíamos os comentários mais disparatados sobre os trotes, as pessoas inventavam as maiores mentiras sobre aquilo tudo, nos transformando em lendas urbanas. Recorremos, então, desesperados ao pai de Nico, homem sábio que sempre sabia o que fazer em situações difíceis. Ele nos aconselhou a irmos até a casa de dona Miralba e contar tudo, pedir perdão a ela e prometer que não faríamos mais essas brincadeiras de mau gosto, assegurando-nos de que era essa a maneira mais acertada de agir para não piorar a situação. Ainda, conforme o sábio homem explicou, o velho Schirach, seu conhecido, trabalhara com telefonia durante a Segunda Guerra e tinha, assim, conseguido travar a linha, discando algum código numérico, e que ele, mais cedo ou mais tarde, certamente descobriria de onde partira o maldito trote, mesmo que a Telepar se recusasse a fornecer o número. Era só uma questão de tempo para que a notícia chegasse aos ouvidos do alemão, ao som da “Cavalgada das Valquírias”!
– Nós tamo é fudido! – profetizou Nico.
Cheios de aparente coragem, seguimos em direção ao bairro onde morava a professora e seu temível marido. Contavam, à boca pequena, que o velho combatera do lado dos nazistas, durante a Guerra, fato que o agigantava ainda mais aos olhos já arregalados dos dois agora minúsculos amigos. Por uma ação impensada, tínhamos que enfrentar um oficial da SS. Isso era demais para a nossa pouca idade, estávamos apenas começando a vida... Assim, seguimos caminhando pelos trilhos do trem, ensimesmados, caindo, escorregando, retomando o equilíbrio...
Ao divisarmos o portão branco, de madeira, da casa de dona Miralba, a uma pequena distância, titubeamos, pensamos em desistir. Olhamo-nos e, de comum acordo, entramos no boteco da esquina, escuro, fedorento, para tomar o tradicional trago da coragem. Sentados à mesa engordurada, pedimos:
– Uma gasosa Cini, de gengibirra!
Nervosos, rimos do inusitado pedido, éramos capazes de fazer piada da própria desgraça, mesmo seguindo em direção ao matadouro. Após esvaziar a garrafa, seguimos em frente; a situação tinha de ser resolvida.
Batemos palmas no portão e justamente o carrasco alemão veio nos atender.
– Sim?
– A dona Miralba está? – perguntei, com voz trêmula.
– O que focês querrer com Mirralba?
– Nós somos alunos dela...
– Entrra! – ordenou.
Ai, meu Deus, estávamos sendo "convidados" a adentrar as câmaras daquela miniatura de campo de concentração. Como faríamos para nos escafeder dali se o caldo engrossasse?
– Senta, senta! Ela xá fem!
– Mirralba, tem fisita parra focê! – ele gritou para a cozinha.
A professora veio, enxugando as mãos num pano de prato, imaculadamente branco.
– Focê conhecerr essas dois?
– É o irmão de Rute, e esse é o filho do Pedro, meus alunos. O que vocês querem? – perguntou ela, sorridente.
Fomos contando o que tinha acontecido, olhando somente para ela, atropelando as palavras, enquanto sentíamos os incandescentes olhos de fogo do alemão sobre o nosso couro, como ferros em brasa marcando judeus em Sobibor. E não será figura de linguagem se eu disser que podíamos sentir o cheiro de carne assada, queimada... na cozinha. Mas dona Miralba, estarrecida, não correu para salvar o assado, até o cheiro acre, de queimado, inundar a sala; o velho Schirach fechou a porta da cozinha. Eu só queria desaparecer dali, passar pelas frestas do assoalho, virar fumaça e respirar, novamente, o ar puro da rua. Finalmente, tivemos coragem de pedir que ela nos perdoasse, prometendo que jamais faríamos aquilo novamente, que tudo tinha sido um grande erro, que nos arrependíamos amargamente, quase chegando às mais sinceras lágrimas. Então, para nossa surpresa, olhando-nos maternalmente, a mulher disse para o marido:
– Querido, nesta cidade não se tem o que fazer. Aqui, os jovens não têm perspectivas. Você precisa levar esses dois meninos para trabalhar no sítio...
Que susto! "Trabalhar no sítio" só podia ser um código, e significava não voltar mais, deixar nossas famílias para sempre. Em linguagem cifrada, ela certamente estava se referindo a um campo de concentração, ao corredor da morte, às câmaras de gás, às terríveis experiências genéticas... Desesperado, balbuciei uma mentira esfarrapada qualquer.
– Não, eu não posso! Vou começar a trabalhar... em Curitiba... semana que vem...
– Eu também! Eu vou trabalhar com ele! Nós vamos trabalhar juntos, vou ser ajudante dele – emendou Nico.
Fez-se um silêncio sepulcral, enquanto Schirach nos observava, segundos que pareceram uma eternidade. Dirigiu o olhar para a esposa e, em seguida, para os dois garotos ali, encolhidos, suando nas palmas das mãos, à sua mercê.
– Se eu perrdoa focês, focês sai daqui dizendo prra todo mundo: "ah, aquele félho burra".
– Não, seu Schirach! O que é isso? A gente nunca vai dizer uma coisa dessas do senhor!
– A gente vai até rezar pro senhor... – começou Nico, sendo abruptamente interrompido.
– Eu não querro que focês reza prra mim! – gritou o alemão.
A melhor coisa a se fazer era mesmo ficar quieto, e bem quieto. Por uma inesperada ação da mão do Destino, dona Miralba olhou carinhosamente para o marido, na tentativa de enternecer o seu coração petrificado, vendo naqueles dois adolescentes perdidos, encolhidos em seu enorme sofá, os filhos que não tivera, que não pudera ter.
– Tá bom, eu fai retirrar o queixa!
– E destravar o telefone? – perguntei, num fiapo de voz.
– Sim, sim! Mas continuarr achando que os pais de focês defia ser castrado, capado, parra nunca mais botar gente assim na mundo. Agorra, fão emborra! Desaparreçam do minha frrente!
Não precisou pedir duas vezes. Desaparecemos na rua, pegando o trilho de volta para o centro da cidade, inicialmente calados, de cabeças baixas, contando os dormentes, depois sorrindo timidamente um para o outro, rindo um do outro e, finalmente, dando boas gargalhadas. Ah, como a vida era bela! Como valia a pena viver! Como era bom estar no mundo dos vivos outra vez. Por precaução, nos viramos para trás para ter certeza de que não estávamos sendo seguidos por nenhum dobermann. Em seguida, olhamos para frente, confiantes, sorrimos novamente um para o outro e, sem poder conter tanta felicidade, gritamos a plenos pulmões para a tarde, para a vida, para o céu, para os Céus:
– Ô, FÉLHO BURRA!!!
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