terça-feira, 7 de outubro de 2014

O DIÁRIO DE BORDO DO GRUMETE FERNANDO SEABRA, DADO À LUZ PELO PROFESSOR MODESTO CASTRO DA SILVA, NO ÚNICO INTUITO DE CLARIFICAR ALGUNS PONTOS OBSCUROS DA HISTÓRIA DO BRASIL

Edson Negromonte

Introdução

O pequeno diário de bordo, aliás, umas poucas folhas, do grumete Fernando Seabra foi encontrado há algum tempo, dois anos e cinco meses, para ser exato, na biblioteca de um amigo, descendente do Barão de Antonina, o mais ilustre historiador das quimeras capelistas, um apaixonado e contumaz colecionador de manuscritos e obras raras da nossa história, principalmente daquilo que se convencionou chamar de proto-história, que deseja permanecer incógnito. Paixão que levou-o já aos confins do mundo em busca das nossas raízes, a lugares ainda ermos e quase selvagens, mesmo nos dias de hoje, em que os homens entendem que já exploraram o que tinha de ser explorado no globo terrestre e se lançam agora a viagens interplanetárias. Assim, se há luz, com certeza a treva se manifestará. Aquilo que os homens de ciência julgam indigno de se debruçar pode ser o depositário mais fiel dos segredos da própria história, daquilo que buscam, e quando o roçam, escarnecem; um simples grão de areia encerraria toda a história da humanidade. O que não dizer, então, de documentos que se julgavam perdidos e, até mesmo, fictícios? Portanto, não me canso de enaltecer a paixão do amigo, a qual tornou-se, para mim, de grande valia.

Este diário de bordo (como resolvi chamá-lo, por conveniência) do dito grumete parecerá para muitos uma falsificação, para outros um engodo. Não pretendo aqui provar a autenticidade de coisa alguma. Para mim, é autêntico e é o que basta, mesmo porque a umidade e os bichos do tempo já se encarregaram de lhe comer boa parte, talvez as mais saborosas, as quais tratei de reconstruir como uma divindade qualquer no alvorecer do mundo, a quem tudo é permitido. Deve-se levar em conta que esta é a transcrição atualizada de um documento dito apócrifo, para leitura mais fluente.

Este pequeno diário de bordo, ou o que dele restou,, tornou-se desde então o meu mar oceano, ao qual dediquei anos a fio, de sonhos, pesadelos e delírios de náufrago, desde o intrincado cavername até o sonho líquido das palavras dos antigos homens marítimos, de delírio renascentista. É o testamento do salitre quinhentista às novas gerações que, assim como os seus antepassados, também passarão os dias nos trapiches, a observar a imensa massa de água salgada a fluir e refluir, no exasperante e monótono vaivém das garrafas lançadas ao mar. Deixando de delongas, passemos à leitura do diário do grumete Fernando Seabra.


Do ocorrido no domingo e na segunda-feira, 8 e 9 de março de 1500.

Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, venho dar conta ao sereníssimo Rei de Portugal D. Manuel I, mas principalmente à gente comum, meus iguais, de tudo quanto vi e ocorreu durante a viagem pelos mares e terras que a Portugal pertencem por ordem e graça do Santo Papa. Peço perdão a El-Rei se as palavras não são adequadas aos vossos finos ouvidos mas a minha escola é pouca e trairia a minha gente, a arraia-miúda, se de outro modo escrevesse, pois outros homens nesta nau; o escrivão Pero Vaz de Caminha ou o capitão-mor Pedro Álvares ou o piloto Pero Escolar ou o cartógrafo João Estrangeiro, dito Mestre João, poderão fazer melhor que este vosso humilde servo. Os homens citados estão melhor preparados a dar conta de melhor maneira sobre os acontecimentos, tanto à Vossa Alteza quanto aos homens cultos; assim sendo, eu, humildemente, peço permissão para relatar tudo o que vi e ouvi em minha viagem ao homem comum, meu igual, pois a palavra justa me faltaria, e não daria eu conta nem ao Senhor Sereníssimo e muito menos ao homem rude das ruas, ávido das aventuras e histórias do além-mar, de tudo quanto estou eu disposto a ver na viagem rumo ao desconhecido. E que a ignorância da pouca idade não me leve à pretensão de me achar tão ou mais importante que qualquer navegante anterior a mim.

Durante muitos dias e noites, e dias e mais noites ainda, como um espião do espírito, estive eu a rondar o porto, a observar o movimento dos barcos, das naus, dos que chegavam, mas principalmente dos que partiam. Os que chegam trazem as novas das terras ao longe, aonde os olhos, por mais que os esforce um forçado, não conseguem jamais divisar, mas toda a vez que uma nau deixava o porto um pouco de mim partia junto com ela. Velas enfunadas revelavam de pronto a agitação dos marinheiros, como se eu mesmo estivesse com eles partindo. De tudo, dos preparativos para a viagem a Calicute, fiquei sabendo pelo falatório das ruas, que meu ouvido é atento e nada perco do que se conta nos becos dessa Lisboa febril, com todo o tipo de gente que tal centro de comércio pode atrair, negociantes, banqueiros, espiões. Sei de tudo, pois ninguém liga muito para um menino curioso; aprendi a ouvir e deveras calar as coisas todas e muitas mais depois de ser abandonado pelo meu pai. Comentava-se nos cantos das hospedarias sobre uma armada de treze naves em direção às Índias e que o próprio Rei D. Manuel, em pessoa, iria à missa de embarque dos corajosos homens; dispostos à descoberta das novas terras, os novos mundos. Diz-se até que de novas gentes, diferentes da nossa. Apesar de isso ter ouvido da boca de marinheiros sempre bêbados, nas tavernas, todos eram unânimes em afirmar que o mundo não é só Lisboa e que essa é a maior armada que já atravessou o oceano, composta de uma naveta para os mantimentos, duas caravelas e dez naus . E disso já o sabia eu. Assim, acorri eu também ao porto de partida, já sentindo na boca o gosto do sal grosso. Lá estava, disso dou parte, o Sereníssimo Rei e creio não estar mentindo se dissesse toda a Lisboa. Como sou pequeno e magriço, fui me intrometendo por entre aquela gente de preto, a qual vai sempre de luto ao embarque dos que ousam enfrentar mares revoltos e monstros marinhos, em luto antecipado, mas nada disso me amedrontou. Apesar dos dezesseis anos, e não conseguindo mais ficar em terra enquanto via tantos conhecidos partindo, e sem conhecimento mínimo de navegação, não saberem sequer a diferença entre bússola e astrolábio, mas devo também dizer que nem eu o sabia até então. Dizem até, à boca miúda, na agora distante Lisboa, que mesmo o Capitão-Mor Pedro Álvares nunca pisara uma embarcação. Perdão a El-Rei se digo asneiras. À noite do dia oito, com lua e céu estrelado, prenúncio de tempo bom, enquanto faziam-se os preparativos para a partida, consegui burlar a vigilância da nau e me embarafustei, feito ratazana, nave adentro, o coração explodindo, mãos trêmulas, de suor pegajoso. Ainda agora, ao disso lembrar, as têmporas me latejam, tudo girava à minha volta na escuridão daquele lugar úmido, o porão. O cheiro do porão é muito forte e dá vontade de vomitar, não sei se por causa desse fedor nojento, pois já deve ter ratos e baratas aqui dentro, apesar de ser novo o navio. Devo confessar que o medo de ser descoberto, pois com certeza seria jogado ao mar, não deixava-me pregar os olhos. Se me descobrissem, sabe-se lá o que me esperaria, além das serpentes marinhas capazes de arrasar uma cidade inteira com um único movimento da cauda, ou coisa pior até. Devo novamente relatar que, antes mesmo da partida, já tinha coisa podre no porão e que o ar não se podia respirar de tão pestilento. A ânsia trouxe de novo o medo quando ouvi os passos de alguém descendo a escada e se aproximando, com uma lanterna na mão. Supliquei à proteção divina que me guardasse, mas a minha respiração ofegante estava muito alta. Tentei parar de respirar, sem erguer os olhos, acocorado num canto escuro. Eu precisava conhecer as terras novas. As histórias que os marinheiros contam das Índias são de encher os olhos do cristão: ouro, prata, especiarias, mulheres seminuas, dançarinas capazes de deixar o homem em êxtase só com um movimento dos quadris. Tantas são as riquezas que tornarão o nosso rei D. Manuel muito mais rico ainda. Para minha sorte, o desgraçado da lanterna acabou indo embora e tanto tempo passou-se que, apesar do cheiro ruim, acabei adormecendo.


Do ocorrido na terça, aos 10 de março de 1500.

Devo dar parte de que acordei com o despenseiro do navio brandindo uma grande faca em minhas faces e gritando para que eu saísse dali, perguntando-me o que estava eu a fazer ali escondido. Pedi que não me matasse, dizendo-lhe que meu pai fora copeiro de El-Rei, ao que ele olhou-me com fúria e disse que eu era o filho de uma rameira. Gritei então com todas as minhas forças que tivesse pena de mim, o filho de um copeiro e uma rameira, na esperança de que outros da tripulação ouvissem e em meu auxílio viessem. O rebuliço foi tal e tamanho que parte da tripulação acorreu ao porão. Não tardou para que um homem, em roupas de veludo e ar de fidalgo aparecesse e os marinheiros logo lhe dessem passagem. Moderado, o uchão falou-lhe que eu deveria ser lançado ao mar, ao que a marinhagem assentiu, temerosa do azar que um latebroso traz às naus. O fidalgo ordenou então que todos se calassem e voltassem aos seus afazeres. Eu fui levado à presença do Capitão-mor, o qual estava em sua cabine, em meio a uma azáfama de mapas vários, em conversação com um outro muito distinto, que depois fiquei sabendo se tratar de João Estrangeiro, dito Mestre João, homem que escreve fluente em variadas línguas e sabe de navegação muito mais que qualquer capitão em toda a esquadra. Pero Vaz, este o nome do fidalgo que trazia-me pelo braço, desculpou-se pela intromissão e apresentou-me como um rato de porão ao Capitão-mor e ao cartógrafo, um clandestino. O Capitão-mor Pedro Álvares olhou-me de cima a baixo, de olhos severos e sobrancelhas espessas. Devo aqui dizer que clamei por piedade que não me jogasse ao mar, porque o sabia homem de bom coração e que eu, na verdade, não queria trazer azar a ninguém, somente conhecer as novas terras de além-mar, pois a vida já tinha sido dura demais comigo, tomando-me cedo a mãe e que duplamente órfão fiquei quando meu pai, copeiro do rei, caíra em desgraça, sendo degredado sabe-se lá para onde, de que não queria mais andar pelas ruas de Lisboa, vivendo da caridade alheia, de que poderia na nau capitânia fazer qualquer tarefa, e compensar a minha fraqueza trabalhando dobrado, de que o capitão-mor me concedesse a chance de servir a El-Rei D. Manuel, o primeiro. Enquanto o Capitão Pedro Álvares observava atento a minha figura, os meus olhos não conseguiam se despregar de uns pedaços de presunto sobre a mesa, os restos do almoço. Enquanto os três homens se entreolhavam e decidiam, a fome era tanta e tamanha que eu ataquei as sobras da mesa do capitão-mor. O meu atrevimento por certo causou dó aos três homens, tanto que fui mandado a ajudar no convés, junto com os outros grumetes da marinhagem. Assim, tornei-me parte efetiva da nau capitânia, de três mastros, chamada São Gabriel.


Do ocorrido nos dias de março de 1500.

Dizem os capitães, que sou todo ouvidos, de uma terra nova antes de Calicute, a qual, segundo Mestre João, já está nos mapas de Pero Vaz Bisagudo. Isso eu sei porque tenho os ouvidos atentos e a boca fechada, sei tudo ouvir e tudo calar. Quatro dias depois da nossa partida, passamos pela ilha das Canárias e seguimos viagem até Cabo Verde, aos 22 dias deste mês de março, com mar calmo, sem contratempos. Mas no dia seguinte, uma das embarcações perdeu-se das outras, a do fidalgo Vasco de Ataíde, também chamado de Taíde e irmão de Pero de Ataíde, o capitão da caravela São Pedro. O capitão-mor Pedro Álvares fez várias buscas à nau do muito honrado Vasco de Ataíde, mas embalde. Era como se o mar houvesse tragado embarcação e toda a tripulação. Seguimos viagem, embora a marinhagem, principalmente o despenseiro, quisesse novamente me jogar ao mar, dizendo ser eu o culpado pela fatalidade de Vasco de Ataíde. Salvou-me ter caído nas graças do capitão-mor, mas principalmente nas boas graças de Pero Vaz, o qual me fizera o seu secretário. Isso quer dizer que eu já não fazia mais o trabalho pesado do tombadilho, o que me dava também certas regalias, como uma comida melhor. Às vezes, partilhava da mesa de Pero Vaz, chegando a beber com ele um copo do seu melhor vinho. Sobre certos homens da equipagem da armada é preciso dar conta à Vossa Sereníssima Majestade, mas principalmente à gente da minha laia, pois que estou cercado de grandes nomes da navegação. O primeiro, a quem muito me afeiçoei, é frei Gaspar, monge franciscano, meu confessor, homem culto, apesar da pouca idade; deve ter por volta de vinte a vinte e dois anos. É um dos religiosos preferidos de frei Henrique de Coimbra, também franciscano e confessor, dizem, de D. João II. Se não fosse a sua intervenção também a meu favor, frente à marinhagem, que o tem em muito boa conta, teria eu virado comida dos monstros marinhos, durante algum descuido noturno. Entre os capitães, tenho muito apreço por Bartolomeu Dias e seu irmão Diogo, ambos de muita fama por terem dobrado o Cabo da Boa Esperança, antes das Tormentas. Versado em matemática e astronomia, o intrépido Bartolomeu parece trazer dentro de si uma sombra que, mais cedo ou mais tarde, o levará à morte. Pelo menos, eu assim o vejo, assim como vejo uma grande sombra a pairar sobre as cabeças de quase todos os homens da armada, mas o que mais me causa apreensão é Bartolomeu Dias. Homem digno de ser imitado no trato com os homens, é o vice-comandante Sancho de Tovar, da sota-capitânia El-Rei, e digno de pena é Nuno Leão da Cunha, da Anunciada, visto de viés por toda a equipagem, por estar a serviço de banqueiros florentinos em busca do lucro advindo do tráfico das especiarias, embora todos estejam em busca de riquezas mas ninguém admita. O meu protetor Pero Vaz é homem muito letrado, tem por volta de 50 anos e participou da Batalha de Toro, aos 25 anos de idade; diz ele que fez de mim o seu grumete, o que quer dizer, segundo ele, um criado para lhe servir o vinho. Notícias sobre o capitão-mor serão dadas mais tarde que agora frei Gaspar está a me chamar para as rezas e as nuvens já encobrem a lua.


Do ocorrido a bordo.

A vida a bordo da nau capitânia deve ser a mesma das outras naus, quando o mar está calmo, como tem estado até o dia de hoje. Os víveres são racionados, e a cada marinheiro compete uma ração para a semana, de carne salgada de porco e peixe, sardinhas e esturjões, biscoitos, água e vinho, queijo, ovos, alho, cebola, uvas passas, às vezes algumas frutas, principalmente os figos, quase sempre destinados ao capitão, ao escrivão e ao piloto. A marinhagem, se comprime no convés à hora de dormir, cada um a seu turno, sendo que os melhores lugares são os mais próximos da proa, onde se está a coberto das vagas. Somente o capitão-mor Pedro Álvares e o escrivão Pero Vaz dispõem de cabines, cada um com a sua. Às vezes me é permitido dormir no chão da cabine de Pero Vaz, meu protetor, em uma alcatifa. O resto dos homens se acomoda como melhor pode, de acordo com a ordem e a hierarquia, sendo destinado ao baixo escalão, quer dizer, os grumetes os piores lugares, de geral próximos à popa, desabrigada e sob o açoite intenso das vagas. Na popa, fica também o balde no qual os oficiais aliviam as tripas, o qual é preso numa corda grossa e é arrastado pela água para a limpeza. À marinhagem são destinadas as assim ditas jardineiras, em número de duas, as quais se encontram na proa, uma de cada lado, e que vem a ser uma tábua com dois buracos onde sentam-se os homens para aliviar as tripas. Limpam-se eles com uma corda grossa, desfiada nas pontas, a qual está sempre limpa, devido a ação da água do mar. Muitos homens da tripulação estão já assados por causa da água salgada. A bexiga se alivia na amurada. Enquanto não se está trabalhando, os mancebos cantam sobre a terra, as saudades da terra, das cachopas, tocando as suas gaitas. A Mestre João apraz distrair a marinhagem com relatos de viagens e a orientação pelas estrelas. Aos marinheiros, apraz ouvi-lo quando não estão entretidos com jogos de dados, os quais são proibidos mas aos quais se faz vista grossa, desde que os homens não se desentendam entre si. Devo dizer que temos bons gaiteiros entre nós, os da tripulação da São Gabriel.


Do ocorrido aos 21 de abril de 1500, terça-feira.

A alegria dos marinheiros foi muito grande ao avistarem botelhos e rabos-de-asno, mais que evidente sinal de terra próxima, conquanto estivéssemos há mais de mês envoltos pela água salgada, em desespero, apesar do tempo quase sempre calmo.


Do ocorrido aos 23 de abril, uma quinta-feira.

Avistou-se terra e isso causou grande alvoroço entre os homens, depois de tanta água, mas de tempo quase sempre bom. Foi descido então um batel para ver que gente era aquela na praia, de corpos nus e pardos. As praias são de muita vegetação, abundante. Devo aqui dar parte que eu, o grumete Fernando Seabra, fui um dos primeiros a por os pés em terra, pois que estava eu no batel também, a mando do capitão-mor Pedro Álvares. À minha frente, somente Nicolau Coelho, experiente navegador que não pode se entender com as gentes do lugar, mais ou menos uns vinte homens, todos nus e de arcos e flechas. A um sinal de Nicolau Coelho, eles deitaram por terra as suas armas. Nicolau Coelho deu a um deles a sua própria carapuça, a qual tirou da própria cabeça, à guisa de entendimento. Deram-lhes eles em troca um sombreiro de penas de papagaio, creio eu, e um cordão de conchas miúdas. Nada nem ninguém conseguia entendê-los e creio que nem eles a gente. Permanecemos entre essa gente até perto do anoitecer, devo acrescentar que com alguma apreensão, posto que são homens muito bem constituídos e que facilmente nos fariam prisioneiros. No dia seguinte, levantou um vento quente, prenúncio de temporal, o que obrigou a armada a buscar abrigo melhor perto de um rio, num porto mais seguro.


Do ocorrido na sexta-feira, dia 24 de abril.

Dois dessa gente de pele parda foram trazidos a bordo da nau capitânia, sob ordens do capitão-mor Pedro Álvares. Eram gentis em gestos e tão inocentes que se assustaram à vista de uma galinha. O capitão-mor tentou com eles se entender através de gestos, embalde. Tentou-se também falar com eles em latim, mas nada nem ninguém pode lhes compreender. Ao cair da tarde, qual infantes, deitaram-se e adormeceram no convés, ao que o capitão-mor mandou cobri-los, posto que as suas vergonhas estavam à mostra e isso causava vergonha a nós, homens acostumados às vestes. Apesar do calor, o capitão trajava veludo, enquanto a marinhagem trabalhava de peito nu e pés descalços. Devo aqui dizer também que essa gente das novas terras parecia a mim tão atraente quanto uma bússola. Fiquei a admirar-lhes por muito tempo o sono calmo e profundo. No dia seguinte, foram levados de volta à terra, onde para pasmo meu estava uma multidão de homens. Entre eles, quatro moças, de vergonhas à mostra, as quais todos os homens se admiravam de olhar e a elas não causava-lhes vergonha o mostrar as próprias vergonhas. De não se poder despregar os olhos das suas vergonhas, e nem mesmo o escrivão Pero Vaz de Caminha, meu protetor, o qual assombrou-se, como nós, os da marinhagem, de serem raspadas. Uma delas chamava a atenção de meus olhos, por ser muito bonita, de cabelos negros, luzidios e longos, que lhe desciam pelas espáduas. Devo aqui dizer que voltei contra a minha vontade à nau capitânia, por ordem de Pero Vaz, e que mesmo ao degredado Afonso Ribeiro não lhe foi permitido o pernoite, por ordem do Capitão, entre aquela gente, que o trouxe de volta à praia. De volta à nau, não pude adormecer, com a vista tomada pela beleza das gentes da terra nova, de pele ora avermelhada, ora de bronze. Faz essa gente muito gosto nos guizos, com os quais são fartamente presenteados por aqueles que vão à terra, para saber do ouro e da prata que se supõe haver mais para dentro, apesar de não usá-los como adorno. Os seus principais enfeites são as penas de aves, várias e desconhecidas para nós, sendo que somente as dos papagaios conhecemos, de vários tamanhos, menores e maiores que uma galinha. Eles têm as penas de aves como uma grande riqueza. Creio que o seu adorno principal é um osso de animal que enfiam no beiço inferior, o qual o atravessa todo, não os impedindo de falar com desenvoltura. As mulheres não trazem adornos, somente poucas pinturas em algumas partes do corpo e nem em todo ele, somente partes dele, mas muitos homens têm o corpo todo pintado.


Do ocorrido em 26 de abril de 1500, no domingo de Páscoa, e nos dias seguintes.

O muito católico capitão-mor Pedro Álvares ordenou que todos os homens assistissem missa num ilhéu, oficiada por frei Henrique, sobre o achamento
dessa terra. Todos os homens lá estavam, ouvindo a pregação com devoção, enquanto a gente da terra folgava na praia. A gente do lugar é amigável e a mim parece o paraíso terrestre, com vergonhas à mostra e sem pecados. Fazem eles questão de nos oferecer os seus bens mais preciosos, como penas coloridas de aves, conchas muito brancas, pedras coloridas e frutas de sabores que nunca tínhamos provado. Em tudo nos imitam e alguns de nós os imitam também, principalmente quando fazem algazarra, o que não é do agrado do capitão Pedro Álvares. Vossa Alteza, creio eu, faria gosto em ver os homens de vossa marinhagem com os corpos também pintados de vermelho e preto, a folgar entre essa gente. A alguns dos vossos marinheiros é concedido pelos capitães permanecer em terra entre eles, o que eles não permitem. Não sei porquê, mas ao anoitecer, somos levados de volta à praia e obrigados a dormir em nossas naus. Assim, passo os meus dias entre a gente da terra, em companhia de outro grumete, da nau Trindade, chamado Simeão. O fidalgo Pero Vaz está a escrever uma longa carta destinada ao nosso Sereníssimo Rei, D. Manuel I, a qual será levada por Gaspar de Lemos, o comandante da naveta. Sobre o capitão Pedro Álvares, tenho intenção de escrever algo nos próximos dias, posto que, apesar de muito sério e de poucas palavras, somente as necessárias, é do meu agrado. A ele, há de se fazer justiça. Por crer que não me reste mais tempo, pois a minha fuga já está planejada, juntamente com Simeão, da Trindade, devo então dizer que o capitão-mor é homem de princípios, todos dele dependem, pois a todos ouve, sempre avaliando as palavras dos seus capitães, com dignidade e interesse. Assim, devo acrescentar que o honrado capitão-mor desta armada, Pedro Álvares, é digno representante de Vossa Alteza, D. Manuel I. Devo ainda aqui dizer que peço perdão pela imprecisão de algumas datas, apesar de Pero Vaz ter-me dando a honra de ser o responsável pela marcação do tempo no relógio de areia desta nau, o qual se encontra em sua cabine. Peço a Vossa Alteza que leve em conta a pouca idade deste seu servo, o grumete Fernando Seabra. Creio que a Mestre João, homem entendido nas estrelas, seria mais cabível essa atribuição do que a rapaz encantado com as belezas da terra.


Do ocorrido nos últimos dias de abril ou no primeiro dia de maio de 1500.

Foi erguida em sítio determinado pelo Capitão uma grande cruz de madeira, a qual contou, além da força de Vossos marinheiros, com a força dos homens da terra, para ser erguida. Entre nossos homens, havia a gente da terra para assistir a missa desta sexta-feira. Entre eles, uma única mulher que, assim como as outras vistas na praia, também trazia nua a sua vergonha. Bartolomeu Dias ordenou a um dos marinheiros que desse um pano para ela se cobrir, o que não foi de valia pois ao sentar-se a sua vergonha ficava à mostra e disso ela não dava conta. Devo aqui dar parte a El-Rei que eu, assim como muitos outros marinheiros, não pude tirar os olhos dessa mulher e da sua vergonha. Confessado o meu pecado a frei Gaspar, esse religioso homem não se mostrou surpreso com a minha atitude, asseverando que a inocência é um atributo do paraíso, o qual perdemos e jamais conquistaremos, posto que já nascemos com o pecado original. Por qualquer acontecimento, essa gente tem por costume cantar numa algaravia muito próxima a das aves. A eles, me parece, não lhes agrada o som das nossas gaitas, assim como o gosto do nosso vinho, o qual cospem logo fora, com repulsa. É essa gente de tamanha inocência que a mim aprazaria viver entre eles até o último de meus dias, nesta Ilha de Vera Cruz, por obra e graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.


CONCLUSÃO

Essas são as últimas palavras escritas do grumete Fernando Seabra, em seu diário improvisado, finalizando este relato que será de grande valia para os estudiosos da história pátria. Num trecho da famosa carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I, o escrivão oficial da descoberta do Brasil, diz o seguinte: "Creio, Senhor, que com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não retornaram mais. E creio que ficarão aqui porque de manhã, aprazendo a Deus, fazemos nossa partida daqui". Este trecho corrobora a hipótese de que os dois grumetes que resolvem permanecer de livre e espontânea vontade em terras brasileiras são mesmo Fernando Seabra e o seu companheiro de aventuras e desventuras, Simeão, junto com os dois degredados: Afonso Ribeiro, citado nominalmente na carta de Caminha, e mais outro, do qual não se sabe o nome.

A mim, hoje o depositário de confiança deste documento, após a morte de meu amigo, cujo nome permanecerá incógnito, de acordo com a sua vontade, resta o orgulho de trazer alguma luz à problemática do descobrimento da terra brasileira, através das palavras de um mareante que, ao invés de seguir a viagem a Calicute, houve por bem se estabelecer entre os primeiros habitantes desta terra, indo assim contra a corrente histórica pessimista, a qual insiste em fazer do povo brasileiro somente o repositório da sífilis. Asseguro ainda às novas gerações que estes primeiros portugueses que aqui estiveram eram a nata da navegação da época, sendo que Pedro Álvares Cabral, apesar de não ser um navegador experimentado, como bem o mostra o diário do grumete, estava investido como diplomata, uma espécie de embaixador da boa vontade, às ordens de D. Manuel I, o Venturoso, para corrigir as barbaridades anteriores perpetradas pelo impiedoso e controverso Vasco da Gama na Índia. Nunca será suficiente destacar as personalidades de Pero Vaz de Caminha, o responsável pelas primeiras palavras sobre a terra brasileira e os seus primeiros habitantes, cuja carta tornou-se um documento monumental tanto da cultura portuguesa quanto da brasileira, e o grande herói camoniano Bartolomeu Dias, o retrato mais fiel do homem destemido de sua época, presente em “Os Lusíadas”, o grande poema épico português, que viria a falecer justamente nas imediações do Cabo da Boa Esperança, o qual lhe deve o nome, ao cruzá-lo pela segunda vez.




TRANSCRIÇÃO FONÉTICA DO DIÁRIO DE BORDO DO GRUMETE FERNANDO SEABRA


do ocurrido domingo e segda viii e xi de marzo MD

em nombre de noso sñor jesus xto ueño dar oõta ao serenísimo rey de portugal d manuel i pero princ aa jente comu mis iguales de todo o cuanto he visto e he ocurrido durante a viaje per mares y tierras que a portugal pertenecem bajo la ordre y graça do santo papa peso perdaum a el rey si las palabras no saum adecuadas a vosos finos oidos pero a mia escoola eh poca e traio aa mia jente la raia menuda si de otro modo escrepuo pois otros ombres en esa nao o escribaam pero vaas de camjnha o o capitaam moor pero alvares o o piloto pero escolar o o cartografo juan estranjero dito mestre juan poderaum hacer milhor q ese voso umilde seervo haceria os ombres citados estaum en milhor preparo pera dar cõta de milhor manera supra os ocurridos tanto aa vossa alteza cuanto als ombres cultos de la nobresa asi sendo eu umiude pido premisaum pera relatar todo o q he visto e oído em mia viaje al ombre comu meo igual pois o mote justo a mi me fautaba e no dava cõta ni ao sñor serenisimo e mui meno al ombre rude das ruas avido de aventuras y istooreas de alem mar de todo cuanto estoy eu disposto a veer nessa viaje rumo ao desconocido y q a jnoramcia da poca edade no me leve aa pretemsaum de me creer taum o mas jmportante q cual qr marinero anterior a mi mui dias y noutes y dias y noutes mas aymda como um espiaum do spiritu estibe eu a rondear o porto a observar o movimento dos barcos das naos dos q chegabaum pero princ dos q partiaum os q chegaum traem as novas das terras al lomje a onde os ollos por mas q esforse un forsado nõ consegem jamas divisar pero tooda a vez q ua nau dejaba o porto un poco de mi partia yunto co ela velas efunadas revelavaum de pronto a agitasaum dos marineros como se eu mismo estuvisse co eles partindo de todo dos preparativos para a viaje a calecute fiquee sabendo per o falatoorio das ruas q mi oido eh atento y nada perdo do q si cõta en becos desa lisboa febril co todo tipo de jente q tal centro de comeercio pode atraer negociantes banqueros espiaums sei de todo pois ningum liga mui pera um menino curioso apreendi a oir e deberas calar as cosas todas y mui mas despues de seer abandonado por mi padre comentaba se nos cantos das ospedarias de ua armada de xiii naos em direcion aas indias y q o propio rei d manuel en persona ia aa misa de embarque dos corajosos ombres dispostos aa descoberta das novas terras os novos mondos dis se ateh q de novas gentes diferentes da nosa a pesar de iso ter oido da boca de marineros sempre bebedos nas tabernas mas todos eraum unanimes en afirmar q o mondo nõ eh soh lisboa y diso ya o sabia eu asi acurri eu tbm al porto de partida ya sentindo na boca o gusto do sal groso lah estaba disso dou parte o serenisimo rei e creo no estar mentindo si disese toda a lisboa como sou pequeño y magriso fui intromisando me por entre aqela gente de preto a qual vae sempre de luto al embarqe dos q osaum enfrentar mares revoltos y monstros mariños en luto antecipado mas nada diso me amedronta apesar dos xvi anos y no consegindo mas ficar en iterra encuanto veia tantos conocidos partindo y si conocimento de bussula o astrolabio mas debo tbm decir q ni eu lo sabia ateh entaum dicem ateh aa boca menuda na aora distante lisboa q mismo o capitaam moor pedralvares he pisado ua embacassaum perdaum a el rey si digo asnises aa noute do dia viii con luna y ceo estrelado prenuuncio de tempo bom encuanto haciaum se os preparativos pera a partida comsegi burlar a vijilancia da nao e embrafustei me hecho ratazana nave a dentro o corasaum esplodindo maãos treemulas de soor pegajoso aun aora ao de eso lembrar me as teemporas latejaum todo gira aa mia volta na oscuridaum dese logar humido o poraum o olor do poraum eh mui forte e da me voluntad de vomitar no see si por causo dese fedor nojento pois ya debe teer ratos y baratas aqi dentro a pesar de seer nueva a nao debo confesar q o medo de seer descuberto pois o medo de seer jugado al mar no dejava me pregar os ollos si discubrisen me sabe see lah o q ocurria alem das serpientes mariñas capazes de arasar ua ciudade inteira con u so movimiento de cauda o cosa peor ateh debo tbm relatar q amtes mismo da partida ya tenia cosa podre no poraum y q o ar no se podria respirar de tan pestilento a aansia tras de novo o medo cuando oi os pasos de algem descendo a escala y aprosimando se co ua lanterna na maum supliquee aa protesão divina q gardase me pero a mia respirasaum ofegante estaba mui alta tentei parar de respirar sin erger os ollos acocorado nium canto oscuro eu precisaba conocer as terras novas as istooreas q os marineros contaum das indias saum de encher os ollos do cristaum oro prata espesiarias mulleres semi nuas dansarinas de dejar o ombre en estasis soh co un movimiento dos cuadrjs pera mia sorte o desgrasado da lanterna acaboo indo imbora e tan tempo pasoo se q a pesar do olor ruim acabee drumindo


do ocurrido terza x de marzo MD

debo dar parte de q acordee co o dispensero do navio brandindo ua gran faca en mis fauces y gritando pera q eu saise de ali preguntando me o q estaba eu a hacer ali esconsido pedi q no matase me decindo a ele q mi pae tenia sido copeiro de el rey al q ele olloo me co furia e dise q eu era o fillo de ua ramera gritee entaum co todas mi forsas y dise q tuvisse peña de mi o fillo de uu copeiro e uua ramera na spransa d q otros da tripulasaum oisem y en mi ayuda venisem o ribuliso foi tal y tamaño q parte da tripulasaum acorreu ao poraum no tardoo para q u ombre en roopas de veludo y ar hidalgo aparesese y os marineros logo deesee a ele pasaje moderado o uxaum faloo a ele q eu debria ser lansado al mar al q a marinage asentio temerosa do asar q um latebroso trae aas naos o hidalgo ordenoo entaum q todos eles se calasee e voutasee als seos afaseres eu fue levado aa presensa do capitaam moor o cual estaba en su cabina en meo a uma asaafama de variados mapas en conversasaum con uu otro mui distinto q despois fiquee sabendo tratar se de juan estranjero dito mestre juanhombre q escrepue fluente em variadas lengoas y sabe de navegasaum mui mas q cual qr capitaam em toda escuadra pero vaaz ese o nombre do hidalgo q trahia me pelo braso escusoo se a intromisaum e apresentoo me como uu rato de poraum al capitaam moor e al cartografo uu clã destino o capitaam moor pero alvares olloo me de cima a bajo de ollos severos e sobrencellas espesas debo aqi decir q clamee por piedade q no jugase me al mar por q sabia a elehombre de boo corasaum y q eu na verdade no quereia traer mala suerte a ninguna persona somente conocer as novas terras do alem mar pois a vida ya tenia sido dura demas com migo tomando me cedo a madre e q a segda vez orfaum fiquee cuando meu pae copeiro do rey cahiu en desgrasa sendo degredado sabe se lah pera a onde de q no queria mas andar pelas ruas de lisboa vivendo da caridade alleia de q podria na nao capitanea hacer cual qr tarefa y compensar mi tibiesa trabajando dobrado de q o capitaam moor concedese me a cheance de servir a el rey d manuel o primero en cuanto o capitaam pedralvares observava atento mi figura mi ollos no consegiam despregar se de uu pedasos de presunto supra a mesa uu restos do almoso encuanto os iii ombres entre ollavam se y decidiaum a fome era tan y tamana q eu ataqei as sobras da mesa do capitaam moor o meu atrevimento por certo causoo do als iii ombres tanto q fue mandado a ayudar no conves yunto co os otros grumetes da marinage y asi tornee me parte efetiva da nao capitanea de iii mastros llamada san gabriel


do ocurrido nos dias de marzo MD

Dicem uus capitaaes q sou todo oidos de ua terra nova de amtes de calecute a cual seg mestre juan ya esta aas cartas de marear de pero visagudo eso eu see pur q tengo os oidos atentos y a boca hechada see todo oir y todo calar iv dias despois da nosa partida pasamos por la isla das canareas y segimos viaje ateh cabo verde als xxii dias dese mes de marzo co mar calmo sin contra tiempos pero no dia seg ua das embarcasaums perdeeo se das otras a do hidalgo vasco de atayde tbm llamado taide y hermano de pero de atayde o capitaam da carabela san pedro o capitaam moor pedro alvares fes variadas buscas al honrado vasco de atayde pero em balde era como si el mar ouvese tragado embarcasaum y toda a tripulasaum segimos viaje em bora a marinage princ o dispenseiro qisese nov jugar me al mar decindo ser eu o culpado da fatalidade de vasco de atayde salvoo me ter cahido nas gracias do capitaam moor mas principalmente nas boas gracias de pero vaas o cual hiciera me secretario suyo iso qr decir q eu ya no hacia mas o traballo pesado do tombadillo o q me daba certas regalias como ua comida milhor aas veces partillaba tbm da mesa de pero vaas llegando a beber co ele uu copo de seu milhor vino


do ocurrido nos dias de marzo MD

supra certos ombres da eqipage da armada eh presiso dar conta aa vossa serenisima majestade pero principalmente aa gente da mia laia pois q estoo cercado de grandes nombres da navegasaum o primero a q mui afeisoee me eh frei gaspar monje franciscano mi confesor ombre culto a pesar da poca edade debe tener por volta de xx xxii anos eh uu dos religiosos preferidos de frei amriq de coimbra tbm franciscano y confesor dicem de d juan ii si no fose a suya intervesaum tbm a mi favor frente aa marinage q o teem em mui boa conta tenia eu virado comida dos monstruu marinos durante algun descuido noturno amtre os capitaaes tengo mui apreso per bertolomeo dias y seo ermaum diogo ambos de mui fama per haber dobrado o cabo da boa spransa amtes das tormentas versado em artes de mathematica y estremonia o intrepido bertolomeo parece traer dentro de si ua solombra q mas cedo o mas tarde leva ele aa morte pelo menos eu asi vejo a ele asi como veo ua gran sombra a pairar supra as cabezas de casi todos ombres da armada mas o q mas me causa apreesaum eh bartolomeo dias ombre digno de see jmitado eh o capitaam sancho de tovar da sota capitanea el rey y digno de pena eh nuno leo da cuña da anunciada visto de vies per toda a eqipage per estar a serviso de banqeros fiorentinos en busca do lucro ad vindo do trafego das espesiarias em bora todos estejaum em busca das riqesas mas ningun admite o meu protetor pero vaas eh hombre mui letrado tem per volta de l anos e participoo da batalla de toro als xxv anos de edade dice ele q fez de mi o seo grumete o q qr decir seg ele uu criado pera servir le o vino novas sobre o capitaam moor he dadas mas tarde q aora frei gaspar estaa a llamar me pera as rresas y as nubes ya encubreem a luna


do ocurrido a bordo

a vida a bordo da nao capitanea debe ser a misma das otras naos cuando o mar estaa calmo come he estado ateh o dia de hoj os viveres saum racionados y a cada marinero compete ua raçaum para a setimana de carne salgada de porco y pexe sardinas e sturjaum biscoutos agua y vino queso uevos allo cibolla uva pasa aas veces uuas frutas princ os figos casi sempre destinados al capitaam al escribaam y al piloto a marinage comprime se no conves aa ora de drumii cada uu a su turno sendo q os milhores logares saum os mas prosimos da proa onde esta se a coberto das vagas so o capitaam moor pedralvares y o escribaam pero vaas disponem de cabinas cada uu co a suya aas veces eh me permitido drumii no chao da cabina de pero vaas meu protetor em uua alcatifa o resto dos ombres acomoda se como milhor poode en acordo co a ordre y hierarqia sendo destinado ao bajo scalaum qr decir als grumetes os peores logares en general prosimos aa popa sin abrigo y al açote intenso das vagas na popa fica tbm o balde no cual os oficiais aliviam as tripas o cual eh prendido en uua corda grosa e eh arrastado per a agoa pera a limpesa aa marinage saum destinadas as asi llamadas jardineras en numero de duas as cuais jardineras encontraum se na proa uua de cada lado y q veem a ser uua taboa co dous buracos a onde sentaum se os ombres para alivar as tripas limpaum se eles co ua grosa corda desfilada en as pontas a cual estaa sempre limpa debido aa agoa do mar mui ombres da tripulasaum estaum ya asados per causo da agoa salgada en el cuu a vexiga alivia se na amurada emcuanto no estaa se traballando os mancebos cantaum supra a tierra as sodades da tierra das cachopas tocando as gaitas al mestre juan apras distraer a marinage co relatos de viaje y a orientasaum pelas estrelas als marineros apras oir a ele cuando no estaum entertidos co juegos de dados os cuais saum prohibidos mas als cuais hace vista grosa desde q os ombres no desentedaum se amtre eles debo decir q hemos gaiteros buenos amtre nos otros os da tripulasaum da san gabriel


do ocurrido als xxi de abril MD terza

a alegria dos marineros he sido mui grande ao avistar se botellos y rabos de asno mas q evidente synaes de terra prosima com cuanto nos otros hemos estado mas de i mez en meo aa agua salgada en desespero a pesar do tempo casi sempre calmo


do ocurrido als xxiii de abril ua qinta

avistoo se terra e eso causoo gran alvoroso amtre os ombres despois de tãta agoa mas de tempo casi sempre boo foi desido entaum uu batee pera ver q jente era aqela na praya de corpo nudo y pardo as prayas saum de mui vegetasaum abundante debo aqi dar parte q eu o grumete fernando seabra fue uu dos primeros a poner uu pies en tierra pois q estaba eu no batee tbm a mando do capitaam moor pero alvares aa mia frente somente nicolao coello esperiente navegador q no pode se entender co as gentes do logar mas o menos uus xx ombres todos nudos y de arcos y frexas aa uu synao de nicolao coello eles dejaram per terra as armas suyas nicolao coello dee a uu de eles a propia carapusa suya a cual he tirado da cabeza propia aa gisa de entendimento deram eles en troca um sombrero de penas de papagayo creo eu e uu cordaum de aljojas menudas nada ni ningun consegia entender a eles e creo q ni eles aa jente permanecemos amtre esa jente ateh perto da noute debo a crecentar q co alguna aprensaum posto q saum ombres mui bien costituidos y q facil hariam de nos otros prisioneros no dia seg alevantoo se uu vento qente prenuucio de temporal o q obrigoo a armada aa buscar abrigo milhor perto de uu rio en uu porto mas seguro


do ocurrido na sesta, dia xxiv de abril

dous desa jente de piel parda foraum trahidos a bordo da nao capitanea so ordre do capitaam moor pedro alvares eraum jentis en jestos e taum jnocemtes q asustaraum se aa vista de uua galiña o capitaam moor tentoo co eles entender se a traves de jestos de balde tentou se tbm falar co eles en latim mas nada ni ninguno poude a eles entender al quedar a tarde cual infantes deitaraum se e drumiraum no conves al q o capitaam moor mandoo a eles cubrir posto q as vergonzas estabaum aa mostra e eso causaba vergonza a nos otros ombres acostumbrados aas vestes a pesar do calor o capitaam trayaba veludo en cuanto a marinage traballava de pecho nudo e pies descalzos debo aqi decir tbm q esa jente das novas terras parece a mi tan atraente cuanto uua busula qedei a admirar a eles por mui tempo o soño calmo y profundo no dia seg foraum levados de volta aa tierra a onde pera mi pasmo estabaum mas de uua multitude de ombres amtre eles iv moças de vergonzas aa mostra as cuais todos os nosos ombres admiravaum se de ollar y a elas no causaba vergonza oo mostrar as propias vergonzas de no poder se despregar os ollos das vergonzas suyas y ni mismo o escribaam pero vaas de camjnha meu protetor o cual asombroo se como a nos otros os da marinage de he sido çaradas uua de elas llamava a atensaum de meos ollos per ser mui bonita de cabelos neros lusidios y longos q deciaum aa espadoas debo aqi decir q voltee contra mi vontad aa nao capitanea per ordre de pero vaas y q mismo al degredado affonso ribeyro no foi permitido o pernoute per ordre do capitaam amtre aqela jente q trove affonso ribeyro de volta aa praya de volta aa nao no he podido drumir co a vista tomada da belesa das jentes da terra nova de piel ora bermeja ora cor de bronço faz esa jente mui gosto en cascavees co as cuais saum fartamente presentados per aqeles q vaum aa terra pera saber do oro y da plata q supoeemse haber mas por a dentro a pesar de eles no usar ni oro ni plata como adorno uus seos principales enfeites saum as penas das aves variadas y desconocidas para nos otros s q somente as dos papagaios conocemos de vaiados tamaños minores y maoores q uua galiña eles teem as penas das aves como ua grande riquesa creo q o seo adorno principal eh uu oso de animal q enfiaum no beço inferior o cual atravesa o beço todo no impedindo eles de falar co desevoltura as mulleres no trahem adornos someente pocas pitturas en uuas partes do corpo e ni en todo ele somente en partes mas mui ombres tenem o corpo todo pittado


do ocurrido als xxvi de abril MD domingo pascoale y seg

o mui chatholico capitaam moor pedro alvares ordenoo q todos os ombres asistaum misa en uu ilheo oficiada per frei amriq supra o achamento de esa terra todos os ombres lah estabaum oindo a plegasaum co devosaum en cuanto a jente da terra follgaba na praya a gente do logar eh amigaveo y a mim parece a visaum do paradiso co as vergonzas aa mostra y sin pecado hacem eles qestaum de ofrecer a nos otros suus bens mas preciosos como penas coloridas de aves conxas mui blancas pedras coloridas y frutas de sapores q jamas teniaum nos otros probado en todo jmitaum a nos otros y algun de nos otros imitaum a eles tbm princ cuanndo hacem asuada o q no eh do agrado do capitaam pedralvares vosa altesa creo eu haria gosto en veer os ombres de vosa marinage co uus corpos tbm pittados de bermejo y prto a folgar amtre esa gente a algunos dos vosos marineros eh concedido pelos capitaams premanecer en tierra amtre eles o q eles no permitem no see pq mas al anoutecer hemos sido levados de volta aa praya y obligados a drumir en nosas naos asy paso os meos dias amtre a jente da terra en compania de otro grumete da nao trindade llamado simeao o hidalgo pero vaas esta a escrepuer ua longa carta destinada al noso serenisimo rey d manuel i a cual ha de seer levada per gaspar de lemos co mandante da naveta supra o capitaam pedro alvares tengo intensaum de escrepuer algo nos dias prosimos posto q a pesar de mui serio y de pocas palabras somente as necesarias eh do meo agrado a ele haa de hacer se justisa por no creer q reste me mas tempo pois mi fuga ya esta planeada yunto co simeao da trindade debo entaum decir q o capitaam moor eh ombre de pricipios todos dependem de ele pois a todos he oido sempre avalia as palabras dos capitaaems suyos co dignidad y interese asi debo acresentar q o honrado capitaam moor desa armada pedro alvares eh digno representante de vosa altesa d manuel i debo aynda aqi decir q peso perdaum pela imprecisaum de alguuas datas a pesar de pero vaas ter a mi dado a honra de seer o responsavel por a marcaçaum do tempo no reloj de arena desa nao o cual encontra se na cabina de ele peso aa vosa altesa q lebe en cõta a poca edade deste seervo suyo o grumete fernando seabra creo q a mestre juan ombre entendido en estrellas hee mas açertada esa atribuisaum do q a moço encantado co as belesas da terra


do ocurrido nos findos dias de abril o no primero dia de mayo MD

foi ergida en sitio determinado por o capitaam ua gran cruz de madera a cual coontoo alem da forza de vosos marineros co a forza dos ombres da terra para seer ergida amtre nosos ombres habia a jente da terra pera asistir a misa desa sesta amtre eles ua unica muller q asi como las otras vistas na praya tbm trahia nuda a vergonza bertolomeo dias ordenoo a u dos marineros q dese uu pano para ela cobrir se o q no foi de valia pois al sentar se a vergonza suya ficaba aa mostra e diso ela no daba cõta debo aqi dar parte a el rey q eu asi como mui otros marineros no he podido tirar os ollos de supra esa muller y da vergonza suya al confesar mi pecado al frei gaspar ese piedoso ombre no mostroo se sorprendido co mi atitude aseverando q a inocensia eh um atributo do paradiso o cual nosotros perdemos y jamas ha de seer conqistado posto q ya hemos nacido co pecado original por qq acontecimento esa gente teem por costumbre cantar ua algarauja mui parecida co as aves a eles parece me no agrada o soo das nosas gaytas asi como o gosto do noso vino o cual cuspem eles logo fora co repuusa eh esa jente de tamaña jnocemsia q a mi apraz viver amtre eles ateh o ultimo de meos dias en esa isla de vera cruz per obra e gracia de noso sñor jesus xto

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O CÃO ENCARNADO OU A CRENÇA ESQUIMÓ


Edson Negromonte

Talvez o leitor mais jovem não compreenda o que irá ler a seguir, quando hoje não existem mais cães vagando pelas ruas; a limpeza pública se encarregou de exterminá-los, após o grande surto de gripe canina, logo depois da aviária e da suína. Eram outros tempos, mais perigosos, porém mais livres, quando grande parte da população canina errava livre pelas ruas das cidades, grandes ou pequenas, até mesmo nos vilarejos. Esse pré-histórico “melhor amigo do homem”, quer dizer, do homem que, como eles, vagabundeia pelas ruas, vivia em sua grande maioria à solta, sobrevivendo dos restos que abundavam no lixo dos restaurantes, lanchonetes e até das casas, rosnando para os ratos. Era um tempo de muitos ratos também, mas nunca se ouviu falar de gripe murina. Com o extermínio dos cães e o consequente aproveitamento ecológico do lixo, os ratos acabaram devorando a si mesmos, desequilibrando ainda mais a cadeia alimentar. Assim, a vida nas ruas perdeu grande parte do encanto natural. Nas casas, também o cachorro foi erradicado; aqueles que teimaram em manter os seus bichinhos de estimação, receberam permissão do Ministério da Saúde, desde que empalhados.

Os cães foram, durante muito tempo, fonte de inspiração para a literatura, música, pintura, as artes em geral. Todos os grandes homens faziam questão de ter entre os seus fiéis amigos, pelo menos um desses vira-latas. Assim, foi com Churchill, Courbet e até Steinbeck, que escreveu “Viajando com Charlie”, o nome do seu parceiro de aventuras: um cão atravessando os Estados Unidos, lado a lado com o grande escritor, numa caminhonete. Whitman, cuja dicção deu origem a toda a poesia do continente americano, também tinha em grande conta o amigo Watch. Sei que é cansativo para o leitor mais jovem essa enumeração das personalidades caninas que passaram à história, portanto vou dar início ao meu relato, mas fique ciente de que poderia citá-los aos montes.

Havia entre os cães da minha rua, um que julguei, segundo a crença esquimó, ser a encarnação do meu avô. Calhou de ele aparecer no bairro justamente sete dias após o sepultamento do pai de meu pai. Logo que me viu, balançou o rabo e eu, se ainda tivesse uma cauda, com certeza a balançaria para ele também, em resposta à saudação. Devo confessar que um estremecimento percorreu minha espinha, até terminar em cócegas no cóccix, esta última lembrança de um tempo em que nós, humanos, tínhamos rabo. Acompanhou-me até o portão, rosnando para as sombras da noite, como se quisesse me proteger. Inicialmente, atribuí a sua companhia a algum odor peculiar, talvez o cheiro de gordura barata impregnada em minhas roupas, pois eu costumava jantar numa dessas cantinas que servem uma boa porção de comida por um valor irrisório, de onde se sai fedendo tão ou mais forte que a cozinheira do lugar. Ao me despedir dele, fiz-lhe um leve afago, o qual ele aceitou de bom grado. Fez, então, menção de comigo entrar. Bati o pé, coisa que ele imediatamente entendeu, afastando-se cabisbaixo.

Na manhã seguinte, ao sair para trabalhar, encontrei-o deitado na calçada em frente. Ao me ver, abanou o rabo como se eu não tivesse sido grosseiro. Acompanhou-me até o ponto. Até onde pude ver, ficou olhando o ônibus se afastar. Ao voltar do trabalho, fiquei surpreso ao encontrá-lo deitado à minha porta, tendo conseguido, de alguma maneira que até hoje não consegui descobrir, ultrapassar o alto muro do quintal. Que remédio! Deixei-o ficar, mas avisei-o de que a comida não era suficiente para dois. Muitas vezes, tenho certeza, fui dormir com mais fome do que ele.

Assim, os dias foram se passando, fomos nos apegando um ao outro, o meu salário melhorou, já não partilhávamos mais a fome. Para ele, somente para ele, no dia de Ano Novo, comprei meio quilo de carne moída. De segunda, é claro; o salário tinha melhorado, mas não tanto. Devorou a carne toda, crua. Como um digno representante da raça, detestava banho. Nada que eu pudesse dele exigir, pois o banho é, para mim também, um hábito repulsivo. Segundo os antigos, banhar-se diariamente amolece o caráter; coisa na qual creio piamente. O nome dele? Pois é, não consegui me decidir, ele era muito especial para que ficasse restrito a uma palavra. Dia após dia, eu me debati sobre como chamá-lo, mas nada era bom o suficiente. E sem nome ele ficou; nos entendíamos bem assim, mesmo porque ele nunca quis saber o meu. Talvez já o soubesse. Quereria permanecer incógnito? Mas o que é um nome se o ser ao nosso lado é um grande companheiro. Dar nomes às coisas é invenção dos homens: um pardal não pergunta ao outro qual o seu nome, onde mora, quanto ganha. A única exigência de meu amigo era que deixasse a televisão ligada quando eu saía e não podia levá-lo. E se eu já era avesso a sair de casa, com essa presença servil fui me apartando cada vez mais, dentro do possível, da convivência humana. Já não ia diariamente ao trabalho, nem desculpas esfarrapadas dava mais, até que fui despedido. Sem dinheiro, fui vendendo os poucos pertences, livros, roupas, alguns objetos de adorno, menos a televisão, a máquina de fazer loucos era agora o nosso único elo de ligação com o mundo exterior. Acabamos sendo despejados, a TV ficou para o locador, como parte do aluguel. Fomos morar debaixo do Viaduto do Chá.

Confesso que, de início, sofri muito com a situação, mas com o tempo acabei me integrando ao mundo da mendicância. Descobri que ainda havia pessoas de bom coração, as velhinhas. Elas, em sua grande maioria, são incapazes de negar um prato de comida, o qual eu dividia sempre com o meu fiel escudeiro canino, já que ele era incapaz de enternecer o coração dessas bondosas senhoras. Devido a minha formação escolar, segundo grau completo, tornei-me o porta-voz dos mendigos de São Paulo. Entre os meus iguais, outros havia com mais estudo, mas incapazes de eloquência, de retórica. À noite, à roda de uma fogueirinha, lia para eles, de Baudelaire, um poema em prosa sobre a necessidade de se espancar mendigos, para risada geral. Depois disso, eles iam dormir tranquilos, de alma lavada. Um dia, instado por alguns políticos corruptos (adjetivo desnecessário?), candidatei-me a vereador, e perdi. Nem mesmo meus colegas de infortúnio votaram em mim. Abalado, decidi não ser líder de mais nada. Dora em diante, seríamos eu e meu cachorro. Foi, então, que lembrei do companheiro de todas as horas.

Onde teria ele ido, durante os meses de campanha? Eu, ingrato, tinha-o abandonado à própria sorte. Procurei por ele em todas as ruas, todos os becos da grande cidade, fui a programas de rádio, e nada, ninguém sabia do seu paradeiro. Foi quando ocorreu o grande massacre de cães, em todo o território nacional. Dos pobres cães, não sobrara um para contar a história. O ar ficou empesteado, com o cheiro de carne queimada, as grandes fogueiras em praça pública.

E você, caro leitor, que teve paciência de ler estas linhas até aqui, deve estar se perguntando por que eu associei a doce figura do cãozinho com a memória do meu avô. Sinceramente, não sei, mas o que tenho como certo é que ele era mesmo a encarnação do velho, o pai de meu pai. É algo tão íntimo que não admito discutir o assunto com ninguém, nem mesmo com a família de esquimós que mora num iglu, feito de pequenas caixas de papelão, ao meu lado, nos baixos do Minhocão, onde resido atualmente. E, veja bem, tenho muita consideração por esses esquimós; eles costumam me oferecer, aos sábados, saborosos nacos de carne de foca.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

QARINA ou A DESCOBERTA DO SEXO



Edson Negromonte

A melhor fase da vida é a adolescência, quando se está predisposto a acreditar em tudo, quando tudo é possível, quando não se adquiriu ainda os malditos preconceitos que tolhem a imaginação, quando a imaginação ainda é terreno fértil para as ideias mais estapafúrdias, porém confortadoras, da alma juvenil, quando a vida nunca é sem graça ou insossa para um garoto destrambelhado, ávido por filmes e quadrinhos de terror e as, assim ditas, revistas masculinas, tudo isso regado a muito rock’n’roll. A história a seguir é baseada, desculpem, em fatos reais. Por favor, não torçam o nariz, eu bem sei quão mentirosa é, quase sempre, essa advertência. Só peço que me seja concedido o beneficio da dúvida, para que, após a leitura, tenham o direito de me chamar de mentiroso e até me difamar nas redes sociais. Você que já está com um pé atrás, o vírus do descrédito instalado no sangue, é melhor mesmo que fique por aí, à margem de um jardim ao qual jamais será admitido. O medo é o pior inimigo da humanidade; ouse dar um passo adiante, rumo à escuridão infinita do desconhecido, mesmo que isso o leve a vagar indefinidamente no espaço sideral. Ainda assim, arrisco-me a pedir disposição aos incréus. Talvez, ao final da leitura, façam como Giuseppe, o meu avô siciliano, um descrente, que quando lhe contavam uma história extraordinária, difícil de engolir, arrematava: “Si non è vero, è ben trovato”.
Foi em uma noite abafada, eu acabara de completar treze anos (os mais velhos, os guardiães da crônica da cidade, lavraram que, nos últimos quarenta anos, não houvera verão mais quente que aquele de 1973), que, no meio da noite, acordei sobressaltado, com alguém acariciando minha cabeça, a testa, entrelaçando sensualmente os dedos entre os meus cabelos compridos, carinhosamente. Fã de filmes escabrosos, eu era, no íntimo, um cagão. Mas devo admitir que, naquele calor infernal, o contato da mão fria era agradável, reconfortante, quase um refrigério. Por mais incrível que possa parecer, não tive medo, aliás, controlei o medo: “Ser corajoso não é não sentir medo, mas enfrentá-lo, Gafanhoto” – um útil ensinamento aprendido com a série de TV “Kung Fu”. Minha mente era mesmo destrambelhada, e eu associei essa carícia à mão agora esquelética da mãe que não tive. Não quero com isso dizer que eu seja filho de chocadeira: minha mãe morreu no parto, deixando-me órfão desde o primeiro momento de vida. No meio do breu reinante no quarto, eu sentia a presença de alguém, de algo que, apesar de tudo, me fazia bem. Bem podia ser mesmo a minha mãezinha que voltara do mundo dos mortos para me confortar. Ou para me buscar? Sempre quis ter mãe, alguém a quem eu pudesse contar os meus segredos, alguém que me compreendesse, que me desse colo. E vocês hão de convir que de mãe não se deve, não se pode ter medo, mesmo que ela já esteja morta e enterrada, bem enterrada. Enquanto eu desfrutava desse enlevo, o calor voltou a reinar no quarto e a presença angélica se evaporara. No dia seguinte, não contei nada a ninguém. Nem à empregada, nem ao meu pai, muito menos aos amigos. Sempre fui caladão assim, ensimesmado, é o meu jeito. E quem partilharia uma sensação tão íntima, sob o risco de ouvir pilhérias? Se havia algo que me deixava enfezado era o pouco caso que sequer pudessem fazer das minhas histórias, na maioria das vezes, concordo, mirabolantes. Pode-se dizer até rocambolescas. Sim, eu já tinha lido Ponson Du Terrail. Perambulando pelas ruas da cidade, bastava fechar os olhos para sentir de novo a mão diáfana em minha fronte; de bem comigo mesmo, deliciava-me. Era como se aquele ser de substância vaga, feito da matéria dos contos de fada, fosse a melhor parte de mim; eu nunca tinha sido alvo de um gesto feminino tão prazeroso.
À noite, inquieto, me recolhi mais cedo do que o costume, não fiquei na roda de amigos, jogando conversa fora, na esquina da praça Coronel Macedo. Deitei-me, ansioso, à espera de um novo contato. Aquilo me fizera bem, aquecera a orfandade do meu coração. Passei a noite em claro e nada, somente o calor insuportável que os ventiladores não conseguiam amenizar. Levantei-me da cama, frustrado. Tomei o café da manhã e fui bater perna. Nada conseguia atrair minha atenção por muito tempo, nem o jogo de bilhar, nem o bamboleio dos quadris das garotas da Escola Normal, nem o papo furado dos bêbados no mercado, com os quais eu aprendia muito mais sobre a vida do que nos maçantes livros escolares. Angustiado, eu não via a hora de escurecer, para me encerrar em meu quarto, à espera de uma nova visitação. Sentado na poltrona, olhos fechados, revivi toda a sensação daquela noite, repetidas vezes, até que meu corpo se cansou e eu caí em sono profundo, um sono sem sonhos. Dormi feito uma pedra; despertei com a claridade da manhã entrando pela janela; eu não lembrava de tê-la aberto. O sol, surgindo por trás das montanhas, como uma bola de fogo, prometia mais um dia sufocante.
Na vida de um garoto inquieto, como eu era, os acontecimentos se atropelam de tal forma, a vida é tão dinâmica, que quase o fazem esquecer do ocorrido há poucos dias atrás, mesmo que esse acontecimento revista-se dos prodígios do maravilhoso. Assim, voltei ao bilhar, abismando os sapos com meu taco infalível, eu era então capaz de lances mirabolantes. Rocambolescos? Talvez, talvez. Voltei tarde para casa, ninguém ligava muito para mim mesmo (ai, que falta faz uma mãe!), eu não tinha que dar satisfação a ninguém dos meus horários: meu pai, sempre envolvido com a contabilidade da fábrica de conservas, e Maria deitava cedo, cansada das tarefas domésticas. No dia seguinte, ela perguntaria, mecanicamente, por onde eu tinha andado, contentando-se com qualquer resposta evasiva. Perguntava somente por perguntar, como fazem todas as mulheres (menos as mães), pouco se importando com a resposta. Para ela, a casa em ordem era o mais importante; ela bem que tentava, a seu modo, fazer as vezes da minha mãe, mas como não tivera filhos, não sabia lidar com as minhas casmurrices. Maria era algo entre empregada doméstica, governanta e membro da família, e tudo o que essa posição indefinida pudesse acarretar e significar. Ela estava com a família desde tempos imemoriais, viera morar conosco, emprestada por minha avó, que dizia não se lembrar mais quando Maria Leocádia pusera os pés em sua casa.
À noite, foi impossível sair de casa, caía um aguaceiro de dar inveja a Noé. Sem medo de ser exagerado, podia-se dizer que era uma noite bíblica, com todas as lembranças do dilúvio vindo à tona. Depois de faltar a luz, fui deitar, era o melhor, a única coisa que se podia fazer. Nem bem adormeci, senti novamente a carícia da mão fria em meus cabelos. Tentei acordar, abrir os olhos, mas foi inútil, meus músculos se recusaram a obedecer, numa espécie de hiato entre a vigília e o sono. Ou entre o sonho e o pesadelo, a onirodinia, um sonâmbulo que, apesar do esforço, não conseguisse se mover. A mão tocou-me, então, delicadamente o peito, afundando-se gélida ao encontro do coração. Não podia ser minha mãe rediviva, já agora eu tinha certeza disso: pois, senti, logo em seguida, a mão da entidade tocar delicadamente o meu sexo. Agora, a mão estava morna, de uma mornidão gostosa e agradável aos sentidos. Não, não era a minha mãe. Então, a criatura deitou-se sobre mim, aconchegando-se, roçando os seios em meu corpo, meu peito, na minha boca. Quando percebi, a cabeça em redemoinho, eu estava dentro dela, dentro da criatura. Não, definitivamente, não era a minha mãe! A vulva dela era quente, uma quentura que eu nunca antes provara, molhada. Num jorro de leite seminal, inundei-a. No dia seguinte, sentia-me cabreiro, embora feliz, o apetite carnal satisfeito. Nada melhor, para um adolescente, que a gratificação da carne, evita muitos males da cabeça, como a obsessão pelo sexo, evita de ver sexo em tudo, porque sexo é que nem coceira, uma vez coçada desaparece. Isso é o que dizem, pode até ser, mas comigo não foi assim. Eu conheci, um eufemismo bíblico, a criatura durante uma semana, todas as noites, sem lhe ver a face. Sabia somente que ela tinha asas, pressenti-as. Asas enormes, macias, que me envolviam num abraço; um casulo larval. Por momentos, temi que ela fosse um anjo, medo de estar transando com um desses seres virtuosos (isso deve ser pecado!), mas anjos não têm sexo, conforme aprendi nas aulas de catecismo, e isso era já um consolo. Depois do gozo, ela, a criatura alada, imediatamente desaparecia. E eu ficava ouvindo, lá fora, o clamor das asas gigantescas, distanciando-se. Que ela era um ser áleo, já não havia a menor dúvida. E que fosse uma fêmea (e que fêmea!), era um fato.
Fazer sexo todas as noites, durante toda a semana, não me enfraquecia. Em vez disso, eu ficava, a cada dia, mais disposto, mais satisfeito com a vida, a mente mais clara, mais confiante (a droga da felicidade!), tanto que me tornei naturalmente o líder da turma, atirando-me de cabeça do trapiche, sem temer as estacas no fundo, remanescentes de um antigo ancoradouro; uma façanha. Na escola, minhas notas melhoraram sensivelmente, passei a ser elogiado pelos professores, passei a atrair os olhares das meninas, as quais eu achava tão infantis, tratando-as sem nenhuma condescendência, como um legítimo ídolo do rock. Eu era outro, minha personalidade mudara. Mas nada disso me afetava diretamente, era como se não fosse eu, era uma máscara social, era outro aquele que recebia os cumprimentos da diretora, a medalha pelo melhor desenho do colégio, os votos de um belo futuro, essas patacoadas que todos os jovens que se sobressaem em alguma atividade estão fadados a ouvir. Mas o que, na verdade, acontecia comigo? De repente, de um dia para outro, eu passei a compreender várias línguas, conseguia entender o que os marinheiros conversavam entre si, não só os americanos e os franceses, mas os dinamarqueses, os noruegueses, os islandeses, até mesmo a algaravia de um taifeiro javanês. Devo confessar que tudo isso deixava-me assustado, ao mesmo tempo que me envaidecia. Então, por que eu me preocuparia com essa fatuidade, se “vaidade das vaidades, tudo é vaidade, como bem diz Salomão, no “Eclesiastes”?
Meu idílio com a criatura ia cada vez melhor, a testosterona a mil. Diferente do começo, quando ela chegava e ia logo me possuindo, com o tempo, apesar do prazer que ela me dava, eu comecei a me sentir um objeto em suas mãos, um escravo sexual, condição inicialmente nada incômoda. Mas eu queria mais. Assim, como um casal que se ama, depois do ato sexual, passamos a conversar; o seu tom de voz era delicado, ciciante, sussurrava em meus ouvidos palavras ininteligíveis, porém perceptivelmente doces. Agora, depois de me esgotar, ela deitava-se ao meu lado e comigo dormia até um pouco antes da aurora, quando fugia de mim, como uma Cinderela das trevas. Uma madrugada, recostada em meu peito, sem que eu perguntasse, ela disse-me seu nome. Qarina, a doce, a minha doce Qarina! Passou-se, assim, em arroubos noturnos, um mês, dois, três, desde o nosso primeiro encontro. Sim, estávamos apaixonados. Eu, da minha parte, garanto que sim, ela era o motivo da minha existência, da minha nova vida. E acho que ela também tinha por mim o mesmo sentimento. Uma manhã, de banho tomado, desci para o café, quando Maria, olhando em minha direção, de olhos mais que arregalados, esbugalhados, fez o sinal da cruz.
– Ai, menino, que tô veno um encosto do teu lado. E parece uma muié! Valei-me, meu bom Jesus de Iguape! São João, Xangô menino! – exclamou a pobre mulher, desesperada, fazendo novamente o pelo sinal.
(À luz do dia, eu não conseguia ver Qarina, mas percebia a sua presença ao meu lado. À noite, mesmo com todas as luzes apagadas, sua imagem era nítida, como nítida será sempre a luminosidade da carne amada. E ela era linda! Muito mais linda do que qualquer artista renascentista seria capaz de representar). E Maria continuava a se persignar. Nervosa, balbuciou que eu fosse ver o padre Patrick. Dei-lhe um beijo em cada face, dizendo que estava tudo bem, procurando acalmá-la. Ao voltar para casa, Maria, ainda ressabiada, mas sem fazer escândalo, provavelmente não estivesse vendo mais ninguém ao meu lado, disse-me que o padre ordenara que eu fosse vê-lo na manhã do dia seguinte, impreterivelmente, no confessionário. Com certeza, Maria telefonara para ele, contando o que vira. Como discutir uma ordem do padre Patrick? Era um burro de um homem, um irlandês muito alto, curvado, da cabeça quadrada, ciclópico, sanguíneo, de manoplas disformes que mais pareciam duas raquetes de tênis. Não havia como escapar, ele iria me buscar em casa e, se necessário, me arrastaria pelas pernas até a igreja. Padre Patrick era uma autoridade em exorcismo, como todos os padres irlandeses. Sendo amigo da família, e com meu pai sempre ausente, achava-se no direito de dar palpites na minha educação, com o aval de Maria. Não entendo por que Maria, uma negra velha, sensitiva, descendente de africanos, não apelou aos seus orixás, em vez de chamar pelo padre. Nada mais óbvio que eu, aos treze anos, o temesse. A saudação do velho cura era um tapaço na cabeça dos meninos, um cachação, o que, de cara, deixava-nos submissos e propensos a aceitar as suas palavras como lei divina. Ao cruzar o pórtico da igreja, senti vontade de sair correndo dali, fugir daqueles santos gigantescos, de gesso, olhando-me do alto, reprovadores, desdenhosos. Antes que pudesse dar meia-volta, padre Patrick chamou-me, com sua voz de trovão, indicando o confessionário, com o dedo em riste. Sem delongas, foi logo perguntando:
– Tem se masturbado muito?
– Eu não!
– Tá doente?
– Não...
– Então, o que tá fazendo aqui?
– Não sei, a Maria disse que o senhor queria me ver...
– É mesmo! Ela disse que viu uma mulher do seu lado. Tem estado com rameiras ultimamente? Sabe que essas mulheres são almas pegajosas que grudam feito sanguessugas espirituais no corpo dos homens? Dos meninos de treze anos, principalmente! Venha comigo!
Na saleta ao lado, o padre, sem mais nem menos, me aspergiu com água benta, à espera de alguma manifestação, mas nada, nem uma fumacinha saiu do meu corpo. Intrigado, padre Patrick olhou-me bem dentro dos olhos.
– Tem usado drogas?
– Não!
– Nem o xarope Romilar? Eu consigo ver a lubricidade nos seus olhos. Tem tido poluções noturnas?
– O quê?
– Sonhos eróticos, sua besta!
– Não...
– Não minta! Deixe-me examinar seus olhos.
Com polegares colossais, arregaçou minhas pálpebras, como se elas estivessem escondendo a verdade dos séculos ou toda a areia do Saara.
– Humpf, venha comigo!
Por uma porta lateral, passamos à pequena biblioteca da casa paroquial. Na entrada, no alto, estava pintado, em vermelho escarlate: LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH' ENTRATE.
– Sabe o que quer dizer isso? “Deixai toda a esperança, vós que aqui entrais”. É Dante, canto terceiro do “Inferno”.
Mandou que me sentasse em uma cadeira à sua frente. “Então, é aqui, nesta sala, que ele faz os exorcismos?” – pensei.
– Você já ouviu falar em demônios noturnos, incubus e succubus?
– Não...
– Não minta para mim, seu cachorro depravado!
Baixei a cabeça. Como discordar daquela voz autoritária, tonitruante? Sim, eu sabia o que eram os ditos demônios, lera sobre eles, lera o conto de Balzac sobre o succubus da Rue Chaude.
– Tire a camiseta! O que são essas marcas vermelhas nas suas costas? Esses arranhões profundos, essas lacerações que parecem ter sido feitas por unhas de mulher. Você tem ido à zona? Tem estado com mulher da vida?
– Não.
– E o que me diz, então, dessas marcas?
– Se eu pudesse ver, mas não tenho olhos nas costas...
– Seu filho de uma puta, tá zombando de mim? – vociferou, dando-me um cascudo que jogou-me no chão, onde fiquei sem vontade nenhuma de abrir os olhos.
Quando voltei à vida, padre Patrick estava de costas para mim, procurando um livro na biblioteca. Pegou um pequeno volume e começou a folheá-lo, como se eu não estivesse ali. Não sei precisar quanto tempo se passou, enquanto eu buscava o equilíbrio, alternando-me entre borbulhas de luz e a escuridão absoluta. Talvez uma eternidade, ou alguns minutos.
– Já ouviu falar no padre Sinistrari? Lógico que não! Este vade-mécum sobre os demônios foi escrito por ele, para orientar os inquisidores. Responda à minha pergunta somente com “sim” ou “não”. Você andou sonhando que fodia durante o sono e, quando acordava, não tinha nenhum vestígio de langonha no seu lençol?
Balancei a cabeça, afirmativamente.
– Eu disse para responder “sim” ou “não”!
– Si-sim – balbuciei.
– Assim está melhor, admitir o pecado já é um grande passo.
– Grande passo para quê? – me atrevi.
– Cale a boca, seu pervertido! Só abra a boca quando eu autorizar – e voltou a folhear o livreto. Como as horas se arrastam dentro de uma igreja... Quando eu começava a brigar com o sono, cabeceando de maneira incontrolável, ele perguntou-me, a sua carantonha quase encostando na minha cara, o bafo quente, o mau hálito: – Faz tempo que isso vem acontecendo?
– Uns dois, três meses, talvez quatro...
– E só agora eu fico sabendo disso? Tem alguma vizinha sua grávida?
– Que eu saiba não.
– Você deve estar se perguntando por que fiz essa pergunta. Então, eu vou lhe contar o que está acontecendo com você. Esse tempo todo, seu idiota, você tá trepando com um demônio em forma de mulher, um succubus. Ele coleta o seu sêmen na vagina e vai copular, em forma de incubus, com as mulheres da vizinhança, fertilizando-as com o esperma que coletou de você, porque ele, o incubus, é incapaz de produzir sêmen.
“Ah, então, eles são bissexuais, como Alice Cooper” – conjeturei com os meus botões.
– Eles são estéreis. Você está sendo usado, a sua porra está sendo usada para criar uma raça de homens fracos, fáceis de serem controlados pelas forças do mal. O succubus, a contraparte feminina desses demônios, toma a forma que bem entende, de acordo com as suas fantasias. Diga-me, você sonhou que estava metendo com outras mulheres, além do succubus, mulheres que você deseja? Seja sincero, não tenha vergonha de contar para mim, eu sou seu confessor e, além do mais, somos amigos. Ou não somos?
Balancei a cabeça vigorosamente, assentindo.
– Eu sonhei que tava com a Dina Sfat, usando somente uma anágua branca, de algodão, como eu vi na Playboy; sonhei com a Julie Newmar, vestida de Mulher-Gato, e que ela dizia para mim, na hora do gozo: “purrfect!”; sonhei com a Betty Page, os pentelhos negros, os michelins rosados dos mamilos, os seios arredondados; em Karen Carpenter, fiz um cunnilingus,que a deixou extasiada; com Lorna, a rainha da selva, foi muito estranho, ela era bidimensional, sem volume; ah, a suavidade da pele de pêssego da Rita Lee; com Jane Birkin tinha até trilha sonora, eu sentia suas costelas em minhas mãos, todas as suas delicadas vértebras; Karen Black, Allyson Ames, Grace Slick...
– Chega, chega, já é o bastante! Tudo indica que é mesmo um caso de possessão demoníaca. Acontece que esse succubus apaixonou-se por você. Os succubi são submissos, diferentemente da sua mãe Lilith, a primeira mulher de Adão. Segundo a tradição, os succubi não costumam se apaixonar, mas às vezes acontece, como estamos percebendo aqui. Você tem sentido cansaço depois de trepar noite após noite nesses quatro meses?
– Não, eu tenho me sentido é muito bem, melhor do que nunca me senti antes, bem disposto...
– É isso mesmo, é assim que a coisa funciona quando há paixão entre o homem e um desses demônios! – gritou padre Patrick, exaltado, esmurrando o ar. – Precisamos dar um jeito nisso!
Como “dar um jeito nisso”? Eu não tinha pedido a ajuda de ninguém, a minha vida estava perfeita, eu era o queridinho da escola, tinha uma mulher que me amava, experiente, que me ensinava coisas do arco-da-velha, que, compreensiva, tomava a forma dos meus desejos... Por que as pessoas têm que se intrometer na vida dos outros, onde não são chamadas, dizendo-lhes o que é certo ou errado?
– Padre, tem gente aí, querendo falar com o senhor! – veio avisar a irmã Vincenza.
Quando fiquei só na biblioteca, aproveitei para dar uma olhada no tal livro que o padre asseverava ser o vade-mécum dos demônios. Ficaram gravados em minha memória fotográfica os dizeres da folha de rosto: DEMONIALITY OR INCUBI AND SUCCUBI A TREATISE WHERE IS SHOWN THAT THERE ARE IN EXISTENCE ON EARTH RATIONAL CREATURES BESIDES MAN, ENDOWED LIKE HIM WITH A BODY AND A SOUL, THAT ARE BORN AND DIE LIKE HIM, REDEEMED BY OUR LORD JESUS-CHRIST, AND CAPABLE OF RECEIVING SALVATION OR DAMNATION, BY THE REV. FATHER SINISTRARI OF AMENO (17th CENTURY) PUBLISHED FROM THE ORIGINAL LATIN MANUSCRIPT DISCOVERED IN LONDON IN THE YEAR 1872, AND TRANSLATED INTO FRENCH BY ISIDORE LISEUX NOW FIRST TRANSLATED INTO ENGLISH WITH THE LATIN TEXT PARIS ISIDORE LISEUX, 2 RUE BONAPARTE PARIS. Acho que era isso mesmo, se a minha memória fotográfica não estiver me pregando uma peça.
Quando o padre voltou, olhou com desconfiança para a posição em que eu tinha deixado o livro e, em seguida, para mim, com seus olhos azuis que mais pareciam duas bolas de gude dos inferno.
– Você mexeu aqui?
– Não, senhor!
– Você é um baita de um mentiroso! Sabe que se fosse no tempo da Santa Inquisição, você seria queimado vivo? – rosnou.
Achei por bem baixar a cabeça porque o grande filho de uma cadela era bem capaz de me virar do avesso, com outro safanão.
– Conte-me sobre os seios da criatura!
– Eram perfumados, enchiam e refluíam, conforme os movimentos do seu corpo, isso quando ela vinha por cima de mim. Somente quando ela vinha na forma de Jane Birkin, eram pequenos, como são os peitinhos da cantora.
Por um momento, ciumento, achei que padre Patrick estava muito interessado no meu relato, além da conta, fazendo perguntas muito estranhas. Percebi a excitação no ar. Sabe como são esses padres, excitam-se com o pecado dos outros.
– E a xandanga dela é dentada? É mesmo uma caverna de gelo? Não quero saber, não quero saber, deixa isso pra lá! O succubus veio, alguma vez, na forma de vaca ou de égua?
– Não, nunca!
– Ah, bom! Isso quer dizer que você não praticou bestialismo, o que é um pecado muito grave perante os olhos do Senhor. Pelo menos, essa nódoa você não carrega em sua alma transviada, apesar de ter mantido intercurso com o Demônio.
– Com o Demo não, senhor!
– Cale a boca!
– Mas, senhor...
– Quer sentir novamente o peso da mão do servo de Deus? Os santos padres da Igreja – continuou, falando consigo mesmo, ignorando-me – se debruçaram sobre o assunto, gente do quilate de Santo Agostinho e São Tomás. Constataram eles que isso vem desde tempos imemoriais. Já o Livro de Enoch faz menção aos Vigilantes, os quais são anjos transformados em seres de pedra, que vêm a ser hoje as pedras colossais que vemos à beira-mar, por copularem com a fêmea do homem. Há o relato de Santo Agostinho, que diz não duvidar da existência dessas criaturas demoníacas, devido à quantidade de casos contados por pessoas idôneas; e isto está em seu livro “A Cidade de Deus”. O exorcismo seria incapaz de livrá-lo dessa obsessão, meu pequeno apóstata, pois essas criaturas, esses demônios sexuais, são imunes ao exorcismo, posto que não são o Demônio em pessoa, mas frutos da relação entre mulheres e anjos decaídos. Portanto, em suas veias corre sangue humano, o que impossibilita a esconjuração. Talvez ainda haja salvação para você, levando-se em conta que até o papa Silvestre II envolveu-se com um succubus, que lhe deu uma filha, Meridiana... Você está me escutando? – berrou padre Patrick, raivoso.
– Sim, senhor – respondi prontamente, apesar da sonolência mórbida que ia tomando conta de mim, provocada pela fala monótona do irlandês cabeçudo. Que cabeçorra tinha o homem, devia ser a encarnação do gigante Finn! Deve ter rasgado a mãe...
– Lilith, a primeira mulher de Adão não quis se submeter ao marido e foi obrigada pelo Senhor a vagar pela terra, à margem do Éden. E ela deitou-se com os anjos rebeldes, deitou-se com o arcanjo Samael, dando origem a uma raça de incubi e succubi. A palavra succubus significa originalmente “prostituta”... Os filhos dessa maldita conjunção são chamados de “cambions”, crianças de excelente saúde, mas sujeitas a influências sobrenaturais...
Enquanto o padre divagava, gritando, sussurrando, lembrei-me do disco “Electric Ladyland”, do Jimi Hendrix, com aquele monte de mulheres na capa, as putas elétricas, que bem podiam ser succubi. O negão sabia das coisas, talvez por isso o nome da primeira música seja “And the Gods Made Love”.
– O filósofo Diógenes Laércio, com o qual concorda São Jerônimo, um dos doutores da Igreja, diz ter sido Platão, o grande filósofo, fruto do relacionamento de um incubus com uma mulher. Também Alexandre, o Grande, como informam Plutarco e Quinto Cúrcio Rufo. E Cipião Africano, o Velho, era ele, da mesma forma, fruto de um intercurso pecaminoso, segundo Titus Livius Patavinus...
“Eu é que não tô entendendo patavina nenhuma” – pensei. ”Aonde esse padre quer chegar?”
– Além do mago Merlin, nascido da relação de um incubus com uma freira, a filha de Carlos Magno.
– Então, eu estou em boa companhia! – exclamei, num impulso. Eu e minha língua grande! Foi o que bastou para que levasse um pé de ouvido que me deixou todo zoado, os tímpanos zunindo. Agora é que eu não conseguiria entender mais nada.
– Há algum caso na família, um antepassado seu que tenha se deitado com um desses seres?
– O quê? – perguntei, em meio a um zumbido infernal, sentindo o maxilar, a cabeça, tudo dolorido, impaciente, querendo fugir dali, de tudo aquilo que estava me fazendo tanto mal. Nunca tinha apanhado tanto na vida. Mas como calar aquela matraca celta?
– Pergunto isso porque uma maldição desse quilate estende-se até a quarta geração. Se você foi o primeiro da sua família a praticar ato tão ignóbil, muita coisa ainda há de vir por aí, seu degenerado!
– Ahn?
Vendo que eu estava evidentemente fora de eixo, o padre mandou-me para casa, não sem antes avisar que eu deveria colher o mênstruo de uma virgem, o qual seria misturado com as cinzas do coração de um peixe, para fazer um amuleto que me livraria da obsessão. Muito engraçado! Que mulher, em sã consciência, se submeteria a me ceder sangue menstrual? E como eu pediria algo assim a alguém sem levantar suspeita sobre a minha sanidade mental? Aí, sim, eu me tornaria maldito de vez, mal falado para o resto da vida, condenado até a minha décima geração.
À noite, enraivecido, humilhado, a cabeça doendo, o maxilar rangendo, deitei-me. Mal embarcara no sono, ouvi o som característico das asas de Qarina, ruflando majestosa lá fora. Pela janela aberta, ela adentrou a nossa alcova e, aconchegando-se em meu peito, como uma menininha indefesa, sussurrou:
– Esta vai ser a nossa última noite, eles me matarão amanhã.
– Eles quem?
– Não importa, é melhor que você não saiba, meu amado, o meu erro foi me apaixonar... por você. E a paixão é um sentimento proibido para os demônios sexuais, como vocês, humanos, nos chamam. Então, me possua, faça amor comigo pela última vez!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O MISTÉRIO DE SABINE FUHRMAN

Edson Negromonte

Eu era um garimpador de livros,, aliás, ainda sou, mas não com a avidez de anos atrás. Não ia em busca de livros raros, caríssimos, de preços exorbitantes, esses que aguçam a cobiça dos bibliófilos. A minha busca era, pode-se dizer, singela, de valor apenas para mim mesmo, algo muito pessoal, íntimo, algo relacionado com a alma. Assim, tornei-me o provisório possuidor, posto que tudo na terra é de caráter temporário e nada nos pertence, da primeira edição de “O Rei Menos o Reino”, de Augusto de Campos, de 1951, pela Maldoror, que estampa incorretamente na capa “Edições Maldonor”, o que me leva a deduzir que o então jovem poeta ainda não fosse tão criterioso (como deixaria ele passar essa falha terrível justamente na capa do seu livrinho de estreia?); o primoroso “An Emerson Treasury”, em edição de bolso, com capa de couro macio, de pelica, sem data, publicado pela Siegle, Hill & Co., de Londres; de um Affonso Ávila, perdido em meio à poeira de um sebo paulistano, “O Açude e Sonetos da Descoberta”, de junho de 1953, cuja folha de rosto traz a dedicatória manuscrita do autor para o poeta Edgard Braga, outro dos meus eleitos, datada de setembro de 1953, rabiscados os nomes dos dois poetas, na vã tentativa de esconder seus nomes, mas ainda legíveis ou talvez por causa disso mesmo mais legíveis, pois aquilo que tentamos ocultar torna-se mais e mais evidente, aguçando a curiosidade (ao pé da página o endereço: rua Carangola, 225, que vinha a ser o mesmo endereço da revista Vocação; um exemplar esbagaçado, capa e lombada coladas com papel pardo, de “O Duplo Assassínio da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, cujo subtítulo é “Novellas de aventuras estraordinarias e fantásticas” (na folha de rosto, uma divertida advertência dos editores: “Leitura pouco recomendável às pessoas de espírito fraco, meninas hystericas, jovens acephalos, velhos cardíacos, matronas beatas e outras que creem em almas do outro mundo e cousas inverosímeis”). Esta preciosidade de 1925 é da Empresa Editora Rochér, de São Paulo. Deve ser assinalado que o volume ainda contém os contos “A carta roubada”, “O systema do Dr. Breu e do professor Penna”, “O gato preto”, “Colloquio entre Monos e Uma” e “Hop-Frog”.
Em meados dos anos 1980, eu frequentava um sebo no alto do prédio da sinagoga, situado em uma rua paralela à Avenida Paulista, da qual não lembro mais o nome, à procura dos tesouros que aquelas estantes empoeiradas ocultariam. Várias tardes, permaneci ali, no “sebo dos judeus”, como era conhecido, embriagado com os títulos que aquele espaço abrigava: livros em português, inglês, mas a grande maioria em alemão e, mistério dos mistérios, vários e vários volumes em indecifrável e esfíngico iídiche. Que prazer abrir as páginas, acariciar as capas, admirar a encadernação, o cuidado gráfico, as unciais, a sensação táctil dos grandes poetas: Schiller e Rilke e Heine e Christian Morgenstern. As duas velhinhas que ali atendiam, absortas em suas infalíveis toalhinhas de crochê, deixavam-me à vontade para escarafunchar cada desvão perdido daquela sala enorme e comungar com os antigos donos, com a trama dos seus dramas, tanto coletivos quanto domésticos. Em uma dessas ocasiões, deparei com a obra completa de Goethe, em 36 volumes, no alto de uma das estantes. Toda em alemão! Embora eu não soubesse lhufas de alemão, como até hoje não sei (Ariano Suassuna, numa das suas brilhantes tiradas, conta que se tivesse nascido na Alemanha, seria mudo, devido à dificuldade da língua). Isso não foi empecilho para adquiri-la. Saí do sebo, em direção à estação do metrô, arrastando uma mala que as duas senhoras obsequiosamente me emprestaram, a qual continha o cadáver esquartejado em exatas trinta e seis partes do corpo poético e filosófico do grande poeta alemão, o maior entre os maiores. Johann Wolfgang von Goethe. Não estaria ali também o corpo, não o físico, mas o espiritual, o corpo essencial, do antigo proprietário?
A primeira coisa que fiz, ao chegar em casa, à noite, tarde da noite, foi cheirar, tal e qual um psicopata, absorvendo delirante, sensualmente, o odor fresco do sangue da vítima, o corpus espostejado, membro a membro, posta a posta, aliás, tomo a tomo, enquanto enfileirava gozoso a coleção na principal prateleira da sala de estar: viagens, romances, botânica, teatro, a sua muito pessoal teoria das cores... Em seguida, a acariciei como se acaricia uma mulher, a mulher amada, amorosamente, com cuidado, ternura, de leve para não ofendê-la, sem tocar de imediato nos seios, os cabelos, o perfume dos pelos da nuca, os braços, até que ela, então, delicadamente, sussurrante, ciciando, sibilante, peça chorosa que você a possua. Assim são as mulheres, assim são os livros: sem afoitezas que o tempo é invenção e predicado dos verdadeiros amantes.
Enquanto folheava o “Gedichte” (Poesia), aspirando embriagado o odor de papel velho, em tons de amarelo e ocre, os pontos de ferrugem, página a página, voluptuosamente, os caracteres góticos, inadvertidamente o volume abre as pernas, convidativo. As coxas fogosas deixam entrever o seu pequeno segredo clitoridiano, há tempos guardado, resguardado dos olhos do vulgo: o cartão de bonde pertencente a Sabine Fuhrmann; a foto da adolescente grampeada no documento. Seria a minha “garota de Berlim”, como eu a apelidei, a antiga dona dos trinta e seis pedaços do corpus de Goethe? Teria Sabine Fuhrmann trazido a coleção consigo, fugitiva da bestialidade nazista? Ou a teria comprado em alguma importadora aqui no Brasil, e usara como marcador de página o seu cartão de bonde? Em meio a essas divagações, preparei uma dose de uísque, duas pedras de gelo, acendi um cigarro e me pus a sondar, em conjecturas, a foto agora amarelecida, em tons de sépia, quase apagada, da menina de vestido branco.
Assim, Sabine Fuhrmann aparecia-me ora embarcando no bonde para ir à aula, de uniforme escolar, saia pregueada, os cabelos escuros presos num rabo de cavalo, ora embarcando clandestinamente com seus pais num cargueiro rumo à América do Sul, com escala em Buenos Aires, onde muitos dos seus conterrâneos desceram para uma nova vida, distante da guerra. Ela não, para a minha Sabine Fuhrmann, para os pais da garota de Berlim, o destino era, desde a partida, o Brasil, onde se dizia que a comida era abundante, principalmente as frutas de que ela tanto gostava. Aqui, as bananas, que custavam uma pequena fortuna na Europa, não eram artigo de luxo. Aqui, podia-se comprá-las em cacho, aos montes, por uma ninharia, como ela ouvira contar. Munido de óculos, lupa e de um dicionário alemão-português, investiguei o que restava dos caracteres quase apagados do gasto documento, o cartão do bonde, de papel pardo, as bordas vermelhas. Em evidência, o número 24549, o nome de Sabine Fuhrmann escrito à tinta, em letras maiúsculas, e o seu endereço: Spichernstrasse, 17. Ao lado, a idade: 15 anos. Ao pé do cartão, uma foto retangular (estreita, evidentemente recortada de uma foto maior, onde talvez ela não estivesse só, mas com um grupo de outras pessoas. Pais? Irmãos? Amigas?), perfurada com as letras BSt. Qual o significado de BSt? A sigla da companhia de bondes? Berliner Strassenbahn? Talvez, talvez. No verso, em vermelho, o carimbo de validade, borrado, identificando-se somente o ano: 1924. Ou 1929? Então, se viva, segundo as minhas contas, Sabine Fuhrmann teria hoje 95 anos. Ou 100? Com o avanço da medicina, que hoje prolonga a vida dos seres humanos, principalmente a das mulheres, a idades anteriormente inimagináveis, é bem possível que ela, a garota de Berlim, possa estar, neste instante, a rememorar para netos ou bisnetos a viagem de navio que fez da Alemanha ao Brasil.
Foi justamente por ter ouvido a notícia que a professora Simoni Dias defende em livro a teoria de que o líder nazista Adolf Hitler, ao invés de ter cometido suicídio, teria também fugido para o Brasil, estabelecendo-se na cidade de Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia, que saí à procura, entre os meus guardados, do cartão de bonde de Sabine Fuhrmann. Foi aqui, também, que o médico nazista Josef Mengele, o “anjo da morte” de Auschwitz, que fazia experiências genéticas com seres humanos vivos, especialmente anões e gêmeos, morreu afogado na praia de Bertioga, no litoral de São Paulo. Não foi aqui, no Brasil, antes da eclosão da Segunda Grande Guerra, que funcionou o segundo maior partido nazista do mundo? Não foi o presidente Getúlio Vargas que entregou a Adolf Hitler, sem que ele houvesse pedido, como prova de simpatia pela causa nazista, a judia Olga Gutmann Benário, a esposa alemã do líder comunista Luiz Carlos Prestes, para apodrecer em um campo de concentração?
Espere um pouco! Se a Segunda Guerra teve início em 1939, como afirmam os historiadores (eu, particularmente, acredito que a assim chamada Segunda Guerra Mundial é a continuação da Primeira, a qual ainda não acabara realmente), então, Sabine Fuhrmann, ao vir para o Brasil, já tinha pelo menos 20 anos. Ou 25... Ou trinta e poucos. Então, ela bem podia ter aqui chegado, acompanhada pelo marido. Talvez até com filhos. E que o seu cartão do bonde era, para ela, um documento obsoleto, já com outra serventia, a de marcador de página. Depois dessa quase descabida digressão, o que importa é que, para mim, Sabine Fuhrmann terá sempre quinze anos e jamais envelhecerá, assim como Peter Pan queria que tivesse acontecido com Wendy Darling ou Lewis Carroll com Alice Liddell.

domingo, 31 de agosto de 2014

UM PRESENTE DO HAITI

Edson Negromonte

Nunca fui de acreditar nessas coisas de magia negra, mas sempre respeitei todas as religiões e suas idiossincrasias, mesmo o vodu. Sim, o vodu, que apesar de tudo, de todo o falso folclore que essa pequena palavra implica, que o cinema, principalmente o americano, se encarregou de criar e difundir para o mundo inteiro, é também considerado uma religião, oriunda do Haiti. Todo o meu drama começou quando o meu primo Frederico Werner trouxe-me de presente uma boneca vodu, após uma viagem de estudos a este país, comprada em Porto Príncipe, com o meu nome bordado nas costas. Meu primo é antropólogo, vive viajando e pesquisando nas paragens mais insólitas do planeta. A sua última viagem, ao Haiti, levou-o a conhecer vários xamãs, tanto do sexo masculino como feminino, que se diziam capazes de tirar a vida a outros seres humanos por meio da feitiçaria. Brincalhão como sempre, Frederico encomendou a uma autopropalada suma sacerdotisa dessa seita, uma conhecida “mambo”, que tem uma tenda no soberbo Mercado de Ferro, uma boneca com o meu nome. Por que não o dele? Chegou-me, uma noite, com o inusitado presente e, ante a minha cara de espanto e repugnância, desafiou-me, zombeteiro, a deixá-la exposta na estante de livros que fica às minhas costas, em meu escritório, afiançando que nada me aconteceria. Ou melhor, que só me aconteceria algo de ruim se eu acreditasse em maldições. A vontade de mostrar-me corajoso perante meu primo mais velho, o qual sempre zombou do meu respeito pelas coisas do outro mundo, respeito que ele sempre interpretou como medo, levou-me a aceitar o desafio. Ora, pensei, que mal poderia fazer uma bonequinha inanimada? Sou um homem moderno, citadino, e não devo, ou não deveria, me assustar com essas crenças primitivas; o ceticismo deve ser cultivado no dia a dia, nos menores gestos do cotidiano. A dúvida deveria ser um exercício constante para que vivêssemos melhor, sem preocupações inócuas com a metafísica. Nos primeiros dias, ao menor ruído, principalmente de madrugada, o melhor horário para concatenar as ideias que surgem durante o alvoroço da claridade diurna, eu virava-me para trás, para me certificar de que ela, a boneca vodu, ainda estava ali, na estante ás minhas costas, imóvel.
Na adolescência, eu e Frederico costumávamos, na saída dos bailes, ir à procura de despachos nas encruzilhadas da cidade. Na madrugada, com a fome que estávamos, saboreávamos o frango e a farofa preparados, com todo cuidado e higiene, para o santo. Satisfeito o instinto mais básico do ser humano, a fome, arrematávamos a refeição com uma boa talagada de pinga. Às vezes, champanha. Ou melhor, cidra. Geralmente, da marca Cereser. Saíamos os dois, satisfeitos, de peito estufado, cada um com um cigarro no bico, e levando conosco o maço de Hollywood (até hoje não entendi a preferência das entidades femininas por essa marca. Talvez porque supostamente todas as mulheres, mesmo a temível Pombajira, sonhem ser atrizes de cinema). Conforme combinado de antemão, oferecíamos cigarros aos amigos, deixando-os darem algumas tragadas para depois lhes contar, para desespero deles, e para nosso gáudio, de onde os tínhamos surrupiado. Atiravam os cigarros longe, maldiziam, pediam desculpas ao mundo invisível, diante das nossas gargalhadas. Quando o despacho era direcionado para uma entidade masculina, saíamos fumando charutos Suerdieck. Confesso que, se fosse pela minha vontade, deixaria que Frederico tomasse a dianteira no saque à oferenda, mas ele, cinco anos mais velho, achava-se no dever de fazer de mim um homem corajoso, sem temer nem mesmo almas do “outro mundo”, coisa que ele reputava inexistente, artifícios do poder para manter o semelhante à mercê dos desmandos da vontade alheia. Uma tarde, depois do almoço, dormindo de bruços, curtindo a ressaca de uma boa carraspana na noite anterior, ouvi chamarem meu nome. Ao erguer a cabeça para ver quem era, levei uma bofetada que deixou meu maxilar dolorido dias seguidos. Não havia ninguém no quarto. Levantei-me espantado, olhei no espelho do banheiro e lá estava, estampada em minha cara, a marca dos cinco dedos do espírito agressor. Pelo sim, pelo não, instintivamente prometi ao Altíssimo que jamais voltaria a profanar a comida dos santos. Mas a amizade com meu primo permaneceu inabalada, sempre fomos unha e carne, apesar de todas as enrascadas em que ele me colocava.
Sempre acreditei, ou quis acreditar, que não fosse supersticioso, mas eu, que tinha uma saúde de ferro, me vi, de um dia para o outro, desde que fora presenteado com aquela pequena boneca de pano, de cabelo de palha, com o meu nome bordado nas costas, acometido de dores de cabeça as mais atrozes. O bom e idoso médico da família aconselhou-me a não dedicar horas ininterruptas e excessivas ao trabalho intelectual. De início, a contragosto, comecei a ocupar algumas horas da madrugada com a programação da TV ou eventualmente a um sono rebelde, o que não me impediu de continuar acordando com dores de cabeça lancinantes. Sim, literalmente sentia meu cérebro atravessado por lanças haitianas. Encaminhado pelo médico, fiz um eletroencefalograma, o qual constatou que nada havia de anormal em meu cérebro, nenhum aneurisma, nenhuma dilatação de vasos sanguíneos, nada. Segundo o neurologista, minha cabeça estava em ordem. De onde vinham, então, as fortes dores que chegavam a incapacitar a concentração, a incompreensão de um mísero parágrafo das monografias de meus alunos? Orientado por um conhecido, passei a frequentar uma academia. Como sempre achei maçante a ginástica, nem a boa vontade e todo o desvelo da bela e bem fornida treinadora foram suficientes para que eu desse prosseguimento aos maçantes exercícios físicos. Para alguém afeito ao mundo dos livros, esse período passado em uma academia é tempo perdido, desperdiçado. Contra todas as evidências, decidi que como as dores de cabeça surgiram, isto é, do nada, haveriam de cessar de uma hora para outra. Ledo engano, as dores, que eram intermitentes, foram se acentuando cada vez mais, até se tornarem contínuas, isto é, uma única dor, sem que eu pudesse diagnosticar o começo ou o fim, uma única nota musical, grave, surda, como o bater de um tambor que soasse indefinidamente, um mantra dos infernos.
Extenuado, os membros lassos, deitei-me, uma manhã de final de outono, o inverno insinuando-se, no sofá do escritório, em busca de um cochilo reparador, para nunca mais levantar. Vi-me, no mesmo instante, incapaz de um único movimento dos membros, tanto inferiores como superiores, o corpo prostrado. Nem a cabeça eu conseguia mexer. Somente os olhos continuavam em plena atividade, vivazes. Não conseguia-me fazer entender a ninguém, nem mesmo à minha mãe, pródiga em cuidados e carinhos, fazendo tudo de que era capaz, alimentando-me, dando-me de beber, atendendo as minhas necessidades fisiológicas: urinar e defecar. Pequena e magra, a pobre mulher trocava minha roupa de cama, movimentando-me com muito sacrifício de lá para cá, de cá para lá. Insatisfeita com o parecer de um, chamou outros médicos, os quais davam os diagnósticos mais disparatados, apesar de meus olhos expressarem inutilmente o terror que eu lhes queria comunicar. Ou o horror que por eles, os médicos, sempre tive. Tempo chegará em que a medicina terá de aceitar que também se adoece da alma, sob a pena de cair no mais completo descrédito. Mas antes a medicina terá de admitir a existência desse corpo sutil, a alma. Enquanto isso não acontecer, cada vez mais os homens, principalmente nas grandes cidades, sucumbirão a doenças ainda inominadas, às quais dão hoje o nome genérico de câncer. Para a medicina atual, tudo é câncer. Jamais passou pela cabeça de minha mãe, evangélica fervorosa, chamar um curandeiro ou coisa que o valha. Ela trouxe, certo dia, um pastor que se dizia entendido em possessões, mas de nada adiantaram seus malabarismos, suas imprecações, a vociferação ao demônio que ele assegurava ter tomado posse do meu corpo. Outro pastor, de mais alta graduação, mais experiente em exorcismos, foi trazido pelo primeiro. Juntos, empolgados com suas próprias pragas, exaltados, acabaram jogando-me ao chão, onde permaneci, sem um único movimento, incapaz de um gemido sequer. Somente meus olhos atônitos eram capazes de emitir sinais de vida; os pastores entenderam isso como mais uma das artimanhas de Satã. Vendo-se incapazes de expulsar o mal de mim, chegaram à conclusão os impostores de que o Senhor das Trevas já era dono da minha alma, assegurando à minha mãe que era somente uma questão de tempo a minha partida definitiva para o fogo eterno.
No ponto do escritório onde estava situado o sofá no qual meu corpo jazia, eu podia ver, de frente para mim, a boneca. Mesmo fechando os olhos, a sua imagem terrível permanecia nítida em minhas retinas. E mesmo durante os poucos minutos de sono agitado que o meu estado nervoso permitia. Com o tempo, os nervos em frangalhos, nem mais ao pesadelo pude recorrer. E como eu ansiava por essa égua da noite que me tirasse, por míseros instantes, daquele ambiente agora opressivo, onde passara as horas mais agradáveis de minha vida, em meio aos meus autores favoritos, e agora ameaçador, acachapante, e o toque contínuo, incessante, do maldito tambor que eu tinha certeza ser proveniente de um ritual vodu, realizado diuturnamente dentro da minha cabeça, do meu cérebro, dentro da minha alma. Cheguei a me apiedar de mim mesmo. Tive, então, a certeza funesta de que estava secando a partir do âmago do meu ser: eu fora amaldiçoado. Eu me transformara, eu era o Haiti! Eu era toda a dor do povo haitiano! Eu era o próprio vodu!
Meu primo não deixou de visitar-me, veio todos os dias, no último mês, enquanto esteve na cidade. Ultimamente, não tem aparecido, está viajando. Pobre Frederico! Tenho certeza que se não fosse tão descrente, teria me auxiliado, teria dado um fim na boneca maldita. Meus olhos esgazeados só o tornavam mais irritado por não saber lê-los, por não poder compreendê-los, fazendo que abandonasse o recinto, apressado, praguejando, impotente. Ele sabia que eu queria lhe comunicar algo. Como todas as pessoas que se enfronham excessivamente na letra impressa, nas runas, hieróglifos, ideogramas, mas esquecem-se do convívio humano, ele percebia que eu queria lhe dizer algo na ineloquência insana dos meus olhares perturbados. Não sei se eu me compreenderia, se estivesse em seu lugar. Provavelmente, não.
As noites eram dolorosamente medonhas, sem a azáfama diurna das gentes, o ruído dos automóveis que adentravam a janela do escritório. Em vez de me irritar como antigamente acontecia, essa agitação sem quê nem porquê da humanidade, trazia-me algum lenitivo, distraía-me por alguns preciosos segundos para mergulhar-me, logo em seguida, no som surdo e contínuo do tambor vodu, senhor absoluto, mais poderoso que tudo, exigindo minha atenção. Bastava-me fechar os olhos no intuito de fugir da imagem da boneca, olhando-me fixamente nos olhos (a cada leve suspiro que se esvaía do meu peito, ela consequentemente se revigorava), cenas nunca antes por mim vividas, de rituais macabros, tomavam existência real dentro de meu cérebro, de minha memória, uma fantástica memória diacrônica da qual jamais suspeitara. Eram invocações e rezas e chamamentos em uma língua parecida com o francês, um francês arrevezado. E uma palavra ecoava insistentemente nas paredes do meu crânio, nitidamente as vozes gritavam “Hounto! Hounto!” Em meio a tudo, havia a plena consciência de que um diabo, ou que vários deles drenavam, aos poucos, as minhas forças. E que eu nada podia fazer para impedi-los.
Foi num final de semana, talvez um sábado, ou domingo, em meio ao inverno, que a mulher de meu primo veio, a seu pedido, saber como eu estava passando. Trouxe com ela as crianças, um menino e uma menina, desculpando-se com a minha mãe por não ter com quem deixá-las, assegurando que a visita seria rápida, que viera somente por insistência de Frederico. Ela não podia ver-me sem chorar, prostrado no sofá, sem reação alguma. Minha mãe, pensando que suas lágrimas só serviriam para piorar ainda mais a minha situação, chamou-a para tomar um café na cozinha. Nesta ocasião, esqueceram-se de levar com elas as crianças, que vendo-me inerme, sem poder lhes chamar a atenção para que não mexessem em nada (sempre fui, desde menino, muito cioso da ordem dos meus pertences), sentiram-se livres para especular todo o escritório. Os dois diabretes mexiam em tudo aquilo que lhes era proibido, como o trenzinho à pilha, da Estrela, que eu ganhara do meu pai, quando fiz três anos. Brincaram livremente com o que lhes chamava a atenção, até seus olhos darem com a boneca vodu no alto da estante. Na impossibilidade de alcançá-la, subiram em uma cadeira e a derrubaram com o auxílio da minha bengala. Logo, os dois se desentenderam a respeito da boneca e começaram a puxá-la, cada um para um lado. Acabaram arrancando a cabeça do restante do corpo, o que fez a menina desatar em um choro desesperado, histérico. Neste exato momento, senti um alívio imediato em meu cérebro, uma claridade, um frescor como há muito não sentia. Seu irmão, com a maldade inerente aos meninos, atirou, com um sorriso maldoso, escarninho, o corpo da boneca nas chamas da lareira. Imediatamente, meu corpo começou a incendiar, labaredas de um fogo azulado que vinha das minhas entranhas. A esposa de meu primo e minha mãe chegaram correndo, atraídas pelo choro incessante da menina, um uivo desesperado e desesperador. Diante da cena, as duas mulheres agarraram as crianças e saíram rapidamente da casa, deixando-me a arder, a me consumir de dentro para fora, solitário, entregue a mim mesmo e à misericórdia divina, à minha própria impossibilidade e às chamas libertadoras.
Quando os bombeiros chegaram já era tarde, graças a Deus. Nunca um atraso foi tão bem recebido. Estranhamente o fogo não se alastrara, consumindo apenas parte do sofá, além de mim mesmo, deixando no ambiente um odor adocicado. Minha cabeça, deslocada do corpo, permanecera intacta. Tornei-me, assim, para os estudiosos, mais um caso de combustão espontânea; quase todos os meus ossos estavam carbonizados. A ciência ainda busca explicações plausíveis para este fenômeno, pois, sabe-se que, mesmo nos crematórios, sob a ação de altíssima temperatura, 1300°C, durante 12 horas, somente a carne dos corpos é queimada, tendo os ossos que ser posteriormente triturados. Afirmam ainda os médicos legistas que as feridas inflamadas das minhas costas teriam provocado um derramamento de gordura subcutânea, a qual em contato com o oxigênio e o calor da lareira causou a combustão dita espontânea de meu corpo. Chamam a esse fenômeno de “efeito pavio”. Sugerem ainda que o incêndio que me consumiu ocorreu quando o gás metano, resultante da decomposição dos vegetais no intestino, entrou em ignição, estimulado pelas enzimas. E como explicarão, então, a cabeça separada do corpo, intacta? O que restou do meu invólucro terreno, a cabeça e a perna esquerda, pertence hoje ao Instituto Jonas Dupont, à disposição de cientistas e interessados na paranormalidade.