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terça-feira, 29 de março de 2011

gatos

por Edson Negromonte

gatos
são seres
de porcelana
às vezes
dão saltos
em direção
à lua,
a casa natal
mas, na maioria
das vezes,
deitam-se
ao sol,
esquecidos
de tebas
gatos
são
resquícios
de deus

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O CLANDESTINO 2

por Edson Negromonte

lá, onde o sol
se esconde, onde a
tônica do dia descansa,
a oeste,
ela deita-se,
solta ao tato dos dedos
delicados da noite.
Sei lá se isso é sedição,
se é cena de cine,
se é o destino
lanceando
as teias de seda
na ânsia
de alcançar
o teto da nação.
Sei lá se é a tentação
dos ícones
soando o sonido distante
do oceano onisciente.
Sei,
isso é certo,
da danação,
da coleta do ócio,
das densidades,
do teclado celestino,
as centenas de teclas
dando de ti,
do sítio onde estás,
Antonina,
notícias dos dias de inocência,
as notícias do sal.
Tocas,
de dedos cotos,
a testa dos iniciados
na ciência do lodo.
Antonina,
de seios ansiosos,
na ânsia do leite,
esticas
as tetas salinas
ao cais onde caí,
onde ainda decaem
os acólitos de ti.
– Edson,
nasceste do sal,
do lodo,
descendes das tocas,
tens o soldo do iodo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

TUDO NA MULHER AMADA

por Edson Negromonte

tudo na mulher amada é doce
qual cartas de nora a joyce
não só a voz o leite a boca
mesmo que pareça coisa pouca
a língua as orelhas os olhos
cabelo sobrancelhas
pescoço os seios o osso
o nariz o queixo os braços
umbigo quadris as costas
ancas a vagina as coxas
a bunda o ânus a pele
axilas joelhos as pernas
pentelhos
os pés dedos artelhos
as mãos
os cheiros a alma o coração

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O POETA DO SÉCULO XIX E A MUSA


por Edson Negromonte
a partir da antologia Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, de José Lino Grünewald

– Cinco verões estiveste em silêncio...
– A sonolência selou meu espírito, fui-me para os montes em busca do palácio do prazer insuspeitado, lutei com nada e nada valeu a lida – sussurrou a musa.
– Ó, alma enferma!
– Não existe mais a filha da beleza, a posteridade não mais há de rever a dama esguia e lívida.
– Por ti, as fontes mesclaram-se à música dos rios, por ti...
– Ó espírito frágil, ó ser mortal, tive eu também temores em cessar de ser.
– Negros vapores oprimem já as planícies.
– Que te pode ainda doer?
– A dor propalada por todos os clarins do céu, a prole do tempo, de lábios hesitantes e som mutilado, eis o que me faz ainda sofrer.
– Bem sabes que eu te vi uma vez, só uma, anos atrás, nos salões de baile da mente, sem teres ainda o aspecto do espectro da falsa manhã.
– Lágrimas, as inúteis lágrimas imergirão no futuro.
– Ora dorme, carmim, a pétala.
– Ó, Inglaterra, de mar cinzento, e longa terra escura.
– Por muito tempo ainda, os caranguejos rastejarão frios nas colinas.
– Murmúrios da morte celestial.
– A ti, acorrerão apressadas as correntes humanas, príncipe dos comedores de lótus.
– Serei, então, o artífice do continente indissolúvel? – perguntou o poeta.
– Pobre diabo, o mar está calmo esta noite. Para mim, que nunca vi o urzal, a palavra está morta.

Porque não pode parar a morte no longo declínio das rosas, acordou e sentiu, no abismo de si mesmo, a inevitável queda escura.

domingo, 5 de setembro de 2010

PO&CIA.

por Edson Negromonte

guardados no guarda-roupa
o casaco de flanela de whitman
a blusa amarela de maiakovski
o xale xadrez de emily dickinson
os sapatos de lama de webern
o chapéu de lado de lautrec
a calça rota de edgar poe
ainda não sou poe-
ta
mas,
daí,
então,
talvez,
um dia,
eu saiba
tudo aquilo
que
o poeta de província já sabia

sábado, 4 de setembro de 2010

A TAL DA POESIA

por Edson Negromonte

quando se está perdido no espaço
e não há mais um túnel do tempo
não adianta espernear nem gritar
o som já não se propaga no ar
a vida não é um disco do pink floyd
e seu papai nem é mais irwin allen
acabou a adolescência
você caiu de pára-quedas
na terra dos gigantes
& se não cuidar
vai acabar no fundo do mar
uma viagem só de ida
e nem será ida lupino,
muito menos lupe cotrim
mas o loup-garou
de olho no seu cu

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POESIA, MINHA FILHA


por Edson Negromonte

poesia, minha filha, é a resposta que darias
à embalagem esquecida no beco da gralha,
ao cavalo sem dentes na beira da estrada,
à barata de nome gregor samsa no teu quarto
poesia, minha filha, é a resposta que darias
ao pássaro cego da canção popular,
às pegadas deixadas na lama amarela,
à pedra que eu te trouxe de presente
poesia, minha filha, é a resposta que darias
à goteira sobre a lareira acesa,
ao último biscoito na lata de biscoitos,
ao postal que te mandei do vale do pavão
poesia, minha filha, é a resposta que darias
aos filhos bastardos de jean-jacques rousseau,
ao mofo nas paredes brancas de uma casa quase branca,
ao velho italiano sentado no banco das praças
poesia, minha filha, é a resposta que darias
àquela estrela anã na galáxia distante,
ao rimbaud traficante de armas,
ao rio marimbondo
poesia, minha filha, é a resposta que darias
à porta entreaberta,
à lâmpada queimada,
à casa em nantucket
poesia, minha filha, é a resposta que darias

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

AS DEUSAS DO CINEMA AMERICANO


por Edson Negromonte

as deusas do cinema americano são mulheres de celulóide,
não têm mais carnes azuis, nem bocas vermelhas.
As deusas do cinema americano olham-me assustadas
como se eu fosse o canibal faminto de um desenho animado,
as deusas do cinema americano são belas e irreais
como uma tragada de rita hayworth.
Tetas enormes, tácteis, sedosas,
as deusas do cinema americano,
as mulheres das capas de revista, sempre sorridentes,
parecem infláveis e até confiáveis.
Ah, não são para o meu bico,
mesmo porque eu vou pelas ruas do terceiro mundo
e, a cada uma que passa, digo uma graça.

& o dia está ganho se ela se acha

domingo, 24 de janeiro de 2010

PASTORAL BEAT

Edson Negromonte

bem sabes, convives comigo há pouco mais de ano e meio
conheço teus anseios, não vou mais ao correio
bem sabes que não sou esnobe, tampouco uso robe
durmo de cueca, vez em quando tiro meleca
apesar de tudo, de ser um bicho do mato
não me iludo, sou meio nefasto
e, quando a pressão sobe,
o remédio é bing crosby.
Ei, chefe, vê como me trata!
Não uso gravata e quero que você saiba:
sou amigo do sinatra.
Ah, senhor mendigo, nem vem que não tem,
já gastei a última nota de cem
& quando tudo fica cacete,
ponho o capacete
e saio por aí de homem-foguete

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ANIMAIS

poema de Walt Whitman
tradução de Edson Negromonte


Eu acho que eu poderia voltar a viver entre os animais, eles são tão plácidos e independentes.
Fico a admirá-los horas e horas a fio;
Eles não choram nem lamentam a condição,
Não dormem de olhos abertos, não lamentam os seus pecados;
Eles não me deixam enojado quanto aos seus deveres para com Deus.
Nenhum deles é descontente – nenhum deles é demente, com mania de posse,
Não se ajoelham aos outros, nem mesmo para aquele que viveu milhares de anos antes.
Nenhum deles é respeitável ou laborioso sobre a vastidão da terra.

VI A CAPELA TODA EM OURO

poema de William Blake
tradução de Edson Negromonte


Vi a capela toda em ouro
E nada ali ousava entrar,
Muitos a chorar no átrio,
A murmurar, a adorar.

Vi a serpente surgir entre
Os pilares do portal,
A forçar, a forçar, a forçar:
Os gonzos de ouro ao chão.

Ao longo do doce santuário,
Pérolas, rubis a brilhar,
O corpo luzidio ela arrastou
Ao alto do alvo altar,

Vomitando a peçonha
Sobre o pão, sobre o vinho.
Então, voltei à pocilga
E chafurdei entre os porcos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

LETRAS E TRELAS

poema de Emily Dickinson
tradução de Edson Negromonte


Eis o livro fragata
Por mares nunca dantes,
A página cavalgada
Do poema galante.

VOU TE CONTAR

poema de William Carlos Williams
tradução de Edson Negromonte


Comi as
ameixas
da
geladeira

que
provavelmente
guardavas
para o café

Desculpe
‘tavam deliciosas
tão doces
tão frias

RÉQUIEM

poema de Robert Louis Stevenson
tradução de Edson Negromonte


Sob o vasto e estrelado céu,
Cave a cova e deixa-me só.
Feliz vivi e feliz me vou.
Desço e deixo um pedido.

Eis o verso para lapidar:
Ele está onde sempre quis estar;
O marinheiro chegou do mar,
E o caçador, dos montes é vindo.