quarta-feira, 13 de agosto de 2014
AS MAIS DOCES MEMÓRIAS DE WATCH
Edson Negromonte
Sou conhecido como Watch, embora não seja este o meu verdadeiro nome, mas foi assim, com esta alcunha, que passei à história. Devido à idade avançada, só então resolvi dar a público um pouco do que conheço sobre o poeta Walt Whitman, com quem convivi durante sete anos. Não direi sobre a sua arte poética, deixo-a aos exegetas, os quais se sairão bem melhor do que eu. Quero contar do homem, melhor, do amigo Walt. Thomas Donaldson, um grande amigo, sempre o tratou respeitosamente por Sr. Whitman, embora este o tratasse por Tom. Eu não, sempre o chamei de Walt; nossa amizade era tão verdadeira que abria mão dessas formalidades, apesar da diferença de idades. Era um boa-praça o velho, tratava-me de igual para igual, havia uma camaradagem entre nós. Falava comigo como se fala a um companheiro, sem fazer diferença. Afinal, não somos todos iguais perante o Criador, para quem não há hierarquias no plano da criação?
Durante sete anos, os últimos sete anos da sua vida, fomos felizes juntos. Cheguei à casa da Mickle Street, de mudança, acompanhado de Mary. Era muita tralha para uma casa tão pequena. Para mim, na minha pouca idade, tudo parecia muito grande. Hoje, não consigo entender como Mary conseguiu acomodar toda a mobília e os seus pertences pessoais, principalmente a coleção de gravuras; nada como um toque feminino para dar vida às coisas. E, ah, como aquela casa precisava da presença de uma mulher! Tudo se transformou com a chegada de Mary. Além de todo o cacareco, ela trazia ainda na bagagem várias gaiolas com passarinhos, entre eles, um canário que cantava maravilhosamente bem, um trinado muito doce, e um, argh!, gato que imediatamente, nem bem chegou, aninhou-se no colo de Walt. (Não sei dizer porquê, mas detesto gatos. Essa minha ojeriza talvez seja fruto da superstição, mas, independente disso, dava gosto ver o grande inaugurador da poesia americana brincando com o felino, balançando para lá e para cá um barbantinho com uma bola de papel amarrada na ponta). Além disso, Mary trouxe ainda algumas galinhas poedeiras. E, pasmem, um papagaio empalhado! Para que serve um papagaio empalhado? Como enfeite, é de supremo mau gosto. Aquelas penas já desbotadas serviam somente como depósito de poeira. O papagaio era herança do Capitão Fritzinger, seu antigo patrão. De todos os objetos, o que mais agradou a Walt foi a miniatura de um veleiro, cuja delicadeza e beleza não se cansava de louvar.
Para melhor compreensão, devo acrescentar que a minha amizade com Walt é anterior à nossa mudança para a sua casa. Vem do tempo em que ele mendigava pelas ruas de Camden, envolto em trapos, as galochas desbeiçadas. Dava pena olhar o velho homem enfrentar a chuva gelada. Eu, do meu refúgio aconchegante, ficava consternado ao vê-lo passar. Até que, numa noite enregelante, de arder nos ossos, ele bateu à nossa porta, em busca de um prato de sopa, levado pelo cheiro bom que vazava para a rua. Como você deve saber, o olfato fica mais aguçado no tempo frio. Desse dia em diante, ele tornou-se um visitante contumaz. Mary nunca deixou de lhe oferecer um prato de comida ou um café quentinho, o qual ele aceitava de bom grado, até que acabou convencendo-a, quando a sua situação melhorou, a ir com ele morar, na condição de governanta. Antes, eu adorava andar à toa pelas ruas de Camden, mas, depois da mudança para a Mickle Street, não desgrudei mais de Walt. Ele era carinhoso e compreensivo comigo. Não que Mary não fosse bondosa comigo, mas é compreensível a minha necessidade da figura masculina. Assim, apeguei-me a ele, como um menino se apega ao pai. Apesar de nunca ter me faltado nada, eu ficava de olho grande no café de Walt, principalmente nas torradas. Percebendo isso, ele era muito sensível, passou a dividi-las comigo. Uma das suas iguarias favoritas, as ostras, eu nunca consegui apreciar; aquilo enrolava na minha boca e eu era obrigado a cuspi-la.
As visitas à casa eram frequentes. E silencioso, quieto, sempre calado, mas atento, eu muito aprendi sobre a vida ouvindo a conversa de homens sábios, como o atencioso Tom. Um dos visitantes mais cativantes, a meu ver, foi o jovem Abraham, que ficaria famoso, anos mais tarde, como Bram Stoker, o festejado autor do romance “Drácula”. Que delicadeza de modos! Walt também ficou encantado com ele, conforme eu o ouvi dizer ao Tom. A cada frase dita por Abraham, os olhos de Walt brilhavam. Eram mesmo muito espirituosas, podendo-se dizer formidáveis, de aguda perspicácia. Quanto conhecimento eu adquiri sobre a alma humana só de ouvir a conversa entre esses homens inteligentes. Às vezes, eu dava um aparte, emitia a minha opinião, um breve comentário. Eles viravam-se, então, para mim e sorriam. Nessas ocasiões, Walt fazia-me sempre um afago paternal na cabeça, orgulhoso. Sobre o brilho dos olhos de Walt, seria necessário um capítulo à parte ou mesmo um livro. Sem exagero, aquele par de olhos azuis irradiava tanta energia, eram tão eloquentes que o seu dono não precisava falar para ser compreendido; eram o oceano no qual eu me perdia para me reencontrar. Precisava ver o brilho dos seus olhos quando os amigos o presentearam com uma bela charrete, atrelada a um pônei, pareciam os olhos de uma criança diante do tão almejado presente de Natal. Perdão se soo piegas aos seus ouvidos empedernidos, é que a idade avançada e as boas lembranças do meu velho amigo, a quem tanto devo, dão-me esse direito. Seus olhos luziam com a chegada da correspondência, mas principalmente com as cartas de um poeta inglês de sobrenme Tennyson, a quem tinha muita consideração.
Enquanto os adultos o temiam, talvez pelo caráter libertário dos seus versos, talvez pelo magnetismo da sua personalidade, as crianças o amavam. E ele a elas. Uma das suas brincadeiras favoritas era rolar algumas moedas de pouco valor, do alto da janela do segundo andar, deixando-as cair na calçada, enquanto as crianças brincavam na rua, encarapitadas nas portas do porão. Quanta satisfação em seus olhos, que sorriso peralta diante dos gritinhos de surpresa dos meninos. Por aí, pode-se ver que o dinheiro não tinha para ele nenhuma importância, desmentindo que fosse um velho sovina. Que alegria ao ver as crianças voltando com as mãos cheias de balas e doces! Sobre o medo que os adultos dele sentiam, há uma história muito interessante, um boato que até hoje perdura, inspirada no conto “João e o Pé de Feijão”, de que um dos vizinhos entrara sorrateiro, sem que ninguém o visse, na casa de Walt e, lá, encontrara um gigante devorador de homens, explicando porque as pessoas entravam e jamais saíam daquela casa. Diziam ainda que Mary cozinhava as sobras para dá-las ao cachorro. Argh, que imaginação fértil, assaz mórbida!
Todos os biógrafos insistem em dizer que a casa de Walt era exígua, muito pobre, a menor e a mais feia do quarteirão. Para mim, assemelhava-se a uma mansão. Havia, inclusive, no lado esquerdo, um portão providencial, fácil de abrir, bastava um empurrão, que dava acesso ao beco. Quando se chega à adolescência, a gente precisa dar umas escapadelas noturnas, você sabe, namorar. Mas grande parte dos dias, nesses adóraveis sete anos de convivência com Walt, eu passei em casa.compartilhando nas noites geladas o fogo da lareira que havia no seu quarto, junto a qual ele também gostava de sentar. Interessante que os ruídos que a todos incomodavam, inclusive a mim, como as manobras dos trens de carga (a estação ferroviária ficava a uma quadra da casa), o coral desafinado de uma igreja muito próxima, as badaladas estridentes do sino, tinha eu os ouvidos bem sensíveis, o entrechocar-se das composições, não incomodavam Walt, à sua sensibilidade. Pelo contrário, pareciam parte intrínseca da sua inspiração. Dizia não compreender aqueles que necessitam se isolar em torres de marfim, enquanto ele, por sua vez, necessitava dos espaços abertos. No início, foi difícil me acostumar ao barulho dos trens, principalmente à noite, às manobras, o choque contra os vagões, o engate. Havia ainda o odor fétido, insuportável, de uma fábrica de guano que despejava os detritos no Delaware. Esse cheiro acre tornou-se terrível, nauseabundo, no verão terrível de 1887. Mas nada disso parecia afetar Walt. A única coisa que realmente o incomodava eram as mulheres da vizinhança varrendo, espalhando a água da sarjeta depois da chuva. Isso o irritava sobremaneira pelo perigo das doenças, principalmente a malária. Lembro-me nitidamente, como se fosse hoje, passados tantos anos, de Walt gritando da janela para que elas parassem com aquilo. Pensa que paravam? Continuavam com a varrição. Assim como eu, o bardo americano tinha horror a vassouras. A única vez que vi Walt realmente zangado foi quando Mary, certa ocasião, aproveitando-se da sua ausência (ele fora passar uma semana na casa de amigos), achou por bem arrumar, dar um jeito, na bagunça que era o quarto do poeta. Para ele, cada pedacinho de papel tinha um valor especial, mesmo os amassados na lixeira, os quais reabilitava em busca de um verso anteriormente descartado.
Um dos seus passeios favoritos era a travessia do Delaware, em direção à Filadélfia, assim como eu, que gostava de acompanhá-lo. Ao chegar do outro lado, ele se despedia de mim, mandando-me voltar direito para casa. Ah, se a sempre tão preocupada Mary o visse empoleirado, feito um adolescente, na amurada da balsa, apesar da crescente paralisia, sentindo o vento na cara... Era uma visão emocionante! Os passeios de Walt davam-me uma espécie de ausência... Ora, para que falsear, causavam-me uma grande ausência. Sem ele ao meu lado, era como se faltasse a melhor metade de mim mesmo. Apesar de gostar muito do burburinho da cidade grande, com a idade ele foi se afeiçoando cada vez mais à vida no campo, chegando a cogitar uma mudança para Timber Creek. Contou-me, certa vez, com tanto encantamento sobre Timber Creek que até eu me senti tentado a mudar para lá. Quando Walt se ausentava, eu voltava a dormir no divã da sala. À sua volta, quanta alegria! Ele gostava muito de Mary, isso era patente em seus olhos todas as vezes que Walt voltava para casa, vindo de uma das demoradas visitas a amigos; seus olhos sorriam ao vê-la de novo. Com Mary, ele sentia-se protegido. Nos dias de sol, quando estava disposto, amparado por Mary, sob os meus cuidados também, ele sentava-se em uma cadeira na calçada, com um dos pés apoiado, encaixado no tronco do sombreiro que ficava em frente à casa. Era um sombreiro muito velho, venerável, que chegava a ultrapassar o sobrado em que morávamos. Uma das curiosidades sobre Walt era o seu estranho hábito do banho diário. Devo aqui confessar que até hoje, apesar da idade avançada e da consequente sabedoria, me repugna a simples ideia de tomar banho todos os dias. Acho que amolece o caráter. Walt adorava ficar imerso na tina de água quente até começar a esfriar. Nos últimos anos, acabou adquirindo uma bela banheira, na qual nunca me atrevi a entrar. Ele nunca me convidou, eu nunca fiz questão.
Quando a popularidade de Walt cresceu, a afluência de pessoas à casa tornou-se maior, atrapalhando a vida doméstica. Mary então se perguntava onde estavam todos esses amigos e admiradores no tempo das vacas magras, quando Walt, já doente, devido aos esforços da Guerra, socorrendo os enfermos, se arrastava pelas ruas de Camden, mendigando um mísero prato de comida para aplacar a fome que lhe corroía as entranhas. Walt tratava muito bem a todos, mas algumas vezes recusava-se a recebê-los, principalmente quando estava envolto com a construção de um poema ou, melhor, fundando a autêntica poesia americana. Rasgar notícias de jornal, recortar matérias de revistas, ilustrações que lhe chamavam a atenção, aparentes ninharias, este era o método poético de Walt, um deles, aliás, nada era para ele maior ou menor, ou desprovido de interesse. Mesmo uma simples aranha, tecendo tranquilamente a sua teia no canto do teto, era para ele motivo de admiração, de embruxamento. Ainda sobre a rotina doméstica, digo, sobre a quebra dessa deliciosa rotina, foi a chegada de um escultor e um pintor. Os dois com pretensões de imortalizar Walt Whitman. Foi um reboliço, Mary de cabelo em pé, assustada com tudo isso, os dois, um implicando com o outro, em busca da melhor luz... até que, um dia, foram finalmente embora. Não que eu não gostasse de Morse e Gilchrist, mas eles me roubavam a atenção de Walt.
Walt era mesmo genial! E olhe que a pouquíssimos seres humanos eu aplico este epíteto tão banalizado nos dias que correm: é genial pra lá, genial pra cá, enfim, tudo tornou-se genial e, na realidade, nada mais é genial. O Dr. Bucke um médico canadense, muito amigo de Walt, um dos seus testamenteiros, chegou a estudá-lo como um tipo de mente superior, dedicando-lhe pelo menos dois volumes. Ele chamou a isso de “consciência cósmica” ou “consciência crística”, embora até hoje eu não compreenda muito bem, em toda amplitude, o significado disso tudo, mas confio na competência do Dr. Bucke. Se Walt o tinha em boa conta, eu também. Todas as vezes que Walt precisou, o Dr. Bucke veio em seu auxílio, visitando-o várias vezes durante a longa enfermidade que se abateu sobre o poeta, do verão de 1888 à primavera de 1892. A desgraça teve início quando, logo depois do seu aniversário, fomos, eu e ele, até a beira do rio contemplar o por do sol no Delaware, o seu amado Delaware. Embevecidos com tamanho espetáculo, nos esquecemos da hora (como se Walt se preocupasse com essas coisas), a noite chegou e, com ela, o sereno e a friagem, terríveis para alguém de saúde tão fragilizada como Walt. Voltamos para casa no avançado da noite, já sentindo os sintomas de um resfriado maligno, o qual o levou a um estado de coma. Durante dias, eu, Mary e Tom ficamos ao lado do seu leito, ansiosos, até que ele foi se recuperando aos poucos, mas a sua saúde nunca mais foi a mesma. Este foi o último passeio de Walt.
O seu último aniversário, de 72 anos, foi uma festança, uma comemoração à altura, móveis sendo arrastados para os cantos, as portas dos salões contíguos sendo despregadas para acomodar todos os convidados, uma azáfama sem igual. Tudo transcorreu de acordo, a não ser quando um chato, de voz empostada, altissonante, pomposa, resolveu recitar um poema de Walt (você sabe como são os puxa-sacos), o belíssimo “O Captain! My Captain!'. Aquela falta de sensibilidade foi me dando nos nervos, esquentando os tímpanos, que quando dei por mim eu já o estava arremedando. Mandaram que me calasse, fizeram “pssit”, mas levei a molecagem até o final e só então me retirei do salão, vingado. Ainda vejo o sorriso condescendente de Walt.
Infelizmente, a morte chega a todos, até aos gigantes. Desculpe, mas quando se trata de Walt, não tenho meio-termo. Lembro-me como se fosse hoje do final da tarde do dia 26 de março de 1892, um sábado, quando o meu fiel companheiro partiu para os eternos campos de caça. Além de mim e Mary, estavam presentes o seu enfermeiro Warry o único que conseguia fazê-lo sorrir nos últimos dias, os amigos Harned e Horace, e o Dr. Alex. Tom chegou logo depois. No dia seguinte, eu acompanhei o cortejo fúnebre até o cemitério de Harleigh, ora ao lado de Mary, ora à frente do caixão. Quando todos já tinham deixado Walt descansar em paz, seu corpo cansado, a vasilha da vida, entregue de novo à sorte da terra, somente eu, Watch, estava ali no seu túmulo, como o guardião da sua alma. Mas a noite chegou e achei melhor voltar para casa. Não por medo de alma penada, mas que Mary estivesse preocupada com a minha demora. Longe de mim essa ideia de medo dos mortos mas há de se respeitá-los para que nos respeitem e não se imiscuam em nossas vidas.
Talvez por nostalgia, o andar errático levou-me de volta ao número 328 da Mickel Street, à velha morada. Você precisava ver, Walt, no que transformaram a sua casa, o seu, o nosso lar. A agradável casa virou uma pensão barata, um pardieiro. O proprietário é um italiano grosseirão, um bronco, de nome Thomas, que sequer sabe quem foi Wat Whitman, e que me enxotou dali como se eu fosse um cachorro sarnento. Dependendo de mim, a nossa velha casa seria transformada em uma fundação, um local de cultivo à sua memória, à memória do ser maravilhoso que você foi, algo assim como a Walt Whitman House. Já pensou? Você chegou, um dia, a imaginar em algo assim?
Aos curiosos que, por ventura, queiram saber a minha aparência física, há pelo menos duas fotografias dessa época. Uma, em frente à casa da Mickle Street, na qual também estão Mary e Tom, de pé nos degraus. E outra, datada de 1891, em que estou conversando com Mary sobre a saúde de Walt, enquanto ela cerze uma das suas camisas, sentada em uma cadeira de balanço. Mas, devo dizer, nenhuma dessas fotos faz justiça à minha beleza; meus antepassados vieram do sul da Europa, da Dalmácia, talvez da Iugoslávia. Parafraseando o meu amado Walt, encerro essas memórias: quem põe os olhos neste relato, não os põe num relato, mas num cão, o cão de Walt Whitman.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
A ESCUNA MALDITA
Edson Negromonte
Esta, para dizer o mínimo, curiosa carta, encontrada entre os pertences do meu tio-avô, o Sr. Hipólito Leal Gomes de Almeida, o último Barão de Guaraqueçaba, pode vir a ser um documento esclarecedor sobre um crime ocorrido há mais de quarenta anos e, até hoje, ainda não esclarecido no município vizinho de Antonina, se estudada sob a luz da compreensão filosófica da alteridade, penso eu. Por isso, e somente por isso, é aqui dada a lume:
“Arquipélago dos Atobás, Ilha Menor, 27 de novembro de 2007.
“Caro Leal, após tanto tempo sem dar notícia, perdoe-me se o deixei preocupado. Aceite minhas desculpas, pois não quis ofendê-lo com meu silêncio, sendo você o único amigo que me restou depois de tudo o que aconteceu. Esta carta é muito mais um desabafo que qualquer outra coisa, já que ultimamente venho sentindo a proximidade da morte, essa mãe amorosa que jamais esquece seus filhos, mesmo os ingratos, e que, mais cedo ou mais tarde, vem resgatá-los do mar proceloso da ignorância e infortúnios no qual a espécie humana se debate e chafurda desde o nascimento. Como não pretendo seguir para o ansiado e silencioso esquecimento do último lar acompanhado do segredo que há tanto me atormenta, o designei como o fiel depositário de minha mazela. Dou-lhe o direito de duvidar do que vai ler, jamais o de fazer pouco caso; compreendo que seja um relato assaz fantástico, mas jamais fantasista. Eis, pois, a razão por que me calei durante tanto tempo, sempre fechando-me em copas todas as vezes em que as nossas conversas resvalavam no assunto.
Você lembra com certeza de quando aquela escuna malldita amanheceu atracada em nosso pequeno porto, no ano de 1977. No primeiro dia de maio, para ser mais exato. Sintomático que fosse a madrugada de 30 de abril, véspera da noite consagrada à Santa Valburga, além do mais, o sábado de um ano bissexto. Sem tripulantes, a escuna estava vazia, deserta, sem carga nenhuma. Lembro-me muito bem da comoção dos moradores da nossa decadente aldeia. Imediatamente começaram a surgir suposições sobre a chacina de toda a tripulação por amotinados, que depois teriam fugido, como ocorrera alguns meses antes com o navio pesqueiro Chin-Kai 2, de bandeira chinesa, encalhado na ilha do Superagui. Outros, os ditos supersticiosos, asseguravam ter visto figuras fantasmais andando pelas ruas. Isso é impossível. Se, durante a noite, alguém tivesse transitado por essas ruelas, eu, com certeza, teria notado, ou melhor, percebido. Devido a um distúrbio do sono, surgido na adolescência, tornei-me um noctâmbulo, perambulando pelos becos a noite toda. Devido a tal distúrbio, desenvolvi uma acuidade perceptiva exacerbada que não permitia que um gato sorrateiro passasse incólume sem que meus ouvidos registrassem este fato aparentemente desprezível para o comum dos mortais, mas que, para mim, não passaria desapercebido em meio à solidão noturna a que me vi, desde então, condenado. Prestes a romper a aurora, voltei a me refugiar em casa, nos livros, o meu lar seguro. Não que eu não pudesse com a luz do dia, longe de mim querer jogar mais sombra sobre a minha personalidade já tão estranhamente ensombrecida. A leitura era, sempre foi, para mim, um paliativo à maldade humana que, ignorante das nuances da personalidade, insiste em excluir os diferentes do convívio social, como uma ameaça; sei que sou somente mais um dos que não se conformam à normalidade. Apesar da segregação surda, nunca ninguém me disse explicitamente que eu não podia fazer parte de algum círculo, mas pelo apelido que me deram, o Velador, é nítida a relação de medo que meus concidadãos tinham comigo. Digo medo porque aquele que é diferente das pessoas comuns gera este sentimento aniquilador, levando muitas vezes à intolerância e ao ódio, como ocorreu em relação aos místicos medievais, queimados nas fogueiras santas. Independente do medo, pelo apelido de Velador é perceptível alguma compreensão, apesar da aparente ignorância à qual estão submetidos, do meu papel em suas vidas, na vida da cidade: o de velar, zelar pela tranquilidade do seu sono, com toda a ambiguidade da palavra “velar”. Além de manter a luz, “velar” também significa ocultar. Você deve estar se perguntando como, com tamanha sensibilidade auditiva, eu não percebi a movimentação no porto, no velho cais de madeira, o qual range a qualquer movimento mais brusco da maré. Não saberia dizer, embora venha-me à mente agora, enquanto escrevo este relato, a nitidez do silêncio daquela sinistra madrugada.
Pela manhã, em meio à multidão de curiosos, eu observava a escuna; pintada totalmente de preto, três mastros e, na proa, em vermelho, a inscrição BAPHA. Meu interesse aleatório por línguas indo--europeias valeu-me então. Sem dúvida, eram caracteres cirílicos Pronuncia-se Varna o nome do barco! Esta palavra soou-me levemente familiar, embora, naquele momento, não conseguisse ter acesso ao escaninho da mente onde ela se alojara. Recorrendo a uma enciclopédia, na biblioteca municipal, encontrei o verbete correspondente: uma cidade turística, aprazível balneário na Bulgária. Somente isso, o que, por certo, não me foi de grande ajuda. Decepcionado (como é da minha índole, eu sempre espero uma revelação), tomei o rumo de casa. Ao chegar, deixei-me cair na poltrona; alguns poucos minutos de sono, durante o dia, eram, e ainda são, suficientes para recompor mental e fisicamente o meu organismo cansado das deambulações notunas. As decepções sempre tiveram o poder de me prostrar. Muitas vezes, durante dias, principalmente quando as decepções vêm acompanhadas de uma interrogação, de uma resposta não obtida. Principalmente as respostas intelectuais. Daí, repentinamente, do nada (eu bem sei que não pode ser do nada, pois essa insignificância ardentemente desejada pelos homens insiste em não existir), em repouso, vem, num lampejo, a resposta. Categórica, certeira, iluminadora, com a qual não há discussão, oriunda dos registros cósmicos nos quais tudo, absolutamente tudo, todas as ações do homem, fica assinalado. Os orientais chamam a isso “registros acásicos”. Não é fácil o acesso a esse manancial do conhecimento de todas as eras, somente quando se tem real necessidade. Eu mesmo, quando estudante devotado dos aspectos místicos da vida, não tinha acesso a eles quando bem entendia. Sei que existem, conforme comprovei nas ocasiões em que tive real necessidade, principalmente quando o apelo não era egoístico. Afundado na poltrona, próximo da sonolência, veio-me à mente a palavra “Drácula”. Sem muita convicção, me dirigi à estante, tomei nas mãos o clássico de Bram Stoker, abrindo-o exatamente no capítulo VII. E, como se tivesse um olho na ponta do dedo indicador, lá estava a palavra! Varna, sim, Varna, o porto de onde partira o conde malévolo em direção a Whitby, na Inglaterra. Mera coincidência, diriam os céticos. Devo confessar que eu também, a princípio, tive o mesmo pensamento.
Com o tempo, a população acostumou-se com a negra e perniciosa presença da escuna, com os meninos, indiferentes a tudo, fazendo-a de trampolim para as suas brincadeiras nas águas turvas da baía. Nem quando grande parte da população foi atacada pela meningite, as autoridades médicas ou os supersticiosos foram capazes de associá-la à escuna maldita. A maldição é a nossa sina desde o princípio; vivíamos sob a condenação da capela erguida pelo fundador da vila sobre um cemitério sambaquita, local respeitado até pelos índios guaranis, os quais foram os responsáveis pelo extermínio do povo do sambaqui. Será que não percebiam o odor acre de urina de rato, muito embora não se percebesse visivelmente a presença dessas criaturas nojentas, espalhando-se pela cidade, a partir da embarcação? O cheiro de terra molhada, apodrecida... Seria exagero dizer “a terra pútrida da Transilvânia”, como ouvíamos nos filmes da Hammer, no Cine Ópera? Era como se a população vivesse em um estado alterado de percepção. De que as pessoas tinham medo? Que os seus piores temores tivessem fundamento? Certo dia, sem que ninguém notasse, arranhei a pintura do casco da nau pressaga com a ponta da chave. No dia seguinte, confirmou-se a minha suspeita: a escuna refazia-se à noite de qualquer avaria. Não havia em seu casco qualquer risco; erguia-se imponente, desafiadora. Será que só eu, o Velador, compreendia a ameaça imanente? Como alertar a população sem que me tomassem por lunático? Aliás, mais lunático ainda. No íntimo, acredito que as pessoas são capazes de pagar um preço alto, muito alto, por permanecerem na ignorância confortadora. Basta-lhes dizer “Deus quis assim” ou “Deus deu, Deus leva”. É fácil culpar um ser superior pelas nossas desgraças, muito fácil nos eximirmos da responsabilidade quando nos fazemos de joguete nas mãos implacáveis do Grande Titereiro, movendo-nos para lá e para cá, ao seu bel-prazer. Desculpe-me, mas não posso crer em um Deus caprichoso. Veja bem, não estou blasfemando, é somente que a minha concepção da divindade é muito diferente. E não se dê ao trabalho de querer saber, meu amigo, qual é o meu Deus; a minha concepção é única e exclusiva, somente a mim serve, somente a mim diz respeito, mas, tenha certeza, você não gostaria de conhecê-la; revoltá-lo-ia.
Admito que o vampiro de Stoker martelou o meu cérebro durante dias. Para mim, não há coincidências; recusei-me, como recuso-me até hoje, a aceitar tal alternativa. Para mim, as coisas relacionam-se muitas vezes de maneira desconhecida. O certo é que se relacionam, embora não consigamos compreendê-las na totalidade neste plano terreno. O que dizer, então, do nome da escuna? Coincidência? E o surto de meningite? Não foi este o diagnóstico médico quando o desafortunado Jonathan Harker foi encontrado pelas freiras, após conseguir fugir do castelo amaldiçoado? O que sei é que o carnaval, a história, se repete, muda somente a fantasia. Intimamente, eu sabia que esses fatos estavam relacionados. Só não atinava como, quando em uma das minhas andanças noturnas vi luzes na casa do morro. Há anos aquela casa estivera desocupada, desde que o prefeito Valdomiro ali matara toda a família com requintes de crueldade, empalando as vítimas e, dizem, bebendo-lhes o sangue. Depois disso, a maior casa da cidade, a qual chamávamos de castelinho, foi abandonada à própria sorte, às ruínas. Lembra-se disso? Só uma observação: como tem ruínas a nossa aldeola. Sobrevoá-la é a constatação de uma cidade bombardeada, só escombros; um mundo de aparências, universo de sombras ao qual se acha por bem fechar os olhos.
Sempre tive a fama de nefelibata, com a cabeça eternamente nas nuvens, mas os fatos aqui narrados me darão razão. Pelo menos, a sua razão, assim espero. As coincidências com o vampiro stokeriano não param por aí, pois o romance foi baseado em acontecimentos reais apropriados pelo folclore, a crendice popular onde reside a verdade. Para mim, era cada vez mais gritante a pergunta: O que a sanguessuga transilvânica fazia em nossa Antonina? Embora meu cérebro se recusasse a crer, algo mais íntimo dentro de mim, a convicção da minha alma (ou devo dizer mais apropriadamente “de meu sangue”, posto que os antigos acreditavam ser o sangue a morada da alma?), insistia na presença do ser terrível. Certamente, mais forte com o passar dos anos, ele vinha em busca de algo maior, não somente sangue. Você deve estar achando muito estranha toda esta exposição, peço-lhe apenas que a leia até o fim, sem pré-julgamento. Posso vê-lo balançando a cabeça, com ganas de abandonar a leitura, devido a sua educação cristã. Rogo que não me deixe falando ao léu, tudo o que preciso neste momento é desabafar com um amigo verdadeiro. Não peço que me dê crédito, mas leia-me até o final.
O que o maldito brucolaco buscava? O que ficara inconcluso para que o príncipe das trevas se aventurasse tão longe dos Cárpatos? Sim, esta é a formulação correta da questão! Esperei a resposta e nada. Eu, por um momento, cheguei a duvidar de tudo, admito, quando meus ouvidos foram surdamente assaltados por uma palavra, um nome: Mina! Sim, Mina! Mina, o desejo inalcançado, irrealizado. Sim, os vampiros também são movidos pelo desejo! No cartório, infrutíferas foram minhas averiguações; desde a sua abertura, nniguém fora registrado com este nome. Desanimado, voltei para casa, deixando-me cair na poltrona em busca do lenitivo que só o sono é capaz de proporcionar. Despertei sobressaltado com um nome de mulher martelando-me a cabeça: Guilhermina. Sim, o nome cujo apelido era Mina! Sim, a filha mais nova de uma família tradicional da cidade, os Tepes, a jovem por quem todos choraram ao despencar de carro de um despenhadeiro, em alta velocidade, na Serra da Graciosa. Sim, tornava-se então evidente a relação do aportuguesado Guilhermina com a Wihelmina do romance, nome de origem teutônica, a protetora resoluta. Seria Guilhermina a reencarnação de Wihelmina, a nossa Mina, a virgem dos cabelos negros e cacheados, da pálida pele de opala, cuja lápide ostentava um retrato merecedor de admiração, e até a adoração, dos estrangeiros vindos sabe-se lá de onde, aos quais chamávamos de ciganos? E o que pensar do seu sobrenome Tepes, Guilhermina Tepes? Seria leviandade relacioná-lo com o do cruel Vlad III, príncipe da Valáquia, conhecido como o empalador? Que caminhos tortuosos traça a lei do eterno retorno para os devidos resgates cármicos? Coincidência, diria você. Justaposição? Sincronia? Pois, hoje, posso asseverar, de acordo com meus estudos quânticos, indo contra toda a ciência, que o tempo, essa realidade somente terrena, portanto, útil apenas às finalidades da matéria, é diacrônica, jamais sincrônica. De posse dessa certeza é que posso explicar, talvez somente para mim mesmo (gostaria que você, em nome da nossa longa amizade, me acompanhasse), o motivo por que o morto-vivo estava entre nós, tão longe da terra natal, após tantos séculos: o amor. Sim, somente este sentimento é capaz de explicar tamanho deslocamento da sua realidade imediata. Afirmo ainda que é a diacronicidade do pensamento moderno, fragmentário, através dos séculos, era sobre era, que fortalece o vampiro, seja pelos livros, filmes, lendas. Hoje, a luz do dia não mata mais os vampiros, como dantes, somente os enfraquece. Por isso, desta vez, ele, o excomungado, não repetiria, como não repetiu, os erros do passado. O amor, e somente o amor por uma mulher, pela mulher amada, fez com que o conde viesse de tão longe, das brumas do passado, atravessasse o oceano de Cronos, para alcançá-la. Até mesmo a empedernida ciência dos homens chega a admitir atualmente a existência dos vampiros psíquicos, para explicar os males de um mundo em desarmonia consigo mesmo.
Aconteceu, como já se podia prever, de me ver envolvido com uma investigação por conta própria sobre o conde, sobre a sua permanência em Antonina. Noite e dia, vi minha mente ocupada por essa obsessão, perseguindo como uma sombra invisível as pegadas do vampiro. Onde quer que ele estivesse, lá estava eu, à espreita. Foi assim que vi os lobos, espectros de lobos, cinzentos, rondando, protegendo a antiga mansão do prefeito, no alto do morro, a qual chamávamos de castelinho. Lembra-se da canção “As crianças da noite fazem a sua música”, ouvida na voz das lavadeiras de nossa terra, em nossa infância? Estou, hoje, convicto de que esta cantiga aparentemente singela (não vivemos num mundo de aparências?) era o vaticínio da futura vinda do brucolaco. Lembra-se também do verso na lápide de Mina, versos estes intrigantes, dignos de um poeta ultrarromântico de província: “Dos recõnditos abismais, cessam os uivos, levanta-te, ó alma”? Seria loucura ver neles a intenção de um acróstico macabro? Peço ao amigo que exclua do epitáfio o artigo “os” e a interjeição ó”, mera partícula expletiva. O que acontece? Forma-se a palavra, o nome Drácula. Eu vejo nisso os liames de uma incognoscível matemática cósmica, que sempre se escapa como areia fina por entre os dedos do buscador.
Mesmo neste paraíso que é o Arquipélago dos Atobás, mormente a Ilha Menor, de beleza exuberante, ainda tenho pesadelos com tudo o que vi e presenciei, acordando no meio da noite suado, sobressaltado, a camisa do pijama molhada. E choro; as lágrimas são a chuva redentora da alma. Apesar de tudo, sinto-me então estranhamente rejuvenescido, com força sobre-humana, apesar da imagem do cemitério e o seu ocorrido grudados em mim, em meus olhos arregalados, como moscas de cozinha em papel pega-moscas, me trazerem de volta à realidade mesquinha, definhante. É justamente por isso, por esse irreversível enfraquecimento de meu invólucro físico, muito embora curiosamente eu sinta as faculdades mentais cada vez mais aguçadas, que me faz sentir às portas da benfazeja morte, a mãe misericordiosa, é que lhe estou endereçando esta missiva, o testamento de um homem inocente de todo o mal que lhe imputaram e ainda imputam. Peço-lhe que só a torne pública, se isso lhe convier, após o meu passamento. A mim, hoje, interessa principalmente que você, meu único e grande amigo, saiba toda a verdade. Verdade essa que fiz questão de ocultar dos meus contemporâneos, apesar de sofrer enormemente com a sua execração; meu ódio por eles foi, e ainda é, tanto que até hoje me regozijei em mantê-los na ignorância. Haverá vingança maior que saber que fomos injustos em nosso julgamento e que nada mais poderá ser feito para reparar tal dano? Que, por nossa causa, por nosso juízo afoito, fizemos alguém passar os ditos melhores anos da vida, para mim os piores, atrás das grades de uma penitenciária, depois, de um manicômio mais imundo ainda, por um crime não cometido, se é que crime houve. Sim, eu presenciei toda a cena do cemitério, mas nela não tomei parte. Seria o expectador, segundo a lei dos homens, responsável pela atuação, boa ou má, dos atores? Então, o talento e a genialidade não estariam com Sir Lawrence Olivier, mas com a plateia? E o que sobraria para Shakespeare?
Na noite desgraçada, eu segui a minha intuição: uma voz dentro de mim, de início sutil, logo intermitente, que recomeçava a curtos intervalos, cada vez mais impositiva, a qual mandava-me ir ao cemitério, onde a bela e casta Mina fora enterrada. Ao chegar, a lua cheia, uma esfera magnífica no céu, tudo iluminava, especialmente o túmulo de Mina, sortílega. Não precisei esperar muito; um pouco depois da meia-noite, a hora aziaga, escondido atrás do grande jazigo dos Oliveira, posição que me dava boa visibilidade, eu vi o imundo nosferatu surgir, se materializar. À sua chegada, pesadas nuvens negras, em promíscuo conluio, ocultaram a lua. E como se o ator principal desse drama macabro precisasse de testemunho, da minha cumplicidade, da minha conivência, diriam os juristas, a silhueta esguia, mais negra que o negrume ora instaurado, de energia descomunal, retumbante, deu início à exumação de Mina. Diante da cena atroz, repulsa e ódio. Apesar da escuridão, eu vi, percebi o sorriso da horrível criatura. Preso ao chão, os pés cada vez mais pesados, não pude correr dali. Morbidamente, apesar do terror, eu devo admitir que, estranhamente, meu coração se comprazia com tudo aquilo, deleitando-se, abandonado diante do espetáculo: desprovido de ferramentas, ele, o desventurado, utilizava-se somente de gestos, tal e qual o senhor dos elementos, a terra da cova se erguia aos montes, girava em espirais, rodopiava no ar, espalhando-se pelos túmulos em um bailado macabro, porém apaixonante. Em seguida, com um único gesto, exato, taumatúrgico, ele trouxe o esquife virginal à superfície: branco, intacto. Num supetão, a tampa se rompeu, revelando a beleza de Mina, perfeita, entreabertos os lábios vermelhos, ainda, após tanto tempo, intocada pelos vermes interiores. Viva, sim, viva! Rediviva! Abriu os olhos, aparentemente vinda de um sono breve e repousante. Mina, o desejo inalcançado, agora realizado! Ante a violação do sono sagrado, senti ter sido eu escolhido pelo Diabo, ou pelos Céus, quem sabe, para presenciar o acontecimento do amor, atitude arrebatadora capaz de transgredir as leis naturais, às quais todos os seres se submetem, menos aqueles capazes de amar incondicionalmente. Foi neste momento ensurdecedor (sim, ensurdecedor, não há outro termo para descrever a sensação de que fui acometido. Seria isso a música das esferas?), em que desmaiei, justamente quando o conde a tomava nos braços e com ela, para sempre, desaparecia. Quando recobrei os sentidos, encontrava-me já detrás das grades, acorrentado, como se eu fosse um monstro, a besta-fera responsável pelo desaparecimento do cadáver de Mina.
Certo de que não mais nos veremos, agradeço sinceramente a nobreza de sua amizade. Parto com a certeza de que muitas questões ficaram inconclusas, mas não é assim mesmo a vida, incompleta?
Sinceramente seu,
R.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
LINNE
por Edson Negromonte
Acordei pensando em Linne... O que terá acontecido com ela? Terá sido adotada por madame Sénégal, a zeladora? Por que eu acordaria preocupado com uma gata mourisca, mesclada de amarelo e branco, que viveu há mais de cem anos? Só porque ela pertencia a Claude Debussy? Bem, sim e não. Alguns dirão que a minha preocupação é apenas uma artimanha, ou quem sabe “pose”, em busca da inspiração que não vem; outros, os de veia literária, me compreenderão, assim espero. Linne presenciou os acontecimentos da posição mais privilegiada, a de voyeuse. Quisera eu ter estado no seu lugar e presenciado todas as cenas de amor entre Claude e Gabrielle Dupin, a doce Gaby, a quase sempre doce Gaby, que surgiu na vida de Claude em um desses acasos que o destino é tão hábil em criar. Antes de Gaby, a única companhia feminina do músico era a gata Linne, resgatada do latão de lixo logo que ele se mudara para o velho prédio, no número 42 da Rue de Londres, próximo à Estação Saint-Lazare, onde alugara o sótão. É claro que, como todas as fêmeas, Linne fez-se notar com um lânguido e cativante miado; Claude, carregado de partituras para transcrição, abraçou-a e, desde esse dia, passou a dividir com ela o seu mísero lar, no segundo andar, cheio de goteiras e nenhuma calefação. Agora, num surto metempsicótico, é melhor deixar que Linne conte a maravilhosa história do tempo que conviveu com Claude Debussy, o mais brilhante e inventivo compositor da música erudita francesa.
“Desde a manhã em que o vi, apaixonei-me por ele, perdidamente, o ar romântico, o andar com a cabeça nas nuvens e, principalmente, as duas suculentas sardinhas que me oferecera logo no primeiro dia. Após essa lauta refeição, eu me enrodilhei na sua cama, ainda desfeita, aliás, sempre desfeita (mesmo após a chegada de Gaby) e ali adormeci, ronronando de felicidade e satisfação. Felicidade por ter encontrado um lar aconchegante, depois de tanto perrengue, e a satisfação da barriga cheia. Ou seria o contrário: a felicidade da barriga cheia e a satisfação de um lar? O que sei é me resolvi a nunca mais sair dali, daquela cama quentinha, do aconchego dos braços de Claude, a segurança de um lar. Sim, a segurança de um lar! Muito embora os poetas apregoem a independência dos gatos, nós também precisamos nos sentir seguros, ter um lugar quentinho para as noites frias de inverno, para nos abrigarmos principalmente da chuva, das nevascas.
“O primeiro Natal que passamos juntos, eu e Claude, fazia um frio terrível, o vento entrava assobiando pelas frestas do sótão, o qual Claude insistia em chamar de mansarda; as goteiras chegavam a congelar, formando, no meio do cômodo, duas horrendas estalactites que mais pareciam os caninos medonhos de um canzarrão. Em meio a isso tudo, reclinado na cama, ao meu lado, Claude musicava uns versos de Paul Verlaine, acho que 'Arietes Oubliées'. Quando o inverno abrandou, Claude pode sair de casa para visitar os editores. Voltou radiante, conseguira vender algumas das suas composições. Como a chegada da primavera deixa as pessoas melhores... Não mais as caras enfezadas do inverno, esse inverno lamacento de Paris. Apesar de prometer a si mesmo que, desta vez, seria previdente, sem torrar em poucos dias o pouco que recebia, chegou em casa, trazendo um vaso com as mais belas tulipas que eu já vi, em vez de comprar um guarda-chuva. Mas quem precisa de guarda-chuva na primavera parisiense? São só uns poucos respingos aqui e ali, uns aguaceiros ocasionais... Era bom, assim as minhas sardinhas matinais estavam garantidas. Um dia, chegou com um chapéu muito estranho, de abas largas, que ninguém, em sã consciência, ousaria usar. Mas não é pedir muito coerência a um gênio? Desde cedo, ainda menino, Claude tinha um gosto extravagante, Enquanto as crianças da sua idade gastavam as economias nos doces mais baratos, guloseimas de baixo preço, ele comprava um bombom finíssimo, de paladar refinado. Assim era Claude; em vez de gastar o que recebera em um aquecedor ou no conserto do telhado, comprava uma caríssima almofada de seda, com motivos japoneses, na qual eu me refestelava, sem nela afiar as unhas, pois, nós, gatos, sabemos muito bem onde podemos ou não nos espreguiçarmos. E numa obra de arte, jamais. Além da arte japonesa, outra paixão de Claude eram os livros; costumava percorrer as barracas às margens do Sena e, evidentemente, gastava nelas o que tinha no bolso. Não sei explicar como, mas as minhas deliciosas sardinhas sempre estiveram garantidas. Às vezes, uma somente, enquanto Claude se alimentava de uma única ração de pão e chá o dia todo. Nessas ocasiões de vacas magras, eu apelava para o coração bondoso de madame Sénégal, que sempre me servia um pratinho de leite. Raras vezes, tive de apelar novamente para as latas de lixo da vizinhança. Mesmo assim, jamais culpei Claude por isso ou aquilo, ou melhor, pelo ronco no estômago. O que ele não podia me dar de comida, prodigalizava em carinho e atenção, contando-me os seus planos. Fomos grandes confidentes. Até o dia em que Gaby se embarafustou sótão adentro, trazendo consigo sua mudança em dois malões e uma arca, abarrotados de roupas finas, enquanto Claude estava fora. Levei um susto daqueles! Então, essa era a causa do sorriso constante do compositor nos últimos dias: uma fêmea da sua espécie. E que fêmea! De início, nos estranhamos quando ela me enxotou de cima de uma das suas caríssimas lingeries, estendidas na cama. E como, apesar do ciúme, desgostar de alguém com o mais belo par de olhos verdes que eu já tinha visto? Sua pele era sedosa como um pêssego maduro. Quando ela me tomou nos braços, tive a intuição de que nos daríamos bem, aliás, muito bem. Se Claude a amava, eu também a amaria, apesar do susto inicial. Pois não é assim com as grandes amizades, com os grandes amores, sempre precedidos de uma aversão inicial? 'Os extremos se tocam', aprendi isso observando um cachorro que mordia o próprio rabo, rodando feito uma carrapeta. Gaby não era como as prostitutas que, vez ou outra, Claude trazia para casa, para a higiene do corpo ou para 'afogar o ganso', como dizem os homens e não os gansos. Não, Gaby era de outra estirpe: uma bela mundana, vinda do interior, à cata de um milionário. Como Paul não tivesse onde cair morto, ela já chegou avisando que permaneceria ali somente três meses, o tempo de seu pretendente rico voltar de uma viagem de negócios. Eu logo percebi que essa estada se prolongaria; esses lampejos repentinos e tão verdadeiros aos quais não damos muita atenção no momento. Como as mulheres se sentem atraídas pelos homens frágeis que não tiveram o carinho materno. E, para elas, Claude era um prato cheio; seus aveludados e intransponíveis olhos negros escondiam o desamparo do gigante, prontos a se apaixonar pela primeira que se enternecesse por ele.
"Como eu bem adivinhara, passaram-se os três meses e nada de Gaby ir embora, de volta ao seu milionário. Se ela admoestava Claude pela falta de senso prático, ela tampouco o tinha também. Em vez de se mudar para a tão almejada vida de luxo e riqueza, ela parecia ter prazer na miséria a que os inventores estão condenados desde o alvorecer da humanidade. Gaby ficava encantada de poder cozinhar para ele, varrer o chão, limpar a fuligem de cima do piano, devido à proximidade da estação ferroviária, lavar as suas roupas, passá-las; uma verdadeira dona de casa, apesar da casa em questão ser um sótão miserável, agora abarrotado com os móveis que ela comprara: dois guarda-roupas para acomodar as suas roupas e uma mesa onde podiam, então, fazer as refeições. Guardadas as proporções, parecia uma família burguesa, com o infalível bichinho de estimação.
“Com a vinda de Gaby, Claude estava agora realmente nas nuvens; nada como a presença feminina em uma casa para torná-la acolhedora, com cortinas e chão encerado, apesar das crateras dos cupins. Nos dias quentes, ela andava pela casa vestindo somente um aventalzinho diminuto, que mal cobria as partes íntimas, para deleite de Claude que, de repente, saía do emaranhado das notas musicais e a atirava na cama. Grande parte da sensualidade da peça 'Prélude à l'après-midi d'un faune', inspirada nos versos de Stéphane Mallarmé, é devida à formosura carnal de Gaby. Claude estava mesmo muito feliz. Gaby usava o arsenal de encantos de que dispõe a mulher não só com Claude, mas nas ocasiões em que fosse necessário. Assim foi com o senhorio, quando este entrou no sótão, apoplético, exigindo receber os aluguéis atrasados. Assim foi também com o alfaiate, que exigia o pagamento imediato dos ternos que tinha feito para Claude. A suavidade da voz de Gaby era capaz de amansar a mais sanguinária das bestas-feras.
'Quando Claude tinha que se ausentar para dar aulas de piano ou visitar os editores, em busca de trabalho, Gaby não sabia o que fazer sozinha dentro de casa. Apanhava uma das suas novelas policiais e tentava ler, indócil, sossegava somente quando distinguia os passos dele na escada. Pulava, então, da cadeira e ia recebê-lo na porta, com beijos e mais beijos, como se tivessem passado um mês sem se ver. Ah, como é lindo o amor! De vez em quando, ela inventava umas idas a Lisieux, para visitar a família. Não sei até que ponto isso era verdade. As fêmeas de qualquer espécie são muito espertas: quando querem trair, traem nas barbas do amante. Isso foi só uma suposição, eu nunca a segui para me certificar. Queria, assim como Claude, tenho certeza, uns dias de paz. Não que viver com Gaby fosse ruim, mas a gente precisa, às vezes, de algum sossego. E a língua de Gaby não dava trégua, onde ela estivesse era uma azáfama, um burburinho, ah, a tagarelice das mulheres. Precisávamos um pouco de paz doméstica. Claude, para compor; eu, para dormir, caçar uns ratos. Com Gaby presente, nada disso era possível. Ao voltar, queria contar tudo o que lhe acontecera, chegava a atropelar as palavras, as faces rosadas, os olhos verdes mais verdes ainda. Claude aproveitara a sua ausência para retomar “Pelléas et Mélisande”, febril, interrompida somente pela visita de Pierre Louÿs, um poeta de boa cepa, grande amigo.
“Foi depois de uma das idas a Lisieux que Gaby começou a se tornar irritadiça, qualquer coisa era motivo para discussão, para brigas. Chegou mesmo a gritar com Claude (como podia alguém erguer a voz com ele?), cobrando-lhe que ganhasse dinheiro com a sua música, que escrevesse canções assobiáveis, que pudessem ser tocadas nos cabarés. Quem ela estava se achando? A mulher dele? Quando Claude voltou de Bruxelas, onde fora visitar o amigo Eugéne Ysaye e levar-lhe alguns exemplares do seu quarteto para cordas, encontrou Gaby arrumando as malas. Sem o seu conhecimento, a louca tinha alugado um apartamento de três quartos, no quinto andar de um prédio à Rue Gustave Doré. Pela primeira vez, vi Claude realmente bravo. Saiu batendo a porta, dizendo que não queria vê-la ali quando voltasse. Depois de uma hora, encontrou-a ainda chorando na cama. Quem resiste às lágrimas de uma mulher, sejam elas falsas ou verdadeiras? Dali a alguns dias, mudaram-se para a casa nova. Eu, como bom felino, dei no pé, desapareci feito fumaça, me escafedi. Foi um tempo muito bom esse que lhes fiz companhia, principalmente a ele, mas algo me dizia que na casa nova eu não seria feliz, perderia a tão prezada liberdade. Daí em diante, soube de Claude somente pelos jornais, mas deixo que outros, com mais propriedade, continuem a história; a minha parte está contada.
“O leitor, atento, deve estar se perguntando por que, nesses anos todos de convivência com Claude, eu nunca o apoquentei com ninhadas de gatinhos. Como todos sabem, os artistas, os de verdade, aqueles que vêm para abalar as estruturas, são seres oriundos das estrelas (e Claude, o maior de todos, viera das mais altas esferas cósmicas) e, sei lá por quê, ele achou que eu era uma fêmea, apesar de ter feito aquele exame constrangedor e desnecessário que os humanos fazem nos gatos, as pernas abertas, para saberem o sexo; bastava ver a quantidade de cores. Se têm três cores, são fêmeas; se forem de duas cores, são machos. Portanto, eu era um belo representante da espécie, apesar de ter passado à história como fêmea”.
Nem sempre, Linne, nem sempre.
(Este conto foi escrito após a leitura de “Clair de Lune”, a biografia romanceada de Claude Debussy, de autoria de Pierre La Mure; Edições Melhoramentos, 1966).
Acordei pensando em Linne... O que terá acontecido com ela? Terá sido adotada por madame Sénégal, a zeladora? Por que eu acordaria preocupado com uma gata mourisca, mesclada de amarelo e branco, que viveu há mais de cem anos? Só porque ela pertencia a Claude Debussy? Bem, sim e não. Alguns dirão que a minha preocupação é apenas uma artimanha, ou quem sabe “pose”, em busca da inspiração que não vem; outros, os de veia literária, me compreenderão, assim espero. Linne presenciou os acontecimentos da posição mais privilegiada, a de voyeuse. Quisera eu ter estado no seu lugar e presenciado todas as cenas de amor entre Claude e Gabrielle Dupin, a doce Gaby, a quase sempre doce Gaby, que surgiu na vida de Claude em um desses acasos que o destino é tão hábil em criar. Antes de Gaby, a única companhia feminina do músico era a gata Linne, resgatada do latão de lixo logo que ele se mudara para o velho prédio, no número 42 da Rue de Londres, próximo à Estação Saint-Lazare, onde alugara o sótão. É claro que, como todas as fêmeas, Linne fez-se notar com um lânguido e cativante miado; Claude, carregado de partituras para transcrição, abraçou-a e, desde esse dia, passou a dividir com ela o seu mísero lar, no segundo andar, cheio de goteiras e nenhuma calefação. Agora, num surto metempsicótico, é melhor deixar que Linne conte a maravilhosa história do tempo que conviveu com Claude Debussy, o mais brilhante e inventivo compositor da música erudita francesa.
“Desde a manhã em que o vi, apaixonei-me por ele, perdidamente, o ar romântico, o andar com a cabeça nas nuvens e, principalmente, as duas suculentas sardinhas que me oferecera logo no primeiro dia. Após essa lauta refeição, eu me enrodilhei na sua cama, ainda desfeita, aliás, sempre desfeita (mesmo após a chegada de Gaby) e ali adormeci, ronronando de felicidade e satisfação. Felicidade por ter encontrado um lar aconchegante, depois de tanto perrengue, e a satisfação da barriga cheia. Ou seria o contrário: a felicidade da barriga cheia e a satisfação de um lar? O que sei é me resolvi a nunca mais sair dali, daquela cama quentinha, do aconchego dos braços de Claude, a segurança de um lar. Sim, a segurança de um lar! Muito embora os poetas apregoem a independência dos gatos, nós também precisamos nos sentir seguros, ter um lugar quentinho para as noites frias de inverno, para nos abrigarmos principalmente da chuva, das nevascas.
“O primeiro Natal que passamos juntos, eu e Claude, fazia um frio terrível, o vento entrava assobiando pelas frestas do sótão, o qual Claude insistia em chamar de mansarda; as goteiras chegavam a congelar, formando, no meio do cômodo, duas horrendas estalactites que mais pareciam os caninos medonhos de um canzarrão. Em meio a isso tudo, reclinado na cama, ao meu lado, Claude musicava uns versos de Paul Verlaine, acho que 'Arietes Oubliées'. Quando o inverno abrandou, Claude pode sair de casa para visitar os editores. Voltou radiante, conseguira vender algumas das suas composições. Como a chegada da primavera deixa as pessoas melhores... Não mais as caras enfezadas do inverno, esse inverno lamacento de Paris. Apesar de prometer a si mesmo que, desta vez, seria previdente, sem torrar em poucos dias o pouco que recebia, chegou em casa, trazendo um vaso com as mais belas tulipas que eu já vi, em vez de comprar um guarda-chuva. Mas quem precisa de guarda-chuva na primavera parisiense? São só uns poucos respingos aqui e ali, uns aguaceiros ocasionais... Era bom, assim as minhas sardinhas matinais estavam garantidas. Um dia, chegou com um chapéu muito estranho, de abas largas, que ninguém, em sã consciência, ousaria usar. Mas não é pedir muito coerência a um gênio? Desde cedo, ainda menino, Claude tinha um gosto extravagante, Enquanto as crianças da sua idade gastavam as economias nos doces mais baratos, guloseimas de baixo preço, ele comprava um bombom finíssimo, de paladar refinado. Assim era Claude; em vez de gastar o que recebera em um aquecedor ou no conserto do telhado, comprava uma caríssima almofada de seda, com motivos japoneses, na qual eu me refestelava, sem nela afiar as unhas, pois, nós, gatos, sabemos muito bem onde podemos ou não nos espreguiçarmos. E numa obra de arte, jamais. Além da arte japonesa, outra paixão de Claude eram os livros; costumava percorrer as barracas às margens do Sena e, evidentemente, gastava nelas o que tinha no bolso. Não sei explicar como, mas as minhas deliciosas sardinhas sempre estiveram garantidas. Às vezes, uma somente, enquanto Claude se alimentava de uma única ração de pão e chá o dia todo. Nessas ocasiões de vacas magras, eu apelava para o coração bondoso de madame Sénégal, que sempre me servia um pratinho de leite. Raras vezes, tive de apelar novamente para as latas de lixo da vizinhança. Mesmo assim, jamais culpei Claude por isso ou aquilo, ou melhor, pelo ronco no estômago. O que ele não podia me dar de comida, prodigalizava em carinho e atenção, contando-me os seus planos. Fomos grandes confidentes. Até o dia em que Gaby se embarafustou sótão adentro, trazendo consigo sua mudança em dois malões e uma arca, abarrotados de roupas finas, enquanto Claude estava fora. Levei um susto daqueles! Então, essa era a causa do sorriso constante do compositor nos últimos dias: uma fêmea da sua espécie. E que fêmea! De início, nos estranhamos quando ela me enxotou de cima de uma das suas caríssimas lingeries, estendidas na cama. E como, apesar do ciúme, desgostar de alguém com o mais belo par de olhos verdes que eu já tinha visto? Sua pele era sedosa como um pêssego maduro. Quando ela me tomou nos braços, tive a intuição de que nos daríamos bem, aliás, muito bem. Se Claude a amava, eu também a amaria, apesar do susto inicial. Pois não é assim com as grandes amizades, com os grandes amores, sempre precedidos de uma aversão inicial? 'Os extremos se tocam', aprendi isso observando um cachorro que mordia o próprio rabo, rodando feito uma carrapeta. Gaby não era como as prostitutas que, vez ou outra, Claude trazia para casa, para a higiene do corpo ou para 'afogar o ganso', como dizem os homens e não os gansos. Não, Gaby era de outra estirpe: uma bela mundana, vinda do interior, à cata de um milionário. Como Paul não tivesse onde cair morto, ela já chegou avisando que permaneceria ali somente três meses, o tempo de seu pretendente rico voltar de uma viagem de negócios. Eu logo percebi que essa estada se prolongaria; esses lampejos repentinos e tão verdadeiros aos quais não damos muita atenção no momento. Como as mulheres se sentem atraídas pelos homens frágeis que não tiveram o carinho materno. E, para elas, Claude era um prato cheio; seus aveludados e intransponíveis olhos negros escondiam o desamparo do gigante, prontos a se apaixonar pela primeira que se enternecesse por ele.
"Como eu bem adivinhara, passaram-se os três meses e nada de Gaby ir embora, de volta ao seu milionário. Se ela admoestava Claude pela falta de senso prático, ela tampouco o tinha também. Em vez de se mudar para a tão almejada vida de luxo e riqueza, ela parecia ter prazer na miséria a que os inventores estão condenados desde o alvorecer da humanidade. Gaby ficava encantada de poder cozinhar para ele, varrer o chão, limpar a fuligem de cima do piano, devido à proximidade da estação ferroviária, lavar as suas roupas, passá-las; uma verdadeira dona de casa, apesar da casa em questão ser um sótão miserável, agora abarrotado com os móveis que ela comprara: dois guarda-roupas para acomodar as suas roupas e uma mesa onde podiam, então, fazer as refeições. Guardadas as proporções, parecia uma família burguesa, com o infalível bichinho de estimação.
“Com a vinda de Gaby, Claude estava agora realmente nas nuvens; nada como a presença feminina em uma casa para torná-la acolhedora, com cortinas e chão encerado, apesar das crateras dos cupins. Nos dias quentes, ela andava pela casa vestindo somente um aventalzinho diminuto, que mal cobria as partes íntimas, para deleite de Claude que, de repente, saía do emaranhado das notas musicais e a atirava na cama. Grande parte da sensualidade da peça 'Prélude à l'après-midi d'un faune', inspirada nos versos de Stéphane Mallarmé, é devida à formosura carnal de Gaby. Claude estava mesmo muito feliz. Gaby usava o arsenal de encantos de que dispõe a mulher não só com Claude, mas nas ocasiões em que fosse necessário. Assim foi com o senhorio, quando este entrou no sótão, apoplético, exigindo receber os aluguéis atrasados. Assim foi também com o alfaiate, que exigia o pagamento imediato dos ternos que tinha feito para Claude. A suavidade da voz de Gaby era capaz de amansar a mais sanguinária das bestas-feras.
'Quando Claude tinha que se ausentar para dar aulas de piano ou visitar os editores, em busca de trabalho, Gaby não sabia o que fazer sozinha dentro de casa. Apanhava uma das suas novelas policiais e tentava ler, indócil, sossegava somente quando distinguia os passos dele na escada. Pulava, então, da cadeira e ia recebê-lo na porta, com beijos e mais beijos, como se tivessem passado um mês sem se ver. Ah, como é lindo o amor! De vez em quando, ela inventava umas idas a Lisieux, para visitar a família. Não sei até que ponto isso era verdade. As fêmeas de qualquer espécie são muito espertas: quando querem trair, traem nas barbas do amante. Isso foi só uma suposição, eu nunca a segui para me certificar. Queria, assim como Claude, tenho certeza, uns dias de paz. Não que viver com Gaby fosse ruim, mas a gente precisa, às vezes, de algum sossego. E a língua de Gaby não dava trégua, onde ela estivesse era uma azáfama, um burburinho, ah, a tagarelice das mulheres. Precisávamos um pouco de paz doméstica. Claude, para compor; eu, para dormir, caçar uns ratos. Com Gaby presente, nada disso era possível. Ao voltar, queria contar tudo o que lhe acontecera, chegava a atropelar as palavras, as faces rosadas, os olhos verdes mais verdes ainda. Claude aproveitara a sua ausência para retomar “Pelléas et Mélisande”, febril, interrompida somente pela visita de Pierre Louÿs, um poeta de boa cepa, grande amigo.
“Foi depois de uma das idas a Lisieux que Gaby começou a se tornar irritadiça, qualquer coisa era motivo para discussão, para brigas. Chegou mesmo a gritar com Claude (como podia alguém erguer a voz com ele?), cobrando-lhe que ganhasse dinheiro com a sua música, que escrevesse canções assobiáveis, que pudessem ser tocadas nos cabarés. Quem ela estava se achando? A mulher dele? Quando Claude voltou de Bruxelas, onde fora visitar o amigo Eugéne Ysaye e levar-lhe alguns exemplares do seu quarteto para cordas, encontrou Gaby arrumando as malas. Sem o seu conhecimento, a louca tinha alugado um apartamento de três quartos, no quinto andar de um prédio à Rue Gustave Doré. Pela primeira vez, vi Claude realmente bravo. Saiu batendo a porta, dizendo que não queria vê-la ali quando voltasse. Depois de uma hora, encontrou-a ainda chorando na cama. Quem resiste às lágrimas de uma mulher, sejam elas falsas ou verdadeiras? Dali a alguns dias, mudaram-se para a casa nova. Eu, como bom felino, dei no pé, desapareci feito fumaça, me escafedi. Foi um tempo muito bom esse que lhes fiz companhia, principalmente a ele, mas algo me dizia que na casa nova eu não seria feliz, perderia a tão prezada liberdade. Daí em diante, soube de Claude somente pelos jornais, mas deixo que outros, com mais propriedade, continuem a história; a minha parte está contada.
“O leitor, atento, deve estar se perguntando por que, nesses anos todos de convivência com Claude, eu nunca o apoquentei com ninhadas de gatinhos. Como todos sabem, os artistas, os de verdade, aqueles que vêm para abalar as estruturas, são seres oriundos das estrelas (e Claude, o maior de todos, viera das mais altas esferas cósmicas) e, sei lá por quê, ele achou que eu era uma fêmea, apesar de ter feito aquele exame constrangedor e desnecessário que os humanos fazem nos gatos, as pernas abertas, para saberem o sexo; bastava ver a quantidade de cores. Se têm três cores, são fêmeas; se forem de duas cores, são machos. Portanto, eu era um belo representante da espécie, apesar de ter passado à história como fêmea”.
Nem sempre, Linne, nem sempre.
(Este conto foi escrito após a leitura de “Clair de Lune”, a biografia romanceada de Claude Debussy, de autoria de Pierre La Mure; Edições Melhoramentos, 1966).
terça-feira, 15 de julho de 2014
MERAQ
por Edson Negromonte
Ao meu neto Vlad
Seu nome era Meraq, embora eu mesmo não tenha certeza disso. Esta foi a única palavra que ele pronunciou e, justamente por isso, Meraq foi, Meraq continuará sendo. É uma possibilidade que muito me apraz, gosto de pensar assim, porque Meraq é uma das estrelas do setestrelo, a constelação da Ursa Maior. Eu era, então, um rapazola de quatorze anos, com a cabeça cheia de curiosidade e o coração ávido por descobertas bizarras e extravagantes, como todos os garotos da minha idade. É, talvez eu fosse um pouco mais bisbilhoteiro que a média desses garotos. Minha imaginação assaz estapafúrdia, reconheço, levava-me a conclusões que outros jamais chegariam ou, melhor, não a exprimiriam, por medo do ridículo. Na primeira tarde em que me instalei naquele banco de madeira, comprido e pesado, como deviam ser todos os bancos de estação, ele já estava ali, já fazia parte da paisagem ferroviária e ninguém o notava mais. Todas as vezes em que,voltando da escola, eu o via sentado, imóvel, assustava-me a sua figura invulgar. Eu o associava às cabeças de pedra da Ilha de Páscoa, a perscrutar o horizonte longínquo. Ou a uma monstruosa gárgula. Seria mais condizente associar sua imagem à de um troll, ser mitológico que oscila entre a grandeza e a pequenez? Na ida para a escola, eu não podia perceber a sua figura quimérica, não que meus olhos ainda estivessem remelentos, devido à poeira noturna neles soprada pelo Senhor dos Sonhos. Não, o Homem da Areia não mais me atormentava, tinha se debandado para os lados do meu irmão mais novo, que ainda acreditava nas suas maldades. É que eu, sempre atrasado, fazia correndo um caminho mais curto, um atalho perigoso, atravessando os quintais da vizinhança para não perder o horário da primeira aula, pulando cercas e sebes, atraindo com isso os latidos dos cães, o desesperado cacarejar das galinhas e o xingamento dos moradores. Nesse tempo, eu me preocupava em chegar cedo à escola, ao Colégio Valle Porto, apesar de detestar aqueles professores cacetes que se julgavam os senhores absolutos das almas dos pequenos escravos, aos quais chamavam eufemisticamente de alunos, aprendizes ou, pior, “meus filhos”. Só se com isso quisessem dizer “filhos da puta”. Na volta, com todo o tempo do mundo à minha disposição, eu fazia questão de passar pela plataforma da estação, bem devagar, disfarçadamente, como se estivesse a admirar a arquitetura de ferro, vinda diretamente da Inglaterra, a fim de investigar aquele vagabundo, de olhar aparentemente vago, deambulante. Não quero, com o termo “vagabundo”; dizer que Meraq fosse um desocupado ou um ocioso; uso-o não de forma pejorativa, mas como os poetas, um “wanderer”, aquele que perambula, faço questão de deixar bem claro. Eu quase parava em frente a ele, mas algo dentro de mim dizia que ainda não era chegada a hora do primeiro contato, que ele podia se assustar e fugir, ou me atacar, quem sabe. Então, eu me veria na contingência de fugir do perigo, escafedendo-me, ou de enfrentá-lo com toda a garbosidade de um rato encurralado, sem a mínima probabilidade de chegar à toca. Ou com a intrepidez dos incas venusianos, que só atacavam National Kid em bando. Como já deve ter dado para perceber, nessa época eu era dado à leitura de quadrinhos de ficção científica, também não perdia um filme desse gênero, seja na TV ou no Cine Ópera, o único cinema da cidade. Por precaução, talvez porque ainda não dispusesse de uma arma de raios laser, adotei a tática de me aproximar dele, de Meraq, devagar, lentamente, sem impor a minha presença, como bom terráqueo. Ou como um terráqueo bom? Assim, passei semanas, quase dois meses (três?), nesse processo que eu já considerava sem resultado. Pelo menos, sem efeito aparente; ele sequer desviava o olhar quando eu atravessava o feixe luminoso dos seus olhos, nem mesmo piscava.
Um dia, desses em que “estamos para o crime”, como se diz, tomei coragem e sentei-me na outra ponta do banco, bem distante, o mais distante possível, que eu não era bobo nem nada. Fiquei encarando-o, melhor, olhando-o de esguelha, como quem não quer nada, analisando o perfil intrigante. Parecia humano, aliás, humanoide, com aquele olhar irritante, porque intrigante, que não só me ignorava, mas a todos os transeuntes. Mas, como eu aprendera, assistindo trocentas vezes a “Vampiros de Almas”, os extraterrestres são muito espertos e capazes de tomar a forma humana com uma perfeição absoluta. Quase absoluta, que eu bem sabia quem eram os invasores ali. Se ele se achava espero, eu era sagaz. Ousadamente, mexi-me no banco, para chamar sua atenção. Funguei, resmunguei, e nada, necas de pitibiriba, não movia um único músculo da face, tal e qual Klaatu. Comecei, então, a assobiar. De início, baixinho, pode-se dizer um sussurro, desses assobios sorrateiros que não querem incomodar ninguém, como fazem os velhos, relembrando velhas canções da juventude distante, que só a eles dizem respeito. Nada! Nem uma contração. Em seguida, assobiei um pouco mais alto. Nada, nem aí. Ignorava-me totalmente, alheio a tudo. Indignado, tomado de coragem, como os covardes ante a inércia do oponente, botei dois dedos na boca, ajeitei a língua e soltei um silvo daqueles, de assustar defunto, porque, sem querer me gabar, eu sou bom nisso: no guardamento da minha avó, meu pai, descrente, pediu que eu desse um estoura-tímpanos desses, o mais estridente possível, no ouvido da morta, para se certificar de que a sogra tinha mesmo esticado as canelas. Posso dizer que fiz o meu melhor, nem eu me julgava capaz de tamanha façanha, assustando todos os parentes e não-parentes presentes, estarrecidos com o silvo lancinante, desequilibrando-os. Quem estava chorando, passou a rir, de maneira incontrolável, um riso nervoso, e quem ria, começou imediatamente a carpir, feito comadre desesperada, com sentimento de culpa. Se tivesse sido gravado, como prova, eu hoje estaria no Livro dos Recordes. A velha, assim como Meraq, permaneceu impassível, nem bola. Somente depois disso, pôde ser lavrado o atestado de óbito, era a comprovação definitiva da morte da minha vovozinha. Contei isso, não porque meu pai desgostasse da mãe de minha mãe, mas porque em nossa família houve, pelo menos, um caso conhecido de catalepsia, com um tio-avô, irmão de vovó, tio Aloísio: contavam que, quando abriram o caixão, após vinte anos do sepultamento, a tampa estava toda arranhada por dentro. Vó Pérola tinha muito medo que a enterrassem viva, meu pai “compartilhava” do temor da sogra, mas por razões diversas. Ora, por que escrevi isso? Pelo que sei, sogra e genro sempre se deram muito bem; ele costumava dizer que vó Pérola era “uma joia de pessoa”. É, podia estar sendo irônico, querendo dizer uma joia falsa, bijuteria. Por um momento, cheguei a pensar que Meraq talvez fosse um morto-vivo. Como alguém podia não se sensibilizar com a potência do meu assobio? Era fazer muito pouco de mim. Enfurecido, levantei-me de supetão.
– Que fique aí, seu zumbi de bosta! Vou jogar bola que ganho mais.
Mas a atração que eu sentia por Meraq era muito maior que o orgulho ferido. Na tarde seguinte, lá estava eu, sentado na beirada do banco, a olhá-lo, pronto para pôr em prática um plano: trazia comigo, no embornal um delicioso sanduíche de lombo de porco, com pasta de amendoim e folhas de rúcula fresquinhas. Que extraterrestre não sucumbe a essa guloseima terráquea? Como eu sei disso? Ora, qualquer menino, nem precisa ser muito esperto, sabe que os alienígenas são incapazes de resistir a um sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula, a perdição deles. Seria esta a tentativa definitiva para descobrir se Meraq era marciano ou morto-vivo. No caso de morto-vivo, teria que substituir a iguaria caseira por um lanche do McDonald”s; você sabe como essas criaturas são loucas por shoppings, consequentemente por junk food. Daí, seria mais difícil, moro numa cidade pequena, longe da capital. Mas eu daria um jeito, ah, se daria, quando eu quero alguma coisa, vou até o inferno e peço a bênção ao Diabo. Nem tanto, mas é o que diziam de mim lá em casa.
Então, coloquei o sanduíche no banco, entre mim e Meraq. Fiquei olhando para o vazio, imitando-o, fingindo imitá-lo, mas com um olho no peixe e o outro no gato, dando uma de zarolho. Ele, imóvel. Passaram-se horas, até que o trem das oito apitou, chegando à estação, vindo de Curitiba, depois da baldeação em Morretes. Os passageiros desembarcavam apressados, desesperados, loucos para irem para as suas casas, que um temporal diluviano se anunciava, trovões ribombavam, raios serpenteantes rasgavam a cortina negra do céu, ocasião mais que apropriada para aquele frankenstein tomar vida. Isto é, se, por ventura, um desses raios lhe fendesse a cabeça. Mas nada. Nem uma piscadela. O retinir cristalino do velho sino de bronze da estação trouxe-me de volta ao mundo imediatista dos mortais. Receoso (temeroso?) com a tempestade iminente, sem nenhuma vocação para cientista maluco, achei melhor ir para casa; o aconchego do lar quentinho é o lugar ideal dos pesquisadores da vida fora da Terra. Em situações-limite, descubro que sou mesmo é um competente pesquisador de gabinete. No campo, há sempre o perigo de um ataque de formigas-gigantes ou de abelhas assassinas. Acabei esquecendo, não de propósito, mas pelo Providência, creio eu, o sanduíche intocado no banco da estação.
No dia seguinte, gazeei as aulas e fui bem cedo ao encontro de Meraq. Encontrei-o, como sempre, sentado no mesmo banco, no mesmo lugar, na mesmíssima posição. Acomodei-me um pouco mais próximo dele, um palmo, talvez mais, talvez menos; eu já estava um pouquinho mais confiante. Em mim mesmo e nele também, parecia àquela altura tão inofensivo que se eu mijasse no seu pé não teria reação alguma. Mas, apesar de pensar nessa possibilidade, não fiz isso. Não por consideração ou respeito pelos outros, é que eu ainda não era o feliz proprietário de uma arma laser. Lembrei-me, então do sanduíche que havia esquecido no banco da estação. Não estava mais ali! Algum vira-lata o teria comido? Não, porque esse ceticismo todo? Sim, ele o tinha comido! Ele, Meraq, o alien, o tinha saboreado, talvez até devorado, quando ninguém podia observá-lo. Então, definitivamente, Meraq era um e.t. legítimo. Menos mal, detesto zumbis, são uns consumistas nojentos. Zumbis são alienados, não compreendem os fatores políticos, sociais e culturais que os condicionam e os impulsos íntimos que os levam a agir da maneira que agem. Quando pronunciavam essa palavra (zumbi, argh!) perto de mim, ficava imediatamente ouriçado, pensando que não seria nada mal ter uma 45 à mão para detonar essas criaturas infernais que até hoje me causam um asco de revirar as entranhas. Argh novamente! Desse dia em diante, parei de frequentar as aulas, passava o dia todo com o meu mais novo e dileto amigo. Com ele, apesar do seu mutismo, aprendi muito mais do que já houvera aprendido na escola. A única vez que ele abriu a boca foi para pronunciar “Meraq”. Assim, como já disse, deduzi que Meraq era o seu nome. Talvez nem fosse, mais provável que fosse o seu planeta de origem, ou a sua estrela. Ou um arroto: Meraq! Como Charles Atlas, eu precisava somente de um ponto de apoio no espaço para erguer o mundo e, assim, apoiei-me nessa palavra, Meraq. Para um menino sonhador, afeito às fantasias, o solo líquido do pântano é certamente muito mais firme que o asfalto. Acostumei-me a, todos os dias, levar para ele o sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula. Agora, eu já o entregava em suas mãos, éramos amigos, afinal. Sei que éramos amigos íntimos, tenho certeza disso. Logo depois de saborear essa delícia, sem olhar para mim, mas para um ponto indefinível no espaço, o qual, com o tempo, aprendi a localizar, a focalizar, passávamos a conversar mentalmente, uma conversa de hipófise para hipófise, se é que você me compreende, um diálogo espiritual. Como a direção da escola tivesse alertado os meus pais de que eu estava faltando muito às aulas (eles, meus pais, pensavam que eu estivesse indo para o campinho, jogar bola; até um tempo atrás meu sonho era ser jogador de futebol. Por isso, meu pai não se importou muito que eu andasse cabulando aula, sonhava fazer de mim um novo Heleno ou um Garrincha), Meraq me aconselhou a frequentar as aulas durante alguns dias para que não me vigiassem em excesso, senão nossos encontros podiam ir por terra. “Ir por terra”, hahaha, entendeu o calemburgo? Foi, também, por aconselhamento dele que desisti de ser jogador profissional. Cabecear a bola, como eu gostava de fazer, podia afetar a minha glândula hipófise, o único meio de nos comunicarmos. Dei-lhe razão ao constatar a quantidade de débeis mentais que há no futebol, gente incapaz de formar uma frase com início, meio e fim, ou sujeito, verbo e predicado.
Meraq foi o mestre que todos os meninos deveriam ter, seus ensinamentos ampliaram tanto os meus horizontes que se assemelhavam às portas da percepção de William Blake, o poeta inglês que apanhava da mãe por conversar com os anjos. Subentenda-se “anjos” como seres vindos do espaço exterior. Com Meraq, tive as mais incríveis experiências além do meu corpo físico, do meu corpo sideral, comunguei com o Buda interior, penetrei nos recônditos da Terra e fiz contatos de terceiro grau com Júlio Verne e H.G. Wells, aprendi o que é o amor incondicional, meu coração transbordava de amor pela humanidade, embora execrasse o ser humano. Com Meraq, toquei as cordas da harpa celestial. Levou-me também aos reinos inferiores, onde as criaturas choram sem descanso, impediu-me de romper o cordão de prata, mostrou-me as almas envilecidas dos criminosos, levou-me a Cuiabá para conhecer o coronel Fawcett, o qual vive até hoje disfarçado de vivandeiro; apresentou-me a Christopher Marlowe, que me garantiu que jamais tinha existido, a não ser na mente do seu criador, Francis Bacon, acompanhei-o a Nuremberg, para velar o corpo ainda em decomposição de Kaspar Hauser... Meraq jamais admitiu que eu o chamasse de mestre, advertindo-me de que cada homem é o mestre de si mesmo, bastando ouvir a voz silente, quase imperceptível, mas firme, da consciência do Universo. Por muito tempo, eu associei essa voz à de Charlton Heston.
Mas como nada é eterno nessa terra (ou nesta Terra? Ainda hei de desvendar este mistério), um dia, pela manhã, cedinho, não encontrei o camarada Meraq no costumeiro banco. Desesperei-me, sim, sucumbi ao choro da criança que ainda reside em mim, em meu coração eternamente infantil, pois chegara repentinamente o momento, por ele previsto, sem que eu me sentisse preparado, em que eu deveria andar pelas próprias pernas, em que o aprendiz, tendo alcançado o degrau da escada do conhecimento a que o mestre não está preparado para galgar, assim como vem acontecendo com Dante e Virgílio durante séculos, a cada nova leitura, a cada novo leitor, da “Divina Comédia”, vê-se só, sem ninguém a quem recorrer, sem uma mão compassiva, contando somente consigo mesmo, momento crucial em que tantos se acovardam e desistem. Sentei-me desconsolado no velho banco, justamente no lugar que Meraq ocupara, chorando as lágrimas mais sentidas de toda a minha existência. Foi quando o guarda da estação, tocou-me no ombro, com um leve aperto fraternal:
– O seu amigo foi preso, ontem de madrugada...
– O que você tá dizendo?!
– Que ele foi preso ontem de madrugada, a polícia veio aqui e o levou, acusando-o de ter violentado a professorinha Naná...
– Mas isso não é verdade!
– Eu bem que disse à polícia que ele não saía daqui, dia e noite, mas me mandaram calar a boca. Disseram ainda que ele era um merda de um guerrilheiro do Araguaia, matou doze, pode?, que era viviado em crack, traficante, essas coisas...
Todas as minhas tentativas de falar com Meraq, na cadeia, foram inúteis; não lhe era permitido receber visita, foi-lhe negado advogado, nem a banho de sol teve direito. Soube, sete dias depois, pelo soldado Edmur, que deve ser boa gente, apesar de servir às forças de repressão, o qual deve ter se condoído do meu desespero ou, quem sabe, para aumentar o meu sofrimento (há seres das trevas que se alimentam disso, da dor alheia), que Meraq tinha se enforcado na cela, depois de barbarizado em uma sessão de tortura, comandada pelo delegado Fleury em pessoa. Morreu como heroi, sem abrir o bico, sem entregar ninguém. Seu corpo jamais foi reclamado. Contou-me, ainda, o soldado Edmur que Meraq rabiscara, na parede da cela, as palavras MERAQ IZT FRE. Eu sei o que isso significa e jamais revelarei a ninguém, é uma questão de lealdade.
Ao meu neto Vlad
Seu nome era Meraq, embora eu mesmo não tenha certeza disso. Esta foi a única palavra que ele pronunciou e, justamente por isso, Meraq foi, Meraq continuará sendo. É uma possibilidade que muito me apraz, gosto de pensar assim, porque Meraq é uma das estrelas do setestrelo, a constelação da Ursa Maior. Eu era, então, um rapazola de quatorze anos, com a cabeça cheia de curiosidade e o coração ávido por descobertas bizarras e extravagantes, como todos os garotos da minha idade. É, talvez eu fosse um pouco mais bisbilhoteiro que a média desses garotos. Minha imaginação assaz estapafúrdia, reconheço, levava-me a conclusões que outros jamais chegariam ou, melhor, não a exprimiriam, por medo do ridículo. Na primeira tarde em que me instalei naquele banco de madeira, comprido e pesado, como deviam ser todos os bancos de estação, ele já estava ali, já fazia parte da paisagem ferroviária e ninguém o notava mais. Todas as vezes em que,voltando da escola, eu o via sentado, imóvel, assustava-me a sua figura invulgar. Eu o associava às cabeças de pedra da Ilha de Páscoa, a perscrutar o horizonte longínquo. Ou a uma monstruosa gárgula. Seria mais condizente associar sua imagem à de um troll, ser mitológico que oscila entre a grandeza e a pequenez? Na ida para a escola, eu não podia perceber a sua figura quimérica, não que meus olhos ainda estivessem remelentos, devido à poeira noturna neles soprada pelo Senhor dos Sonhos. Não, o Homem da Areia não mais me atormentava, tinha se debandado para os lados do meu irmão mais novo, que ainda acreditava nas suas maldades. É que eu, sempre atrasado, fazia correndo um caminho mais curto, um atalho perigoso, atravessando os quintais da vizinhança para não perder o horário da primeira aula, pulando cercas e sebes, atraindo com isso os latidos dos cães, o desesperado cacarejar das galinhas e o xingamento dos moradores. Nesse tempo, eu me preocupava em chegar cedo à escola, ao Colégio Valle Porto, apesar de detestar aqueles professores cacetes que se julgavam os senhores absolutos das almas dos pequenos escravos, aos quais chamavam eufemisticamente de alunos, aprendizes ou, pior, “meus filhos”. Só se com isso quisessem dizer “filhos da puta”. Na volta, com todo o tempo do mundo à minha disposição, eu fazia questão de passar pela plataforma da estação, bem devagar, disfarçadamente, como se estivesse a admirar a arquitetura de ferro, vinda diretamente da Inglaterra, a fim de investigar aquele vagabundo, de olhar aparentemente vago, deambulante. Não quero, com o termo “vagabundo”; dizer que Meraq fosse um desocupado ou um ocioso; uso-o não de forma pejorativa, mas como os poetas, um “wanderer”, aquele que perambula, faço questão de deixar bem claro. Eu quase parava em frente a ele, mas algo dentro de mim dizia que ainda não era chegada a hora do primeiro contato, que ele podia se assustar e fugir, ou me atacar, quem sabe. Então, eu me veria na contingência de fugir do perigo, escafedendo-me, ou de enfrentá-lo com toda a garbosidade de um rato encurralado, sem a mínima probabilidade de chegar à toca. Ou com a intrepidez dos incas venusianos, que só atacavam National Kid em bando. Como já deve ter dado para perceber, nessa época eu era dado à leitura de quadrinhos de ficção científica, também não perdia um filme desse gênero, seja na TV ou no Cine Ópera, o único cinema da cidade. Por precaução, talvez porque ainda não dispusesse de uma arma de raios laser, adotei a tática de me aproximar dele, de Meraq, devagar, lentamente, sem impor a minha presença, como bom terráqueo. Ou como um terráqueo bom? Assim, passei semanas, quase dois meses (três?), nesse processo que eu já considerava sem resultado. Pelo menos, sem efeito aparente; ele sequer desviava o olhar quando eu atravessava o feixe luminoso dos seus olhos, nem mesmo piscava.
Um dia, desses em que “estamos para o crime”, como se diz, tomei coragem e sentei-me na outra ponta do banco, bem distante, o mais distante possível, que eu não era bobo nem nada. Fiquei encarando-o, melhor, olhando-o de esguelha, como quem não quer nada, analisando o perfil intrigante. Parecia humano, aliás, humanoide, com aquele olhar irritante, porque intrigante, que não só me ignorava, mas a todos os transeuntes. Mas, como eu aprendera, assistindo trocentas vezes a “Vampiros de Almas”, os extraterrestres são muito espertos e capazes de tomar a forma humana com uma perfeição absoluta. Quase absoluta, que eu bem sabia quem eram os invasores ali. Se ele se achava espero, eu era sagaz. Ousadamente, mexi-me no banco, para chamar sua atenção. Funguei, resmunguei, e nada, necas de pitibiriba, não movia um único músculo da face, tal e qual Klaatu. Comecei, então, a assobiar. De início, baixinho, pode-se dizer um sussurro, desses assobios sorrateiros que não querem incomodar ninguém, como fazem os velhos, relembrando velhas canções da juventude distante, que só a eles dizem respeito. Nada! Nem uma contração. Em seguida, assobiei um pouco mais alto. Nada, nem aí. Ignorava-me totalmente, alheio a tudo. Indignado, tomado de coragem, como os covardes ante a inércia do oponente, botei dois dedos na boca, ajeitei a língua e soltei um silvo daqueles, de assustar defunto, porque, sem querer me gabar, eu sou bom nisso: no guardamento da minha avó, meu pai, descrente, pediu que eu desse um estoura-tímpanos desses, o mais estridente possível, no ouvido da morta, para se certificar de que a sogra tinha mesmo esticado as canelas. Posso dizer que fiz o meu melhor, nem eu me julgava capaz de tamanha façanha, assustando todos os parentes e não-parentes presentes, estarrecidos com o silvo lancinante, desequilibrando-os. Quem estava chorando, passou a rir, de maneira incontrolável, um riso nervoso, e quem ria, começou imediatamente a carpir, feito comadre desesperada, com sentimento de culpa. Se tivesse sido gravado, como prova, eu hoje estaria no Livro dos Recordes. A velha, assim como Meraq, permaneceu impassível, nem bola. Somente depois disso, pôde ser lavrado o atestado de óbito, era a comprovação definitiva da morte da minha vovozinha. Contei isso, não porque meu pai desgostasse da mãe de minha mãe, mas porque em nossa família houve, pelo menos, um caso conhecido de catalepsia, com um tio-avô, irmão de vovó, tio Aloísio: contavam que, quando abriram o caixão, após vinte anos do sepultamento, a tampa estava toda arranhada por dentro. Vó Pérola tinha muito medo que a enterrassem viva, meu pai “compartilhava” do temor da sogra, mas por razões diversas. Ora, por que escrevi isso? Pelo que sei, sogra e genro sempre se deram muito bem; ele costumava dizer que vó Pérola era “uma joia de pessoa”. É, podia estar sendo irônico, querendo dizer uma joia falsa, bijuteria. Por um momento, cheguei a pensar que Meraq talvez fosse um morto-vivo. Como alguém podia não se sensibilizar com a potência do meu assobio? Era fazer muito pouco de mim. Enfurecido, levantei-me de supetão.
– Que fique aí, seu zumbi de bosta! Vou jogar bola que ganho mais.
Mas a atração que eu sentia por Meraq era muito maior que o orgulho ferido. Na tarde seguinte, lá estava eu, sentado na beirada do banco, a olhá-lo, pronto para pôr em prática um plano: trazia comigo, no embornal um delicioso sanduíche de lombo de porco, com pasta de amendoim e folhas de rúcula fresquinhas. Que extraterrestre não sucumbe a essa guloseima terráquea? Como eu sei disso? Ora, qualquer menino, nem precisa ser muito esperto, sabe que os alienígenas são incapazes de resistir a um sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula, a perdição deles. Seria esta a tentativa definitiva para descobrir se Meraq era marciano ou morto-vivo. No caso de morto-vivo, teria que substituir a iguaria caseira por um lanche do McDonald”s; você sabe como essas criaturas são loucas por shoppings, consequentemente por junk food. Daí, seria mais difícil, moro numa cidade pequena, longe da capital. Mas eu daria um jeito, ah, se daria, quando eu quero alguma coisa, vou até o inferno e peço a bênção ao Diabo. Nem tanto, mas é o que diziam de mim lá em casa.
Então, coloquei o sanduíche no banco, entre mim e Meraq. Fiquei olhando para o vazio, imitando-o, fingindo imitá-lo, mas com um olho no peixe e o outro no gato, dando uma de zarolho. Ele, imóvel. Passaram-se horas, até que o trem das oito apitou, chegando à estação, vindo de Curitiba, depois da baldeação em Morretes. Os passageiros desembarcavam apressados, desesperados, loucos para irem para as suas casas, que um temporal diluviano se anunciava, trovões ribombavam, raios serpenteantes rasgavam a cortina negra do céu, ocasião mais que apropriada para aquele frankenstein tomar vida. Isto é, se, por ventura, um desses raios lhe fendesse a cabeça. Mas nada. Nem uma piscadela. O retinir cristalino do velho sino de bronze da estação trouxe-me de volta ao mundo imediatista dos mortais. Receoso (temeroso?) com a tempestade iminente, sem nenhuma vocação para cientista maluco, achei melhor ir para casa; o aconchego do lar quentinho é o lugar ideal dos pesquisadores da vida fora da Terra. Em situações-limite, descubro que sou mesmo é um competente pesquisador de gabinete. No campo, há sempre o perigo de um ataque de formigas-gigantes ou de abelhas assassinas. Acabei esquecendo, não de propósito, mas pelo Providência, creio eu, o sanduíche intocado no banco da estação.
No dia seguinte, gazeei as aulas e fui bem cedo ao encontro de Meraq. Encontrei-o, como sempre, sentado no mesmo banco, no mesmo lugar, na mesmíssima posição. Acomodei-me um pouco mais próximo dele, um palmo, talvez mais, talvez menos; eu já estava um pouquinho mais confiante. Em mim mesmo e nele também, parecia àquela altura tão inofensivo que se eu mijasse no seu pé não teria reação alguma. Mas, apesar de pensar nessa possibilidade, não fiz isso. Não por consideração ou respeito pelos outros, é que eu ainda não era o feliz proprietário de uma arma laser. Lembrei-me, então do sanduíche que havia esquecido no banco da estação. Não estava mais ali! Algum vira-lata o teria comido? Não, porque esse ceticismo todo? Sim, ele o tinha comido! Ele, Meraq, o alien, o tinha saboreado, talvez até devorado, quando ninguém podia observá-lo. Então, definitivamente, Meraq era um e.t. legítimo. Menos mal, detesto zumbis, são uns consumistas nojentos. Zumbis são alienados, não compreendem os fatores políticos, sociais e culturais que os condicionam e os impulsos íntimos que os levam a agir da maneira que agem. Quando pronunciavam essa palavra (zumbi, argh!) perto de mim, ficava imediatamente ouriçado, pensando que não seria nada mal ter uma 45 à mão para detonar essas criaturas infernais que até hoje me causam um asco de revirar as entranhas. Argh novamente! Desse dia em diante, parei de frequentar as aulas, passava o dia todo com o meu mais novo e dileto amigo. Com ele, apesar do seu mutismo, aprendi muito mais do que já houvera aprendido na escola. A única vez que ele abriu a boca foi para pronunciar “Meraq”. Assim, como já disse, deduzi que Meraq era o seu nome. Talvez nem fosse, mais provável que fosse o seu planeta de origem, ou a sua estrela. Ou um arroto: Meraq! Como Charles Atlas, eu precisava somente de um ponto de apoio no espaço para erguer o mundo e, assim, apoiei-me nessa palavra, Meraq. Para um menino sonhador, afeito às fantasias, o solo líquido do pântano é certamente muito mais firme que o asfalto. Acostumei-me a, todos os dias, levar para ele o sanduíche de lombo de porco com pasta de amendoim e rúcula. Agora, eu já o entregava em suas mãos, éramos amigos, afinal. Sei que éramos amigos íntimos, tenho certeza disso. Logo depois de saborear essa delícia, sem olhar para mim, mas para um ponto indefinível no espaço, o qual, com o tempo, aprendi a localizar, a focalizar, passávamos a conversar mentalmente, uma conversa de hipófise para hipófise, se é que você me compreende, um diálogo espiritual. Como a direção da escola tivesse alertado os meus pais de que eu estava faltando muito às aulas (eles, meus pais, pensavam que eu estivesse indo para o campinho, jogar bola; até um tempo atrás meu sonho era ser jogador de futebol. Por isso, meu pai não se importou muito que eu andasse cabulando aula, sonhava fazer de mim um novo Heleno ou um Garrincha), Meraq me aconselhou a frequentar as aulas durante alguns dias para que não me vigiassem em excesso, senão nossos encontros podiam ir por terra. “Ir por terra”, hahaha, entendeu o calemburgo? Foi, também, por aconselhamento dele que desisti de ser jogador profissional. Cabecear a bola, como eu gostava de fazer, podia afetar a minha glândula hipófise, o único meio de nos comunicarmos. Dei-lhe razão ao constatar a quantidade de débeis mentais que há no futebol, gente incapaz de formar uma frase com início, meio e fim, ou sujeito, verbo e predicado.
Meraq foi o mestre que todos os meninos deveriam ter, seus ensinamentos ampliaram tanto os meus horizontes que se assemelhavam às portas da percepção de William Blake, o poeta inglês que apanhava da mãe por conversar com os anjos. Subentenda-se “anjos” como seres vindos do espaço exterior. Com Meraq, tive as mais incríveis experiências além do meu corpo físico, do meu corpo sideral, comunguei com o Buda interior, penetrei nos recônditos da Terra e fiz contatos de terceiro grau com Júlio Verne e H.G. Wells, aprendi o que é o amor incondicional, meu coração transbordava de amor pela humanidade, embora execrasse o ser humano. Com Meraq, toquei as cordas da harpa celestial. Levou-me também aos reinos inferiores, onde as criaturas choram sem descanso, impediu-me de romper o cordão de prata, mostrou-me as almas envilecidas dos criminosos, levou-me a Cuiabá para conhecer o coronel Fawcett, o qual vive até hoje disfarçado de vivandeiro; apresentou-me a Christopher Marlowe, que me garantiu que jamais tinha existido, a não ser na mente do seu criador, Francis Bacon, acompanhei-o a Nuremberg, para velar o corpo ainda em decomposição de Kaspar Hauser... Meraq jamais admitiu que eu o chamasse de mestre, advertindo-me de que cada homem é o mestre de si mesmo, bastando ouvir a voz silente, quase imperceptível, mas firme, da consciência do Universo. Por muito tempo, eu associei essa voz à de Charlton Heston.
Mas como nada é eterno nessa terra (ou nesta Terra? Ainda hei de desvendar este mistério), um dia, pela manhã, cedinho, não encontrei o camarada Meraq no costumeiro banco. Desesperei-me, sim, sucumbi ao choro da criança que ainda reside em mim, em meu coração eternamente infantil, pois chegara repentinamente o momento, por ele previsto, sem que eu me sentisse preparado, em que eu deveria andar pelas próprias pernas, em que o aprendiz, tendo alcançado o degrau da escada do conhecimento a que o mestre não está preparado para galgar, assim como vem acontecendo com Dante e Virgílio durante séculos, a cada nova leitura, a cada novo leitor, da “Divina Comédia”, vê-se só, sem ninguém a quem recorrer, sem uma mão compassiva, contando somente consigo mesmo, momento crucial em que tantos se acovardam e desistem. Sentei-me desconsolado no velho banco, justamente no lugar que Meraq ocupara, chorando as lágrimas mais sentidas de toda a minha existência. Foi quando o guarda da estação, tocou-me no ombro, com um leve aperto fraternal:
– O seu amigo foi preso, ontem de madrugada...
– O que você tá dizendo?!
– Que ele foi preso ontem de madrugada, a polícia veio aqui e o levou, acusando-o de ter violentado a professorinha Naná...
– Mas isso não é verdade!
– Eu bem que disse à polícia que ele não saía daqui, dia e noite, mas me mandaram calar a boca. Disseram ainda que ele era um merda de um guerrilheiro do Araguaia, matou doze, pode?, que era viviado em crack, traficante, essas coisas...
Todas as minhas tentativas de falar com Meraq, na cadeia, foram inúteis; não lhe era permitido receber visita, foi-lhe negado advogado, nem a banho de sol teve direito. Soube, sete dias depois, pelo soldado Edmur, que deve ser boa gente, apesar de servir às forças de repressão, o qual deve ter se condoído do meu desespero ou, quem sabe, para aumentar o meu sofrimento (há seres das trevas que se alimentam disso, da dor alheia), que Meraq tinha se enforcado na cela, depois de barbarizado em uma sessão de tortura, comandada pelo delegado Fleury em pessoa. Morreu como heroi, sem abrir o bico, sem entregar ninguém. Seu corpo jamais foi reclamado. Contou-me, ainda, o soldado Edmur que Meraq rabiscara, na parede da cela, as palavras MERAQ IZT FRE. Eu sei o que isso significa e jamais revelarei a ninguém, é uma questão de lealdade.
terça-feira, 8 de julho de 2014
A LOISLEINE DA RUA XV
por Edson Negromonte
Como não concordar com os caras da turma? Nunca houve Lois Lane mais bonita que a Loisleine da Rua XV. Não dava bola para a gente, sabia que, um dia, seria repórter de A Gazeta do Povo, onde encontraria o Super-homem, disfarçado de Carlos Quente, por trás dos óculos de aro de tartaruga. Com ele, viveria as mais românticas aventuras, dignas dos quadrinhos que lia, sentada na poltrona em frente à TV, os pezinhos delicados, de gueixa, para cima. A Loisleine da Rua XV não fazia nem de longe o tipo submisso, apesar de frequentemente se envolver com os piores vilões do espaço sideral, os quais, a gente sabe, não admitem mulheres de pensamento independente, que sabem manejar com destreza o sabre das ideias. Descendente de imigrantes poloneses, Loisleine era a queridinha do papai Rajmund, mas quem não tirava os olhos de cima da menina era o tio Roman, um mestre do nanquim, que a desenhou nas mais diversas poses, fazendo carinhas e boquinhas. Às vezes, tio Roman aumentava um pouco os atributos físicos da sobrinha, o que não lhe ficava mal. Papai Rajmund escrevia poesia de ficção científica, sob o título genérico de “Metrópolis: “Metrópolis 1”, “Metrópolis 2”, “Metrópolis 18”... uma saga criptoniana, que atingiu o número atômico 36 multiplicado por 10. Quando chegou ao número fluorescente, ele deu início à série “Liebling”, a qual não completou. Nunca foram publicadas, sequer no pasquim local, mas isso não o impedia de continuar a escrevê-las, aos montes, aos magotes. Rajmund e Roman viviam às turras. Somente num ponto os dois estavam de acordo: a beleza inquestionável de Rosalind Russell, uma antiga atriz do cinema americano, que morreu em 28 de novembro de 1976, em Beverly Hills, de um câncer no seio, e nunca soube da existência de papai Rajmund e do tio Roman. “Chamam a isto amor”.
Como não concordar com os caras da turma? Nunca houve Lois Lane mais bonita que a Loisleine da Rua XV. Não dava bola para a gente, sabia que, um dia, seria repórter de A Gazeta do Povo, onde encontraria o Super-homem, disfarçado de Carlos Quente, por trás dos óculos de aro de tartaruga. Com ele, viveria as mais românticas aventuras, dignas dos quadrinhos que lia, sentada na poltrona em frente à TV, os pezinhos delicados, de gueixa, para cima. A Loisleine da Rua XV não fazia nem de longe o tipo submisso, apesar de frequentemente se envolver com os piores vilões do espaço sideral, os quais, a gente sabe, não admitem mulheres de pensamento independente, que sabem manejar com destreza o sabre das ideias. Descendente de imigrantes poloneses, Loisleine era a queridinha do papai Rajmund, mas quem não tirava os olhos de cima da menina era o tio Roman, um mestre do nanquim, que a desenhou nas mais diversas poses, fazendo carinhas e boquinhas. Às vezes, tio Roman aumentava um pouco os atributos físicos da sobrinha, o que não lhe ficava mal. Papai Rajmund escrevia poesia de ficção científica, sob o título genérico de “Metrópolis: “Metrópolis 1”, “Metrópolis 2”, “Metrópolis 18”... uma saga criptoniana, que atingiu o número atômico 36 multiplicado por 10. Quando chegou ao número fluorescente, ele deu início à série “Liebling”, a qual não completou. Nunca foram publicadas, sequer no pasquim local, mas isso não o impedia de continuar a escrevê-las, aos montes, aos magotes. Rajmund e Roman viviam às turras. Somente num ponto os dois estavam de acordo: a beleza inquestionável de Rosalind Russell, uma antiga atriz do cinema americano, que morreu em 28 de novembro de 1976, em Beverly Hills, de um câncer no seio, e nunca soube da existência de papai Rajmund e do tio Roman. “Chamam a isto amor”.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
NANÁ
por Edson Negromonte
Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.
Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.
A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.
Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.
Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.
Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.
Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.
Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.
Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se se a bebida oferecida era vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até em seu corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.
Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.
O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.
Os dias eram então extremamente agradáveis, ensolarados e promissores. Mesmo quando cinzentos e enevoados, sabia-se no íntimo que a iminente chuva torrencial, quase diluvial, traria no bojo a venturosa sensação de que tudo estava por fazer, o mundo carecia de cada minúscula peça da sua gigantesca engrenagem. De um momento para outro, o temporal cessaria e o ar voltaria a exalar o característico odor de rosa-musgosa da Índia, enquanto o Colégio Estadual Valle Porto vomitava, em golfadas, bandos de meninos, os quais só perceberiam muitos anos depois esse perfume oriental grudado à memória afetiva, como a craca ao casco enferrujado dos navios.
Nesses tempos, de lanterna à mão, a Poesia ainda rondava as mentes juvenis à procura de um insuspeitado Dante em busca da inacessível beata Beatriz ou um inesperado Coleridge a sonhar com os cavalos velozes de Kublai Khan ou, mesmo, um destemido Ulisses amarrado ao mastro do navio, disposto a se defrontar com o encantatório canto das sereias. Sem saber, rapazes e moças pertenciam a uma antiga seita, cuja palavra de passe era um profundo suspiro de amor. Se fosse amor não correspondido, ascendia-se imediatamente de grau. A grã-sacerdotisa dessa antiga e venerável ordem mística, presidida por Vênus, vivia pacatamente disfarçada em uma adorável professorinha de Língua Portuguesa, na pequena cidade de eternos portos desativados e as lembranças dos faustosos dias de progresso. Nascida Nazira, era ela conhecida por todos como Naná. Bastava entrar na sala de aula e o ambiente anteriormente fétido das funções logarítmicas transformava-se no suntuoso palácio do rei Chariar; ali, seus discípulos seriam capazes de passar quarenta dias e quarenta noites, a navegar nos eflúvios da voz desta Xerazade, vinda diretamente das Mil e uma Noites. À simples pronúncia de seu singelo apelido, resplandecia a lâmpada de Aladim, abria-se a caverna de Ali Babá e descortinavam-se novos mares a Simbad. Era a filha mais formosa do narigudo e pachorrento turco do armazém.
A quase sempre cruel e inexorável passagem do tempo concedera à então balzaquiana Naná uma beleza madura, surgindo-lhe, é verdade, pequenas rugas aqui e ali, as quais ela não se preocupava em disfarçar, aumentando-lhe ainda mais o encanto natural. De olhos amendoados, nariz levemente aquilino e negros cabelos de ébano, muitos perguntavam-se, entre curiosos e ciumentos, por qual razão ela não se casara, abdicando de filhos e netos, essas pequenas criaturas barulhentas que tornam-se desde o ventre o centro das atenções, medos, apreensões e alegrias dos pais. As velhas fofoqueiras diziam, à boca de siri, que na verdade Naná esquecera de casar, de semelhante era o seu envolvimento com os livros. Cativante, ela devotava tamanha paixão à literatura, principalmente a poesia, que as cuidadosas avós chegavam ao cúmulo de alertar as netas, quando as viam com o nariz enfiado nas curiosidades da “Eu Sei Tudo” ou nas páginas do almanaque do Biotônico Fontoura, que cuidassem de bordar ou brincar para não ficarem para titias, como a filha do turco do armazém.
Todas as vezes que radiante a professorinha abria, de par em par, as janelas do quarto, da antiga casa ao rés do chão, onde sempre vivera com a família, as alcoviteiras de plantão eram unânimes em afirmar que algum vagabundo ocupara, durante a noite toda, o seu leito virginal e que se fora, pé ante pé, antes de o sol raiar. Como todos sabem, essas diligentes cronistas da vida alheia nunca dormem e estão sempre atentas para, a qualquer momento da noite, correr às janelas e, no dia seguinte, darem conta dos acontecimentos aos solertes repórteres de calçada. Assim, a cidade toda ficava sabendo que fortuitamente um poeta de renome, vindo da antiga capital federal, deleitara-se com os atributos de Naná. A maledicência é capaz de engendrar enredos mirabolantes e tornar crível, em cada pequeno detalhe, aquilo que já estávamos propensos a fruir em nossas mentes maldosas, deitadas preguiçosamente na rede da condescendência. Mas, venhamos e convenhamos, Naná falava com tanta paixão e tal intimidade sobre a vida desses homens das Letras, que ela também tem a sua parcela de culpa na falação que corria solta pelas ruas de paralelepípedos da tranquila cidadezinha à beira do mar. Se vivêssemos na Sicília, o lençol manchado do sangue da poética noiva noturna estaria exposto na janela, a cada visita, a cada desvirginamento de Naná, mas, como o fado do Destino nos concedeu termos nascido ao pé da Serra do Mar, curiosos os meninos subiam no muro dos fundos do quintal para admirar, entre risadinhas, as suas roupas íntimas, dependuradas no varal, em meio aos lençóis, camisas e vestidos, dançando ao sabor do vento marítimo.
Segundo as crônicas apócrifas, tantos foram os que se divertiram com as carnes tenras de Naná que seria impossível enumerá-los nas poucas páginas deste curto relato. Talvez, um dia, em obra de maior fôlego, eu mesmo o faça, não obstante o que isso implique em descerrar as pálpebras de um passado ainda vivo e pulsante, o que acarretará por certo reprimendas e ações, tanto dos descendentes da professorinha quanto dos herdeiros de vários bardos de fama, tidos até hoje por respeitáveis. Todos os grandes poetas do país frequentaram-lhe o círculo íntimo, acorrendo em massa aos saraus exclusivos, onde, além da declamação de poemas, redondilhas, sonetos, versos brancos, havia audições de violão, com pungentes modinhas e brejeiros lundus, mais melodiosas serenatas ao piano, instrumento que Naná executava à perfeição, como se um anjo celeste dedilhasse a lira em loas ao Criador. Posso dar disso ciência, pois muitas vezes em minha adolescência quedei-me a ouvi-la, do lado de fora, é claro, sob a janela de sua casa, durante intermináveis noites insones, posto que os moradores de nossa cidade, mesmo os invejosos literatos locais, os ditos poetas de província, não eram jamais admitidos ao restrito salão. Creio que essa é uma das razões do falatório das pessoas sobre a imaculada Naná, as quais chegavam às raias de utilizar a palavra “bacanais” quando se referiam aos saraus. De ora em diante, recuso-me a usar o termo referente às festas de Baco de forma pejorativa, mais para não denegrir a imagem daquela doce mulher do que por mero mal-estar literário. Mas, a bem da verdade, devo deixar aqui registrado quantas vezes sonhei inutilmente ser admitido, não digo nem no salão, mas apenas nos corredores daquele atraente solar, cuja impossibilidade levou-me à prática dos primeiros versos, apaixonados e canhestros... Os outros meninos, meus amigos de infância, à imitação dos adultos, desdenhavam, dizendo que não gostariam mesmo de ser admitidos ao convívio daquela gente que só sabia falar de livros, poesia, de astros e estrelas, enfim, de esqueletos de borboletas.
Eu, de meu particular, fiquei muitas vezes na calçada em frente, encoberto pela má iluminação das lâmpadas de mercúrio, ou sentado no degrau da farmácia, a reconhecer os convivas, através de fotografias recortadas de jornais e revistas. Sobressaltava-me a importância de cada um e, para meu pasmo, descia dos carros até gente dada como morta pelas enciclopédias. Como são inúteis estas coleções de curiosidades! Uma dada noite, surgiram ante meus olhos incrédulos as díspares figuras de Castro Alves, todo dândi, e Olavo Bilac, em cujo paletó percebi nitidamente os vários buracos das insaciáveis traças parnasianas. Nesta noite, foi servido um vinho tão delicioso que um dos presentes chegou a compará-lo à bebida alquímica servida nas bodas de Canaã. Até hoje, sou capaz de sentir o sabor, mesmo sem tê-lo deveras provado. Apesar de tudo, talvez devido à pouca idade, achei a récita tão cacete que adormeci recostado à porta da farmácia.
Extremamente agradáveis eram as noitadas modernistas, quando então a vestal da poesia, aliás, a professora Naná, acendia todas as lâmpadas do salão, de iluminação feérica. Nos primeiros anos da década de 20, os automóveis amontoavam-se, irregulares, de esquina à esquina da rua XV de Novembro, e o ar sempre tranquilo de nossa cidadezinha enchia-se então de ruídos de máquinas, de perfumes franceses, lança-perfume e um vozerio de sotaque paulistano. Era uma gente muito elegante: o gorducho Oswald e o delicado Mário de Andrade, os quais afoitamente julguei aparentados, por terem o mesmo sobrenome, acompanhados da esfuziante Pagu, que, de um momento para outro, tornava-se taciturna, mais Raul Bopp, Graça Aranha, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, e tantos outros, além de um sujeitinho franzino e dentuço que quando não estava recitando um poema gaiato, chamado "Os Sapos", para riso e coaxar de todos os presentes, perseguia as negrinhas da casa. Às vezes, vinha junto com o álacre grupo um jovem desengonçado, a fumar fedorentos charutos, que se aboletava ao piano e tocava algumas peças de inspiração popular, com tratamento erudito, conhecido como Villa-Lobos. Entre todos, uma figura repulsiva atraía a minha atenção: um magricelo chamado Plínio Salgado, a quem muitos se desmanchavam em salamaleques. Anos depois, suas ideias modernistas o levariam a criar, inspirado em Mussolini, um nefasto movimento político, muito bem aclimatado por essas plagas, denominado Integralismo. Sem entrar em demasia no mérito da questão, é necessário esclarecer que o espalhafatoso Oswald de Andrade inspirou-se no Futurismo italiano, liderado por Tomaso Marinetti, poeta de orientação fascista, para criar o nosso Modernismo. Portanto, o fascismo também está na gênese deste movimento. Como as mulheres eram poucas nesses trepidantes saraus, Naná flanava entre os cavalheiros, flutuando feito querubim de porcelana, preocupando-se ora com o cinzeiro cheio de um, ora com o copo vazio de outro, chamando de quando em quando uma das criadas para limpar a escarradeira de louça. À anfitriã, bastavam-lhe os fiapos da animada conversa entre homens tão inteligentes.
Uma das personalidades que mais causou comoção ao menino que eu era foi o mineiro Carlos Drummond, sempre tão sóbrio, tão avesso a panelinhas e dignando-se a viajar do Rio de Janeiro a Antonina, num carro de aluguel para visitar, às altas horas, a nossa tão bem relacionada mestra. Ela era realmente o nosso, meu, orgulho; a pequena Naná recebia as figuras mais ilustres das letras pátrias, mas ninguém me parecera tão ou mais importante que o poeta itabirano. Li recentemente a exegese de um desses falastrões que pululam nas redações dos jornais sobre o poema "No Meio do Caminho", onde o repórter dá conta de que a tal "pedra no meio do caminho" era uma mulher misteriosa, um dos muitos amores de Drummond. Chega o autor do texto a perceber um nome de mulher pictografado em meio aos versos do dito poema. Sim, pode ser mais uma das falácias desses afoitos escrevinhadores, mas como aprendemos no faroeste "O Homem que Matou o Facínora", quando a lenda torna-se fato, "publique-se a lenda". Portanto, d’ora em diante a nossa Naná fica sendo para sempre a musa inspiradora do soberbo poema.
Apesar do peso inexorável da idade, ainda lembro-me nitidamente, lá pelo início dos anos 50, da chegada de três jovens desconhecidos; percebia-se pelos trejeitos que eram poetas. Não eram almofadinhas nem afetados, mas em tudo tinham ares de quem vive no mundo da lua, às voltas com as armadilhas do verso. Quem desavisado por eles passasse, diria que eram advogados ou publicitários, melhor, arquitetos ou engenheiros, pois utilizavam-se com frequência de termos como concretude, plano-piloto... Eram os irmãos Augusto e Haroldo, mais o amigo Décio. Vinham respeitosos pedir a bênção de Naná para a recém-criada seita da Poesia Concreta. Suprema glória! Geração após geração, era à grã-sacerdotisa que os verdadeiros artistas da Nação, aqueles que dão identidade a um povo, vinham pedir o nihil obstat. Conforme os odores etílicos exalados daquele ambiente encantado, sabia-se se a bebida oferecida era vinho, para os românticos, ou absinto, para os malditos. Algumas vezes, tomava-se uísque on the rocks, quando eram poetas com inclinações musicais que a visitavam, principalmente Vinícius de Moraes e seu tímido parceiro Antonio Carlos, conhecido mais tarde como Tom Jobim, mas os concretistas, avessos ao álcool, esbaldavam-se mesmo com as garrafinhas de Coca-Cola, adivinhando poesias até em seu corriqueiro logotipo. Com o advento da geração mimeógrafo, na década de 70, a poesia esvaziou-se e Naná fechou as portas, deixou de receber os pretendentes à sublime arte poética. Nem mesmo o vate Paulo Leminski teve acesso à morada.
Ninguém nunca soube, mas humildemente Naná também era dada à arte de versejar; moderna na alma, romântica no coração e terrível na tradição. Nada alardeava, consciente da própria efemeridade, da pequenez do ser humano e, consequentemente, da sua infinita grandeza. Em folhas de cadernos escolares, pautadas, margens vermelhas, arrancadas, revisando a lápis preto, caneta esferográfica, rabiscos em profusão, verdadeiros palimpsestos, poemas tomando corpo, independentes do corpo frágil e fugaz da poetisa. Palavras transformando-se no corpo palpável de Deus. Em dado momento, que somente ela sabia precisar, mas geralmente no ápice da lua cheia, os cadernos eram embrulhados em grosseiro papel pardo, papel de pão, amarrados fortemente com barbante branco, de algodão, trazidos do armazém do pai, e delicadamente depositados no sótão do casarão onde a família morava, onde Naná nascera, onde ela sempre vivera. Inumeráveis volumes; uma Emily Dickinson dos trópicos entregando a cria aos ratos, às baratas, ao cupim... até que o tempo, o sol, a chuva, novamente o indefectível sol, a umidade, sombra, mofo, o bolor, viessem purificá-la, transubstanciando a solitária alma feminina em dolorosas lágrimas que hoje vêm a ser as brilhantes estrelas dos céus de Antonina, e que vem a ser o céu de todas as pequenas cidades do mundo, reafirmando com precisão a crença tolstoiana de que só é universal aquele que pinta a própria aldeia, o que tange independente de tudo e de todos as cordas do alaúde do coração, do fígado, das vísceras, das entranhas.
O casarão dos Khalil não existe mais; há hoje no local as ruínas enegrecidas de um passado que insiste em murmurar palavras ininteligíveis quando o vento que sopra do mar transpassa as cavidades oculares das janelas do resistente paredão frontal. Um malfadado dia, um incêndio purgativo levou a mobília, as roupas, os retratos, o assoalho, e toda a família adormecida, inclusive a doce Naná, mas, acima de tudo, o romanceiro de uma vida inteira, embrulhado e resguardado no sótão, com rimas ricas, pobres, inusitadas, a métrica intrinsecamente marinha, de preamares, ritmos de caranguejo, as estrofes das ilhas voadoras, seus intervalos harmônicos e melódicos, a pontuação sombria e ligeira, entre variações de allegri e staccati, vírgulas e travessões, sempre em constante e surpreendente harmonia gramatical com o Universo.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
UMA DUPLA DO BARULHO - Parte 2
por Edson Negromonte
Ao vir para Antonina, Grande Otelo trouxe o diretor de cinema a tiracolo, pois o americano fazia questão de ir a todos os lugares onde o amigo brasileiro ia, sequioso por conhecer muquifos, bordéis e pardieiros, além das "belezas naturais e morenas" do nosso país. A paixão de Otelo pela nossa pequena cidade teve início quando aqui ele aportou em busca do irmão mais novo, Chico, filho ilegítimo de dona Maria Abadia. Evidentemente, a informação equivocada de um improvisado detetive particular não encontrou comprovação, mas a hospitaleira cidade jamais sairia de seu coração. Sempre que a vida atribulada permitia, Otelo surgia perambulando pelas ruas de Antonina, conversando com as pessoas, sentando-se nas praças, tomando um pingado, comendo um pãozinho com manteiga ou um bolinho de banana, no bar de esquina... Então, nessas ocasiões, em determinado momento, quando a roda à sua volta estava repleta de curiosos, ele teatralmente sacava do bolso do paletó umas cigarrilhas cubanas e generosamente as distribuía, para supremo deleite dos presentes. E, quando a noite ia ficando cada vez mais escura, a pequena figura ia desbotando, esvanecendo assim lentamente, tão lentamente, que nem nos dávamos conta. Otelo não dizia adeus, nem até mais, nós também não nos importávamos com essas formalidades, ele simplesmente ia embora, como se não quisesse nos incomodar, como se não quisesse nos magoar, como se tudo não passasse de um sonho, sonho de velhos boêmios a conversar com pelicanos, algaravia compreensível somente às almas inebriadas pelo vinho da folha de palmeira. Um cronista, para mim fidedigno, dos anais antoninenses relata que, sem precisar datas, em decorrência da idade avançada, mas assegurando que ocorreu na década de 80, o grande ator voltou aqui pela última vez para proferir uma palestra intitulada "As Raízes do Teatro e do Cinema Nacionais – Experiência de Ator", com um público de duas mil pessoas, numa manifestação ainda embrionária do que viriam a ser, anos mais tarde, os tradicionais festivais de inverno.
No dia seguinte, pela manhã, nem bem o dia clareava, às seis da manhã, tomorrow, six o'clock!, os dois implausíveis companheiros tomaram um táxi de volta ao Rio de Janeiro, onde o americano estava sendo chamado com urgência, às pressas. Alguém nos contou, algum tempo depois, que Hollywood o despedira, que os donos do poder não tinham mais interesse num filme sobre a América do Sul e, muito menos, sobre o Brasil, que esse ocorrido era um capricho presidencial, que fazia parte do esforço de guerra, a tal política da boa vizinhança, a mando do presidente Roosevelt e patrocinada pelo milionário Nelson Rockfeller, que não queria mais gastar tanto dinheiro num filme que nunca seria exibido e, de mais a mais, o presidente Vargas já tinha convenientemente aberto mão das convicções nazistas, da simpatia por Mussolini e se debandara de mala e cuia de chimarrão para o lado dos Aliados.
– Como? Getúlio Vargas, nazista?! – disse um.
– Aí, agora você já não está mentindo demais, Dodó? – arriscou outro.
Com cara de poucos amigos, quando duvidavam das suas gazopas, Dodó preferia deixar a dúvida no ar e retomar a narrativa.
– Então, a filha mais bonitinha de dona Mariquinha deu à criança...
– Mas que criança, Dodó?! – indagava alguém, tentando provocá-lo.
– Pois é, continuando, ela deu ao recém-nascido, filho do pecado com o gringo, o esdrúxulo nome de Rosebud. Até hoje ninguém sabe o porquê, nem o que isso quer dizer, a sua significância. As velhas faladeiras, maledicentes, insistem que Rosebud é, só pode mesmo ser, coisa do Capeta, cujo nome de família em português é Bode, pois os padres que são tudo entendido nessas artes cabalísticas se recusaram a batizar o pobrezinho.
Para fechar com chave de ouro, à guisa de gran finale, o sábio estivador arrematava que o bastardinho Rosebud de Oliveira Quadros tornara-se, em meados da década de 60, um afamado advogado da Vara de Família, em Curitiba, com escritório montado e tudo. Na parede do escritório, em frente à escrivaninha, podia-se ver, emoldurada, uma fotografia autografada de Welles, com dedicatória feita especialmente para ele, o filho da aventura brasileira. Todos os conhecidos, inclusive a sua avó, a confiável dona Mariquinha, afirmavam unânimes que a tal dedicatória era falsa, coisa forjada pelo próprio Rosebud.
(Minhas incansáveis investigações levaram-me à Guiné-Bissau, onde descobri que Rosebud de Oliveira Quadros desaparecera, aos 31 anos, durante a Revolução dos Cravos. O que ele estaria fazendo naquele distante país? O máximo que consegui levantar sobre as suas atividades africanas é que fora em busca do paradeiro de um exemplar da “Ilíada”, de Homero, cuja folha de rosto continha a assinatura de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. O quê, então, o nosso ilustre conterrâneo tornara-se um apaixonado colecionador de obras raras? Sim, porém equivocado; essa raridade bibliográfica foi realmente encontrada, somente que na Espanha, em 1977).
A noite chegara e os ouvintes, então, iam se levantando preguiçosamente, batiam os pés, os chapéus, como se quisessem espantar o pó imaginário que neles se acumulara durante o longo tempo que ali permaneceram, e despediam-se, alguns com um sorrisinho, erguendo o queixo em direção ao estivador, outros, como eu, iam com a pulga atrás da orelha. Alguns dirigiam-se para os lares, outros para os bares, enquanto Dodó permanecia sentado no degrau da sua humilde casa, à Rua Heitor Soares Gomes, com o olhar distante, ouvindo as marés indo e vindo, batendo no paredão, observando ao longe a luz fugidia do rebocador puxando um navio através do canal. Algumas vezes tudo é verdade, noutras nem tudo é verdade.
Ao vir para Antonina, Grande Otelo trouxe o diretor de cinema a tiracolo, pois o americano fazia questão de ir a todos os lugares onde o amigo brasileiro ia, sequioso por conhecer muquifos, bordéis e pardieiros, além das "belezas naturais e morenas" do nosso país. A paixão de Otelo pela nossa pequena cidade teve início quando aqui ele aportou em busca do irmão mais novo, Chico, filho ilegítimo de dona Maria Abadia. Evidentemente, a informação equivocada de um improvisado detetive particular não encontrou comprovação, mas a hospitaleira cidade jamais sairia de seu coração. Sempre que a vida atribulada permitia, Otelo surgia perambulando pelas ruas de Antonina, conversando com as pessoas, sentando-se nas praças, tomando um pingado, comendo um pãozinho com manteiga ou um bolinho de banana, no bar de esquina... Então, nessas ocasiões, em determinado momento, quando a roda à sua volta estava repleta de curiosos, ele teatralmente sacava do bolso do paletó umas cigarrilhas cubanas e generosamente as distribuía, para supremo deleite dos presentes. E, quando a noite ia ficando cada vez mais escura, a pequena figura ia desbotando, esvanecendo assim lentamente, tão lentamente, que nem nos dávamos conta. Otelo não dizia adeus, nem até mais, nós também não nos importávamos com essas formalidades, ele simplesmente ia embora, como se não quisesse nos incomodar, como se não quisesse nos magoar, como se tudo não passasse de um sonho, sonho de velhos boêmios a conversar com pelicanos, algaravia compreensível somente às almas inebriadas pelo vinho da folha de palmeira. Um cronista, para mim fidedigno, dos anais antoninenses relata que, sem precisar datas, em decorrência da idade avançada, mas assegurando que ocorreu na década de 80, o grande ator voltou aqui pela última vez para proferir uma palestra intitulada "As Raízes do Teatro e do Cinema Nacionais – Experiência de Ator", com um público de duas mil pessoas, numa manifestação ainda embrionária do que viriam a ser, anos mais tarde, os tradicionais festivais de inverno.
No dia seguinte, pela manhã, nem bem o dia clareava, às seis da manhã, tomorrow, six o'clock!, os dois implausíveis companheiros tomaram um táxi de volta ao Rio de Janeiro, onde o americano estava sendo chamado com urgência, às pressas. Alguém nos contou, algum tempo depois, que Hollywood o despedira, que os donos do poder não tinham mais interesse num filme sobre a América do Sul e, muito menos, sobre o Brasil, que esse ocorrido era um capricho presidencial, que fazia parte do esforço de guerra, a tal política da boa vizinhança, a mando do presidente Roosevelt e patrocinada pelo milionário Nelson Rockfeller, que não queria mais gastar tanto dinheiro num filme que nunca seria exibido e, de mais a mais, o presidente Vargas já tinha convenientemente aberto mão das convicções nazistas, da simpatia por Mussolini e se debandara de mala e cuia de chimarrão para o lado dos Aliados.
– Como? Getúlio Vargas, nazista?! – disse um.
– Aí, agora você já não está mentindo demais, Dodó? – arriscou outro.
Com cara de poucos amigos, quando duvidavam das suas gazopas, Dodó preferia deixar a dúvida no ar e retomar a narrativa.
– Então, a filha mais bonitinha de dona Mariquinha deu à criança...
– Mas que criança, Dodó?! – indagava alguém, tentando provocá-lo.
– Pois é, continuando, ela deu ao recém-nascido, filho do pecado com o gringo, o esdrúxulo nome de Rosebud. Até hoje ninguém sabe o porquê, nem o que isso quer dizer, a sua significância. As velhas faladeiras, maledicentes, insistem que Rosebud é, só pode mesmo ser, coisa do Capeta, cujo nome de família em português é Bode, pois os padres que são tudo entendido nessas artes cabalísticas se recusaram a batizar o pobrezinho.
Para fechar com chave de ouro, à guisa de gran finale, o sábio estivador arrematava que o bastardinho Rosebud de Oliveira Quadros tornara-se, em meados da década de 60, um afamado advogado da Vara de Família, em Curitiba, com escritório montado e tudo. Na parede do escritório, em frente à escrivaninha, podia-se ver, emoldurada, uma fotografia autografada de Welles, com dedicatória feita especialmente para ele, o filho da aventura brasileira. Todos os conhecidos, inclusive a sua avó, a confiável dona Mariquinha, afirmavam unânimes que a tal dedicatória era falsa, coisa forjada pelo próprio Rosebud.
(Minhas incansáveis investigações levaram-me à Guiné-Bissau, onde descobri que Rosebud de Oliveira Quadros desaparecera, aos 31 anos, durante a Revolução dos Cravos. O que ele estaria fazendo naquele distante país? O máximo que consegui levantar sobre as suas atividades africanas é que fora em busca do paradeiro de um exemplar da “Ilíada”, de Homero, cuja folha de rosto continha a assinatura de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont. O quê, então, o nosso ilustre conterrâneo tornara-se um apaixonado colecionador de obras raras? Sim, porém equivocado; essa raridade bibliográfica foi realmente encontrada, somente que na Espanha, em 1977).
A noite chegara e os ouvintes, então, iam se levantando preguiçosamente, batiam os pés, os chapéus, como se quisessem espantar o pó imaginário que neles se acumulara durante o longo tempo que ali permaneceram, e despediam-se, alguns com um sorrisinho, erguendo o queixo em direção ao estivador, outros, como eu, iam com a pulga atrás da orelha. Alguns dirigiam-se para os lares, outros para os bares, enquanto Dodó permanecia sentado no degrau da sua humilde casa, à Rua Heitor Soares Gomes, com o olhar distante, ouvindo as marés indo e vindo, batendo no paredão, observando ao longe a luz fugidia do rebocador puxando um navio através do canal. Algumas vezes tudo é verdade, noutras nem tudo é verdade.
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