quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
O AVÔ MATERNO
Edson Negromonte
– Ah, eu queria tanto morrer...
– É só desligar a tomada!
– Que tomada?...
– A tomada da vida!
– Ah, se fosse tão fácil assim, neto...
Era duro ver aquele homem que eu conhecera forte, em tudo o esplendor da vida, prostrado na antiga cama de casal, assim como ele, de ferro, o homem que eu não precisara aprender a admirar, a memória viva, em carne e osso, com as suas histórias da Guerra do Contestado, as andanças pelos sertões de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, tangendo gado, levando boiadas de um Estado a outro, o homem que gerara a minha mãe, que gerara mais dois filhos, que vira o irmão mais novo ser assassinado, que criara como seu o filho de outro irmão, tuberculoso, que morrera em seus braços, o homem que a vida toda fora a representação do cerne, no qual a lâmina do machado não penetra, não penetrava. Poderia dizer muito mais sobre o homem antigo, de valores cristalizados, que dera um dote às quatro irmãs, que só se casara após vê-las casadas, que levara a mãe para morar com ele, a qual minha mãe chamava também de mãe, a mãe velhinha que, vendo a neta com o nariz escorrendo, erguia uma das várias anáguas para limpar o pequeno nariz de bolinha, vermelho, da menina. Poderia eu contar muito mais sobre ele, que recebera de presente de casamento uma fazenda na Serra do Tamanduá, cuja casa ficava à beira de um rio caudaloso, cheio de mutucas, dos bugios a gritar em dias de chuva, macacos que invadiam a área da casa grande. Certa madrugada, meu avô sacudiu-me do sono para que eu assistisse ao espetáculo da macacada correndo assustada, por causa dos tiros de espingarda que disparava para o alto. Rimos a valer. Ele, o homem decidido que administrava com mão de ferro a peonada, mas que com eles compartilhava a cuia de chimarrão, que, com eles, à beira da fogueira, no curral, saboreava, depois de cozidos em água e sal, os colhões dos bezerros castrados. Contou-me também a história do filho do Silvino, o capataz, que encurralado pela polícia, no matagal, enraivecido deixara as marcas dos dentes no cano do próprio revólver sem balas. Noutra vez, seria o caso do filho mais novo do capataz, que tinha a testa afundada pelo coice de uma mula. Justo ele, o homem que amava os cavalos de corrida, que me deu de presente o seu relógio de algibeira, de prata, um Omega, com cronômetro (relógio que continua marcando as horas até hoje, independente do primeiro dono, e que assim continuará, independente de mim, de meus filhos, netos... Ele, o vaqueiro que me ensinou a montar tanto os baios quanto os tordilhos, para que, um dia, eu cavalgasse garboso as pradarias do mundo adulto. Assim, andávamos lado a lado, pelas estradas poeirentas, em visita aos seus amigos, de outras fazendas, aos quais me apresentava, como se eu fosse da mesma idade deles. Varandas, onde eu permaneço a ouvir incansável as mesmas histórias: de lobisomens, da égua que parira dois potrinhos e só parou de sangrar às custas da reza forte de nhá Totica, do sangue derramado no telhado, do porco capão, da fazenda onde morava a mulher-macaco, fugida do circo, apaixonada pelo meu tio. Ele, que também era amigo do velho Zé, cachaceiro de dentes podres e esverdeados, os quais nunca escovara, com quem meu pai dividiu um litro da pior aguardente numa noite de frio intenso, de cortar as entranhas. Era para mim muito doído ver aquele velho prostrado na cama, de ferro, ambos feitos da mesma matéria, a cama e o velho na cama, justamente ele que enfrentara os fantasmas mais terríveis, a fome, a geada, as contendas políticas, a incompreensão dos outros homens, justamente ele que me dera o primeiro beijo, quando do meu nascimento, em sua velha casa de madeira, no alto do morro, ao lado da igreja, a igreja dos padres com os quais brigara e jurara nunca mais lá pôr os pés. Ele que ia me buscar de jipe nas férias, que me deu a primeira garrucha, ele que aquecia os pés no beiral do fogão à lenha, enquanto o frio lá fora embranquecia o pasto antes verdejante, como lhe embranquecera também os cabelos. Ele que, num ímpeto, arremessara furioso o machado de rachar lenha em minha direção, ele que me chamava de manhã bem cedo para ordenhar as cabras, para assistir à matança do porco. Naqueles tempos, os homens eram feitos assim, da matéria da vida, a qual não exclui, em hipótese alguma, a morte. Ele que, jurado de morte pelo genro, o marido bêbado da filha mais velha, eu defendi com minha risível espingarda de ar comprimido. Ele, o compulsivo leitor de bangue-bangues, mas preocupado com a minha leitura voraz dos livros de crime e mistério da Coleção Amarela. Com o passar do tempo, talvez por covardia, não o visitei mais, para não vê-lo em estado tão deplorável, para resguardar em meu peito o retrato esmaecido do jovem, flanando, de terno e chapelão, pelas ruas de Curitiba. Naqueles tempos, os da sua juventude, era chique para o catarinense da fronteira ser fotografado pelas ruas da capital paranaense. Somente no necrotério revi novamente o grande amigo. Descansava ele comodamente sobre a morgue, sorrindo, indiferente ao choro convulso de parentes e amigos que lamentavam a esperada partida do ente querido, quando me veio à mente a capa do disco "Closer", do Joy Division, e os versos Love, love will tear us apart again.
– Ah, eu queria tanto morrer...
– É só desligar a tomada!
– Que tomada?...
– A tomada, vô, a tomada da vida.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
O MAIOR MÁGICO DO MUNDO
Edson Negromonte
O avô de Maquiné tinha sido mágico. Aliás, um grande prestidigitador. Dizem que o homem era chegado até em taumaturgia. Viajara, quando jovem, por vários países. De um deles, da Índia, se não me engano, trouxera uma arca, à qual ninguém tinha acesso. Mesmo quando ele estava roncando, a sono solto, ninguém da família se atrevia a vasculhar os seus pertences. Corria na cidade uma piada sobre os seus sortilégios, engendrada nas muitas horas de ócio criativo que os moradores de Antonina dispõem. Contava-se que o avô de Maquiné abandonara a carreira devido a um grande desastre ocorrido em teatro da capital argentina, durante uma turnê com artistas locais: atores, cantores, músicos, poetas, declamadores.
Durante o espetáculo, era o Mágico Xandu dizer “pomba” e um destes pássaros saía batendo asas das suas mãos. Se ele dissesse “coelho”, do nada surgia um da cartola. Até um pônei apareceu, sabe-se lá de onde. Da casaca é que não pode ter sido. Serrou uma mulher da plateia ao meio. Muito aplaudido na primeira noite, bem mais que os outros, provocava entre os seus pares certo desconforto. Pode-se dizer ciúme? Dizia-se discípulo de Chung Ling Soo, o maravilhoso conjurador chinês. Na noite seguinte, o teatro lotado esperava ansioso a última atração, o Magnífico Xandu. Quando ia entrar no palco, todo senhor de si, aconteceu de o grande ilusionista tropeçar. Alguém pusera de propósito um tijolo em seu caminho. Dizem os cronistas de nossa cidade que esse ato vil foi ideia do invejoso Bairon, um dos nossos poetas locais que fizemos questão de esquecer, ajudado por Polidoro Bautista, um homúnculo coxo que já não existe mais. Polidoro foi um dos maiores declamadores de poesia de nossa terra, de voz tonitroante, apesar da baixa estatura: 31cm. Deixou inédito o livro “Vãs Piras”, o qual também tratamos de esquecer e as traças de roer.
A dor da topada fez Xandu gritar “merda”. A plateia, atenta, achou que o impropério fosse parte do show. Sem crer, viu a conhecida massa marrom descendo do palco, subindo pelas cadeiras, como coisa viva. E de péssimo odor. Alguns até chegaram a aplaudir, encantados. Quando perceberam que aquilo era mesmo o que Xandu tinha invocado, subindo pelos sapatos, pela barra das calças, pelas pernas, um desespero; atropelaram-se, escorregaram, foram ao chão. Poucos se salvaram, as portas laterais estavam fechadas. A inteligente e bem aparelhada polícia de Buenos Aires chegou à conclusão de que um mero prestidigitador não podia ser responsabilizado pela tragédia; fora o esgoto que transbordara. Xandu prometeu a si mesmo nunca mais abrir a boca. E, para sempre, mudo ele ficaria. Assim o conheci, em sua providencial ausência de impulso verbal. Os únicos sons que lembro de tê-lo ouvido emitir foram os grunhidos do ronco, quando íamos roubar Gardenal da sua mesinha de cabeceira.
Quando ele não estava de ovo virado, o seu comum, num movimento furtivo de olhos anunciava, silencioso, que estava prestes a fazer um truque. Sua arte refinada chegara ao ponto de não necessitar mais da conjuração das palavras. Com gestos cabalísticos, tocava o peito, batia três vezes no coração, ante os olhares apreensivos dos meninos, e da terra fazia brotar uma pequena labareda. Num gesto de mandraque, guardava o fogo no bolso do paletó e, como se nada demais tivesse feito, voltava para a cadeira de balanço em frente à TV, nheec, nheec, nheec. Boquiabertos, o rodeávamos. Ele, absorto com as imagens, distraía-se com o movimento coleante das chacretes. Posso dizer catatônico? Excitado, você diria. Certa vez, depois de tirar várias moedas de nossas orelhas, ele apontou para um quadro pendurado na cozinha e fez correr sangue do Sagrado Coração de Jesus. Sua mulher avisou-o de que aquilo era pecado. Sorriu malicioso. De outra, essa eu não vi, me contaram, transformou vinagre em vinho, e vinho em água. E, dentro da água, na tigela, a nadar vários lambaris. Seu neto dizia que o vira multiplicar pães, mas que ninguém comera, de medo. A convivência com o mágico não era fácil; quando esquecia de tomar o remédio, punha-se a quebrar pratos, que voavam pela casa toda. Depois, com a força da mente, tentava em vão colá-los. Cansado do esforço excessivo, voltava à cadeira de balanço, nheec, nheec. Com tal capacidade de sacar moedas das orelhas dos meninos, não compreendíamos como Maquiné estava sempre duro. Nheec. Perto dos 80 anos, Xandu se recolheu de vez ao quarto, não saiu mais da cama, olhar absorto no teto de madeira, pó de cupim caindo sobre ele, sobre o cobertor. Só o víamos quando íamos surrupiar alguns comprimidos de Gardenal para os embalos de sábado à noite, no Clube dos Operários.
Após muito tempo, de volta à cidade, lembrei-me dessa passagem de minha juventude, mas principalmente da arca misteriosa, a qual ninguém se atrevia a sequer olhá-la, o que dirá abri-la. Encorajado pela idade, fui à procura de Maquiné, que ainda mora no mesmo endereço. Pai de família, convidou-me para uma tomar uma no bar da esquina. Depois de uns copos, como quem não quer nada, perguntei-lhe sobre o avô. Falecera.
– E a arca?
– Desapareceu, nunca mais se soube dela.
– Como assim?
– Foi embora.
– Você está falando como se aquilo tivesse livre arbítrio, como se fosse coisa viva.
– E não era? – arrematou.
Ficamos em silêncio, cada um olhando para o seu copo de cerveja. Depois de olhar para os lados, Maquiné esticou o pescoço e segredou:
– Ele morreu de combustão espontânea.
– Quem?
– Levou junto com ele o segredo.
– ...
– Queimou tudo, as roupas, lençol, a gordura do corpo... menos as mãos. Até a arca, queimou. Cinzas, não sobrou nada. Só as mãos. De manhã, minha avó foi levar o café para ele e foi só o que viu: as mãos do grande mágico que ele sempre foi. E um cheiro adocicado.
– ...
– Pensa que ela gritou? Nem.
Admirando o copo, Maquiné passou o dedo no vidro suarento.
– Recolheu tudo com a pazinha do lixo, botou numa urna que ninguém, mesmo os de casa, sabia da existência. Botou as mãos, intactas, numa sacolinha. Nem chorar, ela chorou. O médico veio e atestou o efeito pavio, de dentro pra fora, uma vela às avessas. Ela mandou depositar a urna no jazigo da família, no Saivá. Não teve guardamento, nem mesmo enterro. Pensa que alguém na cidade estranhou? Nem, nem. Falar disso em casa, virou tabu. Eu, de minha parte, nunca fui visitá-lo. Tá lá, descansando... as cinzas. E as mãos? Intactas
– Garçom, mais uma! Bem gelada, estupidamente.
O avô de Maquiné tinha sido mágico. Aliás, um grande prestidigitador. Dizem que o homem era chegado até em taumaturgia. Viajara, quando jovem, por vários países. De um deles, da Índia, se não me engano, trouxera uma arca, à qual ninguém tinha acesso. Mesmo quando ele estava roncando, a sono solto, ninguém da família se atrevia a vasculhar os seus pertences. Corria na cidade uma piada sobre os seus sortilégios, engendrada nas muitas horas de ócio criativo que os moradores de Antonina dispõem. Contava-se que o avô de Maquiné abandonara a carreira devido a um grande desastre ocorrido em teatro da capital argentina, durante uma turnê com artistas locais: atores, cantores, músicos, poetas, declamadores.
Durante o espetáculo, era o Mágico Xandu dizer “pomba” e um destes pássaros saía batendo asas das suas mãos. Se ele dissesse “coelho”, do nada surgia um da cartola. Até um pônei apareceu, sabe-se lá de onde. Da casaca é que não pode ter sido. Serrou uma mulher da plateia ao meio. Muito aplaudido na primeira noite, bem mais que os outros, provocava entre os seus pares certo desconforto. Pode-se dizer ciúme? Dizia-se discípulo de Chung Ling Soo, o maravilhoso conjurador chinês. Na noite seguinte, o teatro lotado esperava ansioso a última atração, o Magnífico Xandu. Quando ia entrar no palco, todo senhor de si, aconteceu de o grande ilusionista tropeçar. Alguém pusera de propósito um tijolo em seu caminho. Dizem os cronistas de nossa cidade que esse ato vil foi ideia do invejoso Bairon, um dos nossos poetas locais que fizemos questão de esquecer, ajudado por Polidoro Bautista, um homúnculo coxo que já não existe mais. Polidoro foi um dos maiores declamadores de poesia de nossa terra, de voz tonitroante, apesar da baixa estatura: 31cm. Deixou inédito o livro “Vãs Piras”, o qual também tratamos de esquecer e as traças de roer.
A dor da topada fez Xandu gritar “merda”. A plateia, atenta, achou que o impropério fosse parte do show. Sem crer, viu a conhecida massa marrom descendo do palco, subindo pelas cadeiras, como coisa viva. E de péssimo odor. Alguns até chegaram a aplaudir, encantados. Quando perceberam que aquilo era mesmo o que Xandu tinha invocado, subindo pelos sapatos, pela barra das calças, pelas pernas, um desespero; atropelaram-se, escorregaram, foram ao chão. Poucos se salvaram, as portas laterais estavam fechadas. A inteligente e bem aparelhada polícia de Buenos Aires chegou à conclusão de que um mero prestidigitador não podia ser responsabilizado pela tragédia; fora o esgoto que transbordara. Xandu prometeu a si mesmo nunca mais abrir a boca. E, para sempre, mudo ele ficaria. Assim o conheci, em sua providencial ausência de impulso verbal. Os únicos sons que lembro de tê-lo ouvido emitir foram os grunhidos do ronco, quando íamos roubar Gardenal da sua mesinha de cabeceira.
Quando ele não estava de ovo virado, o seu comum, num movimento furtivo de olhos anunciava, silencioso, que estava prestes a fazer um truque. Sua arte refinada chegara ao ponto de não necessitar mais da conjuração das palavras. Com gestos cabalísticos, tocava o peito, batia três vezes no coração, ante os olhares apreensivos dos meninos, e da terra fazia brotar uma pequena labareda. Num gesto de mandraque, guardava o fogo no bolso do paletó e, como se nada demais tivesse feito, voltava para a cadeira de balanço em frente à TV, nheec, nheec, nheec. Boquiabertos, o rodeávamos. Ele, absorto com as imagens, distraía-se com o movimento coleante das chacretes. Posso dizer catatônico? Excitado, você diria. Certa vez, depois de tirar várias moedas de nossas orelhas, ele apontou para um quadro pendurado na cozinha e fez correr sangue do Sagrado Coração de Jesus. Sua mulher avisou-o de que aquilo era pecado. Sorriu malicioso. De outra, essa eu não vi, me contaram, transformou vinagre em vinho, e vinho em água. E, dentro da água, na tigela, a nadar vários lambaris. Seu neto dizia que o vira multiplicar pães, mas que ninguém comera, de medo. A convivência com o mágico não era fácil; quando esquecia de tomar o remédio, punha-se a quebrar pratos, que voavam pela casa toda. Depois, com a força da mente, tentava em vão colá-los. Cansado do esforço excessivo, voltava à cadeira de balanço, nheec, nheec. Com tal capacidade de sacar moedas das orelhas dos meninos, não compreendíamos como Maquiné estava sempre duro. Nheec. Perto dos 80 anos, Xandu se recolheu de vez ao quarto, não saiu mais da cama, olhar absorto no teto de madeira, pó de cupim caindo sobre ele, sobre o cobertor. Só o víamos quando íamos surrupiar alguns comprimidos de Gardenal para os embalos de sábado à noite, no Clube dos Operários.
Após muito tempo, de volta à cidade, lembrei-me dessa passagem de minha juventude, mas principalmente da arca misteriosa, a qual ninguém se atrevia a sequer olhá-la, o que dirá abri-la. Encorajado pela idade, fui à procura de Maquiné, que ainda mora no mesmo endereço. Pai de família, convidou-me para uma tomar uma no bar da esquina. Depois de uns copos, como quem não quer nada, perguntei-lhe sobre o avô. Falecera.
– E a arca?
– Desapareceu, nunca mais se soube dela.
– Como assim?
– Foi embora.
– Você está falando como se aquilo tivesse livre arbítrio, como se fosse coisa viva.
– E não era? – arrematou.
Ficamos em silêncio, cada um olhando para o seu copo de cerveja. Depois de olhar para os lados, Maquiné esticou o pescoço e segredou:
– Ele morreu de combustão espontânea.
– Quem?
– Levou junto com ele o segredo.
– ...
– Queimou tudo, as roupas, lençol, a gordura do corpo... menos as mãos. Até a arca, queimou. Cinzas, não sobrou nada. Só as mãos. De manhã, minha avó foi levar o café para ele e foi só o que viu: as mãos do grande mágico que ele sempre foi. E um cheiro adocicado.
– ...
– Pensa que ela gritou? Nem.
Admirando o copo, Maquiné passou o dedo no vidro suarento.
– Recolheu tudo com a pazinha do lixo, botou numa urna que ninguém, mesmo os de casa, sabia da existência. Botou as mãos, intactas, numa sacolinha. Nem chorar, ela chorou. O médico veio e atestou o efeito pavio, de dentro pra fora, uma vela às avessas. Ela mandou depositar a urna no jazigo da família, no Saivá. Não teve guardamento, nem mesmo enterro. Pensa que alguém na cidade estranhou? Nem, nem. Falar disso em casa, virou tabu. Eu, de minha parte, nunca fui visitá-lo. Tá lá, descansando... as cinzas. E as mãos? Intactas
– Garçom, mais uma! Bem gelada, estupidamente.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
O EMPREGADO
Edson Negromonte
Ele trabalhava na loja de meu pai, não sei por que cargas-d'água. Afinal de contas, não sabia atender as pessoas, não sabia fazer contas, tinha preguiça de varrer o chão, às vezes era até respondão. Gordinho e de pele morena, quase negra, gostava mesmo de ficar sentado nos sofás em exposição e só pulava dali, satisfeito, quando alguém das imediações pedia com urgência um bujão de gás, o qual ele, hercúleo, erguia acima da cabeça e saía quase correndo, sorridente, para fazer a entrega. Alguns maldosos diziam que assim o estávamos treinando para ser lutador de boxe. Mentira deslavada. À primeira vista, o rapaz (por certo não tinha mais de quatorze anos) podia parecer uma espécie de agregado, algo assim como um protegido do patrão, mas não, ele nunca fez nenhuma refeição em nossa casa. Quando admoestado pelos outros funcionários, costumava dizer:
– Eu como na sua casa? Eu bebo na sua casa? Então, me deixa em paz!
Após o expediente, voltava para o aconchego do lar, onde a mãe o esperava com um prato de sopa quente, preparada com carinho para o filho único. Não vivia mais dos favores de ninguém, tinha carteira assinada e as regalias que isso pode proporcionar, assistência médica, décimo terceiro e principalmente férias, coisa que a mim mesmo, como filho do dono, não competia. De certo, sem escamotear a verdade, o que não é a intenção da narrativa, é que o rapaz tinha problemas mentais. Mas, problemas mentais, quem não os têm? Em maior ou menor grau, somos todos avariados mentalmente.
Desculpe, mas até hoje não sei o seu nome. João? José? Melquíades? Nabucodonosor? Sempre chamei-o pelo apelido. Em Antonina, todos indistintamente têm apelido, uma tradição que pode vir dos avós, ou mesmo bisavós, estendendo-se a toda a família, homens, mulheres e crianças, e que os descendentes continuam carregando pela vida afora. E os descendentes dos seus descendentes. Bom, estava ele, num dia de verão, encostado no muro da estação ferroviária, em frente à Praça Carlos Cavalcanti, observando o chafariz desativado, quando um movimento qualquer no alto do campanário da Igreja do Bom Jesus do Saivá chamou-lhe a atenção. Firmou a vista para perceber melhor o que era aquela pequena nuvem negra que ia e vinha, em movimentos crescentes e decrescentes, de dentro para fora, de fora para dentro da pequena torre da casa do Senhor, onde está sepultado o capitão-mor Manoel José Alves. Então, o menino aguçou os ouvidos para ter certeza. E o que era um som indefinido, mostrou-se um zumbido. Sim, agora ele tinha certeza: eram abelhas. Um enxame! E formado dentro do velho sino de cobre, que há muitos anos não soava, desde que a prefeitura interditara a igreja para uma sempre procrastinada reforma. Num inocente ato de molecagem, ele apanhou uma pedra no chão e, com a convicção do braço direito, arremessou-a certeira, direto no sino, interrompendo o constante vai e vem dos insetos. Após tanto tempo mudo, o sino novamente ressoou, não chamando os fiéis para a missa, nem despertando os vivos através de toques fúnebres, ou quiçá um incêndio inesperado. Um único som, agudo, que reverberou nos ouvidos da população. As abelhas, agora enfurecidas, saíram à cata do culpado. Quem ousara interromper o sono da rainha? Gente corria em todas as direções, sem direção, socorrendo-se, em desespero, batendo com os chapéus na cabeça, nos braços, no corpo, a gritaria das mulheres, espaventando os cabelos, abrigando-se na estação, nos terrenos baldios, nas casas dos outros como se casas suas fossem. Somente um senhor, bem idoso, não interrompeu o banho diário de sol. Permaneceu sentado num dos bancos da praça, sem poder correr dali; o avançado da idade lhe enfraquecera as pernas. As negras abelhas africanas tomaram-lhe o corpo todo, a cabeça, com venenosas ferroadas, entraram pelos ouvidos, narinas, pela boca, interrompendo o grito de socorro e ocasionando a morte quase imediata por envenenamento. Descoberto o culpado, a maldade intrínseca ao ser humano apelidou o menino de Abelheira. E, para sempre, Abelheira ficou.
O que sei é que, independente de qualquer coisa, eu gostava de conversar fiado com Abelheira, quando os afazeres da loja permitiam. Era uma casa de comércio, de esquina, em frente ao Cine Ópera, nos moldes dos antigos armazéns, onde as pessoas podiam encontrar de tudo, desde alfinetes, linha, agulha, brinquedos, relógios, de pulso, de parede, discos, de todos os gêneros, da música caipira ao rock, passando pelas valsas vienenses, sucessos e Billy Vaughn, móveis populares, da cama patente à laqueada, do colchão de palha ao de espuma, do guarda-roupa de duas portas, de pinho, aos de quatro portas, de imbuia, sofás, poltronas, cadeiras e mesas, de fórmica, fogões, fogareiros, geladeiras, barbante, corda, âncoras, a motores de barco, bicicletas, Calói e Monark, mais a Garelli, a novidade das motonetas. Em meio à movimentação que tal variedade de opções fornecia, Abelheira era sempre visto refestelado em um dos sofás, ora olhando para o nada lá fora, ora retribuindo o sorriso zombeteiro de um cliente, mas sempre a postos para o chamado urgente de uma dona de casa desesperada com a súbita falta de gás, justamente quando estava cozinhando o feijão ou assando um bolo.
Num final de expediente, extenuado, larguei o corpo no sofá. Sentado ao lado, Abelheira aguardava que meu tio, o gerente, o mandasse para casa. Então, Abelheira veio se aproximando, chegou mais perto, olhou-me bem sério, mostrando o punho direito fechado, como se ali escondesse alguma coisa. Sacudiu a mão para, logo em seguida, encostá-la delicadamente na orelha, como se estivesse ouvindo algo muito sutil, deleitando-se com uma suposta música das esferas. Ao mesmo tempo que tenho medo, devo admitir que sinto uma grande atração, desde a mais tenra idade, pelos loucos. Assim, curioso, embarquei na brincadeira e perguntei o que ele escondia na mão fechada.
– O voo de uma abelha – respondeu.
Surpreso, retruquei:
– Não o voo, mas a abelha por certo.
Ora, não se aprisiona voos, mas insetos, pássaros, sonhos, enfim, coisas concretas.
– Não, o que eu tenho aqui é o voo da abelha – disse, indignado. – Quer ele pra você?
– O quê? O voo da abelha?
– Sim, isso mesmo.
– Não, cara, voos não podem ser aprisionados...
– Você não entende nada! Você nunca vai entender nada! – gritou.
Abrindo a mão espalmada, jogou violentamente o imaginário voo ao chão. Então, levantou-se e foi embora para casa, sem se despedir.
Ele trabalhava na loja de meu pai, não sei por que cargas-d'água. Afinal de contas, não sabia atender as pessoas, não sabia fazer contas, tinha preguiça de varrer o chão, às vezes era até respondão. Gordinho e de pele morena, quase negra, gostava mesmo de ficar sentado nos sofás em exposição e só pulava dali, satisfeito, quando alguém das imediações pedia com urgência um bujão de gás, o qual ele, hercúleo, erguia acima da cabeça e saía quase correndo, sorridente, para fazer a entrega. Alguns maldosos diziam que assim o estávamos treinando para ser lutador de boxe. Mentira deslavada. À primeira vista, o rapaz (por certo não tinha mais de quatorze anos) podia parecer uma espécie de agregado, algo assim como um protegido do patrão, mas não, ele nunca fez nenhuma refeição em nossa casa. Quando admoestado pelos outros funcionários, costumava dizer:
– Eu como na sua casa? Eu bebo na sua casa? Então, me deixa em paz!
Após o expediente, voltava para o aconchego do lar, onde a mãe o esperava com um prato de sopa quente, preparada com carinho para o filho único. Não vivia mais dos favores de ninguém, tinha carteira assinada e as regalias que isso pode proporcionar, assistência médica, décimo terceiro e principalmente férias, coisa que a mim mesmo, como filho do dono, não competia. De certo, sem escamotear a verdade, o que não é a intenção da narrativa, é que o rapaz tinha problemas mentais. Mas, problemas mentais, quem não os têm? Em maior ou menor grau, somos todos avariados mentalmente.
Desculpe, mas até hoje não sei o seu nome. João? José? Melquíades? Nabucodonosor? Sempre chamei-o pelo apelido. Em Antonina, todos indistintamente têm apelido, uma tradição que pode vir dos avós, ou mesmo bisavós, estendendo-se a toda a família, homens, mulheres e crianças, e que os descendentes continuam carregando pela vida afora. E os descendentes dos seus descendentes. Bom, estava ele, num dia de verão, encostado no muro da estação ferroviária, em frente à Praça Carlos Cavalcanti, observando o chafariz desativado, quando um movimento qualquer no alto do campanário da Igreja do Bom Jesus do Saivá chamou-lhe a atenção. Firmou a vista para perceber melhor o que era aquela pequena nuvem negra que ia e vinha, em movimentos crescentes e decrescentes, de dentro para fora, de fora para dentro da pequena torre da casa do Senhor, onde está sepultado o capitão-mor Manoel José Alves. Então, o menino aguçou os ouvidos para ter certeza. E o que era um som indefinido, mostrou-se um zumbido. Sim, agora ele tinha certeza: eram abelhas. Um enxame! E formado dentro do velho sino de cobre, que há muitos anos não soava, desde que a prefeitura interditara a igreja para uma sempre procrastinada reforma. Num inocente ato de molecagem, ele apanhou uma pedra no chão e, com a convicção do braço direito, arremessou-a certeira, direto no sino, interrompendo o constante vai e vem dos insetos. Após tanto tempo mudo, o sino novamente ressoou, não chamando os fiéis para a missa, nem despertando os vivos através de toques fúnebres, ou quiçá um incêndio inesperado. Um único som, agudo, que reverberou nos ouvidos da população. As abelhas, agora enfurecidas, saíram à cata do culpado. Quem ousara interromper o sono da rainha? Gente corria em todas as direções, sem direção, socorrendo-se, em desespero, batendo com os chapéus na cabeça, nos braços, no corpo, a gritaria das mulheres, espaventando os cabelos, abrigando-se na estação, nos terrenos baldios, nas casas dos outros como se casas suas fossem. Somente um senhor, bem idoso, não interrompeu o banho diário de sol. Permaneceu sentado num dos bancos da praça, sem poder correr dali; o avançado da idade lhe enfraquecera as pernas. As negras abelhas africanas tomaram-lhe o corpo todo, a cabeça, com venenosas ferroadas, entraram pelos ouvidos, narinas, pela boca, interrompendo o grito de socorro e ocasionando a morte quase imediata por envenenamento. Descoberto o culpado, a maldade intrínseca ao ser humano apelidou o menino de Abelheira. E, para sempre, Abelheira ficou.
O que sei é que, independente de qualquer coisa, eu gostava de conversar fiado com Abelheira, quando os afazeres da loja permitiam. Era uma casa de comércio, de esquina, em frente ao Cine Ópera, nos moldes dos antigos armazéns, onde as pessoas podiam encontrar de tudo, desde alfinetes, linha, agulha, brinquedos, relógios, de pulso, de parede, discos, de todos os gêneros, da música caipira ao rock, passando pelas valsas vienenses, sucessos e Billy Vaughn, móveis populares, da cama patente à laqueada, do colchão de palha ao de espuma, do guarda-roupa de duas portas, de pinho, aos de quatro portas, de imbuia, sofás, poltronas, cadeiras e mesas, de fórmica, fogões, fogareiros, geladeiras, barbante, corda, âncoras, a motores de barco, bicicletas, Calói e Monark, mais a Garelli, a novidade das motonetas. Em meio à movimentação que tal variedade de opções fornecia, Abelheira era sempre visto refestelado em um dos sofás, ora olhando para o nada lá fora, ora retribuindo o sorriso zombeteiro de um cliente, mas sempre a postos para o chamado urgente de uma dona de casa desesperada com a súbita falta de gás, justamente quando estava cozinhando o feijão ou assando um bolo.
Num final de expediente, extenuado, larguei o corpo no sofá. Sentado ao lado, Abelheira aguardava que meu tio, o gerente, o mandasse para casa. Então, Abelheira veio se aproximando, chegou mais perto, olhou-me bem sério, mostrando o punho direito fechado, como se ali escondesse alguma coisa. Sacudiu a mão para, logo em seguida, encostá-la delicadamente na orelha, como se estivesse ouvindo algo muito sutil, deleitando-se com uma suposta música das esferas. Ao mesmo tempo que tenho medo, devo admitir que sinto uma grande atração, desde a mais tenra idade, pelos loucos. Assim, curioso, embarquei na brincadeira e perguntei o que ele escondia na mão fechada.
– O voo de uma abelha – respondeu.
Surpreso, retruquei:
– Não o voo, mas a abelha por certo.
Ora, não se aprisiona voos, mas insetos, pássaros, sonhos, enfim, coisas concretas.
– Não, o que eu tenho aqui é o voo da abelha – disse, indignado. – Quer ele pra você?
– O quê? O voo da abelha?
– Sim, isso mesmo.
– Não, cara, voos não podem ser aprisionados...
– Você não entende nada! Você nunca vai entender nada! – gritou.
Abrindo a mão espalmada, jogou violentamente o imaginário voo ao chão. Então, levantou-se e foi embora para casa, sem se despedir.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
O MUSEU DE CERA
Edson Negromonte
Quando minha família chegou em Antonina, no início de 1969, no mês de fevereiro, uma das primeiras coisas que fiz foi andar pelas ruas estreitas, de irregulares e centenários paralelepípedos, ainda solitário, sem amigos, sem saber de ninguém. Perambulava, a esmo, quando fui atraído por um murmúrio deveras afetuoso ao meu coração, o marulho do mar. Cheguei assim lentamente ao trapiche em frente ao Mercado Municipal, abri os braços e disse, para mim mesmo, sem que percebesse no momento a verdade por trás desta constatação:
– Eu nasci aqui, esta é a minha terra...
De que recônditos da mente surgira tal ideia? Talvez do, até então inesperado, sentimento cigano de expatriação, de desterro em minha própria terra. Catarinense, nascido em Canoinhas, perto da divisa com o Paraná, mudei-me ainda criança para Blumenau, depois São Francisco do Sul (cidade litorânea onde fiz o primeiro ano primário), para mudar-me para Niterói, às margens da baía da Guanabara, de algumas boas lembranças e pouquíssimos amigos, os quais foram definitivamente deixados para trás. Em nossas mudanças, levávamos somente a bagagem de mão. Agora, aos quinze anos, encontrava-me de novo na encruzilhada de uma cidade aparentemente estranha, mas de posse da terrível clarividência de que a terra antoninense era a minha pátria, a terra natal, o berço que eu tanto buscara, o acalanto que se ouve à noite sem saber de que doce boca materna vem. Postado no trapiche, braços abertos em cruz, eu não podia em sã consciência assegurar que as águas lamacentas da pequena baía eram mais azuis que as de São Francisco; as águas da baía de Antonina eram lodosas, escuras, paradas, mas somente a mim pertenciam, com o cheiro fétido de seres marinhos em decomposição, baixios à mostra na vazante, as pobres canoas dos pescadores das ilhas próximas, o falar característico das sílabas escandidas. Era a repentina volta a mim mesmo, ao mais íntimo do meu ser, ao odor pútrido dos lodaçais do coração. Lembro-me nitidamente de, nos primeiros meses, andar sozinho pelas ruas, apesar de já conhecer várias pessoas, desembocando invariavelmente no trapiche, entretendo-me com o fluxo e refluxo das marés, com a movimentação dos astros. Sorvia primeiro, em pequenos e tímidos haustos, a liberdade nunca antes permitida, porque desconhecida. Em seguida, com volúpia, inalava em espirais o ar, sentindo o próprio corpo impregnado da sensação pegajosa e sensual do salitre, do almejado voo da alma até a Ilha do Corisco, o humilde local onde teve origem a doce Antonina.
Passavam-se, assim, os dias, os meses, mornos, chuvosos, úmidos, untuosos, escorregadios, quando chegou agosto, o mês em que os habitantes começam os preparativos para as comemorações do dia 15, a tradicional Festa de Nossa Senhora do Pilar, a padroeira da cidade. Inúmeras barracas ofereciam doces, cocadas, pés de moleque, paçoca caseira, churros recheados com creme de leite, comidas típicas da região, como o barreado e o caldo de siri, miudezas, e muitas quinquilharias, desde brinquedos de corda, como sapos que saltavam e passarinhos que batiam as asas, de corda, feitos de lata, até nojentos cocôs de papel machê (um desses enfeitou, durante muito tempo, o tampo da minha escrivaninha). Acontecia, ainda, um grande foguetório, principalmente na igreja matriz, o qual em nada ficava devendo em poesia e esplendor à composição "Feux d'artifice", de Debussy. E nem mesmo aos canhonaços da "Abertura 1812", de Tchaikóvski. As barracas rodeavam a praça principal, mas cada desvão de rua podia esconder uma tenda improvisada, cheia de novidades, com um estrangeiro ávido pelo nosso pouco dinheiro, disposto a fazer descontos que chegavam às raias do desconfiável. Ou assim pensávamos, pois o confiável vendedor jurava até mesmo por Alá. Ou assim nos fazia crer, em sua fala arrevesada. Portas, antes fechadas, sequer percebidas, abrigavam agora universos, nas quais eu, em meus devaneios, eu lia a advertência "Só para Loucos", “Só para Raros”, motivado pelas leituras de "O Lobo da Estepe", de Hermann Hesse. Noutras, havia um grande X, pintado com a cal medieval. Os caprichos da mente adolescente são o fermento mais eficiente para a possível escritura do adulto de amanhã. Então, tomado do espírito exploratório típico da idade, adentrei uma porta, ao lado do Hotel Cristina, no final da Ladeira Ildefonso. Pintada em caracteres fantasiosos, em vermelho e amarelo, quase circenses, uma plaqueta anunciava Extraordinário Museu de Cera. Ao me acostumar com a penumbra reinante, divisei o vulto de um homem, velho, meio arqueado pelo peso da idade, que andava para lá e para cá, agitado, numa azáfama incessante, dando os últimos retoques no seu ganha-pão, com o qual ele mercadejava pelas cidades do interior do país. Ao ver-me, apesar da correria, foi cortês, dizendo-me que ficasse à vontade e, como o museu ainda não estava funcionando, eu não precisaria pagar a entrada. Mas com uma condição, a de que eu, agora um improvisado arauto, transmitisse a boa-nova à população.
Para a minha imaginação fantasiosa, nem mesmo o museu de Madame Tussauds era capaz de superar em grandeza as figuras ali expostas. Até mesmo os Beatles estavam ali, inclusive o sempre preterido Ringo, sentado à bateria, baquetas em punho, rufando tambores, batendo nos pratos. Olhavam-me, de alto a baixo, o presidente Vargas, de pijama listrado, uma mancha de sangue e pólvora no peito; Lampião e Maria Bonita (nossa, ela era bonita mesmo!), vestidos a caráter, de roupas cáqui de cangaceiro, cinturões carregados de balas de fuzil, acompanhados de Corisco, o Diabo Loiro. E Dadá Maria, cadê? Mais o presidente Kennedy, de cara de louça, tendo ao lado a atriz Marilyn Monroe, preocupada em baixar o vestido branco, pregueado, cuja calcinha, aliás, calçola, um ventilador inconveniente fazia questão de expor. Tinha ainda o topetudo Elvis Presley, de violão em punho; engrolando "Blue Suede Shoes", Roberto Carlos e Wanderléa, também o Zorro, a raposa da Califórnia, de roupa negra de cetim, capa e espada, botas de couro; um recém-modelado presidente Costa e Silva, o qual desaparecera num voo aéreo, talvez abduzido por forças alienígenas; Frankenstein, com a cara de Boris Karloff; o imponente chefe índio Touro Sentado, até o maldito Adolf Hitler, de mão estendida, gritando uma ordem qualquer em alemão, entre tantas outras personalidades. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi uma porta de ferro, aparentemente proibida, encimada por um pequeno gradil, também de ferro, sobre a qual piscava uma lâmpada vermelha. Sem que o velho percebesse, puxei um caixote. Subi e, estarrecido, dentro de um cubículo, vi um homem sendo eletrocutado, amarrado a uma cadeira elétrica.
– Sabe quem é?
– Não...
– Caryl Chessman, o Bandido da Luz Vermelha! – disse o dono do museu, com um sorriso de incontida satisfação. – Não está perfeito?
Frente ao meu ignorante silêncio, ele retirou-se contrariado, retomando os preparativos. Como poderia eu dar algum parecer? Era a primeira vez que ouvia sobre o tal bandido. Naquele tempo, bandido para mim era somente Billy the Kid. E olhe lá. Nem mesmo Cara de Cavalo eu via com tanta nitidez. Lembro-me de quando eu e meu primo subimos o Morro do Cavalão, em Niterói, em busca de Cara de Cavalo, depois que uma prima mais velha contou-nos que ele lá se encontrava escondido. Muitos anos mais tarde fui compreender porque Cara de Cavalo era uma espécie de herói para a classe média, quando deparei nas páginas de um livro sobre arte brasileira com a obra de Hélio Oiticica: "Seja Marginal, Seja Herói", cujo estandarte mostrava o bandido caído, baleado. Em tempos estrangulados, como os que vivíamos, sob uma sangrenta ditadura militar, que transformava verdadeiros defensores da pátria, como os guerrilheiros do Araguaia, em bandidos com cabeça a prêmio, os artistas vingavam-se transformando bandidos populares em heróis.
Ao voltar para casa, entusiasmado com o que vira no museu, deixei minha irmã radiante. Aos doze anos, apaixonada por Paul McCartney, essa era a chance única de vê-lo em carne e osso. Sim, em carne e osso, tal era a perfeição das figuras expostas. Inflamado pela imaginação, cheguei a segredar-lhe que poderíamos vê-lo sangrar, se ela quisesse. Bastava levarmos um canivete escondido. Repeliu horrorizada a ideia. E tanto insistiu a betlemaníaca que tive de levá-la imediatamente ao local; ela precisava conhecer pessoalmente o ídolo.
Ao entrarmos, o dono do museu arregalou os olhos miúdos e não os despregou mais de minha irmã. A qualquer ponto que nos dirigíamos, lá estavam os dois olhinhos nos observando, como se fôssemos capazes de roubar a estátua de Paul McCartney. Inocentemente, minha pequena irmã só tinha olhos para o beatle, voltando a ele de vez em quando, tocando-lhe o terno, a mão, sorrindo para mim, sorrindo consigo mesma, sorrindo para ele. Era tocante vê-la assim, como um anjinho que estendesse a mão ao Anjo da Guarda. Íamos e voltávamos, de uma figura à outra, encantados, como se, de um momento para outro, todos fossem adquirir vida. E sairiam, então, andando em nossa direção, cumprimentando-nos. Daí, então, ouviríamos "Ticket to Ride", "Help" e "Splish Splash", costuradas por um discurso do Führer, entre os raios e trovões de um antigo filme de terror, em preto e branco, que nos daria vida. Quando fizemos menção de sair, o dono do museu correu pressuroso em nossa direção:
– Peça permissão ao seu pai que deixe sua irmãzinha posar para mim. Ela será modelo para a mulher do Zorro. Eu estive buscando essas feições em
minhas andanças.
Meu pai concordou, desde que eu a acompanhasse e não desgrudasse os olhos dela, em momento algum. Ao seu lado permaneci durante uma manhã inteira, enquanto o homem modelava, em cera, o rosto de minha irmã. Avisou-nos que, no dia seguinte, poderíamos entrar de graça, para admirar a obra. Conforme combinado, depois do almoço, lá estávamos os dois, com nossos pais, curiosos. Magnífica a semelhança! Era como se víssemos a nossa pequena ali: cabelos castanhos escuros, olhos de jabuticaba e pele cor de jambo. Mas, para mim, alguma coisa não estava de acordo, algo me incomodava, havia naquela sinfonia uma nota dissonante. É que, apesar do frescor do semblante, em tudo igual ao original, a minha irmãzinha, de doze anos, adquirira, de um dia para o outro, corpo de mulher, pernas longas, e insuspeitados peitos... De cera, é claro!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
PAIS NÃO MENTEM JAMAIS
Edson Negromonte
Minha filha Cárita veio visitar-nos. Ela chegou depois dos irmãos, por ocasião das festas de fim de ano. E, como sempre acontece nessas reuniões familiares, ficamos a lembrar das nossas peripécias, bagunças e aventuras. As lembranças são quase sempre as mesmas, repetem-se, mas não nos cansamos de contar e recontá-las. E sempre rimos muito, como se fosse a primeira vez. Uma das minhas passagens favoritas, que sempre faço questão de contar, prima pela singeleza: as três crianças (o caçula Augusto viria alguns anos depois) já estavam aboletadas dentro do Fusca, prontas para passear, quando, olhando pela janela do carro, Gabriel, o menor de todos, ainda atrapalhado com as palavras, mas já um romântico inveterado, disse:
– Pai, precisamos fazer, um dia, um niquepique.
– Hahaha, é piquininique, Biel! – exclamou Tárik, do alto dos seus sete anos, o catedrático já estava na primeira série escolar!
– Ai, como vocês são burros! É nipinipique – corrigiu-os Cárita. – Não é, pai?! – perguntou-me imediatamente, em busca de confirmação.
A única menina em meio a três meninos (não, eu não sou o terceiro menino. Agora, Augusto já tinha nascido), é claro que ela não poderia jamais tomar gosto por bonecas. As suas brincadeiras eram de revólver de espoleta em punho, trepando em árvores e jogando goiabas verdes nos desavisados que passavam pela rua. De vez em quando, movida por um inesperado sentimento materno, tirava as bonecas, poucas, de baixo da cama, onde dormiam um sono quase eterno, e, em vez de embalá-las para dormir, pintava-lhes os olhos com caneta esferográfica azul, deixando-as parecidas com palhaços de um circo mambembe, algo assim como a pintura facial de Alice Cooper. Logo em seguida, as suas pobres filhas choravam, pedindo para voltar ao agradável limbo de onde tinham sido repentinamente arrancadas. E Cárita (o seu nome foi-me inspirado pela canção "O Caritas", de Cat Stevens, além de ser um anagrama de Tárik) podia assim retornar às brincadeiras com os meninos, às molecagens, às cetras, bolas de gude e aeroplanos improvisados em caixas de papelão e madeira.
Ao mudar para uma chácara, em Mato Dentro, tomamos gosto pela pescaria. Havia, num sítio mais adiante, seguindo três quilômetros adentro por uma convidativa estradinha de terra, um tanque cheio de carás e tilápias, com paturis brincando na margem oposta. Ao voltarmos para casa, depois de limpos, os peixinhos eram saboreados, fritos, acompanhados de arroz branco, farinha de mandioca e limonada bem doce. Íamos todas as vezes por essa estradinha, como os personagens de "O Mágico de Oz", cantarolando bem alto, a plenos pulmões (nossa canção favorita era "Volare", ocasião em que botávamos a boca no mundo, num italiano deveras macarrônico. Sem sabermos a letra, inventávamos mais um dialeto). E voltávamos já no final da tarde; de quando em quando nos calávamos para dar vez aos passarinhos, que piavam incomodados com a nossa cantoria ou, talvez, quem sabe, dela compartilhando, fazendo backing vocals. No pasto ao lado da estrada, Cárita ia, a certa distância, colhendo morangos silvestres, como uma Chapeuzinho Vermelho que comia os doces em vez de levá-los à vovozinha. Enquanto isso, sem que ela percebesse, nós, os homens, os valentões, apertávamos aos poucos o passo. De repente, olhávamos para trás e, de olhos arregalados, gritávamos:
– Ai, meu Deus!
Saíamos correndo, fingindo ver algum abominável ser das trevas ao longe, na curva da estrada. Ela, correndo atrás de nós, sem olhar para trás, horrorizada, chorosa, ameaçava, pedras zunindo passavam rentes às nossas cabeças:
– Eu vou contar pra mãe, quando chegar em casa! Ela vai bater em vocês!
Rimos muito disso tudo naquele tempo e continuamos rindo até hoje, como se tivesse acontecido ontem. Basta nos encontrarmos para contarmos as mesmas velhas e originais histórias. O interessante é que não nos cansamos, as nossas histórias conservam um frescor que algumas pessoas não entendem. Algumas chegam ao desplante de dizer que já as conhecem. Como pode isso, se nós, os protagonistas, ainda não as sabemos? Que saudade das caçadas de rã, com lanternas, sem intenção de comê-las, mas somente observá-las e dar risada dos seus olhinhos esbugalhados, ou do nosso escorregador improvisado, deslizando sobre papelão na grama de um barranco que ia dar na exígua calçada da movimentada e perigosa Avenida Nove de Julho (quanta adrenalina!) ou das lições sobre o medo, quando, à noite, eu pedia para eles irem buscar algum objeto no segundo andar do sobrado onde então morávamos, totalmente às escuras. Desciam os degraus aos trambolhões, aterrorizados pelo grito fantasmagórico ao pé da escada.
– Viram como não existe fantasma? Não existe alma do outro mundo! Foi o pai que gritou! – eu esclarecia e repetia, então, o grito, conseguindo provocar-lhes ainda alguns calafrios. O medo é inerente ao ser humano. É tolo tentar escondê-lo de si mesmo, pois o medo deve ser encarado de frente. O verdadeiro guerreiro é aquele que sabe que tem medo, mas é capaz de enfrentá-lo.
Muitos nos achavam parecidos com a Família Addams, da TV; isso era para nós uma lisonja. Pena que jamais conseguimos ter uma mãozinha tão prestativa. Ou um mordomo que nos perguntasse, com voz cavernosa: – Chamou? O livro para leitura na hora de dormir, a nossa nursery rhyme, era, na grande maioria das vezes, um que dizia mais ou menos assim:
Lá vem vindo o curioso,
Que será que vai achar?
Um tesouro precioso
Ou coisas de arrepiar!
Pena eu não lembrar mais o nome do autor ou autora. À frase final, seguiam-se os gritos dos meninos, podendo aí incluir o pai das crianças, que era nesse momento o mais gritalhão. Essa quadrinha era lida, relida e treslida, lida às avessas, várias vezes, antes de o sono chegar. Que sono repousante o das minhas crianças! Nosso esporte diário era pular no velho colchão de molas da cama de casal, ao som de músicas, como "Artigo 26", de Ednardo, "Pula, Caminha", de Gilberto Gil, e "Rock da Barata", de Jorge Mautner. Pulávamos, saltávamos, dávamos cabeçadas, uns nos outros, na parede, caíamos da cama, chorávamos, ríamos... Nosso presépio tinha as figuras tradicionais da festa cristã, acompanhadas de um monstruoso Godzilla, o qual trazia respeitosamente nas garras o menino Jesus, enquanto os três reis magos, em busca da estrela-guia, eram seguidos por bonequinhos de Batman, Robin, Super-homem, Mulher-Maravilha, Hulk, Snoopy e Chapolim Colorado. As pessoas da família e as visitas ficavam estarrecidas, assegurando-nos que isso era pecado, blasfêmia, que seríamos punidos até a quarta geração. Eu ria muito disso tudo, secundado pelos pirralhos. Sempre fiz questão de ensiná-los que o pecado só existe na cabeça das pessoas. Em que os santos são superiores ao King Kong ou ao monstro da Lagoa Negra, também capazes de se expor à intransigência humana por causa de um amor incompreendido? Assim levávamos a vida, na galhofa. Um dia, inventávamos de criar piranhas no aquário. Noutro, faríamos criação de plantas carnívoras. Isto, depois de assistir a "A Pequena Loja dos Horrores", no nosso videocassete, onde nos deliciávamos também com dráculas, frankensteins, pinóquios, faroestes, seres do espaço exterior e pernalongas, ursinhos puff, fadas azuis e estranhos anõezinhos que dançavam para trás e falavam ao contrário. Grande deus dos cachorros pulguentos, como éramos felizes!
Adoráveis anos de estripulias, peripécias, aventuras e fantasia, quando pude ser mais criança que todos eles juntos, como um irmão mais velho, na encruzilhada entre o folguedo e a educação, ou como um adulto perdido, mas algumas vezes consciente da responsabilidade de orientador das pequeninas almas sob as minhas asas, pai que jogou na lata de lixo todos os manuais, emílios, heloísas, summerhills, sem saber se o que estava fazendo era certo ou errado, bom ou ruim, positivo ou negativo, movido tão somente pela necessidade de acertar onde as gerações anteriores tinham falhado, disposto a inaugurar uma nova e temerária concepção de educação infantil. Então, deixando de divagações, na última noite deste ano, minha filha, já adulta, perguntou-me à queima-roupa, com seus inquiridores olhos verdes, capazes de perscrutar o mais recôndito da minha alma:
– Pai, me responde uma coisa. É mesmo verdade aquela história de Antonina, do homem que no Portinho criava sacis dentro de garrafa?
Minha filha Cárita veio visitar-nos. Ela chegou depois dos irmãos, por ocasião das festas de fim de ano. E, como sempre acontece nessas reuniões familiares, ficamos a lembrar das nossas peripécias, bagunças e aventuras. As lembranças são quase sempre as mesmas, repetem-se, mas não nos cansamos de contar e recontá-las. E sempre rimos muito, como se fosse a primeira vez. Uma das minhas passagens favoritas, que sempre faço questão de contar, prima pela singeleza: as três crianças (o caçula Augusto viria alguns anos depois) já estavam aboletadas dentro do Fusca, prontas para passear, quando, olhando pela janela do carro, Gabriel, o menor de todos, ainda atrapalhado com as palavras, mas já um romântico inveterado, disse:
– Pai, precisamos fazer, um dia, um niquepique.
– Hahaha, é piquininique, Biel! – exclamou Tárik, do alto dos seus sete anos, o catedrático já estava na primeira série escolar!
– Ai, como vocês são burros! É nipinipique – corrigiu-os Cárita. – Não é, pai?! – perguntou-me imediatamente, em busca de confirmação.
A única menina em meio a três meninos (não, eu não sou o terceiro menino. Agora, Augusto já tinha nascido), é claro que ela não poderia jamais tomar gosto por bonecas. As suas brincadeiras eram de revólver de espoleta em punho, trepando em árvores e jogando goiabas verdes nos desavisados que passavam pela rua. De vez em quando, movida por um inesperado sentimento materno, tirava as bonecas, poucas, de baixo da cama, onde dormiam um sono quase eterno, e, em vez de embalá-las para dormir, pintava-lhes os olhos com caneta esferográfica azul, deixando-as parecidas com palhaços de um circo mambembe, algo assim como a pintura facial de Alice Cooper. Logo em seguida, as suas pobres filhas choravam, pedindo para voltar ao agradável limbo de onde tinham sido repentinamente arrancadas. E Cárita (o seu nome foi-me inspirado pela canção "O Caritas", de Cat Stevens, além de ser um anagrama de Tárik) podia assim retornar às brincadeiras com os meninos, às molecagens, às cetras, bolas de gude e aeroplanos improvisados em caixas de papelão e madeira.
Ao mudar para uma chácara, em Mato Dentro, tomamos gosto pela pescaria. Havia, num sítio mais adiante, seguindo três quilômetros adentro por uma convidativa estradinha de terra, um tanque cheio de carás e tilápias, com paturis brincando na margem oposta. Ao voltarmos para casa, depois de limpos, os peixinhos eram saboreados, fritos, acompanhados de arroz branco, farinha de mandioca e limonada bem doce. Íamos todas as vezes por essa estradinha, como os personagens de "O Mágico de Oz", cantarolando bem alto, a plenos pulmões (nossa canção favorita era "Volare", ocasião em que botávamos a boca no mundo, num italiano deveras macarrônico. Sem sabermos a letra, inventávamos mais um dialeto). E voltávamos já no final da tarde; de quando em quando nos calávamos para dar vez aos passarinhos, que piavam incomodados com a nossa cantoria ou, talvez, quem sabe, dela compartilhando, fazendo backing vocals. No pasto ao lado da estrada, Cárita ia, a certa distância, colhendo morangos silvestres, como uma Chapeuzinho Vermelho que comia os doces em vez de levá-los à vovozinha. Enquanto isso, sem que ela percebesse, nós, os homens, os valentões, apertávamos aos poucos o passo. De repente, olhávamos para trás e, de olhos arregalados, gritávamos:
– Ai, meu Deus!
Saíamos correndo, fingindo ver algum abominável ser das trevas ao longe, na curva da estrada. Ela, correndo atrás de nós, sem olhar para trás, horrorizada, chorosa, ameaçava, pedras zunindo passavam rentes às nossas cabeças:
– Eu vou contar pra mãe, quando chegar em casa! Ela vai bater em vocês!
Rimos muito disso tudo naquele tempo e continuamos rindo até hoje, como se tivesse acontecido ontem. Basta nos encontrarmos para contarmos as mesmas velhas e originais histórias. O interessante é que não nos cansamos, as nossas histórias conservam um frescor que algumas pessoas não entendem. Algumas chegam ao desplante de dizer que já as conhecem. Como pode isso, se nós, os protagonistas, ainda não as sabemos? Que saudade das caçadas de rã, com lanternas, sem intenção de comê-las, mas somente observá-las e dar risada dos seus olhinhos esbugalhados, ou do nosso escorregador improvisado, deslizando sobre papelão na grama de um barranco que ia dar na exígua calçada da movimentada e perigosa Avenida Nove de Julho (quanta adrenalina!) ou das lições sobre o medo, quando, à noite, eu pedia para eles irem buscar algum objeto no segundo andar do sobrado onde então morávamos, totalmente às escuras. Desciam os degraus aos trambolhões, aterrorizados pelo grito fantasmagórico ao pé da escada.
– Viram como não existe fantasma? Não existe alma do outro mundo! Foi o pai que gritou! – eu esclarecia e repetia, então, o grito, conseguindo provocar-lhes ainda alguns calafrios. O medo é inerente ao ser humano. É tolo tentar escondê-lo de si mesmo, pois o medo deve ser encarado de frente. O verdadeiro guerreiro é aquele que sabe que tem medo, mas é capaz de enfrentá-lo.
Muitos nos achavam parecidos com a Família Addams, da TV; isso era para nós uma lisonja. Pena que jamais conseguimos ter uma mãozinha tão prestativa. Ou um mordomo que nos perguntasse, com voz cavernosa: – Chamou? O livro para leitura na hora de dormir, a nossa nursery rhyme, era, na grande maioria das vezes, um que dizia mais ou menos assim:
Lá vem vindo o curioso,
Que será que vai achar?
Um tesouro precioso
Ou coisas de arrepiar!
Pena eu não lembrar mais o nome do autor ou autora. À frase final, seguiam-se os gritos dos meninos, podendo aí incluir o pai das crianças, que era nesse momento o mais gritalhão. Essa quadrinha era lida, relida e treslida, lida às avessas, várias vezes, antes de o sono chegar. Que sono repousante o das minhas crianças! Nosso esporte diário era pular no velho colchão de molas da cama de casal, ao som de músicas, como "Artigo 26", de Ednardo, "Pula, Caminha", de Gilberto Gil, e "Rock da Barata", de Jorge Mautner. Pulávamos, saltávamos, dávamos cabeçadas, uns nos outros, na parede, caíamos da cama, chorávamos, ríamos... Nosso presépio tinha as figuras tradicionais da festa cristã, acompanhadas de um monstruoso Godzilla, o qual trazia respeitosamente nas garras o menino Jesus, enquanto os três reis magos, em busca da estrela-guia, eram seguidos por bonequinhos de Batman, Robin, Super-homem, Mulher-Maravilha, Hulk, Snoopy e Chapolim Colorado. As pessoas da família e as visitas ficavam estarrecidas, assegurando-nos que isso era pecado, blasfêmia, que seríamos punidos até a quarta geração. Eu ria muito disso tudo, secundado pelos pirralhos. Sempre fiz questão de ensiná-los que o pecado só existe na cabeça das pessoas. Em que os santos são superiores ao King Kong ou ao monstro da Lagoa Negra, também capazes de se expor à intransigência humana por causa de um amor incompreendido? Assim levávamos a vida, na galhofa. Um dia, inventávamos de criar piranhas no aquário. Noutro, faríamos criação de plantas carnívoras. Isto, depois de assistir a "A Pequena Loja dos Horrores", no nosso videocassete, onde nos deliciávamos também com dráculas, frankensteins, pinóquios, faroestes, seres do espaço exterior e pernalongas, ursinhos puff, fadas azuis e estranhos anõezinhos que dançavam para trás e falavam ao contrário. Grande deus dos cachorros pulguentos, como éramos felizes!
Adoráveis anos de estripulias, peripécias, aventuras e fantasia, quando pude ser mais criança que todos eles juntos, como um irmão mais velho, na encruzilhada entre o folguedo e a educação, ou como um adulto perdido, mas algumas vezes consciente da responsabilidade de orientador das pequeninas almas sob as minhas asas, pai que jogou na lata de lixo todos os manuais, emílios, heloísas, summerhills, sem saber se o que estava fazendo era certo ou errado, bom ou ruim, positivo ou negativo, movido tão somente pela necessidade de acertar onde as gerações anteriores tinham falhado, disposto a inaugurar uma nova e temerária concepção de educação infantil. Então, deixando de divagações, na última noite deste ano, minha filha, já adulta, perguntou-me à queima-roupa, com seus inquiridores olhos verdes, capazes de perscrutar o mais recôndito da minha alma:
– Pai, me responde uma coisa. É mesmo verdade aquela história de Antonina, do homem que no Portinho criava sacis dentro de garrafa?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
EM QUE MUNDO VOCÊ VIVE?
Edson Negromonte
Gaetano Moricone chegara bem aos 70. Tinha saúde, embora o tabaco lhe cobrasse o preço: a voz enrouquecida, o pulmão esquerdo funcionando pela metade, perda do paladar, tosse. Menos a memória, esta continuava cumprindo seu papel: não deixá-lo só; era a fiel companheira. A chegada à idade avançada não era, para ele, motivo de comemoração. Os amigos, aqueles que lembravam ainda da data, quando o encontravam na rua, sequer lhe davam parabéns. Pouco importava; era melhor que o esquecessem. Estava bem assim, eximia-o de responsabilidade.
Gaetano não casara. Os parentes que lhe restavam (a irmã mais velha, dois sobrinhos), tinha-os banido, desde que tentaram se imiscuir em sua vida, importunando-o com conselhos baratos. Para que servem as pessoas? Para nos entediar com seus achaques, os mais velhos. E os mais novos, com a sua vivacidade, comprometem ainda mais o tempo que nos resta. Preferia assim, quisera o viver solitário. Tinha apreço pelos livros, pela poesia, independente de escolas, mas principalmente por Ovídio. Embora soubesse “Metamorfoses” de cor, a cada leitura descobria novas inflexões. Não se considerava um latinista. No início, para lê-lo no original, fez uso de dicionários, gramáticas, edições bilíngues. Leitor ávido desde a adolescência, agora fazia uso de uma lupa. O enfraquecimento da visão, o médico atribuía mais à constante fumaça do cigarro que à idade.
A monotonia da casa era quebrada somente pelo ronronar de Publius, pouco afeito a carícias. Gaetano jamais suportaria um gato se enrodilhando em suas pernas, carente. Entendiam-se bem assim e isso lhes bastava. Pela manhã, leite morno com pão picado; uma tigela para Gaetano, outra para o bichano. Publius surgira, vindo sabe-se lá de onde, de que becos, aparentemente sem dono. Como ninguém o reclamara, foi ficando. Gaetano tinha certeza de que Publius iria embora um dia, sem mais nem menos. Por quê? Pela simples razão de que tudo é transitório. Cortinas semicerradas, a sala da casa tinha uma mesa, atulhada de livros, duas cadeiras de palha, um pequeno sofá de dois lugares. E ironicamente, no canto, uma namoradeira, ocupada pelos 32 volumes da “História Universal”, de Césare Cantu. Nas paredes de madeira, verdes, descascadas, nem um único quadro, coisa que à primeira vista denota uma alma desprovida de encantos. No assoalho, um tapete descorado. As estantes exibiam um grande número de lombadas pardacentas. Gaetano gostava das coisas assim, cada qual no seu lugar, sem surpresas. De madrugada, mesmo com a luz da sala apagada, era capaz de encontrar o livro procurado: satisfação infantil de uma criança cega. Nessas horas insones, de leitura até altas horas, era grato à vida por lhe ter roubado a chance de uma família, uma esposa, filhos pequenos, essa minúscula oportunidade que entrevira certa ocasião: de ser um homem comum. Não, ele não legaria a ninguém a herança de suas mazelas quando atravessasse à outra margem do rio, obscura. Não teve nunca ninguém para incomodá-lo com a arrumação da casa, a poeira acumulada nos cantos, hora de dormir, de acordar, essa aporrinhação do dia-a-dia na qual o homem comum tanto se compraz. Mesmo assim, acordava todos os dias muito cedo. Escovava os dentes, aliás, a dentadura, lavava o rosto na água fria, bebia um copo de água fresca. Antes do banho matinal, religiosamente olhava para o céu e murmurava:
– Puta que pariu!
Por certo, não era blasfêmia. Aprendera com o agnosticismo caboclo do avô que, se um homem não tem nada a dizer, ao se levantar, que diga então qualquer coisa, para não deixar passar em brancas nuvens a ocasião de se mostrar vivo ao Criador. O avô lhe ensinara muitas coisas: encilhar cavalos, a longevidade do bebedor de mate, a carneação do porco, o ritmo dos trens, a linguagem dos apitos. Todas essas coisas, Gaetano fizera questão de esquecer, após a morte do velho. Para que cultivá-las, se não eram de serventia para o solitário que ele se tornara? Das lições avoengas, conservou somente a saudação ao dia.
Duas leves pancadinhas na porta. Quem seria? Gente boa, os vizinhos não tinham por hábito incomodá-lo, sabiam que ele não era afeito a visitas. Muito menos as inesperadas. Novas pancadinhas; agora três, breves, seguidas de outras duas, longas, como arte de telegrafista. Pensou em não atender, fazer de conta que não estava em casa. A pessoa do outro lado insistia.
– Quem é?
– Eu preciso falar com o senhor.
Abriu a porta, contrariado. A garota esboçou um risinho infantil.
– Posso entrar?
– O que você quer?
Ela continuou sorrindo.
– Eu vim saber se o senhor pode me dar aulas particulares.
– Aulas particulares?!
– É que eu vou prestar vestibular no ano que vem e... como o meu português não é dos melhores...
– Mas eu não sou professor de nada, me aposentei pela ferrovia.
– Eu sei, eu sei, mas não tem mais ninguém na cidade que possa me ajudar. Sabe como é, né?
– Não sei não, não sei mesmo.
Já tinham lhe dito do mau humor de Gaetano, mas ela estava disposta a tê-lo como mestre, ele era tido como o intelectual da cidade.
– Eu li o seu livro...
– Ah, é?
– Gostei muito, apesar de não entender grande coisa.
– E qual o título? – disse ele, em tom de desafio.
– “A Maldição da Poesia”.
– Não seria talvez “A Má Dicção da Poesia”?
– Posso entrar?
Sem esperar resposta, a garota embarafustou-se casa adentro; Gaetano teve tempo somente de dar um passo atrás. Ela sentou-se no sofá, indiferente à poeira, fez um breve cafuné no gato que languidamente virou a barriga para cima, à espera de mais afagos, os quais não se repetiram. Os olhos azuis da garota passearam pela sala, pelos móveis, os poucos objetos de adorno (Santa Clara, em gesso pintado; Leda e o cisne, de bronze; uma moldura pequena e antiga, com o retrato de um casal, talvez os pais dele), o prato sobre a mesa, fundo, a colher acomodada na beirada, a xícara de café, outra xícara, mais outra... A garota Imaginou uma marimba improvisada com o que restasse de café nas xícaras. Ela esboçou um lindo sorriso, ante o suposto disparate dos sons. Definitivamente, concluiu apressada, não havia há muito tempo, naquela casa, a presença feminina, nem mesmo de uma empregada. Deteve, então, o olhar na primeira estante.
– Quanto livro!
Gaetano não pode deixar de sentir orgulho. Então, as mulheres, enquanto meninas, são capazes de se interessar por livros? Os olhos sem descanso da garota percorreram as outras estantes.
– Mais livros? Para que tantos?
Por certo, são todas iguais, em qualquer idade. Gaetano não escondeu a irritação, num leve aperto dos lábios. Ora, para que tantos? A garota fez de conta que nem era com ela.
– Os livros...
– Não precisa explicar, eu também amo os livros. A meu modo, mas amo, assim como amei minhas bonecas um dia.
– Os livros são...
– Olha, eu vim aqui para saber se você... o senhor... pode me dar aulas particulares.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Não sei, simples, não sei. Nunca dei aula particular. A minha vida foi sempre a ferrovia, detrás de uma mesa, carimbando, assinando papéis, documentos, a insensatez que é a vida de um...
– Mas o meu pai vai pagar.
Gaetano resmungou qualquer coisa sobre o valor do dinheiro, venalidade, a estupidez juvenil.
– Olha, eu ligo para o senhor amanhã, pra saber a resposta.
– Eu não tenho telefone.
– Em que mundo você vive?
– Humpf!
– Olha, amanhã eu bato aqui de novo.
Sem cerimônia, ela mesma abriu a porta e se foi, deixando na casa o cheiro nauseabundo da juventude. Gaetano permaneceu no meio da sala, estupefato. Que topete! Então, ela entrava assim em sua casa, sem ser convidada, e praticamente o obrigava a aceitá-la como aluna? Publius espreguiçou-se e voltou a dormir. Gaetano encheu uma xícara de café, acendeu um cigarro, com o pensamento longe. Mecanicamente pegou um livro qualquer de cima da mesa, capa vermelha, letras douradas. Não o abriu, era uma espécie de muleta, muito útil quando se via na iminência de tomar uma decisão, de atravessar a ponte pênsil que o conduziria a uma margem desconhecida. Deixou-se cair pesadamente no sofá, deu uma tragada profunda, observou os dedos da mão direita, nicotina, alcatrão.
– A impetuosidade da pouca idade.
Sentiu saudades de si mesmo, a primeira namorada, o primeiro beijo, o abandono, sentiu saudade da mãe. Divagando, deu com os olhos em “Cartas a Nora”, de James Joyce, a picante correspondência amorosa do grande escritor irlandês com a futura esposa. Ligou a TV: outro acidente com trens na Índia. Numa das estantes, deu com os olhos em “Lolita”. Por que os seus olhos o conduziam à sacanagem? Sentiu vergonha dos próprios pensamentos. Não, não a aceitaria como aluna. Ela não tinha mais de 17 anos. Dezesseis talvez. E ele? Um pé-na-cova. Era encrenca na certa. É sempre encrenca. Não era justo com a menina, e muito menos consigo mesmo. Abriu Ovídio, nada melhor que o amado poeta, companheiro das horas difíceis, de todas as horas, para distraí-lo do olhar insinuante da menina, dos seios adivinhados sob a camiseta branca, redondos, firmes, empinados, bicos apontando para ele. Gaetano sabia-se ainda charmoso, apesar da idade, da rabugice, que só o faziam mais misterioso e atraente às mulheres, principalmente às jovens. Um cigarro após outro; o gato dormindo, indiferente ao alvoroço interior de Gaetano. A mente divagando, nem Ovídio conseguia aquietar seu coração. Veio-lhe então a palavra “ninfeta”. Em seguida, sua consciência rosnou, entre dentes: – Velho sujo! Sentiu ódio. Preconceito? Ele nunca a vira antes, mas ela, com certeza, já andara se informando sobre ele. Até o seu livro ela lera. Bem, isso ela dissera. Teria lido mesmo? E, se fosse verdade, com que atenção? Passou a mão pela vasta cabeleira grisalha, outrora negra, quase azul. Não crê que uma menina seja capaz de se interessar por alguém de mais idade? A busca do amor? Uma aventura passageira para se gabar depois, isso sim. Ergueu-se. Era alto, ainda espigado. Os vincos da face davam-lhe uma aparência venerável, os olhos negros conservavam o brilho, a profundidade, nariz aquilino, lábios enérgicos. As mãos? Grandes, quase desproporcionais, angulosas, veias à mostra, apropriadas para pegar a vida pelos chifres, a qual ele sabia que não agarrara, falhara. As armadilhas do ego, o vampirismo dos mais velhos em busca do sangue dos jovens. Sentiu nojo de si mesmo. Teria ainda a aparência sedutora da meia-idade? Nas poucas vezes em que saía à rua, percebia envaidecido os olhares femininos. Amanhecera, e Gaetano ainda se debatia com os sentimentos. Afinal, conseguira tomar a decisão de não aceitar a menina como aluna. Sua vida estava muito bem assim, sem sobressaltos, sem novidades, sem ninfetas, nem paixões impossíveis, sem ervilhas abandonadas no campo de centeio. Mas Gaetano sentia-se, desde a visita da garota, mais vivo do que jamais estivera em toda a sua longa vida. Aguardou ansioso a manhã inteira que alguém batesse à porta, fumando um cigarro atrás do outro. Queria somente poder dizer não, como uma vingança, pelo desprezo. Cheirou as mãos e o fedor era para si mesmo insuportável, nicotina pura. Lavou-as com sabonete Lux. Por que Lux? Ora, porque nove entre dez estrelas do cinema usam Lux! Acendeu outro cigarro e se demorou olhando a chama intensa do fósforo, saboreou o fogo, o fogo da paixão... Virou o palito para cima, inclinou aos poucos a ponta enegrecida para baixo. Na pequena caixa sobre a mesa, lia-se Fiat Lux. Empilhou alguns livros, levou as xícaras para a cozinha, correu o dedo pela poeira dos móveis. Pensou em dar um jeito na casa, acabou deixando para lá. Engrolou “Fly me to the Moon”, e sentiu-se ridiculamente romântico. Meio-dia, e nada da menina. Arrastou-se a tarde, e ninguém. À noite, menos ainda. Cinzeiros, cheios. A sala, enfumaçada. Qual seria o nome dela? Vira-a somente uma única vez. Beatriz, a beata? Virgínia, do amor adolescente? Isolda, a lendária? Julieta, a dos espíritos? A proibida Júlia?
De manhã, insone, Gaetano olhou para o alto e, de punho erguido, gritou:
– Puta que O pariu!
Gaetano Moricone chegara bem aos 70. Tinha saúde, embora o tabaco lhe cobrasse o preço: a voz enrouquecida, o pulmão esquerdo funcionando pela metade, perda do paladar, tosse. Menos a memória, esta continuava cumprindo seu papel: não deixá-lo só; era a fiel companheira. A chegada à idade avançada não era, para ele, motivo de comemoração. Os amigos, aqueles que lembravam ainda da data, quando o encontravam na rua, sequer lhe davam parabéns. Pouco importava; era melhor que o esquecessem. Estava bem assim, eximia-o de responsabilidade.
Gaetano não casara. Os parentes que lhe restavam (a irmã mais velha, dois sobrinhos), tinha-os banido, desde que tentaram se imiscuir em sua vida, importunando-o com conselhos baratos. Para que servem as pessoas? Para nos entediar com seus achaques, os mais velhos. E os mais novos, com a sua vivacidade, comprometem ainda mais o tempo que nos resta. Preferia assim, quisera o viver solitário. Tinha apreço pelos livros, pela poesia, independente de escolas, mas principalmente por Ovídio. Embora soubesse “Metamorfoses” de cor, a cada leitura descobria novas inflexões. Não se considerava um latinista. No início, para lê-lo no original, fez uso de dicionários, gramáticas, edições bilíngues. Leitor ávido desde a adolescência, agora fazia uso de uma lupa. O enfraquecimento da visão, o médico atribuía mais à constante fumaça do cigarro que à idade.
A monotonia da casa era quebrada somente pelo ronronar de Publius, pouco afeito a carícias. Gaetano jamais suportaria um gato se enrodilhando em suas pernas, carente. Entendiam-se bem assim e isso lhes bastava. Pela manhã, leite morno com pão picado; uma tigela para Gaetano, outra para o bichano. Publius surgira, vindo sabe-se lá de onde, de que becos, aparentemente sem dono. Como ninguém o reclamara, foi ficando. Gaetano tinha certeza de que Publius iria embora um dia, sem mais nem menos. Por quê? Pela simples razão de que tudo é transitório. Cortinas semicerradas, a sala da casa tinha uma mesa, atulhada de livros, duas cadeiras de palha, um pequeno sofá de dois lugares. E ironicamente, no canto, uma namoradeira, ocupada pelos 32 volumes da “História Universal”, de Césare Cantu. Nas paredes de madeira, verdes, descascadas, nem um único quadro, coisa que à primeira vista denota uma alma desprovida de encantos. No assoalho, um tapete descorado. As estantes exibiam um grande número de lombadas pardacentas. Gaetano gostava das coisas assim, cada qual no seu lugar, sem surpresas. De madrugada, mesmo com a luz da sala apagada, era capaz de encontrar o livro procurado: satisfação infantil de uma criança cega. Nessas horas insones, de leitura até altas horas, era grato à vida por lhe ter roubado a chance de uma família, uma esposa, filhos pequenos, essa minúscula oportunidade que entrevira certa ocasião: de ser um homem comum. Não, ele não legaria a ninguém a herança de suas mazelas quando atravessasse à outra margem do rio, obscura. Não teve nunca ninguém para incomodá-lo com a arrumação da casa, a poeira acumulada nos cantos, hora de dormir, de acordar, essa aporrinhação do dia-a-dia na qual o homem comum tanto se compraz. Mesmo assim, acordava todos os dias muito cedo. Escovava os dentes, aliás, a dentadura, lavava o rosto na água fria, bebia um copo de água fresca. Antes do banho matinal, religiosamente olhava para o céu e murmurava:
– Puta que pariu!
Por certo, não era blasfêmia. Aprendera com o agnosticismo caboclo do avô que, se um homem não tem nada a dizer, ao se levantar, que diga então qualquer coisa, para não deixar passar em brancas nuvens a ocasião de se mostrar vivo ao Criador. O avô lhe ensinara muitas coisas: encilhar cavalos, a longevidade do bebedor de mate, a carneação do porco, o ritmo dos trens, a linguagem dos apitos. Todas essas coisas, Gaetano fizera questão de esquecer, após a morte do velho. Para que cultivá-las, se não eram de serventia para o solitário que ele se tornara? Das lições avoengas, conservou somente a saudação ao dia.
Duas leves pancadinhas na porta. Quem seria? Gente boa, os vizinhos não tinham por hábito incomodá-lo, sabiam que ele não era afeito a visitas. Muito menos as inesperadas. Novas pancadinhas; agora três, breves, seguidas de outras duas, longas, como arte de telegrafista. Pensou em não atender, fazer de conta que não estava em casa. A pessoa do outro lado insistia.
– Quem é?
– Eu preciso falar com o senhor.
Abriu a porta, contrariado. A garota esboçou um risinho infantil.
– Posso entrar?
– O que você quer?
Ela continuou sorrindo.
– Eu vim saber se o senhor pode me dar aulas particulares.
– Aulas particulares?!
– É que eu vou prestar vestibular no ano que vem e... como o meu português não é dos melhores...
– Mas eu não sou professor de nada, me aposentei pela ferrovia.
– Eu sei, eu sei, mas não tem mais ninguém na cidade que possa me ajudar. Sabe como é, né?
– Não sei não, não sei mesmo.
Já tinham lhe dito do mau humor de Gaetano, mas ela estava disposta a tê-lo como mestre, ele era tido como o intelectual da cidade.
– Eu li o seu livro...
– Ah, é?
– Gostei muito, apesar de não entender grande coisa.
– E qual o título? – disse ele, em tom de desafio.
– “A Maldição da Poesia”.
– Não seria talvez “A Má Dicção da Poesia”?
– Posso entrar?
Sem esperar resposta, a garota embarafustou-se casa adentro; Gaetano teve tempo somente de dar um passo atrás. Ela sentou-se no sofá, indiferente à poeira, fez um breve cafuné no gato que languidamente virou a barriga para cima, à espera de mais afagos, os quais não se repetiram. Os olhos azuis da garota passearam pela sala, pelos móveis, os poucos objetos de adorno (Santa Clara, em gesso pintado; Leda e o cisne, de bronze; uma moldura pequena e antiga, com o retrato de um casal, talvez os pais dele), o prato sobre a mesa, fundo, a colher acomodada na beirada, a xícara de café, outra xícara, mais outra... A garota Imaginou uma marimba improvisada com o que restasse de café nas xícaras. Ela esboçou um lindo sorriso, ante o suposto disparate dos sons. Definitivamente, concluiu apressada, não havia há muito tempo, naquela casa, a presença feminina, nem mesmo de uma empregada. Deteve, então, o olhar na primeira estante.
– Quanto livro!
Gaetano não pode deixar de sentir orgulho. Então, as mulheres, enquanto meninas, são capazes de se interessar por livros? Os olhos sem descanso da garota percorreram as outras estantes.
– Mais livros? Para que tantos?
Por certo, são todas iguais, em qualquer idade. Gaetano não escondeu a irritação, num leve aperto dos lábios. Ora, para que tantos? A garota fez de conta que nem era com ela.
– Os livros...
– Não precisa explicar, eu também amo os livros. A meu modo, mas amo, assim como amei minhas bonecas um dia.
– Os livros são...
– Olha, eu vim aqui para saber se você... o senhor... pode me dar aulas particulares.
– Não sei.
– Como não sabe?
– Não sei, simples, não sei. Nunca dei aula particular. A minha vida foi sempre a ferrovia, detrás de uma mesa, carimbando, assinando papéis, documentos, a insensatez que é a vida de um...
– Mas o meu pai vai pagar.
Gaetano resmungou qualquer coisa sobre o valor do dinheiro, venalidade, a estupidez juvenil.
– Olha, eu ligo para o senhor amanhã, pra saber a resposta.
– Eu não tenho telefone.
– Em que mundo você vive?
– Humpf!
– Olha, amanhã eu bato aqui de novo.
Sem cerimônia, ela mesma abriu a porta e se foi, deixando na casa o cheiro nauseabundo da juventude. Gaetano permaneceu no meio da sala, estupefato. Que topete! Então, ela entrava assim em sua casa, sem ser convidada, e praticamente o obrigava a aceitá-la como aluna? Publius espreguiçou-se e voltou a dormir. Gaetano encheu uma xícara de café, acendeu um cigarro, com o pensamento longe. Mecanicamente pegou um livro qualquer de cima da mesa, capa vermelha, letras douradas. Não o abriu, era uma espécie de muleta, muito útil quando se via na iminência de tomar uma decisão, de atravessar a ponte pênsil que o conduziria a uma margem desconhecida. Deixou-se cair pesadamente no sofá, deu uma tragada profunda, observou os dedos da mão direita, nicotina, alcatrão.
– A impetuosidade da pouca idade.
Sentiu saudades de si mesmo, a primeira namorada, o primeiro beijo, o abandono, sentiu saudade da mãe. Divagando, deu com os olhos em “Cartas a Nora”, de James Joyce, a picante correspondência amorosa do grande escritor irlandês com a futura esposa. Ligou a TV: outro acidente com trens na Índia. Numa das estantes, deu com os olhos em “Lolita”. Por que os seus olhos o conduziam à sacanagem? Sentiu vergonha dos próprios pensamentos. Não, não a aceitaria como aluna. Ela não tinha mais de 17 anos. Dezesseis talvez. E ele? Um pé-na-cova. Era encrenca na certa. É sempre encrenca. Não era justo com a menina, e muito menos consigo mesmo. Abriu Ovídio, nada melhor que o amado poeta, companheiro das horas difíceis, de todas as horas, para distraí-lo do olhar insinuante da menina, dos seios adivinhados sob a camiseta branca, redondos, firmes, empinados, bicos apontando para ele. Gaetano sabia-se ainda charmoso, apesar da idade, da rabugice, que só o faziam mais misterioso e atraente às mulheres, principalmente às jovens. Um cigarro após outro; o gato dormindo, indiferente ao alvoroço interior de Gaetano. A mente divagando, nem Ovídio conseguia aquietar seu coração. Veio-lhe então a palavra “ninfeta”. Em seguida, sua consciência rosnou, entre dentes: – Velho sujo! Sentiu ódio. Preconceito? Ele nunca a vira antes, mas ela, com certeza, já andara se informando sobre ele. Até o seu livro ela lera. Bem, isso ela dissera. Teria lido mesmo? E, se fosse verdade, com que atenção? Passou a mão pela vasta cabeleira grisalha, outrora negra, quase azul. Não crê que uma menina seja capaz de se interessar por alguém de mais idade? A busca do amor? Uma aventura passageira para se gabar depois, isso sim. Ergueu-se. Era alto, ainda espigado. Os vincos da face davam-lhe uma aparência venerável, os olhos negros conservavam o brilho, a profundidade, nariz aquilino, lábios enérgicos. As mãos? Grandes, quase desproporcionais, angulosas, veias à mostra, apropriadas para pegar a vida pelos chifres, a qual ele sabia que não agarrara, falhara. As armadilhas do ego, o vampirismo dos mais velhos em busca do sangue dos jovens. Sentiu nojo de si mesmo. Teria ainda a aparência sedutora da meia-idade? Nas poucas vezes em que saía à rua, percebia envaidecido os olhares femininos. Amanhecera, e Gaetano ainda se debatia com os sentimentos. Afinal, conseguira tomar a decisão de não aceitar a menina como aluna. Sua vida estava muito bem assim, sem sobressaltos, sem novidades, sem ninfetas, nem paixões impossíveis, sem ervilhas abandonadas no campo de centeio. Mas Gaetano sentia-se, desde a visita da garota, mais vivo do que jamais estivera em toda a sua longa vida. Aguardou ansioso a manhã inteira que alguém batesse à porta, fumando um cigarro atrás do outro. Queria somente poder dizer não, como uma vingança, pelo desprezo. Cheirou as mãos e o fedor era para si mesmo insuportável, nicotina pura. Lavou-as com sabonete Lux. Por que Lux? Ora, porque nove entre dez estrelas do cinema usam Lux! Acendeu outro cigarro e se demorou olhando a chama intensa do fósforo, saboreou o fogo, o fogo da paixão... Virou o palito para cima, inclinou aos poucos a ponta enegrecida para baixo. Na pequena caixa sobre a mesa, lia-se Fiat Lux. Empilhou alguns livros, levou as xícaras para a cozinha, correu o dedo pela poeira dos móveis. Pensou em dar um jeito na casa, acabou deixando para lá. Engrolou “Fly me to the Moon”, e sentiu-se ridiculamente romântico. Meio-dia, e nada da menina. Arrastou-se a tarde, e ninguém. À noite, menos ainda. Cinzeiros, cheios. A sala, enfumaçada. Qual seria o nome dela? Vira-a somente uma única vez. Beatriz, a beata? Virgínia, do amor adolescente? Isolda, a lendária? Julieta, a dos espíritos? A proibida Júlia?
De manhã, insone, Gaetano olhou para o alto e, de punho erguido, gritou:
– Puta que O pariu!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
O ESTRANHO
Edson Negromonte
À espera do trem que me levaria a Curitiba, folheava eu aleatoriamente as páginas de um volume ensebado de "A Cor que Veio do Céu", de H.P. Lovecraft, minha atenção foi repentinamente atraída por alguém que atravessava o portal da estação, dirigindo-se ao guichê de passagens. Trajava ele uma túnica de tecido simples, azulado, sandálias, e media aproximadamente dois metros de altura, de pele branca, olhos castanhos e cabelos negros, os quais trazia numa grossa trança que ia da nuca ao alto da cabeça e terminava em ponta na testa, quase à altura do nariz. Era de chamar a atenção em qualquer lugar do planeta.
Olhando melhor ao redor, só eu botava reparo na estranha figura. As outras pessoas passavam por ele como se fosse apenas um homem comum, um qualquer. Pior, como se ele não existisse, como se elas pudessem atravessar a estranha figura magnética, a qual fazia-me quase perder a respiração. Eu disse quase? Desculpe, mas meu coração ainda bate descompassado ante lembrança tão vívida, que o pensamento sai à frente das palavras, como um cavaleiro apavorado em frente à montaria. Há muito tempo eu abandonara os arroubos da juventude que me conduziriam às civilizações perdidas, às íntimas relações entre si, levando-me a defender uma inusitada tese, pela qual sofri o achincalhe de meus iguais, a de que os povos indígenas, sejam maias, astecas, toltecas, e mesmo os tupis e guaranis, são todos descendentes diretos dos atlantes. E que a grande civilização egípcia, muitas vezes supervalorizada, é somente a ponta mais visível das intensas navegações empreendidas por esse povo, o qual conseguira sobreviver à maior hecatombe nuclear de toda a história da humanidade, relatada de maneira irrefutável no Livro de Noé, o último dos dez patriarcas antediluvianos. Acontece que, empolgado, eu ia além e provava por A+B, pelo menos para mim, que os símbolos dessas civilizações ditas primitivas são os mesmos, com pequenas variações, alegando que a própria suástica é um signo anterior à civilização indiana. É mais que evidente que essas elucubrações foram rechaçadas pelo mundo acadêmico, razão pela qual abandonei-as; o que não me impede hoje, numa difícil e dolorosa autocrítica, de assumir que eu mesmo não acreditava plenamente em todas as minhas alegações, sendo mais fácil culpar os outros pelas minhas impossibilidades, por minhas desistências. Agora, eu não cria, estava diante de um dos mais dignos representantes da extinta raça lemuriana, contemporânea dos atlantes. Com o coração aos pulos, um frêmito sacudiu-me o corpo. Voltando rapidamente a mim, olhei em torno em busca daquele ser e avistei-o aguardando tranquilamente a chegada do trem, na plataforma. Além de mim, somente um garotinho, aparentemente com deficiência mental, observava-o curioso.
A primeira vez que ouvi sobre a Lemúria foi numa conversa rápida com o brilhante filósofo e místico Líbero Veloso. Era uma tarde agradável, num clube de cavalheiros, desses que hoje não existem mais, à rua Marquês do Herval, quando ele indicou-me o "Livro de Dzyan", de Madame Blavatsky. Segundo Veloso, eu estava naquele momento memorável recebendo um manuscrito, de próprio punho, cuja tradução ele mesmo realizara, a partir de um original russo, encontrado na biblioteca pública da capital, o qual nunca mais seria localizado, apesar das buscas incessantes, apesar da intercessão do próprio secretário estadual de Educação e Cultura. Senti-me o depositário de confiança do supremo hierofante do templo de Elêusis, na Grécia. Depois disso, eu e Veloso tornamo-nos quase inseparáveis, independente da diferença de idades. No entanto, hoje devo admitir minhas dúvidas quanto à veracidade desse texto, mas longe de mim imaginar que o nobre estudioso de ocultismo tenha mentido. Talvez ele mesmo estivesse equivocado em suas infatigáveis pesquisas, além da idade avançada, período que nos leva a confundir a realidade e criar mundos fantasiosos a fim de suprir as carências. Como disse anteriormente, as ideias vêm atabalhoadamente e sou obrigado a desdizer o que dissera, então, pensando melhor, não acredito em tal hipótese; Veloso era muito consciencioso, chegando às raias do ceticismo, e só dava a público aquilo que ele próprio já comprovara. Dele ouvi, em seu leito de morte, que outros autores, como Donnelly, Jacolliot e Lake Harris, serviram de inspiração à fundadora da respeitável Sociedade Teosófica, para a feitura do “Livro de Dzyan”. Mas esses três autores referiram-se somente de passagem, em seus escritos, à saga dos lemurianos. Em homenagem às agradáveis tertúlias com o meu mentor, dediquei-lhe o trabalho de minha vida, a repudiada tese sobre as civilizações desaparecidas, pois ele fora o orientador informal. Em seu leito de morte, quando o amado mistagogo abriu a boca em seu último alento, pareceu-me querer dizer que tudo fora uma farsa. Pensamento fortuito e passageiro, do qual temos a vida inteira para nos arrepender; só o estou expondo aqui, assim, tão abertamente, porque tenho certeza de que esta narrativa será lida somente após a minha possível passagem do Aquém para o Além.
Nesse seleto e, por que não, secreto clube de cavalheiros, reuniam-se aos sábados os estudiosos de filosofia e dos mistérios arcanos. Para mim, um jovem recém-saído da universidade, a convivência com essas mentes investigativas era extremamente enriquecedora. Tudo naqueles salões cheirava à cultura, desde os volumes encadernados a couro nas estantes de madeira escura às fotografias de personalidades ilustres da literatura universal, passando pelos objetos de adorno, onde incluo um romântico narguilé, que asseguravam alguns ter vindo diretamente de Paris e que nele pousara os lábios o poeta maldito Charles Baudelaire. Em meio a tudo isso, chamava-me sobremaneira a atenção a estampa de Bulwer-Lytton, de bigode e suíças, de vasta cabeleira, empertigado, sem olhar o retratista, e com uma pena à mão. Do consagrado autor de "Os Últimos Dias de Pompéia" e "Zanoni", constava de nossa biblioteca o raríssimo "A Raça Futura", sobre uma civilização subterrânea, também citada no romance espírita “A Lenda do Castelo de Montinhoso” e esmiuçada no imprescindível “A Terra Oca”. De posse de tal bagagem, e jogando ao sabor das leituras, minha atenção foi, um dia, atraída para o tomo "Lemúria – O Continente Perdido do Pacífico", de cujo autor não lembro mais o nome. Após repetidas leituras, dei asas à imaginação, quiçá ao delírio, e quase convenci os meus confrades a comigo embarcarem numa expedição ao monte Shasta, na Califórnia. A Providência quis por bem que a futura expedição não fosse além das nossas confortáveis poltronas, revestidas de veludo carmim, como tantas outras resoluções que tomamos com tal ímpeto que se desmoronam à primeira contrariedade. Agora, muito tempo depois, estou aqui nesta estação às voltas com as doces recordações daqueles anos, frente a frente com o que eu julgo ser um legítimo descendente de uma civilização dita extinta. Sei que isso vai contra toda a ciência, mas há neste mundo pessoas que fazem da especulação apenas o seu alimento preferido, como uma perversa geleia de língua de cotovias, apesar de ser considerada um requinte, pois o conhecimento não aplicado e o prazer mórbido da vaidade geram a pestilência.
Embarquei num dos vagões da classe popular, enquanto o alvo de minhas atenções dirigiu-se para o confortável vagão de primeira classe. Era uma composição mista, levando, além de passageiros, vários vagões carregados de sementes e grãos, principalmente soja. Estava envolto em minhas reflexões acerca da criatura, quando fui subitamente despertado pelo estridente apito da velha locomotiva a vapor, ainda em funcionamento e expelindo orgulhosa uma exuberante nuvem de fumaça. Estávamos em movimento, sacolejando para lá e para cá. Decidi então mudar de vagão para estar o mais próximo possível do estranho lemuriano. Sim, hoje ouso dizer com toda propriedade que era ele realmente um lemuriano. Ao chegar ao vagão de primeira classe, meus olhos deram diretamente com a sua elegante figura, contemplando a vigorosa paisagem que somente as serras de minha terra oferecem. Era ele realmente de chamar atenção, tamanha a beleza de seus traços, a placidez de seu semblante, além da inusitada trança, a qual descia até os olhos. Ninguém o olhava sequer de relance, como se ele fosse um homem comum. Ou seria uma atitude respeitosa com aquilo que desconheciam, atribuindo-lhe uma aura de divindade? Nós, humanos, fingimos não ver aquilo que não compreendemos. Penso que é uma atitude correta, pois assim evitamos pensar sobre coisas além da nossa compreensão, facilitando o cotidiano. Quão agradável deve ser a vida quando não queremos nada além das coisas comezinhas do dia a dia, mas devo acrescentar, com algum pesar, que isso é, na prática, impossível para aqueles que ousaram levantar o primeiro dos sete véus de Ísis.
Como o meu, somente um par de olhos permanecia fixo no estranho, o do garoto da estação, enquanto os outros pareciam trespassá-lo, admirando a paisagem lá fora através dele. Confesso que isso foi causando-me aos poucos certo desconforto, quando um leve movimento da trança descobriu uma pequena protuberância em sua testa. Assim como eu, inebriado, o garoto com problemas mentais continuava a olhá-lo. Num lampejo, veio-me à mente que aquela protuberância podia muito bem ser um sinal do que os antigos entendiam metaforicamente como o terceiro olho, a morada da alma, como bem o compreendera Descartes. Eu, num misto de curiosidade e medo, observava-o por cima dos óculos, fingindo ler o oportuno Lovecraft. Sobressaltei-me então com o fiscal, picotando os cartões e, para meu desespero maior, convenientemente ignorando o lemuriano. Por encontrar-me em outra classe, tive que pagar um valor a mais, o que fiz de bom grado, mesmo sabendo que não poderia mais me dar ao luxo de comer um pão com manteiga, acompanhado de uma média, após encerrar os afazeres na capital. Em momento algum, o estranho tirou os olhos da paisagem. Cheguei a imaginar que somente a sua carcaça estivesse ali, acomodada naquele banco de trem, tal e qual uma crisálida. O que estou pensando? Não posso deixar a fantasia tomar conta, sou um estudioso, um cético, só a concretude das coisas é digna do saber do homem.
As delicadas flores silvestres quase adentravam o vagão, obrigando os passageiros a se afastar das janelas, mas aquele estranho... Não, ele não movia-se um milímetro sequer, assustando-me mais e mais a sua serenidade.
– É um amongue...
Virei-me abruptamente para o banco de trás, de onde viera a voz. Meus olhos arregalados deram com um homenzinho franzino, de chapéu de feltro e paletó xadrez, de tweed. De bigode fino, óculos de fundo de garrafa e cavanhaque, tinha um quê de personagem de quadrinhos.
– Anda entre nós, mas poucos o percebem – disse o sujeitinho. – Meu nome é Astrogildo Bandeira, mas pode me chamar de Astro.
O quê? Astro?! – pensei eu. – Ora essa, chamar alguém que acabei de conhecer pelo apelido. Astro? Hahaha! Só se eu fosse lunático!
– Entendo que não tenha gostado da ideia – disse ele. – Não, não precisa se desculpar. Chame-me do que bem entender. O que é um nome? Não pude deixar de perceber o seu interesse no amongue e, como são poucos os que o veem, achei que podíamos então entabular uma palestra amigável, sabe, “uma conversação entre homens inteligentes”, como diria o poeta Ezra Pound.
Que pedantismo! – pensei com meus botões.
– Acha que só você leu Pound, e sobre lemurianos, atlantes, e tantas outras civilizações desaparecidas? Fique sabendo que, muito antes de você sair das fraldas, essa literatura já circulava entre os interessados. Veja bem, em momento algum eu direi “iniciados”. Se você pensa que Platão é o mais antigo a falar da Atlântida, é porque desconhece os autores árabes. Bem sei que não me dá crédito; é somente o ego a falar mais alto, você não consegue admitir que alguém externo ao seu distinto círculo de fumantes de cachimbo possa conhecer uma migalha sequer do que vocês desconhecem. Posso ler nos seus olhos a incredulidade. Poderíamos ser bons amigos, se não fosse a sua empáfia. Você é muito presunçoso! Da próxima vez que encontrar alguém de uma classe inferior ou que não fale tão brilhantemente quanto os seus amigos, segundo os seus parâmetros, por favor morda o lábio inferior em sinal de humildade. É o mínimo que um homem sensato pode fazer e, cá entre nós, como estamos carentes ultimamente de pessoas sensatas.
Dito isso, perscrutou-me. Antes que eu boquiaberto pudesse esboçar qualquer reação, ele recostou-se no banco, cruzou os braços sobre o abdômen, baixou a cabeça, como se estivesse há muito adormecido. Estávamos chegando à estação do Marumbi, o ponto mais alto da viagem, com o pico de mesmo nome erguendo-se altaneiro. Lembrei-me do ser iluminado e encontrei vazio o seu lugar. Descera na parada anterior? Impossível! O homenzinho não falara tanto assim. Ou falara? Antes de o trem parar totalmente, saí desabalado a procurá-lo pelos vagões. Nada, nenhum sinal. Busquei na plataforma, nos arredores, em todos os cantos, perguntando pelo estranho de trança, gesticulando, fazendo sinais com as mãos, como se estivesse num país estrangeiro, onde ninguém compreendesse a minha algaravia. Quando dei por mim, o trem já partira, deixando-me sozinho na gelada estação.
A literatura mística é useira e vezeira em confundir os caminhos quando o buscador não está preparado para continuar a ascensão; acontece que este não é um relato fantasioso, sendo tão somente as palavras sinceras de um devotado cientista, descrente de tudo e de todos. O que sei é que por culpa do tal homenzinho descuidei do ser fabuloso. Ou serei somente eu o culpado de minhas malfadadas ações? E o que vem a ser a culpa, essa gorda senhora sorridente que nos afasta da felicidade?
À espera do trem que me levaria a Curitiba, folheava eu aleatoriamente as páginas de um volume ensebado de "A Cor que Veio do Céu", de H.P. Lovecraft, minha atenção foi repentinamente atraída por alguém que atravessava o portal da estação, dirigindo-se ao guichê de passagens. Trajava ele uma túnica de tecido simples, azulado, sandálias, e media aproximadamente dois metros de altura, de pele branca, olhos castanhos e cabelos negros, os quais trazia numa grossa trança que ia da nuca ao alto da cabeça e terminava em ponta na testa, quase à altura do nariz. Era de chamar a atenção em qualquer lugar do planeta.
Olhando melhor ao redor, só eu botava reparo na estranha figura. As outras pessoas passavam por ele como se fosse apenas um homem comum, um qualquer. Pior, como se ele não existisse, como se elas pudessem atravessar a estranha figura magnética, a qual fazia-me quase perder a respiração. Eu disse quase? Desculpe, mas meu coração ainda bate descompassado ante lembrança tão vívida, que o pensamento sai à frente das palavras, como um cavaleiro apavorado em frente à montaria. Há muito tempo eu abandonara os arroubos da juventude que me conduziriam às civilizações perdidas, às íntimas relações entre si, levando-me a defender uma inusitada tese, pela qual sofri o achincalhe de meus iguais, a de que os povos indígenas, sejam maias, astecas, toltecas, e mesmo os tupis e guaranis, são todos descendentes diretos dos atlantes. E que a grande civilização egípcia, muitas vezes supervalorizada, é somente a ponta mais visível das intensas navegações empreendidas por esse povo, o qual conseguira sobreviver à maior hecatombe nuclear de toda a história da humanidade, relatada de maneira irrefutável no Livro de Noé, o último dos dez patriarcas antediluvianos. Acontece que, empolgado, eu ia além e provava por A+B, pelo menos para mim, que os símbolos dessas civilizações ditas primitivas são os mesmos, com pequenas variações, alegando que a própria suástica é um signo anterior à civilização indiana. É mais que evidente que essas elucubrações foram rechaçadas pelo mundo acadêmico, razão pela qual abandonei-as; o que não me impede hoje, numa difícil e dolorosa autocrítica, de assumir que eu mesmo não acreditava plenamente em todas as minhas alegações, sendo mais fácil culpar os outros pelas minhas impossibilidades, por minhas desistências. Agora, eu não cria, estava diante de um dos mais dignos representantes da extinta raça lemuriana, contemporânea dos atlantes. Com o coração aos pulos, um frêmito sacudiu-me o corpo. Voltando rapidamente a mim, olhei em torno em busca daquele ser e avistei-o aguardando tranquilamente a chegada do trem, na plataforma. Além de mim, somente um garotinho, aparentemente com deficiência mental, observava-o curioso.
A primeira vez que ouvi sobre a Lemúria foi numa conversa rápida com o brilhante filósofo e místico Líbero Veloso. Era uma tarde agradável, num clube de cavalheiros, desses que hoje não existem mais, à rua Marquês do Herval, quando ele indicou-me o "Livro de Dzyan", de Madame Blavatsky. Segundo Veloso, eu estava naquele momento memorável recebendo um manuscrito, de próprio punho, cuja tradução ele mesmo realizara, a partir de um original russo, encontrado na biblioteca pública da capital, o qual nunca mais seria localizado, apesar das buscas incessantes, apesar da intercessão do próprio secretário estadual de Educação e Cultura. Senti-me o depositário de confiança do supremo hierofante do templo de Elêusis, na Grécia. Depois disso, eu e Veloso tornamo-nos quase inseparáveis, independente da diferença de idades. No entanto, hoje devo admitir minhas dúvidas quanto à veracidade desse texto, mas longe de mim imaginar que o nobre estudioso de ocultismo tenha mentido. Talvez ele mesmo estivesse equivocado em suas infatigáveis pesquisas, além da idade avançada, período que nos leva a confundir a realidade e criar mundos fantasiosos a fim de suprir as carências. Como disse anteriormente, as ideias vêm atabalhoadamente e sou obrigado a desdizer o que dissera, então, pensando melhor, não acredito em tal hipótese; Veloso era muito consciencioso, chegando às raias do ceticismo, e só dava a público aquilo que ele próprio já comprovara. Dele ouvi, em seu leito de morte, que outros autores, como Donnelly, Jacolliot e Lake Harris, serviram de inspiração à fundadora da respeitável Sociedade Teosófica, para a feitura do “Livro de Dzyan”. Mas esses três autores referiram-se somente de passagem, em seus escritos, à saga dos lemurianos. Em homenagem às agradáveis tertúlias com o meu mentor, dediquei-lhe o trabalho de minha vida, a repudiada tese sobre as civilizações desaparecidas, pois ele fora o orientador informal. Em seu leito de morte, quando o amado mistagogo abriu a boca em seu último alento, pareceu-me querer dizer que tudo fora uma farsa. Pensamento fortuito e passageiro, do qual temos a vida inteira para nos arrepender; só o estou expondo aqui, assim, tão abertamente, porque tenho certeza de que esta narrativa será lida somente após a minha possível passagem do Aquém para o Além.
Nesse seleto e, por que não, secreto clube de cavalheiros, reuniam-se aos sábados os estudiosos de filosofia e dos mistérios arcanos. Para mim, um jovem recém-saído da universidade, a convivência com essas mentes investigativas era extremamente enriquecedora. Tudo naqueles salões cheirava à cultura, desde os volumes encadernados a couro nas estantes de madeira escura às fotografias de personalidades ilustres da literatura universal, passando pelos objetos de adorno, onde incluo um romântico narguilé, que asseguravam alguns ter vindo diretamente de Paris e que nele pousara os lábios o poeta maldito Charles Baudelaire. Em meio a tudo isso, chamava-me sobremaneira a atenção a estampa de Bulwer-Lytton, de bigode e suíças, de vasta cabeleira, empertigado, sem olhar o retratista, e com uma pena à mão. Do consagrado autor de "Os Últimos Dias de Pompéia" e "Zanoni", constava de nossa biblioteca o raríssimo "A Raça Futura", sobre uma civilização subterrânea, também citada no romance espírita “A Lenda do Castelo de Montinhoso” e esmiuçada no imprescindível “A Terra Oca”. De posse de tal bagagem, e jogando ao sabor das leituras, minha atenção foi, um dia, atraída para o tomo "Lemúria – O Continente Perdido do Pacífico", de cujo autor não lembro mais o nome. Após repetidas leituras, dei asas à imaginação, quiçá ao delírio, e quase convenci os meus confrades a comigo embarcarem numa expedição ao monte Shasta, na Califórnia. A Providência quis por bem que a futura expedição não fosse além das nossas confortáveis poltronas, revestidas de veludo carmim, como tantas outras resoluções que tomamos com tal ímpeto que se desmoronam à primeira contrariedade. Agora, muito tempo depois, estou aqui nesta estação às voltas com as doces recordações daqueles anos, frente a frente com o que eu julgo ser um legítimo descendente de uma civilização dita extinta. Sei que isso vai contra toda a ciência, mas há neste mundo pessoas que fazem da especulação apenas o seu alimento preferido, como uma perversa geleia de língua de cotovias, apesar de ser considerada um requinte, pois o conhecimento não aplicado e o prazer mórbido da vaidade geram a pestilência.
Embarquei num dos vagões da classe popular, enquanto o alvo de minhas atenções dirigiu-se para o confortável vagão de primeira classe. Era uma composição mista, levando, além de passageiros, vários vagões carregados de sementes e grãos, principalmente soja. Estava envolto em minhas reflexões acerca da criatura, quando fui subitamente despertado pelo estridente apito da velha locomotiva a vapor, ainda em funcionamento e expelindo orgulhosa uma exuberante nuvem de fumaça. Estávamos em movimento, sacolejando para lá e para cá. Decidi então mudar de vagão para estar o mais próximo possível do estranho lemuriano. Sim, hoje ouso dizer com toda propriedade que era ele realmente um lemuriano. Ao chegar ao vagão de primeira classe, meus olhos deram diretamente com a sua elegante figura, contemplando a vigorosa paisagem que somente as serras de minha terra oferecem. Era ele realmente de chamar atenção, tamanha a beleza de seus traços, a placidez de seu semblante, além da inusitada trança, a qual descia até os olhos. Ninguém o olhava sequer de relance, como se ele fosse um homem comum. Ou seria uma atitude respeitosa com aquilo que desconheciam, atribuindo-lhe uma aura de divindade? Nós, humanos, fingimos não ver aquilo que não compreendemos. Penso que é uma atitude correta, pois assim evitamos pensar sobre coisas além da nossa compreensão, facilitando o cotidiano. Quão agradável deve ser a vida quando não queremos nada além das coisas comezinhas do dia a dia, mas devo acrescentar, com algum pesar, que isso é, na prática, impossível para aqueles que ousaram levantar o primeiro dos sete véus de Ísis.
Como o meu, somente um par de olhos permanecia fixo no estranho, o do garoto da estação, enquanto os outros pareciam trespassá-lo, admirando a paisagem lá fora através dele. Confesso que isso foi causando-me aos poucos certo desconforto, quando um leve movimento da trança descobriu uma pequena protuberância em sua testa. Assim como eu, inebriado, o garoto com problemas mentais continuava a olhá-lo. Num lampejo, veio-me à mente que aquela protuberância podia muito bem ser um sinal do que os antigos entendiam metaforicamente como o terceiro olho, a morada da alma, como bem o compreendera Descartes. Eu, num misto de curiosidade e medo, observava-o por cima dos óculos, fingindo ler o oportuno Lovecraft. Sobressaltei-me então com o fiscal, picotando os cartões e, para meu desespero maior, convenientemente ignorando o lemuriano. Por encontrar-me em outra classe, tive que pagar um valor a mais, o que fiz de bom grado, mesmo sabendo que não poderia mais me dar ao luxo de comer um pão com manteiga, acompanhado de uma média, após encerrar os afazeres na capital. Em momento algum, o estranho tirou os olhos da paisagem. Cheguei a imaginar que somente a sua carcaça estivesse ali, acomodada naquele banco de trem, tal e qual uma crisálida. O que estou pensando? Não posso deixar a fantasia tomar conta, sou um estudioso, um cético, só a concretude das coisas é digna do saber do homem.
As delicadas flores silvestres quase adentravam o vagão, obrigando os passageiros a se afastar das janelas, mas aquele estranho... Não, ele não movia-se um milímetro sequer, assustando-me mais e mais a sua serenidade.
– É um amongue...
Virei-me abruptamente para o banco de trás, de onde viera a voz. Meus olhos arregalados deram com um homenzinho franzino, de chapéu de feltro e paletó xadrez, de tweed. De bigode fino, óculos de fundo de garrafa e cavanhaque, tinha um quê de personagem de quadrinhos.
– Anda entre nós, mas poucos o percebem – disse o sujeitinho. – Meu nome é Astrogildo Bandeira, mas pode me chamar de Astro.
O quê? Astro?! – pensei eu. – Ora essa, chamar alguém que acabei de conhecer pelo apelido. Astro? Hahaha! Só se eu fosse lunático!
– Entendo que não tenha gostado da ideia – disse ele. – Não, não precisa se desculpar. Chame-me do que bem entender. O que é um nome? Não pude deixar de perceber o seu interesse no amongue e, como são poucos os que o veem, achei que podíamos então entabular uma palestra amigável, sabe, “uma conversação entre homens inteligentes”, como diria o poeta Ezra Pound.
Que pedantismo! – pensei com meus botões.
– Acha que só você leu Pound, e sobre lemurianos, atlantes, e tantas outras civilizações desaparecidas? Fique sabendo que, muito antes de você sair das fraldas, essa literatura já circulava entre os interessados. Veja bem, em momento algum eu direi “iniciados”. Se você pensa que Platão é o mais antigo a falar da Atlântida, é porque desconhece os autores árabes. Bem sei que não me dá crédito; é somente o ego a falar mais alto, você não consegue admitir que alguém externo ao seu distinto círculo de fumantes de cachimbo possa conhecer uma migalha sequer do que vocês desconhecem. Posso ler nos seus olhos a incredulidade. Poderíamos ser bons amigos, se não fosse a sua empáfia. Você é muito presunçoso! Da próxima vez que encontrar alguém de uma classe inferior ou que não fale tão brilhantemente quanto os seus amigos, segundo os seus parâmetros, por favor morda o lábio inferior em sinal de humildade. É o mínimo que um homem sensato pode fazer e, cá entre nós, como estamos carentes ultimamente de pessoas sensatas.
Dito isso, perscrutou-me. Antes que eu boquiaberto pudesse esboçar qualquer reação, ele recostou-se no banco, cruzou os braços sobre o abdômen, baixou a cabeça, como se estivesse há muito adormecido. Estávamos chegando à estação do Marumbi, o ponto mais alto da viagem, com o pico de mesmo nome erguendo-se altaneiro. Lembrei-me do ser iluminado e encontrei vazio o seu lugar. Descera na parada anterior? Impossível! O homenzinho não falara tanto assim. Ou falara? Antes de o trem parar totalmente, saí desabalado a procurá-lo pelos vagões. Nada, nenhum sinal. Busquei na plataforma, nos arredores, em todos os cantos, perguntando pelo estranho de trança, gesticulando, fazendo sinais com as mãos, como se estivesse num país estrangeiro, onde ninguém compreendesse a minha algaravia. Quando dei por mim, o trem já partira, deixando-me sozinho na gelada estação.
A literatura mística é useira e vezeira em confundir os caminhos quando o buscador não está preparado para continuar a ascensão; acontece que este não é um relato fantasioso, sendo tão somente as palavras sinceras de um devotado cientista, descrente de tudo e de todos. O que sei é que por culpa do tal homenzinho descuidei do ser fabuloso. Ou serei somente eu o culpado de minhas malfadadas ações? E o que vem a ser a culpa, essa gorda senhora sorridente que nos afasta da felicidade?
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