por Edson Negromonte
cara a cara com o marítimo rocinante, remiro-me. Ora o mar é ocre, o ritmo monótono é ornato no cemitério interior. Antonina, eternamente momentânea. Na cama macia, antônima ao tormento, a amante amara contrai a cona e ri. Narcoticamente, recito à cítara e rio. Amortecimento, trapo roto é manto ao tétrico crime. O crânio, oco, retornará na maré e ecoará, na câmara arcana, o amor eterno. Nem no Antero inteiro, na camoniana, em Marino, Caeiro, Marinetti, encontrarei comércio. Nem na mão de Monet, no cinema, na cinira, nem no teorema, nem no teatro nô... A memória, caótica trará à tona o crânio e atônito encontrarei, na areia, a cimitarra. Miramarina Antonina, a coar o cancro mnemônico. O metrônomo no átrio é iminente a noite. Creio no crânio, a arca, mito e romance, o ícone em mármore. Camorra e mentira, retiniana Antonina. Errata, carma, carne iniciática, nomeio-te matéria. Macera a mirra, corrimento.
Cometi o crime: amei-te, amei o mar, o nácar, o oceano.
Toma, na areia, a arma tinta; corta-me. A mônada, imanente. No entreato,
retira-te. Irmana-me ao cimento.
Cão maior! Coroa! Carneiro! Octante! Câncer! Órion! Raptem-me! Naco a naco, raptem-me.
Anciã, rica em ócio, canaã-anã, trapaceira, irmã, onírica Antonina, a artrite
torna-te torta.
Ao oriente, a tormenta.
Ancora, cetácea, ancora!
Nem rota, nem timoneiro, nem carta, temo a cética e cretina Antonina.
No mirante, a mãe totêmica.
Âncora! Ática. América. Circe. Trácia. Criméia. Cananéia. Tera. Marte. Ciméria.
Terra, terra.
Atraca, Caronte, na terra acre e íntima, a coríntia Antonina.
No meretrício, intimo-te, rameira: ama-me. Catarro e amônia.
O retirante, errático, retorna a remo à mítica Antonina.
Reitera o crime.
Torre, minarete, mar ártico, antártico, titã, conto morar (ironia), na tetânica Antonina.
Não, ai, mãe, corta-me, então, a córnea, corta-me ao meio, torna-me areia marmórea, minério, átomo, matemática. Morto, cremem a mim, enterrem-me no camotim. Em amém, a monotonia teima em corroer a romã.
Rareia o carmim.
Cinéreo canoeiro...
Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amei-te ao meio, amei-te à maneira inteira; tem-me em conta, atira-me ao trinta e cinco.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
TUBE, O PEQUENO NOTÁVEL

por Edson Negromonte
foto de Eduardo Nascimento
Ao saber do falecimento de Tube, em 17 de maio deste ano, através do blog do Jeff Picanço, não pude deixar de sentir que uma parte importante de mim estava se extinguindo também. Sim, sentimental eu sou. Veio-me, daí, a melodia esfarrapada de um tango antigo que o pândego cantava a plenos pulmões nas memoráveis madrugadas capelistas de minha adolescência.
tango, bandoneón, uma guitarra que geme
num ritmo de amor desesperado
um cabaré que fecha suas portas
uma rua de amor e de pecado
Ao chegar a Antonina, no último ano da década de 1960, foi ele o primeiro vagabundo original com o qual tomei contato. De estatura baixa, pernas curtas, franzino, pele morena, olhos verdes faiscantes, sorriso matreiro, Tube inundava os finais de noite com o seu vozeirão, cantando o primeiro tango que eu, roqueiro empedernido, fã dos Rolling Stones, viria a gostar, não tanto pelo ritmo ou letra, mas porque todas as vezes em que, perdido na azáfama da vida, necessitei de um fulcro, foi a essa grata lembrança que eu recorri. Em frente ao Cine Ópera, cinco amigos aproveitavam os últimos dias das férias escolares de final de ano quando uma sombra foi se agigantando lentamente. Ao erguer a cabeça em direção ao dono da sombra, dei de encontro com os olhos mais vivazes e intimadores que eu já tinha visto.
– Não vem de garfo que hoje é dia de sopa! – disse inopinadamente Tube, alcoolizado.
Esta era uma das tiradas prediletas dele, marcante; as máximas de Tube estão por merecer uma antologia, como está ocorrendo com as inscrições do Profeta Gentileza, no Rio de Janeiro, antes que se percam no torvelinho do dia-a-dia. Em outras ocasiões saía-se com “Não vem de escada que o incêndio é no porão” ou “Eu quero é comer o gorduroso” ou “Passarinho que dorme com morcego acorda de cabeça para baixo” ou “Não vou amadurecer banana pra morcego”, entre tantas outras. Entenda-se máxima pela ótica kantiana, ou seja, “princípio escolhido livremente para servir de norma de conduta”.
um guarda que vigia numa esquina
um casal que anda à procura de um hotel
um resto de melodia
um assobio, uma saudade imortal,
Carlos Gardel
Naquela inesquecível noite, no final de fevereiro, a primeira informação que tive sobre Tube é de que ele tinha sido um dos confeiteiros mais conceituados de Santos (além de marítimo, sapateiro, barbeiro, artista de circo etc., mas isso eu vim saber muito tempo depois). Como a grande maioria dos boêmios, a bebida lhe arrebatava as forças e, de uma hora para outra, ele mandava tudo pelos ares e caía de vez na gandaia.
Carlos Gardel,
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
e vibrava em tua voz,
Carlos Gardel
Este é um dos casos mais notórios do anedotário do pequeno notável, contado e recontado por várias gerações. De madrugada, os companheiros de farra entraram num galinheiro, para afanar uma penosa. Na escuridão, às apalpadelas, escolheram logo a mais robusta e deram no pé, antes que o dono acordasse com a barulheira. Ao chegar em casa, descobriram que tinham roubado um galo mas, além do mais, o galo de briga, de estimação, do Acrísio. Sem pestanejar, ainda bêbados, mataram o campeão e o cozinharam. O que torna o caso hilário é que ainda tiveram o desplante de convidar o dono do galo para saborear o ensopado. Ao saber de tudo, o desespero de Acrísio deu origem a um chorinho, composto por Tube, que ele de vez em quando cantava, somente em ocasiões especiais, e a pedidos insistentes. A letra do chorinho eu não lembro mais, deixo o resgate para alguém de memória melhor, talvez Bozinho, o cronista oficial da cidade.
o teu canto era a batuta de um maestro
que fazia pulsar os corações
na amargura das tuas melodias
De outra feita, aconteceu de Tube desaparecer. Todos se perguntando por onde ele andaria, acabou gerando as mais disparatadas histórias. Algum tempo depois, eis que surge o gaiato, de terno e gravata, cabelo penteado, gomalinado, Bíblia debaixo do braço, olhos mais flamejantes que a espada do Senhor, como se tocado pelo Espírito Santo, recitando versículos do livro sagrado, muito bem colocados e condizentes com os comentários impertinentes de Maneco Diabo e Johnny Saci, dois galhofeiros de marca maior. A vida de pastor evangélico durou pouco, os fiéis acabaram descobrindo que os sermões inflamados de Tube eram feitos sob o efeito do álcool, da pinga que ele guardava no armarinho do altar. Assim, Tube viu-se forçado a retornar à convivência com os pecadores, seus semelhantes.
Carlos Gardel,
se cantavas a tragédia das perdidas
compreendendo suas vidas
perdoavas seu papel
Depois de mudar de Antonina, nunca deixei de visitar a cidade. Em uma dessas idas, perto das eleições municipais, fui presenteado com um “santinho” de Tube, o camarada era candidato a vereador. Pena que tenha perdido, o povo antoninense não teve sensibilidade suficiente para eleger um igual. De outra vez deparei com um quadro de Tube, e eu sequer supunha que ele tivesse aptidão para as artes plásticas: sobre uma prancha retangular de madeira tosca, ele colara várias cabeças de bonecas, envelhecidas, escurecidas, enfileiradas e rebocadas de tinta. Orgulhoso, o amigo Heráclito o exibia como um troféu. E eu, apressadamente, num átimo, o batizei de “O Encolhedor de Cabeças”, título que remetia ao meu recente interesse. A obra era, no meu entender afoito, de vanguarda, num procedimento muito próximo ao de Farnese de Andrade. Mais tarde, o associei às cabeças de chimpanzé de Júlio Lerner. E, indo mais longe, enquanto Artur Bispo do Rosário bordava a capa para a ascensão aos céus, também místico, Tube se travestia, no carnaval, de Caboclo Samambaia. Será que Tube sabia de tudo isso? Certamente não. Assim como Bispo do Rosário, ele era tão somente um homem do povo que sentia necessidade de se expressar através da arte autêntica, bruta, sem teorias, arte pela arte, ponte com a divindade.
por isso, enquanto houver um tango triste
um otário, um cabaré, uma guitarra
tu viverás também,
Carlos Gardel
Ao me mudar de volta para a pequena cidade, tive a oportunidade de ver, no Mercado Municipal, uma exposição de telas primitivistas de Tube, com barcos, trens, árvores, casinhas, muito distantes de “O Encolhedor de Cabeças”, nas quais o artista estava inteiro, íntegro, consciente de que a ingenuidade dos seus quadros é o que atraía os compradores. E por que não fazer o jogo do mercado? Estarei delirando, vendo tomada em focinho de porco? O que sei é que Tube era sábio o suficiente para pintar o que lhe pediam, desde que rendesse um troco, é claro. Na ocasião, alguém me contou que ele, já idoso, estava morando numa ilha próxima, recluso, aparecendo raras vezes para divertir os amigos. Muitas vezes pensei em ir vê-lo, mas acabei me mudando sem ter feito a visita.
Em tempo, o tango que perpassa este texto é uma composição de Herivelto Martins e David Nasser, gravado para sempre em minha memória na voz de Jobel Soares de Freitas, o nome de batismo de Tube, um dos heróis da minha vida, bem mais duradouro que Brian Jones.
sábado, 31 de julho de 2010
AS PRISÕES

por Edson Negromonte
Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, era traumatizado com as grades, explorando isso em seus filmes; o pai o mandara ainda menino, de pijama, à delegacia, com um bilhete, solicitando ao delegado que prendesse a criança. Tornou-se essa a mais longa e interminável noite do futuro cineasta. Também me sinto apreensivo todas as vezes em que sou obrigado a passar em frente a uma delegacia. Descer do metrô na Estação Carandiru, quando ali perto se encontrava ainda em plena efervescência o presídio, era para mim motivo de muita apreensão. Eu olhava para os lados, evitando os policiais fardados que, por desventura, encontrasse pelo caminho. Para a minha consciência culpada, apesar de há muito não fazer nada de errado, os homens da lei podiam plantar, ao bel-prazer, uma prova qualquer em nossos bolsos, como a bagana de um baseado que eles mesmos fumaram, certo de que mesmo um trêmulo sim pode soar aos seus treinados ouvidos musicais como um evidente desacato. Qualquer um que, à minha frente, surge fardado é motivo de desconfiança e, é claro, imediata preocupação, podendo a qualquer momento e sob qualquer alegação me deter. Sempre tive certeza disso: sou culpado até que se prove o contrário. E provar a inocência implica um processo tão moroso que não vale a pena porque eu já estaria morto quando se desse o veredicto. Assim, indistintamente, eu suspeito tanto de soldados quanto de cobradores de ônibus, com seus denunciadores uniformes. Sei que, com a idade, estou melhorando; os guardinhas mirins já não me metem tanto medo. Inclusive, com o passar dos anos e a sapiência da idade, aprendi também a detectar o policial civil, essa gente que surge disfarçada de cidadão comum: todos eles escondem os miúdos e acinzentados olhos de rato por detrás das lentes verdes dos indefectíveis óculos ray-ban.
A primeira vez em que fui preso, eu não tinha mais de quinze anos. Numa noite de sábado, fui convidado pelos zome a atravessar a rua, para uma palestra amigável com o representante da lei, o famigerado Ganso.
– O delegado quer falar com você... – segredaram-me dois meganhas.
– Ele quer falar comigo, por bem ou por mal?
– O delegado quer falar com você! – instaram.
– Ele quer falar por bem ou por mal? Porque estamos num país democrático, e se for por mal...
Incentivado pelo riso dos circunstantes, tentei dar continuidade ao meu improvisado discurso libertário, quando fui abruptamente interrompido pela súbita visão de dois ameaçadores e negros cassetetes de borracha. Que democracia era aquela à qual eu me referia? Agarrado pelos braços, fui diplomaticamente levado ao encontro do tal delegado, que se encontrava postado na esquina em frente, à minha espera, com as mãos às costas e a barriga inflada. Agarravam-se os dois praças tão denodadamente às carnes dos meus braços, sob a jaqueta Lee, erguendo-me do chão, que, movido pela dor, com um repuxão do braço direito,tentei me libertar daquelas tenazes. Então, no meio da rua, o soldado Belfare desferiu uma violenta cacetada em meu braço esquerdo. Mais calmo, ou melhor, acalmado, topei com os olhos fuzilantes do delegado, justamente quando o Cine Ópera abria as portas e despejava a multidão que estivera assistindo à última sessão. Curiosas, as pessoas foram se aglomerando para ver o improvisado espetáculo de um adolescente acuado pelas forças que supostamente deviam manter a ordem. Instintivamente, aproveitei para repetir, em alto e bom som, para que todos ouvissem, como oportunas testemunhas para uma espécie de salvo-conduto:
– Você quer falar comigo por bem ou por mal?
Evidente que não obtive resposta, mas assim fazendo evitei outra cacetada.
– Para a cadeia! – ordenou o barrigudo Ganso.
Ladeado pelos dois soldados, delegado à frente, seguimos o chefe pela Rua Dr. Carlos Gomes da Costa, dobrando à esquerda, na esquina da Igreja de São Benedito, entrando na Vicente Machado, para chegarmos finalmente à casa de detenção. No trajeto, retomei, agora aos gritos, o interrompido discurso, acrescentando um bordão desafiador, porque verdadeiro, mas ao mesmo tempo suicida, incentivado pelos aplausos da multidão que nos seguia e pelas janelas que se abriam à nossa passagem. Por uma questão de segurança, eu precisava tornar ainda mais pública a minha indevida prisão:
– Vocês são mesmo muito valentes! Só prendem bêbado, menor e mulher de zona!
Palmas.
Gritos e apupos.
Não há melhor combustível para o motor juvenil que o reconhecimento dos amigos, em primeiro lugar, depois os conhecidos e, por último, os curiosos. Agora, excitado, eu berrava:
– Vocês são mesmo muito valentes! Só prendem bêbado, menor e mulher de zona!
Mais palmas. Como dizia o Chacrinha: uma salva de palmas pra ele, que ele merece! Abriam-se janelas, olhos sonolentos e vermelhos espreitavam do escuro dos lares, tentando entender o que acontecia na noite sempre pacata e modorrenta da pequena cidade. A plateia, aumentando sensivelmente, obrigava-me a melhorar o discurso, tornando-o ainda mais contundente:
– Os valentões... só prendem menor, torrado e... puta!
Aí, então, o cortejo, que já tinha virado uma procissão de pândegos, sem andor, acompanhando um santo do pau oco, em coro, endossava:
– É isso aí, só de menor, torrado e puta!
Na delegacia, fui conduzido por um corredor escuro e fétido, onde minha imaginação fértil descobria, nas paredes, manchas de tortura, sangue e fezes. Após um tempo que me pareceu interminável, veio um soldado pedindo que eu fizesse o favor de acompanhá-lo. Nossa, quanta gentileza! Ao entrar na sala do delegado, lá encontrei meu pai. Tirado da cama, com cara de enfezado, sob o pijama ele deixava transparecer propositadamente a intimidadora coronha de um 38. O delegado, evitando me olhar, alegava que eu fora detido porque estava fazendo arruaça em frente ao cinema, após as dez horas da noite. Irritado, sem medir o tamanho da imprudência, dei de dedo na cara do homem, chamando-o de mentiroso. Meu pai pediu que me retirassem da sala. Sentei-me então solitário numa cadeira de fórmica vermelha, na saleta de espera.
Liberado, na porta da delegacia, fui ovacionado por tamanha multidão que se afigurava estar ali concentrada toda a população de Antonina, aglomerada na calçada do lado oposto, nas janelas, nos muros, à espera da minha saída triunfal. Tornei-me assunto das conversas da semana, nos bares, nos lares, na missa, quermesse, barbearias, praças e, gloriosamente, no Mercado Municipal, onde se dizia, à boca pequena, que o delegado era veado e tinha se dado mal na escolha do parceiro da noite. Pouco tempo depois, ele foi transferido para o norte do Paraná, onde morreu assassinado.
A segunda vez em que fui parar numa delegacia ocorreu em Curitiba, durante a comemoração do aniversário de um amigo, num restaurante de Santa Felicidade. Voltávamos em seis para a nossa república, no Edifício São Paulo, sob uma garoa fininha, e evidentemente mais alegres que de costume, devido à excessiva ingestão do dionisíaco vinho que acompanhava os deliciosos pedaços de frango e polenta frita. Exatamente na Rua Cruz Machado, abraçados, eu e Zé Gordo subimos no para-choque traseiro de um velho DKW estacionado. Surgida sabe-se lá de onde, uma veraneio amarela, com placa de Santos, encostou ao nosso lado. Saíram do veículo dois sujeitos truculentos, pedindo-nos documentos. Então, Xixo, lutador de ai-ki-dô e namorado de minha irmã, retrucou:
– Mostre os seus primeiro!
Um dos brucutus exibiu a característica carteira preta, de couro, com distintivo cromado, em tudo idêntica às anunciadas pelo curso por correspondência de detetive particular do Instituto Monitor. Aproveitando-se da distração de Xixo, que, sob a luz difusa do poste, tentava entender o que era aquilo à sua frente, o galalau virou-lhe uma violenta bofetada na cara. Percebendo que estávamos em maus lençóis, fomos rápidos e educadamente esticando as nossas identidades, mas os homens não queriam mais conversa. Estávamos detidos por desacato à autoridade. Fomos amontoados, como sacos de batata, no bagageiro do insuspeitado camburão. No trajeto, os policiais ainda abordaram dois rapazes em atitude suspeita, sob a marquise de uma loja: estavam fumando um baseadinho. Agora, estávamos em oito no bagageiro da Veraneio! Não parece, mas como cabe gente nesses carros da polícia. Ao chegar à Delegacia de Entorpecentes, fomos conduzidos a uma sala ampla, onde havia somente uma pequena mesa de madeira e um beliche, corroído pelos cupins, no qual encontrava-se algemado um batedor de carteiras.
– Todo mundo pelado! – ordenou o policial.
Para o homem civilizado é vergonhoso ficar nu na frente dos outros, ainda mais quando não se conhece a criatura. Mas ficar nu nas noites frias e chuvosas do inverno curitibano vai além da simples humilhação. Vimo-nos, então, como oito grotescos macacos pelados, de minúsculos pintos, tiritando de frio. Ajoelhados, obedecíamos a um círculo imaginário, desenhado no chão úmido, de cimento, pelo dedo indicador do mata-cachorro. Assim permanecemos durante um bom tempo, de braços cruzados, sem podermos sequer descansar sobre os calcanhares, sob os olhares irônicos, tanto dos policiais quanto do larápio, vestido. A porta abriu-se de sopetão, e um dos rapazes foi chamado. Foi-se, pelado, aterrorizado e constrangido. Ficamos olhando para o seu amigo, choroso, quando ouvimos um grito lancinante, vindo das catacumbas, onde homens morriam como porcos, assassinados pela ponta de uma baioneta no coração. Sim, aquela delegacia tinha muitos porões, onde presos mofavam, depois da ração diária de choques elétricos nos testículos. Logo em seguida, o outro rapaz foi também levado. Entreolhamo-nos, os corpos não queriam parar quietos, tremiam apesar do esforço em mantê-los quietos, dignos. Por causa disso, tremiam mais ainda. Já não éramos capazes de olhar uns para os outros. Rezávamos em silêncio.
Então, o nosso grupo começou a ser chamado, de um em um. Cambaio foi o primeiro. Não voltou. Seguiu-o Zé Gordo. Depois, Vostok, Xixo e Carlito. Nenhum deles voltou! Eu fiquei por último. Posso assegurar, sem sombra de exagero, que eu estava realmente apavorado, imaginando as piores atrocidades.
Numa chave de braço, fui conduzido à mesa do delegado, uma escrivaninha de tampo mais baixo que o normal, encimada por uma lâmpada de luz mortiça.
– De mãos abertas em cima da mesa! – gritou o policial. – Mais perto do delegado!
– Quantos você fumou hoje? – perguntou o chefe de polícia, melífero.
Não tive tempo de responder; uma ripada na bunda jogou-me esparramado por cima da mesa, dando uma cabeçada no peito do delegado. Recompus-me ligeiro; ao mesmo tempo, as minhas roupas eram arremessadas na minha cara.
– Se veste e desaparece, vagabundo!
Não precisou pedir duas vezes. Entre contente e dolorido, vesti-me mais rápido que o Flash e, desorientado, saí em busca da porta da rua, quando ouvi chamarem.
– Ei, aqui!
Eram meus companheiros de farra que, do lado de fora, acenavam pressurosos. Ao chegar à rua, nunca me senti tão bem ao levar na cara a golfada de ar gelado que só o bendito inverno curitibano é capaz de proporcionar àqueles que emergem do inferno da incerteza.
Em vez de irmos para casa, resolvemos terminar a noite no Guarda-Chuva, o bar onde o grande músico Pelicano Preto estava se apresentando. Ao chegarmos, ele cantava o seu conhecido hit "Nega, Neguinha". Sentamo-nos à mesa do camarada Bozó, já preocupado com a nossa demora; ele saíra um pouco antes do restaurante, de táxi, combinando nos esperar no bar. Ao ver-nos, os seis, incomodamente sentados de lado, para evitar a dor provocada pela ripada, perguntou intrigado o que acontecera. Suas gargalhadas inundaram o ambiente do Guarda-Chuva. O que sei é que, para evitar a dor (parecia que tínhamos quebrado a bacia), fomos obrigados a dormir de barriga para baixo durante uma semana, enquanto gargalhando Bozó fazia questão de contar a nossa desventura a todos que nos visitavam.
A última vez foi em Campinas, interior de São Paulo. Voltando da faculdade, quase meia-noite, resolvi comer um cachorro-quente e tomar uma Coca-Cola na carrocinha da esquina, a uma quadra de casa. Satisfeito, de barriga cheia, fui abordado por três camburões. Os bichos desceram enfurecidos, já gritando:
– Documento!
Prontamente, estendi a carteira de identidade, porque gato escaldado tem medo até de água benta. Ainda mais quando se está sozinho, numa cidade onde não se conhece ninguém.
– Documento de gente honesta é carteira de trabalho! – berrou o gafonha.
– Eu é que não vou andar com aquele calhamaço no bolso! – respondi, sem refletir e sem obviamente ainda ter aprendido definitivamente a lição: com os homens da lei não se deve retrucar, eles são os representantes de Deus na terra, fazendo e desfazendo das nossas míseras vidas quando bem entendem.
– Leva! – gritou o motorista de uma das viaturas.
– Não, por favor, eu tenho que trabalhar amanhã. Como é que eu vou explicar no banco que fui preso? Por favor!
– Some daqui, filho da puta!
Obedeci prontamente, sem ao menos olhar para trás, com medo de virar estátua de sal. Olha, hoje, pensando melhor, os caras podiam me xingar de tudo naquela hora, mas botar a honra da minha santa mãezinha em questão foi muita falta de consideração.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
O AMIGO MAIS VELHO

por Edson Negromonte
A minha conscientização política aconteceu de variadas maneiras, seja através de panfletos, surgidos sabe-se lá de onde, seja ouvindo as conversas veladas dos adultos ou através da leitura de alguns livros ainda permitidos, como "A República", de Platão, e "A Cidadela", de Tomaso Campanella, em edições surradas, mas principalmente através do amigo Wagner que, um dia, me emprestou sem como nem porquê, mas cheio de recomendações, o diário de guerrilha de Che Guevara. Talvez visse no amigo mais novo alguém digno de confiança. De uma geração anterior à minha, muito antes da minha chegada a Antonina, ele já se mudara para Santos; por aqui aportando somente nas férias. Antes do total obscurantismo, imposto pela censura dos generais, ele colecionara religiosamente as páginas do líder guerrilheiro, publicadas no jornal O Globo, colando-as cuidadosamente nas folhas de um prosaico caderno de desenho. Era um dos seus tesouros. Agora, isso dava prisão, tortura e até morte, que podiam se estender a outros membros da família. Então, todo cuidado era pouco. Portanto, isso era coisa que não se comentava com qualquer um. Para que se ficasse sabendo desses tesouros enterrados nos porões das casas, era preciso primeiro adquirir a confiança do outro. Eis que, uma dada noite, recebi o diário do Che das mãos de Wagner, como se recebesse um carregamento de droga, num tráfico de conhecimento, mocozeado numa encardida mochila de lona. Despedi-me dele e fui para casa, trêmulo, apreensivo, à espreita; a qualquer instante vultos saltariam da escuridão e me arrebatariam o volume. Consegui chegar incólume ao meu quarto, o qual ficava do lado de fora da casa. Com o abajur aceso até altas horas da madrugada, deliciei-me com os recortes, lendo-os gulosamente, deixando escapar palavras, adivinhando sentidos, mas comungando com a tão sonhada liberdade da América Latina, quase toda controlada por militares e pelo poderio econômico dos Estados Unidos. Com a chegada das primeiras luzes da manhã e do sono insistente, escondi o caderno sob o colchão, pois nem meus pais deviam saber o que eu andava lendo. Podia ser perigoso para eles; eu não queria ver minha mãe pendurada no pau de arara, levando choques na genitália. Ou as unhas de meu cachorro Toddy sendo arrancadas a frio, para que o coitado, sob coação, confessasse que o meu quarto era um aparelho. Hoje, isso pode parecer paranoia, mas contava-se nos bares sobre um bebê ameaçado pelos torturadores, os quais lhe faziam perguntas sobre atividades comunistas. A mãe, presente na sala, a tudo assistia, aos prantos, enquanto os policiais interrogavam o pequeno. Evidente que a mãe é que respondia pela criança, mas os policiais nem sequer olhavam para ela, ignorando-a, fazendo de conta que as respostas desesperadas e convenientes vinham da boca do bebê, que aterrorizado só sabia chorar. Então, estava decidido: no dia seguinte, eu iria também dar a vida pela causa, pela libertação do país, pegar em armas, combater o poder dominante. Depois da limpeza doméstica, como o Che, combateria em outras terras e não descansaria enquanto houvesse um foco de totalitarismo no planeta. Sim, eu iria embora, sem avisar pai nem mãe. Não podendo expor meus entes queridos ao perigo, adotaria outro nome, um codinome. Adormeci, cheio de convicções revolucionárias.
Por volta do meio-dia, radiante o sol atravessava a vidraça do quarto, sem cortinas. Agora, pensando melhor, como eu faria para participar da luta armada? A quem me dirigir? Era melhor deixar a partida para a noite. Ou, quem sabe, para o dia seguinte. É isso mesmo, precisava antes fazer os contatos, não podia sair assim sem mais nem menos. Precisava contar os meus planos para o amigo mais velho. Somente para ele. Quem sabe, e se ele me acompanhasse na luta pela libertação dos oprimidos? Andei pela cidade e não o encontrei. Talvez estivesse em reuniões importantes, engendrando novos planos para a tomada do poder. Encontrei outros amigos, da minha idade, a conversar despreocupadamente sobre futebol, as meninas, o mar, o tempo... Com eles fiquei; sim, a revolução podia esperar.
Na tarde do dia seguinte, finalmente encontrei o amigo mais velho. Entusiasmado, contei-lhe meus planos. Desconversou, perguntando-me se eu já ouvira com atenção os sambistas da velha guarda. Sentados na escadaria em frente à casa do avô, falou-me de gente como Zé Kéti, Cartola e Nelson Cavaquinho, enaltecendo as letras, de aparente simplicidade, mas, ao mesmo tempo, de insuspeitada herança parnasiana. As letras de música eram, para ele, de grande interesse, relacionando Caetano Veloso com Fernando Pessoa, principalmente no fado "Os Argonautas", alertando-me, em voz baixa, sobre um trecho da letra de "Soy Loco por Ti, América", quando o compositor diz el nombre del hombre muerto, ya no se puede decirlo. Surpreendentemente, revelou-me que isso era uma alusão ao Che. Eu, por minha vez, mais jovem, retribuía as lições de música popular brasileira com informações sobre rock, a minha paixão, contando-lhe sobre bandas como Blood, Sweat & Tears, Sugarloaf e Argent, entre tantas outras. (Alguns anos mais tarde, assombrou-me a sua paixão por Pink Floyd. Ele comprara dois exemplares de "The Dark Side of the Moon". Um para ouvir até gastar e o outro para guardar no fundo do baú, como se guarda uma relíquia, acrescentando que era coisa digna de se mostrar aos filhos, os quais ele ainda não tinha. Contei-lhe, então, indignado que o crítico Tárik de Souza escrevera na revista "Rock – História e Glória" que, neste LP, a banda tinha se transformado no Ray Conniff do rock. Plácida e sabiamente, retrucou: – E que problema há em ser o Ray Conniff do rock?)
A nossa agradável conversa sobre música foi interrompida por um bêbado, cantarolando:
Com a marvada pinga que eu me atrapaio
Eu entro na venda, já dou meu taio...
Era a famosa "Moda da Pinga", o imorredouro sucesso de Inezita Barroso ecoando no morno final de tarde antoninense. Despedimo-nos em meio a risos; era hora de jantar.
À noite, saboreando uma Choco-milk, eu assistia ao Fantástico, encostado no balcão da lanchonete do Oswaldo quando, num dos quadros musicais do programa televisivo, surge um jovem tocando uma craviola, instrumento de belíssima sonoridade, mas de difícil execução, inventado por Paulinho Nogueira. Extasiado com a técnica de Stênio Mendes (este era o nome do virtuose), ouvi uma voz conhecida ao meu lado.
– Esse cara é demais!
Era Wagner, também encantado com a execução de "Algazarra dos Monges". Ao final do quadro, tecemos comentários sobre os grandes músicos do país, esquecidos, marginalizados, sem acesso aos meios de comunicação. E continuamos conversando sobre música, muita música, todo o tipo de música, trocando ideias, muitas ideias, e voltando à nossa mais recente descoberta, Stênio Mendes, o qual ainda não tinha nenhum disco lançado; falamos também sobre o disco ao vivo de Alceu Valença, com "Papagaio do Futuro", música que o amigo considerava um primor, sobre a guitarra infernal de Lanny Gordin, no disco da Gal; o tão comentado e jamais ouvido "Não Fale com Paredes", do Módulo Mil, sobre A Bolha, o Terço, Novos Baianos, as letras estranhas e cheias de toques de Galvão, a voz de Baby Consuelo, que Wagner dizia remeter à Ademilde Fonseca (de quem eu nunca ouvira falar), sobre Wally Sailormoon, que lançara o livro "Me Segura que Eu Vou Dar um Troço", sobre bolero (outra coisa que eu detestava, mas que o professor fez questão de mostrar a beleza do ritmo na voz de Roberto Luna. Puxa, outro desconhecido!), sobre Drummond, o "Orlando", de Virginia Woolf, João Cabral, Silvia Plath, a poesia engajada de Ernesto Cardenal, Neruda, Cesar Vallejo, Mao Tsé Tung, a capa de "Some Time in New York Ciry", a nudez de John e Yoko, os contos de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa, enfim, a emergente literatura latino-americana, a entrevista de Sidney Magal para o Folhetim, a cigana Sandra Rosa Madalena, sobre o carnaval que se aproximava, Nenê Chaminé, o carnavalesco que abria a festa carregando um urinol cheio de cerveja, onde boiava uma prosaica linguiça, sobre o Bloco das Escandalosas, com insuspeitos chefes de família travestidos com as roupas das esposas...
Porque a ocasião exigia, pedimos então mais uma rodada dos deliciosos sonhos do Oswaldo, recheados de creme.
Marcadores:
campanellla,
che guevara,
choco-milk,
moda da pinga,
platão
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O GRANDE EVENTO
.jpg)
por Edson Negromonte
Naquela manhã chuvosa de 24 de abril de 1933, a segunda-feira prometia ser como sempre são os inícios de semana nas cidadezinhas do interior. Apesar do intenso movimento portuário, a modorra era quebrada somente pelos apitos estridentes dos navios e as ocasionais badaladas do sino da Matriz. Mas os mais velhos, aqueles que beiram hoje os oitenta ou noventa anos, ainda lembram com entusiasmo da chegada do Almirante Jaceguay, uma embarcação mista, pertencente ao Lloyd Brasileiro, com destino à Argentina. Esse navio, construído em 1912, era um dos mais suntuosos da companhia, com capacidade para 270 passageiros, fazendo a rota de Manaus a Buenos Aires. Não que fosse novidade embarcações desse porte em nosso porto, mas a lista de passageiros era das mais seletas, contando com nomes que se pronunciados a qualquer momento, seja nos lares, seja nos bares, suscitavam suspiros apaixonados e a conversa derivava inevitavelmente para a vida romanesca dessas personalidades, evocando seus últimos namoros, os penteados, o corte dos ternos, os mais recentes sucessos. Eram artistas do teatro e do rádio, gente que víamos somente em revistas de fofoca, jornais e alguns filmes. Gente de um lugar longínquo, o Rio de Janeiro, tão distante da nossa realidade comezinha.
Apesar da garoa, quem, desavisado, pelo porto passasse pensaria que toda a população antoninense estava ali presente. Doce ilusão! Em 1933, segundo o recente recenseamento, a cidade já contava orgulhosamente com treze mil habitantes. Os meninos, alvoroçados, seguidos dos mais velhos, vinham curiosos para ver de perto aquela gente glamorosa, brilhante, feita especialmente das ondas sublimes do rádio, gente que vivia e atuava na então capital federal, um lugar inatingível a meros mortais. Eram os artistas do Teatro Alhambra, a nata da arte popular de todos os tempos, para pasmo de alguns céticos que, nas gares do Mercado Municipal, encorajados por uns goles a mais de aguardente, afirmavam que esses seres tão sublimes, quase diáfanos, dos quais conhecía-se sobretudo as vozes, não existiam de verdade, e, diziam mais, que as fisionomias, entrevistas em revistas, eram, sim, o fruto de uma imaginação fértil, semeada e adubada por espertinhos, gente entendida em criar necessidades na mente simples de um povo ingênuo.
A bem da verdade, o porto estava mesmo apinhado de gente, a plateia de um grande auditório a céu aberto. Eram eles, sim, eram eles! Os grandes artistas do famoso Alhambra, em carne e osso! E voz! E, da amurada do navio, dando com a mão para o público! Isso, por si só, já era um grande espetáculo, digno de se guardar na memória. Como o Jaceguay estava fadado a permanecer em nossas águas até as onze horas da noite, a fim de proceder ao carregamento de gêneros alimentícios, os ilustres passageiros desceram à terra firme para conhecer e desfrutar da agradável cidadezinha colonial. Nessa ocasião, enquanto exploravam o comércio local, os artistas foram abordados por Álvaro Paciência, o provedor do Hospital de Caridade, entidade mantida pela população, além de se valer também de concertos beneficentes para angariar fundos e dar continuidade, assim, à obra benemérita de amparar os desvalidos. Então, o bondoso Paciência, nascido Álvaro Rodrigues da Costa, conseguiu que a trupe se apresentasse de graça no Theatro Municipal, cuja renda reverteria única e exclusivamente para as obras caridosas do hospital. Em seguida, o maestro Urquiza e a Lyra Antoninense, banda local formada por crianças e adolescentes, foram acionados para recepcionar condignamente o público, à porta da casa de espetáculos, com marchinhas e foxtrotes. Até hoje, esse teatro é um dos orgulhos da população, principalmente após a restauração nos anos 80, que lhe devolveu a antiga imponência. Apesar de constar da fachada a data de 1906, pode-se recuar mais alguns anos no tempo e atribuir-lhe, como data de edificação, o ano de 1875, pois o prédio atual é remanescente de um teatro mais antigo, fundado pela Sociedade Teatral Aurora Antoninense.
Os moradores precisavam desse refrigério para aliviar os espíritos, pois no mês de fevereiro tinham sido barbaramente surpreendidos com aquilo que a imprensa local chamou de "O Crime do Mercado", quando o jovem comerciante Christiano Hacker desferira, em legítima defesa, uma facada fatal no coração de Cyrillo Pin, um marinheiro arruaceiro que tentava esbofeteá-lo pela segunda vez. Ou, no mês seguinte, do tiroteio descabido nas ruas centrais da cidade, pondo em risco a segurança dos transeuntes, quando o soldado Joaquim perseguia esbaforido o facínora José Ferreira, oriundo de Santa Catarina e morador no bairro do Itapema. Não bastassem tantas ocorrências escabrosas em tão pouco tempo, os cidadãos viviam também sob a ameaça de um terror maior, pois o Almanaque de Antonina, na edição de 1933, na página 9, trazia as profecias de Cagliostro II, um afamado e confiável ocultista da capital. Assegurava ele que a soma dos números deste ano davam origem ao arcano responsável principalmente pela destruição do porvir e que, no fim do ano, um vulcão entraria em erupção, trazendo moléstias piores que a devastadora gripe espanhola. Temia-se por tudo isso, mas principalmente pelo vulcão, embora não se tivesse conhecimento de nenhuma dessas montanhas irritadiças no município. Por isso, no domingo imediatamente anterior a essa segunda-feira, a gente da cidade acorrera em massa para prestigiar o magnífico elenco do Grande Circo Show, o qual contava com uma maravilhosa coleção de feras amestradas, da qual se sobressaía o temível leão Prince, imponente animal dourado vindo diretamente das brenhas africanas e que, até aquela data, já devorara pelo menos três domadores. Assim, na segunda-feira, enquanto os meninos sonhavam, de olhos abertos, com o que podia haver entre as coxas da trapezista, a elite antoninense pode apreciar os grandes nomes da época. Apresentaram-se, então, no Theatro Municipal, Jayme Costa, Ítala Ferreira e Procópio Ferreira, os expoentes nacionais das artes cênicas, recitando e fazendo pequenos esquetes teatrais, mais os principais nomes da era de ouro do rádio brasileiro. Perto de completar 25 anos, Sílvio Caldas deleitou o público com "Faceira", seu grande sucesso de três anos atrás, Mesquitinha, que mais tarde se tornaria diretor de cinema, cantou a impagável "Não Tenho um Tostão no Bolso" e Luís Barbosa, usando o chapéu palheta como instrumento musical, também arrancou risos com "A Mulher é Veneno", enquanto o jovem Almirante emendava com "Na Gruta do Feiticeiro". Com incompletos dezoito anos, ainda inédita em disco, Aracy de Almeida brindou a plateia com sua linda voz, a qual só seria conhecida do grande público no ano seguinte, com a gravação da marchinha de carnaval "Em Plena Folia". Aplausos. Quando parecia que nada mais superaria a apresentação das irmãs Linda e Dircinha Batista, com apenas 14 e 11 anos, respectivamente, cantando juntas "A Órfã", eis que surge em cena Aurora Miranda, no frescor dos 18 anos, cantando a ainda inédita "Cai, Cai, Balão", a canção junina que viria a ser o seu disco de estreia, no qual ela faz par com Francisco Alves, o eterno Rei da Voz. Mais aplausos. Para delírio de todos, sai de trás das cortinas, apoteótica, cantando "Pra Você Gostar de Mim (Taí)", a esfuziante Carmen Miranda. Sim, ela, a então Ditadora Risonha do Samba, dois anos antes de se tornar conhecida como a Pequena Notável e seis antes de embarcar para os Estados Unidos e lá alcançar a fama internacional, como the brazilian bombshell. Palmas, assovios, ovação geral. Então, a plateia pediu, entre gritos, que ela cantasse "Moleque Indigesto", a composição de Lamartine Babo que fora um dos sucessos do carnaval daquele ano. Aproveitando o ensejo, o conterrâneo Izidoro Costa Pinto subiu ao palco e pediu a palavra, para agradecer em nome de toda a população a excelente apresentação daquela gente de sonho. De um único pulo, comicamente, um irrequieto pianista passa por cima do instrumento e cai direto no centro do palco, retribuindo as lisonjeiras e eloquentes palavras do grande orador antoninense. O tal pianista era, ninguém mais, ninguém menos, que o maestro Ary Barroso, o compositor de "Aquarela do Brasil", entre tantas outras joias do nosso imortal cancioneiro popular.
Apesar da constelação reunida no pequeno palco, também brilhavam na plateia as estrelas locais, como Joubert; um jovem declamador, cantor e ator, que se destacava nos grêmios recreativos da cidade, principalmente no Lyrial, do Clube dos Operários, em dupla com Peixotinho. Alguns olhares apaixonados recaíam sobre a poetisa Mary Camargo. Mas o que chamava mesmo a atenção era a beleza estonteante de Stellinha Egg, recém-saída da adolescência, professora do Grupo Escolar Ermelindo Matarazzo, de voz maviosa e presença constante nos concorridos saraus da cidade. Além de cantora, Stellinha causara furor entre a juventude quando, dois meses antes, encabeçou um abaixo-assinado para a libertação do ativista político Obdulio Barthe, encarcerado no Paraguai. Talvez movida pelo inesquecível espetáculo proporcionado pela trupe do Alhambra, a professorinha tenha decidido se dedicar profissionalmente à carreira artística, deixando assim a pequena cidade para gravar, em 1944, o seu primeiro 78rpm, com a romântica "Uma Lua no Céu, Outra Lua no Mar", do lado A, e, no outro lado, a brejeira "Tapioquinha de Coco".
quinta-feira, 24 de junho de 2010
A BOLA DE CRISTAL
por Edson Negromonte
Entrar era transpor umbrais secretos, há muito esquecidos dentro de si mesma. Talvez umbrais seja a palavra mais apropriada, com tudo o que ela carrega de mistérios iniciáticos. Assim mesmo, no plural, pois o primeiro umbral já traz dentro de si os umbrais seguintes, o segundo, o terceiro, o décimo segundo, quiçá o décimo terceiro, o qual atinge-se somente psiquicamente, a primeira ponta do quinto triângulo. A casa cheirava ao mofo que as casas fechadas insistem em exalar depois de abertas, protegem-se assim as velhas moradas dos olhos do vulgo; ao iniciado, como prêmio, os tesouros arcanos da pirâmide interior. Tateante, Berenice atravessou o longo corredor estreito, o assoalho de madeira rangendo a cada passo, a máscara da escuridão vendando-lhe os olhos. Na ampla câmara, ainda às cegas, intuitivamente sabia em que gaveta repousavam as velas. A caixa de fósforos, sobre a grande távola, à direita. À luz bruxuleante da vela, ela olhou ao redor e tudo estava no devido lugar: o avental, os castiçais, a toalha, bordada em ponto-cruz, o calendário do Sagrado Coração de Jesus, assinalado em 25 de março, o prato por lavar da última refeição da avó. Nas paredes, sombras dançavam como num teatro de silhuetas. De repente, Berenice percebeu um leve perfume de alfazema: ela, ainda menina, saindo do banho matinal. Dirigiu-se então à sala de estar, relanceando os pequenos olhos negros pelos móveis há tanto tempo intocados. Sobre o altar da cristaleira, os parentes emoldurados a observavam; tio Altamiro sempre sorridente. Não o conhecera, mas ele sempre tivera para ela um sorriso condescendente. Contavam-se as mais intrigantes histórias sobre ele, de como lutara na Guerra do Contestado, da noiva perdida num lance de dados, da tentativa de suicídio, “um tiro de garrucha no peito”, dos versos publicados no Correio do Norte, a boêmia, o encontro com o Cisne Negro: “um poeta de verdade, mas hedonista que nem ele”, a indefectível tuberculose, o sanatório, a morte prosaica aos 29 anos, após ser mordido por um cão raivoso. Apesar da vida aventureira, ele, o hieracocéfalo, também ficara estagnado, o sorriso beatífico sobre a cristaleira, como todos os outros nigromantes da família. Carinhosamente, Berenice limpou na saia cinza de lã a poeira do retrato, apertou-o contra a blusa, de encontro aos seios o vidro frio, quando seus olhos escorregaram para a pequena bola de cristal sobre a mesinha de canto, ao lado da namoradeira. Por quantas vezes a avó a balançara para que a menina se divertisse com a neve, os minúsculos flocos brancos descendo sobre o telhado vermelho? Para ela, tio Altamiro sempre morara dentro da bola, só os poetas mereciam viver assim, numa casa de neve eterna, a escrever versos nostálgicos sobre o sol das terras distantes, às quais ele jamais iria. Em que escaninho da casa tio Altamiro guardara as cartas de navegação?
Entrar era transpor umbrais secretos, há muito esquecidos dentro de si mesma. Talvez umbrais seja a palavra mais apropriada, com tudo o que ela carrega de mistérios iniciáticos. Assim mesmo, no plural, pois o primeiro umbral já traz dentro de si os umbrais seguintes, o segundo, o terceiro, o décimo segundo, quiçá o décimo terceiro, o qual atinge-se somente psiquicamente, a primeira ponta do quinto triângulo. A casa cheirava ao mofo que as casas fechadas insistem em exalar depois de abertas, protegem-se assim as velhas moradas dos olhos do vulgo; ao iniciado, como prêmio, os tesouros arcanos da pirâmide interior. Tateante, Berenice atravessou o longo corredor estreito, o assoalho de madeira rangendo a cada passo, a máscara da escuridão vendando-lhe os olhos. Na ampla câmara, ainda às cegas, intuitivamente sabia em que gaveta repousavam as velas. A caixa de fósforos, sobre a grande távola, à direita. À luz bruxuleante da vela, ela olhou ao redor e tudo estava no devido lugar: o avental, os castiçais, a toalha, bordada em ponto-cruz, o calendário do Sagrado Coração de Jesus, assinalado em 25 de março, o prato por lavar da última refeição da avó. Nas paredes, sombras dançavam como num teatro de silhuetas. De repente, Berenice percebeu um leve perfume de alfazema: ela, ainda menina, saindo do banho matinal. Dirigiu-se então à sala de estar, relanceando os pequenos olhos negros pelos móveis há tanto tempo intocados. Sobre o altar da cristaleira, os parentes emoldurados a observavam; tio Altamiro sempre sorridente. Não o conhecera, mas ele sempre tivera para ela um sorriso condescendente. Contavam-se as mais intrigantes histórias sobre ele, de como lutara na Guerra do Contestado, da noiva perdida num lance de dados, da tentativa de suicídio, “um tiro de garrucha no peito”, dos versos publicados no Correio do Norte, a boêmia, o encontro com o Cisne Negro: “um poeta de verdade, mas hedonista que nem ele”, a indefectível tuberculose, o sanatório, a morte prosaica aos 29 anos, após ser mordido por um cão raivoso. Apesar da vida aventureira, ele, o hieracocéfalo, também ficara estagnado, o sorriso beatífico sobre a cristaleira, como todos os outros nigromantes da família. Carinhosamente, Berenice limpou na saia cinza de lã a poeira do retrato, apertou-o contra a blusa, de encontro aos seios o vidro frio, quando seus olhos escorregaram para a pequena bola de cristal sobre a mesinha de canto, ao lado da namoradeira. Por quantas vezes a avó a balançara para que a menina se divertisse com a neve, os minúsculos flocos brancos descendo sobre o telhado vermelho? Para ela, tio Altamiro sempre morara dentro da bola, só os poetas mereciam viver assim, numa casa de neve eterna, a escrever versos nostálgicos sobre o sol das terras distantes, às quais ele jamais iria. Em que escaninho da casa tio Altamiro guardara as cartas de navegação?
domingo, 13 de junho de 2010
VAGABUNDOS ORIGINAIS
por Edson Negromonte
Todas as cidades possuem os seus vagabundos, sendo que somente as pequenas os têm como originais, são membros da grande família que vem a ser a população de uma pequena cidade, onde todos os habitantes têm um indefinido grau de parentesco. Em Antonina, na década de 70, havia Barreano, Genésio, Caninana, Dalila Bu e Bardivo (ou Vardivo, como também era conhecido), que, com a simples presença, transformavam uma tarde insípida em mais um dia radiante ou, bem mais tarde, motivo de escritura.
O franzino Barreano, sempre em andrajos, perambulava pelas ruas da cidade, para lá e para cá, sem destino aparente, com o que lhe restava do pé direito sempre envolvido por um pedaço de papelão, amarrado com barbantes encardidos, à guisa de sapato. Ou melhor, o último resquício de uma sandália romana, de causar inveja ao artista plástico e designer Hundertwasser. Se lhe gritavam o nome, Barreano enfiava o dedo na boca, provocando, ao retirá-lo rapidamente, um estampido característico. Nunca se soube de onde ele tinha vindo; sabia-se somente que em Antonina morreria, como certamente ocorreu. Genésio, um pândego de marca maior, era capaz de peidar, sem perder o ritmo, nem a afinação, a primeira frase completa do Hino Nacional. O gran finale do pequeno show era quando um dos meninos mais velhos lhe pedia que mostrasse o ovo. Sem cerimônia, Genésio botava o saco rendido para fora e exibia algo que mais se parecia com um peludo abacate cor de carne, fruto talvez de uma caxumba mal curada. Caninana era uma mulambenta que dormia no coreto da praça, com a qual muitos garotos tiveram sua primeira experiência sexual. Já Dalila era uma desvairada que saía correndo atrás de quem lhe gritasse “Bu!”, com uma saraivada de cabeludos palavrões, desferindo varadas a torto e a direito.
Bardivo é um caso à parte. Todos sabiam que ele era irmão de Albari, o guardião da praça. Encostado nas paredes do velho casario do centro, o simpático Bardivo costumava abordar os passantes:
- Patrão, um dinheirinho para tomar uma pinguinha.
Não havia como recusar uns trocados àquele rosto sorridente e sem dentes. (Como diz a canção dos Titãs: Jesus não tem dentes no país dos banguelas). Herói que se preza, não dispensa um fiel escudeiro; Bardivo tinha Risadinha, cujo sugestivo nome vem de os pequenos dentes apontarem para fora, num eterno sorriso, aparentemente satisfeito com a vida que levava. Os transeuntes que saudavam Bardivo, faziam questão de cumprimentar também o cachorrinho Risadinha.
Albari, além de ser funcionário municipal, com a sua humilde casa de madeira, à beira do trilho, quase defronte à estação ferroviária, era também o tocador de tuba da furiosa, apresentando-se no coreto todos os finais de semana e festividades. Portanto, não se poderia chamá-lo, mesmo carinhosamente, de vagabundo. Mas como, numa brincadeira, uma coisa chama outra, não poderia aqui me furtar de contar as peripécias do irmão de Bardivo: corria a inusitada história de que Albari tinha um pau enorme, descomunal, cuja cabeça lhe chegava ao joelho. A fama de Albari, aliás, do pau do negro Albari ultrapassava já as fronteiras municipais; no banheiro masculino da antiga rodoviária de Curitiba, lia-se, em chamativa tinta vermelha, a inscrição QUANDO FOR A ANTONINA, NÃO DEIXE DE CONHECER O ALBARI. Desavisado, o mijante pensaria se tratar de algum ponto turístico da pequena cidade, algo como um pico. Na verdade, tratava-se de uma pica.
Nas reuniões familiares, quando alguma coisa extraordinária acontecia ou era contada, uma amiga mais afoita invariavelmente exclamava, para gargalhada geral: é o pau do Albari! Tamanha era a fama do nosso ídolo que, numa tarde de domingo, alguns jogadores do Atlético desceram à cidade para um encontro com o Albari, no intuito de pagar uma boa grana para fotografar a avantajada jeba. Entre irritado e lisonjeado (um indisfarçável sorriso dançava-lhe nos lábios carnudos), o homem recusou-se peremptoriamente a exibir a beronga. Os jogadores, irredutíveis, foram dobrando a proposta até serem postos porta a fora. Nós, meros mortais, não conseguíamos entender por que Albari recusara aquela grana toda, digna de uma peladona da Playboy, bufunfa que lhe daria uma vida melhor (naquele tempo, a poupança rendia bons dividendos; ficávamos, na esquina da papelaria do Maurício, na farmácia do seu Carlos, no bar do Homero, calculando os lucros mensais, e juros sobre juros), além da fama nacional, quiçá internacional, planetária até, podendo ir parar no Guiness Book. Certeza absoluta, sempre soubemos disso, a cajarana de Albari era bem maior que a do russo Rasputin, o monge lúbrico. A atitude do semideus local era incompreensível, sendo que ele mesmo alimentava o mito ao movimentar, com a mão no bolso da calça de brim azul, a ponta do birro. Sim, na altura do joelho. Ou, ao sorrir, como se não estivesse nem aí, apertando um pouco os olhos de azeitona, para a ovação da molecada durante o esforço excessivo de soprar a tuba, coisa que, além de inchar as bochechas, movimentava a cabeça do cacete. Sim, na altura do joelho esquerdo. Meninos, eu vi!
Muitos anos depois, em conversa com o Dr. Gaross, o médico mais antigo da cidade, em meio a umas generosas doses de uísque, para minha decepção, já adulto, fiquei sabendo toda a verdade. Como a realidade é cruel, deitando por terra as fantasias mais caras da adolescência. A afamada estrovenga do Albari era do tamanho normal. Depois de tudo, uns despeitados ainda tiveram a ousadia de insinuar que, na verdade, o pinto do Albari era mesmo uma piroquinha de nada. Acontece que o tocador de tuba tinha a bexiga frouxa, a qual ficava vazando constantemente, pingando na cueca e, consequentemente, molhando a calça, tal e qual uma torneira velha que precisasse trocar a bucha. Valia-se ele então de uma mangueira, fechada numa das pontas, presa na cabeça do pênis, esvaziada de hora em hora. Era o artifício encontrado por Albari para levar uma vida normal, depois de vários tratamentos infrutíferos e simpatias mais ainda. Desculpem-me os amigos antoninenses, mas foi-se pelos ares mais uma lenda capelista.
Todas as cidades possuem os seus vagabundos, sendo que somente as pequenas os têm como originais, são membros da grande família que vem a ser a população de uma pequena cidade, onde todos os habitantes têm um indefinido grau de parentesco. Em Antonina, na década de 70, havia Barreano, Genésio, Caninana, Dalila Bu e Bardivo (ou Vardivo, como também era conhecido), que, com a simples presença, transformavam uma tarde insípida em mais um dia radiante ou, bem mais tarde, motivo de escritura.
O franzino Barreano, sempre em andrajos, perambulava pelas ruas da cidade, para lá e para cá, sem destino aparente, com o que lhe restava do pé direito sempre envolvido por um pedaço de papelão, amarrado com barbantes encardidos, à guisa de sapato. Ou melhor, o último resquício de uma sandália romana, de causar inveja ao artista plástico e designer Hundertwasser. Se lhe gritavam o nome, Barreano enfiava o dedo na boca, provocando, ao retirá-lo rapidamente, um estampido característico. Nunca se soube de onde ele tinha vindo; sabia-se somente que em Antonina morreria, como certamente ocorreu. Genésio, um pândego de marca maior, era capaz de peidar, sem perder o ritmo, nem a afinação, a primeira frase completa do Hino Nacional. O gran finale do pequeno show era quando um dos meninos mais velhos lhe pedia que mostrasse o ovo. Sem cerimônia, Genésio botava o saco rendido para fora e exibia algo que mais se parecia com um peludo abacate cor de carne, fruto talvez de uma caxumba mal curada. Caninana era uma mulambenta que dormia no coreto da praça, com a qual muitos garotos tiveram sua primeira experiência sexual. Já Dalila era uma desvairada que saía correndo atrás de quem lhe gritasse “Bu!”, com uma saraivada de cabeludos palavrões, desferindo varadas a torto e a direito.
Bardivo é um caso à parte. Todos sabiam que ele era irmão de Albari, o guardião da praça. Encostado nas paredes do velho casario do centro, o simpático Bardivo costumava abordar os passantes:
- Patrão, um dinheirinho para tomar uma pinguinha.
Não havia como recusar uns trocados àquele rosto sorridente e sem dentes. (Como diz a canção dos Titãs: Jesus não tem dentes no país dos banguelas). Herói que se preza, não dispensa um fiel escudeiro; Bardivo tinha Risadinha, cujo sugestivo nome vem de os pequenos dentes apontarem para fora, num eterno sorriso, aparentemente satisfeito com a vida que levava. Os transeuntes que saudavam Bardivo, faziam questão de cumprimentar também o cachorrinho Risadinha.
Albari, além de ser funcionário municipal, com a sua humilde casa de madeira, à beira do trilho, quase defronte à estação ferroviária, era também o tocador de tuba da furiosa, apresentando-se no coreto todos os finais de semana e festividades. Portanto, não se poderia chamá-lo, mesmo carinhosamente, de vagabundo. Mas como, numa brincadeira, uma coisa chama outra, não poderia aqui me furtar de contar as peripécias do irmão de Bardivo: corria a inusitada história de que Albari tinha um pau enorme, descomunal, cuja cabeça lhe chegava ao joelho. A fama de Albari, aliás, do pau do negro Albari ultrapassava já as fronteiras municipais; no banheiro masculino da antiga rodoviária de Curitiba, lia-se, em chamativa tinta vermelha, a inscrição QUANDO FOR A ANTONINA, NÃO DEIXE DE CONHECER O ALBARI. Desavisado, o mijante pensaria se tratar de algum ponto turístico da pequena cidade, algo como um pico. Na verdade, tratava-se de uma pica.
Nas reuniões familiares, quando alguma coisa extraordinária acontecia ou era contada, uma amiga mais afoita invariavelmente exclamava, para gargalhada geral: é o pau do Albari! Tamanha era a fama do nosso ídolo que, numa tarde de domingo, alguns jogadores do Atlético desceram à cidade para um encontro com o Albari, no intuito de pagar uma boa grana para fotografar a avantajada jeba. Entre irritado e lisonjeado (um indisfarçável sorriso dançava-lhe nos lábios carnudos), o homem recusou-se peremptoriamente a exibir a beronga. Os jogadores, irredutíveis, foram dobrando a proposta até serem postos porta a fora. Nós, meros mortais, não conseguíamos entender por que Albari recusara aquela grana toda, digna de uma peladona da Playboy, bufunfa que lhe daria uma vida melhor (naquele tempo, a poupança rendia bons dividendos; ficávamos, na esquina da papelaria do Maurício, na farmácia do seu Carlos, no bar do Homero, calculando os lucros mensais, e juros sobre juros), além da fama nacional, quiçá internacional, planetária até, podendo ir parar no Guiness Book. Certeza absoluta, sempre soubemos disso, a cajarana de Albari era bem maior que a do russo Rasputin, o monge lúbrico. A atitude do semideus local era incompreensível, sendo que ele mesmo alimentava o mito ao movimentar, com a mão no bolso da calça de brim azul, a ponta do birro. Sim, na altura do joelho. Ou, ao sorrir, como se não estivesse nem aí, apertando um pouco os olhos de azeitona, para a ovação da molecada durante o esforço excessivo de soprar a tuba, coisa que, além de inchar as bochechas, movimentava a cabeça do cacete. Sim, na altura do joelho esquerdo. Meninos, eu vi!
Muitos anos depois, em conversa com o Dr. Gaross, o médico mais antigo da cidade, em meio a umas generosas doses de uísque, para minha decepção, já adulto, fiquei sabendo toda a verdade. Como a realidade é cruel, deitando por terra as fantasias mais caras da adolescência. A afamada estrovenga do Albari era do tamanho normal. Depois de tudo, uns despeitados ainda tiveram a ousadia de insinuar que, na verdade, o pinto do Albari era mesmo uma piroquinha de nada. Acontece que o tocador de tuba tinha a bexiga frouxa, a qual ficava vazando constantemente, pingando na cueca e, consequentemente, molhando a calça, tal e qual uma torneira velha que precisasse trocar a bucha. Valia-se ele então de uma mangueira, fechada numa das pontas, presa na cabeça do pênis, esvaziada de hora em hora. Era o artifício encontrado por Albari para levar uma vida normal, depois de vários tratamentos infrutíferos e simpatias mais ainda. Desculpem-me os amigos antoninenses, mas foi-se pelos ares mais uma lenda capelista.
Assinar:
Postagens (Atom)
