terça-feira, 30 de setembro de 2014

O CÃO ENCARNADO OU A CRENÇA ESQUIMÓ


Edson Negromonte

Talvez o leitor mais jovem não compreenda o que irá ler a seguir, quando hoje não existem mais cães vagando pelas ruas; a limpeza pública se encarregou de exterminá-los, após o grande surto de gripe canina, logo depois da aviária e da suína. Eram outros tempos, mais perigosos, porém mais livres, quando grande parte da população canina errava livre pelas ruas das cidades, grandes ou pequenas, até mesmo nos vilarejos. Esse pré-histórico “melhor amigo do homem”, quer dizer, do homem que, como eles, vagabundeia pelas ruas, vivia em sua grande maioria à solta, sobrevivendo dos restos que abundavam no lixo dos restaurantes, lanchonetes e até das casas, rosnando para os ratos. Era um tempo de muitos ratos também, mas nunca se ouviu falar de gripe murina. Com o extermínio dos cães e o consequente aproveitamento ecológico do lixo, os ratos acabaram devorando a si mesmos, desequilibrando ainda mais a cadeia alimentar. Assim, a vida nas ruas perdeu grande parte do encanto natural. Nas casas, também o cachorro foi erradicado; aqueles que teimaram em manter os seus bichinhos de estimação, receberam permissão do Ministério da Saúde, desde que empalhados.

Os cães foram, durante muito tempo, fonte de inspiração para a literatura, música, pintura, as artes em geral. Todos os grandes homens faziam questão de ter entre os seus fiéis amigos, pelo menos um desses vira-latas. Assim, foi com Churchill, Courbet e até Steinbeck, que escreveu “Viajando com Charlie”, o nome do seu parceiro de aventuras: um cão atravessando os Estados Unidos, lado a lado com o grande escritor, numa caminhonete. Whitman, cuja dicção deu origem a toda a poesia do continente americano, também tinha em grande conta o amigo Watch. Sei que é cansativo para o leitor mais jovem essa enumeração das personalidades caninas que passaram à história, portanto vou dar início ao meu relato, mas fique ciente de que poderia citá-los aos montes.

Havia entre os cães da minha rua, um que julguei, segundo a crença esquimó, ser a encarnação do meu avô. Calhou de ele aparecer no bairro justamente sete dias após o sepultamento do pai de meu pai. Logo que me viu, balançou o rabo e eu, se ainda tivesse uma cauda, com certeza a balançaria para ele também, em resposta à saudação. Devo confessar que um estremecimento percorreu minha espinha, até terminar em cócegas no cóccix, esta última lembrança de um tempo em que nós, humanos, tínhamos rabo. Acompanhou-me até o portão, rosnando para as sombras da noite, como se quisesse me proteger. Inicialmente, atribuí a sua companhia a algum odor peculiar, talvez o cheiro de gordura barata impregnada em minhas roupas, pois eu costumava jantar numa dessas cantinas que servem uma boa porção de comida por um valor irrisório, de onde se sai fedendo tão ou mais forte que a cozinheira do lugar. Ao me despedir dele, fiz-lhe um leve afago, o qual ele aceitou de bom grado. Fez, então, menção de comigo entrar. Bati o pé, coisa que ele imediatamente entendeu, afastando-se cabisbaixo.

Na manhã seguinte, ao sair para trabalhar, encontrei-o deitado na calçada em frente. Ao me ver, abanou o rabo como se eu não tivesse sido grosseiro. Acompanhou-me até o ponto. Até onde pude ver, ficou olhando o ônibus se afastar. Ao voltar do trabalho, fiquei surpreso ao encontrá-lo deitado à minha porta, tendo conseguido, de alguma maneira que até hoje não consegui descobrir, ultrapassar o alto muro do quintal. Que remédio! Deixei-o ficar, mas avisei-o de que a comida não era suficiente para dois. Muitas vezes, tenho certeza, fui dormir com mais fome do que ele.

Assim, os dias foram se passando, fomos nos apegando um ao outro, o meu salário melhorou, já não partilhávamos mais a fome. Para ele, somente para ele, no dia de Ano Novo, comprei meio quilo de carne moída. De segunda, é claro; o salário tinha melhorado, mas não tanto. Devorou a carne toda, crua. Como um digno representante da raça, detestava banho. Nada que eu pudesse dele exigir, pois o banho é, para mim também, um hábito repulsivo. Segundo os antigos, banhar-se diariamente amolece o caráter; coisa na qual creio piamente. O nome dele? Pois é, não consegui me decidir, ele era muito especial para que ficasse restrito a uma palavra. Dia após dia, eu me debati sobre como chamá-lo, mas nada era bom o suficiente. E sem nome ele ficou; nos entendíamos bem assim, mesmo porque ele nunca quis saber o meu. Talvez já o soubesse. Quereria permanecer incógnito? Mas o que é um nome se o ser ao nosso lado é um grande companheiro. Dar nomes às coisas é invenção dos homens: um pardal não pergunta ao outro qual o seu nome, onde mora, quanto ganha. A única exigência de meu amigo era que deixasse a televisão ligada quando eu saía e não podia levá-lo. E se eu já era avesso a sair de casa, com essa presença servil fui me apartando cada vez mais, dentro do possível, da convivência humana. Já não ia diariamente ao trabalho, nem desculpas esfarrapadas dava mais, até que fui despedido. Sem dinheiro, fui vendendo os poucos pertences, livros, roupas, alguns objetos de adorno, menos a televisão, a máquina de fazer loucos era agora o nosso único elo de ligação com o mundo exterior. Acabamos sendo despejados, a TV ficou para o locador, como parte do aluguel. Fomos morar debaixo do Viaduto do Chá.

Confesso que, de início, sofri muito com a situação, mas com o tempo acabei me integrando ao mundo da mendicância. Descobri que ainda havia pessoas de bom coração, as velhinhas. Elas, em sua grande maioria, são incapazes de negar um prato de comida, o qual eu dividia sempre com o meu fiel escudeiro canino, já que ele era incapaz de enternecer o coração dessas bondosas senhoras. Devido a minha formação escolar, segundo grau completo, tornei-me o porta-voz dos mendigos de São Paulo. Entre os meus iguais, outros havia com mais estudo, mas incapazes de eloquência, de retórica. À noite, à roda de uma fogueirinha, lia para eles, de Baudelaire, um poema em prosa sobre a necessidade de se espancar mendigos, para risada geral. Depois disso, eles iam dormir tranquilos, de alma lavada. Um dia, instado por alguns políticos corruptos (adjetivo desnecessário?), candidatei-me a vereador, e perdi. Nem mesmo meus colegas de infortúnio votaram em mim. Abalado, decidi não ser líder de mais nada. Dora em diante, seríamos eu e meu cachorro. Foi, então, que lembrei do companheiro de todas as horas.

Onde teria ele ido, durante os meses de campanha? Eu, ingrato, tinha-o abandonado à própria sorte. Procurei por ele em todas as ruas, todos os becos da grande cidade, fui a programas de rádio, e nada, ninguém sabia do seu paradeiro. Foi quando ocorreu o grande massacre de cães, em todo o território nacional. Dos pobres cães, não sobrara um para contar a história. O ar ficou empesteado, com o cheiro de carne queimada, as grandes fogueiras em praça pública.

E você, caro leitor, que teve paciência de ler estas linhas até aqui, deve estar se perguntando por que eu associei a doce figura do cãozinho com a memória do meu avô. Sinceramente, não sei, mas o que tenho como certo é que ele era mesmo a encarnação do velho, o pai de meu pai. É algo tão íntimo que não admito discutir o assunto com ninguém, nem mesmo com a família de esquimós que mora num iglu, feito de pequenas caixas de papelão, ao meu lado, nos baixos do Minhocão, onde resido atualmente. E, veja bem, tenho muita consideração por esses esquimós; eles costumam me oferecer, aos sábados, saborosos nacos de carne de foca.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

QARINA ou A DESCOBERTA DO SEXO



Edson Negromonte

A melhor fase da vida é a adolescência, quando se está predisposto a acreditar em tudo, quando tudo é possível, quando não se adquiriu ainda os malditos preconceitos que tolhem a imaginação, quando a imaginação ainda é terreno fértil para as ideias mais estapafúrdias, porém confortadoras, da alma juvenil, quando a vida nunca é sem graça ou insossa para um garoto destrambelhado, ávido por filmes e quadrinhos de terror e as, assim ditas, revistas masculinas, tudo isso regado a muito rock’n’roll. A história a seguir é baseada, desculpem, em fatos reais. Por favor, não torçam o nariz, eu bem sei quão mentirosa é, quase sempre, essa advertência. Só peço que me seja concedido o beneficio da dúvida, para que, após a leitura, tenham o direito de me chamar de mentiroso e até me difamar nas redes sociais. Você que já está com um pé atrás, o vírus do descrédito instalado no sangue, é melhor mesmo que fique por aí, à margem de um jardim ao qual jamais será admitido. O medo é o pior inimigo da humanidade; ouse dar um passo adiante, rumo à escuridão infinita do desconhecido, mesmo que isso o leve a vagar indefinidamente no espaço sideral. Ainda assim, arrisco-me a pedir disposição aos incréus. Talvez, ao final da leitura, façam como Giuseppe, o meu avô siciliano, um descrente, que quando lhe contavam uma história extraordinária, difícil de engolir, arrematava: “Si non è vero, è ben trovato”.
Foi em uma noite abafada, eu acabara de completar treze anos (os mais velhos, os guardiães da crônica da cidade, lavraram que, nos últimos quarenta anos, não houvera verão mais quente que aquele de 1973), que, no meio da noite, acordei sobressaltado, com alguém acariciando minha cabeça, a testa, entrelaçando sensualmente os dedos entre os meus cabelos compridos, carinhosamente. Fã de filmes escabrosos, eu era, no íntimo, um cagão. Mas devo admitir que, naquele calor infernal, o contato da mão fria era agradável, reconfortante, quase um refrigério. Por mais incrível que possa parecer, não tive medo, aliás, controlei o medo: “Ser corajoso não é não sentir medo, mas enfrentá-lo, Gafanhoto” – um útil ensinamento aprendido com a série de TV “Kung Fu”. Minha mente era mesmo destrambelhada, e eu associei essa carícia à mão agora esquelética da mãe que não tive. Não quero com isso dizer que eu seja filho de chocadeira: minha mãe morreu no parto, deixando-me órfão desde o primeiro momento de vida. No meio do breu reinante no quarto, eu sentia a presença de alguém, de algo que, apesar de tudo, me fazia bem. Bem podia ser mesmo a minha mãezinha que voltara do mundo dos mortos para me confortar. Ou para me buscar? Sempre quis ter mãe, alguém a quem eu pudesse contar os meus segredos, alguém que me compreendesse, que me desse colo. E vocês hão de convir que de mãe não se deve, não se pode ter medo, mesmo que ela já esteja morta e enterrada, bem enterrada. Enquanto eu desfrutava desse enlevo, o calor voltou a reinar no quarto e a presença angélica se evaporara. No dia seguinte, não contei nada a ninguém. Nem à empregada, nem ao meu pai, muito menos aos amigos. Sempre fui caladão assim, ensimesmado, é o meu jeito. E quem partilharia uma sensação tão íntima, sob o risco de ouvir pilhérias? Se havia algo que me deixava enfezado era o pouco caso que sequer pudessem fazer das minhas histórias, na maioria das vezes, concordo, mirabolantes. Pode-se dizer até rocambolescas. Sim, eu já tinha lido Ponson Du Terrail. Perambulando pelas ruas da cidade, bastava fechar os olhos para sentir de novo a mão diáfana em minha fronte; de bem comigo mesmo, deliciava-me. Era como se aquele ser de substância vaga, feito da matéria dos contos de fada, fosse a melhor parte de mim; eu nunca tinha sido alvo de um gesto feminino tão prazeroso.
À noite, inquieto, me recolhi mais cedo do que o costume, não fiquei na roda de amigos, jogando conversa fora, na esquina da praça Coronel Macedo. Deitei-me, ansioso, à espera de um novo contato. Aquilo me fizera bem, aquecera a orfandade do meu coração. Passei a noite em claro e nada, somente o calor insuportável que os ventiladores não conseguiam amenizar. Levantei-me da cama, frustrado. Tomei o café da manhã e fui bater perna. Nada conseguia atrair minha atenção por muito tempo, nem o jogo de bilhar, nem o bamboleio dos quadris das garotas da Escola Normal, nem o papo furado dos bêbados no mercado, com os quais eu aprendia muito mais sobre a vida do que nos maçantes livros escolares. Angustiado, eu não via a hora de escurecer, para me encerrar em meu quarto, à espera de uma nova visitação. Sentado na poltrona, olhos fechados, revivi toda a sensação daquela noite, repetidas vezes, até que meu corpo se cansou e eu caí em sono profundo, um sono sem sonhos. Dormi feito uma pedra; despertei com a claridade da manhã entrando pela janela; eu não lembrava de tê-la aberto. O sol, surgindo por trás das montanhas, como uma bola de fogo, prometia mais um dia sufocante.
Na vida de um garoto inquieto, como eu era, os acontecimentos se atropelam de tal forma, a vida é tão dinâmica, que quase o fazem esquecer do ocorrido há poucos dias atrás, mesmo que esse acontecimento revista-se dos prodígios do maravilhoso. Assim, voltei ao bilhar, abismando os sapos com meu taco infalível, eu era então capaz de lances mirabolantes. Rocambolescos? Talvez, talvez. Voltei tarde para casa, ninguém ligava muito para mim mesmo (ai, que falta faz uma mãe!), eu não tinha que dar satisfação a ninguém dos meus horários: meu pai, sempre envolvido com a contabilidade da fábrica de conservas, e Maria deitava cedo, cansada das tarefas domésticas. No dia seguinte, ela perguntaria, mecanicamente, por onde eu tinha andado, contentando-se com qualquer resposta evasiva. Perguntava somente por perguntar, como fazem todas as mulheres (menos as mães), pouco se importando com a resposta. Para ela, a casa em ordem era o mais importante; ela bem que tentava, a seu modo, fazer as vezes da minha mãe, mas como não tivera filhos, não sabia lidar com as minhas casmurrices. Maria era algo entre empregada doméstica, governanta e membro da família, e tudo o que essa posição indefinida pudesse acarretar e significar. Ela estava com a família desde tempos imemoriais, viera morar conosco, emprestada por minha avó, que dizia não se lembrar mais quando Maria Leocádia pusera os pés em sua casa.
À noite, foi impossível sair de casa, caía um aguaceiro de dar inveja a Noé. Sem medo de ser exagerado, podia-se dizer que era uma noite bíblica, com todas as lembranças do dilúvio vindo à tona. Depois de faltar a luz, fui deitar, era o melhor, a única coisa que se podia fazer. Nem bem adormeci, senti novamente a carícia da mão fria em meus cabelos. Tentei acordar, abrir os olhos, mas foi inútil, meus músculos se recusaram a obedecer, numa espécie de hiato entre a vigília e o sono. Ou entre o sonho e o pesadelo, a onirodinia, um sonâmbulo que, apesar do esforço, não conseguisse se mover. A mão tocou-me, então, delicadamente o peito, afundando-se gélida ao encontro do coração. Não podia ser minha mãe rediviva, já agora eu tinha certeza disso: pois, senti, logo em seguida, a mão da entidade tocar delicadamente o meu sexo. Agora, a mão estava morna, de uma mornidão gostosa e agradável aos sentidos. Não, não era a minha mãe. Então, a criatura deitou-se sobre mim, aconchegando-se, roçando os seios em meu corpo, meu peito, na minha boca. Quando percebi, a cabeça em redemoinho, eu estava dentro dela, dentro da criatura. Não, definitivamente, não era a minha mãe! A vulva dela era quente, uma quentura que eu nunca antes provara, molhada. Num jorro de leite seminal, inundei-a. No dia seguinte, sentia-me cabreiro, embora feliz, o apetite carnal satisfeito. Nada melhor, para um adolescente, que a gratificação da carne, evita muitos males da cabeça, como a obsessão pelo sexo, evita de ver sexo em tudo, porque sexo é que nem coceira, uma vez coçada desaparece. Isso é o que dizem, pode até ser, mas comigo não foi assim. Eu conheci, um eufemismo bíblico, a criatura durante uma semana, todas as noites, sem lhe ver a face. Sabia somente que ela tinha asas, pressenti-as. Asas enormes, macias, que me envolviam num abraço; um casulo larval. Por momentos, temi que ela fosse um anjo, medo de estar transando com um desses seres virtuosos (isso deve ser pecado!), mas anjos não têm sexo, conforme aprendi nas aulas de catecismo, e isso era já um consolo. Depois do gozo, ela, a criatura alada, imediatamente desaparecia. E eu ficava ouvindo, lá fora, o clamor das asas gigantescas, distanciando-se. Que ela era um ser áleo, já não havia a menor dúvida. E que fosse uma fêmea (e que fêmea!), era um fato.
Fazer sexo todas as noites, durante toda a semana, não me enfraquecia. Em vez disso, eu ficava, a cada dia, mais disposto, mais satisfeito com a vida, a mente mais clara, mais confiante (a droga da felicidade!), tanto que me tornei naturalmente o líder da turma, atirando-me de cabeça do trapiche, sem temer as estacas no fundo, remanescentes de um antigo ancoradouro; uma façanha. Na escola, minhas notas melhoraram sensivelmente, passei a ser elogiado pelos professores, passei a atrair os olhares das meninas, as quais eu achava tão infantis, tratando-as sem nenhuma condescendência, como um legítimo ídolo do rock. Eu era outro, minha personalidade mudara. Mas nada disso me afetava diretamente, era como se não fosse eu, era uma máscara social, era outro aquele que recebia os cumprimentos da diretora, a medalha pelo melhor desenho do colégio, os votos de um belo futuro, essas patacoadas que todos os jovens que se sobressaem em alguma atividade estão fadados a ouvir. Mas o que, na verdade, acontecia comigo? De repente, de um dia para outro, eu passei a compreender várias línguas, conseguia entender o que os marinheiros conversavam entre si, não só os americanos e os franceses, mas os dinamarqueses, os noruegueses, os islandeses, até mesmo a algaravia de um taifeiro javanês. Devo confessar que tudo isso deixava-me assustado, ao mesmo tempo que me envaidecia. Então, por que eu me preocuparia com essa fatuidade, se “vaidade das vaidades, tudo é vaidade, como bem diz Salomão, no “Eclesiastes”?
Meu idílio com a criatura ia cada vez melhor, a testosterona a mil. Diferente do começo, quando ela chegava e ia logo me possuindo, com o tempo, apesar do prazer que ela me dava, eu comecei a me sentir um objeto em suas mãos, um escravo sexual, condição inicialmente nada incômoda. Mas eu queria mais. Assim, como um casal que se ama, depois do ato sexual, passamos a conversar; o seu tom de voz era delicado, ciciante, sussurrava em meus ouvidos palavras ininteligíveis, porém perceptivelmente doces. Agora, depois de me esgotar, ela deitava-se ao meu lado e comigo dormia até um pouco antes da aurora, quando fugia de mim, como uma Cinderela das trevas. Uma madrugada, recostada em meu peito, sem que eu perguntasse, ela disse-me seu nome. Qarina, a doce, a minha doce Qarina! Passou-se, assim, em arroubos noturnos, um mês, dois, três, desde o nosso primeiro encontro. Sim, estávamos apaixonados. Eu, da minha parte, garanto que sim, ela era o motivo da minha existência, da minha nova vida. E acho que ela também tinha por mim o mesmo sentimento. Uma manhã, de banho tomado, desci para o café, quando Maria, olhando em minha direção, de olhos mais que arregalados, esbugalhados, fez o sinal da cruz.
– Ai, menino, que tô veno um encosto do teu lado. E parece uma muié! Valei-me, meu bom Jesus de Iguape! São João, Xangô menino! – exclamou a pobre mulher, desesperada, fazendo novamente o pelo sinal.
(À luz do dia, eu não conseguia ver Qarina, mas percebia a sua presença ao meu lado. À noite, mesmo com todas as luzes apagadas, sua imagem era nítida, como nítida será sempre a luminosidade da carne amada. E ela era linda! Muito mais linda do que qualquer artista renascentista seria capaz de representar). E Maria continuava a se persignar. Nervosa, balbuciou que eu fosse ver o padre Patrick. Dei-lhe um beijo em cada face, dizendo que estava tudo bem, procurando acalmá-la. Ao voltar para casa, Maria, ainda ressabiada, mas sem fazer escândalo, provavelmente não estivesse vendo mais ninguém ao meu lado, disse-me que o padre ordenara que eu fosse vê-lo na manhã do dia seguinte, impreterivelmente, no confessionário. Com certeza, Maria telefonara para ele, contando o que vira. Como discutir uma ordem do padre Patrick? Era um burro de um homem, um irlandês muito alto, curvado, da cabeça quadrada, ciclópico, sanguíneo, de manoplas disformes que mais pareciam duas raquetes de tênis. Não havia como escapar, ele iria me buscar em casa e, se necessário, me arrastaria pelas pernas até a igreja. Padre Patrick era uma autoridade em exorcismo, como todos os padres irlandeses. Sendo amigo da família, e com meu pai sempre ausente, achava-se no direito de dar palpites na minha educação, com o aval de Maria. Não entendo por que Maria, uma negra velha, sensitiva, descendente de africanos, não apelou aos seus orixás, em vez de chamar pelo padre. Nada mais óbvio que eu, aos treze anos, o temesse. A saudação do velho cura era um tapaço na cabeça dos meninos, um cachação, o que, de cara, deixava-nos submissos e propensos a aceitar as suas palavras como lei divina. Ao cruzar o pórtico da igreja, senti vontade de sair correndo dali, fugir daqueles santos gigantescos, de gesso, olhando-me do alto, reprovadores, desdenhosos. Antes que pudesse dar meia-volta, padre Patrick chamou-me, com sua voz de trovão, indicando o confessionário, com o dedo em riste. Sem delongas, foi logo perguntando:
– Tem se masturbado muito?
– Eu não!
– Tá doente?
– Não...
– Então, o que tá fazendo aqui?
– Não sei, a Maria disse que o senhor queria me ver...
– É mesmo! Ela disse que viu uma mulher do seu lado. Tem estado com rameiras ultimamente? Sabe que essas mulheres são almas pegajosas que grudam feito sanguessugas espirituais no corpo dos homens? Dos meninos de treze anos, principalmente! Venha comigo!
Na saleta ao lado, o padre, sem mais nem menos, me aspergiu com água benta, à espera de alguma manifestação, mas nada, nem uma fumacinha saiu do meu corpo. Intrigado, padre Patrick olhou-me bem dentro dos olhos.
– Tem usado drogas?
– Não!
– Nem o xarope Romilar? Eu consigo ver a lubricidade nos seus olhos. Tem tido poluções noturnas?
– O quê?
– Sonhos eróticos, sua besta!
– Não...
– Não minta! Deixe-me examinar seus olhos.
Com polegares colossais, arregaçou minhas pálpebras, como se elas estivessem escondendo a verdade dos séculos ou toda a areia do Saara.
– Humpf, venha comigo!
Por uma porta lateral, passamos à pequena biblioteca da casa paroquial. Na entrada, no alto, estava pintado, em vermelho escarlate: LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH' ENTRATE.
– Sabe o que quer dizer isso? “Deixai toda a esperança, vós que aqui entrais”. É Dante, canto terceiro do “Inferno”.
Mandou que me sentasse em uma cadeira à sua frente. “Então, é aqui, nesta sala, que ele faz os exorcismos?” – pensei.
– Você já ouviu falar em demônios noturnos, incubus e succubus?
– Não...
– Não minta para mim, seu cachorro depravado!
Baixei a cabeça. Como discordar daquela voz autoritária, tonitruante? Sim, eu sabia o que eram os ditos demônios, lera sobre eles, lera o conto de Balzac sobre o succubus da Rue Chaude.
– Tire a camiseta! O que são essas marcas vermelhas nas suas costas? Esses arranhões profundos, essas lacerações que parecem ter sido feitas por unhas de mulher. Você tem ido à zona? Tem estado com mulher da vida?
– Não.
– E o que me diz, então, dessas marcas?
– Se eu pudesse ver, mas não tenho olhos nas costas...
– Seu filho de uma puta, tá zombando de mim? – vociferou, dando-me um cascudo que jogou-me no chão, onde fiquei sem vontade nenhuma de abrir os olhos.
Quando voltei à vida, padre Patrick estava de costas para mim, procurando um livro na biblioteca. Pegou um pequeno volume e começou a folheá-lo, como se eu não estivesse ali. Não sei precisar quanto tempo se passou, enquanto eu buscava o equilíbrio, alternando-me entre borbulhas de luz e a escuridão absoluta. Talvez uma eternidade, ou alguns minutos.
– Já ouviu falar no padre Sinistrari? Lógico que não! Este vade-mécum sobre os demônios foi escrito por ele, para orientar os inquisidores. Responda à minha pergunta somente com “sim” ou “não”. Você andou sonhando que fodia durante o sono e, quando acordava, não tinha nenhum vestígio de langonha no seu lençol?
Balancei a cabeça, afirmativamente.
– Eu disse para responder “sim” ou “não”!
– Si-sim – balbuciei.
– Assim está melhor, admitir o pecado já é um grande passo.
– Grande passo para quê? – me atrevi.
– Cale a boca, seu pervertido! Só abra a boca quando eu autorizar – e voltou a folhear o livreto. Como as horas se arrastam dentro de uma igreja... Quando eu começava a brigar com o sono, cabeceando de maneira incontrolável, ele perguntou-me, a sua carantonha quase encostando na minha cara, o bafo quente, o mau hálito: – Faz tempo que isso vem acontecendo?
– Uns dois, três meses, talvez quatro...
– E só agora eu fico sabendo disso? Tem alguma vizinha sua grávida?
– Que eu saiba não.
– Você deve estar se perguntando por que fiz essa pergunta. Então, eu vou lhe contar o que está acontecendo com você. Esse tempo todo, seu idiota, você tá trepando com um demônio em forma de mulher, um succubus. Ele coleta o seu sêmen na vagina e vai copular, em forma de incubus, com as mulheres da vizinhança, fertilizando-as com o esperma que coletou de você, porque ele, o incubus, é incapaz de produzir sêmen.
“Ah, então, eles são bissexuais, como Alice Cooper” – conjeturei com os meus botões.
– Eles são estéreis. Você está sendo usado, a sua porra está sendo usada para criar uma raça de homens fracos, fáceis de serem controlados pelas forças do mal. O succubus, a contraparte feminina desses demônios, toma a forma que bem entende, de acordo com as suas fantasias. Diga-me, você sonhou que estava metendo com outras mulheres, além do succubus, mulheres que você deseja? Seja sincero, não tenha vergonha de contar para mim, eu sou seu confessor e, além do mais, somos amigos. Ou não somos?
Balancei a cabeça vigorosamente, assentindo.
– Eu sonhei que tava com a Dina Sfat, usando somente uma anágua branca, de algodão, como eu vi na Playboy; sonhei com a Julie Newmar, vestida de Mulher-Gato, e que ela dizia para mim, na hora do gozo: “purrfect!”; sonhei com a Betty Page, os pentelhos negros, os michelins rosados dos mamilos, os seios arredondados; em Karen Carpenter, fiz um cunnilingus,que a deixou extasiada; com Lorna, a rainha da selva, foi muito estranho, ela era bidimensional, sem volume; ah, a suavidade da pele de pêssego da Rita Lee; com Jane Birkin tinha até trilha sonora, eu sentia suas costelas em minhas mãos, todas as suas delicadas vértebras; Karen Black, Allyson Ames, Grace Slick...
– Chega, chega, já é o bastante! Tudo indica que é mesmo um caso de possessão demoníaca. Acontece que esse succubus apaixonou-se por você. Os succubi são submissos, diferentemente da sua mãe Lilith, a primeira mulher de Adão. Segundo a tradição, os succubi não costumam se apaixonar, mas às vezes acontece, como estamos percebendo aqui. Você tem sentido cansaço depois de trepar noite após noite nesses quatro meses?
– Não, eu tenho me sentido é muito bem, melhor do que nunca me senti antes, bem disposto...
– É isso mesmo, é assim que a coisa funciona quando há paixão entre o homem e um desses demônios! – gritou padre Patrick, exaltado, esmurrando o ar. – Precisamos dar um jeito nisso!
Como “dar um jeito nisso”? Eu não tinha pedido a ajuda de ninguém, a minha vida estava perfeita, eu era o queridinho da escola, tinha uma mulher que me amava, experiente, que me ensinava coisas do arco-da-velha, que, compreensiva, tomava a forma dos meus desejos... Por que as pessoas têm que se intrometer na vida dos outros, onde não são chamadas, dizendo-lhes o que é certo ou errado?
– Padre, tem gente aí, querendo falar com o senhor! – veio avisar a irmã Vincenza.
Quando fiquei só na biblioteca, aproveitei para dar uma olhada no tal livro que o padre asseverava ser o vade-mécum dos demônios. Ficaram gravados em minha memória fotográfica os dizeres da folha de rosto: DEMONIALITY OR INCUBI AND SUCCUBI A TREATISE WHERE IS SHOWN THAT THERE ARE IN EXISTENCE ON EARTH RATIONAL CREATURES BESIDES MAN, ENDOWED LIKE HIM WITH A BODY AND A SOUL, THAT ARE BORN AND DIE LIKE HIM, REDEEMED BY OUR LORD JESUS-CHRIST, AND CAPABLE OF RECEIVING SALVATION OR DAMNATION, BY THE REV. FATHER SINISTRARI OF AMENO (17th CENTURY) PUBLISHED FROM THE ORIGINAL LATIN MANUSCRIPT DISCOVERED IN LONDON IN THE YEAR 1872, AND TRANSLATED INTO FRENCH BY ISIDORE LISEUX NOW FIRST TRANSLATED INTO ENGLISH WITH THE LATIN TEXT PARIS ISIDORE LISEUX, 2 RUE BONAPARTE PARIS. Acho que era isso mesmo, se a minha memória fotográfica não estiver me pregando uma peça.
Quando o padre voltou, olhou com desconfiança para a posição em que eu tinha deixado o livro e, em seguida, para mim, com seus olhos azuis que mais pareciam duas bolas de gude dos inferno.
– Você mexeu aqui?
– Não, senhor!
– Você é um baita de um mentiroso! Sabe que se fosse no tempo da Santa Inquisição, você seria queimado vivo? – rosnou.
Achei por bem baixar a cabeça porque o grande filho de uma cadela era bem capaz de me virar do avesso, com outro safanão.
– Conte-me sobre os seios da criatura!
– Eram perfumados, enchiam e refluíam, conforme os movimentos do seu corpo, isso quando ela vinha por cima de mim. Somente quando ela vinha na forma de Jane Birkin, eram pequenos, como são os peitinhos da cantora.
Por um momento, ciumento, achei que padre Patrick estava muito interessado no meu relato, além da conta, fazendo perguntas muito estranhas. Percebi a excitação no ar. Sabe como são esses padres, excitam-se com o pecado dos outros.
– E a xandanga dela é dentada? É mesmo uma caverna de gelo? Não quero saber, não quero saber, deixa isso pra lá! O succubus veio, alguma vez, na forma de vaca ou de égua?
– Não, nunca!
– Ah, bom! Isso quer dizer que você não praticou bestialismo, o que é um pecado muito grave perante os olhos do Senhor. Pelo menos, essa nódoa você não carrega em sua alma transviada, apesar de ter mantido intercurso com o Demônio.
– Com o Demo não, senhor!
– Cale a boca!
– Mas, senhor...
– Quer sentir novamente o peso da mão do servo de Deus? Os santos padres da Igreja – continuou, falando consigo mesmo, ignorando-me – se debruçaram sobre o assunto, gente do quilate de Santo Agostinho e São Tomás. Constataram eles que isso vem desde tempos imemoriais. Já o Livro de Enoch faz menção aos Vigilantes, os quais são anjos transformados em seres de pedra, que vêm a ser hoje as pedras colossais que vemos à beira-mar, por copularem com a fêmea do homem. Há o relato de Santo Agostinho, que diz não duvidar da existência dessas criaturas demoníacas, devido à quantidade de casos contados por pessoas idôneas; e isto está em seu livro “A Cidade de Deus”. O exorcismo seria incapaz de livrá-lo dessa obsessão, meu pequeno apóstata, pois essas criaturas, esses demônios sexuais, são imunes ao exorcismo, posto que não são o Demônio em pessoa, mas frutos da relação entre mulheres e anjos decaídos. Portanto, em suas veias corre sangue humano, o que impossibilita a esconjuração. Talvez ainda haja salvação para você, levando-se em conta que até o papa Silvestre II envolveu-se com um succubus, que lhe deu uma filha, Meridiana... Você está me escutando? – berrou padre Patrick, raivoso.
– Sim, senhor – respondi prontamente, apesar da sonolência mórbida que ia tomando conta de mim, provocada pela fala monótona do irlandês cabeçudo. Que cabeçorra tinha o homem, devia ser a encarnação do gigante Finn! Deve ter rasgado a mãe...
– Lilith, a primeira mulher de Adão não quis se submeter ao marido e foi obrigada pelo Senhor a vagar pela terra, à margem do Éden. E ela deitou-se com os anjos rebeldes, deitou-se com o arcanjo Samael, dando origem a uma raça de incubi e succubi. A palavra succubus significa originalmente “prostituta”... Os filhos dessa maldita conjunção são chamados de “cambions”, crianças de excelente saúde, mas sujeitas a influências sobrenaturais...
Enquanto o padre divagava, gritando, sussurrando, lembrei-me do disco “Electric Ladyland”, do Jimi Hendrix, com aquele monte de mulheres na capa, as putas elétricas, que bem podiam ser succubi. O negão sabia das coisas, talvez por isso o nome da primeira música seja “And the Gods Made Love”.
– O filósofo Diógenes Laércio, com o qual concorda São Jerônimo, um dos doutores da Igreja, diz ter sido Platão, o grande filósofo, fruto do relacionamento de um incubus com uma mulher. Também Alexandre, o Grande, como informam Plutarco e Quinto Cúrcio Rufo. E Cipião Africano, o Velho, era ele, da mesma forma, fruto de um intercurso pecaminoso, segundo Titus Livius Patavinus...
“Eu é que não tô entendendo patavina nenhuma” – pensei. ”Aonde esse padre quer chegar?”
– Além do mago Merlin, nascido da relação de um incubus com uma freira, a filha de Carlos Magno.
– Então, eu estou em boa companhia! – exclamei, num impulso. Eu e minha língua grande! Foi o que bastou para que levasse um pé de ouvido que me deixou todo zoado, os tímpanos zunindo. Agora é que eu não conseguiria entender mais nada.
– Há algum caso na família, um antepassado seu que tenha se deitado com um desses seres?
– O quê? – perguntei, em meio a um zumbido infernal, sentindo o maxilar, a cabeça, tudo dolorido, impaciente, querendo fugir dali, de tudo aquilo que estava me fazendo tanto mal. Nunca tinha apanhado tanto na vida. Mas como calar aquela matraca celta?
– Pergunto isso porque uma maldição desse quilate estende-se até a quarta geração. Se você foi o primeiro da sua família a praticar ato tão ignóbil, muita coisa ainda há de vir por aí, seu degenerado!
– Ahn?
Vendo que eu estava evidentemente fora de eixo, o padre mandou-me para casa, não sem antes avisar que eu deveria colher o mênstruo de uma virgem, o qual seria misturado com as cinzas do coração de um peixe, para fazer um amuleto que me livraria da obsessão. Muito engraçado! Que mulher, em sã consciência, se submeteria a me ceder sangue menstrual? E como eu pediria algo assim a alguém sem levantar suspeita sobre a minha sanidade mental? Aí, sim, eu me tornaria maldito de vez, mal falado para o resto da vida, condenado até a minha décima geração.
À noite, enraivecido, humilhado, a cabeça doendo, o maxilar rangendo, deitei-me. Mal embarcara no sono, ouvi o som característico das asas de Qarina, ruflando majestosa lá fora. Pela janela aberta, ela adentrou a nossa alcova e, aconchegando-se em meu peito, como uma menininha indefesa, sussurrou:
– Esta vai ser a nossa última noite, eles me matarão amanhã.
– Eles quem?
– Não importa, é melhor que você não saiba, meu amado, o meu erro foi me apaixonar... por você. E a paixão é um sentimento proibido para os demônios sexuais, como vocês, humanos, nos chamam. Então, me possua, faça amor comigo pela última vez!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O MISTÉRIO DE SABINE FUHRMAN

Edson Negromonte

Eu era um garimpador de livros,, aliás, ainda sou, mas não com a avidez de anos atrás. Não ia em busca de livros raros, caríssimos, de preços exorbitantes, esses que aguçam a cobiça dos bibliófilos. A minha busca era, pode-se dizer, singela, de valor apenas para mim mesmo, algo muito pessoal, íntimo, algo relacionado com a alma. Assim, tornei-me o provisório possuidor, posto que tudo na terra é de caráter temporário e nada nos pertence, da primeira edição de “O Rei Menos o Reino”, de Augusto de Campos, de 1951, pela Maldoror, que estampa incorretamente na capa “Edições Maldonor”, o que me leva a deduzir que o então jovem poeta ainda não fosse tão criterioso (como deixaria ele passar essa falha terrível justamente na capa do seu livrinho de estreia?); o primoroso “An Emerson Treasury”, em edição de bolso, com capa de couro macio, de pelica, sem data, publicado pela Siegle, Hill & Co., de Londres; de um Affonso Ávila, perdido em meio à poeira de um sebo paulistano, “O Açude e Sonetos da Descoberta”, de junho de 1953, cuja folha de rosto traz a dedicatória manuscrita do autor para o poeta Edgard Braga, outro dos meus eleitos, datada de setembro de 1953, rabiscados os nomes dos dois poetas, na vã tentativa de esconder seus nomes, mas ainda legíveis ou talvez por causa disso mesmo mais legíveis, pois aquilo que tentamos ocultar torna-se mais e mais evidente, aguçando a curiosidade (ao pé da página o endereço: rua Carangola, 225, que vinha a ser o mesmo endereço da revista Vocação; um exemplar esbagaçado, capa e lombada coladas com papel pardo, de “O Duplo Assassínio da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, cujo subtítulo é “Novellas de aventuras estraordinarias e fantásticas” (na folha de rosto, uma divertida advertência dos editores: “Leitura pouco recomendável às pessoas de espírito fraco, meninas hystericas, jovens acephalos, velhos cardíacos, matronas beatas e outras que creem em almas do outro mundo e cousas inverosímeis”). Esta preciosidade de 1925 é da Empresa Editora Rochér, de São Paulo. Deve ser assinalado que o volume ainda contém os contos “A carta roubada”, “O systema do Dr. Breu e do professor Penna”, “O gato preto”, “Colloquio entre Monos e Uma” e “Hop-Frog”.
Em meados dos anos 1980, eu frequentava um sebo no alto do prédio da sinagoga, situado em uma rua paralela à Avenida Paulista, da qual não lembro mais o nome, à procura dos tesouros que aquelas estantes empoeiradas ocultariam. Várias tardes, permaneci ali, no “sebo dos judeus”, como era conhecido, embriagado com os títulos que aquele espaço abrigava: livros em português, inglês, mas a grande maioria em alemão e, mistério dos mistérios, vários e vários volumes em indecifrável e esfíngico iídiche. Que prazer abrir as páginas, acariciar as capas, admirar a encadernação, o cuidado gráfico, as unciais, a sensação táctil dos grandes poetas: Schiller e Rilke e Heine e Christian Morgenstern. As duas velhinhas que ali atendiam, absortas em suas infalíveis toalhinhas de crochê, deixavam-me à vontade para escarafunchar cada desvão perdido daquela sala enorme e comungar com os antigos donos, com a trama dos seus dramas, tanto coletivos quanto domésticos. Em uma dessas ocasiões, deparei com a obra completa de Goethe, em 36 volumes, no alto de uma das estantes. Toda em alemão! Embora eu não soubesse lhufas de alemão, como até hoje não sei (Ariano Suassuna, numa das suas brilhantes tiradas, conta que se tivesse nascido na Alemanha, seria mudo, devido à dificuldade da língua). Isso não foi empecilho para adquiri-la. Saí do sebo, em direção à estação do metrô, arrastando uma mala que as duas senhoras obsequiosamente me emprestaram, a qual continha o cadáver esquartejado em exatas trinta e seis partes do corpo poético e filosófico do grande poeta alemão, o maior entre os maiores. Johann Wolfgang von Goethe. Não estaria ali também o corpo, não o físico, mas o espiritual, o corpo essencial, do antigo proprietário?
A primeira coisa que fiz, ao chegar em casa, à noite, tarde da noite, foi cheirar, tal e qual um psicopata, absorvendo delirante, sensualmente, o odor fresco do sangue da vítima, o corpus espostejado, membro a membro, posta a posta, aliás, tomo a tomo, enquanto enfileirava gozoso a coleção na principal prateleira da sala de estar: viagens, romances, botânica, teatro, a sua muito pessoal teoria das cores... Em seguida, a acariciei como se acaricia uma mulher, a mulher amada, amorosamente, com cuidado, ternura, de leve para não ofendê-la, sem tocar de imediato nos seios, os cabelos, o perfume dos pelos da nuca, os braços, até que ela, então, delicadamente, sussurrante, ciciando, sibilante, peça chorosa que você a possua. Assim são as mulheres, assim são os livros: sem afoitezas que o tempo é invenção e predicado dos verdadeiros amantes.
Enquanto folheava o “Gedichte” (Poesia), aspirando embriagado o odor de papel velho, em tons de amarelo e ocre, os pontos de ferrugem, página a página, voluptuosamente, os caracteres góticos, inadvertidamente o volume abre as pernas, convidativo. As coxas fogosas deixam entrever o seu pequeno segredo clitoridiano, há tempos guardado, resguardado dos olhos do vulgo: o cartão de bonde pertencente a Sabine Fuhrmann; a foto da adolescente grampeada no documento. Seria a minha “garota de Berlim”, como eu a apelidei, a antiga dona dos trinta e seis pedaços do corpus de Goethe? Teria Sabine Fuhrmann trazido a coleção consigo, fugitiva da bestialidade nazista? Ou a teria comprado em alguma importadora aqui no Brasil, e usara como marcador de página o seu cartão de bonde? Em meio a essas divagações, preparei uma dose de uísque, duas pedras de gelo, acendi um cigarro e me pus a sondar, em conjecturas, a foto agora amarelecida, em tons de sépia, quase apagada, da menina de vestido branco.
Assim, Sabine Fuhrmann aparecia-me ora embarcando no bonde para ir à aula, de uniforme escolar, saia pregueada, os cabelos escuros presos num rabo de cavalo, ora embarcando clandestinamente com seus pais num cargueiro rumo à América do Sul, com escala em Buenos Aires, onde muitos dos seus conterrâneos desceram para uma nova vida, distante da guerra. Ela não, para a minha Sabine Fuhrmann, para os pais da garota de Berlim, o destino era, desde a partida, o Brasil, onde se dizia que a comida era abundante, principalmente as frutas de que ela tanto gostava. Aqui, as bananas, que custavam uma pequena fortuna na Europa, não eram artigo de luxo. Aqui, podia-se comprá-las em cacho, aos montes, por uma ninharia, como ela ouvira contar. Munido de óculos, lupa e de um dicionário alemão-português, investiguei o que restava dos caracteres quase apagados do gasto documento, o cartão do bonde, de papel pardo, as bordas vermelhas. Em evidência, o número 24549, o nome de Sabine Fuhrmann escrito à tinta, em letras maiúsculas, e o seu endereço: Spichernstrasse, 17. Ao lado, a idade: 15 anos. Ao pé do cartão, uma foto retangular (estreita, evidentemente recortada de uma foto maior, onde talvez ela não estivesse só, mas com um grupo de outras pessoas. Pais? Irmãos? Amigas?), perfurada com as letras BSt. Qual o significado de BSt? A sigla da companhia de bondes? Berliner Strassenbahn? Talvez, talvez. No verso, em vermelho, o carimbo de validade, borrado, identificando-se somente o ano: 1924. Ou 1929? Então, se viva, segundo as minhas contas, Sabine Fuhrmann teria hoje 95 anos. Ou 100? Com o avanço da medicina, que hoje prolonga a vida dos seres humanos, principalmente a das mulheres, a idades anteriormente inimagináveis, é bem possível que ela, a garota de Berlim, possa estar, neste instante, a rememorar para netos ou bisnetos a viagem de navio que fez da Alemanha ao Brasil.
Foi justamente por ter ouvido a notícia que a professora Simoni Dias defende em livro a teoria de que o líder nazista Adolf Hitler, ao invés de ter cometido suicídio, teria também fugido para o Brasil, estabelecendo-se na cidade de Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso, fronteira com a Bolívia, que saí à procura, entre os meus guardados, do cartão de bonde de Sabine Fuhrmann. Foi aqui, também, que o médico nazista Josef Mengele, o “anjo da morte” de Auschwitz, que fazia experiências genéticas com seres humanos vivos, especialmente anões e gêmeos, morreu afogado na praia de Bertioga, no litoral de São Paulo. Não foi aqui, no Brasil, antes da eclosão da Segunda Grande Guerra, que funcionou o segundo maior partido nazista do mundo? Não foi o presidente Getúlio Vargas que entregou a Adolf Hitler, sem que ele houvesse pedido, como prova de simpatia pela causa nazista, a judia Olga Gutmann Benário, a esposa alemã do líder comunista Luiz Carlos Prestes, para apodrecer em um campo de concentração?
Espere um pouco! Se a Segunda Guerra teve início em 1939, como afirmam os historiadores (eu, particularmente, acredito que a assim chamada Segunda Guerra Mundial é a continuação da Primeira, a qual ainda não acabara realmente), então, Sabine Fuhrmann, ao vir para o Brasil, já tinha pelo menos 20 anos. Ou 25... Ou trinta e poucos. Então, ela bem podia ter aqui chegado, acompanhada pelo marido. Talvez até com filhos. E que o seu cartão do bonde era, para ela, um documento obsoleto, já com outra serventia, a de marcador de página. Depois dessa quase descabida digressão, o que importa é que, para mim, Sabine Fuhrmann terá sempre quinze anos e jamais envelhecerá, assim como Peter Pan queria que tivesse acontecido com Wendy Darling ou Lewis Carroll com Alice Liddell.

domingo, 31 de agosto de 2014

UM PRESENTE DO HAITI

Edson Negromonte

Nunca fui de acreditar nessas coisas de magia negra, mas sempre respeitei todas as religiões e suas idiossincrasias, mesmo o vodu. Sim, o vodu, que apesar de tudo, de todo o falso folclore que essa pequena palavra implica, que o cinema, principalmente o americano, se encarregou de criar e difundir para o mundo inteiro, é também considerado uma religião, oriunda do Haiti. Todo o meu drama começou quando o meu primo Frederico Werner trouxe-me de presente uma boneca vodu, após uma viagem de estudos a este país, comprada em Porto Príncipe, com o meu nome bordado nas costas. Meu primo é antropólogo, vive viajando e pesquisando nas paragens mais insólitas do planeta. A sua última viagem, ao Haiti, levou-o a conhecer vários xamãs, tanto do sexo masculino como feminino, que se diziam capazes de tirar a vida a outros seres humanos por meio da feitiçaria. Brincalhão como sempre, Frederico encomendou a uma autopropalada suma sacerdotisa dessa seita, uma conhecida “mambo”, que tem uma tenda no soberbo Mercado de Ferro, uma boneca com o meu nome. Por que não o dele? Chegou-me, uma noite, com o inusitado presente e, ante a minha cara de espanto e repugnância, desafiou-me, zombeteiro, a deixá-la exposta na estante de livros que fica às minhas costas, em meu escritório, afiançando que nada me aconteceria. Ou melhor, que só me aconteceria algo de ruim se eu acreditasse em maldições. A vontade de mostrar-me corajoso perante meu primo mais velho, o qual sempre zombou do meu respeito pelas coisas do outro mundo, respeito que ele sempre interpretou como medo, levou-me a aceitar o desafio. Ora, pensei, que mal poderia fazer uma bonequinha inanimada? Sou um homem moderno, citadino, e não devo, ou não deveria, me assustar com essas crenças primitivas; o ceticismo deve ser cultivado no dia a dia, nos menores gestos do cotidiano. A dúvida deveria ser um exercício constante para que vivêssemos melhor, sem preocupações inócuas com a metafísica. Nos primeiros dias, ao menor ruído, principalmente de madrugada, o melhor horário para concatenar as ideias que surgem durante o alvoroço da claridade diurna, eu virava-me para trás, para me certificar de que ela, a boneca vodu, ainda estava ali, na estante ás minhas costas, imóvel.
Na adolescência, eu e Frederico costumávamos, na saída dos bailes, ir à procura de despachos nas encruzilhadas da cidade. Na madrugada, com a fome que estávamos, saboreávamos o frango e a farofa preparados, com todo cuidado e higiene, para o santo. Satisfeito o instinto mais básico do ser humano, a fome, arrematávamos a refeição com uma boa talagada de pinga. Às vezes, champanha. Ou melhor, cidra. Geralmente, da marca Cereser. Saíamos os dois, satisfeitos, de peito estufado, cada um com um cigarro no bico, e levando conosco o maço de Hollywood (até hoje não entendi a preferência das entidades femininas por essa marca. Talvez porque supostamente todas as mulheres, mesmo a temível Pombajira, sonhem ser atrizes de cinema). Conforme combinado de antemão, oferecíamos cigarros aos amigos, deixando-os darem algumas tragadas para depois lhes contar, para desespero deles, e para nosso gáudio, de onde os tínhamos surrupiado. Atiravam os cigarros longe, maldiziam, pediam desculpas ao mundo invisível, diante das nossas gargalhadas. Quando o despacho era direcionado para uma entidade masculina, saíamos fumando charutos Suerdieck. Confesso que, se fosse pela minha vontade, deixaria que Frederico tomasse a dianteira no saque à oferenda, mas ele, cinco anos mais velho, achava-se no dever de fazer de mim um homem corajoso, sem temer nem mesmo almas do “outro mundo”, coisa que ele reputava inexistente, artifícios do poder para manter o semelhante à mercê dos desmandos da vontade alheia. Uma tarde, depois do almoço, dormindo de bruços, curtindo a ressaca de uma boa carraspana na noite anterior, ouvi chamarem meu nome. Ao erguer a cabeça para ver quem era, levei uma bofetada que deixou meu maxilar dolorido dias seguidos. Não havia ninguém no quarto. Levantei-me espantado, olhei no espelho do banheiro e lá estava, estampada em minha cara, a marca dos cinco dedos do espírito agressor. Pelo sim, pelo não, instintivamente prometi ao Altíssimo que jamais voltaria a profanar a comida dos santos. Mas a amizade com meu primo permaneceu inabalada, sempre fomos unha e carne, apesar de todas as enrascadas em que ele me colocava.
Sempre acreditei, ou quis acreditar, que não fosse supersticioso, mas eu, que tinha uma saúde de ferro, me vi, de um dia para o outro, desde que fora presenteado com aquela pequena boneca de pano, de cabelo de palha, com o meu nome bordado nas costas, acometido de dores de cabeça as mais atrozes. O bom e idoso médico da família aconselhou-me a não dedicar horas ininterruptas e excessivas ao trabalho intelectual. De início, a contragosto, comecei a ocupar algumas horas da madrugada com a programação da TV ou eventualmente a um sono rebelde, o que não me impediu de continuar acordando com dores de cabeça lancinantes. Sim, literalmente sentia meu cérebro atravessado por lanças haitianas. Encaminhado pelo médico, fiz um eletroencefalograma, o qual constatou que nada havia de anormal em meu cérebro, nenhum aneurisma, nenhuma dilatação de vasos sanguíneos, nada. Segundo o neurologista, minha cabeça estava em ordem. De onde vinham, então, as fortes dores que chegavam a incapacitar a concentração, a incompreensão de um mísero parágrafo das monografias de meus alunos? Orientado por um conhecido, passei a frequentar uma academia. Como sempre achei maçante a ginástica, nem a boa vontade e todo o desvelo da bela e bem fornida treinadora foram suficientes para que eu desse prosseguimento aos maçantes exercícios físicos. Para alguém afeito ao mundo dos livros, esse período passado em uma academia é tempo perdido, desperdiçado. Contra todas as evidências, decidi que como as dores de cabeça surgiram, isto é, do nada, haveriam de cessar de uma hora para outra. Ledo engano, as dores, que eram intermitentes, foram se acentuando cada vez mais, até se tornarem contínuas, isto é, uma única dor, sem que eu pudesse diagnosticar o começo ou o fim, uma única nota musical, grave, surda, como o bater de um tambor que soasse indefinidamente, um mantra dos infernos.
Extenuado, os membros lassos, deitei-me, uma manhã de final de outono, o inverno insinuando-se, no sofá do escritório, em busca de um cochilo reparador, para nunca mais levantar. Vi-me, no mesmo instante, incapaz de um único movimento dos membros, tanto inferiores como superiores, o corpo prostrado. Nem a cabeça eu conseguia mexer. Somente os olhos continuavam em plena atividade, vivazes. Não conseguia-me fazer entender a ninguém, nem mesmo à minha mãe, pródiga em cuidados e carinhos, fazendo tudo de que era capaz, alimentando-me, dando-me de beber, atendendo as minhas necessidades fisiológicas: urinar e defecar. Pequena e magra, a pobre mulher trocava minha roupa de cama, movimentando-me com muito sacrifício de lá para cá, de cá para lá. Insatisfeita com o parecer de um, chamou outros médicos, os quais davam os diagnósticos mais disparatados, apesar de meus olhos expressarem inutilmente o terror que eu lhes queria comunicar. Ou o horror que por eles, os médicos, sempre tive. Tempo chegará em que a medicina terá de aceitar que também se adoece da alma, sob a pena de cair no mais completo descrédito. Mas antes a medicina terá de admitir a existência desse corpo sutil, a alma. Enquanto isso não acontecer, cada vez mais os homens, principalmente nas grandes cidades, sucumbirão a doenças ainda inominadas, às quais dão hoje o nome genérico de câncer. Para a medicina atual, tudo é câncer. Jamais passou pela cabeça de minha mãe, evangélica fervorosa, chamar um curandeiro ou coisa que o valha. Ela trouxe, certo dia, um pastor que se dizia entendido em possessões, mas de nada adiantaram seus malabarismos, suas imprecações, a vociferação ao demônio que ele assegurava ter tomado posse do meu corpo. Outro pastor, de mais alta graduação, mais experiente em exorcismos, foi trazido pelo primeiro. Juntos, empolgados com suas próprias pragas, exaltados, acabaram jogando-me ao chão, onde permaneci, sem um único movimento, incapaz de um gemido sequer. Somente meus olhos atônitos eram capazes de emitir sinais de vida; os pastores entenderam isso como mais uma das artimanhas de Satã. Vendo-se incapazes de expulsar o mal de mim, chegaram à conclusão os impostores de que o Senhor das Trevas já era dono da minha alma, assegurando à minha mãe que era somente uma questão de tempo a minha partida definitiva para o fogo eterno.
No ponto do escritório onde estava situado o sofá no qual meu corpo jazia, eu podia ver, de frente para mim, a boneca. Mesmo fechando os olhos, a sua imagem terrível permanecia nítida em minhas retinas. E mesmo durante os poucos minutos de sono agitado que o meu estado nervoso permitia. Com o tempo, os nervos em frangalhos, nem mais ao pesadelo pude recorrer. E como eu ansiava por essa égua da noite que me tirasse, por míseros instantes, daquele ambiente agora opressivo, onde passara as horas mais agradáveis de minha vida, em meio aos meus autores favoritos, e agora ameaçador, acachapante, e o toque contínuo, incessante, do maldito tambor que eu tinha certeza ser proveniente de um ritual vodu, realizado diuturnamente dentro da minha cabeça, do meu cérebro, dentro da minha alma. Cheguei a me apiedar de mim mesmo. Tive, então, a certeza funesta de que estava secando a partir do âmago do meu ser: eu fora amaldiçoado. Eu me transformara, eu era o Haiti! Eu era toda a dor do povo haitiano! Eu era o próprio vodu!
Meu primo não deixou de visitar-me, veio todos os dias, no último mês, enquanto esteve na cidade. Ultimamente, não tem aparecido, está viajando. Pobre Frederico! Tenho certeza que se não fosse tão descrente, teria me auxiliado, teria dado um fim na boneca maldita. Meus olhos esgazeados só o tornavam mais irritado por não saber lê-los, por não poder compreendê-los, fazendo que abandonasse o recinto, apressado, praguejando, impotente. Ele sabia que eu queria lhe comunicar algo. Como todas as pessoas que se enfronham excessivamente na letra impressa, nas runas, hieróglifos, ideogramas, mas esquecem-se do convívio humano, ele percebia que eu queria lhe dizer algo na ineloquência insana dos meus olhares perturbados. Não sei se eu me compreenderia, se estivesse em seu lugar. Provavelmente, não.
As noites eram dolorosamente medonhas, sem a azáfama diurna das gentes, o ruído dos automóveis que adentravam a janela do escritório. Em vez de me irritar como antigamente acontecia, essa agitação sem quê nem porquê da humanidade, trazia-me algum lenitivo, distraía-me por alguns preciosos segundos para mergulhar-me, logo em seguida, no som surdo e contínuo do tambor vodu, senhor absoluto, mais poderoso que tudo, exigindo minha atenção. Bastava-me fechar os olhos no intuito de fugir da imagem da boneca, olhando-me fixamente nos olhos (a cada leve suspiro que se esvaía do meu peito, ela consequentemente se revigorava), cenas nunca antes por mim vividas, de rituais macabros, tomavam existência real dentro de meu cérebro, de minha memória, uma fantástica memória diacrônica da qual jamais suspeitara. Eram invocações e rezas e chamamentos em uma língua parecida com o francês, um francês arrevezado. E uma palavra ecoava insistentemente nas paredes do meu crânio, nitidamente as vozes gritavam “Hounto! Hounto!” Em meio a tudo, havia a plena consciência de que um diabo, ou que vários deles drenavam, aos poucos, as minhas forças. E que eu nada podia fazer para impedi-los.
Foi num final de semana, talvez um sábado, ou domingo, em meio ao inverno, que a mulher de meu primo veio, a seu pedido, saber como eu estava passando. Trouxe com ela as crianças, um menino e uma menina, desculpando-se com a minha mãe por não ter com quem deixá-las, assegurando que a visita seria rápida, que viera somente por insistência de Frederico. Ela não podia ver-me sem chorar, prostrado no sofá, sem reação alguma. Minha mãe, pensando que suas lágrimas só serviriam para piorar ainda mais a minha situação, chamou-a para tomar um café na cozinha. Nesta ocasião, esqueceram-se de levar com elas as crianças, que vendo-me inerme, sem poder lhes chamar a atenção para que não mexessem em nada (sempre fui, desde menino, muito cioso da ordem dos meus pertences), sentiram-se livres para especular todo o escritório. Os dois diabretes mexiam em tudo aquilo que lhes era proibido, como o trenzinho à pilha, da Estrela, que eu ganhara do meu pai, quando fiz três anos. Brincaram livremente com o que lhes chamava a atenção, até seus olhos darem com a boneca vodu no alto da estante. Na impossibilidade de alcançá-la, subiram em uma cadeira e a derrubaram com o auxílio da minha bengala. Logo, os dois se desentenderam a respeito da boneca e começaram a puxá-la, cada um para um lado. Acabaram arrancando a cabeça do restante do corpo, o que fez a menina desatar em um choro desesperado, histérico. Neste exato momento, senti um alívio imediato em meu cérebro, uma claridade, um frescor como há muito não sentia. Seu irmão, com a maldade inerente aos meninos, atirou, com um sorriso maldoso, escarninho, o corpo da boneca nas chamas da lareira. Imediatamente, meu corpo começou a incendiar, labaredas de um fogo azulado que vinha das minhas entranhas. A esposa de meu primo e minha mãe chegaram correndo, atraídas pelo choro incessante da menina, um uivo desesperado e desesperador. Diante da cena, as duas mulheres agarraram as crianças e saíram rapidamente da casa, deixando-me a arder, a me consumir de dentro para fora, solitário, entregue a mim mesmo e à misericórdia divina, à minha própria impossibilidade e às chamas libertadoras.
Quando os bombeiros chegaram já era tarde, graças a Deus. Nunca um atraso foi tão bem recebido. Estranhamente o fogo não se alastrara, consumindo apenas parte do sofá, além de mim mesmo, deixando no ambiente um odor adocicado. Minha cabeça, deslocada do corpo, permanecera intacta. Tornei-me, assim, para os estudiosos, mais um caso de combustão espontânea; quase todos os meus ossos estavam carbonizados. A ciência ainda busca explicações plausíveis para este fenômeno, pois, sabe-se que, mesmo nos crematórios, sob a ação de altíssima temperatura, 1300°C, durante 12 horas, somente a carne dos corpos é queimada, tendo os ossos que ser posteriormente triturados. Afirmam ainda os médicos legistas que as feridas inflamadas das minhas costas teriam provocado um derramamento de gordura subcutânea, a qual em contato com o oxigênio e o calor da lareira causou a combustão dita espontânea de meu corpo. Chamam a esse fenômeno de “efeito pavio”. Sugerem ainda que o incêndio que me consumiu ocorreu quando o gás metano, resultante da decomposição dos vegetais no intestino, entrou em ignição, estimulado pelas enzimas. E como explicarão, então, a cabeça separada do corpo, intacta? O que restou do meu invólucro terreno, a cabeça e a perna esquerda, pertence hoje ao Instituto Jonas Dupont, à disposição de cientistas e interessados na paranormalidade.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

AS MAIS DOCES MEMÓRIAS DE WATCH



Edson Negromonte

Sou conhecido como Watch, embora não seja este o meu verdadeiro nome, mas foi assim, com esta alcunha, que passei à história. Devido à idade avançada, só então resolvi dar a público um pouco do que conheço sobre o poeta Walt Whitman, com quem convivi durante sete anos. Não direi sobre a sua arte poética, deixo-a aos exegetas, os quais se sairão bem melhor do que eu. Quero contar do homem, melhor, do amigo Walt. Thomas Donaldson, um grande amigo, sempre o tratou respeitosamente por Sr. Whitman, embora este o tratasse por Tom. Eu não, sempre o chamei de Walt; nossa amizade era tão verdadeira que abria mão dessas formalidades, apesar da diferença de idades. Era um boa-praça o velho, tratava-me de igual para igual, havia uma camaradagem entre nós. Falava comigo como se fala a um companheiro, sem fazer diferença. Afinal, não somos todos iguais perante o Criador, para quem não há hierarquias no plano da criação?
Durante sete anos, os últimos sete anos da sua vida, fomos felizes juntos. Cheguei à casa da Mickle Street, de mudança, acompanhado de Mary. Era muita tralha para uma casa tão pequena. Para mim, na minha pouca idade, tudo parecia muito grande. Hoje, não consigo entender como Mary conseguiu acomodar toda a mobília e os seus pertences pessoais, principalmente a coleção de gravuras; nada como um toque feminino para dar vida às coisas. E, ah, como aquela casa precisava da presença de uma mulher! Tudo se transformou com a chegada de Mary. Além de todo o cacareco, ela trazia ainda na bagagem várias gaiolas com passarinhos, entre eles, um canário que cantava maravilhosamente bem, um trinado muito doce, e um, argh!, gato que imediatamente, nem bem chegou, aninhou-se no colo de Walt. (Não sei dizer porquê, mas detesto gatos. Essa minha ojeriza talvez seja fruto da superstição, mas, independente disso, dava gosto ver o grande inaugurador da poesia americana brincando com o felino, balançando para lá e para cá um barbantinho com uma bola de papel amarrada na ponta). Além disso, Mary trouxe ainda algumas galinhas poedeiras. E, pasmem, um papagaio empalhado! Para que serve um papagaio empalhado? Como enfeite, é de supremo mau gosto. Aquelas penas já desbotadas serviam somente como depósito de poeira. O papagaio era herança do Capitão Fritzinger, seu antigo patrão. De todos os objetos, o que mais agradou a Walt foi a miniatura de um veleiro, cuja delicadeza e beleza não se cansava de louvar.
Para melhor compreensão, devo acrescentar que a minha amizade com Walt é anterior à nossa mudança para a sua casa. Vem do tempo em que ele mendigava pelas ruas de Camden, envolto em trapos, as galochas desbeiçadas. Dava pena olhar o velho homem enfrentar a chuva gelada. Eu, do meu refúgio aconchegante, ficava consternado ao vê-lo passar. Até que, numa noite enregelante, de arder nos ossos, ele bateu à nossa porta, em busca de um prato de sopa, levado pelo cheiro bom que vazava para a rua. Como você deve saber, o olfato fica mais aguçado no tempo frio. Desse dia em diante, ele tornou-se um visitante contumaz. Mary nunca deixou de lhe oferecer um prato de comida ou um café quentinho, o qual ele aceitava de bom grado, até que acabou convencendo-a, quando a sua situação melhorou, a ir com ele morar, na condição de governanta. Antes, eu adorava andar à toa pelas ruas de Camden, mas, depois da mudança para a Mickle Street, não desgrudei mais de Walt. Ele era carinhoso e compreensivo comigo. Não que Mary não fosse bondosa comigo, mas é compreensível a minha necessidade da figura masculina. Assim, apeguei-me a ele, como um menino se apega ao pai. Apesar de nunca ter me faltado nada, eu ficava de olho grande no café de Walt, principalmente nas torradas. Percebendo isso, ele era muito sensível, passou a dividi-las comigo. Uma das suas iguarias favoritas, as ostras, eu nunca consegui apreciar; aquilo enrolava na minha boca e eu era obrigado a cuspi-la.
As visitas à casa eram frequentes. E silencioso, quieto, sempre calado, mas atento, eu muito aprendi sobre a vida ouvindo a conversa de homens sábios, como o atencioso Tom. Um dos visitantes mais cativantes, a meu ver, foi o jovem Abraham, que ficaria famoso, anos mais tarde, como Bram Stoker, o festejado autor do romance “Drácula”. Que delicadeza de modos! Walt também ficou encantado com ele, conforme eu o ouvi dizer ao Tom. A cada frase dita por Abraham, os olhos de Walt brilhavam. Eram mesmo muito espirituosas, podendo-se dizer formidáveis, de aguda perspicácia. Quanto conhecimento eu adquiri sobre a alma humana só de ouvir a conversa entre esses homens inteligentes. Às vezes, eu dava um aparte, emitia a minha opinião, um breve comentário. Eles viravam-se, então, para mim e sorriam. Nessas ocasiões, Walt fazia-me sempre um afago paternal na cabeça, orgulhoso. Sobre o brilho dos olhos de Walt, seria necessário um capítulo à parte ou mesmo um livro. Sem exagero, aquele par de olhos azuis irradiava tanta energia, eram tão eloquentes que o seu dono não precisava falar para ser compreendido; eram o oceano no qual eu me perdia para me reencontrar. Precisava ver o brilho dos seus olhos quando os amigos o presentearam com uma bela charrete, atrelada a um pônei, pareciam os olhos de uma criança diante do tão almejado presente de Natal. Perdão se soo piegas aos seus ouvidos empedernidos, é que a idade avançada e as boas lembranças do meu velho amigo, a quem tanto devo, dão-me esse direito. Seus olhos luziam com a chegada da correspondência, mas principalmente com as cartas de um poeta inglês de sobrenme Tennyson, a quem tinha muita consideração.
Enquanto os adultos o temiam, talvez pelo caráter libertário dos seus versos, talvez pelo magnetismo da sua personalidade, as crianças o amavam. E ele a elas. Uma das suas brincadeiras favoritas era rolar algumas moedas de pouco valor, do alto da janela do segundo andar, deixando-as cair na calçada, enquanto as crianças brincavam na rua, encarapitadas nas portas do porão. Quanta satisfação em seus olhos, que sorriso peralta diante dos gritinhos de surpresa dos meninos. Por aí, pode-se ver que o dinheiro não tinha para ele nenhuma importância, desmentindo que fosse um velho sovina. Que alegria ao ver as crianças voltando com as mãos cheias de balas e doces! Sobre o medo que os adultos dele sentiam, há uma história muito interessante, um boato que até hoje perdura, inspirada no conto “João e o Pé de Feijão”, de que um dos vizinhos entrara sorrateiro, sem que ninguém o visse, na casa de Walt e, lá, encontrara um gigante devorador de homens, explicando porque as pessoas entravam e jamais saíam daquela casa. Diziam ainda que Mary cozinhava as sobras para dá-las ao cachorro. Argh, que imaginação fértil, assaz mórbida!
Todos os biógrafos insistem em dizer que a casa de Walt era exígua, muito pobre, a menor e a mais feia do quarteirão. Para mim, assemelhava-se a uma mansão. Havia, inclusive, no lado esquerdo, um portão providencial, fácil de abrir, bastava um empurrão, que dava acesso ao beco. Quando se chega à adolescência, a gente precisa dar umas escapadelas noturnas, você sabe, namorar. Mas grande parte dos dias, nesses adóraveis sete anos de convivência com Walt, eu passei em casa.compartilhando nas noites geladas o fogo da lareira que havia no seu quarto, junto a qual ele também gostava de sentar. Interessante que os ruídos que a todos incomodavam, inclusive a mim, como as manobras dos trens de carga (a estação ferroviária ficava a uma quadra da casa), o coral desafinado de uma igreja muito próxima, as badaladas estridentes do sino, tinha eu os ouvidos bem sensíveis, o entrechocar-se das composições, não incomodavam Walt, à sua sensibilidade. Pelo contrário, pareciam parte intrínseca da sua inspiração. Dizia não compreender aqueles que necessitam se isolar em torres de marfim, enquanto ele, por sua vez, necessitava dos espaços abertos. No início, foi difícil me acostumar ao barulho dos trens, principalmente à noite, às manobras, o choque contra os vagões, o engate. Havia ainda o odor fétido, insuportável, de uma fábrica de guano que despejava os detritos no Delaware. Esse cheiro acre tornou-se terrível, nauseabundo, no verão terrível de 1887. Mas nada disso parecia afetar Walt. A única coisa que realmente o incomodava eram as mulheres da vizinhança varrendo, espalhando a água da sarjeta depois da chuva. Isso o irritava sobremaneira pelo perigo das doenças, principalmente a malária. Lembro-me nitidamente, como se fosse hoje, passados tantos anos, de Walt gritando da janela para que elas parassem com aquilo. Pensa que paravam? Continuavam com a varrição. Assim como eu, o bardo americano tinha horror a vassouras. A única vez que vi Walt realmente zangado foi quando Mary, certa ocasião, aproveitando-se da sua ausência (ele fora passar uma semana na casa de amigos), achou por bem arrumar, dar um jeito, na bagunça que era o quarto do poeta. Para ele, cada pedacinho de papel tinha um valor especial, mesmo os amassados na lixeira, os quais reabilitava em busca de um verso anteriormente descartado.
Um dos seus passeios favoritos era a travessia do Delaware, em direção à Filadélfia, assim como eu, que gostava de acompanhá-lo. Ao chegar do outro lado, ele se despedia de mim, mandando-me voltar direito para casa. Ah, se a sempre tão preocupada Mary o visse empoleirado, feito um adolescente, na amurada da balsa, apesar da crescente paralisia, sentindo o vento na cara... Era uma visão emocionante! Os passeios de Walt davam-me uma espécie de ausência... Ora, para que falsear, causavam-me uma grande ausência. Sem ele ao meu lado, era como se faltasse a melhor metade de mim mesmo. Apesar de gostar muito do burburinho da cidade grande, com a idade ele foi se afeiçoando cada vez mais à vida no campo, chegando a cogitar uma mudança para Timber Creek. Contou-me, certa vez, com tanto encantamento sobre Timber Creek que até eu me senti tentado a mudar para lá. Quando Walt se ausentava, eu voltava a dormir no divã da sala. À sua volta, quanta alegria! Ele gostava muito de Mary, isso era patente em seus olhos todas as vezes que Walt voltava para casa, vindo de uma das demoradas visitas a amigos; seus olhos sorriam ao vê-la de novo. Com Mary, ele sentia-se protegido. Nos dias de sol, quando estava disposto, amparado por Mary, sob os meus cuidados também, ele sentava-se em uma cadeira na calçada, com um dos pés apoiado, encaixado no tronco do sombreiro que ficava em frente à casa. Era um sombreiro muito velho, venerável, que chegava a ultrapassar o sobrado em que morávamos. Uma das curiosidades sobre Walt era o seu estranho hábito do banho diário. Devo aqui confessar que até hoje, apesar da idade avançada e da consequente sabedoria, me repugna a simples ideia de tomar banho todos os dias. Acho que amolece o caráter. Walt adorava ficar imerso na tina de água quente até começar a esfriar. Nos últimos anos, acabou adquirindo uma bela banheira, na qual nunca me atrevi a entrar. Ele nunca me convidou, eu nunca fiz questão.
Quando a popularidade de Walt cresceu, a afluência de pessoas à casa tornou-se maior, atrapalhando a vida doméstica. Mary então se perguntava onde estavam todos esses amigos e admiradores no tempo das vacas magras, quando Walt, já doente, devido aos esforços da Guerra, socorrendo os enfermos, se arrastava pelas ruas de Camden, mendigando um mísero prato de comida para aplacar a fome que lhe corroía as entranhas. Walt tratava muito bem a todos, mas algumas vezes recusava-se a recebê-los, principalmente quando estava envolto com a construção de um poema ou, melhor, fundando a autêntica poesia americana. Rasgar notícias de jornal, recortar matérias de revistas, ilustrações que lhe chamavam a atenção, aparentes ninharias, este era o método poético de Walt, um deles, aliás, nada era para ele maior ou menor, ou desprovido de interesse. Mesmo uma simples aranha, tecendo tranquilamente a sua teia no canto do teto, era para ele motivo de admiração, de embruxamento. Ainda sobre a rotina doméstica, digo, sobre a quebra dessa deliciosa rotina, foi a chegada de um escultor e um pintor. Os dois com pretensões de imortalizar Walt Whitman. Foi um reboliço, Mary de cabelo em pé, assustada com tudo isso, os dois, um implicando com o outro, em busca da melhor luz... até que, um dia, foram finalmente embora. Não que eu não gostasse de Morse e Gilchrist, mas eles me roubavam a atenção de Walt.
Walt era mesmo genial! E olhe que a pouquíssimos seres humanos eu aplico este epíteto tão banalizado nos dias que correm: é genial pra lá, genial pra cá, enfim, tudo tornou-se genial e, na realidade, nada mais é genial. O Dr. Bucke um médico canadense, muito amigo de Walt, um dos seus testamenteiros, chegou a estudá-lo como um tipo de mente superior, dedicando-lhe pelo menos dois volumes. Ele chamou a isso de “consciência cósmica” ou “consciência crística”, embora até hoje eu não compreenda muito bem, em toda amplitude, o significado disso tudo, mas confio na competência do Dr. Bucke. Se Walt o tinha em boa conta, eu também. Todas as vezes que Walt precisou, o Dr. Bucke veio em seu auxílio, visitando-o várias vezes durante a longa enfermidade que se abateu sobre o poeta, do verão de 1888 à primavera de 1892. A desgraça teve início quando, logo depois do seu aniversário, fomos, eu e ele, até a beira do rio contemplar o por do sol no Delaware, o seu amado Delaware. Embevecidos com tamanho espetáculo, nos esquecemos da hora (como se Walt se preocupasse com essas coisas), a noite chegou e, com ela, o sereno e a friagem, terríveis para alguém de saúde tão fragilizada como Walt. Voltamos para casa no avançado da noite, já sentindo os sintomas de um resfriado maligno, o qual o levou a um estado de coma. Durante dias, eu, Mary e Tom ficamos ao lado do seu leito, ansiosos, até que ele foi se recuperando aos poucos, mas a sua saúde nunca mais foi a mesma. Este foi o último passeio de Walt.
O seu último aniversário, de 72 anos, foi uma festança, uma comemoração à altura, móveis sendo arrastados para os cantos, as portas dos salões contíguos sendo despregadas para acomodar todos os convidados, uma azáfama sem igual. Tudo transcorreu de acordo, a não ser quando um chato, de voz empostada, altissonante, pomposa, resolveu recitar um poema de Walt (você sabe como são os puxa-sacos), o belíssimo “O Captain! My Captain!'. Aquela falta de sensibilidade foi me dando nos nervos, esquentando os tímpanos, que quando dei por mim eu já o estava arremedando. Mandaram que me calasse, fizeram “pssit”, mas levei a molecagem até o final e só então me retirei do salão, vingado. Ainda vejo o sorriso condescendente de Walt.
Infelizmente, a morte chega a todos, até aos gigantes. Desculpe, mas quando se trata de Walt, não tenho meio-termo. Lembro-me como se fosse hoje do final da tarde do dia 26 de março de 1892, um sábado, quando o meu fiel companheiro partiu para os eternos campos de caça. Além de mim e Mary, estavam presentes o seu enfermeiro Warry o único que conseguia fazê-lo sorrir nos últimos dias, os amigos Harned e Horace, e o Dr. Alex. Tom chegou logo depois. No dia seguinte, eu acompanhei o cortejo fúnebre até o cemitério de Harleigh, ora ao lado de Mary, ora à frente do caixão. Quando todos já tinham deixado Walt descansar em paz, seu corpo cansado, a vasilha da vida, entregue de novo à sorte da terra, somente eu, Watch, estava ali no seu túmulo, como o guardião da sua alma. Mas a noite chegou e achei melhor voltar para casa. Não por medo de alma penada, mas que Mary estivesse preocupada com a minha demora. Longe de mim essa ideia de medo dos mortos mas há de se respeitá-los para que nos respeitem e não se imiscuam em nossas vidas.
Talvez por nostalgia, o andar errático levou-me de volta ao número 328 da Mickel Street, à velha morada. Você precisava ver, Walt, no que transformaram a sua casa, o seu, o nosso lar. A agradável casa virou uma pensão barata, um pardieiro. O proprietário é um italiano grosseirão, um bronco, de nome Thomas, que sequer sabe quem foi Wat Whitman, e que me enxotou dali como se eu fosse um cachorro sarnento. Dependendo de mim, a nossa velha casa seria transformada em uma fundação, um local de cultivo à sua memória, à memória do ser maravilhoso que você foi, algo assim como a Walt Whitman House. Já pensou? Você chegou, um dia, a imaginar em algo assim?
Aos curiosos que, por ventura, queiram saber a minha aparência física, há pelo menos duas fotografias dessa época. Uma, em frente à casa da Mickle Street, na qual também estão Mary e Tom, de pé nos degraus. E outra, datada de 1891, em que estou conversando com Mary sobre a saúde de Walt, enquanto ela cerze uma das suas camisas, sentada em uma cadeira de balanço. Mas, devo dizer, nenhuma dessas fotos faz justiça à minha beleza; meus antepassados vieram do sul da Europa, da Dalmácia, talvez da Iugoslávia. Parafraseando o meu amado Walt, encerro essas memórias: quem põe os olhos neste relato, não os põe num relato, mas num cão, o cão de Walt Whitman.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A ESCUNA MALDITA


Edson Negromonte

Esta, para dizer o mínimo, curiosa carta, encontrada entre os pertences do meu tio-avô, o Sr. Hipólito Leal Gomes de Almeida, o último Barão de Guaraqueçaba, pode vir a ser um documento esclarecedor sobre um crime ocorrido há mais de quarenta anos e, até hoje, ainda não esclarecido no município vizinho de Antonina, se estudada sob a luz da compreensão filosófica da alteridade, penso eu. Por isso, e somente por isso, é aqui dada a lume:

“Arquipélago dos Atobás, Ilha Menor, 27 de novembro de 2007.
“Caro Leal, após tanto tempo sem dar notícia, perdoe-me se o deixei preocupado. Aceite minhas desculpas, pois não quis ofendê-lo com meu silêncio, sendo você o único amigo que me restou depois de tudo o que aconteceu. Esta carta é muito mais um desabafo que qualquer outra coisa, já que ultimamente venho sentindo a proximidade da morte, essa mãe amorosa que jamais esquece seus filhos, mesmo os ingratos, e que, mais cedo ou mais tarde, vem resgatá-los do mar proceloso da ignorância e infortúnios no qual a espécie humana se debate e chafurda desde o nascimento. Como não pretendo seguir para o ansiado e silencioso esquecimento do último lar acompanhado do segredo que há tanto me atormenta, o designei como o fiel depositário de minha mazela. Dou-lhe o direito de duvidar do que vai ler, jamais o de fazer pouco caso; compreendo que seja um relato assaz fantástico, mas jamais fantasista. Eis, pois, a razão por que me calei durante tanto tempo, sempre fechando-me em copas todas as vezes em que as nossas conversas resvalavam no assunto.
Você lembra com certeza de quando aquela escuna malldita amanheceu atracada em nosso pequeno porto, no ano de 1977. No primeiro dia de maio, para ser mais exato. Sintomático que fosse a madrugada de 30 de abril, véspera da noite consagrada à Santa Valburga, além do mais, o sábado de um ano bissexto. Sem tripulantes, a escuna estava vazia, deserta, sem carga nenhuma. Lembro-me muito bem da comoção dos moradores da nossa decadente aldeia. Imediatamente começaram a surgir suposições sobre a chacina de toda a tripulação por amotinados, que depois teriam fugido, como ocorrera alguns meses antes com o navio pesqueiro Chin-Kai 2, de bandeira chinesa, encalhado na ilha do Superagui. Outros, os ditos supersticiosos, asseguravam ter visto figuras fantasmais andando pelas ruas. Isso é impossível. Se, durante a noite, alguém tivesse transitado por essas ruelas, eu, com certeza, teria notado, ou melhor, percebido. Devido a um distúrbio do sono, surgido na adolescência, tornei-me um noctâmbulo, perambulando pelos becos a noite toda. Devido a tal distúrbio, desenvolvi uma acuidade perceptiva exacerbada que não permitia que um gato sorrateiro passasse incólume sem que meus ouvidos registrassem este fato aparentemente desprezível para o comum dos mortais, mas que, para mim, não passaria desapercebido em meio à solidão noturna a que me vi, desde então, condenado. Prestes a romper a aurora, voltei a me refugiar em casa, nos livros, o meu lar seguro. Não que eu não pudesse com a luz do dia, longe de mim querer jogar mais sombra sobre a minha personalidade já tão estranhamente ensombrecida. A leitura era, sempre foi, para mim, um paliativo à maldade humana que, ignorante das nuances da personalidade, insiste em excluir os diferentes do convívio social, como uma ameaça; sei que sou somente mais um dos que não se conformam à normalidade. Apesar da segregação surda, nunca ninguém me disse explicitamente que eu não podia fazer parte de algum círculo, mas pelo apelido que me deram, o Velador, é nítida a relação de medo que meus concidadãos tinham comigo. Digo medo porque aquele que é diferente das pessoas comuns gera este sentimento aniquilador, levando muitas vezes à intolerância e ao ódio, como ocorreu em relação aos místicos medievais, queimados nas fogueiras santas. Independente do medo, pelo apelido de Velador é perceptível alguma compreensão, apesar da aparente ignorância à qual estão submetidos, do meu papel em suas vidas, na vida da cidade: o de velar, zelar pela tranquilidade do seu sono, com toda a ambiguidade da palavra “velar”. Além de manter a luz, “velar” também significa ocultar. Você deve estar se perguntando como, com tamanha sensibilidade auditiva, eu não percebi a movimentação no porto, no velho cais de madeira, o qual range a qualquer movimento mais brusco da maré. Não saberia dizer, embora venha-me à mente agora, enquanto escrevo este relato, a nitidez do silêncio daquela sinistra madrugada.
Pela manhã, em meio à multidão de curiosos, eu observava a escuna; pintada totalmente de preto, três mastros e, na proa, em vermelho, a inscrição BAPHA. Meu interesse aleatório por línguas indo--europeias valeu-me então. Sem dúvida, eram caracteres cirílicos Pronuncia-se Varna o nome do barco! Esta palavra soou-me levemente familiar, embora, naquele momento, não conseguisse ter acesso ao escaninho da mente onde ela se alojara. Recorrendo a uma enciclopédia, na biblioteca municipal, encontrei o verbete correspondente: uma cidade turística, aprazível balneário na Bulgária. Somente isso, o que, por certo, não me foi de grande ajuda. Decepcionado (como é da minha índole, eu sempre espero uma revelação), tomei o rumo de casa. Ao chegar, deixei-me cair na poltrona; alguns poucos minutos de sono, durante o dia, eram, e ainda são, suficientes para recompor mental e fisicamente o meu organismo cansado das deambulações notunas. As decepções sempre tiveram o poder de me prostrar. Muitas vezes, durante dias, principalmente quando as decepções vêm acompanhadas de uma interrogação, de uma resposta não obtida. Principalmente as respostas intelectuais. Daí, repentinamente, do nada (eu bem sei que não pode ser do nada, pois essa insignificância ardentemente desejada pelos homens insiste em não existir), em repouso, vem, num lampejo, a resposta. Categórica, certeira, iluminadora, com a qual não há discussão, oriunda dos registros cósmicos nos quais tudo, absolutamente tudo, todas as ações do homem, fica assinalado. Os orientais chamam a isso “registros acásicos”. Não é fácil o acesso a esse manancial do conhecimento de todas as eras, somente quando se tem real necessidade. Eu mesmo, quando estudante devotado dos aspectos místicos da vida, não tinha acesso a eles quando bem entendia. Sei que existem, conforme comprovei nas ocasiões em que tive real necessidade, principalmente quando o apelo não era egoístico. Afundado na poltrona, próximo da sonolência, veio-me à mente a palavra “Drácula”. Sem muita convicção, me dirigi à estante, tomei nas mãos o clássico de Bram Stoker, abrindo-o exatamente no capítulo VII. E, como se tivesse um olho na ponta do dedo indicador, lá estava a palavra! Varna, sim, Varna, o porto de onde partira o conde malévolo em direção a Whitby, na Inglaterra. Mera coincidência, diriam os céticos. Devo confessar que eu também, a princípio, tive o mesmo pensamento.
Com o tempo, a população acostumou-se com a negra e perniciosa presença da escuna, com os meninos, indiferentes a tudo, fazendo-a de trampolim para as suas brincadeiras nas águas turvas da baía. Nem quando grande parte da população foi atacada pela meningite, as autoridades médicas ou os supersticiosos foram capazes de associá-la à escuna maldita. A maldição é a nossa sina desde o princípio; vivíamos sob a condenação da capela erguida pelo fundador da vila sobre um cemitério sambaquita, local respeitado até pelos índios guaranis, os quais foram os responsáveis pelo extermínio do povo do sambaqui. Será que não percebiam o odor acre de urina de rato, muito embora não se percebesse visivelmente a presença dessas criaturas nojentas, espalhando-se pela cidade, a partir da embarcação? O cheiro de terra molhada, apodrecida... Seria exagero dizer “a terra pútrida da Transilvânia”, como ouvíamos nos filmes da Hammer, no Cine Ópera? Era como se a população vivesse em um estado alterado de percepção. De que as pessoas tinham medo? Que os seus piores temores tivessem fundamento? Certo dia, sem que ninguém notasse, arranhei a pintura do casco da nau pressaga com a ponta da chave. No dia seguinte, confirmou-se a minha suspeita: a escuna refazia-se à noite de qualquer avaria. Não havia em seu casco qualquer risco; erguia-se imponente, desafiadora. Será que só eu, o Velador, compreendia a ameaça imanente? Como alertar a população sem que me tomassem por lunático? Aliás, mais lunático ainda. No íntimo, acredito que as pessoas são capazes de pagar um preço alto, muito alto, por permanecerem na ignorância confortadora. Basta-lhes dizer “Deus quis assim” ou “Deus deu, Deus leva”. É fácil culpar um ser superior pelas nossas desgraças, muito fácil nos eximirmos da responsabilidade quando nos fazemos de joguete nas mãos implacáveis do Grande Titereiro, movendo-nos para lá e para cá, ao seu bel-prazer. Desculpe-me, mas não posso crer em um Deus caprichoso. Veja bem, não estou blasfemando, é somente que a minha concepção da divindade é muito diferente. E não se dê ao trabalho de querer saber, meu amigo, qual é o meu Deus; a minha concepção é única e exclusiva, somente a mim serve, somente a mim diz respeito, mas, tenha certeza, você não gostaria de conhecê-la; revoltá-lo-ia.
Admito que o vampiro de Stoker martelou o meu cérebro durante dias. Para mim, não há coincidências; recusei-me, como recuso-me até hoje, a aceitar tal alternativa. Para mim, as coisas relacionam-se muitas vezes de maneira desconhecida. O certo é que se relacionam, embora não consigamos compreendê-las na totalidade neste plano terreno. O que dizer, então, do nome da escuna? Coincidência? E o surto de meningite? Não foi este o diagnóstico médico quando o desafortunado Jonathan Harker foi encontrado pelas freiras, após conseguir fugir do castelo amaldiçoado? O que sei é que o carnaval, a história, se repete, muda somente a fantasia. Intimamente, eu sabia que esses fatos estavam relacionados. Só não atinava como, quando em uma das minhas andanças noturnas vi luzes na casa do morro. Há anos aquela casa estivera desocupada, desde que o prefeito Valdomiro ali matara toda a família com requintes de crueldade, empalando as vítimas e, dizem, bebendo-lhes o sangue. Depois disso, a maior casa da cidade, a qual chamávamos de castelinho, foi abandonada à própria sorte, às ruínas. Lembra-se disso? Só uma observação: como tem ruínas a nossa aldeola. Sobrevoá-la é a constatação de uma cidade bombardeada, só escombros; um mundo de aparências, universo de sombras ao qual se acha por bem fechar os olhos.
Sempre tive a fama de nefelibata, com a cabeça eternamente nas nuvens, mas os fatos aqui narrados me darão razão. Pelo menos, a sua razão, assim espero. As coincidências com o vampiro stokeriano não param por aí, pois o romance foi baseado em acontecimentos reais apropriados pelo folclore, a crendice popular onde reside a verdade. Para mim, era cada vez mais gritante a pergunta: O que a sanguessuga transilvânica fazia em nossa Antonina? Embora meu cérebro se recusasse a crer, algo mais íntimo dentro de mim, a convicção da minha alma (ou devo dizer mais apropriadamente “de meu sangue”, posto que os antigos acreditavam ser o sangue a morada da alma?), insistia na presença do ser terrível. Certamente, mais forte com o passar dos anos, ele vinha em busca de algo maior, não somente sangue. Você deve estar achando muito estranha toda esta exposição, peço-lhe apenas que a leia até o fim, sem pré-julgamento. Posso vê-lo balançando a cabeça, com ganas de abandonar a leitura, devido a sua educação cristã. Rogo que não me deixe falando ao léu, tudo o que preciso neste momento é desabafar com um amigo verdadeiro. Não peço que me dê crédito, mas leia-me até o final.
O que o maldito brucolaco buscava? O que ficara inconcluso para que o príncipe das trevas se aventurasse tão longe dos Cárpatos? Sim, esta é a formulação correta da questão! Esperei a resposta e nada. Eu, por um momento, cheguei a duvidar de tudo, admito, quando meus ouvidos foram surdamente assaltados por uma palavra, um nome: Mina! Sim, Mina! Mina, o desejo inalcançado, irrealizado. Sim, os vampiros também são movidos pelo desejo! No cartório, infrutíferas foram minhas averiguações; desde a sua abertura, nniguém fora registrado com este nome. Desanimado, voltei para casa, deixando-me cair na poltrona em busca do lenitivo que só o sono é capaz de proporcionar. Despertei sobressaltado com um nome de mulher martelando-me a cabeça: Guilhermina. Sim, o nome cujo apelido era Mina! Sim, a filha mais nova de uma família tradicional da cidade, os Tepes, a jovem por quem todos choraram ao despencar de carro de um despenhadeiro, em alta velocidade, na Serra da Graciosa. Sim, tornava-se então evidente a relação do aportuguesado Guilhermina com a Wihelmina do romance, nome de origem teutônica, a protetora resoluta. Seria Guilhermina a reencarnação de Wihelmina, a nossa Mina, a virgem dos cabelos negros e cacheados, da pálida pele de opala, cuja lápide ostentava um retrato merecedor de admiração, e até a adoração, dos estrangeiros vindos sabe-se lá de onde, aos quais chamávamos de ciganos? E o que pensar do seu sobrenome Tepes, Guilhermina Tepes? Seria leviandade relacioná-lo com o do cruel Vlad III, príncipe da Valáquia, conhecido como o empalador? Que caminhos tortuosos traça a lei do eterno retorno para os devidos resgates cármicos? Coincidência, diria você. Justaposição? Sincronia? Pois, hoje, posso asseverar, de acordo com meus estudos quânticos, indo contra toda a ciência, que o tempo, essa realidade somente terrena, portanto, útil apenas às finalidades da matéria, é diacrônica, jamais sincrônica. De posse dessa certeza é que posso explicar, talvez somente para mim mesmo (gostaria que você, em nome da nossa longa amizade, me acompanhasse), o motivo por que o morto-vivo estava entre nós, tão longe da terra natal, após tantos séculos: o amor. Sim, somente este sentimento é capaz de explicar tamanho deslocamento da sua realidade imediata. Afirmo ainda que é a diacronicidade do pensamento moderno, fragmentário, através dos séculos, era sobre era, que fortalece o vampiro, seja pelos livros, filmes, lendas. Hoje, a luz do dia não mata mais os vampiros, como dantes, somente os enfraquece. Por isso, desta vez, ele, o excomungado, não repetiria, como não repetiu, os erros do passado. O amor, e somente o amor por uma mulher, pela mulher amada, fez com que o conde viesse de tão longe, das brumas do passado, atravessasse o oceano de Cronos, para alcançá-la. Até mesmo a empedernida ciência dos homens chega a admitir atualmente a existência dos vampiros psíquicos, para explicar os males de um mundo em desarmonia consigo mesmo.
Aconteceu, como já se podia prever, de me ver envolvido com uma investigação por conta própria sobre o conde, sobre a sua permanência em Antonina. Noite e dia, vi minha mente ocupada por essa obsessão, perseguindo como uma sombra invisível as pegadas do vampiro. Onde quer que ele estivesse, lá estava eu, à espreita. Foi assim que vi os lobos, espectros de lobos, cinzentos, rondando, protegendo a antiga mansão do prefeito, no alto do morro, a qual chamávamos de castelinho. Lembra-se da canção “As crianças da noite fazem a sua música”, ouvida na voz das lavadeiras de nossa terra, em nossa infância? Estou, hoje, convicto de que esta cantiga aparentemente singela (não vivemos num mundo de aparências?) era o vaticínio da futura vinda do brucolaco. Lembra-se também do verso na lápide de Mina, versos estes intrigantes, dignos de um poeta ultrarromântico de província: “Dos recõnditos abismais, cessam os uivos, levanta-te, ó alma”? Seria loucura ver neles a intenção de um acróstico macabro? Peço ao amigo que exclua do epitáfio o artigo “os” e a interjeição ó”, mera partícula expletiva. O que acontece? Forma-se a palavra, o nome Drácula. Eu vejo nisso os liames de uma incognoscível matemática cósmica, que sempre se escapa como areia fina por entre os dedos do buscador.
Mesmo neste paraíso que é o Arquipélago dos Atobás, mormente a Ilha Menor, de beleza exuberante, ainda tenho pesadelos com tudo o que vi e presenciei, acordando no meio da noite suado, sobressaltado, a camisa do pijama molhada. E choro; as lágrimas são a chuva redentora da alma. Apesar de tudo, sinto-me então estranhamente rejuvenescido, com força sobre-humana, apesar da imagem do cemitério e o seu ocorrido grudados em mim, em meus olhos arregalados, como moscas de cozinha em papel pega-moscas, me trazerem de volta à realidade mesquinha, definhante. É justamente por isso, por esse irreversível enfraquecimento de meu invólucro físico, muito embora curiosamente eu sinta as faculdades mentais cada vez mais aguçadas, que me faz sentir às portas da benfazeja morte, a mãe misericordiosa, é que lhe estou endereçando esta missiva, o testamento de um homem inocente de todo o mal que lhe imputaram e ainda imputam. Peço-lhe que só a torne pública, se isso lhe convier, após o meu passamento. A mim, hoje, interessa principalmente que você, meu único e grande amigo, saiba toda a verdade. Verdade essa que fiz questão de ocultar dos meus contemporâneos, apesar de sofrer enormemente com a sua execração; meu ódio por eles foi, e ainda é, tanto que até hoje me regozijei em mantê-los na ignorância. Haverá vingança maior que saber que fomos injustos em nosso julgamento e que nada mais poderá ser feito para reparar tal dano? Que, por nossa causa, por nosso juízo afoito, fizemos alguém passar os ditos melhores anos da vida, para mim os piores, atrás das grades de uma penitenciária, depois, de um manicômio mais imundo ainda, por um crime não cometido, se é que crime houve. Sim, eu presenciei toda a cena do cemitério, mas nela não tomei parte. Seria o expectador, segundo a lei dos homens, responsável pela atuação, boa ou má, dos atores? Então, o talento e a genialidade não estariam com Sir Lawrence Olivier, mas com a plateia? E o que sobraria para Shakespeare?
Na noite desgraçada, eu segui a minha intuição: uma voz dentro de mim, de início sutil, logo intermitente, que recomeçava a curtos intervalos, cada vez mais impositiva, a qual mandava-me ir ao cemitério, onde a bela e casta Mina fora enterrada. Ao chegar, a lua cheia, uma esfera magnífica no céu, tudo iluminava, especialmente o túmulo de Mina, sortílega. Não precisei esperar muito; um pouco depois da meia-noite, a hora aziaga, escondido atrás do grande jazigo dos Oliveira, posição que me dava boa visibilidade, eu vi o imundo nosferatu surgir, se materializar. À sua chegada, pesadas nuvens negras, em promíscuo conluio, ocultaram a lua. E como se o ator principal desse drama macabro precisasse de testemunho, da minha cumplicidade, da minha conivência, diriam os juristas, a silhueta esguia, mais negra que o negrume ora instaurado, de energia descomunal, retumbante, deu início à exumação de Mina. Diante da cena atroz, repulsa e ódio. Apesar da escuridão, eu vi, percebi o sorriso da horrível criatura. Preso ao chão, os pés cada vez mais pesados, não pude correr dali. Morbidamente, apesar do terror, eu devo admitir que, estranhamente, meu coração se comprazia com tudo aquilo, deleitando-se, abandonado diante do espetáculo: desprovido de ferramentas, ele, o desventurado, utilizava-se somente de gestos, tal e qual o senhor dos elementos, a terra da cova se erguia aos montes, girava em espirais, rodopiava no ar, espalhando-se pelos túmulos em um bailado macabro, porém apaixonante. Em seguida, com um único gesto, exato, taumatúrgico, ele trouxe o esquife virginal à superfície: branco, intacto. Num supetão, a tampa se rompeu, revelando a beleza de Mina, perfeita, entreabertos os lábios vermelhos, ainda, após tanto tempo, intocada pelos vermes interiores. Viva, sim, viva! Rediviva! Abriu os olhos, aparentemente vinda de um sono breve e repousante. Mina, o desejo inalcançado, agora realizado! Ante a violação do sono sagrado, senti ter sido eu escolhido pelo Diabo, ou pelos Céus, quem sabe, para presenciar o acontecimento do amor, atitude arrebatadora capaz de transgredir as leis naturais, às quais todos os seres se submetem, menos aqueles capazes de amar incondicionalmente. Foi neste momento ensurdecedor (sim, ensurdecedor, não há outro termo para descrever a sensação de que fui acometido. Seria isso a música das esferas?), em que desmaiei, justamente quando o conde a tomava nos braços e com ela, para sempre, desaparecia. Quando recobrei os sentidos, encontrava-me já detrás das grades, acorrentado, como se eu fosse um monstro, a besta-fera responsável pelo desaparecimento do cadáver de Mina.
Certo de que não mais nos veremos, agradeço sinceramente a nobreza de sua amizade. Parto com a certeza de que muitas questões ficaram inconclusas, mas não é assim mesmo a vida, incompleta?
Sinceramente seu,
R.