quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
O MUSEU DE CERA
Edson Negromonte
Quando minha família chegou em Antonina, no início de 1969, no mês de fevereiro, uma das primeiras coisas que fiz foi andar pelas ruas estreitas, de irregulares e centenários paralelepípedos, ainda solitário, sem amigos, sem saber de ninguém. Perambulava, a esmo, quando fui atraído por um murmúrio deveras afetuoso ao meu coração, o marulho do mar. Cheguei assim lentamente ao trapiche em frente ao Mercado Municipal, abri os braços e disse, para mim mesmo, sem que percebesse no momento a verdade por trás desta constatação:
– Eu nasci aqui, esta é a minha terra...
De que recônditos da mente surgira tal ideia? Talvez do, até então inesperado, sentimento cigano de expatriação, de desterro em minha própria terra. Catarinense, nascido em Canoinhas, perto da divisa com o Paraná, mudei-me ainda criança para Blumenau, depois São Francisco do Sul (cidade litorânea onde fiz o primeiro ano primário), para mudar-me para Niterói, às margens da baía da Guanabara, de algumas boas lembranças e pouquíssimos amigos, os quais foram definitivamente deixados para trás. Em nossas mudanças, levávamos somente a bagagem de mão. Agora, aos quinze anos, encontrava-me de novo na encruzilhada de uma cidade aparentemente estranha, mas de posse da terrível clarividência de que a terra antoninense era a minha pátria, a terra natal, o berço que eu tanto buscara, o acalanto que se ouve à noite sem saber de que doce boca materna vem. Postado no trapiche, braços abertos em cruz, eu não podia em sã consciência assegurar que as águas lamacentas da pequena baía eram mais azuis que as de São Francisco; as águas da baía de Antonina eram lodosas, escuras, paradas, mas somente a mim pertenciam, com o cheiro fétido de seres marinhos em decomposição, baixios à mostra na vazante, as pobres canoas dos pescadores das ilhas próximas, o falar característico das sílabas escandidas. Era a repentina volta a mim mesmo, ao mais íntimo do meu ser, ao odor pútrido dos lodaçais do coração. Lembro-me nitidamente de, nos primeiros meses, andar sozinho pelas ruas, apesar de já conhecer várias pessoas, desembocando invariavelmente no trapiche, entretendo-me com o fluxo e refluxo das marés, com a movimentação dos astros. Sorvia primeiro, em pequenos e tímidos haustos, a liberdade nunca antes permitida, porque desconhecida. Em seguida, com volúpia, inalava em espirais o ar, sentindo o próprio corpo impregnado da sensação pegajosa e sensual do salitre, do almejado voo da alma até a Ilha do Corisco, o humilde local onde teve origem a doce Antonina.
Passavam-se, assim, os dias, os meses, mornos, chuvosos, úmidos, untuosos, escorregadios, quando chegou agosto, o mês em que os habitantes começam os preparativos para as comemorações do dia 15, a tradicional Festa de Nossa Senhora do Pilar, a padroeira da cidade. Inúmeras barracas ofereciam doces, cocadas, pés de moleque, paçoca caseira, churros recheados com creme de leite, comidas típicas da região, como o barreado e o caldo de siri, miudezas, e muitas quinquilharias, desde brinquedos de corda, como sapos que saltavam e passarinhos que batiam as asas, de corda, feitos de lata, até nojentos cocôs de papel machê (um desses enfeitou, durante muito tempo, o tampo da minha escrivaninha). Acontecia, ainda, um grande foguetório, principalmente na igreja matriz, o qual em nada ficava devendo em poesia e esplendor à composição "Feux d'artifice", de Debussy. E nem mesmo aos canhonaços da "Abertura 1812", de Tchaikóvski. As barracas rodeavam a praça principal, mas cada desvão de rua podia esconder uma tenda improvisada, cheia de novidades, com um estrangeiro ávido pelo nosso pouco dinheiro, disposto a fazer descontos que chegavam às raias do desconfiável. Ou assim pensávamos, pois o confiável vendedor jurava até mesmo por Alá. Ou assim nos fazia crer, em sua fala arrevesada. Portas, antes fechadas, sequer percebidas, abrigavam agora universos, nas quais eu, em meus devaneios, eu lia a advertência "Só para Loucos", “Só para Raros”, motivado pelas leituras de "O Lobo da Estepe", de Hermann Hesse. Noutras, havia um grande X, pintado com a cal medieval. Os caprichos da mente adolescente são o fermento mais eficiente para a possível escritura do adulto de amanhã. Então, tomado do espírito exploratório típico da idade, adentrei uma porta, ao lado do Hotel Cristina, no final da Ladeira Ildefonso. Pintada em caracteres fantasiosos, em vermelho e amarelo, quase circenses, uma plaqueta anunciava Extraordinário Museu de Cera. Ao me acostumar com a penumbra reinante, divisei o vulto de um homem, velho, meio arqueado pelo peso da idade, que andava para lá e para cá, agitado, numa azáfama incessante, dando os últimos retoques no seu ganha-pão, com o qual ele mercadejava pelas cidades do interior do país. Ao ver-me, apesar da correria, foi cortês, dizendo-me que ficasse à vontade e, como o museu ainda não estava funcionando, eu não precisaria pagar a entrada. Mas com uma condição, a de que eu, agora um improvisado arauto, transmitisse a boa-nova à população.
Para a minha imaginação fantasiosa, nem mesmo o museu de Madame Tussauds era capaz de superar em grandeza as figuras ali expostas. Até mesmo os Beatles estavam ali, inclusive o sempre preterido Ringo, sentado à bateria, baquetas em punho, rufando tambores, batendo nos pratos. Olhavam-me, de alto a baixo, o presidente Vargas, de pijama listrado, uma mancha de sangue e pólvora no peito; Lampião e Maria Bonita (nossa, ela era bonita mesmo!), vestidos a caráter, de roupas cáqui de cangaceiro, cinturões carregados de balas de fuzil, acompanhados de Corisco, o Diabo Loiro. E Dadá Maria, cadê? Mais o presidente Kennedy, de cara de louça, tendo ao lado a atriz Marilyn Monroe, preocupada em baixar o vestido branco, pregueado, cuja calcinha, aliás, calçola, um ventilador inconveniente fazia questão de expor. Tinha ainda o topetudo Elvis Presley, de violão em punho; engrolando "Blue Suede Shoes", Roberto Carlos e Wanderléa, também o Zorro, a raposa da Califórnia, de roupa negra de cetim, capa e espada, botas de couro; um recém-modelado presidente Costa e Silva, o qual desaparecera num voo aéreo, talvez abduzido por forças alienígenas; Frankenstein, com a cara de Boris Karloff; o imponente chefe índio Touro Sentado, até o maldito Adolf Hitler, de mão estendida, gritando uma ordem qualquer em alemão, entre tantas outras personalidades. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi uma porta de ferro, aparentemente proibida, encimada por um pequeno gradil, também de ferro, sobre a qual piscava uma lâmpada vermelha. Sem que o velho percebesse, puxei um caixote. Subi e, estarrecido, dentro de um cubículo, vi um homem sendo eletrocutado, amarrado a uma cadeira elétrica.
– Sabe quem é?
– Não...
– Caryl Chessman, o Bandido da Luz Vermelha! – disse o dono do museu, com um sorriso de incontida satisfação. – Não está perfeito?
Frente ao meu ignorante silêncio, ele retirou-se contrariado, retomando os preparativos. Como poderia eu dar algum parecer? Era a primeira vez que ouvia sobre o tal bandido. Naquele tempo, bandido para mim era somente Billy the Kid. E olhe lá. Nem mesmo Cara de Cavalo eu via com tanta nitidez. Lembro-me de quando eu e meu primo subimos o Morro do Cavalão, em Niterói, em busca de Cara de Cavalo, depois que uma prima mais velha contou-nos que ele lá se encontrava escondido. Muitos anos mais tarde fui compreender porque Cara de Cavalo era uma espécie de herói para a classe média, quando deparei nas páginas de um livro sobre arte brasileira com a obra de Hélio Oiticica: "Seja Marginal, Seja Herói", cujo estandarte mostrava o bandido caído, baleado. Em tempos estrangulados, como os que vivíamos, sob uma sangrenta ditadura militar, que transformava verdadeiros defensores da pátria, como os guerrilheiros do Araguaia, em bandidos com cabeça a prêmio, os artistas vingavam-se transformando bandidos populares em heróis.
Ao voltar para casa, entusiasmado com o que vira no museu, deixei minha irmã radiante. Aos doze anos, apaixonada por Paul McCartney, essa era a chance única de vê-lo em carne e osso. Sim, em carne e osso, tal era a perfeição das figuras expostas. Inflamado pela imaginação, cheguei a segredar-lhe que poderíamos vê-lo sangrar, se ela quisesse. Bastava levarmos um canivete escondido. Repeliu horrorizada a ideia. E tanto insistiu a betlemaníaca que tive de levá-la imediatamente ao local; ela precisava conhecer pessoalmente o ídolo.
Ao entrarmos, o dono do museu arregalou os olhos miúdos e não os despregou mais de minha irmã. A qualquer ponto que nos dirigíamos, lá estavam os dois olhinhos nos observando, como se fôssemos capazes de roubar a estátua de Paul McCartney. Inocentemente, minha pequena irmã só tinha olhos para o beatle, voltando a ele de vez em quando, tocando-lhe o terno, a mão, sorrindo para mim, sorrindo consigo mesma, sorrindo para ele. Era tocante vê-la assim, como um anjinho que estendesse a mão ao Anjo da Guarda. Íamos e voltávamos, de uma figura à outra, encantados, como se, de um momento para outro, todos fossem adquirir vida. E sairiam, então, andando em nossa direção, cumprimentando-nos. Daí, então, ouviríamos "Ticket to Ride", "Help" e "Splish Splash", costuradas por um discurso do Führer, entre os raios e trovões de um antigo filme de terror, em preto e branco, que nos daria vida. Quando fizemos menção de sair, o dono do museu correu pressuroso em nossa direção:
– Peça permissão ao seu pai que deixe sua irmãzinha posar para mim. Ela será modelo para a mulher do Zorro. Eu estive buscando essas feições em
minhas andanças.
Meu pai concordou, desde que eu a acompanhasse e não desgrudasse os olhos dela, em momento algum. Ao seu lado permaneci durante uma manhã inteira, enquanto o homem modelava, em cera, o rosto de minha irmã. Avisou-nos que, no dia seguinte, poderíamos entrar de graça, para admirar a obra. Conforme combinado, depois do almoço, lá estávamos os dois, com nossos pais, curiosos. Magnífica a semelhança! Era como se víssemos a nossa pequena ali: cabelos castanhos escuros, olhos de jabuticaba e pele cor de jambo. Mas, para mim, alguma coisa não estava de acordo, algo me incomodava, havia naquela sinfonia uma nota dissonante. É que, apesar do frescor do semblante, em tudo igual ao original, a minha irmãzinha, de doze anos, adquirira, de um dia para o outro, corpo de mulher, pernas longas, e insuspeitados peitos... De cera, é claro!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
PAIS NÃO MENTEM JAMAIS
Edson Negromonte
Minha filha Cárita veio visitar-nos. Ela chegou depois dos irmãos, por ocasião das festas de fim de ano. E, como sempre acontece nessas reuniões familiares, ficamos a lembrar das nossas peripécias, bagunças e aventuras. As lembranças são quase sempre as mesmas, repetem-se, mas não nos cansamos de contar e recontá-las. E sempre rimos muito, como se fosse a primeira vez. Uma das minhas passagens favoritas, que sempre faço questão de contar, prima pela singeleza: as três crianças (o caçula Augusto viria alguns anos depois) já estavam aboletadas dentro do Fusca, prontas para passear, quando, olhando pela janela do carro, Gabriel, o menor de todos, ainda atrapalhado com as palavras, mas já um romântico inveterado, disse:
– Pai, precisamos fazer, um dia, um niquepique.
– Hahaha, é piquininique, Biel! – exclamou Tárik, do alto dos seus sete anos, o catedrático já estava na primeira série escolar!
– Ai, como vocês são burros! É nipinipique – corrigiu-os Cárita. – Não é, pai?! – perguntou-me imediatamente, em busca de confirmação.
A única menina em meio a três meninos (não, eu não sou o terceiro menino. Agora, Augusto já tinha nascido), é claro que ela não poderia jamais tomar gosto por bonecas. As suas brincadeiras eram de revólver de espoleta em punho, trepando em árvores e jogando goiabas verdes nos desavisados que passavam pela rua. De vez em quando, movida por um inesperado sentimento materno, tirava as bonecas, poucas, de baixo da cama, onde dormiam um sono quase eterno, e, em vez de embalá-las para dormir, pintava-lhes os olhos com caneta esferográfica azul, deixando-as parecidas com palhaços de um circo mambembe, algo assim como a pintura facial de Alice Cooper. Logo em seguida, as suas pobres filhas choravam, pedindo para voltar ao agradável limbo de onde tinham sido repentinamente arrancadas. E Cárita (o seu nome foi-me inspirado pela canção "O Caritas", de Cat Stevens, além de ser um anagrama de Tárik) podia assim retornar às brincadeiras com os meninos, às molecagens, às cetras, bolas de gude e aeroplanos improvisados em caixas de papelão e madeira.
Ao mudar para uma chácara, em Mato Dentro, tomamos gosto pela pescaria. Havia, num sítio mais adiante, seguindo três quilômetros adentro por uma convidativa estradinha de terra, um tanque cheio de carás e tilápias, com paturis brincando na margem oposta. Ao voltarmos para casa, depois de limpos, os peixinhos eram saboreados, fritos, acompanhados de arroz branco, farinha de mandioca e limonada bem doce. Íamos todas as vezes por essa estradinha, como os personagens de "O Mágico de Oz", cantarolando bem alto, a plenos pulmões (nossa canção favorita era "Volare", ocasião em que botávamos a boca no mundo, num italiano deveras macarrônico. Sem sabermos a letra, inventávamos mais um dialeto). E voltávamos já no final da tarde; de quando em quando nos calávamos para dar vez aos passarinhos, que piavam incomodados com a nossa cantoria ou, talvez, quem sabe, dela compartilhando, fazendo backing vocals. No pasto ao lado da estrada, Cárita ia, a certa distância, colhendo morangos silvestres, como uma Chapeuzinho Vermelho que comia os doces em vez de levá-los à vovozinha. Enquanto isso, sem que ela percebesse, nós, os homens, os valentões, apertávamos aos poucos o passo. De repente, olhávamos para trás e, de olhos arregalados, gritávamos:
– Ai, meu Deus!
Saíamos correndo, fingindo ver algum abominável ser das trevas ao longe, na curva da estrada. Ela, correndo atrás de nós, sem olhar para trás, horrorizada, chorosa, ameaçava, pedras zunindo passavam rentes às nossas cabeças:
– Eu vou contar pra mãe, quando chegar em casa! Ela vai bater em vocês!
Rimos muito disso tudo naquele tempo e continuamos rindo até hoje, como se tivesse acontecido ontem. Basta nos encontrarmos para contarmos as mesmas velhas e originais histórias. O interessante é que não nos cansamos, as nossas histórias conservam um frescor que algumas pessoas não entendem. Algumas chegam ao desplante de dizer que já as conhecem. Como pode isso, se nós, os protagonistas, ainda não as sabemos? Que saudade das caçadas de rã, com lanternas, sem intenção de comê-las, mas somente observá-las e dar risada dos seus olhinhos esbugalhados, ou do nosso escorregador improvisado, deslizando sobre papelão na grama de um barranco que ia dar na exígua calçada da movimentada e perigosa Avenida Nove de Julho (quanta adrenalina!) ou das lições sobre o medo, quando, à noite, eu pedia para eles irem buscar algum objeto no segundo andar do sobrado onde então morávamos, totalmente às escuras. Desciam os degraus aos trambolhões, aterrorizados pelo grito fantasmagórico ao pé da escada.
– Viram como não existe fantasma? Não existe alma do outro mundo! Foi o pai que gritou! – eu esclarecia e repetia, então, o grito, conseguindo provocar-lhes ainda alguns calafrios. O medo é inerente ao ser humano. É tolo tentar escondê-lo de si mesmo, pois o medo deve ser encarado de frente. O verdadeiro guerreiro é aquele que sabe que tem medo, mas é capaz de enfrentá-lo.
Muitos nos achavam parecidos com a Família Addams, da TV; isso era para nós uma lisonja. Pena que jamais conseguimos ter uma mãozinha tão prestativa. Ou um mordomo que nos perguntasse, com voz cavernosa: – Chamou? O livro para leitura na hora de dormir, a nossa nursery rhyme, era, na grande maioria das vezes, um que dizia mais ou menos assim:
Lá vem vindo o curioso,
Que será que vai achar?
Um tesouro precioso
Ou coisas de arrepiar!
Pena eu não lembrar mais o nome do autor ou autora. À frase final, seguiam-se os gritos dos meninos, podendo aí incluir o pai das crianças, que era nesse momento o mais gritalhão. Essa quadrinha era lida, relida e treslida, lida às avessas, várias vezes, antes de o sono chegar. Que sono repousante o das minhas crianças! Nosso esporte diário era pular no velho colchão de molas da cama de casal, ao som de músicas, como "Artigo 26", de Ednardo, "Pula, Caminha", de Gilberto Gil, e "Rock da Barata", de Jorge Mautner. Pulávamos, saltávamos, dávamos cabeçadas, uns nos outros, na parede, caíamos da cama, chorávamos, ríamos... Nosso presépio tinha as figuras tradicionais da festa cristã, acompanhadas de um monstruoso Godzilla, o qual trazia respeitosamente nas garras o menino Jesus, enquanto os três reis magos, em busca da estrela-guia, eram seguidos por bonequinhos de Batman, Robin, Super-homem, Mulher-Maravilha, Hulk, Snoopy e Chapolim Colorado. As pessoas da família e as visitas ficavam estarrecidas, assegurando-nos que isso era pecado, blasfêmia, que seríamos punidos até a quarta geração. Eu ria muito disso tudo, secundado pelos pirralhos. Sempre fiz questão de ensiná-los que o pecado só existe na cabeça das pessoas. Em que os santos são superiores ao King Kong ou ao monstro da Lagoa Negra, também capazes de se expor à intransigência humana por causa de um amor incompreendido? Assim levávamos a vida, na galhofa. Um dia, inventávamos de criar piranhas no aquário. Noutro, faríamos criação de plantas carnívoras. Isto, depois de assistir a "A Pequena Loja dos Horrores", no nosso videocassete, onde nos deliciávamos também com dráculas, frankensteins, pinóquios, faroestes, seres do espaço exterior e pernalongas, ursinhos puff, fadas azuis e estranhos anõezinhos que dançavam para trás e falavam ao contrário. Grande deus dos cachorros pulguentos, como éramos felizes!
Adoráveis anos de estripulias, peripécias, aventuras e fantasia, quando pude ser mais criança que todos eles juntos, como um irmão mais velho, na encruzilhada entre o folguedo e a educação, ou como um adulto perdido, mas algumas vezes consciente da responsabilidade de orientador das pequeninas almas sob as minhas asas, pai que jogou na lata de lixo todos os manuais, emílios, heloísas, summerhills, sem saber se o que estava fazendo era certo ou errado, bom ou ruim, positivo ou negativo, movido tão somente pela necessidade de acertar onde as gerações anteriores tinham falhado, disposto a inaugurar uma nova e temerária concepção de educação infantil. Então, deixando de divagações, na última noite deste ano, minha filha, já adulta, perguntou-me à queima-roupa, com seus inquiridores olhos verdes, capazes de perscrutar o mais recôndito da minha alma:
– Pai, me responde uma coisa. É mesmo verdade aquela história de Antonina, do homem que no Portinho criava sacis dentro de garrafa?
Minha filha Cárita veio visitar-nos. Ela chegou depois dos irmãos, por ocasião das festas de fim de ano. E, como sempre acontece nessas reuniões familiares, ficamos a lembrar das nossas peripécias, bagunças e aventuras. As lembranças são quase sempre as mesmas, repetem-se, mas não nos cansamos de contar e recontá-las. E sempre rimos muito, como se fosse a primeira vez. Uma das minhas passagens favoritas, que sempre faço questão de contar, prima pela singeleza: as três crianças (o caçula Augusto viria alguns anos depois) já estavam aboletadas dentro do Fusca, prontas para passear, quando, olhando pela janela do carro, Gabriel, o menor de todos, ainda atrapalhado com as palavras, mas já um romântico inveterado, disse:
– Pai, precisamos fazer, um dia, um niquepique.
– Hahaha, é piquininique, Biel! – exclamou Tárik, do alto dos seus sete anos, o catedrático já estava na primeira série escolar!
– Ai, como vocês são burros! É nipinipique – corrigiu-os Cárita. – Não é, pai?! – perguntou-me imediatamente, em busca de confirmação.
A única menina em meio a três meninos (não, eu não sou o terceiro menino. Agora, Augusto já tinha nascido), é claro que ela não poderia jamais tomar gosto por bonecas. As suas brincadeiras eram de revólver de espoleta em punho, trepando em árvores e jogando goiabas verdes nos desavisados que passavam pela rua. De vez em quando, movida por um inesperado sentimento materno, tirava as bonecas, poucas, de baixo da cama, onde dormiam um sono quase eterno, e, em vez de embalá-las para dormir, pintava-lhes os olhos com caneta esferográfica azul, deixando-as parecidas com palhaços de um circo mambembe, algo assim como a pintura facial de Alice Cooper. Logo em seguida, as suas pobres filhas choravam, pedindo para voltar ao agradável limbo de onde tinham sido repentinamente arrancadas. E Cárita (o seu nome foi-me inspirado pela canção "O Caritas", de Cat Stevens, além de ser um anagrama de Tárik) podia assim retornar às brincadeiras com os meninos, às molecagens, às cetras, bolas de gude e aeroplanos improvisados em caixas de papelão e madeira.
Ao mudar para uma chácara, em Mato Dentro, tomamos gosto pela pescaria. Havia, num sítio mais adiante, seguindo três quilômetros adentro por uma convidativa estradinha de terra, um tanque cheio de carás e tilápias, com paturis brincando na margem oposta. Ao voltarmos para casa, depois de limpos, os peixinhos eram saboreados, fritos, acompanhados de arroz branco, farinha de mandioca e limonada bem doce. Íamos todas as vezes por essa estradinha, como os personagens de "O Mágico de Oz", cantarolando bem alto, a plenos pulmões (nossa canção favorita era "Volare", ocasião em que botávamos a boca no mundo, num italiano deveras macarrônico. Sem sabermos a letra, inventávamos mais um dialeto). E voltávamos já no final da tarde; de quando em quando nos calávamos para dar vez aos passarinhos, que piavam incomodados com a nossa cantoria ou, talvez, quem sabe, dela compartilhando, fazendo backing vocals. No pasto ao lado da estrada, Cárita ia, a certa distância, colhendo morangos silvestres, como uma Chapeuzinho Vermelho que comia os doces em vez de levá-los à vovozinha. Enquanto isso, sem que ela percebesse, nós, os homens, os valentões, apertávamos aos poucos o passo. De repente, olhávamos para trás e, de olhos arregalados, gritávamos:
– Ai, meu Deus!
Saíamos correndo, fingindo ver algum abominável ser das trevas ao longe, na curva da estrada. Ela, correndo atrás de nós, sem olhar para trás, horrorizada, chorosa, ameaçava, pedras zunindo passavam rentes às nossas cabeças:
– Eu vou contar pra mãe, quando chegar em casa! Ela vai bater em vocês!
Rimos muito disso tudo naquele tempo e continuamos rindo até hoje, como se tivesse acontecido ontem. Basta nos encontrarmos para contarmos as mesmas velhas e originais histórias. O interessante é que não nos cansamos, as nossas histórias conservam um frescor que algumas pessoas não entendem. Algumas chegam ao desplante de dizer que já as conhecem. Como pode isso, se nós, os protagonistas, ainda não as sabemos? Que saudade das caçadas de rã, com lanternas, sem intenção de comê-las, mas somente observá-las e dar risada dos seus olhinhos esbugalhados, ou do nosso escorregador improvisado, deslizando sobre papelão na grama de um barranco que ia dar na exígua calçada da movimentada e perigosa Avenida Nove de Julho (quanta adrenalina!) ou das lições sobre o medo, quando, à noite, eu pedia para eles irem buscar algum objeto no segundo andar do sobrado onde então morávamos, totalmente às escuras. Desciam os degraus aos trambolhões, aterrorizados pelo grito fantasmagórico ao pé da escada.
– Viram como não existe fantasma? Não existe alma do outro mundo! Foi o pai que gritou! – eu esclarecia e repetia, então, o grito, conseguindo provocar-lhes ainda alguns calafrios. O medo é inerente ao ser humano. É tolo tentar escondê-lo de si mesmo, pois o medo deve ser encarado de frente. O verdadeiro guerreiro é aquele que sabe que tem medo, mas é capaz de enfrentá-lo.
Muitos nos achavam parecidos com a Família Addams, da TV; isso era para nós uma lisonja. Pena que jamais conseguimos ter uma mãozinha tão prestativa. Ou um mordomo que nos perguntasse, com voz cavernosa: – Chamou? O livro para leitura na hora de dormir, a nossa nursery rhyme, era, na grande maioria das vezes, um que dizia mais ou menos assim:
Lá vem vindo o curioso,
Que será que vai achar?
Um tesouro precioso
Ou coisas de arrepiar!
Pena eu não lembrar mais o nome do autor ou autora. À frase final, seguiam-se os gritos dos meninos, podendo aí incluir o pai das crianças, que era nesse momento o mais gritalhão. Essa quadrinha era lida, relida e treslida, lida às avessas, várias vezes, antes de o sono chegar. Que sono repousante o das minhas crianças! Nosso esporte diário era pular no velho colchão de molas da cama de casal, ao som de músicas, como "Artigo 26", de Ednardo, "Pula, Caminha", de Gilberto Gil, e "Rock da Barata", de Jorge Mautner. Pulávamos, saltávamos, dávamos cabeçadas, uns nos outros, na parede, caíamos da cama, chorávamos, ríamos... Nosso presépio tinha as figuras tradicionais da festa cristã, acompanhadas de um monstruoso Godzilla, o qual trazia respeitosamente nas garras o menino Jesus, enquanto os três reis magos, em busca da estrela-guia, eram seguidos por bonequinhos de Batman, Robin, Super-homem, Mulher-Maravilha, Hulk, Snoopy e Chapolim Colorado. As pessoas da família e as visitas ficavam estarrecidas, assegurando-nos que isso era pecado, blasfêmia, que seríamos punidos até a quarta geração. Eu ria muito disso tudo, secundado pelos pirralhos. Sempre fiz questão de ensiná-los que o pecado só existe na cabeça das pessoas. Em que os santos são superiores ao King Kong ou ao monstro da Lagoa Negra, também capazes de se expor à intransigência humana por causa de um amor incompreendido? Assim levávamos a vida, na galhofa. Um dia, inventávamos de criar piranhas no aquário. Noutro, faríamos criação de plantas carnívoras. Isto, depois de assistir a "A Pequena Loja dos Horrores", no nosso videocassete, onde nos deliciávamos também com dráculas, frankensteins, pinóquios, faroestes, seres do espaço exterior e pernalongas, ursinhos puff, fadas azuis e estranhos anõezinhos que dançavam para trás e falavam ao contrário. Grande deus dos cachorros pulguentos, como éramos felizes!
Adoráveis anos de estripulias, peripécias, aventuras e fantasia, quando pude ser mais criança que todos eles juntos, como um irmão mais velho, na encruzilhada entre o folguedo e a educação, ou como um adulto perdido, mas algumas vezes consciente da responsabilidade de orientador das pequeninas almas sob as minhas asas, pai que jogou na lata de lixo todos os manuais, emílios, heloísas, summerhills, sem saber se o que estava fazendo era certo ou errado, bom ou ruim, positivo ou negativo, movido tão somente pela necessidade de acertar onde as gerações anteriores tinham falhado, disposto a inaugurar uma nova e temerária concepção de educação infantil. Então, deixando de divagações, na última noite deste ano, minha filha, já adulta, perguntou-me à queima-roupa, com seus inquiridores olhos verdes, capazes de perscrutar o mais recôndito da minha alma:
– Pai, me responde uma coisa. É mesmo verdade aquela história de Antonina, do homem que no Portinho criava sacis dentro de garrafa?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
EM QUE MUNDO VOCÊ VIVE?
Edson Negromonte
Gaetano Moricone chegara bem aos 70. Tinha saúde, embora o tabaco lhe cobrasse o preço: a voz enrouquecida, o pulmão esquerdo funcionando pela metade, perda do paladar, tosse. Menos a memória, esta continuava cumprindo seu papel: não deixá-lo só; era a fiel companheira. A chegada à idade avançada não era, para ele, motivo de comemoração. Os amigos, aqueles que lembravam ainda da data, quando o encontravam na rua, sequer lhe davam parabéns. Pouco importava; era melhor que o esquecessem. Estava bem assim, eximia-o de responsabilidade.
Gaetano não casara. Os parentes que lhe restavam (a irmã mais velha, dois sobrinhos), tinha-os banido, desde que tentaram se imiscuir em sua vida, importunando-o com conselhos baratos. Para que servem as pessoas? Para nos entediar com seus achaques, os mais velhos. E os mais novos, com a sua vivacidade, comprometem ainda mais o tempo que nos resta. Preferia assim, quisera o viver solitário. Tinha apreço pelos livros, pela poesia, independente de escolas, mas principalmente por Ovídio. Embora soubesse “Metamorfoses” de cor, a cada leitura descobria novas inflexões. Não se considerava um latinista. No início, para lê-lo no original, fez uso de dicionários, gramáticas, edições bilíngues. Leitor ávido desde a adolescência, agora fazia uso de uma lupa. O enfraquecimento da visão, o médico atribuía mais à constante fumaça do cigarro que à idade.
A monotonia da casa era quebrada somente pelo ronronar de Publius, pouco afeito a carícias. Gaetano jamais suportaria um gato se enrodilhando em suas pernas, carente. Entendiam-se bem assim e isso lhes bastava. Pela manhã, leite morno com pão picado; uma tigela para Gaetano, outra para o bichano. Publius surgira, vindo sabe-se lá de onde, de que becos, aparentemente sem dono. Como ninguém o reclamara, foi ficando. Gaetano tinha certeza de que Publius iria embora um dia, sem mais nem menos. Por quê? Pela simples razão de que tudo é transitório. Cortinas semicerradas, a sala da casa tinha uma mesa, atulhada de livros, duas cadeiras de palha, um pequeno sofá de dois lugares. E ironicamente, no canto, uma namoradeira, ocupada pelos 32 volumes da “História Universal”, de Césare Cantu. Nas paredes de madeira, verdes, descascadas, nem um único quadro, coisa que à primeira vista denota uma alma desprovida de encantos. No assoalho, um tapete descorado. As estantes exibiam um grande número de lombadas pardacentas. Gaetano gostava das coisas assim, cada qual no seu lugar, sem surpresas. De madrugada, mesmo com a luz da sala apagada, era capaz de encontrar o livro procurado: satisfação infantil de uma criança cega. Nessas horas insones, de leitura até altas horas, era grato à vida por lhe ter roubado a chance de uma família, uma esposa, filhos pequenos, essa minúscula oportunidade que entrevira certa ocasião: de ser um homem comum. Não, ele não legaria a ninguém a herança de suas mazelas quando atravessasse à outra margem do rio, obscura. Não teve nunca ninguém para incomodá-lo com a arrumação da casa, a poeira acumulada nos cantos, hora de dormir, de acordar, essa aporrinhação do dia-a-dia na qual o homem comum tanto se compraz. Mesmo assim, acordava todos os dias muito cedo. Escovava os dentes, aliás, a dentadura, lavava o rosto na água fria, bebia um copo de água fresca. Antes do banho matinal, religiosamente olhava para o céu e murmurava:
– Puta que pariu!
Por certo, não era blasfêmia. Aprendera com o agnosticismo caboclo do avô que, se um homem não tem nada a dizer, ao se levantar, que diga então qualquer coisa, para não deixar passar em brancas nuvens a ocasião de se mostrar vivo ao Criador. O avô lhe ensinara muitas coisas: encilhar cavalos, a longevidade do bebedor de mate, a carneação do porco, o ritmo dos trens, a linguagem dos apitos. Todas essas coisas, Gaetano fizera questão de esquecer, após a morte do velho. Para que cultivá-las, se não eram de serventia para o solitário que ele se tornara? Das lições avoengas, conservou somente a saudação ao dia.
Duas leves pancadinhas na porta. Quem seria? Gente boa, os vizinhos não tinham por hábito incomodá-lo, sabiam que ele não era afeito a visitas. Muito menos as inesperadas. Novas pancadinhas; agora três, breves, seguidas de outras duas, longas, como arte de telegrafista. Pensou em não atender, fazer de conta que não estava em casa. A pessoa do outro lado insistia.
– Quem é?
– Eu preciso falar com o senhor.
Abriu a porta, contrariado. A garota esboçou um risinho infantil.
– Posso entrar?
– O que você quer?
Ela continuou sorrindo.
– Eu vim saber se o senhor pode me dar aulas particulares.
– Aulas particulares?!
– É que eu vou prestar vestibular no ano que vem e... como o meu português não é dos melhores...
– Mas eu não sou professor de nada, me aposentei pela ferrovia.
– Eu sei, eu sei, mas não tem mais ninguém na cidade que possa me ajudar. Sabe como é, né?
– Não sei não, não sei mesmo.
Já tinham lhe dito do mau humor de Gaetano, mas ela estava disposta a tê-lo como mestre, ele era tido como o intelectual da cidade.
– Eu li o seu livro...
– Ah, é?
– Gostei muito, apesar de não entender grande coisa.
– E qual o título? – disse ele, em tom de desafio.
– “A Maldição da Poesia”.
– Não seria talvez “A Má Dicção da Poesia”?
– Posso entrar?
Sem esperar resposta, a garota embarafustou-se casa adentro; Gaetano teve tempo somente de dar um passo atrás. Ela sentou-se no sofá, indiferente à poeira, fez um breve cafuné no gato que languidamente virou a barriga para cima, à espera de mais afagos, os quais não se repetiram. Os olhos azuis da garota passearam pela sala, pelos móveis, os poucos objetos de adorno (Santa Clara, em gesso pintado; Leda e o cisne, de bronze; uma moldura pequena e antiga, com o retrato de um casal, talvez os pais dele), o prato sobre a mesa, fundo, a colher acomodada na beirada, a xícara de café, outra xícara, mais outra... A garota Imaginou uma marimba improvisada com o que restasse de café nas xícaras. Ela esboçou um lindo sorriso, ante o suposto disparate dos sons. Definitivamente, concluiu apressada, não havia há muito tempo, naquela casa, a presença feminina, nem mesmo de uma empregada. Deteve, então, o olhar na primeira estante.
– Quanto livro!
Gaetano não pode deixar de sentir orgulho. Então, as mulheres, enquanto meninas, são capazes de se interessar por livros? Os olhos sem descanso da garota percorreram as outras estantes.
– Mais livros? Para que tantos?
Por certo, são todas iguais, em qualquer idade. Gaetano não escondeu a irritação, num leve aperto dos lábios. Ora, para que tantos? A garota fez de conta que nem era com ela.
– Os livros...
– Não precisa explicar, eu também amo os livros. A meu modo, mas amo, assim como amei minhas bonecas um dia.
– Os livros são...
– Olha, eu vim aqui para saber se você... o senhor... pode me dar aulas particulares.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Não sei, simples, não sei. Nunca dei aula particular. A minha vida foi sempre a ferrovia, detrás de uma mesa, carimbando, assinando papéis, documentos, a insensatez que é a vida de um...
– Mas o meu pai vai pagar.
Gaetano resmungou qualquer coisa sobre o valor do dinheiro, venalidade, a estupidez juvenil.
– Olha, eu ligo para o senhor amanhã, pra saber a resposta.
– Eu não tenho telefone.
– Em que mundo você vive?
– Humpf!
– Olha, amanhã eu bato aqui de novo.
Sem cerimônia, ela mesma abriu a porta e se foi, deixando na casa o cheiro nauseabundo da juventude. Gaetano permaneceu no meio da sala, estupefato. Que topete! Então, ela entrava assim em sua casa, sem ser convidada, e praticamente o obrigava a aceitá-la como aluna? Publius espreguiçou-se e voltou a dormir. Gaetano encheu uma xícara de café, acendeu um cigarro, com o pensamento longe. Mecanicamente pegou um livro qualquer de cima da mesa, capa vermelha, letras douradas. Não o abriu, era uma espécie de muleta, muito útil quando se via na iminência de tomar uma decisão, de atravessar a ponte pênsil que o conduziria a uma margem desconhecida. Deixou-se cair pesadamente no sofá, deu uma tragada profunda, observou os dedos da mão direita, nicotina, alcatrão.
– A impetuosidade da pouca idade.
Sentiu saudades de si mesmo, a primeira namorada, o primeiro beijo, o abandono, sentiu saudade da mãe. Divagando, deu com os olhos em “Cartas a Nora”, de James Joyce, a picante correspondência amorosa do grande escritor irlandês com a futura esposa. Ligou a TV: outro acidente com trens na Índia. Numa das estantes, deu com os olhos em “Lolita”. Por que os seus olhos o conduziam à sacanagem? Sentiu vergonha dos próprios pensamentos. Não, não a aceitaria como aluna. Ela não tinha mais de 17 anos. Dezesseis talvez. E ele? Um pé-na-cova. Era encrenca na certa. É sempre encrenca. Não era justo com a menina, e muito menos consigo mesmo. Abriu Ovídio, nada melhor que o amado poeta, companheiro das horas difíceis, de todas as horas, para distraí-lo do olhar insinuante da menina, dos seios adivinhados sob a camiseta branca, redondos, firmes, empinados, bicos apontando para ele. Gaetano sabia-se ainda charmoso, apesar da idade, da rabugice, que só o faziam mais misterioso e atraente às mulheres, principalmente às jovens. Um cigarro após outro; o gato dormindo, indiferente ao alvoroço interior de Gaetano. A mente divagando, nem Ovídio conseguia aquietar seu coração. Veio-lhe então a palavra “ninfeta”. Em seguida, sua consciência rosnou, entre dentes: – Velho sujo! Sentiu ódio. Preconceito? Ele nunca a vira antes, mas ela, com certeza, já andara se informando sobre ele. Até o seu livro ela lera. Bem, isso ela dissera. Teria lido mesmo? E, se fosse verdade, com que atenção? Passou a mão pela vasta cabeleira grisalha, outrora negra, quase azul. Não crê que uma menina seja capaz de se interessar por alguém de mais idade? A busca do amor? Uma aventura passageira para se gabar depois, isso sim. Ergueu-se. Era alto, ainda espigado. Os vincos da face davam-lhe uma aparência venerável, os olhos negros conservavam o brilho, a profundidade, nariz aquilino, lábios enérgicos. As mãos? Grandes, quase desproporcionais, angulosas, veias à mostra, apropriadas para pegar a vida pelos chifres, a qual ele sabia que não agarrara, falhara. As armadilhas do ego, o vampirismo dos mais velhos em busca do sangue dos jovens. Sentiu nojo de si mesmo. Teria ainda a aparência sedutora da meia-idade? Nas poucas vezes em que saía à rua, percebia envaidecido os olhares femininos. Amanhecera, e Gaetano ainda se debatia com os sentimentos. Afinal, conseguira tomar a decisão de não aceitar a menina como aluna. Sua vida estava muito bem assim, sem sobressaltos, sem novidades, sem ninfetas, nem paixões impossíveis, sem ervilhas abandonadas no campo de centeio. Mas Gaetano sentia-se, desde a visita da garota, mais vivo do que jamais estivera em toda a sua longa vida. Aguardou ansioso a manhã inteira que alguém batesse à porta, fumando um cigarro atrás do outro. Queria somente poder dizer não, como uma vingança, pelo desprezo. Cheirou as mãos e o fedor era para si mesmo insuportável, nicotina pura. Lavou-as com sabonete Lux. Por que Lux? Ora, porque nove entre dez estrelas do cinema usam Lux! Acendeu outro cigarro e se demorou olhando a chama intensa do fósforo, saboreou o fogo, o fogo da paixão... Virou o palito para cima, inclinou aos poucos a ponta enegrecida para baixo. Na pequena caixa sobre a mesa, lia-se Fiat Lux. Empilhou alguns livros, levou as xícaras para a cozinha, correu o dedo pela poeira dos móveis. Pensou em dar um jeito na casa, acabou deixando para lá. Engrolou “Fly me to the Moon”, e sentiu-se ridiculamente romântico. Meio-dia, e nada da menina. Arrastou-se a tarde, e ninguém. À noite, menos ainda. Cinzeiros, cheios. A sala, enfumaçada. Qual seria o nome dela? Vira-a somente uma única vez. Beatriz, a beata? Virgínia, do amor adolescente? Isolda, a lendária? Julieta, a dos espíritos? A proibida Júlia?
De manhã, insone, Gaetano olhou para o alto e, de punho erguido, gritou:
– Puta que O pariu!
Gaetano Moricone chegara bem aos 70. Tinha saúde, embora o tabaco lhe cobrasse o preço: a voz enrouquecida, o pulmão esquerdo funcionando pela metade, perda do paladar, tosse. Menos a memória, esta continuava cumprindo seu papel: não deixá-lo só; era a fiel companheira. A chegada à idade avançada não era, para ele, motivo de comemoração. Os amigos, aqueles que lembravam ainda da data, quando o encontravam na rua, sequer lhe davam parabéns. Pouco importava; era melhor que o esquecessem. Estava bem assim, eximia-o de responsabilidade.
Gaetano não casara. Os parentes que lhe restavam (a irmã mais velha, dois sobrinhos), tinha-os banido, desde que tentaram se imiscuir em sua vida, importunando-o com conselhos baratos. Para que servem as pessoas? Para nos entediar com seus achaques, os mais velhos. E os mais novos, com a sua vivacidade, comprometem ainda mais o tempo que nos resta. Preferia assim, quisera o viver solitário. Tinha apreço pelos livros, pela poesia, independente de escolas, mas principalmente por Ovídio. Embora soubesse “Metamorfoses” de cor, a cada leitura descobria novas inflexões. Não se considerava um latinista. No início, para lê-lo no original, fez uso de dicionários, gramáticas, edições bilíngues. Leitor ávido desde a adolescência, agora fazia uso de uma lupa. O enfraquecimento da visão, o médico atribuía mais à constante fumaça do cigarro que à idade.
A monotonia da casa era quebrada somente pelo ronronar de Publius, pouco afeito a carícias. Gaetano jamais suportaria um gato se enrodilhando em suas pernas, carente. Entendiam-se bem assim e isso lhes bastava. Pela manhã, leite morno com pão picado; uma tigela para Gaetano, outra para o bichano. Publius surgira, vindo sabe-se lá de onde, de que becos, aparentemente sem dono. Como ninguém o reclamara, foi ficando. Gaetano tinha certeza de que Publius iria embora um dia, sem mais nem menos. Por quê? Pela simples razão de que tudo é transitório. Cortinas semicerradas, a sala da casa tinha uma mesa, atulhada de livros, duas cadeiras de palha, um pequeno sofá de dois lugares. E ironicamente, no canto, uma namoradeira, ocupada pelos 32 volumes da “História Universal”, de Césare Cantu. Nas paredes de madeira, verdes, descascadas, nem um único quadro, coisa que à primeira vista denota uma alma desprovida de encantos. No assoalho, um tapete descorado. As estantes exibiam um grande número de lombadas pardacentas. Gaetano gostava das coisas assim, cada qual no seu lugar, sem surpresas. De madrugada, mesmo com a luz da sala apagada, era capaz de encontrar o livro procurado: satisfação infantil de uma criança cega. Nessas horas insones, de leitura até altas horas, era grato à vida por lhe ter roubado a chance de uma família, uma esposa, filhos pequenos, essa minúscula oportunidade que entrevira certa ocasião: de ser um homem comum. Não, ele não legaria a ninguém a herança de suas mazelas quando atravessasse à outra margem do rio, obscura. Não teve nunca ninguém para incomodá-lo com a arrumação da casa, a poeira acumulada nos cantos, hora de dormir, de acordar, essa aporrinhação do dia-a-dia na qual o homem comum tanto se compraz. Mesmo assim, acordava todos os dias muito cedo. Escovava os dentes, aliás, a dentadura, lavava o rosto na água fria, bebia um copo de água fresca. Antes do banho matinal, religiosamente olhava para o céu e murmurava:
– Puta que pariu!
Por certo, não era blasfêmia. Aprendera com o agnosticismo caboclo do avô que, se um homem não tem nada a dizer, ao se levantar, que diga então qualquer coisa, para não deixar passar em brancas nuvens a ocasião de se mostrar vivo ao Criador. O avô lhe ensinara muitas coisas: encilhar cavalos, a longevidade do bebedor de mate, a carneação do porco, o ritmo dos trens, a linguagem dos apitos. Todas essas coisas, Gaetano fizera questão de esquecer, após a morte do velho. Para que cultivá-las, se não eram de serventia para o solitário que ele se tornara? Das lições avoengas, conservou somente a saudação ao dia.
Duas leves pancadinhas na porta. Quem seria? Gente boa, os vizinhos não tinham por hábito incomodá-lo, sabiam que ele não era afeito a visitas. Muito menos as inesperadas. Novas pancadinhas; agora três, breves, seguidas de outras duas, longas, como arte de telegrafista. Pensou em não atender, fazer de conta que não estava em casa. A pessoa do outro lado insistia.
– Quem é?
– Eu preciso falar com o senhor.
Abriu a porta, contrariado. A garota esboçou um risinho infantil.
– Posso entrar?
– O que você quer?
Ela continuou sorrindo.
– Eu vim saber se o senhor pode me dar aulas particulares.
– Aulas particulares?!
– É que eu vou prestar vestibular no ano que vem e... como o meu português não é dos melhores...
– Mas eu não sou professor de nada, me aposentei pela ferrovia.
– Eu sei, eu sei, mas não tem mais ninguém na cidade que possa me ajudar. Sabe como é, né?
– Não sei não, não sei mesmo.
Já tinham lhe dito do mau humor de Gaetano, mas ela estava disposta a tê-lo como mestre, ele era tido como o intelectual da cidade.
– Eu li o seu livro...
– Ah, é?
– Gostei muito, apesar de não entender grande coisa.
– E qual o título? – disse ele, em tom de desafio.
– “A Maldição da Poesia”.
– Não seria talvez “A Má Dicção da Poesia”?
– Posso entrar?
Sem esperar resposta, a garota embarafustou-se casa adentro; Gaetano teve tempo somente de dar um passo atrás. Ela sentou-se no sofá, indiferente à poeira, fez um breve cafuné no gato que languidamente virou a barriga para cima, à espera de mais afagos, os quais não se repetiram. Os olhos azuis da garota passearam pela sala, pelos móveis, os poucos objetos de adorno (Santa Clara, em gesso pintado; Leda e o cisne, de bronze; uma moldura pequena e antiga, com o retrato de um casal, talvez os pais dele), o prato sobre a mesa, fundo, a colher acomodada na beirada, a xícara de café, outra xícara, mais outra... A garota Imaginou uma marimba improvisada com o que restasse de café nas xícaras. Ela esboçou um lindo sorriso, ante o suposto disparate dos sons. Definitivamente, concluiu apressada, não havia há muito tempo, naquela casa, a presença feminina, nem mesmo de uma empregada. Deteve, então, o olhar na primeira estante.
– Quanto livro!
Gaetano não pode deixar de sentir orgulho. Então, as mulheres, enquanto meninas, são capazes de se interessar por livros? Os olhos sem descanso da garota percorreram as outras estantes.
– Mais livros? Para que tantos?
Por certo, são todas iguais, em qualquer idade. Gaetano não escondeu a irritação, num leve aperto dos lábios. Ora, para que tantos? A garota fez de conta que nem era com ela.
– Os livros...
– Não precisa explicar, eu também amo os livros. A meu modo, mas amo, assim como amei minhas bonecas um dia.
– Os livros são...
– Olha, eu vim aqui para saber se você... o senhor... pode me dar aulas particulares.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Não sei, simples, não sei. Nunca dei aula particular. A minha vida foi sempre a ferrovia, detrás de uma mesa, carimbando, assinando papéis, documentos, a insensatez que é a vida de um...
– Mas o meu pai vai pagar.
Gaetano resmungou qualquer coisa sobre o valor do dinheiro, venalidade, a estupidez juvenil.
– Olha, eu ligo para o senhor amanhã, pra saber a resposta.
– Eu não tenho telefone.
– Em que mundo você vive?
– Humpf!
– Olha, amanhã eu bato aqui de novo.
Sem cerimônia, ela mesma abriu a porta e se foi, deixando na casa o cheiro nauseabundo da juventude. Gaetano permaneceu no meio da sala, estupefato. Que topete! Então, ela entrava assim em sua casa, sem ser convidada, e praticamente o obrigava a aceitá-la como aluna? Publius espreguiçou-se e voltou a dormir. Gaetano encheu uma xícara de café, acendeu um cigarro, com o pensamento longe. Mecanicamente pegou um livro qualquer de cima da mesa, capa vermelha, letras douradas. Não o abriu, era uma espécie de muleta, muito útil quando se via na iminência de tomar uma decisão, de atravessar a ponte pênsil que o conduziria a uma margem desconhecida. Deixou-se cair pesadamente no sofá, deu uma tragada profunda, observou os dedos da mão direita, nicotina, alcatrão.
– A impetuosidade da pouca idade.
Sentiu saudades de si mesmo, a primeira namorada, o primeiro beijo, o abandono, sentiu saudade da mãe. Divagando, deu com os olhos em “Cartas a Nora”, de James Joyce, a picante correspondência amorosa do grande escritor irlandês com a futura esposa. Ligou a TV: outro acidente com trens na Índia. Numa das estantes, deu com os olhos em “Lolita”. Por que os seus olhos o conduziam à sacanagem? Sentiu vergonha dos próprios pensamentos. Não, não a aceitaria como aluna. Ela não tinha mais de 17 anos. Dezesseis talvez. E ele? Um pé-na-cova. Era encrenca na certa. É sempre encrenca. Não era justo com a menina, e muito menos consigo mesmo. Abriu Ovídio, nada melhor que o amado poeta, companheiro das horas difíceis, de todas as horas, para distraí-lo do olhar insinuante da menina, dos seios adivinhados sob a camiseta branca, redondos, firmes, empinados, bicos apontando para ele. Gaetano sabia-se ainda charmoso, apesar da idade, da rabugice, que só o faziam mais misterioso e atraente às mulheres, principalmente às jovens. Um cigarro após outro; o gato dormindo, indiferente ao alvoroço interior de Gaetano. A mente divagando, nem Ovídio conseguia aquietar seu coração. Veio-lhe então a palavra “ninfeta”. Em seguida, sua consciência rosnou, entre dentes: – Velho sujo! Sentiu ódio. Preconceito? Ele nunca a vira antes, mas ela, com certeza, já andara se informando sobre ele. Até o seu livro ela lera. Bem, isso ela dissera. Teria lido mesmo? E, se fosse verdade, com que atenção? Passou a mão pela vasta cabeleira grisalha, outrora negra, quase azul. Não crê que uma menina seja capaz de se interessar por alguém de mais idade? A busca do amor? Uma aventura passageira para se gabar depois, isso sim. Ergueu-se. Era alto, ainda espigado. Os vincos da face davam-lhe uma aparência venerável, os olhos negros conservavam o brilho, a profundidade, nariz aquilino, lábios enérgicos. As mãos? Grandes, quase desproporcionais, angulosas, veias à mostra, apropriadas para pegar a vida pelos chifres, a qual ele sabia que não agarrara, falhara. As armadilhas do ego, o vampirismo dos mais velhos em busca do sangue dos jovens. Sentiu nojo de si mesmo. Teria ainda a aparência sedutora da meia-idade? Nas poucas vezes em que saía à rua, percebia envaidecido os olhares femininos. Amanhecera, e Gaetano ainda se debatia com os sentimentos. Afinal, conseguira tomar a decisão de não aceitar a menina como aluna. Sua vida estava muito bem assim, sem sobressaltos, sem novidades, sem ninfetas, nem paixões impossíveis, sem ervilhas abandonadas no campo de centeio. Mas Gaetano sentia-se, desde a visita da garota, mais vivo do que jamais estivera em toda a sua longa vida. Aguardou ansioso a manhã inteira que alguém batesse à porta, fumando um cigarro atrás do outro. Queria somente poder dizer não, como uma vingança, pelo desprezo. Cheirou as mãos e o fedor era para si mesmo insuportável, nicotina pura. Lavou-as com sabonete Lux. Por que Lux? Ora, porque nove entre dez estrelas do cinema usam Lux! Acendeu outro cigarro e se demorou olhando a chama intensa do fósforo, saboreou o fogo, o fogo da paixão... Virou o palito para cima, inclinou aos poucos a ponta enegrecida para baixo. Na pequena caixa sobre a mesa, lia-se Fiat Lux. Empilhou alguns livros, levou as xícaras para a cozinha, correu o dedo pela poeira dos móveis. Pensou em dar um jeito na casa, acabou deixando para lá. Engrolou “Fly me to the Moon”, e sentiu-se ridiculamente romântico. Meio-dia, e nada da menina. Arrastou-se a tarde, e ninguém. À noite, menos ainda. Cinzeiros, cheios. A sala, enfumaçada. Qual seria o nome dela? Vira-a somente uma única vez. Beatriz, a beata? Virgínia, do amor adolescente? Isolda, a lendária? Julieta, a dos espíritos? A proibida Júlia?
De manhã, insone, Gaetano olhou para o alto e, de punho erguido, gritou:
– Puta que O pariu!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
O ESTRANHO
Edson Negromonte
À espera do trem que me levaria a Curitiba, folheava eu aleatoriamente as páginas de um volume ensebado de "A Cor que Veio do Céu", de H.P. Lovecraft, minha atenção foi repentinamente atraída por alguém que atravessava o portal da estação, dirigindo-se ao guichê de passagens. Trajava ele uma túnica de tecido simples, azulado, sandálias, e media aproximadamente dois metros de altura, de pele branca, olhos castanhos e cabelos negros, os quais trazia numa grossa trança que ia da nuca ao alto da cabeça e terminava em ponta na testa, quase à altura do nariz. Era de chamar a atenção em qualquer lugar do planeta.
Olhando melhor ao redor, só eu botava reparo na estranha figura. As outras pessoas passavam por ele como se fosse apenas um homem comum, um qualquer. Pior, como se ele não existisse, como se elas pudessem atravessar a estranha figura magnética, a qual fazia-me quase perder a respiração. Eu disse quase? Desculpe, mas meu coração ainda bate descompassado ante lembrança tão vívida, que o pensamento sai à frente das palavras, como um cavaleiro apavorado em frente à montaria. Há muito tempo eu abandonara os arroubos da juventude que me conduziriam às civilizações perdidas, às íntimas relações entre si, levando-me a defender uma inusitada tese, pela qual sofri o achincalhe de meus iguais, a de que os povos indígenas, sejam maias, astecas, toltecas, e mesmo os tupis e guaranis, são todos descendentes diretos dos atlantes. E que a grande civilização egípcia, muitas vezes supervalorizada, é somente a ponta mais visível das intensas navegações empreendidas por esse povo, o qual conseguira sobreviver à maior hecatombe nuclear de toda a história da humanidade, relatada de maneira irrefutável no Livro de Noé, o último dos dez patriarcas antediluvianos. Acontece que, empolgado, eu ia além e provava por A+B, pelo menos para mim, que os símbolos dessas civilizações ditas primitivas são os mesmos, com pequenas variações, alegando que a própria suástica é um signo anterior à civilização indiana. É mais que evidente que essas elucubrações foram rechaçadas pelo mundo acadêmico, razão pela qual abandonei-as; o que não me impede hoje, numa difícil e dolorosa autocrítica, de assumir que eu mesmo não acreditava plenamente em todas as minhas alegações, sendo mais fácil culpar os outros pelas minhas impossibilidades, por minhas desistências. Agora, eu não cria, estava diante de um dos mais dignos representantes da extinta raça lemuriana, contemporânea dos atlantes. Com o coração aos pulos, um frêmito sacudiu-me o corpo. Voltando rapidamente a mim, olhei em torno em busca daquele ser e avistei-o aguardando tranquilamente a chegada do trem, na plataforma. Além de mim, somente um garotinho, aparentemente com deficiência mental, observava-o curioso.
A primeira vez que ouvi sobre a Lemúria foi numa conversa rápida com o brilhante filósofo e místico Líbero Veloso. Era uma tarde agradável, num clube de cavalheiros, desses que hoje não existem mais, à rua Marquês do Herval, quando ele indicou-me o "Livro de Dzyan", de Madame Blavatsky. Segundo Veloso, eu estava naquele momento memorável recebendo um manuscrito, de próprio punho, cuja tradução ele mesmo realizara, a partir de um original russo, encontrado na biblioteca pública da capital, o qual nunca mais seria localizado, apesar das buscas incessantes, apesar da intercessão do próprio secretário estadual de Educação e Cultura. Senti-me o depositário de confiança do supremo hierofante do templo de Elêusis, na Grécia. Depois disso, eu e Veloso tornamo-nos quase inseparáveis, independente da diferença de idades. No entanto, hoje devo admitir minhas dúvidas quanto à veracidade desse texto, mas longe de mim imaginar que o nobre estudioso de ocultismo tenha mentido. Talvez ele mesmo estivesse equivocado em suas infatigáveis pesquisas, além da idade avançada, período que nos leva a confundir a realidade e criar mundos fantasiosos a fim de suprir as carências. Como disse anteriormente, as ideias vêm atabalhoadamente e sou obrigado a desdizer o que dissera, então, pensando melhor, não acredito em tal hipótese; Veloso era muito consciencioso, chegando às raias do ceticismo, e só dava a público aquilo que ele próprio já comprovara. Dele ouvi, em seu leito de morte, que outros autores, como Donnelly, Jacolliot e Lake Harris, serviram de inspiração à fundadora da respeitável Sociedade Teosófica, para a feitura do “Livro de Dzyan”. Mas esses três autores referiram-se somente de passagem, em seus escritos, à saga dos lemurianos. Em homenagem às agradáveis tertúlias com o meu mentor, dediquei-lhe o trabalho de minha vida, a repudiada tese sobre as civilizações desaparecidas, pois ele fora o orientador informal. Em seu leito de morte, quando o amado mistagogo abriu a boca em seu último alento, pareceu-me querer dizer que tudo fora uma farsa. Pensamento fortuito e passageiro, do qual temos a vida inteira para nos arrepender; só o estou expondo aqui, assim, tão abertamente, porque tenho certeza de que esta narrativa será lida somente após a minha possível passagem do Aquém para o Além.
Nesse seleto e, por que não, secreto clube de cavalheiros, reuniam-se aos sábados os estudiosos de filosofia e dos mistérios arcanos. Para mim, um jovem recém-saído da universidade, a convivência com essas mentes investigativas era extremamente enriquecedora. Tudo naqueles salões cheirava à cultura, desde os volumes encadernados a couro nas estantes de madeira escura às fotografias de personalidades ilustres da literatura universal, passando pelos objetos de adorno, onde incluo um romântico narguilé, que asseguravam alguns ter vindo diretamente de Paris e que nele pousara os lábios o poeta maldito Charles Baudelaire. Em meio a tudo isso, chamava-me sobremaneira a atenção a estampa de Bulwer-Lytton, de bigode e suíças, de vasta cabeleira, empertigado, sem olhar o retratista, e com uma pena à mão. Do consagrado autor de "Os Últimos Dias de Pompéia" e "Zanoni", constava de nossa biblioteca o raríssimo "A Raça Futura", sobre uma civilização subterrânea, também citada no romance espírita “A Lenda do Castelo de Montinhoso” e esmiuçada no imprescindível “A Terra Oca”. De posse de tal bagagem, e jogando ao sabor das leituras, minha atenção foi, um dia, atraída para o tomo "Lemúria – O Continente Perdido do Pacífico", de cujo autor não lembro mais o nome. Após repetidas leituras, dei asas à imaginação, quiçá ao delírio, e quase convenci os meus confrades a comigo embarcarem numa expedição ao monte Shasta, na Califórnia. A Providência quis por bem que a futura expedição não fosse além das nossas confortáveis poltronas, revestidas de veludo carmim, como tantas outras resoluções que tomamos com tal ímpeto que se desmoronam à primeira contrariedade. Agora, muito tempo depois, estou aqui nesta estação às voltas com as doces recordações daqueles anos, frente a frente com o que eu julgo ser um legítimo descendente de uma civilização dita extinta. Sei que isso vai contra toda a ciência, mas há neste mundo pessoas que fazem da especulação apenas o seu alimento preferido, como uma perversa geleia de língua de cotovias, apesar de ser considerada um requinte, pois o conhecimento não aplicado e o prazer mórbido da vaidade geram a pestilência.
Embarquei num dos vagões da classe popular, enquanto o alvo de minhas atenções dirigiu-se para o confortável vagão de primeira classe. Era uma composição mista, levando, além de passageiros, vários vagões carregados de sementes e grãos, principalmente soja. Estava envolto em minhas reflexões acerca da criatura, quando fui subitamente despertado pelo estridente apito da velha locomotiva a vapor, ainda em funcionamento e expelindo orgulhosa uma exuberante nuvem de fumaça. Estávamos em movimento, sacolejando para lá e para cá. Decidi então mudar de vagão para estar o mais próximo possível do estranho lemuriano. Sim, hoje ouso dizer com toda propriedade que era ele realmente um lemuriano. Ao chegar ao vagão de primeira classe, meus olhos deram diretamente com a sua elegante figura, contemplando a vigorosa paisagem que somente as serras de minha terra oferecem. Era ele realmente de chamar atenção, tamanha a beleza de seus traços, a placidez de seu semblante, além da inusitada trança, a qual descia até os olhos. Ninguém o olhava sequer de relance, como se ele fosse um homem comum. Ou seria uma atitude respeitosa com aquilo que desconheciam, atribuindo-lhe uma aura de divindade? Nós, humanos, fingimos não ver aquilo que não compreendemos. Penso que é uma atitude correta, pois assim evitamos pensar sobre coisas além da nossa compreensão, facilitando o cotidiano. Quão agradável deve ser a vida quando não queremos nada além das coisas comezinhas do dia a dia, mas devo acrescentar, com algum pesar, que isso é, na prática, impossível para aqueles que ousaram levantar o primeiro dos sete véus de Ísis.
Como o meu, somente um par de olhos permanecia fixo no estranho, o do garoto da estação, enquanto os outros pareciam trespassá-lo, admirando a paisagem lá fora através dele. Confesso que isso foi causando-me aos poucos certo desconforto, quando um leve movimento da trança descobriu uma pequena protuberância em sua testa. Assim como eu, inebriado, o garoto com problemas mentais continuava a olhá-lo. Num lampejo, veio-me à mente que aquela protuberância podia muito bem ser um sinal do que os antigos entendiam metaforicamente como o terceiro olho, a morada da alma, como bem o compreendera Descartes. Eu, num misto de curiosidade e medo, observava-o por cima dos óculos, fingindo ler o oportuno Lovecraft. Sobressaltei-me então com o fiscal, picotando os cartões e, para meu desespero maior, convenientemente ignorando o lemuriano. Por encontrar-me em outra classe, tive que pagar um valor a mais, o que fiz de bom grado, mesmo sabendo que não poderia mais me dar ao luxo de comer um pão com manteiga, acompanhado de uma média, após encerrar os afazeres na capital. Em momento algum, o estranho tirou os olhos da paisagem. Cheguei a imaginar que somente a sua carcaça estivesse ali, acomodada naquele banco de trem, tal e qual uma crisálida. O que estou pensando? Não posso deixar a fantasia tomar conta, sou um estudioso, um cético, só a concretude das coisas é digna do saber do homem.
As delicadas flores silvestres quase adentravam o vagão, obrigando os passageiros a se afastar das janelas, mas aquele estranho... Não, ele não movia-se um milímetro sequer, assustando-me mais e mais a sua serenidade.
– É um amongue...
Virei-me abruptamente para o banco de trás, de onde viera a voz. Meus olhos arregalados deram com um homenzinho franzino, de chapéu de feltro e paletó xadrez, de tweed. De bigode fino, óculos de fundo de garrafa e cavanhaque, tinha um quê de personagem de quadrinhos.
– Anda entre nós, mas poucos o percebem – disse o sujeitinho. – Meu nome é Astrogildo Bandeira, mas pode me chamar de Astro.
O quê? Astro?! – pensei eu. – Ora essa, chamar alguém que acabei de conhecer pelo apelido. Astro? Hahaha! Só se eu fosse lunático!
– Entendo que não tenha gostado da ideia – disse ele. – Não, não precisa se desculpar. Chame-me do que bem entender. O que é um nome? Não pude deixar de perceber o seu interesse no amongue e, como são poucos os que o veem, achei que podíamos então entabular uma palestra amigável, sabe, “uma conversação entre homens inteligentes”, como diria o poeta Ezra Pound.
Que pedantismo! – pensei com meus botões.
– Acha que só você leu Pound, e sobre lemurianos, atlantes, e tantas outras civilizações desaparecidas? Fique sabendo que, muito antes de você sair das fraldas, essa literatura já circulava entre os interessados. Veja bem, em momento algum eu direi “iniciados”. Se você pensa que Platão é o mais antigo a falar da Atlântida, é porque desconhece os autores árabes. Bem sei que não me dá crédito; é somente o ego a falar mais alto, você não consegue admitir que alguém externo ao seu distinto círculo de fumantes de cachimbo possa conhecer uma migalha sequer do que vocês desconhecem. Posso ler nos seus olhos a incredulidade. Poderíamos ser bons amigos, se não fosse a sua empáfia. Você é muito presunçoso! Da próxima vez que encontrar alguém de uma classe inferior ou que não fale tão brilhantemente quanto os seus amigos, segundo os seus parâmetros, por favor morda o lábio inferior em sinal de humildade. É o mínimo que um homem sensato pode fazer e, cá entre nós, como estamos carentes ultimamente de pessoas sensatas.
Dito isso, perscrutou-me. Antes que eu boquiaberto pudesse esboçar qualquer reação, ele recostou-se no banco, cruzou os braços sobre o abdômen, baixou a cabeça, como se estivesse há muito adormecido. Estávamos chegando à estação do Marumbi, o ponto mais alto da viagem, com o pico de mesmo nome erguendo-se altaneiro. Lembrei-me do ser iluminado e encontrei vazio o seu lugar. Descera na parada anterior? Impossível! O homenzinho não falara tanto assim. Ou falara? Antes de o trem parar totalmente, saí desabalado a procurá-lo pelos vagões. Nada, nenhum sinal. Busquei na plataforma, nos arredores, em todos os cantos, perguntando pelo estranho de trança, gesticulando, fazendo sinais com as mãos, como se estivesse num país estrangeiro, onde ninguém compreendesse a minha algaravia. Quando dei por mim, o trem já partira, deixando-me sozinho na gelada estação.
A literatura mística é useira e vezeira em confundir os caminhos quando o buscador não está preparado para continuar a ascensão; acontece que este não é um relato fantasioso, sendo tão somente as palavras sinceras de um devotado cientista, descrente de tudo e de todos. O que sei é que por culpa do tal homenzinho descuidei do ser fabuloso. Ou serei somente eu o culpado de minhas malfadadas ações? E o que vem a ser a culpa, essa gorda senhora sorridente que nos afasta da felicidade?
À espera do trem que me levaria a Curitiba, folheava eu aleatoriamente as páginas de um volume ensebado de "A Cor que Veio do Céu", de H.P. Lovecraft, minha atenção foi repentinamente atraída por alguém que atravessava o portal da estação, dirigindo-se ao guichê de passagens. Trajava ele uma túnica de tecido simples, azulado, sandálias, e media aproximadamente dois metros de altura, de pele branca, olhos castanhos e cabelos negros, os quais trazia numa grossa trança que ia da nuca ao alto da cabeça e terminava em ponta na testa, quase à altura do nariz. Era de chamar a atenção em qualquer lugar do planeta.
Olhando melhor ao redor, só eu botava reparo na estranha figura. As outras pessoas passavam por ele como se fosse apenas um homem comum, um qualquer. Pior, como se ele não existisse, como se elas pudessem atravessar a estranha figura magnética, a qual fazia-me quase perder a respiração. Eu disse quase? Desculpe, mas meu coração ainda bate descompassado ante lembrança tão vívida, que o pensamento sai à frente das palavras, como um cavaleiro apavorado em frente à montaria. Há muito tempo eu abandonara os arroubos da juventude que me conduziriam às civilizações perdidas, às íntimas relações entre si, levando-me a defender uma inusitada tese, pela qual sofri o achincalhe de meus iguais, a de que os povos indígenas, sejam maias, astecas, toltecas, e mesmo os tupis e guaranis, são todos descendentes diretos dos atlantes. E que a grande civilização egípcia, muitas vezes supervalorizada, é somente a ponta mais visível das intensas navegações empreendidas por esse povo, o qual conseguira sobreviver à maior hecatombe nuclear de toda a história da humanidade, relatada de maneira irrefutável no Livro de Noé, o último dos dez patriarcas antediluvianos. Acontece que, empolgado, eu ia além e provava por A+B, pelo menos para mim, que os símbolos dessas civilizações ditas primitivas são os mesmos, com pequenas variações, alegando que a própria suástica é um signo anterior à civilização indiana. É mais que evidente que essas elucubrações foram rechaçadas pelo mundo acadêmico, razão pela qual abandonei-as; o que não me impede hoje, numa difícil e dolorosa autocrítica, de assumir que eu mesmo não acreditava plenamente em todas as minhas alegações, sendo mais fácil culpar os outros pelas minhas impossibilidades, por minhas desistências. Agora, eu não cria, estava diante de um dos mais dignos representantes da extinta raça lemuriana, contemporânea dos atlantes. Com o coração aos pulos, um frêmito sacudiu-me o corpo. Voltando rapidamente a mim, olhei em torno em busca daquele ser e avistei-o aguardando tranquilamente a chegada do trem, na plataforma. Além de mim, somente um garotinho, aparentemente com deficiência mental, observava-o curioso.
A primeira vez que ouvi sobre a Lemúria foi numa conversa rápida com o brilhante filósofo e místico Líbero Veloso. Era uma tarde agradável, num clube de cavalheiros, desses que hoje não existem mais, à rua Marquês do Herval, quando ele indicou-me o "Livro de Dzyan", de Madame Blavatsky. Segundo Veloso, eu estava naquele momento memorável recebendo um manuscrito, de próprio punho, cuja tradução ele mesmo realizara, a partir de um original russo, encontrado na biblioteca pública da capital, o qual nunca mais seria localizado, apesar das buscas incessantes, apesar da intercessão do próprio secretário estadual de Educação e Cultura. Senti-me o depositário de confiança do supremo hierofante do templo de Elêusis, na Grécia. Depois disso, eu e Veloso tornamo-nos quase inseparáveis, independente da diferença de idades. No entanto, hoje devo admitir minhas dúvidas quanto à veracidade desse texto, mas longe de mim imaginar que o nobre estudioso de ocultismo tenha mentido. Talvez ele mesmo estivesse equivocado em suas infatigáveis pesquisas, além da idade avançada, período que nos leva a confundir a realidade e criar mundos fantasiosos a fim de suprir as carências. Como disse anteriormente, as ideias vêm atabalhoadamente e sou obrigado a desdizer o que dissera, então, pensando melhor, não acredito em tal hipótese; Veloso era muito consciencioso, chegando às raias do ceticismo, e só dava a público aquilo que ele próprio já comprovara. Dele ouvi, em seu leito de morte, que outros autores, como Donnelly, Jacolliot e Lake Harris, serviram de inspiração à fundadora da respeitável Sociedade Teosófica, para a feitura do “Livro de Dzyan”. Mas esses três autores referiram-se somente de passagem, em seus escritos, à saga dos lemurianos. Em homenagem às agradáveis tertúlias com o meu mentor, dediquei-lhe o trabalho de minha vida, a repudiada tese sobre as civilizações desaparecidas, pois ele fora o orientador informal. Em seu leito de morte, quando o amado mistagogo abriu a boca em seu último alento, pareceu-me querer dizer que tudo fora uma farsa. Pensamento fortuito e passageiro, do qual temos a vida inteira para nos arrepender; só o estou expondo aqui, assim, tão abertamente, porque tenho certeza de que esta narrativa será lida somente após a minha possível passagem do Aquém para o Além.
Nesse seleto e, por que não, secreto clube de cavalheiros, reuniam-se aos sábados os estudiosos de filosofia e dos mistérios arcanos. Para mim, um jovem recém-saído da universidade, a convivência com essas mentes investigativas era extremamente enriquecedora. Tudo naqueles salões cheirava à cultura, desde os volumes encadernados a couro nas estantes de madeira escura às fotografias de personalidades ilustres da literatura universal, passando pelos objetos de adorno, onde incluo um romântico narguilé, que asseguravam alguns ter vindo diretamente de Paris e que nele pousara os lábios o poeta maldito Charles Baudelaire. Em meio a tudo isso, chamava-me sobremaneira a atenção a estampa de Bulwer-Lytton, de bigode e suíças, de vasta cabeleira, empertigado, sem olhar o retratista, e com uma pena à mão. Do consagrado autor de "Os Últimos Dias de Pompéia" e "Zanoni", constava de nossa biblioteca o raríssimo "A Raça Futura", sobre uma civilização subterrânea, também citada no romance espírita “A Lenda do Castelo de Montinhoso” e esmiuçada no imprescindível “A Terra Oca”. De posse de tal bagagem, e jogando ao sabor das leituras, minha atenção foi, um dia, atraída para o tomo "Lemúria – O Continente Perdido do Pacífico", de cujo autor não lembro mais o nome. Após repetidas leituras, dei asas à imaginação, quiçá ao delírio, e quase convenci os meus confrades a comigo embarcarem numa expedição ao monte Shasta, na Califórnia. A Providência quis por bem que a futura expedição não fosse além das nossas confortáveis poltronas, revestidas de veludo carmim, como tantas outras resoluções que tomamos com tal ímpeto que se desmoronam à primeira contrariedade. Agora, muito tempo depois, estou aqui nesta estação às voltas com as doces recordações daqueles anos, frente a frente com o que eu julgo ser um legítimo descendente de uma civilização dita extinta. Sei que isso vai contra toda a ciência, mas há neste mundo pessoas que fazem da especulação apenas o seu alimento preferido, como uma perversa geleia de língua de cotovias, apesar de ser considerada um requinte, pois o conhecimento não aplicado e o prazer mórbido da vaidade geram a pestilência.
Embarquei num dos vagões da classe popular, enquanto o alvo de minhas atenções dirigiu-se para o confortável vagão de primeira classe. Era uma composição mista, levando, além de passageiros, vários vagões carregados de sementes e grãos, principalmente soja. Estava envolto em minhas reflexões acerca da criatura, quando fui subitamente despertado pelo estridente apito da velha locomotiva a vapor, ainda em funcionamento e expelindo orgulhosa uma exuberante nuvem de fumaça. Estávamos em movimento, sacolejando para lá e para cá. Decidi então mudar de vagão para estar o mais próximo possível do estranho lemuriano. Sim, hoje ouso dizer com toda propriedade que era ele realmente um lemuriano. Ao chegar ao vagão de primeira classe, meus olhos deram diretamente com a sua elegante figura, contemplando a vigorosa paisagem que somente as serras de minha terra oferecem. Era ele realmente de chamar atenção, tamanha a beleza de seus traços, a placidez de seu semblante, além da inusitada trança, a qual descia até os olhos. Ninguém o olhava sequer de relance, como se ele fosse um homem comum. Ou seria uma atitude respeitosa com aquilo que desconheciam, atribuindo-lhe uma aura de divindade? Nós, humanos, fingimos não ver aquilo que não compreendemos. Penso que é uma atitude correta, pois assim evitamos pensar sobre coisas além da nossa compreensão, facilitando o cotidiano. Quão agradável deve ser a vida quando não queremos nada além das coisas comezinhas do dia a dia, mas devo acrescentar, com algum pesar, que isso é, na prática, impossível para aqueles que ousaram levantar o primeiro dos sete véus de Ísis.
Como o meu, somente um par de olhos permanecia fixo no estranho, o do garoto da estação, enquanto os outros pareciam trespassá-lo, admirando a paisagem lá fora através dele. Confesso que isso foi causando-me aos poucos certo desconforto, quando um leve movimento da trança descobriu uma pequena protuberância em sua testa. Assim como eu, inebriado, o garoto com problemas mentais continuava a olhá-lo. Num lampejo, veio-me à mente que aquela protuberância podia muito bem ser um sinal do que os antigos entendiam metaforicamente como o terceiro olho, a morada da alma, como bem o compreendera Descartes. Eu, num misto de curiosidade e medo, observava-o por cima dos óculos, fingindo ler o oportuno Lovecraft. Sobressaltei-me então com o fiscal, picotando os cartões e, para meu desespero maior, convenientemente ignorando o lemuriano. Por encontrar-me em outra classe, tive que pagar um valor a mais, o que fiz de bom grado, mesmo sabendo que não poderia mais me dar ao luxo de comer um pão com manteiga, acompanhado de uma média, após encerrar os afazeres na capital. Em momento algum, o estranho tirou os olhos da paisagem. Cheguei a imaginar que somente a sua carcaça estivesse ali, acomodada naquele banco de trem, tal e qual uma crisálida. O que estou pensando? Não posso deixar a fantasia tomar conta, sou um estudioso, um cético, só a concretude das coisas é digna do saber do homem.
As delicadas flores silvestres quase adentravam o vagão, obrigando os passageiros a se afastar das janelas, mas aquele estranho... Não, ele não movia-se um milímetro sequer, assustando-me mais e mais a sua serenidade.
– É um amongue...
Virei-me abruptamente para o banco de trás, de onde viera a voz. Meus olhos arregalados deram com um homenzinho franzino, de chapéu de feltro e paletó xadrez, de tweed. De bigode fino, óculos de fundo de garrafa e cavanhaque, tinha um quê de personagem de quadrinhos.
– Anda entre nós, mas poucos o percebem – disse o sujeitinho. – Meu nome é Astrogildo Bandeira, mas pode me chamar de Astro.
O quê? Astro?! – pensei eu. – Ora essa, chamar alguém que acabei de conhecer pelo apelido. Astro? Hahaha! Só se eu fosse lunático!
– Entendo que não tenha gostado da ideia – disse ele. – Não, não precisa se desculpar. Chame-me do que bem entender. O que é um nome? Não pude deixar de perceber o seu interesse no amongue e, como são poucos os que o veem, achei que podíamos então entabular uma palestra amigável, sabe, “uma conversação entre homens inteligentes”, como diria o poeta Ezra Pound.
Que pedantismo! – pensei com meus botões.
– Acha que só você leu Pound, e sobre lemurianos, atlantes, e tantas outras civilizações desaparecidas? Fique sabendo que, muito antes de você sair das fraldas, essa literatura já circulava entre os interessados. Veja bem, em momento algum eu direi “iniciados”. Se você pensa que Platão é o mais antigo a falar da Atlântida, é porque desconhece os autores árabes. Bem sei que não me dá crédito; é somente o ego a falar mais alto, você não consegue admitir que alguém externo ao seu distinto círculo de fumantes de cachimbo possa conhecer uma migalha sequer do que vocês desconhecem. Posso ler nos seus olhos a incredulidade. Poderíamos ser bons amigos, se não fosse a sua empáfia. Você é muito presunçoso! Da próxima vez que encontrar alguém de uma classe inferior ou que não fale tão brilhantemente quanto os seus amigos, segundo os seus parâmetros, por favor morda o lábio inferior em sinal de humildade. É o mínimo que um homem sensato pode fazer e, cá entre nós, como estamos carentes ultimamente de pessoas sensatas.
Dito isso, perscrutou-me. Antes que eu boquiaberto pudesse esboçar qualquer reação, ele recostou-se no banco, cruzou os braços sobre o abdômen, baixou a cabeça, como se estivesse há muito adormecido. Estávamos chegando à estação do Marumbi, o ponto mais alto da viagem, com o pico de mesmo nome erguendo-se altaneiro. Lembrei-me do ser iluminado e encontrei vazio o seu lugar. Descera na parada anterior? Impossível! O homenzinho não falara tanto assim. Ou falara? Antes de o trem parar totalmente, saí desabalado a procurá-lo pelos vagões. Nada, nenhum sinal. Busquei na plataforma, nos arredores, em todos os cantos, perguntando pelo estranho de trança, gesticulando, fazendo sinais com as mãos, como se estivesse num país estrangeiro, onde ninguém compreendesse a minha algaravia. Quando dei por mim, o trem já partira, deixando-me sozinho na gelada estação.
A literatura mística é useira e vezeira em confundir os caminhos quando o buscador não está preparado para continuar a ascensão; acontece que este não é um relato fantasioso, sendo tão somente as palavras sinceras de um devotado cientista, descrente de tudo e de todos. O que sei é que por culpa do tal homenzinho descuidei do ser fabuloso. Ou serei somente eu o culpado de minhas malfadadas ações? E o que vem a ser a culpa, essa gorda senhora sorridente que nos afasta da felicidade?
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
ÚLTIMO DEVANEIO DO VELHO BIBLIOTECÁRIO
Edson Negromonte
Chovia ainda, torrencialmente, qual lembrança de um inesquecível dilúvio, bíblico. Ou do cataclismo da Atlântida. Nunca mais o maldito aguaceiro iria parar? Sentiu a pele úmida ao toque dos dedos, pegajosa.
Levantou-se, então, da cadeira o velho bibliotecário. A solidão, sempre a solidão, apesar de conscientemente cultivada, fez com que acendesse um cigarrinho de maconha, apesar das promessas diárias de não botar mais aquela porcaria na boca, de que se desse mais uma puxada... Enfim, era fácil pôr a culpa na solidão, na chuva, no frio. No frio insuportável da solidão. Precisava se aquecer, e como não bebia mais (o cheiro do álcool tornara-se insuportável), fumava. Desbragadamente nos finais de semana e feriados, quando não tinha que ir ao trabalho.
Dirigiu-se à janela e, através do riscado uniforme da chuva, oblíqua, como no poema de Maiakóvski, de viés, viu a pequena igreja, a capela do Bom Jesus do Saivá. Ao lado, colado à igrejinha, o cemitério, em frente à praça. Seu corpo seria também enterrado naquele cemitério? E se o queimassem na praia, num ritual pagão, como fizeram com Shelley? E se o lançassem ao mar, repasto de siris e camarões, enrolado num lençol branco, alvejado especialmente para a ocasião? Nada mais adequado a um homem que passara pela vida como clandestino, quase invisível. Os amigos poderiam jogá-lo no mar. Sempre tão distantes, se preocupariam com a sua ausência? Dariam pela falta? Não, certamente não. Houve um tempo em que ele chegou a ser sociável, apesar de sumir da convivência das ruas durante semanas. Ficava em casa, ouvindo horas a fio o mesmo disco do Black Sabbath, introspectivo. Gê, grande artista, tornou-se professor universitário. Não o vira mais. Sabia dele pelos outros, sempre assoberbado por teses, de mestrado, doutorado, ph.D. Lembrou-se dos outros três camaradas, inseparáveis naquele tempo: Rique, hoje alto funcionário de uma estatal; Maquiné, agente penitenciário. Encontrara os dois; um na roda de samba dos sábados, na Carioca, o outro, em frente ao hotel que herdara dos avós, em eterna reforma. Convidara-os à sua casa, nunca foram, apesar das promessas.
E Nico, que fim levara? Foi, num domingo, procurá-lo; soube que estava morando em Pontal. Encontrou-o imerso no mundo da droga, expulsara a família de casa, trocara portas e janelas por um tanto de crack. Sentiu-se covarde por não tê-lo esmurrado. Traído pelos sentimentos, para não chorar de raiva, o bibliotecário relanceou os olhos pelo cemitério em frente. Quantos túmulos pintara, adolescente, para Finados?
– Não faça barulho que eles estão descansando – advertia o guardião, naqueles dias despreocupados.
E a chuva continuava, intermitente. Olhou para a esquerda e viu que, mesmo assim, apesar do aguaceiro, o movimento do supermercado não cessara. Logo, dali a uma hora, encerrado o expediente, ele iria para casa; tomada de cupins, e o vizinho tinha cimentado a manilha do esgoto, que passava pelo seu terreno. E a água do banho, da privada, as necessidades iam para onde? Uma noite, sonhou que o quintal inteiro vertia merda. Nos fundos da casa, uma mangueira centenária, que nunca dera um fruto sequer, rangia assustadora nas noites de ventania, esfregando os galhos no telhado e esfrangalhando-lhe ainda mais os nervos. No oco das raízes, morava uma insuspeitada família de lagartos. Pensou em dar nomes a eles; o pai, o rei lagarto, seria Morrison, evidentemente. Precisava mudar daquela casa, pressentia algo muito pesado, um crime ocorrido ali, sim, um crime bárbaro, sobre o qual não se falava, sobre o qual todos calavam.
Andava exasperado, estava emagrecendo a olhos vistos. Suas poucas carnes estavam dançando dentro das roupas, trêmulo o braço direito, os cabelos raleando. Às vezes, o telefone tocava, no avançado da noite. Do outro lado, ninguém, nem voz, nem respiração. Com certeza, precisava mudar dali. Lembrou-se, então, de um telefonema que recebera, há muitos anos atrás, em outra cidade, dizendo ser a Anastácia, prima do vô Antonio, pedindo-lhe que avisasse aos parentes que a Acácia tinha falecido. Ao dar o recado, quando o avô chegou da chácara, ele arregalou os olhos: a prima Anastácia tinha morrido muito tempo antes da tia Acácia.
A chuva amainara, precisava aproveitar a trégua para voltar para casa. Não apareceria ninguém mesmo; nunca aparecia ninguém na biblioteca, podia assim encerrar o expediente na hora que bem entendesse. Esvaziou baldes, torceu panos, recolocou tudo de volta no lugar, sob as goteiras. Ao se erguer repentinamente, deu com os olhos em “Meu Guru e Seu Discípulo”, de Christopher Isherwood. Apesar da vista toldada, sob efeito do fumo, tinha certeza do nome, sabia de cor cada título daquele lugar. Lembrou-se, então, do Mestre, que o despertara para os aspectos místicos da vida, através dele fora admitido na fraternidade dos rosacruzes, como neófito, onde permaneceu durante trinta anos ininterruptos. (Precisava retomar os estudos da cabala). Quantas conversas na penumbra… O mentor na poltrona verde, gasta, puída; o rapaz aprendendo, o homem mais velho falando-lhe de vidas passadas; da noite negra da alma; iniciações psíquicas no Tibete; vida após a morte; da morte; dos irmãos de branco; da vida mística de Jesus; da concepção de Maria, imaculada (se os homens são capazes de fazer o mal através da palavra dita, por que um arcanjo, um ser superior, não pode criar uma outra vida através do verbo?) sobre o príncipe Sidarta, o venerado Buda, envenenado por carne de porco; Ramakrishna; o Bhagavad-Gita; os Vedas; Zoroastro, a eterna luta entre o bem e o mal; Plotino; o Dr. Bucke; Francis Bacon (assegurava-lhe que Shakespeare era o pseudônimo de Bacon, o qual escrevera todas as obras atribuídas ao bardo inglês), et cetera, et cetera, et cetera, como diria o rei do Sião.
– Mas então por que isso tudo não é amplamente divulgado?
– Muito já foi, e os homens de inteligência se recusam a aceitar.
– Por quê?
– Muito da história precisaria ser revista, muitas reputações cairiam por terra, teses universitárias se transformariam em cinzas. A humanidade gosta de viver na mentira, na ilusão, mas acontece que tudo isso faz parte de uma grande engrenagem, necessária. Até a ilusão.
Ante o assombro do adolescente, o Mestre continuou.
– E se eu lhe dissesse que Jesus não foi o único Cristo, que agora, neste exato momento, pode estar nascendo um outro Cristo no Oriente? Ou numa favela do Rio de Janeiro? Ele pode estar andando na Avenida Paulista, de terno e gravata. Ah, porque se ele estivesse vivendo entre os ocidentais não ficaria andando por aí de túnica, chamando a atenção das pessoas, como um ser exótico. Se quisermos, podemos dizer Buda Cristo. E Plotino também o foi, um Cristo. Também Whitman, esse grande poeta.
– …
– E Jesus não foi o único nascido de uma virgem, e não foi o primeiro nem será o último. A lenda diz que Platão também nasceu de uma virgem. E também Leonardo da Vinci. E Jesus não era analfabeto, nem um homem delicado, nem pobre, como querem as igrejas, e ele não morreu na cruz, viveu até os setenta anos, fazia parte da Irmandade Branca, estudou na Índia, Egito, Pérsia… Tudo isso está lhe parecendo extravagante?
– Não, é que…
Na girândola da cabeça, veio-lhe a imagem de um funeral. Poucas pessoas, simples, dia chuvoso em Paranaguá, o Mestre deitado, com as mãos postas, rodeado de flores amarelas, mal cheirosas. Depois de uma dessas doenças passageiras de inverno, ele saíra para dar uma volta, aproveitar o sol da manhã. Empolgou-se com a caminhada, e quando deu por si já era meio-dia; tinha de voltar, não levara chapéu, o buraco na camada de ozônio, maldito buraco na camada de ozônio. Fora longe demais, chegou em casa vomitando sangue. Foi o tempo de chamarem a ambulância, direto para a U.T.I. Desde então, o mundo ficara mais pobre, o mundo do velho bibliotecário ficara definitivamente mais pobre. Gabava-se o velho bibliotecário de que nos últimos anos não se passara um único dia em que não lembrasse do Mestre. E, agora, quantos dias, meses, tinham se passado sem que a amada figura lhe viesse à mente? Quando alguém morre, promete-se que jamais se esquecerá o ente querido. Durante certo tempo, a lembrança vem à tona, sem que se faça esforço, várias vezes durante o dia, à noite, nos sonhos, depois vai se espaçando, dia sim, dia não, esgarçando-se, rareando, menos densa, cada vez mais difusa, até que se tem de fazer esforço, buscando, rebuscando, e, culpado por ainda estar vivo, passa-se a percebê-lo somente como difusa silhueta num teatro de sombras. Num exercício desesperado, o velho bibliotecário começou a desenhar na tela da imaginação o seu instrutor: cabelos negros, alguns fios brancos, grisalho, a pele muito branca, onde o sol não tostara, baixo, quase atarracado, barrigudo, nariz grosso, a voz às vezes estridente, de descendência italiana. De onde os olhos amendoados? O riso franco que, muitas vezes, desembocava numa gargalhada, ante as inocentes perguntas do aprendiz. E a gagueira? Sim, o Mestre era gago e isso, por certo, não fica bem em alguém pressupostamente capaz de controlar os desejos humanos, ou grande parte deles. E a sua profissão, o que fazia ele para viver? O preconceito jamais deixaria supor um ser tão evoluído ganhando a vida como humilde vigia portuário. Além de tudo, o Mestre era banguela, sem um único dente na boca! Acontece que a vida, a vida real, não é um romance de capa e espada. Não há, após essa descrição, sem meias-tintas, alguém menos apropriado para encarnar um avatar. Pode-se encontrar um Mestre numa catedral gótica, assim como numa aparentemente insignificante aldeia indígena, em vias de extinção. Ou trabalhando anônimo, no cais do porto. O velho bibliotecário refez mentalmente os passos pelas ruas estreitas, de paralelepípedos, da velha cidade, lado a lado, mestre e discípulo, num aprendizado informal, as palavras calando fundo no coração do rapaz: a importância do místico sincero entender que não há mal nem bem, que tais conceitos são meras quimeras; que se o brasileiro adquirisse o hábito salutar de se banhar todos os dias, pela manhã, poderíamos sim construir uma nação, a tão sonhada nação brasileira; de que a humanidade está sempre reescrevendo o mesmo livro; sobre os registros acásicos; Swami Vivekananda; Ramacháraca; o plexo solar; o novo cristianismo; sobre os chacras; Madame Blavatsky; Krishna; o Livro dos Mortos, o egípcio e o tibetano…
Fechou a biblioteca, desceu a escada, degraus de madeira maciça, feitos de dormentes de trem, trancando a estação ferroviária. Na plataforma, veio-lhe a cena de um filme, em preto e branco: o cavaleiro jogando xadrez com a morte.
Chovia ainda, torrencialmente, qual lembrança de um inesquecível dilúvio, bíblico. Ou do cataclismo da Atlântida. Nunca mais o maldito aguaceiro iria parar? Sentiu a pele úmida ao toque dos dedos, pegajosa.
Levantou-se, então, da cadeira o velho bibliotecário. A solidão, sempre a solidão, apesar de conscientemente cultivada, fez com que acendesse um cigarrinho de maconha, apesar das promessas diárias de não botar mais aquela porcaria na boca, de que se desse mais uma puxada... Enfim, era fácil pôr a culpa na solidão, na chuva, no frio. No frio insuportável da solidão. Precisava se aquecer, e como não bebia mais (o cheiro do álcool tornara-se insuportável), fumava. Desbragadamente nos finais de semana e feriados, quando não tinha que ir ao trabalho.
Dirigiu-se à janela e, através do riscado uniforme da chuva, oblíqua, como no poema de Maiakóvski, de viés, viu a pequena igreja, a capela do Bom Jesus do Saivá. Ao lado, colado à igrejinha, o cemitério, em frente à praça. Seu corpo seria também enterrado naquele cemitério? E se o queimassem na praia, num ritual pagão, como fizeram com Shelley? E se o lançassem ao mar, repasto de siris e camarões, enrolado num lençol branco, alvejado especialmente para a ocasião? Nada mais adequado a um homem que passara pela vida como clandestino, quase invisível. Os amigos poderiam jogá-lo no mar. Sempre tão distantes, se preocupariam com a sua ausência? Dariam pela falta? Não, certamente não. Houve um tempo em que ele chegou a ser sociável, apesar de sumir da convivência das ruas durante semanas. Ficava em casa, ouvindo horas a fio o mesmo disco do Black Sabbath, introspectivo. Gê, grande artista, tornou-se professor universitário. Não o vira mais. Sabia dele pelos outros, sempre assoberbado por teses, de mestrado, doutorado, ph.D. Lembrou-se dos outros três camaradas, inseparáveis naquele tempo: Rique, hoje alto funcionário de uma estatal; Maquiné, agente penitenciário. Encontrara os dois; um na roda de samba dos sábados, na Carioca, o outro, em frente ao hotel que herdara dos avós, em eterna reforma. Convidara-os à sua casa, nunca foram, apesar das promessas.
E Nico, que fim levara? Foi, num domingo, procurá-lo; soube que estava morando em Pontal. Encontrou-o imerso no mundo da droga, expulsara a família de casa, trocara portas e janelas por um tanto de crack. Sentiu-se covarde por não tê-lo esmurrado. Traído pelos sentimentos, para não chorar de raiva, o bibliotecário relanceou os olhos pelo cemitério em frente. Quantos túmulos pintara, adolescente, para Finados?
– Não faça barulho que eles estão descansando – advertia o guardião, naqueles dias despreocupados.
E a chuva continuava, intermitente. Olhou para a esquerda e viu que, mesmo assim, apesar do aguaceiro, o movimento do supermercado não cessara. Logo, dali a uma hora, encerrado o expediente, ele iria para casa; tomada de cupins, e o vizinho tinha cimentado a manilha do esgoto, que passava pelo seu terreno. E a água do banho, da privada, as necessidades iam para onde? Uma noite, sonhou que o quintal inteiro vertia merda. Nos fundos da casa, uma mangueira centenária, que nunca dera um fruto sequer, rangia assustadora nas noites de ventania, esfregando os galhos no telhado e esfrangalhando-lhe ainda mais os nervos. No oco das raízes, morava uma insuspeitada família de lagartos. Pensou em dar nomes a eles; o pai, o rei lagarto, seria Morrison, evidentemente. Precisava mudar daquela casa, pressentia algo muito pesado, um crime ocorrido ali, sim, um crime bárbaro, sobre o qual não se falava, sobre o qual todos calavam.
Andava exasperado, estava emagrecendo a olhos vistos. Suas poucas carnes estavam dançando dentro das roupas, trêmulo o braço direito, os cabelos raleando. Às vezes, o telefone tocava, no avançado da noite. Do outro lado, ninguém, nem voz, nem respiração. Com certeza, precisava mudar dali. Lembrou-se, então, de um telefonema que recebera, há muitos anos atrás, em outra cidade, dizendo ser a Anastácia, prima do vô Antonio, pedindo-lhe que avisasse aos parentes que a Acácia tinha falecido. Ao dar o recado, quando o avô chegou da chácara, ele arregalou os olhos: a prima Anastácia tinha morrido muito tempo antes da tia Acácia.
A chuva amainara, precisava aproveitar a trégua para voltar para casa. Não apareceria ninguém mesmo; nunca aparecia ninguém na biblioteca, podia assim encerrar o expediente na hora que bem entendesse. Esvaziou baldes, torceu panos, recolocou tudo de volta no lugar, sob as goteiras. Ao se erguer repentinamente, deu com os olhos em “Meu Guru e Seu Discípulo”, de Christopher Isherwood. Apesar da vista toldada, sob efeito do fumo, tinha certeza do nome, sabia de cor cada título daquele lugar. Lembrou-se, então, do Mestre, que o despertara para os aspectos místicos da vida, através dele fora admitido na fraternidade dos rosacruzes, como neófito, onde permaneceu durante trinta anos ininterruptos. (Precisava retomar os estudos da cabala). Quantas conversas na penumbra… O mentor na poltrona verde, gasta, puída; o rapaz aprendendo, o homem mais velho falando-lhe de vidas passadas; da noite negra da alma; iniciações psíquicas no Tibete; vida após a morte; da morte; dos irmãos de branco; da vida mística de Jesus; da concepção de Maria, imaculada (se os homens são capazes de fazer o mal através da palavra dita, por que um arcanjo, um ser superior, não pode criar uma outra vida através do verbo?) sobre o príncipe Sidarta, o venerado Buda, envenenado por carne de porco; Ramakrishna; o Bhagavad-Gita; os Vedas; Zoroastro, a eterna luta entre o bem e o mal; Plotino; o Dr. Bucke; Francis Bacon (assegurava-lhe que Shakespeare era o pseudônimo de Bacon, o qual escrevera todas as obras atribuídas ao bardo inglês), et cetera, et cetera, et cetera, como diria o rei do Sião.
– Mas então por que isso tudo não é amplamente divulgado?
– Muito já foi, e os homens de inteligência se recusam a aceitar.
– Por quê?
– Muito da história precisaria ser revista, muitas reputações cairiam por terra, teses universitárias se transformariam em cinzas. A humanidade gosta de viver na mentira, na ilusão, mas acontece que tudo isso faz parte de uma grande engrenagem, necessária. Até a ilusão.
Ante o assombro do adolescente, o Mestre continuou.
– E se eu lhe dissesse que Jesus não foi o único Cristo, que agora, neste exato momento, pode estar nascendo um outro Cristo no Oriente? Ou numa favela do Rio de Janeiro? Ele pode estar andando na Avenida Paulista, de terno e gravata. Ah, porque se ele estivesse vivendo entre os ocidentais não ficaria andando por aí de túnica, chamando a atenção das pessoas, como um ser exótico. Se quisermos, podemos dizer Buda Cristo. E Plotino também o foi, um Cristo. Também Whitman, esse grande poeta.
– …
– E Jesus não foi o único nascido de uma virgem, e não foi o primeiro nem será o último. A lenda diz que Platão também nasceu de uma virgem. E também Leonardo da Vinci. E Jesus não era analfabeto, nem um homem delicado, nem pobre, como querem as igrejas, e ele não morreu na cruz, viveu até os setenta anos, fazia parte da Irmandade Branca, estudou na Índia, Egito, Pérsia… Tudo isso está lhe parecendo extravagante?
– Não, é que…
Na girândola da cabeça, veio-lhe a imagem de um funeral. Poucas pessoas, simples, dia chuvoso em Paranaguá, o Mestre deitado, com as mãos postas, rodeado de flores amarelas, mal cheirosas. Depois de uma dessas doenças passageiras de inverno, ele saíra para dar uma volta, aproveitar o sol da manhã. Empolgou-se com a caminhada, e quando deu por si já era meio-dia; tinha de voltar, não levara chapéu, o buraco na camada de ozônio, maldito buraco na camada de ozônio. Fora longe demais, chegou em casa vomitando sangue. Foi o tempo de chamarem a ambulância, direto para a U.T.I. Desde então, o mundo ficara mais pobre, o mundo do velho bibliotecário ficara definitivamente mais pobre. Gabava-se o velho bibliotecário de que nos últimos anos não se passara um único dia em que não lembrasse do Mestre. E, agora, quantos dias, meses, tinham se passado sem que a amada figura lhe viesse à mente? Quando alguém morre, promete-se que jamais se esquecerá o ente querido. Durante certo tempo, a lembrança vem à tona, sem que se faça esforço, várias vezes durante o dia, à noite, nos sonhos, depois vai se espaçando, dia sim, dia não, esgarçando-se, rareando, menos densa, cada vez mais difusa, até que se tem de fazer esforço, buscando, rebuscando, e, culpado por ainda estar vivo, passa-se a percebê-lo somente como difusa silhueta num teatro de sombras. Num exercício desesperado, o velho bibliotecário começou a desenhar na tela da imaginação o seu instrutor: cabelos negros, alguns fios brancos, grisalho, a pele muito branca, onde o sol não tostara, baixo, quase atarracado, barrigudo, nariz grosso, a voz às vezes estridente, de descendência italiana. De onde os olhos amendoados? O riso franco que, muitas vezes, desembocava numa gargalhada, ante as inocentes perguntas do aprendiz. E a gagueira? Sim, o Mestre era gago e isso, por certo, não fica bem em alguém pressupostamente capaz de controlar os desejos humanos, ou grande parte deles. E a sua profissão, o que fazia ele para viver? O preconceito jamais deixaria supor um ser tão evoluído ganhando a vida como humilde vigia portuário. Além de tudo, o Mestre era banguela, sem um único dente na boca! Acontece que a vida, a vida real, não é um romance de capa e espada. Não há, após essa descrição, sem meias-tintas, alguém menos apropriado para encarnar um avatar. Pode-se encontrar um Mestre numa catedral gótica, assim como numa aparentemente insignificante aldeia indígena, em vias de extinção. Ou trabalhando anônimo, no cais do porto. O velho bibliotecário refez mentalmente os passos pelas ruas estreitas, de paralelepípedos, da velha cidade, lado a lado, mestre e discípulo, num aprendizado informal, as palavras calando fundo no coração do rapaz: a importância do místico sincero entender que não há mal nem bem, que tais conceitos são meras quimeras; que se o brasileiro adquirisse o hábito salutar de se banhar todos os dias, pela manhã, poderíamos sim construir uma nação, a tão sonhada nação brasileira; de que a humanidade está sempre reescrevendo o mesmo livro; sobre os registros acásicos; Swami Vivekananda; Ramacháraca; o plexo solar; o novo cristianismo; sobre os chacras; Madame Blavatsky; Krishna; o Livro dos Mortos, o egípcio e o tibetano…
Fechou a biblioteca, desceu a escada, degraus de madeira maciça, feitos de dormentes de trem, trancando a estação ferroviária. Na plataforma, veio-lhe a cena de um filme, em preto e branco: o cavaleiro jogando xadrez com a morte.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
A CASA DA MEMÓRIA
Edson Negromonte
Certas coisas são difíceis de explicar, mesmo tendo-as presenciado. Difíceis principalmente aos espíritos céticos. Como não tenho a mínima ideia de quem está por trás destas páginas, dou-me o direito de acreditar que seja alguém disposto a comigo compartilhar de uma experiência que até hoje me horroriza, após tanto tempo. Não peço que você, leitor, creia em meu relato sem questioná-lo. Dou-lhe plena liberdade de discordar, sorrir incrédulo ou até, quem sabe, abandoná-lo após as primeiras linhas. Certamente, não gostaria que isto acontecesse, pois não estaria, então, dividindo com alguém o terrível acontecimento do qual pretendo dar conta.
Em certa ocasião de minha vida, na adolescência (fase propícia a que sejamos enganados com certa frequência), correu, na cidade onde eu morava (lugarejo aprazível, na encosta da serra, em cuja baía as histórias de fantasmas são uma convenção), a notícia de que no terreno da casa de nhá Arminda vinha brotando um filete de sangue. Curioso, como qualquer garoto da minha idade, ao saber da insólita ocorrência, ouvida da boca de uma das empregadas de casa, abandonei à mesa o prato de comida e saí às carreiras em direção à casa dessa conhecida senhora. Somente quando estava longe e já não podia mais responder, foi que dei pelos gritos desesperados de minha mãe, chamando por mim. Não, eu não podia perder tal acontecimento, bálsamo para uma índole inquieta que se comprazia em buscar nos livros, mormente nas enciclopédias ao meu alcance, palavras como íncubos e súcubos; deleitavam-me as narrativas do grotesco e do arabesco. Onde houvesse alguém disposto a arrepiar os cabelos da nuca de uma criança, ou de espíritos infantis, tenha certeza você de que me encontraria entre os ouvintes. Assim, desde cedo, a convivência com as pessoas ditas incultas era-me muito mais agradável e proveitosa; essa gente traz, da tradição oral, casos que passam a nos acompanhar durante toda a vida. A eles sempre dei crédito, mesmo depois de ingressar na escola primária e os professores, esses estraga prazeres, acharem por bem acabar com minhas fantasias, na vã tentativa de me tornarem normal, mais um materialista.
Ao chegar à casa de nhá Arminda, encontrei-a cheia de curiosos que, assim como eu, queriam ver com os próprios olhos o filete de sangue que do chão brotava. Era uma casa de construção antiga, centenária, de janelas altas, portas dando direto para a rua, mas que, apesar do desleixo na conservação, ainda apresentava em sua aparência o fausto de um tempo há muito deixado para trás, da efervescência econômica de um porto que já foi considerado um dos mais movimentados do País. Entrei pelo portão lateral, no estreito corredor que dava acesso ao terreno dos fundos, tive que forçar passagem com os cotovelos para chegar ao local, onde os adultos analisavam silenciosos, doutorais, o filete vermelho. Sim, tenha certeza de que disso posso dar ciência, pois, com esses olhos que a terra há de tragar (desculpe o lugar-comum, mas não me ocorre no momento expressão mais apropriada), eu também o vi. Alguns cheiravam o ar como cães farejadores, concordando entre si, com movimentos de cabeça, que havia naquele cenário um evidente cheiro de ferrugem. Receosos, aspiravam o ar, mas nenhum deles teve peito de passar o dedo no filete de sangue e cheirá-lo. Devo aqui esclarecer que, apesar do ímpeto juvenil à flor da pele, também não me atrevi a tal ousadia.
Logo, chegou o responsável pelo laboratório de análises clínicas, cidadão respeitável, de paletó preto amarrotado e gravata cinza, torta, alfinete do Rotary Club na lapela. Abriu a maleta de couro, tirou de dentro, tal e qual um Lavoisier, as esperadas lâminas de vidro, dispondo-as displicentemente na calçada, encostou uma dessas lâminas no suspeito filete. Em seguida, guardou-a num reluzente estojo de alumínio. Procedeu assim com outras duas lâminas o nosso cientista de plantão. Sim, somente ele poderia esclarecer a população; era o responsável pelo exame das nossas fezes. E também pela qualidade da água que bebíamos; ele que esclarecera ao prefeito que a diarreia que acometeu, em certa ocasião, a grande maioria dos moradores fora causada pelo cadáver de Maneco Dondinha. Bêbados, seu Maneco e o cavalo teriam contaminado a água, após morrerem afogados no grande reservatório da cidade.
Perguntaram-lhe se era mesmo sangue o filete vermelho que ora brotava do terreno de nhá Arminda.
– Petróleo é que não é – respondeu empertigado, fechando a maleta, nariz empinado, olhando as pessoas do alto dos seus óculos de tartaruga, alisando o bigodinho fino.
– Ué, é sangue ou não é?
– Somente poderei dizê-lo após uma cuidadosa análise.
Nem bem o homem do laboratório se foi, o padre chegou. Pegou a sacola da mão do sacristão e, sem perguntar nada a ninguém, carrancudo, foi logo borrifando água benta em tudo: no terreno, nas árvores, galinhas, nos presentes, enquanto murmurava uma reza arrevesada em latim. Sem nada entender, fazíamos o sinal da cruz a cada parada que ele dava para respirar. Seguimos em direção à casa, nós atrás, a certa distância, o padre na frente. Não entenda isso como covardia da nossa parte, é que se alguma coisa pior acontecesse teríamos o rotundo representante do Senhor como escudo. Já entrou tudo aspergindo, e o povo, cauteloso, do lado de fora. Eu, junto com outro menino, encostado no batente da porta. Borrifou móveis, televisão, o cachorro velho e cego, até a pobre da nhá Arminda que, no momento, rezava um terço. A mulher, enfezada, fez que nem era com ela. Todos sabiam da sua briga com o pároco, não ia mais à igreja desde que ele se recusara a dar os últimos sacramentos ao marido, alegando que o velho Antenógenes era comunista, comedor de criancinhas.
Quando padre e sacristão se foram, muitos ainda ficaram por ali, cheirando o ar, fazendo piadas, bicando um café ralo e doce, surgido sabe-se lá de onde (de dentro da casa é que não tinha vindo), filando cigarros, descontraídos, mas mesmo assim ninguém se atrevia a sequer relar o dedo mínimo no filete vermelho que continuava a escorrer indiferente pelo terreno. Nem mesmo Jesus, o intrépido filho de dona Mariazinha. Porque beber, Jesus bebia, e muito, mas fazia questão de declarar aos quatro ventos que jamais beberia o juízo, e que passar o dedo naquela coisa vermelha, de aparência pegajosa, era uma temeridade brincar com as coisas do Além. Jesus curvou o corpo, em evidente desequilíbrio, na direção do filete, cafungou o ar (alguém fez menção de empurrá-lo), ergueu-se, perscrutou o vazio e disparou:
– Que se isso for sangue, eu como é cum farinha!
– Então, come, se tu é homem! – exclamou um gaiato.
– Eu não, que sangue não se come, se bebe. E, de mais a mais, eu num sou vompiro!
Às seis da tarde, hora da Ave Maria, o ar se tornou mais denso, o odor de ferrugem mais intenso. Com a carícia repentina das franjas do manto da noite, achou-se por bem ir cada um para a sua casa; ninguém é besta de ficar num lugar amaldiçoado quando chegam as trevas. Nem a surra que levei de minha mãe, com galho de goiabeira, foi capaz de acalmar meus nervos. Sem pregar os olhos, aguardei a chegada dos primeiros raios da manhã. Antes que alguém em casa acordasse, saí pé ante pé e retornei ao mistério da casa que vertia sangue. Ao chegar, encontrei ali o carro do Diário do Paraná. Devia ser mesmo um mistério de grande monta, pois mobilizara até um dos jornais da capital. Dentro da casa, dois repórteres falavam com dona Arminda, enquanto a fotógrafa batia várias chapas do intrigante filete vermelho. Coçou ela a cabeça, quando eu lhe disse que cheirasse o ar para perceber o forte odor de ferrugem.
– Enxofre não seria mais apropriado?
– Não, enxofre é catinga de quando o Bode tá por perto. O cheiro de ferrugem vem do corpo de seu Antenógenes, marido da viúva, a quem o padre se recusou a dar extrema-unção. Ele era comunista... – expliquei à moça do jornal.
Depois destes, vieram outros; até gente que não falava a nossa língua, duma fala diferente, polacos, gente da Europa e até da Cortina de Ferro, os tais estrangeiros. Meu tio, entendido em inglês, disse que um dos jornalistas era do New York Times. Imagina só, nossa pequena aldeia ia sair até na imprensa gringa.
Quinze dias depois, seu Bertolotto, o das análises clínicas, informou ao prefeito, que informou à população (embora já soubéssemos), que ele, no seu laboratório, não tinha aparelhagem suficiente para dizer, nem para desdizer, se aquilo que agora escorria pela calçada em frente à casa de nhá Arminda era sangue ou groselha. Inspirado, seu Bertolotto, conhecido como Bebê Babão, invocou as sábias palavras de um filósofo baiano do qual não lembro mais o nome.
– "Dizem que o mel é doce. Se o mel é doce, isso é coisa de que me nego a afirmar, mas que parece doce parece. Isso eu afirmo plenamente".
Daí, foram colhidas novas amostras da substância vermelha e enviadas para um grande laboratório. Como a vida é dinâmica, enquanto o resultado não chegava, os jornalistas voltaram para as suas redações, inclusive os estrangeiros, e os curiosos voltaram aos seus afazeres: jogar sinuca, conversar fiado na barbearia, na farmácia, assistir a uma pelada no campinho. Ah, alguns trabalhavam, mas esses eram tão poucos que nem têm peso nas estatísticas. Eu, por minha vez, apesar da diferença de idades, tornei-me amigo de seu Bertolotto, embora fosse muitas vezes enxotado do laboratório, quando atrapalhava as suas palavras cruzadas com as minhas insistentes perguntas sobre o filete vermelho de sangue, que continuava a verter, sim, com menos intensidade, mas continuava lá, brotando, brilhante, ao sol, com cheiro de ferrugem, para quem quisesse ver ou cheirar. Como um detetive curioso, passei a frequentar a casa de nhá Arminda. Afeiçoou-se tanto a mim a solitária que cheguei a com ela compartilhar do chá com bolachinhas. De início, eu não aceitava. Tinha lá minhas razões: referiam-se a ela como bruxa, diziam que, em noites de lua cheia, a mulher podia ser vista voando numa vassoura de piaçaba, entre outras barbaridades que nem me atrevo a relatar, como rituais sabáticos, presididos pelo próprio Satanás em pessoa, essas perversões que só mentes desocupadas são capazes de engendrar. Mas a doçura da mulher foi, aos poucos, amolecendo minha repulsa inicial, de tal maneira que eu já não compreendia o dia sem o chá de nhá Arminda e o seu sorriso bondoso quando ela me esticava, com mãos trêmulas, o prato com a última bolacha Maizena.
Sete meses depois, o laboratório da capital mandou para o prefeito, aos cuidados de seu Bertolotto, o parecer definitivo sobre o grande mistério da casa que ainda vertia sangue, embora ninguém mais, a não ser eu, o escrevinhador destas linhas, se ocupasse com o fato. Sim, era sangue mesmo! Reboliçou-se novamente o povinho. Por incrível que pareça, mesmo com a confirmação de que era, sem dúvida, um líquido vermelho e viscoso, idêntico ao do organismo humano, não tivemos mais a visita de nenhum jornal, a não ser o Notícias Populares. Notícia é que nem sangue: se é fresco, alarma; coagulado é sinal de que a ferida já virou cicatriz. Assustada com o parecer do laboratório, nhá Arminda consentiu que o terreno fosse cavado, escavado, cavoucado, revolvido para se chegar de uma vez por todas à origem do enigma. Benedito, um negão forte e alto, atlético, corajoso, destemido, trabalhou durante horas, sem descanso, como se estivesse cavando um poço para matar a sede de Nosso Senhor. E nada de chegar à nascente sanguínea, ao mênstruo da terra. Com o de repente da noite, achou-se por bem encerrar as atividades para retomá-las no dia seguinte; Benedito, o infatigável gigante negro teve que ser içado por uma improvisada escada de cordas, de tanto que o homem cavara, escavara, cavoucara e revolvera a terra.
Vó Arminda, assim passei a chamá-la, pediu-me que pernoitasse em sua casa. Devo esclarecer que nem precisei consultar minha família, que já me considerava caso perdido. Nas raras vezes em que eu dormia em casa, a única reação de meus pais era balançar negativamente a cabeça, para lá e para cá. O caso do filete de sangue tinha tomado tal proporção dentro de mim, alma que ameaças e surras já não me faziam medo. Assim, muitas vezes evitei voltar ao lar, dormindo em calçadas, em banco de praça, só para não me afastar do foco de minhas atenções, a casa. Sim, a casa amaldiçoada, pois minha mente suscetível era dada a sonhos diurnos, como se eu fosse usuário de alguma droga, um opiômano, já não sabendo distinguir entre os mundos real e irreal. Esses devaneios eram alimentados por uma droga que eu mesmo gerava dentro de meu ser, de meu corpo, em meu próprio sangue, e que talvez afetasse a capacidade de raciocínio coerente. Sei que não poderia me expor assim, se realmente quisesse a credibilidade do leitor. Estou a pedir demasiado de alguém que sequer me conhece?
Na manhã seguinte, sai do sofá, onde tentei esticar o corpo, conciliar o sono, estremecendo a cada pequeno ruído noturno, imaginando ver, na escuridão da sala, seres os mais escabrosos. Abri a porta da cozinha, lavei o rosto no tanque. Ao olhar em direção ao buraco. um calafrio percorreu a minha espinha de ponta a ponta, os cabelos se eriçaram e, quando dei por mim, estava apavorado, aos gritos, berrando, feito louco, ensandecido, dando socos em minha própria cabeça. Não, eu não podia, recusava-me a crer: o buraco aberto no dia anterior estava fechado, a terra batida, como se ninguém houvesse nela trabalhado. Sem saber o que fazer, corri ao quarto de vó Arminda, para acordá-la. Sem escrúpulos, sacudi-a pelos braços, arranquei-lhe as cobertas. Em pranto, puxei os seus cabelos brancos. Nada da mulher acordar, até que o corpo esquálido despencou da cama. Tudo apagou-se então.
Quando voltei a mim, estava detrás das grades, preso, suspeito de matar a pobre velha. O populacho me acusava de tê-la esfaqueado. Como, se o cadáver não tinha uma única marca de perfuração? À polícia, de tê-la envenenado. Sem provas, menor, boa família, fui liberado. O laudo médico, fornecido pelo Dr. Schölze, amigo de meus pais, atestara morte súbita, parada cardíaca. Durante alguns meses, amarguei os olhares enviesados de meus conterrâneos; com o tempo (este bálsamo que abranda todas as mazelas humanas), fui sendo admitido novamente nos círculos sociais, apesar de perceber que já não me tratavam como antes. Não podiam entender os amigos por que eu me recusara a comparecer ao enterro de dona Arminda. Nem eu mesmo sei dizer o porquê. Quem sabe, a recente experiência com as forças malignas já tivesse batido no limite dos meus nervos esfrangalhados. Ou não seria eu mesmo o culpado da morte da anciã? E se ela estivesse dormindo um sono pesado quando fui chamá-la e, ao despencar da cama, com o impacto da queda, o coração, frágil, gasto, tivesse parado de bater? Então, admitamos, eu posso ser o culpado pela morte da pobre senhora.
Hoje, nem o casarão resta, muito menos o filete vermelho que do terreno brotava. No mesmo local, ao lado da estação rodoviária e da colônia de pescadores, está o Banco Itaú, onde antes funcionou o Banco do Estado, no cruzamento da rua XV de Novembro com a Coronel Marçalo, num prédio novo, de repugnante arquitetura modernosa. Ninguém sequer comenta mais o caso da casa que vertia sangue na tentativa de exorcizar mais um dos nossos demônios urbanos. Sei que os moradores atuais não me dão crédito, mas não morreria eu em paz comigo mesmo e com o Senhor do Altíssimo, nem com o das Profundas, se deixasse o ocorrido por narrar, na qualidade de cronista um tanto apócrifo de uma época que muitos fazem questão de relegar a um passado obscuro e extravagante. Agora, já posso descansar, de consciência tranquila e alma banhada...
Certas coisas são difíceis de explicar, mesmo tendo-as presenciado. Difíceis principalmente aos espíritos céticos. Como não tenho a mínima ideia de quem está por trás destas páginas, dou-me o direito de acreditar que seja alguém disposto a comigo compartilhar de uma experiência que até hoje me horroriza, após tanto tempo. Não peço que você, leitor, creia em meu relato sem questioná-lo. Dou-lhe plena liberdade de discordar, sorrir incrédulo ou até, quem sabe, abandoná-lo após as primeiras linhas. Certamente, não gostaria que isto acontecesse, pois não estaria, então, dividindo com alguém o terrível acontecimento do qual pretendo dar conta.
Em certa ocasião de minha vida, na adolescência (fase propícia a que sejamos enganados com certa frequência), correu, na cidade onde eu morava (lugarejo aprazível, na encosta da serra, em cuja baía as histórias de fantasmas são uma convenção), a notícia de que no terreno da casa de nhá Arminda vinha brotando um filete de sangue. Curioso, como qualquer garoto da minha idade, ao saber da insólita ocorrência, ouvida da boca de uma das empregadas de casa, abandonei à mesa o prato de comida e saí às carreiras em direção à casa dessa conhecida senhora. Somente quando estava longe e já não podia mais responder, foi que dei pelos gritos desesperados de minha mãe, chamando por mim. Não, eu não podia perder tal acontecimento, bálsamo para uma índole inquieta que se comprazia em buscar nos livros, mormente nas enciclopédias ao meu alcance, palavras como íncubos e súcubos; deleitavam-me as narrativas do grotesco e do arabesco. Onde houvesse alguém disposto a arrepiar os cabelos da nuca de uma criança, ou de espíritos infantis, tenha certeza você de que me encontraria entre os ouvintes. Assim, desde cedo, a convivência com as pessoas ditas incultas era-me muito mais agradável e proveitosa; essa gente traz, da tradição oral, casos que passam a nos acompanhar durante toda a vida. A eles sempre dei crédito, mesmo depois de ingressar na escola primária e os professores, esses estraga prazeres, acharem por bem acabar com minhas fantasias, na vã tentativa de me tornarem normal, mais um materialista.
Ao chegar à casa de nhá Arminda, encontrei-a cheia de curiosos que, assim como eu, queriam ver com os próprios olhos o filete de sangue que do chão brotava. Era uma casa de construção antiga, centenária, de janelas altas, portas dando direto para a rua, mas que, apesar do desleixo na conservação, ainda apresentava em sua aparência o fausto de um tempo há muito deixado para trás, da efervescência econômica de um porto que já foi considerado um dos mais movimentados do País. Entrei pelo portão lateral, no estreito corredor que dava acesso ao terreno dos fundos, tive que forçar passagem com os cotovelos para chegar ao local, onde os adultos analisavam silenciosos, doutorais, o filete vermelho. Sim, tenha certeza de que disso posso dar ciência, pois, com esses olhos que a terra há de tragar (desculpe o lugar-comum, mas não me ocorre no momento expressão mais apropriada), eu também o vi. Alguns cheiravam o ar como cães farejadores, concordando entre si, com movimentos de cabeça, que havia naquele cenário um evidente cheiro de ferrugem. Receosos, aspiravam o ar, mas nenhum deles teve peito de passar o dedo no filete de sangue e cheirá-lo. Devo aqui esclarecer que, apesar do ímpeto juvenil à flor da pele, também não me atrevi a tal ousadia.
Logo, chegou o responsável pelo laboratório de análises clínicas, cidadão respeitável, de paletó preto amarrotado e gravata cinza, torta, alfinete do Rotary Club na lapela. Abriu a maleta de couro, tirou de dentro, tal e qual um Lavoisier, as esperadas lâminas de vidro, dispondo-as displicentemente na calçada, encostou uma dessas lâminas no suspeito filete. Em seguida, guardou-a num reluzente estojo de alumínio. Procedeu assim com outras duas lâminas o nosso cientista de plantão. Sim, somente ele poderia esclarecer a população; era o responsável pelo exame das nossas fezes. E também pela qualidade da água que bebíamos; ele que esclarecera ao prefeito que a diarreia que acometeu, em certa ocasião, a grande maioria dos moradores fora causada pelo cadáver de Maneco Dondinha. Bêbados, seu Maneco e o cavalo teriam contaminado a água, após morrerem afogados no grande reservatório da cidade.
Perguntaram-lhe se era mesmo sangue o filete vermelho que ora brotava do terreno de nhá Arminda.
– Petróleo é que não é – respondeu empertigado, fechando a maleta, nariz empinado, olhando as pessoas do alto dos seus óculos de tartaruga, alisando o bigodinho fino.
– Ué, é sangue ou não é?
– Somente poderei dizê-lo após uma cuidadosa análise.
Nem bem o homem do laboratório se foi, o padre chegou. Pegou a sacola da mão do sacristão e, sem perguntar nada a ninguém, carrancudo, foi logo borrifando água benta em tudo: no terreno, nas árvores, galinhas, nos presentes, enquanto murmurava uma reza arrevesada em latim. Sem nada entender, fazíamos o sinal da cruz a cada parada que ele dava para respirar. Seguimos em direção à casa, nós atrás, a certa distância, o padre na frente. Não entenda isso como covardia da nossa parte, é que se alguma coisa pior acontecesse teríamos o rotundo representante do Senhor como escudo. Já entrou tudo aspergindo, e o povo, cauteloso, do lado de fora. Eu, junto com outro menino, encostado no batente da porta. Borrifou móveis, televisão, o cachorro velho e cego, até a pobre da nhá Arminda que, no momento, rezava um terço. A mulher, enfezada, fez que nem era com ela. Todos sabiam da sua briga com o pároco, não ia mais à igreja desde que ele se recusara a dar os últimos sacramentos ao marido, alegando que o velho Antenógenes era comunista, comedor de criancinhas.
Quando padre e sacristão se foram, muitos ainda ficaram por ali, cheirando o ar, fazendo piadas, bicando um café ralo e doce, surgido sabe-se lá de onde (de dentro da casa é que não tinha vindo), filando cigarros, descontraídos, mas mesmo assim ninguém se atrevia a sequer relar o dedo mínimo no filete vermelho que continuava a escorrer indiferente pelo terreno. Nem mesmo Jesus, o intrépido filho de dona Mariazinha. Porque beber, Jesus bebia, e muito, mas fazia questão de declarar aos quatro ventos que jamais beberia o juízo, e que passar o dedo naquela coisa vermelha, de aparência pegajosa, era uma temeridade brincar com as coisas do Além. Jesus curvou o corpo, em evidente desequilíbrio, na direção do filete, cafungou o ar (alguém fez menção de empurrá-lo), ergueu-se, perscrutou o vazio e disparou:
– Que se isso for sangue, eu como é cum farinha!
– Então, come, se tu é homem! – exclamou um gaiato.
– Eu não, que sangue não se come, se bebe. E, de mais a mais, eu num sou vompiro!
Às seis da tarde, hora da Ave Maria, o ar se tornou mais denso, o odor de ferrugem mais intenso. Com a carícia repentina das franjas do manto da noite, achou-se por bem ir cada um para a sua casa; ninguém é besta de ficar num lugar amaldiçoado quando chegam as trevas. Nem a surra que levei de minha mãe, com galho de goiabeira, foi capaz de acalmar meus nervos. Sem pregar os olhos, aguardei a chegada dos primeiros raios da manhã. Antes que alguém em casa acordasse, saí pé ante pé e retornei ao mistério da casa que vertia sangue. Ao chegar, encontrei ali o carro do Diário do Paraná. Devia ser mesmo um mistério de grande monta, pois mobilizara até um dos jornais da capital. Dentro da casa, dois repórteres falavam com dona Arminda, enquanto a fotógrafa batia várias chapas do intrigante filete vermelho. Coçou ela a cabeça, quando eu lhe disse que cheirasse o ar para perceber o forte odor de ferrugem.
– Enxofre não seria mais apropriado?
– Não, enxofre é catinga de quando o Bode tá por perto. O cheiro de ferrugem vem do corpo de seu Antenógenes, marido da viúva, a quem o padre se recusou a dar extrema-unção. Ele era comunista... – expliquei à moça do jornal.
Depois destes, vieram outros; até gente que não falava a nossa língua, duma fala diferente, polacos, gente da Europa e até da Cortina de Ferro, os tais estrangeiros. Meu tio, entendido em inglês, disse que um dos jornalistas era do New York Times. Imagina só, nossa pequena aldeia ia sair até na imprensa gringa.
Quinze dias depois, seu Bertolotto, o das análises clínicas, informou ao prefeito, que informou à população (embora já soubéssemos), que ele, no seu laboratório, não tinha aparelhagem suficiente para dizer, nem para desdizer, se aquilo que agora escorria pela calçada em frente à casa de nhá Arminda era sangue ou groselha. Inspirado, seu Bertolotto, conhecido como Bebê Babão, invocou as sábias palavras de um filósofo baiano do qual não lembro mais o nome.
– "Dizem que o mel é doce. Se o mel é doce, isso é coisa de que me nego a afirmar, mas que parece doce parece. Isso eu afirmo plenamente".
Daí, foram colhidas novas amostras da substância vermelha e enviadas para um grande laboratório. Como a vida é dinâmica, enquanto o resultado não chegava, os jornalistas voltaram para as suas redações, inclusive os estrangeiros, e os curiosos voltaram aos seus afazeres: jogar sinuca, conversar fiado na barbearia, na farmácia, assistir a uma pelada no campinho. Ah, alguns trabalhavam, mas esses eram tão poucos que nem têm peso nas estatísticas. Eu, por minha vez, apesar da diferença de idades, tornei-me amigo de seu Bertolotto, embora fosse muitas vezes enxotado do laboratório, quando atrapalhava as suas palavras cruzadas com as minhas insistentes perguntas sobre o filete vermelho de sangue, que continuava a verter, sim, com menos intensidade, mas continuava lá, brotando, brilhante, ao sol, com cheiro de ferrugem, para quem quisesse ver ou cheirar. Como um detetive curioso, passei a frequentar a casa de nhá Arminda. Afeiçoou-se tanto a mim a solitária que cheguei a com ela compartilhar do chá com bolachinhas. De início, eu não aceitava. Tinha lá minhas razões: referiam-se a ela como bruxa, diziam que, em noites de lua cheia, a mulher podia ser vista voando numa vassoura de piaçaba, entre outras barbaridades que nem me atrevo a relatar, como rituais sabáticos, presididos pelo próprio Satanás em pessoa, essas perversões que só mentes desocupadas são capazes de engendrar. Mas a doçura da mulher foi, aos poucos, amolecendo minha repulsa inicial, de tal maneira que eu já não compreendia o dia sem o chá de nhá Arminda e o seu sorriso bondoso quando ela me esticava, com mãos trêmulas, o prato com a última bolacha Maizena.
Sete meses depois, o laboratório da capital mandou para o prefeito, aos cuidados de seu Bertolotto, o parecer definitivo sobre o grande mistério da casa que ainda vertia sangue, embora ninguém mais, a não ser eu, o escrevinhador destas linhas, se ocupasse com o fato. Sim, era sangue mesmo! Reboliçou-se novamente o povinho. Por incrível que pareça, mesmo com a confirmação de que era, sem dúvida, um líquido vermelho e viscoso, idêntico ao do organismo humano, não tivemos mais a visita de nenhum jornal, a não ser o Notícias Populares. Notícia é que nem sangue: se é fresco, alarma; coagulado é sinal de que a ferida já virou cicatriz. Assustada com o parecer do laboratório, nhá Arminda consentiu que o terreno fosse cavado, escavado, cavoucado, revolvido para se chegar de uma vez por todas à origem do enigma. Benedito, um negão forte e alto, atlético, corajoso, destemido, trabalhou durante horas, sem descanso, como se estivesse cavando um poço para matar a sede de Nosso Senhor. E nada de chegar à nascente sanguínea, ao mênstruo da terra. Com o de repente da noite, achou-se por bem encerrar as atividades para retomá-las no dia seguinte; Benedito, o infatigável gigante negro teve que ser içado por uma improvisada escada de cordas, de tanto que o homem cavara, escavara, cavoucara e revolvera a terra.
Vó Arminda, assim passei a chamá-la, pediu-me que pernoitasse em sua casa. Devo esclarecer que nem precisei consultar minha família, que já me considerava caso perdido. Nas raras vezes em que eu dormia em casa, a única reação de meus pais era balançar negativamente a cabeça, para lá e para cá. O caso do filete de sangue tinha tomado tal proporção dentro de mim, alma que ameaças e surras já não me faziam medo. Assim, muitas vezes evitei voltar ao lar, dormindo em calçadas, em banco de praça, só para não me afastar do foco de minhas atenções, a casa. Sim, a casa amaldiçoada, pois minha mente suscetível era dada a sonhos diurnos, como se eu fosse usuário de alguma droga, um opiômano, já não sabendo distinguir entre os mundos real e irreal. Esses devaneios eram alimentados por uma droga que eu mesmo gerava dentro de meu ser, de meu corpo, em meu próprio sangue, e que talvez afetasse a capacidade de raciocínio coerente. Sei que não poderia me expor assim, se realmente quisesse a credibilidade do leitor. Estou a pedir demasiado de alguém que sequer me conhece?
Na manhã seguinte, sai do sofá, onde tentei esticar o corpo, conciliar o sono, estremecendo a cada pequeno ruído noturno, imaginando ver, na escuridão da sala, seres os mais escabrosos. Abri a porta da cozinha, lavei o rosto no tanque. Ao olhar em direção ao buraco. um calafrio percorreu a minha espinha de ponta a ponta, os cabelos se eriçaram e, quando dei por mim, estava apavorado, aos gritos, berrando, feito louco, ensandecido, dando socos em minha própria cabeça. Não, eu não podia, recusava-me a crer: o buraco aberto no dia anterior estava fechado, a terra batida, como se ninguém houvesse nela trabalhado. Sem saber o que fazer, corri ao quarto de vó Arminda, para acordá-la. Sem escrúpulos, sacudi-a pelos braços, arranquei-lhe as cobertas. Em pranto, puxei os seus cabelos brancos. Nada da mulher acordar, até que o corpo esquálido despencou da cama. Tudo apagou-se então.
Quando voltei a mim, estava detrás das grades, preso, suspeito de matar a pobre velha. O populacho me acusava de tê-la esfaqueado. Como, se o cadáver não tinha uma única marca de perfuração? À polícia, de tê-la envenenado. Sem provas, menor, boa família, fui liberado. O laudo médico, fornecido pelo Dr. Schölze, amigo de meus pais, atestara morte súbita, parada cardíaca. Durante alguns meses, amarguei os olhares enviesados de meus conterrâneos; com o tempo (este bálsamo que abranda todas as mazelas humanas), fui sendo admitido novamente nos círculos sociais, apesar de perceber que já não me tratavam como antes. Não podiam entender os amigos por que eu me recusara a comparecer ao enterro de dona Arminda. Nem eu mesmo sei dizer o porquê. Quem sabe, a recente experiência com as forças malignas já tivesse batido no limite dos meus nervos esfrangalhados. Ou não seria eu mesmo o culpado da morte da anciã? E se ela estivesse dormindo um sono pesado quando fui chamá-la e, ao despencar da cama, com o impacto da queda, o coração, frágil, gasto, tivesse parado de bater? Então, admitamos, eu posso ser o culpado pela morte da pobre senhora.
Hoje, nem o casarão resta, muito menos o filete vermelho que do terreno brotava. No mesmo local, ao lado da estação rodoviária e da colônia de pescadores, está o Banco Itaú, onde antes funcionou o Banco do Estado, no cruzamento da rua XV de Novembro com a Coronel Marçalo, num prédio novo, de repugnante arquitetura modernosa. Ninguém sequer comenta mais o caso da casa que vertia sangue na tentativa de exorcizar mais um dos nossos demônios urbanos. Sei que os moradores atuais não me dão crédito, mas não morreria eu em paz comigo mesmo e com o Senhor do Altíssimo, nem com o das Profundas, se deixasse o ocorrido por narrar, na qualidade de cronista um tanto apócrifo de uma época que muitos fazem questão de relegar a um passado obscuro e extravagante. Agora, já posso descansar, de consciência tranquila e alma banhada...
terça-feira, 28 de outubro de 2014
MAIS ALGUMAS RECORDAÇÕES DO VELHO BIBLIOTECÁRIO
Edson Negromonte
Durante a convivência com Sven, ambos descobriram a poesia, o adolescente e o velho, embora este não perpetrasse versos, somente os lia, com uma entonação peculiar em determinadas palavras, às vezes em certas frases, inteiras, com a voz pastosa, sempre, como se estivesse cansado, num cantochão algo teatral, como se remoesse pequenas, pequeninas pedras entre os dentes amarelados pelo tabaco. Sua melhor interpretação acontecia em algumas passagens de “A Canção do Velho Marinheiro”, de Coleridge. Ao final, o jovem sempre o aplaudia. calorosamente; a brincadeira fazia parte de um acordo tácito. Apesar das orientações, os primeiros versos do velho bibliotecário ocorreram sob a influência da música popular, dos Beatles, de Dorival Caymmi, coisas como “The Fool on the Hill”, “The Long and Winding Road”, “O Mar”, “O Vento”, “Suíte dos Pescadores”, sem saber que assim estava se afiliando irresponsavelmente à tradição dos antigos trovadores provençais. Veio a descobrir isso somente muitos anos mais tarde, ao tomar contato com a poesia concreta, com as traduções de Arnaut Daniel e Rimbaut d’Aurenga.
Durante o tempo em que conviveu com o velho Sven, a sua paixão contagiou o adolescente (um vírus que não mais o abandonaria: a paixão pelo mar, fosse verde, azul, vermelho ou negro, lodacento ou de águas cristalinas), levando-o a ler obras clássicas na íntegra, dos grandes navegadores, as edições completas, não as recontadas, adaptadas, fáceis de encontrar. Saiu, então, à caça de “Vida e Aventuras de Robinson Crusoé”, em dois volumes, incluindo a breve passagem, como fazendeiro, por terras brasileiras, e “Viagens de Gulliver”, com a quase sempre extirpada passagem pelo país dos houyhnhnms. Viajou a bordo de “Marujos Intrépidos - Uma História dos Grandes Recifes”, lado a lado com Kipling. Deve-se acrescentar também que “Dois Anos de Férias”, de Júlio Verne, levou-o a devanear sobre as possibilidades de se refugiar numa ilha próxima, a do Cardoso, da Cotinga, dos Valadares... Pensando melhor, a ilha das Cobras seria ideal. Podia muito bem morar no farol e escrever, à imitação de Alphonse Daudet, “Poemas do Meu Farol”. Em meio a tais lembranças, veio-lhe, sabe-se lá de que meandros da memória, (ah, como essa fêmea, a memória, prega-nos peças), a palavra “faroleiro”, associada à figura do coelho Pernalonga, encostado num poste, de perna cruzada, roendo uma cenoura. Associou-a imediatamente com uma cena de “Aconteceu Naquela Noite”, com Claudette Colbert e Clark Gable, de orelhas enormes, camiseta e chapéu, também roendo uma cenoura, à imitação do coelho sacana. Assustou-se com a velocidade das imagens, achando que a sua propalada capacidade de fazer pontes entre informações colhidas a esmo, aqui e ali, lá e acolá, não estava assim tão danificada como pensara. Voltou, propositadamente, ao velho Sven, o qual não era tão velho assim quando o conheceu; talvez tivesse por volta de quarenta anos, um pouco mais, um pouco menos. Deu, então, com os olhos na estreita lombada de um livro, sabia que era dele, não conseguia lê-la, então puxou o cordame da memória. O título? Sabia-o perfeitamente, embora não pudesse lê-lo, a vista cansada, mas tinha certeza, “O Menino e o Mar”, sim, de Sven, do velho e bom Sven, todo ambientado na pequena cidade onde o velho bibliotecário voltara a morar após tantos anos de exílio voluntário. Não, jamais saíra do país por problemas políticos; era um exílio auto-imposto, sentimental, cultivado, uma forma de flagelar a si mesmo, entre a consciência e a inconsciência, dentro das fronteiras do próprio país, a terra dos homens-elefante, da elefantíase da memória. Quando, um dia, foi embora dali, no final dos anos 70, ainda não sabia disso. Agora, bem mais velho, estava pondo ordem na casa dos sentimentos, no palácio das emoções, no castelo das recordações, argamassa de areia, cal e óleo de baleia, e sangue, filetes de sangue; tinha agora todo o tempo do mundo naquele emprego, que conseguira graças à intervenção de Candinho.
“O Menino e o Mar” tornara-se um livro paradidático, da Coleção Jovens do Mundo Todo. Por que cargas d’água? Achava nociva a obrigatoriedade da leitura nas escolas. Antes, os meninos podiam sair em liberdade em busca das afinidades eletivas, da educação sentimental, e descortinar novos horizontes, sem as enfadonhas fichas de leitura.
– A leitura como obrigação só faz afastar os jovens dos livros – disse de si para si mesmo. – Hoje, lê-se muito mais nas escolas do que antigamente, mas com que peso a literatura é encarada por esses pequenos leitores, mentes em formação que na idade adulta estarão incapacitadas para abrir as páginas de um bom livro única e exclusivamente por deleite. Odiarão os livros, ao invés de amá-los.
Por sorte, pode se dar ao luxo de prosseguir em leituras erráticas (como um vagabundo tocando em surdina, título de um livro de Knut Hamsun; sua vida estava indissoluvelmente atrelada aos livros), descobrindo bons autores, de acordo com o próprio alvitre, tudo por sua conta e risco, embora Sven torcesse o nariz para certos nomes. O interesse podia vir através de títulos intrigantes ou, até mesmo, da ilustração da capa. Lembrou-se, então, de Monteiro Lobato, que na década de 40, recém-chegado dos Estados Unidos, passou a propagandear o livro como um produto, mercadoria exposta em mercados, farmácias, postos de gasolina, à disposição, como creme dental, sucrilhos e fiambrada. Daí, a ilustração e as cores da capa passarem a fazer parte do produto, diferentemente da política editorial anterior, herdeira da tradição européia, cujas capas eram ricas tipograficamente, mas de embalagem pouco convidativa. Depois de Lobato, a indústria editorial brasileira nunca mais seria a mesma. Digam o que quiserem sobre os seus quiproquós com os modernistas, mas o homem era um visionário. Pode-se até perdoá-lo por ter omitido em sua tradução de “Robinson Crusoé” a passagem do náufrago pelo Brasil.
A chuva não parava, o dia cinzento, convidativo à introspecção, o bibliotecário teve necessidade de firmar os olhos para ler algumas lombadas, numa conhecida brincadeira. Adivinhava-lhes os nomes e não podia mais enganar a si mesmo, sabia que precisava ir urgente ao oculista, lhe pingariam um colírio doloroso e depois o mandariam ler alguma coisa. Não conseguiria, evidentemente. Quem consegue? Lembrou-se então de Borges, o bruxo argentino, cego, pedindo às pessoas que iam visitá-lo no apartamento de Buenos Aires que anotassem os poemas que laboriosamente lapidara durante a noite eterna dos dias anteriores, lembrou-se da irônica personagem do bibliotecário cego do romance “O Nome da Rosa”. Não, não queria esse fim para si mesmo. Mesmo porque não haveria um Eco local para eternizá-lo. Amanhã, iria sem falta ao oculista.
Ao mudar-se para Curitiba, aos 20 anos, o velho bibliotecário passou a frequentar o único sebo da cidade (hoje, a capital paranaense conta com excelentes casas de livros usados). Assim, foi acumulando livros e mais livros no quarto de pensão onde morava. Ao mudar-se para Campinas, quatro grandes malas continham as suas preciosidades livrescas, grande parte em antigas edições de papel jornal, em meio a poucas peças de roupa: uma calça, cinco camisetas, cuecas e uns pares de meias. Esses volumes em papel jornal, que vão se desfazendo sob a ação do tempo, são o retrato da política de Guerra, quando o papel bom, de qualidade, era desviado para as frentes de batalha. Assim, os excelentes títulos da Editora Globo, do Rio Grande do Sul, são hoje encontrados em petição de miséria, desfazendo-se, e a preço de banana. Lembrou-se da gasta edição de “Um Gosto e Seis Vinténs”, a irretocável biografia de Paul Gauguin, de Somerset Maughan, comprada no Sebo do Mosquito, em Florianópolis, pela bagatela de um cruzeiro, na década de 80.
As estantes, em casa, tinham muitos livros de poetas, de poesia, de estudos sobre poesia, de biografias de poetas, em fileiras duplas, a casa era humilde, de poucas paredes, quase todas tomadas pelos livros. A solidão e o amor aos versos levaram-no a publicar dois livros de poesia, aos quais somente os mais chegados tinham acesso. Não que se envergonhasse deles, nem que modesto fosse, mais o medo de parecer arrogante, pois sabia, desde menino, que em terra de cego, quem tem um olho é caolho. Sempre em gestação, tinha um inédito que escrevera e reescrevera várias vezes, não por capricho, nem por excesso de zelo, mas por não ter encontrado editor que por ele se interessasse, também não saíra em busca. Achava o título o máximo: “A Tal da Poesia”, uma traquinagem com “O Tao da Física”, de Fritjof Capra. Agora, pensando bem, a graça do título se esvaíra com o passar do tempo, ninguém mais lançava o tao disso, o tao daquilo. Perdera a oportunidade. Como a poesia lhe era cara, não conseguia entender por que certos prosadores torcem o nariz para a arte poética. Novamente, a teia da memória fazia das suas: o grande escritor William Faulkner, em entrevista à Paris Review, afirmava que todo romancista é um poeta fracassado, que impossibilitado para escrever poemas, tenta a forma do conto e, fracassando na arte da narrativa curta também, faz finalmente a opção pelo romance. Onde lera isso? Será que a grande aranha estava jantando as moscas do seu cérebro? Tinha certeza de que a poesia, a verdadeira poesia, deveria ser, antes de tudo, a arte da concisão, a alta voltagem da palavra, o resgate da língua. Onde lera isso? Em certa época, deixou-se envolver pela poesia visual.
Não publicou nenhum desses poemas, devido ao alto custo dos fotolitos. Mas também ao excesso de elaboração que esse tipo de poesia exige. Passou dez anos burilando um único poema, tridimensional, feito a partir do rótulo da aveia Quaker, onde substituíra o tradicional quacre pela foto de Walt Whitman, descendente de quacres, trabalhando a mesma tipologia, criando outras palavras, outros significados, até completá-lo com chave de ouro. Em vez de “peso líquido: 250g”, “solo líquido: logo”. Extasiou-se ante a própria obra, explicando para si mesmo, como se conversasse com um igual (onde estariam os seus pares?), que o “solo líquido” é o terreno pantanoso da poesia, e “logo” remete ao logos filosófico e, ao mesmo tempo, à razão e ao advérbio de tempo. Tempo, essa abstração tão palpável, nada pantanosa, onde sempre sentira chafurdar os pés. Lembrou-se de um clube barra-pesada da cidadezinha, o qual só existe agora na memória de alguns habitantes, e muito poucos, o Não Tem Tempo, cuja placa encontra-se no gabinete do secretário de cultura, como a cabeça de um leão. Assim foram se atropelando trechos de música, tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito, como a cara de meu filho, o tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém, tempo, tempo, falta um pouco ainda, eu sei, pra você correr macio. Durante certo tempo, também praticou poemas matemáticos, decompondo uma única palavra, trabalhando as inúmeras variações, associações, embaralhando-a, descobrindo novos vocábulos a partir da palavra-matriz. Por exemplo, a decomposição de poesia deu origem ao refrão: e Poe, após o ópio, passeia a pé. Noutra dessas elucubrações, feitas à noite, sob a inspiração de uma bruxuleante lamparina, durante um blecaute, quando toda a cidade ficara às escuras, a palavra nicromante fora decomposta em várias outras, dando origem ao verso "A memória caótica trará à tona o crânio e atônito encontrarei na areia a cimitarra". Ou "Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica, não amei-te ao meio, amei-te à maneira inteira". Percebe-se, assim, a que precipícios chegara a poesia do velho bibliotecário, às raias da rarefação. Sozinho, batera palmas de alegria, como uma criança ao receber um presente, quando descobriu na palavra nicromante o nome da cidade que lhe era tão cara, eternamente deitada aos pés da Serra do Mar, como uma baleia encalhada, decompondo-se, assim como o velho bibliotecário, cetáceo em decomposição; as entranhas, a primeira, a segunda pele, a mais exterior das peles, a mente, a memória, a perda da memória, feitas, construídas, do óleo daquela baleia que, desde o dia da sua chegada à cidade, ele, aos 15 anos, percebera ali parada, julgando-a adormecida, como se baleias pudessem adormecer impunes no raso da maré baixa.
Durante a convivência com Sven, ambos descobriram a poesia, o adolescente e o velho, embora este não perpetrasse versos, somente os lia, com uma entonação peculiar em determinadas palavras, às vezes em certas frases, inteiras, com a voz pastosa, sempre, como se estivesse cansado, num cantochão algo teatral, como se remoesse pequenas, pequeninas pedras entre os dentes amarelados pelo tabaco. Sua melhor interpretação acontecia em algumas passagens de “A Canção do Velho Marinheiro”, de Coleridge. Ao final, o jovem sempre o aplaudia. calorosamente; a brincadeira fazia parte de um acordo tácito. Apesar das orientações, os primeiros versos do velho bibliotecário ocorreram sob a influência da música popular, dos Beatles, de Dorival Caymmi, coisas como “The Fool on the Hill”, “The Long and Winding Road”, “O Mar”, “O Vento”, “Suíte dos Pescadores”, sem saber que assim estava se afiliando irresponsavelmente à tradição dos antigos trovadores provençais. Veio a descobrir isso somente muitos anos mais tarde, ao tomar contato com a poesia concreta, com as traduções de Arnaut Daniel e Rimbaut d’Aurenga.
Durante o tempo em que conviveu com o velho Sven, a sua paixão contagiou o adolescente (um vírus que não mais o abandonaria: a paixão pelo mar, fosse verde, azul, vermelho ou negro, lodacento ou de águas cristalinas), levando-o a ler obras clássicas na íntegra, dos grandes navegadores, as edições completas, não as recontadas, adaptadas, fáceis de encontrar. Saiu, então, à caça de “Vida e Aventuras de Robinson Crusoé”, em dois volumes, incluindo a breve passagem, como fazendeiro, por terras brasileiras, e “Viagens de Gulliver”, com a quase sempre extirpada passagem pelo país dos houyhnhnms. Viajou a bordo de “Marujos Intrépidos - Uma História dos Grandes Recifes”, lado a lado com Kipling. Deve-se acrescentar também que “Dois Anos de Férias”, de Júlio Verne, levou-o a devanear sobre as possibilidades de se refugiar numa ilha próxima, a do Cardoso, da Cotinga, dos Valadares... Pensando melhor, a ilha das Cobras seria ideal. Podia muito bem morar no farol e escrever, à imitação de Alphonse Daudet, “Poemas do Meu Farol”. Em meio a tais lembranças, veio-lhe, sabe-se lá de que meandros da memória, (ah, como essa fêmea, a memória, prega-nos peças), a palavra “faroleiro”, associada à figura do coelho Pernalonga, encostado num poste, de perna cruzada, roendo uma cenoura. Associou-a imediatamente com uma cena de “Aconteceu Naquela Noite”, com Claudette Colbert e Clark Gable, de orelhas enormes, camiseta e chapéu, também roendo uma cenoura, à imitação do coelho sacana. Assustou-se com a velocidade das imagens, achando que a sua propalada capacidade de fazer pontes entre informações colhidas a esmo, aqui e ali, lá e acolá, não estava assim tão danificada como pensara. Voltou, propositadamente, ao velho Sven, o qual não era tão velho assim quando o conheceu; talvez tivesse por volta de quarenta anos, um pouco mais, um pouco menos. Deu, então, com os olhos na estreita lombada de um livro, sabia que era dele, não conseguia lê-la, então puxou o cordame da memória. O título? Sabia-o perfeitamente, embora não pudesse lê-lo, a vista cansada, mas tinha certeza, “O Menino e o Mar”, sim, de Sven, do velho e bom Sven, todo ambientado na pequena cidade onde o velho bibliotecário voltara a morar após tantos anos de exílio voluntário. Não, jamais saíra do país por problemas políticos; era um exílio auto-imposto, sentimental, cultivado, uma forma de flagelar a si mesmo, entre a consciência e a inconsciência, dentro das fronteiras do próprio país, a terra dos homens-elefante, da elefantíase da memória. Quando, um dia, foi embora dali, no final dos anos 70, ainda não sabia disso. Agora, bem mais velho, estava pondo ordem na casa dos sentimentos, no palácio das emoções, no castelo das recordações, argamassa de areia, cal e óleo de baleia, e sangue, filetes de sangue; tinha agora todo o tempo do mundo naquele emprego, que conseguira graças à intervenção de Candinho.
“O Menino e o Mar” tornara-se um livro paradidático, da Coleção Jovens do Mundo Todo. Por que cargas d’água? Achava nociva a obrigatoriedade da leitura nas escolas. Antes, os meninos podiam sair em liberdade em busca das afinidades eletivas, da educação sentimental, e descortinar novos horizontes, sem as enfadonhas fichas de leitura.
– A leitura como obrigação só faz afastar os jovens dos livros – disse de si para si mesmo. – Hoje, lê-se muito mais nas escolas do que antigamente, mas com que peso a literatura é encarada por esses pequenos leitores, mentes em formação que na idade adulta estarão incapacitadas para abrir as páginas de um bom livro única e exclusivamente por deleite. Odiarão os livros, ao invés de amá-los.
Por sorte, pode se dar ao luxo de prosseguir em leituras erráticas (como um vagabundo tocando em surdina, título de um livro de Knut Hamsun; sua vida estava indissoluvelmente atrelada aos livros), descobrindo bons autores, de acordo com o próprio alvitre, tudo por sua conta e risco, embora Sven torcesse o nariz para certos nomes. O interesse podia vir através de títulos intrigantes ou, até mesmo, da ilustração da capa. Lembrou-se, então, de Monteiro Lobato, que na década de 40, recém-chegado dos Estados Unidos, passou a propagandear o livro como um produto, mercadoria exposta em mercados, farmácias, postos de gasolina, à disposição, como creme dental, sucrilhos e fiambrada. Daí, a ilustração e as cores da capa passarem a fazer parte do produto, diferentemente da política editorial anterior, herdeira da tradição européia, cujas capas eram ricas tipograficamente, mas de embalagem pouco convidativa. Depois de Lobato, a indústria editorial brasileira nunca mais seria a mesma. Digam o que quiserem sobre os seus quiproquós com os modernistas, mas o homem era um visionário. Pode-se até perdoá-lo por ter omitido em sua tradução de “Robinson Crusoé” a passagem do náufrago pelo Brasil.
A chuva não parava, o dia cinzento, convidativo à introspecção, o bibliotecário teve necessidade de firmar os olhos para ler algumas lombadas, numa conhecida brincadeira. Adivinhava-lhes os nomes e não podia mais enganar a si mesmo, sabia que precisava ir urgente ao oculista, lhe pingariam um colírio doloroso e depois o mandariam ler alguma coisa. Não conseguiria, evidentemente. Quem consegue? Lembrou-se então de Borges, o bruxo argentino, cego, pedindo às pessoas que iam visitá-lo no apartamento de Buenos Aires que anotassem os poemas que laboriosamente lapidara durante a noite eterna dos dias anteriores, lembrou-se da irônica personagem do bibliotecário cego do romance “O Nome da Rosa”. Não, não queria esse fim para si mesmo. Mesmo porque não haveria um Eco local para eternizá-lo. Amanhã, iria sem falta ao oculista.
Ao mudar-se para Curitiba, aos 20 anos, o velho bibliotecário passou a frequentar o único sebo da cidade (hoje, a capital paranaense conta com excelentes casas de livros usados). Assim, foi acumulando livros e mais livros no quarto de pensão onde morava. Ao mudar-se para Campinas, quatro grandes malas continham as suas preciosidades livrescas, grande parte em antigas edições de papel jornal, em meio a poucas peças de roupa: uma calça, cinco camisetas, cuecas e uns pares de meias. Esses volumes em papel jornal, que vão se desfazendo sob a ação do tempo, são o retrato da política de Guerra, quando o papel bom, de qualidade, era desviado para as frentes de batalha. Assim, os excelentes títulos da Editora Globo, do Rio Grande do Sul, são hoje encontrados em petição de miséria, desfazendo-se, e a preço de banana. Lembrou-se da gasta edição de “Um Gosto e Seis Vinténs”, a irretocável biografia de Paul Gauguin, de Somerset Maughan, comprada no Sebo do Mosquito, em Florianópolis, pela bagatela de um cruzeiro, na década de 80.
As estantes, em casa, tinham muitos livros de poetas, de poesia, de estudos sobre poesia, de biografias de poetas, em fileiras duplas, a casa era humilde, de poucas paredes, quase todas tomadas pelos livros. A solidão e o amor aos versos levaram-no a publicar dois livros de poesia, aos quais somente os mais chegados tinham acesso. Não que se envergonhasse deles, nem que modesto fosse, mais o medo de parecer arrogante, pois sabia, desde menino, que em terra de cego, quem tem um olho é caolho. Sempre em gestação, tinha um inédito que escrevera e reescrevera várias vezes, não por capricho, nem por excesso de zelo, mas por não ter encontrado editor que por ele se interessasse, também não saíra em busca. Achava o título o máximo: “A Tal da Poesia”, uma traquinagem com “O Tao da Física”, de Fritjof Capra. Agora, pensando bem, a graça do título se esvaíra com o passar do tempo, ninguém mais lançava o tao disso, o tao daquilo. Perdera a oportunidade. Como a poesia lhe era cara, não conseguia entender por que certos prosadores torcem o nariz para a arte poética. Novamente, a teia da memória fazia das suas: o grande escritor William Faulkner, em entrevista à Paris Review, afirmava que todo romancista é um poeta fracassado, que impossibilitado para escrever poemas, tenta a forma do conto e, fracassando na arte da narrativa curta também, faz finalmente a opção pelo romance. Onde lera isso? Será que a grande aranha estava jantando as moscas do seu cérebro? Tinha certeza de que a poesia, a verdadeira poesia, deveria ser, antes de tudo, a arte da concisão, a alta voltagem da palavra, o resgate da língua. Onde lera isso? Em certa época, deixou-se envolver pela poesia visual.
Não publicou nenhum desses poemas, devido ao alto custo dos fotolitos. Mas também ao excesso de elaboração que esse tipo de poesia exige. Passou dez anos burilando um único poema, tridimensional, feito a partir do rótulo da aveia Quaker, onde substituíra o tradicional quacre pela foto de Walt Whitman, descendente de quacres, trabalhando a mesma tipologia, criando outras palavras, outros significados, até completá-lo com chave de ouro. Em vez de “peso líquido: 250g”, “solo líquido: logo”. Extasiou-se ante a própria obra, explicando para si mesmo, como se conversasse com um igual (onde estariam os seus pares?), que o “solo líquido” é o terreno pantanoso da poesia, e “logo” remete ao logos filosófico e, ao mesmo tempo, à razão e ao advérbio de tempo. Tempo, essa abstração tão palpável, nada pantanosa, onde sempre sentira chafurdar os pés. Lembrou-se de um clube barra-pesada da cidadezinha, o qual só existe agora na memória de alguns habitantes, e muito poucos, o Não Tem Tempo, cuja placa encontra-se no gabinete do secretário de cultura, como a cabeça de um leão. Assim foram se atropelando trechos de música, tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito, como a cara de meu filho, o tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém, tempo, tempo, falta um pouco ainda, eu sei, pra você correr macio. Durante certo tempo, também praticou poemas matemáticos, decompondo uma única palavra, trabalhando as inúmeras variações, associações, embaralhando-a, descobrindo novos vocábulos a partir da palavra-matriz. Por exemplo, a decomposição de poesia deu origem ao refrão: e Poe, após o ópio, passeia a pé. Noutra dessas elucubrações, feitas à noite, sob a inspiração de uma bruxuleante lamparina, durante um blecaute, quando toda a cidade ficara às escuras, a palavra nicromante fora decomposta em várias outras, dando origem ao verso "A memória caótica trará à tona o crânio e atônito encontrarei na areia a cimitarra". Ou "Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica, não amei-te ao meio, amei-te à maneira inteira". Percebe-se, assim, a que precipícios chegara a poesia do velho bibliotecário, às raias da rarefação. Sozinho, batera palmas de alegria, como uma criança ao receber um presente, quando descobriu na palavra nicromante o nome da cidade que lhe era tão cara, eternamente deitada aos pés da Serra do Mar, como uma baleia encalhada, decompondo-se, assim como o velho bibliotecário, cetáceo em decomposição; as entranhas, a primeira, a segunda pele, a mais exterior das peles, a mente, a memória, a perda da memória, feitas, construídas, do óleo daquela baleia que, desde o dia da sua chegada à cidade, ele, aos 15 anos, percebera ali parada, julgando-a adormecida, como se baleias pudessem adormecer impunes no raso da maré baixa.
Assinar:
Postagens (Atom)



